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quinta-feira, 15 de maio de 2025

A 'FOLHA DE S. PAULO' AGORA PUBLICA INCLUSIVE ENTREVISTAS PSICOGRAFADAS

Protesto na porta da Folha em 2009: qualificara a ditadura militar de ditabranda.
O
mundo gira e a Lusitana roda. O
Estado de S. Paulo e a Folha de S. Paulo passaram por muitas mudanças ao longo dos tempos, mas conservaram uma diferença essencial: 
-- o primeiro, porque foi comandado durante longo tempo por uma família ligada ao jornalismo, exibiu caráter em alguns momentos marcantes; 
-- a segunda, que nasceu pela mão de comerciantes, era e continua sendo amoral, colocando interesses acima de princípios.

Assim, o jornalão dos Mesquitas teve o mérito de lutar firmemente contra a ditadura de Getúlio Vargas, que deveria ter sido unanimemente repudiada por toda a esquerda durante todos os 15 anos que durou, mas foi ora tratada de forma complacente, ora objeto de uma destrambelhada intentona, conforme iam mudando o humor e as ordens de Stálin.

O Estadão fez a opção correta ao aderir abertamente à dita revolução constitucionalista, enquanto a Folha ficou em cima do muro em 1932. 
Revoltosos de 1932 exibem exemplar do Estadão
Depois, contudo, a Internacional stalinizada resolveu tirar da cartola um putsch em 1935, despachando Luiz Carlos Prestes para cá com poderes de verdadeiro interventor sobre o partidão: voltou incumbido de vergar a espinha do comitê central do PCB, que não via com bons olhos aquela aventura militar sem respaldo na militância, já que havia sido decidida da noite para o dia.

Foi altaneiro o Estadão ao riscar de sua história o período em que, como represália da ditadura de Vargas, teve sua redação submetida a um interventor in loco.

E continuou sendo altaneiro ao romper com a ditadura dos generais, quando esta não cumpriu o compromisso de devolver o poder aos civis após os expurgos e mudanças de ordenação política que ela veio impor. 

Embora houvesse sido uma das principais lideranças civis da conspiração golpista, o Grupo Estado acabou tendo seus dois veículos (o Estadão e o Jornal da Tarde) censurados e recusando-se a preencher o espaço com novas notícias: o primeiro ali colocava trechos de Os Lusíadas de Camões e o segundo, receitas culinárias.

Mais emblemática ainda foi a atitude de ambos com relação ao DOI-Codi. O Grupo Folha orientou seus recepcionistas a ligarem para os jornalistas buscados pela repressão e, sob falsos pretextos, atraírem-nos para o saguão, onde eram presos. Além disto, cedia suas viaturas para camuflarem as incursões dos agentes.
A Folha era retaliada por ceder veículos à repressão

Já no concorrente da rua Major Quedinho, o tratamento era bem diferente. Quando uma patrulha do DOI-Codi chegou para pegar um repórter do
JT, o diretor de redação proibiu seu ingresso no prédio e mandou a equipe de segurança garantir que sua ordem seria cumprida.
"Lá fora ele pode ser subversivo, mas aqui dentro ele é meu jornalista", justificou.

Em seguida, acionou o governador Abreu Sodré e, como resultado das tratativas, os todo poderosos agentes da repressão tiveram de ficar esperando na calçada. Em vão, porque o mesmo diretor levou o por eles caçado, no porta-malas do próprio carro, até seu sítio e lá o abrigou. 

E, após Vladimir Herzog ser assassinado pelo DOI-Codi, o Grupo Estado decidiu que, quando jornalistas da casa fossem intimados a comparecer para interrogatórios, algum diretor da empresa deveria sempre acompanhá-los, para garantir-lhes a integridade física.

Quis o destino que a Folha de S. Paulo tivesse uma chance de reabilitar sua imagem, que havia sido tão emporcalhada nos anos de chumbo, participando intensamente da campanha das diretas-já em 1983/84.
Bolsonaro teme que prisão cause sua morte política 
Mas, a que vêm estas recapitulações no dia de hoje? À deplorável iniciativa da
Folha de S. Paulo, de entrevistar nesta quarta-feira (14) o miasma fedorento do politicamente defunto Jair Bolsonaro. Deveria ter seguido a Bíblia e deixado os mortos enterrarem seus mortos.

