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sexta-feira, 28 de julho de 2023

FENÔMENO BARBIE MOSTRA QUE A COLONIZAÇÃO CULTURAL DO BRASIL ESTÁ NORMALIZADA

claudio leal
A crítica da colonização cultural pode soar defasada nesses dias em que o domínio do mercado brasileiro pela indústria do cinema americano se normalizou e assumiu a feição amável do fenômeno "Barbie", de Greta Gerwig.

O marketing de apelo kitsch da Mattel e o vínculo afetivo com o brinquedo infantil impulsionaram o terceiro melhor desempenho em uma estreia no Brasil, com 4,1 milhões de pessoas entre quinta-feira e domingo desta semana. Só foi superado pelos transatlânticos "Vingadores: Ultimato", de 2019, com 5,5 milhões de pagantes, e "Homem-Aranha: Sem Volta para Casa", de 2021, com 4,5 milhões.

Na Folha, lemos que "Barbie" ocupa 2.056 salas de 767 cinemas; "Oppenheimer", de Christopher Nolan, 710 salas de 511 casas. Segundo a Ancine, a Agência Nacional do Cinema, até o fim do ano passado o país tinha 3.401 salas.

Sem o equilíbrio da cota de tela, os dois longas ocupam juntos mais de 80% dos espaços. Sem contar outros gigantes em cartaz. Esses dados revelam uma concentração escandalosa e um cenário de colonização do imaginário.

No fenômeno "Barbie", boa parte da crítica se surpreendeu com os méritos estéticos e o ingrediente das questões de gênero. Por ora, segue tímido o debate sobre os efeitos mentais e econômicos do avanço desregulado da indústria multinacional de cinema, uma anomalia abafada por acadêmicos, críticos, políticos e cineastas mais atentos às contribuições dos blockbusters à arte do filme.

De saída, as greves de atores e roteiristas de Hollywood invalidam a ideia ingênua de que o sistema industrial estimula um pensamento avançado, ainda que róseo, na superação de desigualdades de qualquer ordem.

A incorporação calculada de pautas identitárias e dos melhores talentos do cinema independente não suprime a cadeia de trabalho depreciado, concentração de renda, controle de mercados periféricos e sujeição da obra de arte à publicidade. Como acréscimo, a inteligência artificial promete aprofundar a exploração da personalidade dos atores com tecnologias de ponta.

Mesmo cineastas brasileiros,
não colocam a questão do capitalismo
em suas produções, ao contrário de um
Paulo Emílio Sales.

A crítica ao pendor imperial de Hollywood não inviabiliza o reconhecimento de suas inovações formais. Além do reconhecimento de mestres como John Ford e Alfred Hitchcock, o imaginário dos filmes americanos influenciou as vanguardas do século 20.

A dimensão mítica da indústria convive, porém, com o cerco dramático à diversidade das criações nacionais em países consumidores. Durante muitos anos foi fácil encarnar o diabo na figura do lobista Harry Stone, o representante no Brasil da Motion Picture Association of America, a associação dos principais estúdios de cinema de Hollywood, entre eles Warner, Fox e MGM. Inimigo da cota de tela, Stone era o dragão da maldade contra o santo guerreiro do cinema novo.

Nos dias correntes, a colonização transcorre em termos mais abstratos, numa atmosfera de normalidade. A crítica ao capitalismo perdeu força nos filmes e nos discursos extrafímilcos da maioria dos cineastas em atividade.

A tradição de pensadores robustos do subdesenvolvimento envolve Paulo Emílio Sales Gomes, Glauber Rocha e Ismail Xavier, mas esse manancial crítico adormece na irrelevância pública das discussões sobre a dimensão socioeconômica dos filmes e a alienação e letargia da esquerda diante do colonialismo high-tech.

Nas últimas décadas, houve um avanço no reconhecimento da qualidade técnica de nossos filmes pelos espectadores, mas o quadro colonial oscila sem se abalar.

Os críticos da monocultura industrial são fixados, com frequência, no espectro do nacionalismo, mas essa armadilha precisa ser denunciada no enfrentamento da colonização cultural. E não deve ser temida, pois os nossos principais movimentos artísticos absorveram programas antinacionalistas.

