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sábado, 22 de março de 2025

ESTADOS UNIDOS, TERRA DOS LIVRES E LAR DOS VALENTES? ACREDITE QUEM QUISER...

rui martins
EUA: o perigo do totalitarismo.
Qual o verdadeiro objetivo dos cortes nas pesquisas e instituições científicas dos Estados Unidos, pelo presidente e seu auxiliar direto Elon Musk? O que se pretende com a suspensão das ajudas do governo às universidades e com os controles de professores e alunos, antes não existentes?

A imprensa europeia ainda parece atônita diante das notícias trazidas por professores desejosos de vir ensinar na Europa, contrários ao governo Trump ou prestes a serem demitidos pelas chamadas medidas econômicas.

Difícil de responder, mesmo porque o plano comercial de taxar pesadamente as importações equivale a provocar reações capazes de provocar um aumento da inflação nos EUA. 

A desativação ou diminuição das atividades de setores de ministérios, de ajudas mesmo se interessadas a países estrangeiros como as da Usaid, é feita dentro de um plano bem programado ou com o objetivo de desativar as principais atividades sociais do Estado?

Alguma coisa parecida com aquilo posto em execução na Argentina pelo presidente Milei, elogiado pelos grandes grupos econômicos e bem recebido por economistas e patrões no Fórum Econômico de Davos?

Ou já se trata de se colocar em prática ou estar testando as medidas destinadas a se criar um mundo totalmente diferente, controlado com a utilização de plataformas sociais e inteligência artificial (uma versão atual e mais sofisticada do 1984 de George Orwell: um totalitarismo utilizando câmeras). 

O sistema de controle e vigilância de toda população, imaginado pelo escritor, não é mais ficção e já pode ser instalado em todas as residências, ruas e locais coletivos para funcionar o dia inteiro.

Nos nossos dias, existem diversos países com vontade de controlar a formação de pensamento do seu povo. Reeditando um procedimento mais comum na Idade Média, algumas nações utilizam a censura, felizmente sem fogueiras. 

E, embora possa parecer surpreendente, os Estados Unidos, um dos países nos quais mais se fala atualmente em exercício da liberdade de expressão, é um dos maiores utilizadores da censura.

O jornal suíço Le Temps dedicou duas páginas da sua edição de fim-de-semana para destacar a existência de mais de 4 mil livros censurados nas bibliotecas e escolas estadunidenses, perguntando qual seria a sequência dessa vaga liberticida.
Entre os livros censurados estão O diário de Anne Frank, o próprio 1984 e Fahrenheit 451, de Ray Bradbury.

Essa realidade foi mostrada no documentário Os Bibliotecários, de Kim A. Snyder, exibido em janeiro no Festival do cinema independente de Sundance, em janeiro. Isso nunca se viu, nem na época do macartismo, se diz no documentário. Vale lembrar que a Constituição estadunidense garante a liberdade de expressão e a liberdade acadêmica.

Mas não é tudo e não vem só de Trump, mas também dos fundamentalistas que o apoiam desde o primeiro mandato. Nos dois últimos anos, houve mais 10 mil pedidos processuais de censura de livros, bem como de álbuns e manuais escolares tratando do período da escravidão e da luta pela liberdade e direitos cívicos dos afroamericanos.

Basta uma frase ou uma imagem para o livro ser catalogado como obsceno ou pornográfico pelas associações e grupos de pressão de fundo religioso nacionalista cristão.

O jornalista Jean-Jacques Roth afirma não serem só livros mas haver palavras e expressões proibidas pelo mundo trumpista numa ofensiva lançada contra a cultura, contra a ciência e contra a espinha dorsal do racionalismo moderno. 

Desde o primeiro mandato de Trump eram proscritos nos Centers for Disease Control os termos e expressões feto, diversidade, transgênero, baseados na ciência e apoiados por provas. 

Existe na era Trump uma enorme profusão de proibições, tais como as que incidem sobre designado homem ao nascer, identidade de gênero, LGBT, pessoas grávidas. 

Devem, ainda, ser evitados os termos ou expressões diversidade, justiça social, raça, etnia, discriminação, racismo. 

Trata-se de uma guerra de purificação léxica, destinada a desqualificar tudo quanto se relacione com valores progressistas e com os conceitos das ciências políticas e sociais. 

