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sexta-feira, 29 de novembro de 2024

LULA BAIXA PACOTAÇO CONTRA OS TRABALHADORES

Quando mais um capítulo da arrastada e mal engendrada novela do GOLPE distraí o distinto público, o essencial foi levado adiante pelo medíocre ministro Fernando Haddad, o pior dos ocupantes da Esplanada dos Ministérios. Após cerca de um mês de conversas, Lula determinou, através de seu poste da Economia, uma série de ações contra a classe trabalhadora, particularmente os mais vulneráveis. 

Cinicamente, os ataques foram anunciados junto com a medida paliativa de isentar do imposto de renda quem ganha até 5 mil reais, promessa de campanha de Lula, e que serviria apenas para aliviar um pouco a escrachante carga tributária que pesa sobre as miudezas deste país. É inconcebível que pague imposto quem não possui renda! Muito pior, pois os trabalhadores não conseguem escapar da cobrança, pois essa vem retida na fonte do pagamento de seus salários, ao contrário dos ricaços que sonegam o quanto podem seja ao maquiar seus balanços de pagamento, seja ao pura e simplesmente darem calote no Leão ou seja ao encontrarem infinitas brechas jurídicas para não pagar nada. 

Os dois principais ataques de Lula contra a classe trabalhadora foram no salário mínimo e no BPC -Benefício de Prestação Continuada. Pelo primeiro, a correção do mínimo será feita limitada a um valor ínfimo acima da inflação, levando ao virtual congelamento dele ao longo do tempo. Já as mudanças do segundo irão jogar milhões de pessoas na indigência, pois o BPC é um benefício pago a pessoas em extrema vulnerabilidade que em geral nunca ou quase nunca tiveram empregos regulares, possuem doenças incapacitantes, eram trabalhadores rurais sem vínculos empregatícios ou já são idosos sem fonte de renda. Lula e Haddad, com isso, condenam milhões de velhos e doentes à fome.
Além destas ações, ainda existem cortes na saúde e na educação, inclusive com a possibilidade de um possível fim dos pisos constitucionais para essas áreas, o que representaria a falência da educação e da saúde públicas no Brasil. 

Na realidade, Lula, ao impor tal pacotaço de maldades, leva adiante seu programa austericída, cumprindo com o acordado com as elites econômicas brasileiras que o retiraram da cadeia e o recolocaram no governo justamente para impor com mais eficiência o programa de arrocho sobre os trabalhadores, destruição do serviço público e financeirização da economia, fundamentando o país em uma base extrativista. Se trata do mesmo programa de Bolsonaro, mas vendido como sendo o programa da democracia. É no ferro no povo dentro da legalidade. 

Enquanto os aloprados do golpismo vão sendo exibidos no noticiário ao velho estilo novelão da Globo - que, não nos esqueçamos, era também o estilo da Lava Jato - o capital vai tratorando o país através de seu servo Lula. (por David Coelho)


terça-feira, 12 de novembro de 2024

FIM DA ESCALA 6X1 RECOLOCA A LUTA DE CLASSES NO CENTRO DA POLÍTICA

 


Poderoso movimento cresceu nos últimos meses entre os trabalhadores, a luta contra a escala 6x1, ou seja, a jornada de trabalho de 44 horas semanais que impõe apenas um dia de folga aos trabalhadores. Mais de 1,5 milhões de pessoas assinaram abaixo-assinado enviado ao Congresso para mudar a Constituição e determinar a redução da jornada de trabalho. 

Em primeiro lugar, é digno de entusiasmo ver a mobilização dos trabalhadores em prol de uma causa de sua jornada de trabalho, um movimento auto-organizado pelos próprios trabalhadores. Mesmo que o resultado desta mobilização não leve à aprovação do projeto, a colocação da questão já é importante pois repõe o debate político em seu centro correto que é o das relações econômicas entre capital e trabalho. Essencialmente, a mobilização contra a escala 6x1 é uma ação contra a superexploração do trabalho no Brasil, país que possuí uma das maiores cargas horárias de trabalho do mundo, atrelada a baixíssimos salários. 

Vida para Além do Trabalho (VAT). Trabalhemos
menos, vivamos mais!

Em segundo lugar, deve-se notar que tal pauta deveria já ter sido colocada há décadas pelo lulopetismo. Uma vez no poder, ele deveria ter aprovado a redução da jornada de trabalho. Não apenas não o fez, mas também conduziu uma série de ataques aos trabalhadores, com reformas da previdência, terceirização e privatizações. Com certeza, a atual movimentação deve estar causando incômodos na cúpula pelega do lulismo que, não duvidemos, já deve estar pensando em meios de esvaziar e neutralizar tal movimento.

A extrema-direita já saiu em campo para se posicionar contra a proposta, mostrando claramente sua posição de classe, em defesa da superexploração dos trabalhadores. Isso é muito bom, pois a desentoca do debate cultural e comportamental e a coloca no terreno aberto da luta de classes. Nesse terreno, o trabalhador, mesmo que seduzido pelo discurso moralista do bolsonarismo, verá em ato que o programa da extrema-direita é, e sempre será, o alinhamento aos interesses dos capitalistas. 

Para que o movimento tenha êxito, será essencial ir além de um abaixo-assinado e iniciar grandes mobilizações de rua e mesmo paralisações nacionais, articuladas nos vários setores da economia. Contudo, como dito, o lulopetismo deverá agir pra não ter qualquer mobilização e, assim, o caminho parece ser o fracasso momentâneo da mobilização. 

No entanto, o aparecimento deste tema, de forma tão espontânea e fortalecida, é sinal de uma inflexão na política nacional. Finalmente estaremos saindo do debate superficial e despolitizado sobre democracia, moralismo, fake news e entrando na arena quente da luta de classes em seu ponto nefrálgico. Neste momento, lulismo e bolsonarismo estão nus, revelando, à luz de todos, seus compromissos intrínsecos com os interesses dos capitalistas. Bolsonarismo e lulismo são faces opostas da mesma cabeça burguesa. 

A esquerda revolucionária precisa estar atenta, pois podemos estar entrando em um novo período de lutas políticas no Brasil em que a classe trabalhadora toma consciência de sua real tarefa: destruir o capitalismo. (por David Coelho)



quarta-feira, 6 de novembro de 2024

HE IS BACK: DA INVASÃO DO CAPITÓLIO À REOCUPAÇÃO DA CASA BRANCA

Muitos já davam Trump como morto e enterrado em 2021 quando ele sofreu momentânea derrota eleitoral. Mais uma vez, uma leitura superficial e imediadista fez escola e reinou euforia com a vitória do patético Biden, uma das figuras mais lastimáveis da história mundial. Desconsideram de onde vem Trump: ele vem da podridão capitalista, de décadas de rearranjo do capitalismo mundial que jogou milhões na sarjeta da falta de perspectivas e do desencanto. 

O carcomido Biden entrou em cena para ser o salvador da democracia e da liberdade - filme adaptado aqui no Brasil, mas piorado pela dublagem - em que tudo passaria por voltar à normalidade do antigo pacto do bom mocismo estadunidense, com instituições respeitadas, com o multilateralismo, a responsabilidade institucional e outras bobagens enquanto manteria the business as usual, espoliando os trabalhadores, aplicando o tacão imperialista, devastando a Palestina, etc. 