A bossa nova, o cinema novo, a tropicália e o cinema marginal contribuíram para a emancipação simbólica do país sem renunciar à influência estrangeira e, sobretudo na música, sem se negar a conflitos dentro da indústria cultural. O hip-hop também exibe suas conquistas. Mas cabe questionar se o estágio de libertação antropofágica do cinema se encontra agora em processo de recuo.

O cinema marginal se desenvolveu na
chamada Boca do Lixo, em São Paulo.

Os blockbusters devolvem espectadores às salas esvaziadas pela pandemia, mas, ao as ocupar sem freios, oprimem a vida comercial do filme brasileiro, à margem da margem na própria sociedade que julga refletir e representar.

Sem condições de competir no marketing, o cineasta brasileiro enfrenta a asfixia econômica e a inexpressividade do debate crítico de suas obras. Esse lugar de inferioridade se repete ainda no confronto com filmes europeus independentes.

Aos realizadores nacionais resta a frustração com a aparente inutilidade de seus esforços. Os editais do estado atendem à realidade física do filme, mas não revertem a sua trajetória fantasmagórica, nem os privilégios de grandes produtoras e distribuidoras.

Outro sintoma da colonização cultural atinge a crítica e o jornalismo, que, para responder ao público imantado pela indústria do entretenimento, passam a discutir mais a realidade estrangeira que não alcançam do que a pensar as imagens de um país estranho à sua frente. O advento do streaming sugere uma piora nesse domínio de imaginários.

A inconsciência da desigualdade faz com que militantes celebrem ganhos para o debate de gênero em blockbusters que contribuem para reduzir a vida comercial de obras de diretoras como Anna Muylaert, Sandra Kogut, Helena Solberg, Paula Gaitán, Grace Passô, Lô Politi, Petra Costa, Ana Carolina, Juliana Rojas, Helena Ignez, Gabriela Amaral Almeida, Viviane Ferreira, Laís Bodanzky, Tata Amaral, Júlia Murat, Carolina Markowicz, Eliane Caffé, Monique Gardenberg, entre outras a filmar sob a luz tropical.

O Cinema Novo tentava pensar a realidade
brasileira. 
Esse desarranjo afetou ainda o acesso dos espectadores à poética independente de cineastas estrangeiras como Agnès Varda, Chantal Akerman e Claire Denis.

As exceções são sitiadas. Com poucos recursos financeiros, a Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro oferece um contraponto a esse quadro colonial, com a melhor programação de instituições do gênero no país, insistindo no pensamento sobre o cinema brasileiro.

Num paradoxo dos algoritmos, este artigo não escapa à dinâmica frágil de nossa cinematografia. Pode engrossar o caldo crítico de "Barbie" e "Oppenheimer", ainda que deseje denunciar seus efeitos mentais e econômicos desastrosos. (por Claudio Leal, na Folha de São Paulo) 


terça-feira, 13 de junho de 2023

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013. PARTE 4: A QUINTA-FEIRA QUE INCENDIOU O BRASIL

 

13 DE JUNHO DE 2013: A NOITE QUE INCENDIOU O BRASIL

O ano de 2013 começou modorrento na política. Os debates se travavam em torno das possíveis alianças para o pleito presidencial do ano seguinte e especulava-se uma insatisfação do PMDB para com dona Dilma devido à tentativa dela em criar novo partido com Gilberto Kassab. A maior preocupação do lulopetismo era com o tempo de TV na propaganda eleitoral, temia-se perder preciosos minutos na televisão caso a aliança com a direita desandasse. 

Fora da política, o grande debate era com o atraso das obras para a Copa do Mundo. A Copa das Confederações seria já em Junho de 2013 e o cronograma estava atrasado, trazendo a ira da FIFA e comentários nada amistosos de Jérôme Valcke, à época Secretário Geral da organização. As obras para os torneios também traziam escândalos de corrupção e acusações de abusos contra a população pobre, obrigada a se retirar de suas casas para o alargamento de vias e construção ou reforma de estádios. Contudo, nada na superfície indicava o furacão que viria na metade do ano. 

