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segunda-feira, 21 de abril de 2025

TIRADENTES PODERIA TER SIDO O BOLIVAR BRASILEIRO, MAS NOSSO POVO PREFERIU RECEBER A LIBERTAÇÃO COMO DÁDIVA

 "Brecht cantou: ‘Feliz é o povo que não tem
 heróis’. Concordo. Porém nós não somos
um povo feliz. Por isso precisamos de
heróis. Precisamos de Tiradentes"

(Augusto Boal, Quixotes e Heróis)
Será que os brasileiros sentem mesmo necessidade de heróis, salvo como temas dos intermináveis e intragáveis sambas-enredo? É discutível.

Os heróis são a personificação das virtudes de um povo que alcançou ou está buscando sua afirmação. Encarnam a vontade nacional.

Já os brasileiros, parafraseando o que Marx disse certa vez sobre os camponeses, constituem tanto um povo quanto as batatas reunidas num saco constituem um saco de batatas...


O traço mais característico da nossa formação é a subserviência face aos poderosos de plantão. Os episódios de resistência à tirania foram isolados e trágicos, já que nunca obtiveram adesões numericamente expressivas.


Demoramos mais de três séculos para nos livrar do jugo de uma nação minúscula, como um Gulliver imobilizado por um único liliputiano.

E o fizemos da forma mais vexatória, recorrendo ao príncipe estrangeiro para que tirasse as castanhas do fogo em nosso lugar; e à nação economicamente mais poderosa da época, para nos proteger de reações dos antigos colonizadores.

Isto depois de assistirmos impassíveis à execução e esquartejamento de nosso maior libertário.
Da mesma forma, o fim da escravidão só se deu por graça palaciana e quando se tornara economicamente desvantajosa.

Antes, os valorosos guerreiros de Palmares haviam sucumbido à guerra de extermínio movida pelo bandeirante Domingos Jorge Velho, que merecidamente passou à História como um dos maiores assassinos do Brasil em todos os tempos.


E foi também pela porta dos fundos que nosso país entrou na era republicana e saiu das duas ditaduras do século passado (a de Vargas terminou por pressões estadunidenses e a dos militares, por esgotamento do modelo político-econômico).

Leitura da sentença de Tiradentes (pintura histórica)

Todas as grandes mudanças positivas acabaram se processando via pactos firmados no seio das elites, com a população excluída ou reduzida ao papel de coadjuvante que aplaude.
  • É verdade que houve fugazes despertares da cidadania: em 1961, quando a resistência encabeçada por Leonel Brizola conseguiu frustrar o golpe de estado tentado pelas mesmas forças que seriam bem-sucedidas três anos mais tarde;
  • em 1984, com a inesquecível campanha das diretas-já, infelizmente desmobilizada depois da rejeição da Emenda Dante de Oliveira, com o poder de decisão voltando para os gabinetes e colégios eleitorais; e
  • em 1992, quando os  caras-pintadas  foram à luta para forçar o afastamento do presidente Fernando Collor.
Inconfidentes e sua falação. Só Tiradentes era homem de ação
Nessas três ocasiões, a vontade das ruas alterou momentaneamente o rumo dos acontecimentos, mas os poderosos realizaram manobras hábeis para retomar o controle da situação. Rupturas abertas, entre nós, só vingaram as negativas.

Vai daí que, em vez de heróis altaneiros, os infantilizados brasileiros são carentes mesmo é de figuras protetoras, dos coronéis nordestinos aos padins Ciços da vida, passando por pais dos pobres tipo Getúlio Vargas e Lula.

Então, Zumbi dos Palmares, Tiradentes, Frei Caneca, Carlos Marighella, Carlos Lamarca e outros dessa estirpe jamais serão unanimidade nacional, como o são Giuseppe Garibaldi na Itália ou Simon Bolívar para os hermanos sul-americanos.
O 21 de abril é um dos menos festejados de nossos feriados. E o próprio conteúdo revolucionário de Tiradentes é escamoteado pela História Oficial, que o apresenta mais como um Cristo (começando pelas imagens falseadas de sua execução, já que não estava barbudo e cabeludo ao marchar para o cadafalso) do que como transformador da realidade.

Então, vale uma citação da epígrafe escrita por Boal quando do lançamento da antológica peça Arena Conta Tiradentes, em 1967:
"Dez vidas eu tivesse, dez vidas eu daria para salvar a deles"
"Tiradentes foi um revolucionário no seu momento como o seria em outros momentos, inclusive no nosso. Pretendia, ainda que romanticamente, a derrubada de um regime de opressão e desejava substitui-lo por outro, mais capaz de promover a felicidade do seu povo. 
...No entanto, este comportamento essencial ao herói é esbatido e, em seu lugar, prioritariamente, surge o sofrimento na forca, a aceitação da culpa, a singeleza com que beijava o crucifixo na caminhada pelas ruas com baraço e pregação ... 
O mito está mistificado".
Quando o povo brasileiro estiver suficientemente amadurecido para tomar em mãos seu destino, decerto encontrará no revolucionário Tiradentes uma de suas maiores inspirações. 
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(por Celso Lungaretti)

quarta-feira, 16 de abril de 2025

16 DE ABRIL DE 1970, QUANDO O SONHO SE TORNOU PESADELO E O PESO DA DITADURA MILITAR DESABOU INTEIRO SOBRE MIM

Júlio chega à praça Saens Peña às 6h38 do dia 16 de abril de 1970.