De acordo com Jean-Jacques Roth, o objetivo é o de se criar um mundo onde o real não se relacione com a razão mas sim com a vontade do poder dominante,
um mundo no qual não se procura a verdade mas no qual se decreta o que deve ser verdade. Isso tem um nome: totalitarismo. 
(por Rui Martins)

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

EDUCADORES (?) DO GOVERNO CATARINENSE BISAM OS CENSORES DA DITADURA MILITAR

Lembram do Weintraub, que o escritor Ignácio de Loyola Brandão qualificou de ministro da Educação sem educação, grosso, horrendo, nojento? Ele deixou seguidores.

Os muares do governo de Santa Catarina acabam de zurrar o banimento de nove livros das escolas do Estado. Eis o ofício da Secretaria da Deseducação, vertido para a linguagem humana: 
"Determinamos que as obras listadas sejam retiradas de circulação e armazenadas em local não acessível à comunidade escolar. Em breve enviaremos novas orientações".
Por que, ao invés de armazená-los, não queimam os livros em público, como faziam os nazistas? 

Pode ser também uma homenagem ao clássico Fahrenheit 451, o filme de 1966 dirigido por François Truffaut, que adaptou para as telas o livro escrito por Ray Bradbury em 1953, quando grassava o macartismo nos EUA...
Para quem não se lembra ou nunca viu, é sobre bombeiros de um estado totalitário que localizam e carbonizam aquele que é um dos grandes diferenciais entre bípedes humanos e quadrúpedes energúmenos.

Dos livros colocados no index escolar catarinense, os mais conhecidos são A Coisa (It) do Stephen King, Laranja Mecânica do Anthony Burgess, Coração Satânico do William Hjortsberg e Donie Darko do Richard Kelly. Todos viraram filmes. 

Os demais proscritos são A química entre nós, de Larry Young e Brian Alexander; Ed Lorraine Warren: demonologistas, de Gerald Brittle; Exorcismo, de Thomas B. Allen; Os 13 porquês, de Jay Ascher; e O diário do diabo, de Robert K. Wittman e David Kinney

Eu aprecio particularmente três desses livros/filmes. No do Stephen King, faço a ressalva de que o autor parecia estar recebendo US$ 1 milhão por página, de tanto que encompridou a narrativa. 

Seu principal mérito foi ter inserido na receita de terror ingredientes de bullying e de rito de passagem. O telefilme de 1990 deu o devido destaque ao que era inovador, enquanto o blockbuster de 2017 quis mais é aplicar os $u$to$ de sempre. 

A parábola de Burgess contra o totalitarismo é imperdível e imprescindível, um dos marcos da era da contracultura. Arrasa como livro e como filme (do Stanley Kubrick, 1971). Chocou-se com o moralismo rançoso dos censores da ditadura militar e, agora, com seus herdeiros travestidos de educadores.

Um paliativo então adotado foi a de cobrir com bolinhas pretas os pênis dos atores, numa sequência em que se movimentavam o tempo todo. O resultado acabou sendo hilário, pareciam bolinhas de pingue-pongue saltitando pela tela.

Coração Satânico, do Alan Parker (1987) é uma história de terror inteligente como dificilmente se vê nos filmes de hoje e tem um Lúcifer inesquecível, interpretado por Robert De Niro.

De resto, a obsessão dessa horda descerebrada com o restabelecimento de dogmas medievais em matéria de religião e de sexo tem um aspecto positivo: evita que tais primatas causem danos muito maiores com atentados terroristas e tentativas de putschs. (por Celso Lungaretti)

domingo, 22 de setembro de 2019

JÁ NEM ME LEMBRAVA DESTE CONTO SCI-FI QUE ESCREVI BEM LÁ ATRÁS. MAS, É COMO DISTOPIA QUE O AMANHÃ SE DELINEIA...

Por Celso Lungaretti
O jornalista Hélio Fernandes, irmão do Millôr, dizia ser capaz de escrever um jornal inteiro, desde o editorial até os necrológios.

Por obrigação ou diversão, acabei também fazendo quase tudo com a palavra escrita: autobiografia, textos jornalísticos, cases, discursos, teses, manifestos, panfletos, crítica artística, ensaios, crônicas, poesias, roteiros, etc.