Antes de virar prefeito, Haddad recebeu as 
bençãos de Maluf.
Nas profundezas sociais do país, porém, algo se mexia e as contradições acumuladas durante décadas estavam perto de explodir em fúria e violência. Já no começo do ano as manifestações contra o aumento da passagem em Porto Alegre haviam prenunciado algo novo, mas logo ficaram no passado como mais um ato do obscuro Movimento Passe Livre. 

Fernando Haddad, prefeito recém empossado de São Paulo, havia decidido não aumentar as tarifas do transporte público no começo do ano para não iniciar mal seu mandato. Conchavado com o governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin, postergou o aumento para Junho, e determinou o reajuste em vinte centavos. Logo o MPL convocou manifestações contra o aumento, tal como fizera anteriormente. A resposta de Haddad e Alckmin foi brutal

A manifestação do dia 11 de Junho é reprimida violentamente pela polícia, espancamentos gratuitos são registrados. De Paris, onde estavam para lançar a candidatura de São Paulo para mais um megaevento, Haddad e Alckimin atacam os manifestantes e dão luz verde para o recrudescimento da repressão. O ex-prefeito se refere aos manifestantes como "gente que não aceita o estado democrático de direito". Quem poderia imaginar que essa retórica era tão velha? Alckmin em sua verve fascistóide apenas prefere falar de criminosos e vândalos e ordena o aumento da força policial. Nenhum dos dois se dispõe a negociar o reajuste ou ouvir as demandas dos manifestantes, respondendo apenas com a brutalidade. Não por acaso, hoje ambos estão no mesmo governo, como um sinal da unidade da plutocracia nacional mortalmente ferida naquele 2013.

Editorial do Estadão pede mais repressão aos
manifestantes.

No dia 13 de Junho, editoriais do Estadão e da Folha de São Paulo reclamavam uma dura repressão contra os manifestantes. O Estadão clamava que era chegada a hora do Basta e exortava o governo a impedir as ocupações das vias. Já a Folha dizia que era preciso retomar a Nossa avenida Paulista, se referindo ao principal lugar de concentração dos militantes. Exortado pela mídia, o governo se sentiu justificado em liberar de vez seus cães da coleira, o que viria a provocar naquela noite algumas das cenas mais bestiais da história nacional. 

A história possui momentos de inflexão em que ações aparentemente irrisórias de personagens acabam provocando um deslocamento imprevisto. Esses personagens, inclusive, costumam ser absolutamente medíocres e totalmente desprovidos de qualquer senso histórico, social ou político mais amplo. Naquele 13 de Junho tivemos a confluência da ação desses personagens medíocres - os editorialistas da grande mídia, Alckmin e Haddad - mas que conduziram a desdobramentos inimagináveis e incontroláveis. 

Apesar da repressão, os atos só cresciam.
As manifestações só cresciam em tamanho ato após ato, fazendo jus ao bordão dos manifestantes "Amanhã será Maior!". Naquela quinta mais de dez mil pessoas desfilaram pelas ruas até serem reprimidas pela PM e pela Guarda Municipal. Espancamentos aleatórios, uso indiscriminado de bombas de gás, tiros indiscriminados de bala de borracha, prisões a esmo, vandalismo perpetrado pelos próprios policiais para culpar os manifestantes, tudo isso foi capturado em vídeo por toda região do centro paulistano. A repressão foi tão bestial e despropositada que pessoas alheias à manifestação foram igualmente espancadas. Jornalistas ficaram cegos devido às balas de borracha atiradas pelas tropas e outros foram duramente espancados pelas forças policiais. 

Logo as imagens do terror policial correram o país e provocaram escândalo diante do absurdo e da desproporcionalidade da repressão. Ficou claro para todos o que estava em jogo ali: não era o simplesmente aumento da passagem, era o direito democrático à liberdade de se manifestar. Ao contrário da crença arraigada de que o levante de Junho de 2013 foi catalisado pela alta das tarifas do transporte, o real motivo foi a ação bárbara da polícia naquela noite do dia 13. Os levantes foram, em primeiro lugar, uma resposta à brutalidade policial.

Jornalista da Folha ferida com 
tiro de bala de borracha.