A derrota não foi derrota. 

Seu péssimo governo foi sendo engolido pela crise capitalista, conforme já tinha aventado em post do ano passado (aqui), com o alto custo de vida e o subemprego engolindo os trabalhadores dos EUA. Percebendo seu desgaste interno, resolveu lançar mão do nacionalismo e se aventurou na guerra da Ucrânia, cavando insustentável conflito com a Rússia, acreditando que assim arregimentaria as fileiras patrióticas e que o país se uniria em torno dele. O custo da guerra acabou sendo combustível de insatisfação e sua popularidade caiu ainda mais. 

Por fim, conseguiu alienar a esquerda estadunidense e os eleitores de origem árabe ao apoiar e sustentar o massacre ao povo palestino, chegando a sustentar a repressão contra as manifestações estudantis ocorridas nos EUA na primeira metade deste ano. Fazia coro ao discurso descabido de que questionar Israel seria ser antissemita

Já Trump jogou parado. Manteve sua base arregimentada e apenas aguardou pacientemente pelo fiasco previsível dos democratas. A saída do presidente anão e a entrada de Kamala, a draconiana, não mudou em absolutamente nada o cenário, pois a vice-presidente era ainda mais mal vista que o atual presidente. 

Do ataque ao capitólio à nova passagem pela presidência, a estratégia de Trump foi perfeita e exata. A invasão, taxada equivocadamente de golpe pelos analistas, serviu de mecanismo para galvanizar seus apoiadores no momento da derrota, ação depois copiada por Bolsonaro no Brasil no pastelaço de 8 de janeiro de 2023. Taxar tais ações de golpe sempre foi um equívoco cometido por análises apressadas e esquemáticas, que insistem em não entender a dinâmica da extrema direita no século XXI e sua estratégia de longo prazo na conquista do poder. 

Trump volta ainda mais poderoso que em 2016 e com muito mais sangue nos olhos. Certamente, imporá um regime autocrata à Putin, com aparência de democracia, mas com profundas limitações das liberdades e do funcionamento das instituições. 

Em breve, poderemos ver novamente essa cena.

Contudo, quem mais perde é Lula, pois já vinha fazendo um governo extremamente reacionário e rebaixado, com baixa popularidade. Agora, não terá mais seu principal fiador, Biden, e se verá acossado pelo possível retorno de Bolsonaro à arena política. Não será surpresa se Lula até mesmo sofrer um impeachment antes das eleições, tamanha sua crescente fragilidade. 

Bolsonaro deverá se tornar elegível novamente. É pouco provável que os valentes do STF irão resistir a uma rodada de sanções da Casa Branca contra seus passaportes, suas posses no exterior e seus cartões de crédito. Xandão é valente até tirarem sua possibilidade de ir à Disney ver o Pateta. Temos grandes chances de assistir à mesma mágica que liberou Lula da cadeia e o garantiu de volta ao pleito. Milagres existem, basta ter fé!

De resto, fica o aviso que dei em post (veja aqui) do dia 5 de março deste ano de 2024:

"Vai ficando mais uma vez a lição de que a extrema-direita nunca será derrotada eleitoral ou judicialmente, mas apenas pela transformação radical da sociedade, pois não poucos colocavam as fichas no fim do trumpismo graças à sua derrota eleitoral em 2020 ou mesmo pelas ações judiciais, ignorando que a raiz da extrema direita está no capitalismo em crise acelerada, que levam milhões a optarem por uma solução radical, mas reacionária. Enquanto uma esquerda revolucionária não retornar ao palco mundial, assistiremos ao avanço incólume das forças do atraso."

(por David Coelho)


domingo, 20 de outubro de 2024

A VERDADEIRA POLARIZAÇÃO É O DA LUTA DE CLASSES: ENTRE CAPITAL E TRABALHO

 


Existe uma ideia fixa da mídia burguesa brasileira: o fim da polarização política. Em seu mundo dos sonhos, o Brasil deveria ser formado apenas por centristas cêntricos, vivendo no consenso liberal do mercado e da democracia que não muda nada. O modelo maior desse sonho são os EUA do período pós Segunda Guerra, quando Democratas e Republicanos se revezaram na Casa Branca mantendo essencialmente as mesmas práticas. 

Por óbvio, em um país periférico e de extração colonial igual o Brasil, o sonho de um regime político de consenso liberal é mero delírio de uma burguesia siderada, que vive de costas para o seu próprio país e sempre se pensando como parte do mundo cosmopolita dos grandes capitalistas estadunidenses e europeus. Contudo, um país afundado na super exploração do trabalho, na dilapidação de seus recursos naturais, na economia desnacionalizada e que possui uma classe dominante que jamais chegou a ser ilustrada só pode ser o lugar da furiosa polarização entre pouquíssimos possuidores de muito e muitíssimos possuidores de nada

Polarização brasileira em ato. 

Pior, pois sequer nos EUA e na Europa o dito consenso liberal existe mais. Ao contrário, a polarização se acentua no centro do capitalismo, refletindo o aprofundamento da concentração de riqueza e da espoliação dos trabalhadores. Ao invés do Brasil se tornar o primeiro mundo, é ele quem está virando o Brasil, em um fenômeno batizado de brasileirização do mundo. Ou seja, o abismo da polaridade entre uma multidão de miseráveis e um grupo diminuto de possuidores vai se alastrando por todo lugar, levando à erosão dos regimes políticos desses países e à instabilidade como regra. 

Na realidade, a polarização não vem de outro lugar senão da oposição entre capital e trabalho. O capitalismo está fundado na exploração do trabalho no interior da propriedade privada em que o trabalho concreto é transformado em abstrato gerando o valor. Essa oposição é a raiz da sociedade capitalista e não pode ser anulada pela mera vontade de quem quer que seja. É a partir dela que está fundamentada a luta de classes. 

No mundo da mídia brasileira não existe 
contradição entre capital e trabalho. 
O que ocorreu durante décadas nos EUA e na Europa foi a denominada exportação das contradições. Rosa Luxemburgo foi uma pioneira na análise desse fenômeno em que os países centrais do capitalismo diminuem suas tensões internas absorvendo riqueza da periferia do sistema. Ao fazer isso, é possível aumentar a renda média dos trabalhadores enquanto a super exploração é imposta aos trabalhadores dos países periféricos. Foi exatamente o acontecido nos países centrais no período pós-guerra através das multinacionais que arrochavam o trabalhador na periferia e conseguia, com o valor importado, manter um padrão elevado para a média da população de seus países de origem. Tinha-se, assim, países majoritariamente de classe média. 

Mas a restruturação neoliberal colocou fim a esse processo ao cortar benefícios sociais, flexibilizar leis trabalhistas e impor uma reorganização do sistema produtivo em que os trabalhadores do centro perderam seus empregos seja para a automação, seja para trabalhadores da periferia, ao verem suas fábricas e empresas migrarem para países da América Latina, Ásia e África. O novo status da globalização na prática colocou fim às separações dos mercados nacionais ao impor um mercado unificado e homogêneo, controlado por oligopólios e em que os trabalhadores competem globalmente entre si. O resultado é a agudização da luta de classes em nível global e, logo, da polarização. 