É uma fase de arbítrio e intolerância. Os partidos e organizações que ousaram pegar em armas para resistir à ditadura militar pagam um preço bem alto: as notícias de prisão e morte de militantes são praticamente diárias. Há indícios de melhora da situação econômica do País.

Ele veio de ônibus, calculando que daria tempo. Deu. O ponto com o Ivo e os dois simpatizantes está marcado para as 6h45.

Outro motivo para ter optado pelo ônibus é a certeza de que o coletivo estaria quase vazio nesse horário. Ótimo para quem precisa tomar cuidado com o revólver que traz na cintura, encoberto pela camisa folgada, que usa fora da calça.

Nesta manhã de quinta-feira Júlio não tem outros compromissos. Baterá um rápido papo com os simpatizantes que Ivo vai lhe passar e pronto! Estará livre para voltar ao quarto que aluga na casa de uma simpática velhinha do Rio Comprido (ótima cobertura, nada de fichas para preencher, nada que possa atrair atenções indesejáveis).

Para manter a fachada de vendedor, às vezes ele é obrigado a ficar matando tempo pela cidade mesmo quando não tem nenhuma tarefa da Organização para cumprir. Nesta semana, entretanto, ele disse à Dª Chica que ganhou alguns dias de folga.

Como os dois comandantes de unidades de combate foram convocados pelo Lamarca para uma reunião de emergência na área guerrilheira, não há muito para um comandante de Inteligência fazer.

Assim, Júlio tratou de arrumar uma desculpa para manter horários mais flexíveis. E, como vantagem adicional, pôde sair à paisana, sem o terno desconfortável para o clima carioca nem a pasta 007 em que costuma levar o seu .38 e uma caixa de balas.

Esteve com 
Ivo na véspera, num restaurante da avenida Nossa Senhora de Copacabana. Encaminharam algumas tarefas, discutiram novidades, fizeram avaliações políticas. Sempre bem informado, Ivo ajuda Júlio a montar suas análises da situação.

O jovem comandante dá alguns detalhes de bastidores que lhe foram transmitidos por outros aliados, Ivo diz o que sabe a respeito, trocam ideias, tecem conjeturas.

A conversa rendeu tanto que acabaram separando-se às 22h40, meio tarde para quem precisa manter-se a salvo das batidas policiais. Foi quando Ivo disse ter dois simpatizantes para passar:

— Eles trabalham numa estatal e têm informações interessantes para o teu setor. Mas só podem te encontrar bem cedinho, o expediente deles começa às 8.

Júlio, que detesta cair da cama, foi obrigado a aceitar o horário desagradável. Consolou-se com a ideia de que depois poderia voltar para seu quarto e dormir mais um pouco.

Chega sem cautela nenhuma, pois confia no jeitão tranqüilo e na experiência de Ivo, um renomado ginecologista beirando os 40 anos, que chegara até a ser candidato à Prefeitura por um pequeno partido. Simpático e bem relacionado, ele é uma verdadeira mina de aliados e simpatizantes para a Vanguarda Popular Revolucionária.

Nas terríveis condições da clandestinidade, os militantes tentam agarrar-se a pequenas ilusões, que os ajudam a manter a ilusão maior de que exista alguma segurança para eles. Se encararem a verdade — de que, a cada instante, estão sujeitos a serem presos, torturados e mortos —, acabarão enlouquecendo.
Apelidamos ironicamente esses 
cartazes de "os imortais da Oban"
Assim, 
Júlio tem muito medo de cair num ponto com calouros na luta armada, mas confia quase cegamente nos veteranos — dentre os quais ele próprio se inclui, afinal já leva essa vida há um ano e a maioria não aguenta mais do que alguns meses.

Além disso, esteve com Ivo oito horas atrás. O que poderia acontecer ao bom doutor em tão curto espaço de tempo?

Se pressentisse algum perigo, Júlio teria ido de terno, com o braço para dentro e a arma já engatilhada na mão direita, oculta pelo paletó. É o que faz em pontos arriscados.

Até algumas semanas atrás, teria também uma cápsula de cianureto entre os dentes, pronta para ser rompida por uma mordida mais forte. Foi uma contribuição de simpatizantes da área de medicina, mas o primeiro quadro que preferiu a morte à tortura... sofreu apenas um ataque de diarreia que o debilitou ainda mais diante dos algozes. É que os aprendizes de feiticeiro ignoravam algum detalhe da fabricação do comprimido letal.

A notícia do fracasso chegou à Organização e os militantes mais queimado— aqueles com reais motivos para evitarem cair vivos — tiveram de voltar a conviver com seus temores, sem a opção de uma saída fácil e quase indolor.

O ponto é numa padaria da praça. Júlio olha para os lados antes de entrar, mas só por hábito. E começa a pedir um café no balcão, quando é violentamente agarrado por vários homens. Um o segura por trás, impedindo que mexa os braços. É arrastado para fora, desarmado, encapuzado e jogado no chão de um veículo. Percebe que seu pior pesadelo virou realidade.

