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sábado, 21 de setembro de 2024

BEM QUE GEORGE ORWELL NOS ALERTOU CONTRA A POLÍCIA DO PENSAMENTO: HOJE, OS PATRULHEIROS CRICRIS GERAM PÂNICO

Q
uase vomitei ao ver exposta na vitrine do UOL a seguinte chamada:
Narrador usa termo racista durante jogo do Cruzeiro; canal pede desculpas.

E não foi por se tratar de uma besteirinha que nunca deveria ter recebido de tal portal tamanho destaque, mas sim por revelar que jornalistas brasileiros, mesmo os de um canal do YouTube setorista de time de futebol, estão pisando em ovos quando exercem seu ofício, intimidados por uma repulsiva Polícia do Pensamento que mantém estreitamente vigiadas as artes e comunicações.

Assim, o narrador perguntou ao repórter de campo como se chamava o jogador coloured que fazia aquecimento para entrar na equipe mineira, em jogo da Copa Sul-Americana. Como o repórter mostrasse não ter entendido direito a pergunta, o narrador especificou: aquele escurinho.

Ou seja, ambos se enrolavam com os eufemismos utilizados para não usarem as palavras negro ou preto, pois há sempre chance de uma ou outra estar no index do Santo Ofício do século 21, que atende pelo nome de redes sociais.

Aí o dono do canal correu a intervir, pedindo desculpas aos telespectadores pelo ocorrido: "Isso foi um ato que a gente não tem que praticar, que é o racismo".

Não, um ato pior ainda para um comunicador é não enfrentar os reais problemas, preferindo saídas fáceis como a escolha hipócrita das palavras.

Faz lembrar a distopia
1984, de George Orwell, que mostra um país inteiro obrigado a cultuar a personalidade do seu dirigente máximo, a ponto de uma criança delatar seu pai às autoridades por ouvi-lo falar, durante o sono, "abaixo o Grande Irmão!".

Torno a repetir: censurarmos os termos com os quais nos referimos às coisas do mundo só acrescenta artificialidade à nossa comunicação, pois é preciso muito mais para eliminarmos realidades deploráveis como o racismo, o machismo, a xenofobia, o etarismo, etc. 

Temos, isto sim, de transformar esta sociedade na qual os privilégios de uma pequena minoria são mantidos à custa da manipulação da consciência da grande maioria, inclusive com a lavagem cerebral que a indústria cultural realiza o tempo todo, exacerbando ao máximo a competição insana entre iguais, para que eles jamais consigam unir-se a fim de extinguirem todas as formas de exploração e desigualdade entre os seres humanos. 

O termo a ser banido é outro, muito mais nefasto: capitalismo. Este sim precisa desaparecer de nossas falas e de nossas escritas por obsolescência, pois é o grande obstáculo à felicidade das gentes nestes tristes tempos presentes.

O teatro da revolução não substitui nem jamais substituirá a revolução ela mesma. (por Celso Lungaretti)

O verso inicial deste tributo a Martin Luther King é "Sim, sou
um negro de cor". Hoje os patrulheiros cricris chiariam...

sexta-feira, 24 de novembro de 2023

CONTRA A CENSURA SIONISTA A BRENO ALTMAN!

 


A
última pretensão dos sionistas no Brasil é calar jornalistas e críticos do Estado de Israel. A Conib - Confederação Israelita do Brasil - que se arregam o título de sionistas de esquerda, um contrassenso conceitual, decidiu ir à justiça para censurar publicações do jornalista Breno Altman, fundador do site Opera Mundi.

Já seria um absurdo imenso uma organização pleitear o silenciamento de alguém, mas, para completar  a insensatez, um juiz deu ganho parcial de causa aos sionistas, determinando que Altman retire do ar diversas publicações, sob pena de pesadas multas. Ou seja, na prática, impôs a censura, concordando com o falso argumento propagado pelos defensores do terrorismo israelense de que criticar Israel é ser antissionista. 

Em que pese as inúmeras divergências que possamos ter em relação às posições de Bruno Altman, sobretudo em seu apoio ao lulopetismo, não podemos ficar calados diante de tal perseguição. Por isso, prestamos nossa solidariedade a ele e reivindicamos o cumprimento integral do direito à liberdade de expressão, tal como é consagrado pela Constituição do Brasil. 

Contra a Conib, e demais defensores do sionismo, mascarados ou não de esquerda, só podemos deixar nosso repúdio e mais uma vez perceber o quão autoritário é esse movimento. (por David Emanuel Coelho) 

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

EDUCADORES (?) DO GOVERNO CATARINENSE BISAM OS CENSORES DA DITADURA MILITAR

Lembram do Weintraub, que o escritor Ignácio de Loyola Brandão qualificou de ministro da Educação sem educação, grosso, horrendo, nojento? Ele deixou seguidores.