Até na Europa, as contradições estão se 
acentuando.
Ao invés de diminuir, a polarização está se acentuando, acompanhando o processo de agudização da própria luta de classes e a crise crônica do capitalismo. Os nomes que encampam cada polo não importam, o importante é considerar a dinâmica política e social desse processo cuja base material não depende da vontade deste ou daquele sujeito.

Longe de demonizarmos a polarização, é preciso compreende-la em radicalidade e avançar na verdadeira polarização contra o capitalismo. Contudo, não podemos ter a ilusão que iremos todos ficar de mãos dadas como se estivéssemos em um clipe da música Imagine do John Lennon. A era do socialismo utópico já passou há mais de século. Na prática, a divisão da sociedade entre aqueles que desejam preservar o capitalismo e aqueles que desejam ir além fatalmente ocorrerá. Cabe a nós estarmos preparados para o momento decisivo do enfrentamento. (por David Coelho)

sábado, 28 de setembro de 2024

LULA, UM PROBLEMA DE COMUNICAÇÃO?

 


Correm nos bastidores a crítica de que o governo Lula não consegue levar ao povo os bons resultados de sua administração, justamente num mundo dominado pelos meios de comunicação. É  uma crítica para se levar a sério, pois a eleição de Bolsonaro e seu índice de aprovação, durante os quatro anos de governo, se deveu a uma explosão de redes sociais a ele favoráveis com altos níveis de participação de seguidores ativos e mesmo fanatizados.

Bolsonaro tinha um encontro diário com seus seguidores no chamado cercadinho, já desmontado, junto do Palácio do Alvorada, repercutido depois pela imprensa e suas redes sociais. Como não era um presidente revolucionário ou inovador,  surpreende a constatação de que ali não fazia comunicações de medidas sociais que favorecessem seus seguidores, mesmo porque durante seu governo sequer reajustou o salário mínimo. Era uma conversa conservadora, utilizando uma linguagem bem popular, às vezes mesmo chula. Ora, era isso, o fato de ser um presidente que aceitava manter um bate-papo com simples admiradores, tudo sob uma aura evangélica, que mantinha a popularidade de Bolsonaro, a ponto de quase ter conseguido se reeleger.

Não se pode também esquecer o papel das igrejas, congregações que nos seus cultos duas ou três vezes na semana, escolas dominicais e grupos de juventude, que reprisavam e agradeciam nas orações a presença de um ungido na direção do país. Como as religiões postergam para o futuro o bem-estar de seus fiéis destinados ao céu, essa mistura bem  sucedida de uma espécie de política evangélica, era o contraponto tranquilo e abençoado às manifestações sociais pedindo transformações que exigiam rupturas coloridas, feministas, salariais ou climáticas, criando temores e apreensões nas pessoas conservadoras.

Essa situação pouco mudou, durante o retorno de Lula ao governo, pode-se dizer que estão num compasso de espera. Estão marcando passo, à espera do retorno ao poder. As prévias e sondagens eleitorais mostram uma provável derrota do governo na tentativa de conquistar as principais prefeituras do país. Até agora, nenhuma sondagem dá vitória ao candidato da esquerda em São Paulo, sinalizando uma possível vitória do atual prefeito e dos bolsonaristas, enquanto o surgimento do candidato outsider Pablo Marçal mostra existir de forma latente um eleitorado capaz de seguir um candidato de linguagem e gestos extremados.

Essa é uma introdução necessária na busca de uma possibilidade de o governo Lula conseguir furar o bloqueio que lhe fazem a extrema direita e os fundamentalistas evangélicos, repetindo uma situação semelhante nos Estados Unidos. Entretanto, o surgimento, nos EUA, da candidatura de uma mulher negra vinda da emigração poderá quebrar a máquina trumpista e isso, se ocorrer, terá forte repercussão no Brasil. Será igualmente importante uma vitória de Guilherme Boulos em São Paulo. Nada disso ocorrendo, Lula, se quiser ser reeleito, precisará reformular sua política de contato com o povo e reavaliar o uso das redes sociais e da Empresa Brasileira de Comunicação, que gere a TV Brasil.

Estas observações decorrem, em grande parte, de uma entrevista do influencer responsável pelo Portal do José e de seus comentários sobre o papel que ocupa atualmente a TV Brasil e de sua falta de audiência, publicada numa reportagem do jornal Estadão, retomada pelo grupo midiático de direita Antagonista. Como alguns leitores poderão imaginar, estarmos fazendo a apologia das tevês públicas que fazem propaganda de seus governos, é bom ressaltar que isso ocorre só nas ditaduras. Nem se trata de defender a privatização total das tevês, mas de se imaginar como se obter mais audiência na concorrência com tantas redes sociais convertidas em mini-TVs.

A TV Brasil gasta 600 milhões de reais por ano - este ano são 800 milhões - mas não tem audiência e nem metas a alcançar, comenta o influencer, professor e jurista José Fernandes Jr, entrevistado por Pedro Zambarda, do Portal Folha Democrata. A declaração foi a propósito do governo Lula não contar com uma boa base mediática para debater e divulgar as iniciativas do seu governo e seus ministérios.

Na verdade, praticamente só o canal 247 cuida disso, enquanto a oposição a Lula e a extrema direita dispõe de centenas de redes sociais populares, uma grande parte utilizando fake-news. Isso mostra não haver uma contrapartida para se enfrentar o enxame de canais preocupados em manter vivo o bolsonarismo.

E a totalidade desses canais é auto suficiente, mantida por seus criadores ou por pequenos grupos, contando com a monetização paga pelo youtube ou com contribuições de seguidores permitidas nas chamadas comunidades.

Uma das consequências da criação das redes sociais foi a da fragmentação e personificação de lideranças, tanto entre os bolsonaristas e evangélicos como entre as lideranças de esquerda. Embora pareça não haver ainda um estudo sobre a consequência da monetização dos influencers, aqueles que conseguem reunir um grupo importante de seguidores, centenas de milhares, passam a receber uma participação nas publicidades veiculadas com seus vídeos, equivalente a um salário.

Isso lhes permite ter um canal próprio independente, no  qual gozam de ampla liberdade sendo seus próprios editores, ficando ao seu critério pertencer ou não a um grupo de canais com ideias e objetivos semelhantes. Entre os influenciadores de esquerda, uma grande parte prefere se individualizar e guardar sua independência, livrando-se assim de críticas e da obrigação de obedecer a códigos de partidos ou obrigações comuns. Alguns se sentem mais fortes unidos em grupo para ter maior audiência como Opera Mundi, Forum, Meteoro, Metrópoles e MyNews. Outros preferem manter seu ideal de esquerda, sem abrir mão de sua individualidade - é o caso de Bob Fernandes, de Andrea Gonçalves, do controvertido Paulo Ghiraldelli ou do Clayson, para citar só alguns dos mais vistos entre canais de esquerda, para citar apenas alguns entre dezenas e centenas com menor número de seguidores.