Com as mãos algemadas para trás, o capuz apertado, a cara contra o chão, sente falta de ar. Alguém lhe segura a cabeça, forçando-a para baixo, de forma que fique bem oculto dos civis. Durante o trajeto, vai repassando na memória o que lera no panfleto Se Fores Preso, Companheiro, do experiente Carlos Marighella.

Lembra-se de que aconselhava o revolucionário a se comportar como um militar nas mãos do inimigo: dar só o nome (nem mesmo a patente poderia abrir). Mas, isso foi escrito em tempos distantes. Será possível manter agora essa atitude de desafio?
Morte por infarto do jovem Chael Charles
Schreier despertou indignação mundial

Um companheiro mandou do presídio uma descrição da sala de tortura, que disse ser envidraçada. Sugeriu que o preso se atirasse contra o vidro — o que ele próprio não fizera. 
Júlio pensa que é uma boa opção.

Isto, claro, se lhe derem chance. E se não lhe faltar coragem. A hora da verdade chegou e ele não tem certeza de como se comportará. 

Quanto durou o trajeto? Quinze minutos? Vinte? Percebe que chegou num quartel, o motorista explica-se ao sentinela. Acesso permitido. O veículo pára e Júlio é retirado aos trambolhões. Tiram as algemas, mas mantêm o capuz. Sente que está numa espécie de recepção.

- Nome!

Resolve ficar calado. Que vantagem há em revelar um nome que está nos cartazes de Terroristas Assassinos Procurados? Imediatamente começaria a ser tratado como um peixe grande.

-Nome!

- Como você se chama, filho-da-puta?

- É, assim não vai. Leva ele logo pro pau.

Conduzem-no aos empurrões. Cai, levanta-se, tenta manter a dignidade. Finalmente tiram o capuz. Está numa sala repleta de homens fortes e mal-encarados. Procura os vidros contra os quais se atirar, mas não existe nenhum. As paredes são todas acolchoadas.

Mandam-no tirar a roupa. Fica imóvel, mas também não resiste quando lhe arrancam todas as peças. Sente-se inferiorizado e frágil diante dos brutamontes. Deixa que lhe envolvam os braços com tecido, amarrem com uma corda, coloquem um cabo de vassoura entre eles e as pernas e o icem. Fica pendurado sobre dois cavaletes, como um frango no grill das padarias.

Atam eletrodos nos dedos. Começam a girar a manivela de um telefone de campanha, lentamente. Ele concentra todas as suas forças em não gritar. Não lhes dar esse prazer. Não mostrar fraqueza. Resistir.
Eremias, meu amigo desde o primário,
morto por dezenas de tiros aos 18 anos
De repente, o torturador acelera, gira bem depressa a maquininha. A sensação é terrível. Não consegue respirar. Sufoca. Quando o choque cessa, 
Júlio tenta absorver todo o ar que existe na sala. Mas, giram de novo. Param. Giram. Param.

Percebe que esses gritos animalescos estão saindo de sua garganta.

Socam-lhe o corpo, a cabeça. Mas são os choques que o abalam de verdade. A impressão de que morrerá sufocado, de que seu coração vai estourar.

Deixam que tome fôlego, perguntam-lhe o nome. Percebe que não aguentará, vai ter de mudar de atitude. Precisa de tempo para pensar. Diz o nome.

- Tá mentindo, piroca! Fala a verdade! Como se chama? (outra descarga)

- (ofegando) Sou eu mesmo! O dos cartazes!

Vão digerir a informação. Tiram-no do pau-de-arara, mandam ficar em pé, com o rosto contra a parede. Deixam que amarre de qualquer jeito a calça e a camisa rasgada em torno do corpo.

Antes de dar-lhes as costas, vê os torturadores sorrindo, com ar de deboche. Odeia-se por não ter resistido mais.

Percebe que isso é só o começo, o pior está para vir.

Um grandalhão dá um tapa na sua nuca, depois tenta assustá-lo com o símbolo do Esquadrão da Morte. Com uma mão agarra-o pelos cabelos da nuca; com a outra, coloca bem diante dos seus olhos a caveira do ridículo anel que usa.

— Bem-vindo ao inferno!
plateia estoura em gargalhadas.

À dor e vergonha vem se somar o desânimo. “Até quando terei de suportar essa ralé?” — pensa Júlio. Sua impressão é de que realmente desceu ao inferno.

Acima reproduzi a introdução do meu livro Náufrago da Utopia (Geração Editorial, 2005).

Quando meu pior pesadelo se materializou há exatos 55 anos, eu só poderia supor que estivesse diante de três opções:
- sobreviver incólume;
- sobreviver lesionado;
- morrer.

Havia uma quarta, que nunca me ocorreria: sobreviver duplamente lesionado, fisica e moralmente,
por haver caído numa armadilha da História, em que me debateria pelos quase 35 anos seguintes.

Mas, somos mesmo joguetes dos deuses.

Quando já me conformava com a ideia de que a verdade a meu respeito só viria à tona -- se viesse --, após a morte, uma sequência de acontecimentos favoráveis alterou todo o cenário, no final de 2004.

Como se os fados quisessem me compensar pela maré de azar que me tornou bode expiatório de falhas alheias e por pouco não me destruíra em 1970.