Os muares do governo de Santa Catarina acabam de zurrar o banimento de nove livros das escolas do Estado. Eis o ofício da Secretaria da Deseducação, vertido para a linguagem humana: 
"Determinamos que as obras listadas sejam retiradas de circulação e armazenadas em local não acessível à comunidade escolar. Em breve enviaremos novas orientações".
Por que, ao invés de armazená-los, não queimam os livros em público, como faziam os nazistas? 

Pode ser também uma homenagem ao clássico Fahrenheit 451, o filme de 1966 dirigido por François Truffaut, que adaptou para as telas o livro escrito por Ray Bradbury em 1953, quando grassava o macartismo nos EUA...
Para quem não se lembra ou nunca viu, é sobre bombeiros de um estado totalitário que localizam e carbonizam aquele que é um dos grandes diferenciais entre bípedes humanos e quadrúpedes energúmenos.

Dos livros colocados no index escolar catarinense, os mais conhecidos são A Coisa (It) do Stephen King, Laranja Mecânica do Anthony Burgess, Coração Satânico do William Hjortsberg e Donie Darko do Richard Kelly. Todos viraram filmes. 

Os demais proscritos são A química entre nós, de Larry Young e Brian Alexander; Ed Lorraine Warren: demonologistas, de Gerald Brittle; Exorcismo, de Thomas B. Allen; Os 13 porquês, de Jay Ascher; e O diário do diabo, de Robert K. Wittman e David Kinney

Eu aprecio particularmente três desses livros/filmes. No do Stephen King, faço a ressalva de que o autor parecia estar recebendo US$ 1 milhão por página, de tanto que encompridou a narrativa. 

Seu principal mérito foi ter inserido na receita de terror ingredientes de bullying e de rito de passagem. O telefilme de 1990 deu o devido destaque ao que era inovador, enquanto o blockbuster de 2017 quis mais é aplicar os $u$to$ de sempre. 

A parábola de Burgess contra o totalitarismo é imperdível e imprescindível, um dos marcos da era da contracultura. Arrasa como livro e como filme (do Stanley Kubrick, 1971). Chocou-se com o moralismo rançoso dos censores da ditadura militar e, agora, com seus herdeiros travestidos de educadores.

Um paliativo então adotado foi a de cobrir com bolinhas pretas os pênis dos atores, numa sequência em que se movimentavam o tempo todo. O resultado acabou sendo hilário, pareciam bolinhas de pingue-pongue saltitando pela tela.

Coração Satânico, do Alan Parker (1987) é uma história de terror inteligente como dificilmente se vê nos filmes de hoje e tem um Lúcifer inesquecível, interpretado por Robert De Niro.

De resto, a obsessão dessa horda descerebrada com o restabelecimento de dogmas medievais em matéria de religião e de sexo tem um aspecto positivo: evita que tais primatas causem danos muito maiores com atentados terroristas e tentativas de putschs. (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 24 de julho de 2023

GERALDO VANDRÉ NO CANAL LIVRE (parte 1): VALEU A PENA VÊ-LO DE NOVO?

Tendo o compositor e cantor Geraldo Vandré sido o entrevistado deste domingo (23) no Canal Livre da TV Bandeirantes, busquei no arquivo do blog Náufrago da Utopia este post bem completo que publiquei em 2016 sobre ele, incluindo, no final, uma relação de 10 links de filmes, entrevistas, artigos e notícias a seu respeito.

O Vandré foi o primeiro compositor da MPB engajada pelo qual me entusiasmei, daí estar acompanhando sua carreira pelo menos desde 1966. E tive a oportunidade de conversar longamente com ele em dois momentos cruciais:
— em meados de 1968, quando ainda estava terminando a
Caminhando, mas mostrou a mim e a três companheiros secundaristas o rascunho da letra, ainda com palavras riscadas e substituídas por outras; e
— em 1980, quando a Caminhando foi liberada pela censura, depois de permanecer durante mais de 11 anos  proibida no Brasil, e voltou a fazer sucesso na voz da Simone (ele não quis dar-me entrevista, mas passamos a tarde inteira papeando em off e, vários anos mais tarde, escrevi sobre o que rolou então). 

Finalmente, como tinha óbvio conhecimento de causa, várias vezes dei a minha interpretação sobre o que realmente acontecera com ele, tanto antes de exilar-se como quando voltou para o Brasil e foi sequestrado pelos militares logo na chegada. (por Celso Lungaretti) 
Aqui está a entrevista de ontem, na íntegra. A minha
análise sobre ela será publicada na parte 2 deste post.

sábado, 10 de junho de 2023

CENSURA A ROGER WATERS É INACEITÁVEL E ABSURDA.

 


U
ma performance do músico Roger Waters, ex-membro do grupo Pink Floyd, tem causado polêmica nos últimos meses. Trata-se de performance feita por ele há décadas e que jamais havia causado qualquer problema anteriormente.

Em uma parte do seu show The Wall, Roger se veste com trajes semelhantes aos usados pelos nazistas. É uma forma de emular representantes de um regime totalitário que são denunciados durante o show, fazendo parte, inclusive, do clássico filme da banda lançado em 1982, inspirado no disco homônimo de 1979. O show aborda a opressão capitalista expressa mediante formas abusivas de controle que transformam o indivíduo em mais um tijolo no muro da sociedade, sem liberdade ou esperança. 