Na sua crítica à TV Brasil, o influencer do Portal do José oferece a sugestão ao presidente Lula de frequentar e conceder entrevistas aos principais canais e portais Youtube, com audiência mínima de meio milhão de visualizações, e isso sem nenhum custo. Esse contato direto com youtubers e seguidores permitirá que as ações do governo cheguem ao povo e lhe garantam popularidade com alto nível e sem as baixarias do cercadinho.

A título de comparação, as Tvs francesas France 2 e France 3, assim como as suíças TS1 e TS2, mostram boa audiência e cumprem seu papel informativo sem se tornarem instrumentos de propaganda do governo. Isso valeria uma pesquisa, uma reflexão e uma avaliação pelo governo e parlamentares. (por Rui Martins)

sexta-feira, 13 de setembro de 2024

MARÇAL É O LÚMPEN NEOLIBERAL

 Pablo Marçal é o típico picareta: condenado criminalmente, charlatão, coaching, influenciador, ficou milionário aplicando golpes em milhares de pessoas que acreditavam em suas promessas vazias de ficarem ricas com seus ensinamentos. Antes das eleições deste ano, era mais conhecido por ter levado cerca de cem pessoas para o Pico dos Marins, ocasião em que tais pessoas ficaram presas no monte e tiveram de ser resgatadas pelo corpo de bombeiros em uma operação arriscadíssima. O frio extremo, o cansaço e a falta de comida quase levaram a uma tragédia diante da qual Marçal respondeu puxando uma oração para "deus parar o vento"

Outro grande momento de sua trajetória foi quando um homem morreu ao participar de uma maratona surpresa promovida por Marçal. A corrida teve sua extensão ampliada, de uma hora para outra, para 42 km. Mesmo sem preparo algum, o homem, instado pelos ensinamentos do agora candidato a prefeito, foi em frente e acabou morrendo por esforço excessivo. 

Basicamente, são essas as credenciais de Marçal, irresponsabilidade e enganação. Para ele, qualquer um pode alcançar o que quiser, não precisando de preparo ou considerações sobre as condições concretas. Basta querer e você conseguirá qualquer coisa, muito possivelmente um caixão. Pablo assim leva a prática do coaching às últimas consequências: no fim, pouco importam as condições para se realizar algum objetivo, importa apenas o puro desejo. É a egolatria alucinada. 

O fenômeno coaching está enraizado no capitalismo monopolista, em uma época que há um descolamento titânico entre as promessas burguesas de ascensão social e as possibilidades concretas de realização dessas promessas. Os monopólios engolem todos os pequenos capitalistas e submetem os trabalhadores à ultra competição, atomizando-os para baixar o valor de sua mão de obra. O trabalhador é induzido a trabalhar cada vez mais, enquanto ganha cada vez menos. O resultado é o aumento exponencial da carga de trabalho e a queda drástica da renda. Dessa contradição, surge o coaching, uma espécie de padre neoliberal, prometendo o céu para os desalentados pelo neoliberalismo. 

Esses são geralmente trabalhadores com certo nível de escolaridade - não raro, com ensino superior - trabalhando em subempregos ou endividados. A pseudo intelectualidade do coaching, com seu discurso repleto de tiradas pseudo psicológicas, frases soltas de filósofos, moralismos e pseudo ciência seduzem esse grupo que compartilha da mesma superficialidade intelectual. O maior sonho deste grupo é alcançar o topo da pirâmide, ter uma vida de puro consumo com mínimo esforço e, por isso, geralmente, são também apostadores do mercado financeiro, acreditando encontrar ali alguma virada da fortuna. 

Incapazes de realizar seus sonhos de luxo, devido à configuração monopolista do mercado capitalista, isolados, pois para todo lado só enxergam competidores, se retraem em sua própria individualidade e passam a viver de fantasias e, o que é pior, a acreditar nelas. O resultado é a frustração, o desejo não efetivado que acaba por se tornar  psicose. De tanto serem esmagados pelo princípio da realidade, deixam livre curso ao princípio do prazer e acabam capturados por qualquer um capaz de alimentar tais fantasias. Aqui entra o coaching. 

Marçal vende sonhos e o sonho, conforme já ensinou Freud, é a fantasia desmedida, o ID sem qualquer restrição. E uma das grandes fantasias presentes no sonho é a egolatria, ou seja, a ilusão de ter o mundo inteiro girando ao seu redor para atender seus desejos, daí todo sonho ser em primeira pessoa. Com Pablo Marçal, milhões podem viver tal fantasia, mas acordados, pois ele os convence que as leis da materialidade, a realidade objetiva do mundo, ficam suspensas e passa a existir apenas o puro querer do eu. 

Isso faz de Marçal uma força poderosa, pois investida de uma pulsão psíquica potente. Mas também o torna frágil, pois seu movimento é descolado de qualquer objetividade, qualquer materialidade, e uma vez confrontado com o mundo real, só poderá se desfazer igual uma bolha de sabão. Assim, Marçal só poderá ser uma força virulenta, fanática, sem peias, igual é todo desejo desenfreado, mas por não possuir orientação, acabará fatalmente dissipado. Por isso, é fundamental que tal força esteja confluída para um alvo, a fim de usar tal ímpeto e não deixa-lo se dissipar. No caso, o alvo é a esquerda - entendida no sentido bolsonarista, ou seja, tudo que não é extrema-direita - vendida como sendo a responsável pelo fracasso de todos esses indivíduos que não conseguiram atingir seus objetivos. 

No entanto, Marçal é pura forma e nenhum conteúdo, por isso é pouco provável que consiga se sustentar sozinho no longo tempo. Não está organicamente ligado a nenhuma força política de relevo, seja as igrejas, as forças armadas, o agronegócio ou os bancos. É o representante solitário de milhões de lúmpens neoliberais, os quais tão pouco estão organizados em alguma coisa. Nesse aspecto, é ilusório acreditar que ele possa substituir Bolsonaro e sua trupe, porque esses possuem substancialidade, pois embora se finja outsider, o ex-presidente fujão jamais foi um estranho no ninho da politicagem. O mais correto aqui será pensar em uma fusão entre Marçal e o bolsonarismo, com esse deglutindo aquele para se renovar. 

Seja como for, Marçal já mostra o quanto a sociedade capitalista no Brasil está apodrecida, com seus coachs vendedores de vento e aplicadores de golpes. (por David Coelho)

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

TIROTEIO CONTRA ALEXANDRE DE MORAES É RECADO PARA LULA: OU SE ENQUADRA OU BOLSONARO VOLTA AO PARÉO

 Nestes últimos dias vieram à tona vazamentos a respeito de ações questionáveis por parte de Alexandre de Moraes em sua atuação à frente do TSE -Tribunal Superior Eleitoral. Forçando a mão em alguns momentos, não cumprindo o rito jurídico em outros e mesmo apelando à imaginação, as revelações mostram algo de conhecimento até das pedras da Praça dos Três Poderes: acima de tudo, as ações contra Bolsonaro e sua turma eram políticas, visando sua neutralização.