Como este conto de umas quatro décadas atrás, quando eu era devorador compulsivo das obras de Philip K. Dick, Robert Heinlein, Kurt Vonnegut Jr., Richard Matheson, Robert Silverberg e Ray Bradbury.

Desde então, as ameaças à humanidade só aumentaram, o que o faz, para infelicidade minha e de todos que estão cientes de quão sombrios são cenários que nos esperam adiante, até mais pertinente do que então... 
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GARGALHADA NO INFINITO
Contar ou não a verdade?

Andrônicus vê sua face no espelho, os fios grisalhos se espalhando pela barba, as rugas na testa, o olhar cansado. Lá fora as vozes excitadas, os votos de boa sorte para quem fica e quem vai, o início das despedidas.

Uma hora para a partida. Ou sessenta minutos. Ou três mil e seiscentos segundos. Três mil e seiscentas ocasiões para dizer a primeira palavra, à qual iria seguir-se outra, e outra, e outra, até que ele desembuchasse tudo. E a festa acabaria nesse exato instante, substituída pelo desespero, talvez pancadaria, provável prostração.

De que lhes serviria a verdade? Por que destruir os planos elaborados com tanta argúcia e infinitos cuidados pelos Doze?

Andrônicus olha atentamente o auto-refletor, verificando se estão impressas em seu rosto as marcas do cinismo. Lembra de uma história que foi estudada em sua classe de Antiguidade Cultural, sobre alguém que fez um pacto com uma força maligna para permanecer eternamente jovem, enquanto uma imagem bidimensional sua é que envelhecia e se transformava.

Cada vez que aquele tal... Florian?... cometia um ato vil, hipócrita ou criminoso, a imagem ficava mais feia e repulsiva. “E eu, quão repulsivo deveria parecer?” – atormenta-se Andrônicus. Mas, malgrado seu estado de espírito, o que vê são as feições de um homem digno, apesar dos traços de fadiga e desânimo.

Quando Druso lhe expôs o plano, entretanto, tudo pareceu lógico e justificável.

O solo do Território se exauria de mês a mês, de semana a semana. A produção de cereais era cada vez menor. Verduras e frutas, então, haviam se tornado raríssimas. E as severas medidas anticoncepcionais foram tomadas demasiadamente tarde.

A Colônia estava com 1.248 habitantes. Em um ano, todos estariam se alimentando mal. Em dois, haveria fome e os mais fracos começariam a sucumbir. Em três, a subnutrição, doenças e matanças coletivas acabariam reduzindo a população a menos de cem pessoas. E, mesmo para estas, a perspectiva de vida seria pouco animadora – no máximo, cinco anos.

“Por que não administrarmos esse processo, evitando o sofrimento inútil?” – propôs Druso. 

“Podemos fazer uma seleção científica dos indivíduos que mais merecem sobreviver e eliminar os outros de maneira rápida e indolor. Reduzindo-se imediatamente o consumo de alimentos, o horizonte de vida dos remanescentes se ampliará para uns vinte anos. Talvez dê tempo para surgir alguma salvação...”

Foi assim que Druso lhe explicou a coisa toda, quando pediu sua adesão ao plano. E Andrônicus, único arquiteto de astronaves que sobrevivera às grandes catástrofes, não parou para avaliar implicações morais; começou logo a pensar nos detalhes práticos do projeto.

Talvez tenha pesado mesmo a possibilidade de voltar a exercer sua velha profissão – que, no caso, estava em estrita sintonia com a vocação. Projetar e dirigir a construção de astronaves era o que melhor fazia, o momento em que sentia graça e desenvoltura no seu corpo habitualmente canhestro.

E tão absorto esteve, construindo a astronave para 1.150 pessoas, que nem tomou conhecimento do processo de seleção. “Ou eu estava deliberadamente me alheando?”

O certo é que sua atitude começou a mudar quando Ilana foi compartilhar de seu leito. Desde que a grande peste levara sua mulher e filhos, Andrônicus se esquivava de relacionamento afetivos.

Tudo marchava para o fim e amar uma pessoa era estar sujeito a vê-la morrer antes de si, impotente para mudar o destino. Preferia partir sozinho, não deixando nada e ninguém para trás.