Orwell explica como uma denúncia de 40 anos
contra o fascismo vire apologia a ele.
A performance foi primeiramente denunciada durante a passagem de Roger pela Alemanha. Seu show chegou a ser banido pelas autoridades do país, mas foi logo garantido pela justiça, mesmo sob protestos de grupos sionistas e liberais. Uma investigação policial foi aberta após o espetáculo para apurar suposta apologia ao nazismo. Previsto para se apresentar no Brasil no fim do ano, um grupo de advogados ligados à Confederação Israelita do Brasil enviou pedido para o Ministro da Justiça, Flávio Dino, pedindo para que Roger fosse impedido de entrar no país e realizar seu show. 

Incrivelmente, o referido ministro respondeu ao pedido discutindo a possibilidade de abrir processo investigativo contra o cantor por apologia ao nazismo, caso esse venha a usar suas tradicionais vestimentas. Resta saber se Dino também irá abrir investigação sempre que um filme, representação teatral ou simples apresentação escolar for feita com pessoas vestidas de nazistas. O ridículo do governo Lula e seu ministro podem chegar a este ponto! Pior, pois sabemos que os verdadeiros nazistas ocuparam o governo durante quatro anos, mataram milhares, seguem impunes e muitos ainda estão aninhados no Congresso, no Judiciário e mesmo no próprio governo federal, sem que o senhor Dino tenha disposição para mover um dedo contra eles, sendo muito mais fácil ameaçar cantores!

Mas o que poderia estar por detrás de tanta celeuma contra uma apresentação realizada de forma corriqueira e inquestionável nos últimos quarenta anos? Dois países, Israel e Ucrânia. Roger é costumeiro crítico das atrocidades cometidas pelo Estado de Israel contra os palestinos, o que lhe vale a pecha de persona non grata naquele país há muito tempo. 

Não satisfeito em querer censurar as redes sociais,
Dino também quer censurar cantores.

Recentemente também trouxe a fúria do governo dos EUA, e logo de seus vassalos europeus, ao questionar o sacrossanto Zelensky e os interesses do Tio Sam em alimentar o conflito com a Rússia, escalando-o para uma possível guerra mundial. A fúria da plutocracia estadunidense aumentou quando ele também defendeu os direitos da China sobre Taiwan lembrando, corretamente, que pelo direito internacional, a ilha é considerada território chinês, fato reconhecido mesmo pelo governo estadunidense desde a década de 1970. Desde suas falas sobre a Ucrânia e sobre Tawain, a luz censora começou a acender contra o cantor, começando pelo próprio governo Alemão que desejava banir o show de Waters. Democracia é tudo. 

Que a fúria censora chegue ao Brasil é apenas mais um sinal da época turbulenta vivida por nós. Que o governo Lula leve o pedido minimamente a sério é mais um sinal de seu fiasco. 

Contra a censura e a perseguição política a Roger Waters, devemos defender o direito amplo à liberdade de expressão e à expressão artística! (por David Emanuel Coelho) 







terça-feira, 2 de maio de 2023

PL DAS FAKE NEWS É MAIS UM ERRO CRASSO DO LULOPETISMO

 


Quando a internet surgiu, sua promessa era ser um espaço livre e de potente cooperação entre indivíduos espalhados pelo planeta. Praticamente não haviam grandes corporações no ciberespaço e todo tipo de empreendimento era feito de forma colaborativa e sem fins lucrativos. A própria ideia da internet afirmava essa sua natureza, pois constituída pela conexão em rede de milhões de computadores, majoritariamente domésticos, formando um sistema descentralizado. Era quase uma antecipação da sociedade comunista, com produtores livres e associados, mesmo que apenas de forma virtual. 

No entanto, a sociedade onde vivemos é a capitalista e não demoraria muito para o capital se imiscuir também na internet, a transformando de um espaço livre e colaborativo em uma instância controlada por grandes corporações em busca de alavancar ganhos. No começo, muitas dessas corporações ainda se apresentavam enquanto organizações abertas, buscando facilitar o trabalho colaborativo a nível mundial. A Google, por exemplo, surgiu enquanto um simples indexador da rede mundial, trabalhando em paralelo e complementarmente aos demais usuários. 

Contudo, a internet começou a se disseminar na vida social e passou a ser ferramenta fundamental para o capitalismo em sua fase toyotista. Compras online baratearam os custos, pagamentos instantâneos facilitaram as transações e possibilitaram aos bancos economia com o atendimento presencial, a comunicação expressa por email e depois por aplicativos aproximou os indivíduos, integrando mais eficazmente os sistemas produtivo e comercial e, por fim, uma sociedade mais isolada e com menos tempo livre, fez disparar a interação virtual, criando espaço para as famigeradas redes sociais. 

Ele é a própria fake news, mas não inventou
esse modo de manipulação...