Na linguagem empolada da esquerda liberal brasileira, com o lulopetismo à frente, tais ações visavam salvar a democracia. Na linguagem concreta da política revolucionária, é simplesmente a justiça como ela é, com o perdão da cacofonia. A justiça não é algo neutro dentro da realidade social, mas é antes parte intrínseca da dominação burguesa, estrutura do Estado para a hegemonia de classe, em defesa da propriedade privada e do capital. Assim, os interesses da burguesia e de suas frações estão sempre ali presentes, se expressando ora de um modo, ora de outro. 

Alexandre de Moraes sempre foi o vetor de expressão dos interesses da burguesia, particularmente se ligando aos setores conservadores da política de São Paulo, seja integrando o governo de Gilberto Kassab na prefeitura de São Paulo, seja enquanto secretário de segurança pública de Geraldo Alckmin. Nesse posto, inclusive, teve atuação importante na repressão às ocupações estudantis de escolas ocorridas no estado e na leniência às manifestações direitistas em prol do impeachment de Dilma. Pelo seu serviço, foi guindado ao posto de ministro da justiça do governo Temer, de onde acabou guindado ao STF.

Alexandre de Moraes no TSE.

No obscuro acordo político pactuado entre lulismo, tucanato decadente e setores da burguesia que retirou Lula da cadeia e garantiu seu retorno à presidência, Moraes foi figura de proa, cumprindo a função de Xerife-Mor, homem todo poderoso capaz de iniciar processos ex officio, mandar prender e mandar soltar, sempre em decisões monocráticas posteriormente, em alguns casos, submetidas para serem referendadas por seus colegas. É preciso dizer franca e verdadeiramente que o inquérito das Fake News não passa de uma Lava Jato de sinal invertido, dessa vez sem sequer a participação do Ministério Público, tornado supérfluo. 

O objetivo foi e é conter o bolsonarismo e seu líder, os quais se tornaram disfuncionais para uma parte da burguesia brasileira. O grande acordo nacional, nas imortais palavras de Jucá, seguia seu caminho irresoluto, mas algo parece ter mudado. Resta perguntar porquê. 

A hipótese mais clara é que a burguesia está mandando sinais a Lula e ao PT no sentido de enquadra-los no programa econômico e político acordado em 2022. De um lado, o aprofundamento do financismo, mais reformas, mais ataques aos direitos sociais e trabalhistas. De outro, sintonia mais afinada com posições políticas do imperialismo, não sendo gratuito ter essa movimentação acontecido no contexto da polêmica das eleições venezuelanas. 

Não nos esqueçamos de suas origens.

Ao bombardearem Moraes, a burguesia brasileira, através de sua imprensa, envia recado claro que, se for preciso, pode ressuscitar Bolsonaro e sua turma desconstruindo o grande salvador da democracia, tal como fizera anteriormente com Sérgio Moro e seus apaniguados do MPF. Estamos diante de um ensaio geral de uma ação que poderá ser acionada caso o lulopetismo não cumpra fielmente sua parte do pacto. Alexandre de Moraes nisso tudo é apenas mais um serviçal, tão dispensável quanto qualquer outro. 

E isso vem acontecer em um contexto em que Trump poderá voltar à Casa Branca, algo a ser considerado na equação geral. As turbulências apenas estão começando. (por David Coelho)

domingo, 21 de julho de 2024

DESISTÊNCIA DE BIDEN É MAIS UM CAPÍTULO DA ATUAL INGOVERNABILIDADE DO REGIME BURGUÊS


 Biden finalmente atendeu à voz da razão e decidiu abandonar a corrida pela reeleição. Evitando o inescapável fiasco que viria em novembro, o atual presidente dos EUA colocou ponto final em sua infeliz saga política, poupando os estadunidenses de verem mais cenas lamentáveis durante os meses vindouros. Seria melhor mesmo que renunciasse também à presidência, mas isso deixaria Kamala Harris, sua possível substituta, impossibilitada de concorrer a um possível segundo mandato. 

O governo do morto-vivo Biden tem sido um desastre do início ao fim. Consumido lentamente pela crise capitalista, incapaz de dar respostas ao alto custo de vida e preso às concepções políticas ultrapassadas pela realidade histórica, afundou na impopularidade e tentou se salvar provocando uma guerra contra a Rússia. Porém, apesar de todos os esforços, a guerra da Ucrânia não foi abraçada pela população estadunidense, que passou mesmo a se opor fortemente a gastos estratosféricos com envios de armamentos em um contexto em que pessoas morrem de fome pelas ruas da terra do Tio Sam. 

Uma outra guerra - se é possível usar efetivamente tal designação àquele massacre - selou seu destino: a devastação israelense contra o povo palestino. Ao apoiar Israel e sustentar a matança perpetrada contra a população da Faixa de Gaza, Biden se viu diante de uma mobilização estudantil sem precedentes em anos pelos campi estadunidenses. Passou a ser denominado de GenocideJoe e manifestações contra ele passaram a ocorrer cotidianamente, encurralando-o às vésperas do início de sua campanha. 

A gota d'água, contudo, viria no primeiro debate transmitido pela rede de TV CNN, oportunidade na qual um perdido e fragilizado Biden foi tratorado por Trump. Ali ficou mais nítida a tendência que já se mostrava há pelo menos dois anos, o ex-presidente estava com o caminho totalmente aberto para vencer facilmente as eleições em novembro, por competir com um presidente fragilizado não apenas politicamente, mas também mentalmente. 

Com sua desistência, Biden se une a outros presidentes que também não conseguiram emplacar a continuação de seus mandatos, a exemplo de Alberto Fernández, Bolsonaro e do próprio Trump. A razão não poderia ser mais óbvia e está ligada à atual crise capitalista que gera um estado generalizado de ingovernabilidade da ordem burguesa. Tal ingovernabilidade é a causa das variadas substituições de governo ao redor do mundo nos anos recentes, levando mesmo a uma situação de impasse político em não poucos lugares, a exemplo dos governos minoritários em Portugal e mais recentemente na França. 

Não será surpresa caso essa ingovernabilidade se aprofunde, com crises não apenas dos governos, mas também dos regimes políticos, levando a uma situação de instabilidade generalizada. A estagnação do capital poderá evoluir para uma depressão, com consequências drásticas para o futuro capitalista e da própria humanidade. 

Por isso, é pouco provável que uma substituição de Biden por Kamala Harris vá trazer algum efeito para a corrida eleitoral. Essa é ainda mais impopular que o atual ocupante da Casa Branca e continua por demais associada ao establishment do partido democrata. Uma opção mais viável seria ou lançar Michele Obama -a qual conta em seu favor com o fato de nunca ter sido política e ter criado certo carisma enquanto primeira-dama - ou alguém da ala esquerda dos democratas, do grupo de Bernie Sanders. Esse é pouco provável que se candidate pela idade já avançada, mas alguém de seu grupo, como Ocássio-Cortez, poderia ter maior combatividade a Trump. 