O desfecho, aliás, lhe parecia próximo. Na batalha pelos alimentos, cada vez mais escassos, os fortes alijariam os fracos e a juventude se imporia à velhice. Seus 45 anos não lhe inspiravam grandes ilusões; ademais, achava que já vivera o suficiente. Plantador medíocre, tinha suficiente autocrítica para saber que era um dos membros menos úteis da Colônia.

Trabalhar na construção da astronave lhe devolveu a auto-estima e injetou novo ânimo. Afinal, fazia algo que nenhum outro poderia ou saberia fazer. E, a cada cálculo que realizava ou a cada solução prática encontrada para substituir componentes que já não existiam, mais sentia-se forte e revigorado. Sem o perceber, fazia as pazes consigo mesmo e com a vida, após longos meses de indiferença.

Gostaria de acreditar que foi esta mudança íntima que trouxe a jovem Ilana para o seu leito. Mas, quando conseguia raciocinar friamente, sem a embriaguez do prazer, era obrigado a admitir que ela provavelmente fora atraído por seu novo status. Pai da Astronave, Arquiteto da Salvação – assim o chamavam. Tudo muito impressionante para uma moça que crescera no tempo das privações, sem ídolos para cultuar ou heróis para admirar.

Na primeira noite, ele a procurou quatro vezes, surpreendido com a própria virilidade, que parecia retornar com exigências multiplicadas. E por mais que tentasse conservar o equilíbrio, uma parte mais poderosa do seu eu o impelia a se atirar mais e mais sobre aquele corpo macio e tão desejável. 
Ao amanhecer, enquanto Ilana dormia profundamente, Andrônicus surpreendeu-se a chorar baixinho, sem saber direito por quê. Foi naquele dia que passou a prestar mais atenção no que acontecia ao seu redor.

Agora, fica imensamente pesaroso ao perceber que uma bonita morena, parecida com Ilana, comemora sua inclusão na viagem. Capta o absurdo da situação: os que partem, acreditam que encontrarão a fartura e a possibilidade de começar nova vida em Alpha Centauri, então estão exultantes; os que ficam, recebem isto como uma condenação.

Quais haviam sido mesmo os critérios da seleção? Ah, sim, lembra Andrônicus: iriam se salvar ele próprio, os Doze, os melhores cientistas e técnicos, alguns plantadores vigorosos e três moças férteis para assegurarem a sobrevivência da espécie, caso fosse encontrada uma alternativa para alimentar os pósteros (esperança remota...). Druso dissera que estaria aí a matéria-prima para uma nova civilização, ou, ao menos, para elaborar um registro fiel daquela que se extinguia.

Andrônicus, desde o início, não conseguia evitar o pensamento de que ele só entrara no rol dos sobreviventes pelo fato de ser o único arquiteto de astronaves disponível – caso contrário, ninguém lamentaria que ele explodisse no espaço.

Seu redescoberto interesse pela vida, contudo, despertou-lhe o interesse pelos que morreriam. Vasculha suas lembranças, tentando compor um perfil de cada conhecido designado para a viagem sem volta.

Percebe que, mesmo não tendo um verdadeiro amigo em toda a Colônia, era cada vez mais difícil para ele aceitar a morte de pessoas com quem convivera distraidamente nos últimos anos. Até começa a perceber virtudes e méritos em quem antes absolutamente não o atraía.

Faltando 54 minutos para a partida, procura Druso e lhe impõe uma condição: só cumprirá seu papel até o fim se Ilana for excluída da relação de passageiros. O ancião, com um olhar irônico, aceita.

Difícil mesmo é consolar a jovem, que via como uma destinação natural contribuir para a colonização de Alpha Centauri, com seu vigor e fertilidade. Andrônicus fica tentado a contar-lhe a verdade, mas se contém. A muito custo, ainda conserva o autocontrole.

Trinta e oito minutos para a decolagem. Agora, os segundos se escoam rapidamente, a partida cada vez mais próxima e, com ela, a morte física de tantas pessoas e a morte moral de Andrônicus. Ele mal consegue tirar os olhos dos digitais, sentindo duas poderosas forças lutarem dentro de si, anulando-se e paralisando-o nessa espera ansiosa.