Como nunca comentei livro psicografado por médiuns, também não comentarei o besteirol de ontem. O que tinha a dizer, já disse num comentário que enviei de imediato para o UOL e foi nele publicado:
"O UOL bem que poderia nos poupar dessas constrangedoras tentativas de justificar o injustificável. Jair Bolsonaro, hoje, não passa de uma prisão esperando acontecer. As centenas de milhares de brasileiros que ele condenou à morte com sua sabotagem alucinada à vacinação contra a pandemia já não têm voz. Por que dar voz ao seu carrasco?".
Respondo a pergunta que eu mesmo fiz: porque este sempre foi o comportamento da Folha e suas derivações, conforme acima demonstrado.
 
Aliás, não fui sequer original: vários outros comentaristas fizeram a mesmíssima crítica.  (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

10 ANOS APÓS A MORTE DE SARACENI, UM NOVO DESAFIO ESTÁ NAS RUAS

Paulo César Saraceni morreu em 2012.

Tinha 78 anos e fazia cinema desde 1959.

Em mais de meio século de atividades, dirigiu 13 filmes, nove dos quais também roteirizou.

Foi um dos fundadores do  cinema novo, mas nem de longe fez obras de importância equiparável às dos dois outros parceiros de empreitada: Glauber Rocha (indiscutivelmente, o maior cineasta brasileiro de todos os tempos) e Nelson Pereira dos Santos (bem mais prolífico e realizador de clássicos como Rio 40 Graus e Vidas Secas).

No entanto, Saraceni constituiu-se numa referência muito forte para minha geração, por um único motivo.

Seu O Desafio, lançado em 1965, foi provavelmente a primeira resposta cinematográfica à quartelada.

Enfoca os sentimentos de culpa, impotência e prostração subsequentes à vergonhosa derrota sem luta.

Foi o mal-estar que acometeu toda aquela esquerda: supunha-se a um passo do poder, iludida pelo triunfalismo inconsequente do Partido Comunista Brasileiro e seu principal dirigente (Luiz Carlos Prestes), mas acordou ouvindo marchas militares no famigerado 1º de abril de 1964.

E dá-lhe más ressacas! E dá-lhe lavagens de roupa suja! E dá-lhe lutas internas no partidão! E dá-lhe rachas!

Em 1965, a esquerda lambia as feridas e se reconfigurava, voltada para dentro de si mesma. Não reagia.

Aí, foi lançado
O Desafio. E –juro!– o título apareceu pichado nos muros de São Paulo. Só o título, com a tinta escorrendo. Eu tinha 14 anos, via aquilo e nada entendia. Ignorava que fosse uma mensagem vinda das catabumbas: não estamos mortos!

Só em 1967, dando os primeiros passos no movimento estudantil, fui assistir ao filme e compreender o motivo das pichações.

E, francamente, não gostei daquele imenso desencanto que ele flagra, o atoleiro no qual se move Marcelo, o personagem politizado (interpretado pelo Vianninha, de saudosa memória), durante quase todo o tempo.

Mas vibrei com o final, quando ele enfim levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima, decidido a voltar ao bom combate.

Isto ficou apenas sugerido, como se fazia necessário sob o tacão da censura. Depois de um porre com um repulsivo colega de trabalho, vão ao apartamento deste, cuja esposa se despe e se-lhe oferece. Antes que ele tenha qualquer reação, o marido acorda e fita ambos, em meio à sua névoa alcoolica. 

Marcelo empurra a mulher e vai embora, enojado. Desce uma escadaria com expressão resoluta, afaga a cabeça de um menino pobre e se distancia, marchando ao encontro do seu destino.

Tudo isto ao som de um tema da peça Arena conta Zumbi: É um tempo de guerra,  canção que Augusto Boal, Gianfrancesco Guarnieri e Edu Lobo haviam derivado da poesia antológica de Bertolt Brecht, para usar o esmagamento do quilombo de Palmares como metáfora do golpe militar.
Na peça, era a lição que um guerreiro às portas da morte legava aos que viriam depois. Uma sugestão velada também, claro ("Eu sei que é preciso vencer/ Eu sei que é preciso lutar/ Eu sei que é preciso morrer/ Eu sei que é preciso matar"). 

Só que parecia algo meio distante, lá pra frente, pois o momento era de derrocada.

No filme, ficou mais fácil perceber que se tratava do passo seguinte, imediato: um recado de que não só a luta tinha de ser retomada, como assumiria doravante características de guerra.

Foi profético. Houve mesmo a guerra, de consequências trágicas para a esquerda (quantos quadros insubstituíveis foram dizimados!), mas inevitável: ela só reconquistaria o respeito do povo caso se dispusesse a sangrar por seus ideais, como deixara de fazer em 1964.

Muitos dos que não pegaram em armas recriminaram nosso  vanguardismo, nosso imediatismo pequeno-burguês. Segundo eles, só servíramos para acirrar a repressão e fornecer pretextos para o endurecimento do regime.