A bestial repressão acabou sendo um tiro pela culatra, pois, ao contrário de esvaziar os atos, estes não apenas cresceram geometricamente, mas se espalharam pelo país. O que eram simples manifestações localizadas à cidade de São Paulo contra o aumento da tarifa se transformaram em levantes de extensão nacional. Em uma semana o Estado brasileiro estava nas cordas e a burguesia brasileira, pela primeira vez em décadas, tremia diante da possibilidade real de uma mobilização revolucionária em suas ruas. 

Como sempre, ninguém tinha ciência do que viriam das mobilizações daqueles dias, mas todos tinham certeza de que nada seria como antes. E, de fato, quando a bola rolou para a medíocre Copa das Confederações, a verdadeira disputa estava nos arredores dos estádios e naquela noite de 13 de Junho de 2013 começava o período mais turbulento e imprevisível da história brasileira no último meio século. (por David Emanuel Coelho) 

LEIA OS PRIMEIROS ARTIGOS DA SÉRIE: 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A LUTA PELO PASSE LIVRE

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A FALÊNCIA DA NOVA REPÚBLICA



sábado, 25 de março de 2023

FOLHA DE SÃO PAULO MOSTRA A FARSA DA ESCOLHA NO NOVO ENSINO MÉDIO

 


R
eportagem da Folha de hoje, 25 de março, dá ideia da farsa da Reforma do Ensino Médio. Seleciono abaixo os principais trechos com os comentários devidos. 

Mesmo seguindo a lei, as escolas não têm estrutura suficiente para atender a opção dos alunos. É o caso da escola estadual Adenilson Franco, em Franco da Rocha, que oferta quatro itinerários, mas não conseguiu garantir que a aluna Janet Baez, 17, fizesse o aprofundamento na área que desejava.

No 1º ano do ensino médio, a escola consultou os alunos sobre qual itinerário queriam seguir nos próximos dois anos. Janet, já decidida a ser arquiteta, escolheu a área de matemática. Mas, no ano seguinte, descobriu que havia sido matriculada na turma de ciências humanas.

"Disseram que não tinham como atender a vontade de todo mundo, que tinham que organizar as turmas pra ficarem todas com o mesmo tamanho."

"O pior é que, além de não ter estudado a área que eu queria, ainda diminuíram o tempo das aulas normais para ter os itinerários. Eu quase não estudei matemática, química e física", conta a estudante, que está no 3º ano e tem apenas uma aula por semana de matemática e de português.


Por lei, as escolas deveriam respeitar a escolha de cada aluno nos chamados itinerários formativos. É a ilusão neoliberal da escolha infinita se aplicando ao ensino. Contudo, os geniais gestores da reforma não se atentaram ao fato simples de que é fisicamente impossível fazer essa oferta aos alunos, seja por insuficiência de professores, seja por insuficiência de salas de aula. 

Resultado? Os alunos tiveram de aceitar itinerários que não haviam escolhido de modo algum, muitas vezes contando com a sorte para saber em qual iriam estudar. 

Professor de uma escola estadual de Arapiraca (AL), Lucas Costa conta que ele e os colegas montaram um plano de quais itinerários iriam ofertar e apresentaram as propostas para os alunos escolherem. Depois descobriram que teriam que seguir outros itinerários já determinados pela secretaria de Educação.

A escola então decidiu dividir os alunos por meio de um sorteio. "Chamaram os representantes de cada classe para acompanhar. Iam falando o nome dos alunos e sorteando para qual turma cada um iria."

Ou seja, a escolha do aluno, propagandeada pelos defensores da reforma, simplesmente é desconsiderada, restando a ele ou a ela se adequar às determinações da Secretaria de Educação. Nisto, qual a diferença com o antigo Ensino Médio e suas disciplinas pré-programadas? A diferença é que agora o aluno perde seu tempo com disciplinas sem valor formativo algum. 

Camila Oliveira, 17, também está em um itinerário que não escolheu. Como quer trabalhar na área de comunicação, ela optou pela área de linguagens, mas foi matriculada em um itinerário de sustentabilidade na escola estadual João Comenius, no Jabaquara, zona sul da capital.