Contudo, nas circunstâncias atuais, um governo mais à esquerda nos EUA poderia ser desastroso para a esquerda estadunidense, pois Sanders e cia nem de longe dariam solução aos problemas do país e poderiam mesmo desmoralizar o socialismo junto àquela população. Nesse aspecto, Michele poderia ser o melhor caminho, pois teria viabilidade eleitoral e seu desgaste não impactaria a esquerda.

De qualquer forma, hoje, Trump está mais próximo de sua vitória que nunca, enquanto Biden parte pateticamente para sua aposentadoria. (por David Coelho)

quarta-feira, 10 de julho de 2024

MACRON SE RECUSA A RECONHECER DERROTA E GANHA TEMPO



 Rui Martins

Antes de partir para Washington, onde participa de uma reunião da OTAN, o presidente francês Emmanuel Macron deixou uma carta dirigida a todos os franceses, na qual pede aos eleitos no último domingo para se reunirem em torno dos valores republicanos, com ideias e programas acima de suas ambições pessoais, numa crítica velada às exigências do líder da França Insubmissa, Jean Luc Mélenchon.

Só depois de encontrado esse denominador comum, Macron tratará da nomeação do primeiro-ministro, "isso supõe se deixar passar um pouco de tempo às forças políticas para construírem compromissos com serenidade e respeito". Enquanto isso, permanecerá, não se sabe por quanto tempo, o atual governo de Gabriel Atall, cujo partido, o mesmo do presidente, ficou em segundo lugar nas eleições. Essa carta já provocou uma série de protestos, que poderão ser seguidos de convocações para manifestações populares.

Ao mesmo tempo, temerosos de que os deputados da França Insubmissa se aproveitem do clima para assumir a direção da Nova Frente Popular, os deputados ecologistas e socialistas programam se reunir para fazer face.

Existem lições a tirar para a esquerda brasileira da reviravolta nas eleições legislativas francesas de domingo?

Talvez a mais importante seja a de se evitar o extremismo, provocador de divisões e de medos. Ao contrário dos entusiasmos mostrados por certas redes sociais brasileiras, o líder do partido LFI ou França Insubmissa, Jean Luc Mélenchon, considerado de extrema esquerda, não é um aglutinador de forças contra a extrema direita e nem foi o único chefe do movimento de união dos partidos de esquerda e direita.

Bem ao contrário! Mélenchon pode ser considerado como um dos inspiradores da vitoriosa Nova Frente Popular, porém, ao mesmo tempo, suas declarações extremas e egocêntricas fizeram muitos eleitores socialistas e de direita estarem dispostos a votar a contragosto na extrema-direita de Marine Le Pen.

O caso mais comentado foi o do "caçador de nazistas" Serge Klarsfeld que, na hipótese de uma final entre a extrema direita e extrema-esquerda, preferiria votar no partido de Le Pen e não seguir o voto nulo, indicado pelas instituições judaicas. Essa declaração provocou escândalo pois seu pai, Arno Klarsfeld, judeu, morreu em Auschwitz, para onde tinha sido deportado da França.

A razão dessa estranha opção foram as declarações de Jean Luc Mélenchon, consideradas antissemitas pelas forças conservadoras da França, sem ter declarado terrorista o ataque do 7 de outubro por parte do Hamas. Embora Mélenchon não seja um aglutinador, tanto que a maioria dos deputados eleitos pela Nova Frente Popular rejeita sua indicação para primeiro-ministro, uma parte da esquerda brasileira vê nele um líder a ser imitado.

Pelo menos um líder do PT, Paulo Paim, e uma líder do PSB, Lídice da Mata, ponderam pela moderação ao comentarem a vitória da esquerda na França. Nada a ver com o líder do que se poderia chamar de extrema esquerda brasileira, Rui Costa Pimenta, do Partido da Causa Operária que, embora sem a mesma verve seria a versão nacional do tribuno populista Mélenchon. Pimenta foi a favor da invasão da Ucrânia pela Rússia de Putin e aplaudiu o terrorismo do Hamas no 7 de outubro.

A lição das legislativas antecipadas na França para a esquerda brasileira poderia ser a de não encampar a linguagem extremada de um Mélenchon, como bem sintetiza Paulo Paim "precisamos entender a importância de trabalhar uma frente ampla de centro-esquerda porque senão, daqui dois anos, poderemos ter um retrocesso ainda maior no parlamento brasileiro em relação à realidade de hoje".

Talvez Celso Amorim e o presidente Lula devessem analisar como o discurso provocativo de Mélenchon estava assustando os franceses e os levando ao RN da extrema-direita, enquanto a linguagem conciliadora de Raphael Glucksmann funcionava como calmante.

O jornal Le Monde conta como toda a Europa teve um alívio diante dos primeiros resultados das eleições francesas, com exceção da italiana Melloni, do húngaro Orban e do russo Putin. O ambivalente Putin que consegue ser apoiado pela extrema direita de Orban e por países do Sul Global e por alguns países e teocracias do Brics.

Para terminar, uma coincidência - na França, a dinastia da extrema-direita se chama Le Pen; no Brasil, a extrema direita é também uma dinastia familiar, a de Bolsonaro. (por Rui Martins)

quarta-feira, 3 de julho de 2024

PAPEL DO STF NA INSTITUCIONALIDADE BURGUESA

 


O STF é um órgão judicante constitucional, ou seja, é o guardião do espírito da lei contida na carta magna, assim denominada por ser a espinha dorsal de uma região ou país, no que se refere: 

- à sua organização política;  

- à definição dos direitos civis fundamentais; e 

- à natureza e essência da forma e conteúdo da relação de produção social ali estabelecida.  

A nossa constituição federal, assim denominada por ter abrangência de federação de estados membros a ela subordinados, tem natureza republicana burguesa e, portanto, defende a lógica do capital procurando equalizar a relação político-jurídica entre capital e trabalho de modo a que estas duas faces de uma mesma moeda possam pretensamente conviver harmoniosamente.  

Ora, por assim ser, o STF, em sua função institucional, tem caráter eminentemente político-jurídico e processual-constitucional burguês.  

A República - res publica, do latim, coisa pública - que vem sendo aprimorada juridicamente ao longo dos dois últimos séculos mundo afora, divide-se em duas vertentes na questão de forma política, e se unificam na questão de conteúdo. 

As duas formas políticas, com variações no seu interior respectivamente, são: 

- as que se inclinam para o liberalismo clássico, do estado mínimo, sem incumbências sociais mais relevantes, por entender que a “mão invisível do mercado” (Adam Smith) tudo equaliza;  

- e a vertente keynesiana, do estado intervencionista na economia, estrategicamente estatizante, com preocupações sociais que julga indispensáveis a serem patrocinadas pelo Estado.        

A vertente política marxista-leninista-maoista do capitalismo de estado experimentada na Rússia e na China mais não foram do que a exacerbação de uma visão capitalista político-econômica aparentemente sui generis, que se denominou como socialismo real, mais não sendo do que um keynesianismo mais radical.    

Nos casos da Rússia e China, e apenas incialmente, com um estado exclusivamente detentor dos meios de produção com estatutos jurídicos constitucionais próprios de ascensão ao poder político estatal unipartidário que, inevitavelmente, derivou para um capitalismo liberal de mercado por consequência natural da imposição das categorias capitalistas mantidas nestas duas experiências políticas.  