Assim, as corporações se transformaram de vez em companhias plenamente capitalistas, sem máscara alguma. Do passado colaborativo ficou apenas a lógica de se apoderar do que é produzido, postado e publicado pelos usuários, pois são eles que alimentam o circuito da internet com textos, fotos, vídeos e interações. Obviamente, a internet ainda continua sendo um espaço mais democrático e amplo que as tradicionais formas de comunicação, tais como jornais, rádio e TV, pois aqui há lugar inclusive para um blog revolucionário e sem subvenções igual ao Náufrago, algo praticamente impossível nos formatos tradicionais. 

Contudo, neste blog também estamos submetidos à lógica corporativa das Big Tech e, por exemplo, para sermos mais lidos, chegando a um número maior de leitores fora da nossa bolha corriqueira, precisamos pagar ao Facebook para postar anúncios. O mesmo se aplica ao Google, pois caso queiramos ter maior impacto nas pesquisas do site, temos a opção de desembolsar alguns reais para irmos para o início das pesquisas.

À medida em que o mundo concreto, cotidiano, e o virtual foram se fundindo, muitos dos problemas vividos na realidade de carne e osso foram indo para os ambientes online. Não poderia ser diferente, a internet é feita por pessoas, dentro da lógica social capitalista, e os elementos existentes em sua dinâmica expressam os elementos existentes na própria sociedade em geral. Assim, o nazifascismo e os crimes de ódio não foram inventados pela internet, mas já existiam há mais de século. Mesma coisa sobre as fake news, já usadas antes por Hitler e até mesmo alguns séculos atrás.

 Basta, por exemplo, considerar como o filme O Amante da Rainha (2012), que pode ser visto na janela ao final do artigo, retrata como a reação feudal usou mentiras divulgadas em jornais, novidade à época, para combater as reformas liberalizantes do rei Cristiano VII, na Dinamarca do século 18. Manipular a opinião pública, mentir e distorcer são ferramentas usadas pelos reacionários ao longo da história porque a verdade é contrária aos interesses deles, só lhes restando, portanto, mistificar para manter seu domínio opressivo. 

... antes, outros já tinham usado expediente
parecido para chegar ao poder. 

Não seria diferente hoje. O grande ponto é que a internet possui um meio de difusão muito mais impactante e acelerado do que qualquer meio de comunicação anterior na história humana. Em segundos, uma fake news pode alcançar milhões de pessoas. Mais importante que pensar no meio de difusão da mentira é entender porquê, afinal, as pessoas acreditam nelas. A resposta só pode ser uma pré-disposição social para isso.

Considerado isso, o PL 2630, conhecido por PL das Fake News, é uma monstruosidade que em nada ajuda ao Brasil. Pelo contrário, pode atrapalhar enormemente a livre circulação de ideias na internet, pois tenta instituir a censura de conteúdo, abrindo caminho para a perseguição a produções legítimas, que poderiam vir a ser caracterizadas como sendo conteúdo enganador. O motivo disso é simples e passa por um problema conceitual: o que é uma fake news? Pela letra da lei proposta, fake news será o que um conselho público decidir que o seja, ou o que as corporações considerarem como tal. 

No entanto, a composição de conselhos varia ao longo do tempo e hoje podem ser indivíduos isentos e sinceramente interessados no bem estar da coletividade, mas amanhã podem ser pastores, ruralistas, garimpeiros ou outros bolsonaristas. A noção de fake news certamente não será mais a mesma. Esse é o grande perigo de transformar o Estado em juiz do que é a verdade, pois os interesses políticos são mutáveis e um dia a faca da censura pode se voltar contra quem censurava. 

Apesar de suas limitações, a internet ainda é mais
livre e pluralista que a mídia tradicional. 

O mesmo podemos dizer sobre as corporações. Hoje já não é raro elas fazerem vista grossa a conteúdos de extrema-direita, enquanto são rigorosas com conteúdos mais contestatórios e à esquerda. O que não poderiam fazer tendo uma base jurídica as ancorando?

Muito pior é desconsiderar a raiz social da manipulação levada a cabo pelos mistificadores. Desconsidera-se o apodrecimento da sociedade capitalista, a falência da autoridade dos meios tradicionais de saber - imprensa, universidades, poderes da República -, tragados que foram pelo capital, e se coloca a solução em simples processos regulatórios, como se a dinâmica econômica e social pudesse ser contida com leis. É mais uma vez a ilusão do voluntarismo político, já denunciada por Marx, de que o poder administrativo do Estado pode conter a entropia do capitalismo.

Assim, de novo, o lulopetismo presta um desserviço ao país e à esquerda, criando um mecanismo que, além de inútil para cercear a manipulação nos meios digitais, poderá ser usado contra a própria esquerda em um processo de sufocamento ao ambiente relativamente livre da internet. Como sempre, optam por este caminho repressivo para não enfrentar de frente o poderio das grandes corporações ou desmontar a estrutura social e econômica viabilizadora da extrema-direita. 