"É uma bagunça porque nem os estudantes nem os professores têm opção de escolher nada. Eu estou fazendo uma disciplina que se chama luz e tecnologia, que envolve o conteúdo de física, mas quem está dando a aula é uma professora de português", conta.

"Essa disciplina não faz o menor sentido, só está tomando o tempo que eu poderia estar aprendendo português com a professora que está ali na sala tendo que dar aula de outra coisa."

Na realidade, nem no Ensino Superior, etapa onde a liberdade do estudante de escolher seu itinerário formativo é maior, existe tanta liberdade de escolha quanto a vendida pela reforma. Imaginar que escolas sucateadas, com professores insuficientes e espaço físico limitadíssimo serão locais capazes de provir qualquer caminho escolhido pelos alunos é simplesmente uma mentira

De fato, por trás de toda a promessa de liberdade do Novo Ensino Médio esconde-se apenas mais uma política de destruição do ensino público, abrindo caminho para a substituição dos professores por profissionais desqualificados - com notório saber de nada - e disciplinas cujo único fim é ensinar ao estudante a se virar na terra arrasada da economia brasileira. (por David Emanuel Coelho)  


quarta-feira, 1 de março de 2023

FAZ BEM O STF EM RETIRAR OS PROCESSOS DE MILICOS DA VICIADA JUSTIÇA MILITAR


 hélio schwartsman

Convite ao corporativismo

Não sei se está tecnicamente correta, mas aplaudo a decisão do ministro Alexandre de Moraes de transferir da Justiça Militar para o STF as investigações e eventuais processos de praças e oficiais envolvidos no 8 de janeiro.

Segundo a colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo, a determinação deixou o pessoal da Justiça Militar furibundo. Integrantes do Superior Tribunal Militar (STM) e do Ministério Público Militar interpretaram o desaforamento como uma demonstração de que o Supremo não confia na Justiça Militar. E é justamente por isso que eu aplaudo a decisão. A Justiça Militar, a meu ver, não é mesmo confiável, não porque seus membros tenham problemas de caráter, mas por uma questão de desenho institucional.

A principal diferença da Justiça Militar em relação à comum é que os casos castrenses são julgados, desde a primeira instância, por órgãos colegiados, compostos por um juiz togado - com formação em direito - e quatro oficiais, que não precisam ter conhecimentos jurídicos. Tal estrutura, que se reproduz com modificações nas instâncias superiores, é um convite ao corporativismo.

Esses conselhos e tribunais podem ser bastante rigorosos quando julgam praças, a base da tropa, que, pensam eles, deve ser mantida sob rígida disciplina, mas se tornam extraordinariamente compreensivos quando deliberam sobre seus pares. As histórias de vida de julgadores e julgados são muito parecidas, o que favorece a ativação dos circuitos da empatia. Os réus poderiam ser filhos ou melhores amigos dos magistrados. Diferentemente do que escreveu Tolstói, tudo compreender talvez não seja tudo perdoar, mas é um bom primeiro passo.

Levantamento da Folha de 2021 mostrou que, nos dez anos anteriores, o STM condenou um único general e arquivou 20 processos contra oficiais no topo da carreira. Alguém poderia achar que é porque oficiais generais são todos modelos de virtude. Não penso que seja o caso. (Hélio Schwartsman

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

ZAMBELLI ESTÁ PULANDO DO BARCO BOZOÍSTA OU É TUDO UMA NOVA ESTRATÉGIA?

 

A entrevista de Carla Zambelli à Folha de São Paulo tem repercutido fortemente entre as forças bolsonaristas e é um sinal ou de que o navio está sendo abandonado ou houve sensível mudança de estratégia. 

Zambelli é uma das mais diletas apoiadoras do ex-presidente fujão, tendo protagonizado dezenas de combates no Congresso e nas Redes Sociais em favor do líder. Possui uma ficha corrida de processos no STF e no TSE, sendo um dos mais notórios o de quando correu armada atrás de um homem no sábado anterior ao segundo turno da eleição presidencial de 2022. 