Omitiram ter sido exatamente sua tibieza em 1964, quando deixaram de travar a luta em condições bem mais favoráveis, que nos obrigou a assumir adiante a missão quase kamikaze de lavar a honra da esquerda, virando a página da desmoralização e restituindo-lhe a credibilidade. 

Resolvi rememorar o desafio de 1965 porque um novo desafio será lançado às forças da intolerância e do retrocesso daqui a três, diante da Faculdade de Direito da USP,  no Largo São Francisco, com a leitura de dois manifestos antigolpe que têm tudo para detonarem as últimas esperanças do presidente delinquente. 

Aqueles que pensam por ele (pois se trata de uma faculdade da qual o Bozo é carente) temem que o ato da 5
ª feira consolide definitivamente a rejeição ao celerado, desencadeando a revoada dos apoiadores comprados por cargos e verbas públicas para a arca de Noé do Lula, na qual cabe tudo, até cobras e lagartos...

Nisto, pelo menos, eles estão certos: tal página, uma das mais vergonhosas da História do Brasil, deverá mesmo começar a ser virada nesta quinta.

Enquanto esperamos, que tal darmos uma olhadinha em O desafio, para irmos entrando no clima? (por Celso Lungaretti) 

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

VEJA OU REVEJA "O DESAFIO" DE 1965. SERÁ "MARIGHELLA" O DESAFIO DE 2021?

O inesquecível Vianninha nos deixou cedo demais...
O
 desalento e apatia nas fileiras da esquerda brasileira, após sofrer os sucessivos e terríveis abalos do impeachment da Dilma, prisão do Lula, eleição do Bolsonaro e entrega de Battisti à Itália, lembra muito a prostração subsequente ao golpe de 1964, quando a facilidade com que João Goulart foi expelido pelos conspiradores da caserna nos machucou quase tanto quanto a derrubada em si. 

Como voltar a crer nos dirigentes responsáveis por aquele desastre depois de as fanfarronices de Luiz Carlos Prestes se desmancharem vergonhosamente no ar, com um passeio de recrutas pela BR-3 (hoje rodovia BR-040) bastando para botar governantes e dirigentes de esquerda em fuga desabalada?

É esse momento de profundo desencanto que  O desafio (d. Paulo César Saraceni, 1965) flagrou, esmiuçou e pretendeu superar, apontando o caminho da retomada da luta.

De quebra, o filme dá, a quem viveu aqueles tempos, oportunidade de rever figuras queridas do cinema e das artes, como Elis Regina, Hugo Carvana, João do Vale, Joel Barcellos, Maria Bethânia, Nara Leão, Oduvaldo Vianna Filho, Zé Keti e outros. Quantos já se foram... 

A utilização de 
É um tempo de guerra (um dos temas musicais da peça Arena conta Zumbi, adaptando poesia célebre – vide aqui – de Bertolt Brecht) dá a palavra final: impossível conviver-se passivamente com o que o Brasil havia se tornado, então era hora de juntar os cacos e iniciar a resistência à desumanidade.

Estudantes pichavam os muros com o título do filme, que tinha duplo significado, sugerindo tratar-se de um repto cinematográfico ao regime militar. 

Lá pelos meus 14 anos, eu não entendia que raio de desafio era aquele. Levaria um tempinho para compreender. Mas, quando entendi, encontrei meu caminho na vida para sempre.

Marighella, de Wagner Moura, está cumprindo papel parecido atualmente... (por Celso Lungaretti) 

sábado, 5 de junho de 2021

BOLSONARO VENCEU UMA BATALHA QUE APRESSARÁ A SUA DERROTA NA GUERRA

S
e Jair Bolsonaro tivesse os conhecimentos históricos indispensáveis para um presidente de verdade, jamais afrontaria os altos comandantes militares como acaba de fazê-lo, repetindo a insensatez de João Goulart no dia 27 de março de 1964, quando anistiou marinheiros insubmissos cuja prisão o ministro da Marinha determinara.

Com isto, involuntariamente coroou de êxito a estratégia dos golpistas, de instigar cabos e sargentos contra os oficiais das Forças Armadas, na qual teve papel destacado o chamado Cabo Anselmo que, conforme ficou definitivamente provado há exatos 10 anos (vide aqui), já era um agente provocador quando radicalizava as assembleias da marujada com sua retórica incendiária.