Sabe que, quaisquer que sejam as justificativas racionais para a eliminação daquela gente, ele e os Doze serão amaldiçoados pelos deuses. Organizaram tudo com calculismo e má fé, misturando argumentos lógicos e interesses particulares. “Não merecemos sobreviver”, constata Andrônicus.

A alegria de viver, reencontrada com Ilana, volta-se contra ele, na forma de uma acusação: seu ninho amoroso se assentará sobre cadáveres.

E se falar? Aí, estará tirando a última esperança de toda a comunidade. Morrerão todos, do mesmo jeito, e sem nenhuma ilusão. Será um preço justo a pagar para que o cidadão Andrônicus conserve sua integridade moral?

Repassa os prós e contras, enquanto o tempo marcha inexoravelmente. A 28 minutos da decolagem, Ilana vem até ele, chorosa, após ter se despedido da família. “Pelo menos nós continuaremos juntos, é meu único consolo” – diz. Isto faz Andrônicus sair do impasse.

Compreende que o vôo da morte piedosa não é errado em si, mas as pessoas que tomaram uma decisão tão terrível não devem lucrar com ela. Quem é capaz de sacrificar tantos e tantos companheiros em nome de uma lógica abstrata tem algo de desumano dentro de si, não serve como semente de uma nova civilização nem como oficiante do enterro da velha. Há outros mais dignos para esses papéis.

Ademais, a perspectiva de ter Ilana como recompensa de sua ignomínia é demais para Andrônicus. Só existe um caminho para livrá-lo da abjeção absoluta. E ele resolve ir em frente.

Os Doze estão reunidos na Sala do Poder. Compungidos, até chorosos, mas com a inabalável determinação de sobreviverem. Mesmo sabendo que têm poucos anos pela frente; cinicamente, dizem que, para cada um que morrer, mais alimentos sobrarão para os sobreviventes.

Andrônicus não vacila nem se deixa intimidar. Diz aos anciães que, ou anunciam sua decisão de seguirem também na astronave, ou toda a trama vai ser revelada e os Doze acabarão sendo trucidados pelo povo em fúria. O ultimato acaba sendo aceito.

Treze que se preparavam para viajar, são então forçados a desistir. Adrônicus faz questão de indicá-los pessoalmente: filósofos, poetas e músicos, que deles uma nova civilização não pode prescindir.

Na hora do embarque seu último olhar é para Ilana. “Céus, quanto tempo desperdicei!” – reflete, exatamente quando tempo é o que já não tem.

A bordo, é quem com mais veemência fala sobre as delícias que encontrarão em Alpha Centauri. Quase se convence de que seja realmente fértil e habitável, ao invés de mais um entre todos os planetas áridos e desolados que cercam o agonizante Território.

Nos momentos que antecedem a explosão, seus pensamentos são mesmo para o corpo de Ilana. E tão bem o recorda que, a poucos segundos da hora final, tem uma ereção.

Dando-se conta do absurdo da situação, não consegue reprimir um acesso de riso, que vai contagiando um a um os companheiros de viagem, até desembocar numa ruidosa e triunfal gargalhada.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

MINISTRA QUER BANIR LIVRO DE MONTEIRO LOBATO. BRADBURY EXPLICA.

A distopia Fahreinheit 451, que Ray Bradbury escreveu em 1953 e François Truffaut levou às telas em 1966, poderá se tornar realidade no Brasil de hoje: uma alta otoridade pretende banir um livro importante. Daí para começarmos a queimá-los será um passo.

Uma tal Nilma Gomes, que acaba de assumir a estapafúrdia pasta da Políticas de Promoção da Igualdade Racial (algo assim ainda faz sentido no Brasil, em pleno século 21?!), quer obrigar Cid Gomes a se comportar como o pior dos seus antecessores: o coronel Jarbas Passarinho, que, espantosamente, foi ministro da Educação (!!!) durante a ditadura militar.

Como uma Torquemada extemporânea, a tal Nilma exige que o livro Caçadas de Pedrinho, uma das pérolas da nossa literatura infanto-juvenil, seja colocado no index do Programa Nacional Biblioteca na Escola. Ou seja, reivindica, explicitamente, seu banimento. A última vez que eu ouvira esta palavra odiosa foi quando o regime militar considerou banidos os presos políticos trocados por diplomatas.