E assim, Lula 3 vai melancolicamente caminhando para o desastre. (por David Emanuel Coelho) 




domingo, 22 de janeiro de 2023

POLÊMICA DA FOTO NA FOLHA PROVA QUE LULOPETISMO SÓ BUSCA O INESSENCIAL

A última polêmica nas hostes lulistas foi uma fotografia estilizada que saiu em edição da Folha de São Paulo da quinta-feira, 19 de Janeiro, de autoria de Gabriela Biló. Houve quem defendesse até mesmo intimação policial da fotógrafa e uma nota foi publicada pela Secretaria de Comunicação da Presidência criticando a publicação. 

Coincidentemente, a grita petista lembra os arroubos bolsonaristas contra publicações da imprensa, shows de rock, mesmo peças de humor e, claro, montagens fotográficas. Ambos partem da velha confusão de identificar o cargo de Presidente da República com o de Soberano Monárquico. Caso soubessem um pouco de história, teriam consciência dos cartuns terríveis que circulavam à época do Império retratando Dom Pedro II de forma nem um pouco decorosa. 

Contudo, o ponto nefrálgico aqui não é a discussão a respeito da fotografia em si ou do possível autoritarismo nas reações, mas na completa falta de noção entre as fileiras lulopetisas a respeito do que é essencial, pois a foto em um jornal é um elemento semiótico, do terreno simbólico, ocupando as últimas posições na fila das coisas importantes. 

Sérgio Moro não gostou da facada fest e mandou
abrir investigação contra o festival, quando era ministro
Pois, muito mais grave é o fato de Lula insistir em conciliar com bolsonaristas possivelmente incrustados nos altos escalões do governo, sobretudo nas Forças Armadas. Mais grave é seu ministro da Fazenda, Fernando Haddad, bajular bilionários em Davos com um discurso cujo conteúdo não seria levado à sério nem na mais condescendente banca de TCC. 

Muito mais grave, é não existir, até o momento, a mais remota notícia governamental sobre o que seria feito quanto à roubalheira das Lojas Americanas. E, por fim, infinitamente mais grave é a total falta de plano do governo para retirar o país do buraco em que está metido, para além de repetir o que já não deu certo.  

Tudo isso é muito mais grave, mas não conta com a mesma energia para ser enfrentado por parte dos lulistas. Tigrões com fotógrafas, viram tchutchucas com a turma do governo, mostrando bem o quanto estão pautados pelo inessencial.

De fato, condicionados a fazer política cosmética, sempre lidando com o superficial e nunca descendo à raiz dos problemas, passaram a acreditar ser a atividade militante circunscrita ao reino do simbólico, da representação. Daí se insurgirem contra fotografias, piadas, reportagens, etc. Compartilham nisso algo em comum com o bolsonarismo, também ele governado pelo simbolismo. Ambos estruturados pelo consenso neoliberal, onde o essencial não pode ser tocado. 

Cabe à esquerda ir além de fantasmas, imagens, e tocar a nervura do real, em toda sua concretude. (por David Emanuel Coelho)

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

10 ANOS APÓS A MORTE DE SARACENI, UM NOVO DESAFIO ESTÁ NAS RUAS

Paulo César Saraceni morreu em 2012.

Tinha 78 anos e fazia cinema desde 1959.

Em mais de meio século de atividades, dirigiu 13 filmes, nove dos quais também roteirizou.

Foi um dos fundadores do  cinema novo, mas nem de longe fez obras de importância equiparável às dos dois outros parceiros de empreitada: Glauber Rocha (indiscutivelmente, o maior cineasta brasileiro de todos os tempos) e Nelson Pereira dos Santos (bem mais prolífico e realizador de clássicos como Rio 40 Graus e Vidas Secas).

No entanto, Saraceni constituiu-se numa referência muito forte para minha geração, por um único motivo.

Seu O Desafio, lançado em 1965, foi provavelmente a primeira resposta cinematográfica à quartelada.

Enfoca os sentimentos de culpa, impotência e prostração subsequentes à vergonhosa derrota sem luta.

Foi o mal-estar que acometeu toda aquela esquerda: supunha-se a um passo do poder, iludida pelo triunfalismo inconsequente do Partido Comunista Brasileiro e seu principal dirigente (Luiz Carlos Prestes), mas acordou ouvindo marchas militares no famigerado 1º de abril de 1964.

E dá-lhe más ressacas! E dá-lhe lavagens de roupa suja! E dá-lhe lutas internas no partidão! E dá-lhe rachas!

Em 1965, a esquerda lambia as feridas e se reconfigurava, voltada para dentro de si mesma. Não reagia.

Aí, foi lançado
O Desafio. E –juro!– o título apareceu pichado nos muros de São Paulo. Só o título, com a tinta escorrendo. Eu tinha 14 anos, via aquilo e nada entendia. Ignorava que fosse uma mensagem vinda das catabumbas: não estamos mortos!

Só em 1967, dando os primeiros passos no movimento estudantil, fui assistir ao filme e compreender o motivo das pichações.

E, francamente, não gostei daquele imenso desencanto que ele flagra, o atoleiro no qual se move Marcelo, o personagem politizado (interpretado pelo Vianninha, de saudosa memória), durante quase todo o tempo.