José Raimundo da Costa, meu companheiro de militância na Vanguarda Popular Revolucionária, me contou que um oficial da Marinha o foi prender naquele período, a bordo do navio em que servia. Seus colegas marujos lhe perguntaram:
— O que fazemos com esse palhaço?
Moisés foi o último
comandante da VPR
Ao que ele respondeu, sem nenhuma hesitação:
— Jogamos no mar, é claro! 
O Moisés (seu nome-de-guerra) não podia adivinhar que o tal oficial jamais esqueceria tamanha humilhação e, passando a integrar o serviço secreto da Marinha, moveria céus e terras para capturá-lo e tirar vingança. Provavelmente teve muito a ver com seu covarde assassinato na Casa da Morte de Petrópolis, em agosto de 1971, após ter caído numa armadilha do (logo quem!) cabo Anselmo 

O maniqueísmo simplista da maioria dos esquerdistas atuais os leva a reservarem para os militares invariavelmente o papel de vilãos, sem uma análise rigorosa dos episódios passados nem um aprofundamento dos atuais.

Que os altos oficiais das três Armas, em sua maioria, sempre penderam mais para a direita é óbvio, até por provirem de famílias abastadas, mas daí a crer que eles invariavelmente foram golpistas e fascistas distorce os fatos:
— o tenentismo da década de 1920 consistiu, basicamente, em revoltas contra o status quo oligárquico na chamada República Velha, com participação de jovens oficiais tanto de esquerda quanto de direita;
— dentre os de esquerda, destaque, claro, para Luiz Carlos Prestes, que depois seria indicado pela Internacional Comunista para o papel de dirigente máximo do PCB;
— dentre os de direita, Olímpio Mourão Filho, que chefiaria o serviço secreto integralista, forjaria o Plano Cohen (fajutice que serviu como pretexto para justificar a instauração do Estado Novo em 1937) e desencadearia o golpe de 1964, ao colocar suas tropas na Via Dutra, em marcha para o Rio de Janeiro;
— as Forças Armadas tanto combateram a Revolta Vermelha (ou Intentona Comunista) de 1935 quanto o Levante Integralista de 1938;
— Getúlio Vargas, ideologicamente próximo do fascismo, teve de renunciar ao poder em outubro de 1945, sob ameaça de um golpe militar (!);
Figura muito discutível em termos políticos, Vargas foi
exemplar ao tornar sua morte uma arma contra o inimigo
— convertido em nacionalista após os EUA haverem favorecido seu defenestramento, Vargas estava prestes a cair  novamente em 1954, graças a um golpe orquestrado principalmente pela UDN, com apoio explícito de oficiais da Aeronáutica, e que obteve a adesão de generais do Exército no momento decisivo. Mas, com seu suicídio e carta-testamento, Getúlio inviabilizou a tomada de poder pelos golpistas e o oficialato militar se conformou, aceitando que o vice-presidente Café Filho assumisse a presidência;    
— nova tentativa de golpe respaldada por oficiais ocorreria com a renúncia de Jânio Quadros em 1961, com a recusa em empossarem o vice-presidente João Goulart, mas a resistência do governador gaúcho Leonel Brizola, com o apoio do III Exército, abortou a empreitada, prevalecendo uma solução de compromisso: Jango assumiria, mas com seus poderes limitados pela introdução do parlamentarismo;
— por fim, o golpe tramado desde a década anterior por um grupo de militares liderado pelo marechal Castello Branco e assessorado pela CIA virou realidade em 1964, mesmo assim só se tornando consensual entre os altos comandantes na reta final, após sucessivos episódios de quebra da hierarquia como os que relatei na abertura deste artigo.

Ou seja, embora houvesse um dispositivo golpista há muito montado por uma ala militar e buscando incessantemente tanger os acontecimentos para a ruptura institucional, a coisa só engrenou de vez após os oficiais se verem desacatados abertamente pelos subalternos, com a tolerância de Goulart.
Lyndon Johnson engolia
todas as lorotas da CIA

Outro fator importante foi Lyndon Johnson haver sido empossado na presidência dos EUA em 22 de novembro de 1963, substituindo o assassinado John Kennedy, que era bem diferente daquele caipirão texano que comia nas mãos da CIA.

Embora os golpistas estivessem havia muito tempo sendo apoiados pelos falcões estadunidenses, temiam que Kennedy refugasse, não querendo envolver-se com a derrubada de um presidente estrangeiro (afinal, ele negara, na enésima hora, o apoio aéreo do qual os mercenários a soldo dos contras cubanos careciam para terem alguma chance de êxito ao desembarcarem na Baía dos Porcos).

Com a certeza de que teriam os EUA a seu lado, durante e depois do golpe, os castellistas partiram para a última etapa do plano, a conquista dos quartéis, facilitada pelo jogo duplo de uns e a ingenuidade de outros dos subalternos revoltosos. 