Então, meia existência depois, os efeitos daquele terrível 16 de abril (e dos meses seguintes) foram superados. Passei a viver uma nova vida -- aquela que deveria ter vivido. (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

BRASIL CONTINUA EM DÉBITO COM MUITAS OUTRAS FAMÍLIAS, INCLUSIVE AS DE MARIGHELA E LAMARCA

Fernanda Torres interpretando
sua 
mãe: atuação superlativa. 
Eunice Paiva e Zuzu Angel tiveram eternizadas nas telas as suas corajosas lutas por entes queridos que foram exterminados pela ditadura dos generais. 

Merecem o respeito e gratidão dos melhores brasileiros, assim como todas as famílias que passaram por dramas semelhantes, durante a imensa tragédia do totalitarismo que se abateu sobre nosso país no período 1964-1985.

Nunca deixarei de lamentar quão pouco pude fazer por três dessas famílias.

Como a do meu colega desde o primário e companheiro de lutas desde o movimento secundarista, Eremias Delizoicov. 

Quando terminou minha temporada no inferno e voltei em frangalhos às ruas, duas vezes encontrei seu pai no ponto de ônibus. Em ambas ele quis (praticamente me obrigou) que fosse à sua casa, para ajudar a alimentar as esperanças de que o Eremias ainda estivesse vivo, foragido pelo mundo.

Tudo isto porque a repressão anunciou inicialmente a morte de outro companheiro e só um ou dois dias depois retificou a informação. Como os verdugos se negaram inclusive a entregar ao sr. Jorge os restos mortais do filho (provavelmente para evitar que constatasse as dezenas de disparos com os quais estraçalharam seu corpo, uma bestialidade a mais dentre tantas que cometeram), o sr. Jorge e a esposa continuavam sonhando com um impossível happy end

Naquelas duas tardes em que passei horas na casa deles, resisti à tentação de simplesmente dizer-lhes o que queriam escutar. Aconselhei-os a esquecerem tal ilusão e buscarem a felicidade possível no que restara da família: eles dois e o filho mais velho, que não participou da luta. 
Zuzu Angel passou por via crucis semelhante

Então, lembro-me dessas ocasiões como um interminável sofrimento a três, do qual eu tinha a obrigação de participar até poder ir-me embora, arrasado, para voltar a juntar os cacos da minha própria existência.

Como a família do Massafumi Yoshinaga, que eu nem sequer conhecia (mas um tio dele me contatou  no final de 2005, quando eu estava lançando o Náufrago da Utopia). 

Foi então que tomei conhecimento de quanto o Massa & família sofreram com a estigmatização por parte de pessoas de esquerda mais rápidas em condenar as vítimas do terrorismo de estado do que em lutarem contra ele quando tiveram a oportunidade de fazê-lo. 

Percebi que o tio Akitoshi queria de mim uma espécie de desagravo e isto, pelo menos, estava ao meu alcance. Divulguei vários artigos deplorando o abandono ao Massa quando ele decidiu sair da organização e foi largado no mundo sem grana, sem ajuda nenhuma para deixar o país, sem ter sequer onde esconder-se (chegava a dormir nas barracas do Mercado Municipal!),  depois de haver se tornado procuradíssimo pela repressão graças à sua atuação na VPR. 

Era desesperadora sua situação quando aceitou o conselho de um antigo guru, que intermediou sua rendição ao Dops, com a garantia de não ser torturado. Teria de participar de showzinhos montados pelos serviços de guerra psicológica das Forças Armadas, sendo solto logo em seguida... 
O drama da Família Paiva sensibilizou as novas gerações... 

...mas não para reencontrar, como sonhava, o calor do povo, e sim para viver execrado em seu próprio país, a ponto de enlouquecer (tinha alucinações de que seus pensamentos estariam sendo captados pela repressão) e de tentar três vezes o suicídio, até 
obter sucesso!

Fiz o máximo que pude, com meu teclado, para que ele passasse a ser visto com um pouco de compreensão, como mais um jovem destruído pelo arbítrio então vigente no Brasil. E me orgulho de haver rebatido firmemente o uso calhorda de sua desgraça por um antigo companheiro de movimento secundarista, depois economista burguês (um dos pais do Plano Cruzado). 

Num momento em que estava praticamente esquecido em sua profissão, tal indivíduo divulgou um artigo choramingas numa revista chique, não se vexando de atacar a memória de um morto para valorizar a dele própria. Desafiei-o para uma polêmica, mas ele preferiu ignorar. Refutei o artigo, mas a revista não concedeu direito de resposta. De qualquer forma, impedi que tal baixeza passasse inteiramente em branco.

Por último, indignei-me ao perceber que as viúvas da ditadura, com o apoio da imprensa canalha, lançavam uma ofensiva avassaladora contra a correta decisão da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, de fornecer uma reparação à altura do sacrifício do comandante Carlos Lamarca, executado por agentes do Estado brasileiro quando estava rendido e combalido. 
...mas resta a dívida com a Família Lamarca

Também dessa vez
pude somar minhas forças à da família que travava luta tão desigual, pouco apoio recebendo dos antigos companheiros do Lamarca. Cumpri integralmente o meu dever de solidariedade para com o combatente tombado.

De resto, não é só o reconhecimento dos pósteros a partir de filmes e livros que as famílias dos companheiros merecem, mas também o reconhecimento do próprio Estado brasileiro, que insiste em não colocar Carlos Marighella e Carlos Lamarca como dois dos maiores heróis que este país já produziu.