A lógica da forma valor, que consiste na acumulação capitalista, é absolutista  e não admite outro deus a lhe comandar as ações, senão a sua própria função autotélica.   

Na questão de conteúdo, tanto as experiências republicanas burguesas, como as marxista-leninistas remanescentes - Cuba, Coreia do Norte, Venezuela, e talvez Nicarágua -, identificadas como socialistas, que se pretendem antirrepublicanas burguesas, identificam-se, no conteúdo de suas relações sociais de produção, como produtoras de mercadorias, razão pela qual podemos dizer que todas elas são espécies políticas do gênero capitalismo.   

Nas democracias republicanas burguesas clássicas, as supremas cortes são antenadas com o interesse econômico que dita as ordens para todas as instituições que lhe servem, razão pela qual estas cortes judicantes assumem, principalmente, um papel político na definição daquilo que esteja coadunado com tal interesse.  

Se a constituição é burguesa, todo o pensamento dominante nestas cortes obedece ao desenvolvimento, estabilidade e indução à manutenção constitucional do conjunto da institucionalidade política e econômica burguesa.  

O pé de laranja não dá manga.     

Nos regimes ditatoriais burgueses, as cortes supremas são moldadas ao seu feitio absolutista; nas democracias liberais são moldadas por critérios políticos menos acintosos, mas sem deixar de serem flagrantemente politicistas, uma vez que são escolhidas num filtro político majoritário de indicação dos seus membros. 

No capitalismo, sob a égide do deus valor, quem manda é o capital, e a ordem política é moldada para lhe servir, razão pela qual os poderes executivo, legislativo e judiciário, obedientes à constituição, não têm soberania de vontade e atuam de modo que tudo na sua ordem institucional se processe de modo a lhe dar manutenção e sustentação econômico-financeira, além de indução ao desenvolvimento de tal conteúdo.   

É por isso que quando Bolsonaro, o ignaro, passou a promover manifestações domingueiras temerárias em Brasília, estimuladas pelas suas redes sociais, o chamado gabinete do ódio, nas quais se liam frases como “Abaixo o STF”; “intervenção militar Já”; “AI 5 Já”, e com disparos de rojões contra as sedes dos poderes legislativo e judiciário, a elite brasileira - política, econômica, militar, alguns segmentos de setores religiosos, e o mercado, avesso a incertezas políticas - puseram as suas barbas de molho. 

Antes mesmo das manifestações pró golpe contra a posse de Lula e de golpe no 08 de janeiro de 2023, o mercado e toda a entourage do sistema financeiro e do grande capital industrial e comercial, e até mesmo a cúpula militar, entendeu que era hora de dar um freio nesse embalo considerado de futuro duvidoso capitaneado por um energúmeno militar afastado da caserna por insubordinação corporativa e mentor de um projeto ditatorial num momento de depressão mundial capitalista. 


Foi aí que Lula voltou institucionalmente ao jogo eleitoral como única forma de derrotar o projeto brasileiro de um novo Hugo Chavez absolutista, militar de baixa patente comandando o generalato, e o STF soube muito bem como explorar as falhas técnicas processuais e suas imparcialidades na Operação Lava Jato para tornar nulas as decisões de instâncias anteriores retirando o petista da prisão e reabilitando-o à elegibilidade, ainda que fossem feitas delações premiadas e reapropriadas as devoluções de bilhões de reais recuperados do exterior por conta da corrupção com o dinheiro da União Federal, dito público.   

 Essa talvez tenha sido a mais clara demonstração da intervenção política de uma corte superior, que nesse caso agiu de modo a evitar uma possível guerra civil brasileira, tal fosse o acirramento, que ainda persiste, de um país dividido pela animosidade política irrefletida, mais de um lado, a direita irascível, que do outro, a esquerda institucional socialdemocrata trabalhista. 

Os governos militares de 1964 a 1985, sabedores da função político-jurídica constitucional do STF, desde cedo se incumbiram de manipulá-lo ao seu favor, e na medida que seria melhor do que fechá-lo, como fizeram com o parlamento brasileiro por três vezes, porque era melhor tê-los sob sua tutela do que passar recibo de uma ditadura primitiva - os militares queriam dar um ar de legitimidade por apoio popular e convivência com políticos civis da oposição consentida, porque mantidos de boca fechada sob ameaça de cassação.    

Já no AI-2, de 25 de outubro de 1965, alteraram a composição dos Ministros de STF de 11 para 16 membros, de modo a que pudessem colocar lá os seus pretendidos e obedientes magistrados superiores, e não ficaram por aí: cassaram o mandato de três ministros pela via da aposentadoria compulsória - Evandro Lins, Hermes Lima e Victor Nunes -, sem falar que outros dois ministros abandonaram o  colegiado em protesto contra tais cassações e evidentes restrições ao ato soberano de julgar, Gonçalves de Oliveira e Antônio Carlos Lafayette de Andrada.  

A direita golpista brasileira hoje vocifera contra a interveniência do STF na vida política brasileira pelo simples fato de não ter podido colocá-la de joelhos sob seus interesses absolutistas burgueses, impedidos que foram pela elite política e militar brasileira que tem mais sorte do que juízo.  

O problema das instituições burguesas é a decomposição inconciliável dos fundamentos e contradições da lógica do capital em depressão que se explicitam e terminam por minar a credibilidade e aceitação popular dos poderes políticos instituídos, mesmo que o povo não estabeleça a conexão dessas mesmas instituições com a ordem político-econômica subtrativa e segregacionista que sustentam. (por Dalton Rosado)

terça-feira, 18 de junho de 2024

LULA VAI SENDO TRAGADO PELA CRISE CAPITALISTA. QUAL SERÁ O FUTURO DA ESQUERDA?


 "Passado mais um capítulo da luta de classes no Brasil, Bolsonaro foi derrotado por uma margem de apenas 2.139.645 votos, evidenciando a profunda divisão social do país. 

O fato de o presidente ter ido dormir após o resultado, sem sequer agradecer aos seus apoiadores pela boa votação ou exortá-los a continuarem lutando, expressa o seu fracasso pessoal profundo. 

A humilhação sofrida pelo führer de comédia pastelão, contudo, não significará o fim do movimento que o levou ao Palácio do Planalto. Na realidade, o dito bolsonarismo, que é a extrema-direita eclodida a partir de 2013, já se prenunciava antes das jornadas de junho daquele ano. 

O líder caído seria o responsável por sua vitória em 2018, quando nele canalizou suas forças. Passado o período de abatimento, vai reorganizar-se e preparar o campo para a luta contra o novo governo

A vitória do bolsonarismo em São Paulo foi importante neste contexto. O governo bandeirante, o segundo maior ente da federação, se transformará num bunker da extrema-direita, para o qual irão todos os enjeitados do governo federal. A máquina estadual tende a ser usada no combate a Lula, mantendo a chama do reacionarismo acessa. 