Mas vibrei com o final, quando ele enfim levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima, decidido a voltar ao bom combate.

Isto ficou apenas sugerido, como se fazia necessário sob o tacão da censura. Depois de um porre com um repulsivo colega de trabalho, vão ao apartamento deste, cuja esposa se despe e se-lhe oferece. Antes que ele tenha qualquer reação, o marido acorda e fita ambos, em meio à sua névoa alcoolica. 

Marcelo empurra a mulher e vai embora, enojado. Desce uma escadaria com expressão resoluta, afaga a cabeça de um menino pobre e se distancia, marchando ao encontro do seu destino.

Tudo isto ao som de um tema da peça Arena conta Zumbi: É um tempo de guerra,  canção que Augusto Boal, Gianfrancesco Guarnieri e Edu Lobo haviam derivado da poesia antológica de Bertolt Brecht, para usar o esmagamento do quilombo de Palmares como metáfora do golpe militar.
Na peça, era a lição que um guerreiro às portas da morte legava aos que viriam depois. Uma sugestão velada também, claro ("Eu sei que é preciso vencer/ Eu sei que é preciso lutar/ Eu sei que é preciso morrer/ Eu sei que é preciso matar"). 

Só que parecia algo meio distante, lá pra frente, pois o momento era de derrocada.

No filme, ficou mais fácil perceber que se tratava do passo seguinte, imediato: um recado de que não só a luta tinha de ser retomada, como assumiria doravante características de guerra.

Foi profético. Houve mesmo a guerra, de consequências trágicas para a esquerda (quantos quadros insubstituíveis foram dizimados!), mas inevitável: ela só reconquistaria o respeito do povo caso se dispusesse a sangrar por seus ideais, como deixara de fazer em 1964.

Muitos dos que não pegaram em armas recriminaram nosso  vanguardismo, nosso imediatismo pequeno-burguês. Segundo eles, só servíramos para acirrar a repressão e fornecer pretextos para o endurecimento do regime.

Omitiram ter sido exatamente sua tibieza em 1964, quando deixaram de travar a luta em condições bem mais favoráveis, que nos obrigou a assumir adiante a missão quase kamikaze de lavar a honra da esquerda, virando a página da desmoralização e restituindo-lhe a credibilidade. 

Resolvi rememorar o desafio de 1965 porque um novo desafio será lançado às forças da intolerância e do retrocesso daqui a três, diante da Faculdade de Direito da USP,  no Largo São Francisco, com a leitura de dois manifestos antigolpe que têm tudo para detonarem as últimas esperanças do presidente delinquente. 

Aqueles que pensam por ele (pois se trata de uma faculdade da qual o Bozo é carente) temem que o ato da 5
ª feira consolide definitivamente a rejeição ao celerado, desencadeando a revoada dos apoiadores comprados por cargos e verbas públicas para a arca de Noé do Lula, na qual cabe tudo, até cobras e lagartos...

Nisto, pelo menos, eles estão certos: tal página, uma das mais vergonhosas da História do Brasil, deverá mesmo começar a ser virada nesta quinta.

Enquanto esperamos, que tal darmos uma olhadinha em O desafio, para irmos entrando no clima? (por Celso Lungaretti) 

domingo, 20 de março de 2022

O BOZO NÃO DEFENDE A LIBERDADE DE EXPRESSÃO E SIM A DE ELE DELINQUIR

josias de souza
QUEM COM CENSURA DE COMÉDIA FERE, COM
BLOQUEIO DO TELEGRAM SERÁ FERIDO
P
ode-se acusar Bolsonaro de muita coisa, menos de incoerência: ele sempre foi a favor de tudo e absolutamente contra qualquer outra coisa, desde que seu interesse político venha em primeiro lugar. 

Dias atrás, o governo do capitão censurou uma comédia de Danilo Gentili sob a alegação de que fazia apologia da pedofilia. O mesmo governo pega em lanças pelo desbloqueio do Telegram, usado para a prática de crimes variados. Entre eles a pornografia infantil. 

O filme de Gentili –Como se tornar o pior aluno da escola– é de 2017. Havia sido liberado pelo Ministério da Justiça para maiores de 14 anos. Súbito, com cinco anos de atraso, o bolsonarismo implicou com uma cena em que dois meninos são assediados por um vilão adulto. 

Há muito filme ruim por aí. Mas ninguém lembraria da má qualidade desta comédia se a censura inconstitucional e extemporânea da gestão Bolsonaro não tivesse o cuidado de chamar a atenção.

O Telegram foi bloqueado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo, a pedido da Polícia Federal. Alegou-se que o desrespeito à legislação brasileira e o reiterado descumprimento de inúmeras decisões judiciais pelo aplicativo é circunstância completamente incompatível com a ordem constitucional vigente." 

Moraes realçou a omissão do Telegram em retirar do ar notícias fraudulentas e cessar a prática de crimes –da venda de armas ao sexo com crianças. 