É ultrajante que eles não tenham seus nomes acrescentados às mais de 60 figuras históricas que já constam do Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. Trata-se de outra dívida que a nação brasileira tem para com as famílias daqueles que mais a honraram com suas ações e com o sacrifício de suas vidas.

E que não será paga de maneira branda, agora que a direita manda e desmanda no Congresso Nacional. Mas, se evitarmos todas as batalhas difíceis de vencermos, perderemos a guerra de forma cada vez mais acachapante, como vem acontecendo desde 2016. (por Celso Lungaretti)

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

A ESQUERDA QUE NÃO SE DEIXOU COOPTAR PELO CAPITALISMO: UM LEGADO (parte 7)

Museu da Capelinha, no Vale do Ribeira: podem 
destruir acervos, mas sua memória está bem viva.


Para deixar bem esclarecido o episódio da queda da área de treinamento ativa da VPR no Vale do Ribeira, precisarei servir-me de informações das quais eu não dispunha naquele momento, mas foram chegando às minhas mãos nas décadas seguintes.

Assim, tendo eu aberto no final da tarde de 16/04 a localização da área abandonada, mas omitindo que ela havia sido desocupada pelo menos um mês atrás, os analistas do DOI-Codi desconfiaram de que eu estaria lhes entregando calhau como se fosse ouro e apenas despacharam uma equipe para verificar discretamente o que havia por lá. 

Tal equipe  vasculhou, em 17/04, o sítio que nos servira de fachada e, ao voltar no dia seguinte para a capital, apenas comunicou que realmente houvera trabalho guerrilheiro no local, mas dele nada restava. Voltou de mãos abanando.

A nova prisão de militante, na manhã de 18/04, foi a que justificou o lançamento da Operação Registro, pois forneceu o pacote completo à repressão: a existência de uma segunda área e de alguns aliados da VPR morando naquela região.

Com as novas informações, o DOI-Codi começou a montar o cerco de Registro. Daí tantos oficiais superiores não pertencentes a seus quadros terem sido chamados às pressas para uma reunião em plena tarde de sábado. E, como pensaram em obter mais detalhes por meu intermédio, me conduziram à sala em que uns 50 deles esboçavam seus planos de ação. 

Descuidados, nem se incomodaram em evitar que eu cruzasse no corredor com a pessoa verdadeiramente responsável pela entrega da área ativa. 

Acabei sendo-lhes inútil por causa da minha pressão acelerada e do receio que tiveram de uma nova morte de jovem por problemas cardíacos que não deveria ter na sua idade. E não me escapou que haviam descoberto algo muito importante, e graças a quem.
Estátua comovente: Zequinha Barreto 
carregando Lamarca em fuga na Bahia
 

No domingo, 19/04, ambos fomos juntos transferidos, de carro, para a sede paulista do DOI-Codi, na rua Tutóia.  E na manhã do dia 20, embarcados num caça da FAB para o palco das ações. 

Aí me caiu a ficha de qual era a peça do quebra-cabeças que ainda estava faltando. Pois, quando Lamarca resolveu abandonar a área 1 e desenvolver a área 2, passou a sair de manhã cedinho com o motorista para ir comandar os preparativos. Voltavam no começo da noite se queixando de estarem com a bunda doendo de tantos quilômetros de rodovia que teriam percorrido sentados.

Era, percebi depois, uma encenação para eu e o Massafumi, que já havíamos decidido não continuar no trabalho de campo, ficarmos supondo que a nova área seria uma região rural em que pipocavam conflitos fundiários na Paraná. Na verdade, a área 2 distava apenas uns 30 quilômetros da área 1.

Mas, se moradores iam recolher palmito na mata e poderiam a qualquer momento desconfiar dos novos moradores (nós), além de estarmos demasiadamente próximos da rodovia BR-116, por que abandonarmos a área 1 e transferir o trabalho para outro ponto da mesma região?

Lamarca deve ter concluído que a existência de uma base de 4 ou 5 aliados locais da VPR seria valiosa, começando pelo fato de que assim ele logo saberia se a chegada de um contingente mais numeroso de companheiros a serem treinados levantasse suspeitas na região. 

Ou seja, tomou uma decisão pouco recomendável em termos de segurança exatamente por carecer de apoiadores noutras regiões. Optou por correr riscos com os que tinha.

Pior ainda foi ter utilizado os préstimos desses aliados para a aquisição dos dois sítios. Dependendo das suspeitas que a repressão viesse a ter, uma simples ida ao cartório lhe revelaria o endereço de ambos.

Nem sequer foi necessário, contudo. A pessoa presa no sábado já deu ao DOI-Codi todas as informações de que necessitava.
Reportagem da Agência Pública revelou que os militares 
chegaram a bombardear as matas da região com napalm
O relatório de operações do II Exército na Operação Registro, do qual só tomei conhecimento em 2004, historiou com exatidão o ocorrido: eu dera involuntariamente a primeira pista à repressão ao revelar a localização da área 1, mas isto não foi levado a sério até que, com a nova queda de militante dois dias depois, os militares tomaram conhecimento de que havia também uma área 2, a qual continuava ativa.