Mesmo ao longo dos 21 anos de trevas, também não havia monolitismo nas Forças Armadas, mas contínuas disputas pelo poder.

Antes de 1968, a linha dura pugnava para radicalizar a ditadura e os castellistas queriam honrar sua proposta inicial de uma intervenção saneadora, seguida da devolução do poder aos civis. As escaramuças se sucederam ao longo do ano até que um discurso algo pueril do deputado Márcio Moreira Alves (que sentido fazia recomendar às moças que não namorassem com cadetes das escolas militares?!) forneceu o componente emocional necessário para a imposição do golpe dentro do golpe, o AI-5, à medida que os parlamentares negaram permissão para que seu colega fosse julgado (e, inevitavelmente, cassado).

Mesmo assim, os castellistas contra-atacaram e é provável que tal cheque em branco para o terrorismo de Estado sem quaisquer limites tivesse sido cancelado pelo ditador Costa e Silva, se o piripaque que o acometeu não o prostrasse antes de revogar o AI-5, conforme cogitava. 
O que mais se aproximou de um monolitismo foram os anos Médici (de outubro/1969 a março/1974), com os castellistas reduzidos à impotência e a linha dura torturando, matando e barbarizando à vontade.

Havia, ainda assim, uma ala militar minoritária que seguia o exemplo do presidente peruano Juan Velasco Alvarado, contestando a subserviência aos EUA, defendendo medidas como a nacionalização de setores-chave da economia e a ampliação do limite territorial marítimo para 200 milhas (que, para contentá-la, Médici adotou). Mas, coincidia com a linha dura quanto à radicalização da ditadura.

A partir da posse de Ernesto Geisel, as disputas militares se reacenderam entre os aceitavam sua proposta de uma gradual abertura política, desenhada por Golbery do Couto e Silva, e a ainda influente linha dura, que explodiu bancas de jornais, enviou cartas-bombas, sequestrou pessoas, planejou atentados que teriam causado morticínio em larga escala como o do Riocentro e fez provocações como os assassinatos de Vladimir Herzog e Manuel Fiel Filho no DOI-Codi, até ser finalmente derrotada, ao custo das sucessivas exonerações do comandante do II Exército e, em seguida, do próprio ministro do Exército.  
Militares, aliás, devem perder o sono com a hipótese 
de se verem igualados às milícias e/ou às PMs
De 1985 até a posse do pior presidente da República do Brasil em todos os tempos, houve relativa paz na caserna, com a prevalência dos oficiais que queriam manter as Forças Armadas limitadas aos seus deveres constitucionais; restou apenas um pouco de
ruído, proveniente da velha guarda ideologizada, que tudo fazia para manter sob o tapete do esquecimento as práticas hediondas da ditadura. 

Bolsonaro, que teve de passar à reserva do Exército em 1988 para escapar de uma punição mais condizente com a gravidade dos seus contínuos desacatos aos superiores hierárquicos, nada aprendeu com sua destrambelhada tentativa de peitar os comandantes. Aproveitando a sua, no mínimo lotérica, ascensão à presidência, duas vezes já cedeu à tentação de retaliar a instituição que o expeliu.

Pelo que conheço dos bastidores da caserna (e não é pouco, pois jamais deixei de registrar na memória e de refletir sobre tudo que presenciava ou ficava sabendo durante o período em que fui hóspede compulsório dos fardados, nem de analisar os episódios militares subsequentes à luz do que havia aprendido), são corretos os relatos de que os altos comandantes estão profundamente insatisfeitos com a humilhação a que o Exército acaba de ser exposto.

O fato de haverem refugado desta vez nem de longe garante que Bolsonaro já tenha tudo dominado. Serve-lhes, contudo, como advertência de que, quanto mais cederem, mais desmoralizados ficarão. E de que, perdendo o respeito dos subalternos, estarão sujeitos a terem suas ordens por eles desacatadas e até a serem atirados no mar, como em 1964.

Ademais, se o êxito da ditadura parecia uma aposta pelo menos plausível em 1964, só néscios hoje não percebem que, com as crises sanitária e econômica agravando-se cada vez mais e com o mundo inteiro encarando o Brasil como pária, sem esperança de qualquer tratamento privilegiado por parte dos EUA, o futuro que se desenha para nosso país é o pior possível: depois da anarquia militar, o caos. 
Freud diria que Bolsonaro é movido por
um desejo inconsciente de autodestruição

Com a agravante de que o governo e a popularidade de Bolsonaro derretem a olhos vistos, sem nenhuma chance de reviravolta, pois os maiores problemas que enfrentamos, ou estão sendo causados por ele ou por ele potencializados. Se pagarem pra ver, os oficiais constatarão que desperdiçam suas fichas de popularidade sucumbindo a blefes.