Este último fato é atribuído por Bolsonaro como fator decisivo para sua derrota eleitoral, pois, em sua concepção, o ato de Zambelli teria afastado os eleitores moderados, jogando-os por completo no colo de Lula. Certamente, não deve ter sido algo tão crucial, mas com certeza foi impactante, e desde o acontecido a deputada tem sido afastada do convívio do genocida

Neste caso, ela pode ter feito o cálculo correto e, por não estar mais nas graças do clã bolsonarista, ter considerado ser o melhor abjurar o antigo credo e excomungar o velho deus. Se a antiga religião não enche mais os cofres do templo, o melhor é pular para a nova. Por isso, seu aceno ao STF, nomeadamente a Alexandre de Moraes, e a busca por trilhar um caminho mais cordato. 

Não é surpresa, pois a essência do bolsonarismo é ser formado por um arremate de oportunistas buscando cada qual seu próprio interesse e benefício. São os aventureiros de todas as épocas de crise que se assomam e seguem o vento para onde ele estiver soprando. Passado o sopro mais intenso, logo correm a desembarcar e protegerem o melhor possível suas posições conquistadas. 

Contudo, podemos também estar assistindo a uma nova estratégia do bolsonarismo, o de distender o clima para salvar-se no período defensivo aberto desde o levante do dia 8 de janeiro. Não se pode esquecer a longa passagem da deputada nos EUA no começo do ano e seus encontros com figuras proeminentes da extrema-direita brasileira e internacional por lá, indicando, talvez, uma ação coordenada a partir do núcleo duro dos reacionários. 

Seja como for, algo se movimenta no seio bolsonarista, seja para mudar ou para estabelecer um caminho diferente do já tomado. (por David Emanuel Coelho


domingo, 22 de janeiro de 2023

POLÊMICA DA FOTO NA FOLHA PROVA QUE LULOPETISMO SÓ BUSCA O INESSENCIAL

A última polêmica nas hostes lulistas foi uma fotografia estilizada que saiu em edição da Folha de São Paulo da quinta-feira, 19 de Janeiro, de autoria de Gabriela Biló. Houve quem defendesse até mesmo intimação policial da fotógrafa e uma nota foi publicada pela Secretaria de Comunicação da Presidência criticando a publicação. 

Coincidentemente, a grita petista lembra os arroubos bolsonaristas contra publicações da imprensa, shows de rock, mesmo peças de humor e, claro, montagens fotográficas. Ambos partem da velha confusão de identificar o cargo de Presidente da República com o de Soberano Monárquico. Caso soubessem um pouco de história, teriam consciência dos cartuns terríveis que circulavam à época do Império retratando Dom Pedro II de forma nem um pouco decorosa. 

Contudo, o ponto nefrálgico aqui não é a discussão a respeito da fotografia em si ou do possível autoritarismo nas reações, mas na completa falta de noção entre as fileiras lulopetisas a respeito do que é essencial, pois a foto em um jornal é um elemento semiótico, do terreno simbólico, ocupando as últimas posições na fila das coisas importantes. 

Sérgio Moro não gostou da facada fest e mandou
abrir investigação contra o festival, quando era ministro
Pois, muito mais grave é o fato de Lula insistir em conciliar com bolsonaristas possivelmente incrustados nos altos escalões do governo, sobretudo nas Forças Armadas. Mais grave é seu ministro da Fazenda, Fernando Haddad, bajular bilionários em Davos com um discurso cujo conteúdo não seria levado à sério nem na mais condescendente banca de TCC. 

Muito mais grave, é não existir, até o momento, a mais remota notícia governamental sobre o que seria feito quanto à roubalheira das Lojas Americanas. E, por fim, infinitamente mais grave é a total falta de plano do governo para retirar o país do buraco em que está metido, para além de repetir o que já não deu certo.  

Tudo isso é muito mais grave, mas não conta com a mesma energia para ser enfrentado por parte dos lulistas. Tigrões com fotógrafas, viram tchutchucas com a turma do governo, mostrando bem o quanto estão pautados pelo inessencial.