Tive um vislumbre dessa verdade quando, em algum dia da semana seguinte, fui levado às duas áreas de viatura, provavelmente como um teste para averiguarem se eu sabia mais do que revelava. Passamos primeiramente pela área 1 e demonstrei que a conhecia. Não havia informação nenhuma útil para eles lá. então minha sinceridade não faria mal nenhum.

Depois fomos para uma segunda área, que eu desconhecia, mas logo percebi do que se tratava. A área 2 ser tão próxima era a peça que me faltava para o quebra-cabeças inteiro fazer sentido.

Mas, claro, fingi nada ter percebido e os militares aparentemente acreditaram. Se soubessem quanta informação útil eu obtive deles porque me subestimavam...

Talvez pela gravidade do que eu intui, foi uma ocasião em que perdi um pouco a serenidade. Um capitão enfastiado, quando os demais milicos estavam afastados, tentou convencer-me a tentar a fuga pelo mato, "aproveita agora que não tem ninguém olhando!".
Paulo Betti no papel de Lamarca, no filme de 1994: era
parecido, mas lhe faltava a aura de homem sofrido.
  

Respondi de bate-pronto, sem pensar, apontando o meu peito: "Se é para me matar, atira logo pela frente. Não vou correr para levar tiro nas costas".

O capitão não insistiu, apenas mandou me levarem de volta para o delegacia de Jacupiranga. onde me guardavam precariamente Se fosse mais profissional, perceberia que eu não era o jovenzinho assustado que me esforçava para aparentar. 

O que me tirou do sério? Foi haver percebido que  minha exclusão da lista de troca do embaixador alemão não deveria ter sido engano, mas sim uma providência necessária para que eu servisse de bode expiatório pela queda da área.

E por quê? Certamente porque preservar a pessoa presa no sábado era mais importante para a VPR  do que preservar a minha credibilidade revolucionária. 

Não tinha dúvida nenhuma de que Lamarca estava ciente da minha inocência; afinal, ele mesmo me havia contado que algum(ns) ex-colega(s) de farda o municiava com informações quentes sobre o que acontecia no DOI-Codi. Tanto que ele não mexera uma palha quando fui preso no dia 16, mas correu a levantar acampamento e iniciar sua fuga quando a outra pessoa foi presa no dia 18.

Ter chegado à conclusão de que provavelmente estaria sendo desacreditado pela organização quando me esforçava ao máximo para preservar os quadros da VPR foi talvez a gota d'água que extravasou o copo, pois se acrescentou: 
Por 40 anos prevaleceu a versão de que Lamarca morrera
em tiroteio, mas esta foto provou que ele fora executado
— a
o impacto das torturas (bem maior do que eu esperava); 
— à profunda decepção que me causara a briga de foice no escuro em que se constituíra o congresso da VAR-Palmares; e 
— ao remorso que sentia por não haver zelado melhor pelos companheiros cujo ingresso na VPR eu liderara.

Daí a prostração que tomou conta de mim no final de junho. O arrependimento forçado que me impuseram me parecia insignificante diante de tudo que eu já havia sofrido. 

E, no fundo, realmente era uma mera armação dos serviços de Guerra Psicológica das Forças Armadas. Quem acreditava naquilo engoliria qualquer coisa. Mesmo assim, feria demais o meu amor próprio lembrar-me daquela madrugada de pesadelo na sede da Rede Globo no Jardim Botânico. Quis até acreditar que nada daquilo acontecera, mas, no fundo, sabia que ficara muito aquém da imagem que eu tinha de mim mesmo.

Mas, dos tempos em que devorava os livros de Sartre e Camus, me restou a disposição de nunca buscar consolo fácil. Considerei definitivo aquele péssimo momento e assumi comigo mesmo o compromisso de superá-lo com o que fizesse doravante. Ao sair da prisão já recobrara o espírito de luta. A luta armada havia sido inviabilizada por décadas, mas resistir ao capitalismo, ainda que de outra forma, continuava sendo um imperativo para mim.

Quanto ao Lamarca, com o tempo fui compreendendo melhor seus motivos. Apostara tudo na sua visão de guerrilha rural e, quando teve a oportunidade de partir para a prova de fogo (já estava na selva, armado e conduzindo um grupo de guerrilheiros em potencial), percebeu que não tinha como sobreviver ao poder de fogo imensamente superior do Exército, só lhe restando, como opção para salvar a si próprio e a seus comandados, a volta para a cidade.

Num momento tão dramático, ele resolveu sacrificar a minha reputação para tentar salvar o seu sonho: a verdade nua e crua lançaria sérias dúvidas sobre a competência da VPR para ainda lançar sua guerrilha rural.

Ao ficar sabendo, depois de libertado, como tinha sido o final de vida do Lamarca, resolvi não questionar mais a decisão que tomara a meu respeito e quase me destruíra. Afinal, tendo entregado a vida em nome de suas convicções, ele fez por merecer a minha compreensão, pelo menos.