Na verdade, trata-se de uma espécie de acerto de contas: a tal Nilma foi a integrante do Conselho Nacional de Educação que, em 2010, produziu o famigerado parecer a partir do qual se desencadeou a virulenta campanha de desqualificação de Monteiro Lobato. Então ela pedia, apenas, a inclusão de notas explicativas no livro --o que, claro, emascularia grosseiramente a obra. Agora radicalizou. As derrotas subiram-lhe à cabeça.
Nazistas queimando livros em 1933, na Alemanha.

Seu erro, de um primarismo atroz, é responsabilizar um escritor pelas frases que este colocou na boca de um personagem com o qual não se identifica.

Ou seja, a Emília realmente esculhamba a Tia Nastácia, disparando-lhe pejorativos que o povo sempre usou, mas em nenhum momento Monteiro Lobato lhe dá razão.

Quem quer que tenha lido as aventuras do Sítio do Picapau Amarelo, está careca de saber que Lobato falava pela boca da Dona Benta e do Visconde de Sabugosa, não pela da pirracenta e malcriada boneca de pano.

Espera-se que Cid Gomes se mostre à altura do cargo, rechaçando esta nova investida inquisitorial. Desde que tal questiúncula foi levantada, o então ministro da Educação Fernando Haddad e o ministro do STF Luiz Fux já botaram os patrulheiros cricris pra correr. Mas, como hidras, parece que será preciso cortar-lhes várias cabeças, até que desistam de afrontar nossa Carta Magna.

Pois, lembro mais uma vez, o art. 5º da Constituição Federal estabelece com máxima clareza que "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença". 

Quem tenta introduzir qualquer forma velada de censura está, portanto, na contramão da nossa Lei Maior. Começa muito mal a tal Nilma.

Quanto aos diligentes garimpeiros de pelo em ovo que se autointitulam politicamente corretos, recomendo-lhes que doravante escolham alvos melhores na sua busca sôfrega por holofotes, esquecendo os gigantes como Lobato --não só um escritor notável, mas também um cidadão imbuído dos melhores ideais, que amargou prisão no Estado Novo, perseguições e prejuízos de toda ordem ao defender de peito aberto os valores nacionalistas e revolucionários.

Se tivessem um mínimo de simancol, iriam aporrinhar outros scholars, deixando os combatentes das causas nobres em paz.

Atiro-lhes de novo na cara a 11ª tese de Marx sobre Feuerbach: "Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo".

Ou seja, quando pararem de desperdiçar esforços tentando mudar a forma como as pessoas se referem às coisas do mundo, talvez lhes sobre tempo para fazerem o que realmente importa: mudar o mundo.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

OS LIVROS NÃO FORAM INCINERADOS, MAS ESTÃO REDUZIDOS A CINZAS


Como rareiam notícias surpreendentes neste início de ano -a barbárie nas prisões brasileiras é estado permanente, pouco importando se às vezes nos choca um pouco mais; temos é de dar-lhe fim, o que nunca conseguiremos com a estirpe maldita do Sarney no governo!-, vamos continuar focalizando a sétima arte. Ajuda-nos a conservar um tantinho daquele otimismo da virada de ano...

Gostaria de disponibilizar mais filmes da nouvelle vague, movimento que foi uma providencial alternativa à pobreza cultural do cinema estadunidense, dominante graças ao poderio financeiro e ao marketing imbecilizante, não -jamais!- à qualidade artística. Mas, eles são aves raras no Youtube, daí a minha enorme surpresa ao encontrar o 30 anos esta noite, legendado e tudo ( por que ninguém postou obras mais significativas, como  O ano passado em Marienbad, Os incompreendidos ou Acossado? Sei lá...).

O mais próximo disto que encontrei é uma fita de François Truffaut que, contudo, não tem propriamente as características da nouvelle vague: Fahrenheit 451 (1966), com a Julie Christie como único destaque de um elenco fraquinho.

Trata-se de uma distopia do grande novelista de SCI-FI Ray Bradbury, transposta para as telas em estilo bem acadêmico, sem nada do experimentalismo com que Jean-Luc Godard visitou o gênero no seu primoroso Alphaville.