Na censura do Ministério da Justiça à comédia de Gentili, Bolsonaro usou a estrutura do Estado para alimentar o bolsonarismo que percorre as redes sociais à procura de encrenca. 

A polêmica forneceu aos devotos do mito a ração que mantém viva a guerra cultural bolsonarista –um composto vitamínico que mistura fuligem ideológica e detritos morais. 

Na petição protocolada pela Advocacia-Geral da União no Supremo em defesa do desbloqueio do Telegram, o presidente colocou a máquina estatal a serviço de sua milícia digital. Depois que o WhatsApp passou a retirar bolsonarices do ar e a colaborar com a Justiça Eleitoral, Bolsonaro e seus filhos migraram para o Telegram. Apenas a família real mantém no aplicativo 1,3 milhão de seguidores. 

Plataformas de streaming ignoraram a censura humorística. E a pasta da Justiça alterou a classificação da comédia de Gentili para maiores de 18 anos. 

O bloqueio ao Telegram, ainda pendente de efetivação e sujeito a dribles, deve perdurar até que as decisões judiciais sejam cumpridas pela empresa. 

Numa das ordens desobedecidas, Alexandre de Moraes mandara tirar do ar publicação do próprio Bolsonaro. Nela, o presidente vazou inquérito sigiloso da PF para propagar mentiras sobre urnas eletrônicas. 

O mesmo Bolsonaro que se fingiu de morto diante da censura à comédia tachou de
inadmissível o bloqueio judicial imposto ao seu aplicativo predileto. 

Num Estado democrático de direito, não se deve censurar um presidente. Mas certas declarações oficiais deveriam ser proibidas para menores de 150 anos. 

Até uma criança de cinco anos percebe o óbvio: Bolsonaro defende sua liberdade de delinquir, não a liberdade dos usuários do Telegram de se expressar. 

Um político:
— capaz de dizer que jamais estupraria uma deputada porque ela é muito feia;
— que mede o peso de um afrodescendente em arrobas;
— que evoca a condição de capitão para esclarecer que minha especialidade é matar, não curar;
— que chama de fraudulento o sistema eleitoral que lhe garantiu oito mandatos... 

Um político assim não quer um aplicativo para divulgar suas mensagens. Prefere um Telegram baldio, no qual possa despejar seu lixo radioativo. 

O diabo é que, numa democracia, quem com censura de comédia fere. com bloqueio do Telegram será ferido. (por Josias de Souza)

terça-feira, 15 de março de 2022

ESTÃO TENTANDO RESSUSCITAR A SENÇURA

O
ministro da Injustiça e o secretário Nacional da Ignorância  justificam a intenção de censurar Como se tornar o pior aluno da escola escudando-se numa incitação à pedofilia que simplesmente inexiste no filme. 

E supõem que o quero porque quero deles prevaleça sobre a Constituição deste país (que, se assim fosse, já teria trocado o nome para República das Bananas e dos Bananas do Brasil).

Enfim, como eu sou sempre partidário das soluções menos asnáticas, proponho que as plataformas de streaming, ao invés de deixarem de disponibilizá-lo para sua clientela, ofereçam-no com a inclusão desta ressalva: 
"Os realizadores deste filme esclarecem que se trata apenas de uma obra de ficção e que o pior aluno da escola referido no título não é nem o Anderson Torres nem o Mário Frias". 
É óbvio que os espectadores rirão, pois sabem muito bem que o governo em cujo nome tais indivíduos agem é formado quase que exclusivamente pelos piores alunos das piores escolas. 

Mas, isto ao menos dará a esses dois filhotes da dona Solange (*) uma saída honrosa para recuarem de seu despautério sem darem os cascos à palmatória. (CL)
* Solange Hernandes foi a diretora do Departamento de Censura Federal que se tornou símbolo dos censores da ditadura militar porque seu nome aparecia no certificado  de censura dos filmes, quando começavam a ser projetados nas sessões dos cinemas.

terça-feira, 8 de junho de 2021

LEANDRO DEMORI, DO INTERCEPT BRASIL, ESTÁ INTIMADO A DEPOR AMANHÃ. SERIA TRÁGICO, SE NÃO FOSSE SÓ UMA FARSA...

O
editor-executivo do Intercept Brasil, Leandro Demori, foi intimado a depor nesta 4ª feira (9) à Polícia Civil sobre uma acusação que fez... à dita cuja! 

Ou seja, além de estarem violentando a liberdade de expressão, as otoridade estupram o senso comum, pois que isenção se pode esperar de quem está investigando aquele que lhe imputou o cometimento de crimes?

E foi exatamente isto que Demori fez, ao indagar, numa newsletter enviada aos assinantes para convencê-los a fazerem doações, se a polícia civil do Rio mantém um grupo de assassinos.

O restante do texto apresentou consistentes evidências de que a resposta era um sonoro SIM!