Na realidade, apesar da vitória lulista no governo federal, o grande vencedor das eleições foi o bolsonarismo: prevaleceu na maioria dos grandes centros urbanos, elegeu mais congressistas, ditou o debate e, acima de tudo, se impôs enquanto força renovadora, de transformação. 

Tendo os olhos votados para o passado e formando uma grande aliança com o status quo nacional, o lulismo, por sua vez, venceu muito mais enquanto um veto às forças retrógradas, ao obscurantismo, à falta de pudor pela vida e à devastação ambiental. 

Mas não conseguiu colocar-se enquanto um movimento inspirador de transformações. E aí reside todo o drama do momento. 

A eleição de Lula só foi possível por um grande acordo de cúpula, uma articulação nas altas esferas do capitalismo, passando pelo STF, banqueiros, tucanos históricos e grande capital internacional. Foi o grande pacto nacional já vaticinado por Romero Jucá, cuja meta é reestabelecer os marcos institucionais pré-junho de 2013, trazendo de volta a reprodução sossegada do valor. 

Noutras palavras, restaurar a pax neoliberal, cujo ápice se deu no segundo governo do Lula, e desacelerar a luta de classes. 

No entanto, vontade é uma coisa, efetividade é outra. Quem de fato comanda o ritmo dos acontecimentos não é o político x ou y, ou mesmo a nanica burguesia brasileira, mas a economia capitalista, terreno completamente objetivo e com sua própria legalidade. E, nesta seara, até mesmo os capitalistas estadunidenses e europeus estão apavorados, sentindo o buraco abrir-se cada dia mais. 

Os prenúncios de cataclisma ficam mais evidentes e as tensões geopolíticas recolocam no plano mundial o que vem acontecendo no plano micro da economia do dia-a-dia. 

Aumento do custo de vida, desabastecimento, fome –a qual agora assombra até mesmo a classe média branca europeia– e, finalmente, a sombra da guerra mundial mostram a aproximação de uma depressão titânica capaz de engolir a tudo e todos, cujo desfecho é imprevisível e cujo impacto no Brasil poderá fortalecer a extrema-direita oposicionista.

Para além disso, a reorganização econômica do Brasil para um regime agromineral-extrativista segue em frente. Bolsonaro foi o representante mais bem acabado desta nova lógica porque ele simplesmente a colocava sem peias, sem duplo discurso e sem qualquer tipo de vergonha. Lula retorna para dar um verniz civilizado para esta nova lógica, mantendo-a, mas com uma capa racionalista.

Nisso reside outro ponto débil com potencial para engolir o novo presidente, pois quanto mais avança a nova matriz econômica, mais fortes ficam as forças do atraso e, correlatamente, sua expressão política no Brasil, o bolsonarismo. 

A precarização das relações de trabalho, a flexibilização das leis ambientais, a dilapidação da indústria e das empresas públicas, a crise urbana com a explosão da violência, tudo isso fortalece o tripé reacionário do agronegócio, igrejas evangélicas e militarismo. Terá Lula condições de mexer no nervo disso e reverter as condições regressivas no Brasil? Eu diria que não

Não apenas o agora presidente eleito ajudou nesse processo quando de suas passagens pelo governo federal, como também está hoje afiançado de modo íntimo com os grandes capitalistas brasileiros que almejam justamente o avanço do dito cujo, embora, como dito, num ritmo menos irascível. Seria preciso romper e radicalizar à esquerda, mas isto seria dissolver o grande pacto e recolocar a luta de classes noutro nível. 

Então, o futuro se prenuncia tenebroso. A extrema-direita seguirá mobilizada e o novo governo, centrado no passado e acreditando ser possível uma conciliação já caducada, aprofundando o modelo de espoliação do pais, estará muito em breve em face de uma profunda impopularidade e frustração. Nesse momento, o pior poderá acontecer e os derrotados de hoje talvez voltem reenergizados. 

Não há saída além da mobilização popular e do avanço de transformações efetivamente positivas para o Brasil, rompendo com o modelo extrativista e democratizando de fato a vida social. 

Mas, é provável que isso talvez esteja para além da capacidade de Lula."

O texto acima é a íntegra de um artigo que escrevi no Blog um dia após a vitória de Lula no segundo turno das eleições presidenciais de 2022, intitulado O que esperamos do 3º governo Lula?  e que pode ser acessado clicando aqui. O coloquei na íntegra para demonstrar que não há qualquer surpresa quanto aos rumos de Lula 3 e a situação desnorteada em que ele se encontra hoje. Somos profetas? Não, somos apenas marxistas se valendo da mais avançada ciência já constituída para compreender a realidade humana: o materialismo histórico. 

Assim, o texto publicado pelo Celso nesse último sábado - EM 2022 NÓS GANHAMOS UMA ELEIÇÃO MAS PERDEMOS UMA NAÇÃO. AGORA TEREMOS DE SUAR SANGUE PARA CORRIGIR A LAMBANÇA - atesta o que já vínhamos alertando e converge com meu prognóstico pós-eleição. Não é algo fácil nos levantarmos no meio da euforia barata e do superficialismo analítico que domina a esquerda brasileira, tão capenga na prática quanto na teoria, e por isso é sempre necessário reconsiderar nossos acertos. 

A verdade atual de Lula 3 é a trilha certa para o desastre. Amarrado aos acordões com as altas esferas capitalistas, submisso feito um cãozinho, incapaz de reestabelecer o milagre de seus primeiros dois mandatos - pois a objetividade do mundo não o permite mais -, o presidente vai murchando a olhos vistos e se esvanecendo pouco a pouco, como se estivéssemos assistindo àquelas cenas de transição no cinema em que os protagonistas vão sumindo paulatinamente da tela para dar lugar à escuridão. 

Sua intransigência com a greve da educação federal é mais uma etapa nesse processo, pois ao pisar no pescoço de milhares de docentes, técnicos e estudantes, ele está condenando a si mesmo ao alienar uma categoria historicamente lulista. Enquanto isso, vai promovendo a estratégia burra de fortalecer os setores ligados à extrema direita, em um repeteco de suas ações de décadas atrás, quando despejou toneladas de dinheiro nos milicos, nos fundamentalistas religiosos e no agronegócio, apenas para ver dali nascer o Dionísio ex-presidente fujão. É um jênio da política, de fato!

Indivíduos iguais a Lula só dão certo quando o vento está soprando a favor. São aqueles tipos que vão ao sabor das correntes, ganhando impulso pelo momento favorável, mas sem nenhuma capacidade de forjar um caminho próprio e intervir nos acontecimentos para induzir outro caminho. Expressam o que já falava Maquiavel dos sujeitos que vivem tão somente da Fortuna e pouco ou nada possuem de astúcia: quando a roda gira e o destino muda, eles fatalmente naufragam. 

Caso a roda não gire de novo, o destino de Lula parece ser tão amargo quanto foi o de sua criatura, Dilma. Cabe a nós decidirmos o que se fará depois, repetiremos a mistificação lulopetista reciclando o discurso fajuto do golpe ou vamos, dessa vez, fazer um balanço franco e verdadeiro do buraco em que nos enfiamos? (por David Coelho)






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