Baseia-se numa ilusão muito comum na época (mais ainda do momento em que o livro foi escrito: 1953), a de que o mundo marchava na direção de um comunismo totalitário nos moldes stalinistas.

Mostra um tipo de esquadrão de bombeiros incumbido de localizar e incinerar livros, que é mais ou menos o que se fazia na URSS depois que a revolução foi traída, embora não com procedimentos tão caricatos.

Bradbury jamais deve ter lido os grandes autores da Escola de Frankfurt, que previam para os países capitalistas avançados a mesma anulação da cultura, só que de forma mais sutil: ao invés de práticas que remontavam à Santa Inquisição, a castração de seu potencial transgressor por meio da influência avassaladora e mesmerizante da indústria cultural. 

Hoje, quando visito as grandes livrarias, encontro ouro de tolo ocupando quase todos os espaços, num contraste chocante com os consistentes livros que, na primavera de 1968, ajudavam-nos a entender a sociedade sob a qual padecíamos, ponto de partida para nela intervirmos. 

Sim, os livros que realmente compensa lermos ficaram restritos a ínfimas minorias, quase impotentes para fazê-los cumprir seu papel de sementes das transformações necessárias. Metaforicamente, poderíamos dizer que estão reduzidos a cinzas, mesmo sem terem sido queimados.

Por que assistirmos a Fahrenhait 451 agora? Talvez porque ainda nos emocione, com seu voluntarismo típico de uma época em que os cineastas ainda acreditavam em tentar melhorar o mundo... ou, pelo menos, evitar que piorasse.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

"MOBY DICK" DISSECA OS LÍDERES MESSIÂNICOS E CATASTRÓFICOS

Adaptação cinematográfica clássica de um clássico da literatura, o Moby Dick de 1956 (que vocês podem assistir, completo e legendado, na janelinha abaixo) é praticamente insuperável, em função da excelência da trinca de grandes talentos que reuniu e da perfeita sinergia que se verificou entre eles: 
  • o diretor John Huston, cuja alma de aventureiro lhe permitia valorizar como ninguém as histórias de homens que se propõem desafios quase inalcançáveis e desenvolvem esforços descomunais para concretizá-los -caso também dos fundamentais O tesouro de Sierra Madre (1948) e O homem que queria ser rei (1975).
  • o roteirista Ray Bradbury que, como escritor, foi um dos pais das novelas de sci-fi, tendo praticamente lançado a tendência de enfocar mais as consequências dos avanços científicos sobre os homens e a sociedade, do que embasbacar-se com as geringonças futuristas, como fazia Isaac Asimov. Sem Bradbury não teriam existido Philip K. Dick, Robert Silvelberg, Robert A. Henlein e outros autores que, basicamente, projetaram no futuro, amplificadas, as inquietações e ameaças do presente. Gente desse quilate não trabalha mais para Hollywood, privando o cinema comercial das centelhas de vida inteligente que lhe serviam como álibi para a infinidade de tralhas que despejava nas telas.
  • e Gregory Peck, o ator que parece ter nascido para interpretar o Capitão Ahab. É difícil imaginarmos algum outro ator que tivesse não só a competência artística, mas também o enorme carisma que o papel exige.
A insânia do projeto de Ahab e a liderança messiânica que exerce, envolvendo a marujada na sua idéia fixa e fazendo com que ela marche passivamente para a própria destruição, é o cerne desta obra-prima de Huston. 

Neste sentido, pode-se dizer que inspirou outro filme seminal: Aguirre, a cólera dos deuses (1972), de Werner Herzog. E que ambos foram fortemente inspirados por Adolf Hitler, o homem que mesmerizou o povo alemão e arrastou-o para o mais amargo fim.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

CONSELHO NACIONAL DE (DES)EDUCAÇÃO QUER BANIR MONTEIRO LOBATO

Você já ouviu falar no Conselho Nacional de Educação?

Não, porque não passa de mais uma besteirinha burocrática do  castelo  dos três Poderes -- pior, muito pior que o de Kafka.

De repente, o tal CNE resolveu aparecer no noticiário, talvez para seus membros terem finalmente algo que os coloque em evidência nas rodinhas familiares: "Olha, saiu uma notícia sobre nós! Não somos tão inúteis assim..."