De fato, condicionados a fazer política cosmética, sempre lidando com o superficial e nunca descendo à raiz dos problemas, passaram a acreditar ser a atividade militante circunscrita ao reino do simbólico, da representação. Daí se insurgirem contra fotografias, piadas, reportagens, etc. Compartilham nisso algo em comum com o bolsonarismo, também ele governado pelo simbolismo. Ambos estruturados pelo consenso neoliberal, onde o essencial não pode ser tocado. 

Cabe à esquerda ir além de fantasmas, imagens, e tocar a nervura do real, em toda sua concretude. (por David Emanuel Coelho)

quarta-feira, 20 de julho de 2022

FOLHA DE SP: É PRECISO QUE BOZO SEJA IMPEDIDO PELAS FORÇAS DA DEMOCRACIA

PRESIDENTE GOLPISTA
É incomum o editorial vir assim, com chamada de capa
O
presidente da República se empenha em destruir as eleições periódicas no Brasil. Como o êxito é improvável, a sua segunda linha de fogo é a de conturbar a vida cívica nacional, o que não dispensa a incitação de arruaças e sublevações.

É preciso que seja impedido pelas forças vivas da democracia.

Organizações de Estado que construíram reputação de profissionalismo ao longo das últimas décadas se atolam na lama da marcha autoritária. As Forças Armadas e o Itamaraty se metem em conspiratas contra as urnas eletrônicas.

Convidaram-se dezenas de embaixadores estrangeiros para um insólito ataque, recheado de mentiras repetidas, do chefe de Estado à cúpula do Judiciário do seu próprio país. Rebaixa-se a diplomacia brasileira às fossas da conivência golpista.

O presidente do Senado apôs à gravíssima investida algumas palavras de bom senso político. Acabou o momento de debater o sistema de votação. A emenda que estabelecia a impressão do escrutínio foi derrotada ainda na Câmara.

O presidente da Casa dos deputados calou-se, como tem se calado sobre os pedidos de impeachment acumulados em sua gaveta. Cúmplice de um chefe de governo que há muito perdeu as condições de permanecer no cargo, acomoda-se ao casamento de interesses com o Planalto, que lhe transfere o controle das manivelas da execução do Orçamento.

Dinheiro em troca da tolerância ao bonapartismo eis o pacto que sustenta o presidente da República no Congresso Nacional.

O governante não gasta energia com programas, não entra no jogo parlamentar para promover políticas públicas, não batalha por prioridades da gestão. Entrega os impostos cobrados dos brasileiros à rapinagem clientelista desde que o deixem livre para metralhar sustentáculos da Carta democrática.

É um jogo perigoso. Abona o chamamento a rebeliões fascistoides em caso de derrota eleitoral. Flerta com as baionetas a que o tirano gostaria de recorrer na primeira oportunidade. A representação sucumbe ante as rebeliões; o Parlamento morre sob as baionetas.

Da comunidade política, portanto, precisa partir a reação contra a escalada subversiva do presidente da República. Todos os líderes partidários devem uma manifestação urgente de apreço inequívoco pelas regras básicas da democracia.

A votação ocorrerá pela urna eletrônica, os resultados serão obedecidos, os eleitos tomarão posse nas datas previstas, e os derrotados insatisfeitos terão a via única do recurso judicial para manifestar suas queixas. A violência e o tumulto não serão admitidos.

Basta de negociar com promotores da ditadura. (editorial da Folha de S. Paulo de 20/07/2022, que desta vez teve até chamada de capa)

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

A PANDEMIA É A RESPOSTA BIOLÓGICA DO PLANETA ÀS EMERGÊNCIAS ECOLÓGICAS E SOCIAIS NEGLIGENCIADAS. IMPERDÍVEL!!!

A melhor interpretação da crise sanitária que nos assola, de quantas tomei conhecimento até agora, é a do físico e ambientalista austríaco Fritjof Capra, 81 anos.

Diretor do Centro de Alfabetização Ecológica (sediado em Berkeley, EUA), ele é autor de best-sellers internacionais como O Tao da Física e Ponto de Mutação, nos quais propôs uma reflexão em profundidade sobre como a humanidade e suas ações estão conectadas com os ciclos de transformação da vida no planeta.