Aí, em 2007, quando a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça concedeu à seus entes queridos uma pensão equivalente à de um coronel de Exército e as viúvas da ditadura bateram pesado em tal decisão, com o apoio repulsivo da grande imprensa, não suportei ver a omissão de tantos sobreviventes da nossa luta, que tinham o dever moral de defender a Família Lamarca;

Ao ter certeza de que não o fariam, entrei na polêmica,  confrontando a Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e a Veja. Eu tinha a obrigação de ser maior do que aquela ralé que o atacava com tanta fúria, como se continuasse temendo o seu  desprendimento e coragem.  (por Celso Lungaretti
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quarta-feira, 13 de novembro de 2024

A ESQUERDA QUE NÃO SE DEIXOU COOPTAR PELO CAPITALISMO: UM LEGADO (parte 6)

Sítio que serviu como fachada para a segunda
área de treinamento da VPR em Registro

Passados dois meses, eu já antevia  o momento em que sairia da chamada fase operacional, passando a levar a vida enfadonha dos presos políticos que já não detinham informações  do interesse da repressão e, portanto, só voltariam a ser espremidos caso viessem à baila fatos novos ou se outras capturas fizessem os torturadores perceberem que suas vítimas anteriores não haviam contado tudo que sabiam.

Embora eu houvesse, nos piores momentos, duvidado de que sobreviveria, o saldo até então era positivo em meu favor, pois a minha culpa pelas quedas em cascata era quase nenhuma. 

Afinal, meu principal papel na organização era o de municiar os outros comandantes com informações e análises; e, como as prisões de alto escalão tiveram outras origens, a organização só poderia me recriminar a dissimulação a que eu recorria, sempre fingindo estar mais abalado pelas torturas do que realmente estava.   

Até que ponto eu conseguia enganar os torturadores e até que ponto eles às vezes não iam às últimas consequências comigo por temerem que eu morresse? Jamais saberei ao certo, mas, dois dias depois da minha prisão, um velho militar suspeitou que eu estivesse passando mal e chamou o médico. 

Minha pressão deveria estar assustadora, pois logo me encheram de calmantes e escalaram aquele oficial para conversar comigo e me tranquilizar um pouco. 

Como nunca fui ingênuo, avaliei que a morte recente do jovem companheiro Chael Charles Schereier repercutira mal mundo afora e eles temiam que uma ocorrência semelhante. tendo como vítima um militante mais jovem ainda, provocasse outra onda de denúncias e indignação contra a ditadura no exterior. 
A morte em novembro de 1969 de Chael Charles Schreier, com inconfundíveis marcas de
tortura, repercutiu mundialmente e até inspirou  matéria de capa famosa da revista Veja
Mas, o alívio durou pouco e em maio já voltavam a me torturar com mão pesada.  A diferença era que já não esperavam descobrir nada importante por meu intermédio, tanto que me transferiram da solitária ao lado da sala de torturas para uma cela para vários prisioneiros no andar de cima e a frequência com que me buscavam para interrogatórios diminuíra. 

Tudo me fazia crer que eu já estava prestes a ser transferido, para finalização de inquérito em algum dos quartéis da Vila Militar quando, no dia 11 de junho, a VPR e a Ação Libertadora Nacional sequestraram o embaixador alemão  Ehrenfried von Holleben.

Os analistas da repressão mandaram agentes do Deops me interrogarem para a finalização do que dizia respeito a mim nos inquéritos da VPR e da VAR-Palmares (ou seja, éramos obrigados a repetir sem torturas tudo que eles haviam arrancado de nós mediante torturas, sendo esta  versão indolor então encaminhada às auditorias militares. 

Se confirmássemos aquilo de que nos acusavam, tínhamos a incomunicabilidade  quebrada e ficávamos aguardando julgamento em unidades militares que não integravam a estrutura de terrorismo de estado criada para o combate à subversão e à luta armada. 
Este interrogatório na auditoria da Marinha, em processo da
VAR-Palmares, ocorreu um dia após o da foto famosa da Dilma
 

Se nos negássemos a admitir o que já tínhamos admitido anteriormente, nos mandavam de volta para o DOI-Codi e nos torturavam de novo até que nos conformássemos em jogar o jogo do jeito deles.

Geralmente a transferência para unidade não-torturadora antecedia a tomada de depoimentos para fins jurídicos, assim a farsa ficava completa. Os relatórios sangrentos produzidos pelo DOI-Codi permaneciam secretos e os depoimentos que embasavam nossas condenações não tinham manchas de sangue. 

Mas, com o sequestro do embaixador  von Holleben em curso, nem se preocuparam em me transferir para outra unidade; pegaram meu depoimento no DOI-Codi mesmo. A própria repressão dava como favas contadas que meu nome estaria entre os 40 da lista de troca.    

O avião partiu no dia 16 e eu fui deixado para trás, sendo alvo inclusive de zombarias dos torturadores ("Levaram até lastro no seu lugar"). Como eu atendia aos critérios para inclusão entre os libertados e não fora responsável por nenhuma queda de quadro importante, logo imaginei que a exclusão do meu nome tinha a ver com a queda da área de treinamento guerrilheiro.

A VPR estava me atribuindo tal delação embora eu nem sequer conhecesse a localização da dita área: tinha sido um dos cinco integrantes da equipe precursora da instalação de uma escola de guerrilha na região de Registro, SP; mas, como o local se revelou inadequado para nosso propósito, após três semanas abandonamos o sítio que havíamos adquirido e o trabalho foi transferido para outro lugar, já sem minha participação.  
Foram 40 os presos políticos trocados pelo embaixador Ehrenfried von Holleben
Então, por óbvia medida de segurança, os dois que decidimos não continuar no trabalho de campo fomos,  no dia da desativação da primeira área, levados de volta para a Capital: eu, para retomar a atividade de comandante de Inteligência noutro estado, o Rio de Janeiro; e o Massafumi Yoshinaga para desfiliar-se da organização. 