Menos desonroso seria se houvessem se resignado à merecida obscuridade perpétua. Pois a reputação que lhes advirá vai ser a de censores tão tacanhos quanto os da nefanda ditadura militar. Novas  donas Solanges, enfim.

Depois de nada dizerem sobre a enxurrada de lançamentos oportunísticos das editoras, foram implicar logo com o maior escritor brasileiro de literatura infanto-juvenil de todos os tempos: Monteiro Lobato!

Um dos expedientes mais grotescos e deseducadores do capitalismo é a prática de, a cada ano, os sanguessugas da indústria cultural colocarem no mercado centenas de títulos medíocres, impingindo-os aos professores com um marketing tão agressivo quanto o que a indústria farmacêutica adota com os médicos e os divulgadores das gravadoras com os radialistas.

Oferecem a nossos malpagos mestres muitos agrados, para  sensibilizá-los  a indicarem aos alunos um livro recém-lançado a cada novo ano.

Houve tempo em que eu recebia parte dessa tralha, para redigir as resenhas que uma revista familiar publicava. Nunca encontrei nada, absolutamente nada, que chegasse remotamente perto da série do Sítio do Picapau Amarelo, em termos de verdadeira contribuição às mentes jovens.

Mas, claro, o que convém à indústria cultural é a inexistência de clássicos passados de irmão  mais velho para irmão mais novo ou para vizinho, como outrora. Que as pobres famílias tenham de arcar com os custos exorbitantes do lixo impresso, ano após ano. E que se danem os estudantes!

Mesmo porque, sem terem sido introduzidos na literatura de verdade, provavelmente não adquirirão o mau hábito de pensar com as próprias cabeças. Consumirão best-sellers e o besteirol da auto-ajuda. Não é isto que o sistema quer?

Enfim, o tal CNE está sugerindo que Caçadas de Pedrinho não seja distribuído a escolas públicas sob a alegação de racismo; ou que o seja com uma advertência tão ridícula como aquelas de bebidas e cigarros.

Assim zurrou a  Dona Solange  que expôs à imprensa a posição do tal CNE: "Se temos outras que podemos indicar, por que não indicá-las?".

Respondo eu: porque Caçadas de Pedrinho é uma obra-prima e, se a senhora tivesse a mínima familiaridade com a função que exerce, saberia disto.

Um dos muitos méritos de Monteiro Lobato é o de ter sido absolutamente isento  e antagonista dos preconceitos; não só os raciais, como também os sociais. Mostrava os poderosos em sua nudez, como os seres gananciosos, arbitrários e tacanhos que eram, são e continuarão sendo enquanto não construirmos uma sociedade humanizada.

E foi um extraordinário escritor. Daí colocar na boca dos seus personagens afirmações hoje tidas como politicamente incorretas.

Sim, a atrevida boneca Emília às vezes tratava a Tia Nastácia com desprezo. Mas, a voz da sabedoria era a da Dona Benta, que logo tratava de colocar as coisas numa perspectiva correta, cumprindo seu papel de educar os jovens.

Que real benefício existe em esconder das novas gerações que havia preconceitos raciais na primeira metade do século passado, mas que as mentes mais lúcidas deles não compartilhavam e, pelo contrário, os combatiam?

Vamos expurgar a História, fingir que as páginas deprimentes não existiram? Que não houve o Santo Ofício, que não houve escravidão, que não houve torturas e execuções durante a ditadura militar?

Não, o papel do educador é exatamento o oposto: estimular os educados à reflexão sobre o certo e o errado, o humano e o desumano, o civilizado e o bárbaro. É comparando acontecimentos, valores e costumes que um jovem pode chegar a uma compreensão maior do que foi e do que é.

Mas, repetimos, consciência crítica é tudo que o sistema execra. E cidadãos obtusos como esses do CNE, em nome do politicamente correto, contribuem para moldar gerações de videotas que tornarão ainda mais pamonha o inferno pamonha.

Se o ministro da Educação Fernando Haddad aceitar esse parecer repulsivo, passará à História como um personagem de Fahrenheit 451 -- aquela distopia de Ray Bradbury sobre incineradores de livros de um futuro totalitário.

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