Como néscios os altos comandantes militares não são, salvo um ou outro que se presta a servir de ajudante-de-ordens para um reles capitão baderneiro, não duvido de que eles logo extraiam as conclusões que se impõem e ajam em conformidade com elas. 

Caso contrário, as consequência serão trágicas para os brasileiros e aviltantes para eles. Quantos sapos ainda serão capazes de engolir? (por Celso Lungaretti)     

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

"EXPLODIR OS LIMITES DA LINGUAGEM PARA QUE O MUNDO VÁ JUNTO": É O QUE SAFATLE SUGERE A QUEM QUER ENTENDER POLÍTICA

NÃO FALAR
Diante de 100 mil mortos, ocupar os espaços públicos para falar à classe média sobre como suportar a pandemia é só outra forma de puxar o gatilho
Diante da catástrofe (e o que temos diante de nós é a descrição mais clara de catástrofe ―não apenas a catástrofe do número impensável de mortos por negligência do estado, mas a catástrofe da vida normal que parece voltar numa letargia muda), seria o caso de dizer que este é um país não-viável, sentir até o mais profundo de nossos ossos sua inviabilidade para que esse sentimento queime todo e qualquer desejo de retorno em direção ao que quer que seja.   

Ao menos, esse desejo de não-retorno nos pouparia do último de nossos desejos responsáveis que só serviram para cavar mais fundo o impasse, a saber, os chamados para grandes frentes amplas contra o fascismo (e se me permitirem, vai aqui uma autocrítica pois até eu assinei um desses chamados, o que definitivamente não faria novamente). 
Eles formaram com JK a Frente Ampla mais bizarra de todas

Pois este é o país das frente amplas inúteis, dos bons sentimentos de responsabilidade civil que produzem monstros. Esse é o país dessa linguagem do diálogo entre diferentes. Do eterno diálogo de cúmplices. 

O mesmo argumento estava lá a selar o aperto de mão entre Luiz Carlos Prestes e Getúlio Vargas no final da 2ª Guerra. Uma frente ampla com comunistas, trabalhistas e os bons e velhos representantes das oligarquias locais. O resultado não foi brilhante. 

Ele voltou mais outra vez como certidão de nascimento da Nova República, quando uma outra frente ampla subiu aos palanques para dizer um eu quero votar para presidente, o que apenas serviu para dar alguma forma de legitimidade  ao pacto de paralisia que nos marcará durante os 30 anos por vir, pacto selado entre oposicionistas moderados e governistas sagazes.  

Se as palavras de ordem fossem para valer, a primeira coisa que Tancredo Neves-José Sarney teriam feito seria renunciar para a convocação de eleições gerais imediatas. Mas, não. Era o mesmo discurso contra o ódio (que, na época, atendia por outro nome. Seu alcunha era revanchismo).

Agora, foram necessárias apenas duas semanas para entendermos qual era a real função da frente ampla. O Brasil conhece atualmente forte tensão entre:
— uma extrema-direita popular de claros traços fascistas, que controla o executivo, e
— uma direta tradicional e oligárquica, que controla o judiciário e o legislativo. 

Ou seja, de um lado novos atores fora do horizonte tradicional da política, vindos do lumpem-proletariado; e, do outro, a casta política tradicional. 

Os dois lados do embate representam os mesmo interesses econômicos, comungam do mesmo projeto, mas não obedecem a mesma cadeia de comando. Era necessário um certo equilíbrio temporário que não dizia em nada a respeito de políticas de proteção da população contra a pandemia, mas apenas a uma geometria mais estável de partilha do poder. Geometria esta conquistada através da pressão da  chamada frente ampla. 

Esta era apenas uma forma de pressão que em momento algum levou efetivamente em conta a possibilidade de lutar para afastar o Governo. Assim, o país pôde continuar a assassinar sua população vulnerável enquanto preserva a ilusão própria a esta democracia geograficamente sitiada que construímos. 
Democracia que funciona num espaço geográfico definido nas regiões centrais das grandes cidades enquanto inexiste em suas periferias e nas relações no campo. Foi para preservar essa democracia geograficamente sitiada, que ameaçava ruir, que tais frentes amplas foram convocadas.

Ou seja, na hora de tomar ciência do intolerável, de mobilizar o entusiasmo para a tarefa dura e necessária de parar de falar como sempre falamos e começar a falar de outra forma, um falar de outra forma que produz necessariamente um agir de outra forma (já que vale aqui o dito de Austin, dizer é fazer), eis que reencarnam os mesmo enunciados, com seus mesmos tons e exortações, com suas mesmas falas de duplo sentido, que devem ser sempre lidas nas entrelinhas.  