Melhor fariam as otoridade se investigassem tais evidências, e não quem as estava levando ao conhecimento da sociedade, como qualquer jornalista que se preze tem a obrigação de fazer.
Quanto ao Demori, sugiro que doravante bole títulos mais surpreendentes para suas matérias. No caso desse aí, até as pedras das ruas já sabiam qual era a única resposta possível e imaginável à indagação formulada...

Expresso a minha solidariedade pessoal e a da equipe do Náufrago da Utopia ao Intercept Brasil, ao Demori e a todos os veículos e profissionais que estão sofrendo essas INCONSTITUCIONAIS E GROTESCAS tentativas de INTIMIDAÇÃO. (Celso Lungaretti) 

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

NEM TODOS OS AUTORITÁRIOS SÃO VIKINGS

F
oram seis dias inteiros no litoral com minhas duas filhas, algo que nunca havia feito, por força de diversos problemas, embora já tivesse viajado com cada uma em separado. 

Valeram cada minuto, mesmo que nem tudo saísse como pretendíamos: a sala de jogos estava interditada em função da pandemia, o mau clima atrapalhou e nos faltou um carro para termos mais opções. 

Mas, nem que me tivesse ocorrido a possibilidade de alugar um, seria impossível: minha carta de motorista expirou faz três meses.

Fiquei um tanto melancólico ao perceber que tempo perdido não se recupera. A Luana, prestes a completar 19 anos, logo vai ter outro foco na sua vida, seja a carreira que tenta deslanchar e, resultando, a levará amiúde para o exterior, seja uma união com o príncipe encantado que por enquanto ainda não deu o ar de sua graça.

A Laura, chegando aos 13, demorará alguns anos para voar com as próprias asas, mas o dia vai chegar inexoravelmente. 

As dificuldades financeiras da última década, hoje percebo, me privaram de alegrias que não estariam para sempre a meu alcance. Enfim, o jeito é aproveitar enquanto durarem... 

Também não tive oportunidade de sair em busca da
casa de praia na qual minha vida tomou seu rumo definitivo, em abril de 1969: nela entrei como observador de um congresso de reestruturação da VPR, representando meu grupo de oito ativistas secundaristas, e saí com o ingresso de todos nós na luta armada decidido.

Mas, talvez quisesse mesmo é lembrar-me das peladas que travávamos na praia em frente, durante o intervalo entre as sessões matutinas e vespertinas. 

Quantos daqueles alegres peladeiros tiveram morte trágica, começando pelo Lamarca!  Hoje, bem vistas as coisas, aquilo era a calmaria antecedendo a tempestade.

De resto, voltando ao batente, tenho muito a agradecer ao David, que tomou conta da garrafa durante a minha ausência e, depois de passar um tempão sem fazer blog, em pouco tempo recuperou o jeito. Seus dois textos sobre a posse de Joe Biden foram muito além das minhas (já elevadas) expectativas. Recomendo-os a quem não leu: este e este.

E quero registrar que, deparando-me com uma discussão um tanto chocante no grupo Filmes Raros, Cults, Filosóficos, Artísticos e Documentários do Facebook, resolvi me manifestar, decepcionado com a postura autoritária de quem impugnava inclusive a mera discussão de uma das versões cinematográficas da novela Lolita, de Vladimir Nabokov (a de 1997, dirigida por Adrian Line, com Jeremy Irons).

O tema é o romance entre um intelectual de meia idade com pouca vivência mundana e uma ninfeta, desastroso para o primeiro, mas, ainda assim, as moças intolerantes queriam lançar a obra e o debate à fogueira com uma única palavra: pedofilia. 

Tão fanáticas quanto incultas, não pareciam saber que se tratava de uma obra emblemática do século passado, que deu origem a um sem-número de adaptações para as telas, sendo a primeira de 1962, do Stanley Kubrick, com James Mason como protagonista. 

Ou seja, nem mesmo o rançoso moralismo de então impediu que ele fosse apreciado como obra de arte e não  uma imundície a ser suprimida pelos paladinos da moral e dos bons costumes. No entanto, hoje há quem peça, num grupo dedicado à discussão da arte, que o administrador suprima o post!

Conhecedor dos livros do Nabokov, estava apresentando minhas ponderações quando, sem quê nem pra quê, fui tirado do ar. Não pude sequer desfiliar-me do grupo, pois nunca fico onde se pratica a censura, só bem depois constando que alguém, provavelmente o (macartista?) administrador, poupou-me do trabalho de o fazer.

Talvez seja interessante para os leitores passarem os olhos pela discussão sobre o episódio travada no Face (fora do tal grupo obscurantista, é claro!), com muitos participantes civi1izados trazendo à baila aspectos interessantes. 

Destaco esta acurada análise do autoritarismo que grassa no ambiente universitário, sugerida pelo leitor Francisco Arlindo Alves:
 Parece revolução, mas é só neoliberalismo, de autoria de Benamê Kamu Almudras, publicada na revista Piauí deste mês. É longa demais para o formato deste blog, mas tem tudo a ver e merece ser conhecida e divulgada.

A luta contra todas as formas de censura, obscurantismo e retrocesso civilizatório continua! (Celso Lungaretti) 
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