A localização da segunda área, a definitiva, por parte do DOI-Codi/RJ, se deu em 8 de abril de 1970, um sábado, dois dias após minha prisão. Durante aquela tarde, houve uma reunião com a participação de uns 40 altos oficiais visitantes  e eu fui conduzido até ela. Quando chegava na sala onde o encontro se realizava, cruzei com integrante da VPR que dela estava saindo. Sua prisão ocorrera naquele sábado.

De mim queriam saber detalhes sobre a primeira área, a abandonada. Mas, o inusitado daquela reunião e a má ideia que tiveram de atar-me eletrodos nos dedos, criando a ameaça de choques elétricos, produziu efeito contrário. Foi quando um dos oficiais visitantes suspeitou que eu estivesse passando mal e fez com que viesse o médico.

Acabei não os ajudando em nada, mas, ao me retirarem da sala, um dos oficiais comentou com o outro que, de qualquer forma, eles já sabiam o que precisavam saber.
Formatura do Lamarca: 10 anos depois,
venceria o Exército que o cercava em Registro
 

Ou seja:
eu nunca ignorei quem entregara a área definitiva. A pessoa estava pálida como fantasma quando cruzei com ela, então não tive duvida de que durante algumas horas ela sofrera as piores torturas. 

Depois, na segunda-feira, fomos ambos levados até Registro num jatinho da FAB, para ficarmos à disposição dos responsáveis pela caçada aos companheiros. Quando aterrissamos, nos separaram e nunca mais falei com tal pessoa.

Tinha quase certeza de que eu fora preterido na lista de troca do embaixador alemão por estar servindo de bode expiatório da delação da área enquanto quem tinha realmente fraquejado decolava com o prestígio intacto para a Argélia. Fiquei perplexo e desolado. 

Continuei acreditando firmemente (até hoje!) na necessidade de uma urgente revolução anticapitalista, mas perdi para sempre a confiança cega nos companheiros. 

Levei muito tempo para compreender que, num instante em que a VPR sofria a pior de suas crises de segurança e precisava repor com urgência os quadros que perdera, a verdade sobre quem entregara ao inimigo as joias da coroa teria um efeito acachapante, dificultando ainda mais seus esforços para dar a volta por cima. Compreendi adiante o porquê, mas aos 19 anos não se aceita facilmente uma injustiça dessas. Quase fui destruído   

Preso, não tinha como restabelecer a verdade. Solto, continuava tão indignado com os companheiros que haviam me condenado sem sequer procurarem conhecer a minha versão que decidi não denunciar quem estava me deixando carregar em seu lugar  culpa tão terrível. Resolvi reagir à indignidade sendo mais digno do que todos que me atacavam.   

Só vim a levantar essa lebre no final de 2004, por ter surgido uma oportunidade de provar a minha inocência sem necessidade de apontar a quem pertencia a culpa. 
As Forças Armadas mobilizaram 2.954 homens para NÃO
capturarem Lamarca e uns poucos aprendizes de guerrilheiros

 

E, em 1970, ainda houve outra consequência nefasta para mim: o fato de que parte da estrutura da VPR no RJ sobrevivera às quedas em cascata e conseguira sequestrar o embaixador alemão em parceria com a ALN fez os torturadores do DOI-Codi notarem que eu omitira a existência de uma unidade de combate que permanecera incólume: a que era comandada pelo falecido Juarez Guimarães de Brito.

Eles acreditavam ter liquidado completamente a VPR naquele estado e devem ter ouvido poucas e boas dos superiores, pois tinham inclusive descoberto o plano para sequestrarmos o von Holleben e não lhe providenciaram proteção, provavelmente supondo que não havia mais ninguém para efetuar a proeza. Só que houve.

Um deles descarregou a raiva em mim. O oficial responsável pelo inquérito da VAR-Palmares viera tomar meu depoimento e um raivoso do DOI-Codi, ao passar pelo corredor, viu-me e perdeu a cabeça. Entrou e esmurrou-me tão violentamente pelas costas que me derrubou da cadeira e jogou a mesinha em cima do oficial visitante.

Só que aquele oficial era superior a ele em termos hierárquicos e ficou furibundo por ter a patente duplamente desrespeitada (eu estava sob a guarda dele naquele instante e nenhum outro poderia intervir sem sua permissão).

Discutiram aos berros no corredor, quase chegando às vias de fato. Quando o visitante sentou-se de novo, disse-lhe que, se permanecesse no DOI-Codi, acabariam me matando. 
"Longe, longe, ouço essa voz que o tempo não vai levar"

Bingo. Logo no dia seguinte fui transferido. Eu avaliara bem que, oferecendo uma oportunidade de revanche para o ultrajado, este mobilizaria suas influências, se as tivesse, na direção que me convinha.  

Mas, foi sair do fogo para cair na frigideira. Enviaram-se para a pior unidade do RJ depois do próprio DOI-Codi: a PE da Vila Militar.  (por Celso Lungaretti)

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