Da entrevista que ele deu por e-mail à repórter Fernanda Mena, publicada na edição desta 2ª feira (10) da Folha de S. Paulo, fiz a síntese abaixo das respostas mais significativas, que recomendo fortemente aos leitores. (o editor)
.
"A ILUSÃO DE UM CRESCIMENTO ILIMITADO NUM PLANETA FINITO É O DILEMA FUNDAMENTAL QUE PERMEIA NOSSOS PROBLEMAS GLOBAIS"
O coronavírus deve ser visto como uma resposta biológica de Gaia, nosso planeta vivo, à emergência social e ecológica que a humanidade criou para si própria. A pandemia emergiu de um desequilíbrio ecológico e tem consequências dramáticas por conta de desigualdades sociais e econômicas.

Cientistas e ativistas ambientais há décadas vêm alertando para as terríveis consequências de sistemas sociais, econômicos e políticos insustentáveis. Mas até agora as lideranças corporativas e políticas teimaram em resistir a esses alarmes. 

Agora elas foram forçadas a prestar atenção, já que a Covid-19 trouxe os avisos de antes para a realidade de hoje.

Com a pandemia, Gaia nos trouxe lições valiosas capazes de salvar vidas. As questões são:
— teremos a sabedoria e a vontade política necessárias para ouvir essas lições? 
— mudaremos do modelo de crescimento econômico indiferenciado baseado no extrativismo para outro de crescimento qualitativo e regenerativo? 
— vamos substituir combustíveis fósseis por formas renováveis de energia que deem conta de todas as nossas necessidades? 
— vamos substituir nosso sistema centralizado de agricultura industrial com uso intensivo de energia por um sistema orgânico de agricultura regenerativa, familiar e comunitária? 
— vamos plantar bilhões de árvores capazes de retirar o CO2 da atmosfera e de restaurar diferentes ecossistemas do mundo?

Se temos todo o conhecimento científico e tecnológico para construirmos um futuro sustentável, porque não o fazemos simplesmente?
A densidade populacional excessiva favorece as pandemias e precisa ser reduzida
A crença num progresso contínuo e, em particular, a obsessão de nossos economistas e políticos com a ilusão de um crescimento ilimitado num planeta finito constituem o dilema fundamental que permeia nossos problemas globais.

Isso equivale ao choque entre o pensamento linear e os padrões não lineares da nossa biosfera —a interdependência dos sistemas ecológicos e os ciclos que constituem a teia da vida. Essa rede global altamente não linear contém inúmeras alças de retroalimentação por meio das quais o planeta se regula e se equilibra.

Nosso sistema econômico atual, ao contrário, parece não reconhecer a existência de limites.
Já passou da hora de eliminarmos os combustíveis fósseis

Nele, um crescimento perpétuo é perseguido incessantemente através da promoção do consumo excessivo e de uma economia do descarte que usa de maneira extravagante tanto recursos como energia, aumentando a desigualdade econômica.

Esses problemas são exacerbados pela emergência climática global, causada pelas tecnologias de uso intensivo de energia e baseada em combustíveis fósseis.

Valores humanos, no entanto, podem mudar porque eles não são leis naturais. A mesma rede eletrônica de fluxos financeiros pode ter nela embutidos outros valores. O ponto crítico não é a tecnologia, mas a política.

Para prevenir o alastramento da pandemia, agora e no futuro, teremos de reduzir densidades populacionais excessivas, como ocorre no turismo de massa e em condições de vida marcadas pela superlotação. Ao mesmo tempo, necessitamos de cooperação global.

O aprofundamento das desigualdades é uma característica inerente ao sistema econômico capitalista de hoje. O chamado mercado global é, em verdade, uma rede de máquinas programadas de acordo com o princípio fundamental segundo o qual ganhar dinheiro tem primazia sobre direitos humanos, democracia, proteção ambiental.
Justiça social é questão de vida ou morte em pandemias

A justiça social se torna uma questão de vida ou morte durante uma pandemia como a da Covid-19. E ela só pode ser superada por meio de ações coletivas e cooperativas.

Quando nós entendemos que compartilhamos não apenas as moléculas básicas da vida, mas também princípios elementares de organização com o restante do mundo vivo, percebemos o quão firmemente estamos costurados em todo o tecido da vida.
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