Este país deveria aprender a recusar as falas que lhe são impostas, recusar a crença de que nossa emancipação se dará com as formas produzidas pelos setores mais fetichizados da indústria cultural, recusar os que nos aconselham o que fazer com nossos conflitos insolúveis, sejam eles individuais ou sociais. 

Parecem tipos de problemas diferentes colocados, de forma indevida, num mesmo nível. Mas quando a imaginação social de um país se paralisa, todos os níveis da vida parecem girar em torno da mesma cantilena. Melhor seria lembrar, como dizia Wittgenstein: Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo. 

Esta deveria ser a primeira lição para todos os que querem realmente entender política: explodir os limites da linguagem para que o mundo vá junto. (por Vladimir Safatle, na edição brasileira do El Pais)
TOQUE DO EDITOR – Como este artigo era longo demais para os padrões deste blog, deixamos de lado os dois primeiros (enormes) parágrafos, o que, a nosso ver, não prejudica a compreensão do tema, por serem basicamente introdutórios. Os interessados poderão acessar o texto integral aqui.

domingo, 26 de abril de 2020

LULA E MORO NO MESMO PALANQUE: SERÁ POSSÍVEL? SERÁ DESEJÁVEL?

No domingo passado, se eu escrevesse que Lula e Moro poderão em breve subir no mesmo palanque, a minha sanidade mental seria colocada em dúvida. Diriam que, como no Brasil até presidentes da República enlouquecem (e permanecem no cargo!), por que não eu?

Mas, o derretimento do Governo Bozo acelerou-se tanto que os cenários mudam radicalmente a cada instante.

Vai daí que, depois de muito relutar, o Lula curvou-se na última 3ª feira (21) à evidência dos fatos, colocando o PT no único rumo compatível com seus valores e tradições: o do Fora, Bolsonaro.

Três dias depois, o casamento de conveniência entre o antigo deputado do baixo clero e o antigo caçador de bruxas foi para os ares da forma mais tempestuosa possível. Só faltou trocarem murros.

Já como sinal dos novos tempos, enquanto despejava gravíssimas acusações no colo do Bozo, o Moro fez um surpreendente elogio aos governos petistas, por nunca terem tentado aparelhar a Polícia Federal. 

Agora, o Bozo dá mostras de que se debaterá furiosamente para salvar seu mandato enquanto estiver afundando, e com isto vai alongar inutilmente o caos político que neste momento é multiplicador de óbitos causados pela Covid-19. 

Presume-se, portanto, que vá ocorrer algo parecido com as diretas-já, assim que a pandemia o permitir.

Lula, evidentemente, estará no palanque, como esteve 36 anos atrás.

E ao Moro, depois do arranca-rabo com o Bozo, já tratado como traidor pelos bolsominions, convirá estar também, embora tenda a adiante herdar a liderança dessa ultradireita que, sem ele, ficará acéfala de vida inteligente, por mais ínfima que seja. 

Então, num primeiro momento, valerá a pena para o Moro dar mais um empurrão no Bozo, a fim de que o palhaço despenque logo no abismo e seja convocada a eleição para o mandato-tampão.

Ou seja, poderemos ver Lula e Moro suportando-se com sorrisos amarelos, assim como um dia foram vistos na mesma saia justa Getúlio Vargas e Luiz Carlos Prestes (respectivamente, o responsável último pela entrega de Olga Benário à Alemanha nazista e o homem que fora seu companheiro, pai de uma filha com ela).

Aguardemos os próximos e pouco edificantes capítulos. (por Celso Lungaretti)

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

ESTAMOS NUMA DEMOCRADURA E AVANÇA CADA VEZ MAIS A CONTAGEM REGRESSIVA PARA UMA EXPLOSÃO SOCIAL

Estamos próximos, no Brasil de hoje, daquilo com que sonhavam os golpistas de 1964, ao planejarem uma intervenção cirúrgica para eliminar a influência da esquerda nos Poderes da nação, nos veículos de comunicação, nos sindicatos, nas instituições de ensino e no movimento estudantil, principalmente, para em seguida devolverem uma democracia expurgada e reformatada.

Mas, o arbítrio que era para durar poucos anos acabou estendendo-se por 21, durante os quais, na verdade, só se poderia enxergar uma ditabranda (conforme pretendeu a Folha de S. Paulo, num dos editoriais mais infelizes de sua história) no período final, sob João Baptista Figueiredo (1979-1985). O leão já estava desdentado, após os sucessivos fracassos no front econômico lhe retirarem a última justificativa para sua existência, deixando a ditadura em agonia lenta.

A situação atual, contudo, lembra mais o período de 1965 a 1967, quando o furor subsequente à usurpação do poder deu lugar a uma espécie de resignação e pasmaceira, com a contestação ao regime sendo banida das ruas, praças e locais de trabalho, mas consentida na música popular, no cinema e no teatro (a resistência a eles era tão ínfima que os militares se davam ao luxo de vestir a fantasia de déspotas esclarecidos...). 
Aí tivemos a escalada de radicalização ao longo de 1968, culminando em dezembro com a assinatura do Ato Institucional nº 5, que iniciou o período mais extremado e bestial do regime militar.

Durante as trevas absolutas que vão da entrada em vigor do AI-5 até o final do mandato de Emílio Médici em março de 1974, foram 279 os oposicionistas assassinados (baseio-me no relatório final da Comissão Nacional da Verdade, mas não levo em conta a divisão meramente formal entre aqueles cuja morte foi provada e aqueles cuja existência evaporou sem deixar rastros...) e acrescentaram-se mais 12 atos institucionais à legislação de exceção.

Já no período 1965/67  os atos institucionais foram apenas três e os assassinados, 12, em contraste chocante com o morticínio de 1964 (27 mortos!!!), quando a vitória da quartelada foi comemorada à moda dos selvagens.

A comparação com a democradura de hoje se impõe. 

Então, o sistema mudava leis e extinguia direitos consolidados a bel-prazer, contando com a conivência de um Congresso que fora domesticado por meio das cassações de mandatos que modificaram a correlação de forças e intimidaram os oposicionistas salvos da degola.

Agora, os parlamentares estão exultantes com o semi-parlamentarismo decorrente da inapetência para o cargo do presidente-bufão, que lhes permitiu herdarem o papel de principais executantes das determinações do poder econômico, enquanto ele próprio se ocupa de ninharias e baixarias.
Pasmem: os patrões do PT rezam pela mesmíssima cartilha!

As pressões sobre a cultura, a imprensa e as instituições de ensino são ainda maiores atualmente do que naquele intervalo histórico. 

O movimento estudantil até agora não sofreu repressão comparável, p. ex., à desencadeada quando da setembrada de 1966, mas ainda é cedo para soltarmos suspiros de alívio: 2020 se prenuncia um ano sujeito a intempéries, à medida que ficar claro para os brasileiros que as reformas neoliberais do Paulo Guedes produzirão aqui o mesmíssimo resultado que estamos constatando ultimamente no Chile (após anos e anos de retórica triunfalista dos mercadores de ilusões!).

Mas, a principal diferença entre o despotismo esclarecido de 1965/1967 e a atual democradura é que a esquerda brasileira efetuou então o processo mais aprofundado de crítica e autocrítica de toda sua história, questionando erros cometidos e atuações desastrosas, para daquela derrota acachante extrair todas as lições aproveitáveis, no sentido de sua ampla reconfiguração. 

Havia a consciência de que jamais poderia ser repetido fracasso tão humilhante quanto o da derrubada do governo João Goulart sem nenhuma resistência significativa por parte daqueles que até a véspera diziam que já estavam no poder (dou nome ao boi: o fanfarrão Luiz Carlos Prestes).

Hoje, pelo contrário, o PT conseguiu evitar que suas terríveis lambanças fossem colocadas em xeque em 2016, quando do impeachment de Dilma Rousseff, e ameaça repetir o feito agora, se o posicionamento stalinista do Lula a respeito da autocrítica prevalecer.

A autocrítica abortada de 2016 nos conduziu à entrega do poder à extrema-direita em 2018. A nova Operação Abafa nos levará aonde? 

A uma ditadura sanguinária explícita, como sonham Olavo de Carvalho e seus miquinhos amestrados? 

Ou a um despotismo esclarecido permanente, como poderia ter ocorrido caso a esquerda não houvesse redescoberto a combatividade perdida em 1968?

No fundo, nosso povo não sairá da dramática e degradante situação atual se a subjugação ao poder econômico for imposta com a vaselina do Legislativo e do Judiciário, muito menos se com o ferro em brasa dos inquisidores redivivos.

Ou forjamos uma nova esquerda, reciclamos nossa atuação e reassumimos o protagonismo político, ou assistiremos impotentes, de braços cruzados, à explosão social que inevitavelmente decorrerá dos rigores neoliberais que nos estão sendo enfiados goela abaixo. (por Celso Lungaretti)
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