Mostrando postagens com marcador ditadura militar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ditadura militar. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 31 de março de 2026

LEMBRANDO O GOLPE DO DIA DA MENTIRA DE 1964: GOULART FOI DERRUBADO PELO PETELOCO DE UM 'MAD DOG' FARDADO

N
ão há muito o que se dizer sobre a nefasta e nefanda quartelada de 1964,  que amanhã (1º de abril) estará soprando 62 velinhas ensanguentadas, num Brasil que em passado recente andou flertando de novo com o abismo, mas tomou a saudável decisão de nele não atirar-se. 

Enfim, como a História ultimamente se tornou um campo de batalha entre os que pesquisam e analisam os acontecimentos para conseguir interpretá-los e os que distorcem os acontecimentos para encaixá-los dentro de suas convicções prévias de um primarismo atroz, tentemos alinhavar o que realmente importa. 

Começando pela obviedade de que a conspiração direitista vinha de longe e quase emplacara quando da destrambelhada renúncia de Jânio Quadros.  O dispositivo golpista, contudo, ainda não estava pronto e a tentativa de aproveitamento de uma oportunidade de ocasião se revelou precipitada. 

As principais mudanças ocorridas entre aquele agosto de 1961 e o dia da grande mentira em 1964 foram:
Mourão Filho atravessou o samba 
e os golpistas o escantearam
— após a firmeza do governador gaúcho Leonel Brizola e dos cabos e sargentos das Forças Armadas ter frustrado os golpistas e garantido sua posse, o bobalhão João Goulart tudo fez para apaziguar os inimigos.

Chegou ao cúmulo de permitir que os oficiais reacionários desencadeassem um amplo expurgo na caserna, transferindo os líderes dos subalternos para bem longe das respectivas bases. 

As associações dos legalistas ainda continuaram estridentes, como convinha aos planos dos reaças de usá-los como espantalhos, mas eles passaram a ser caciques com poucos índios e poder de fogo quase nenhum;

— a participação civil no golpe, inexistente em 1961, foi buscada mediante propaganda enganosa maciça e parcerias com  a direita católica, não porque tivesse verdadeira importância no script conspiratório, mas como azeitona na empada, a fim de tornar a virada de mesa mais palatável no Brasil e, principalmente, no exterior;

— o Governo João Goulart vagava à deriva, ora inclinando-se à esquerda, ora contemporizando com a direita, o que fez os dois campos o encararem com suspeitas e não priorizarem a defesa do mandato legítimo;

quando o atentado de Dallas atirou a presidência dos EUA no colo do caipirão Lyndon Johnson, os pratos feitos da CIA voltaram a ser engolidos na Casa Branca (dificilmente John Kennedy deixaria suas digitais impressas numa ruptura constitucional no Brasil, assim como evitou oficializar o envolvimento estadunidense na invasão da Baia dos Porcos, negando apoio aéreo aos mercenários recrutados pelos gusanos de Miami para a derrubada de Fidel Castro); e

Eu vou, eu vou, derrubar o governo agora
eu vou, pararatimbum, pararatimbum...
 
Mesmo com todos os ases e curingas nas mãos, os líderes golpistas hesitavam. Aí, o impasse foi quebrado por um ferrabrás que tinha papel secundário na conspiração: o general Olímpio Mourão Filho. 

Tratava-se de um fascistão com carteirinha assinada. Fora um dos líderes da Ação Integralista Brasileira e autor em 1937 do famoso Plano Cohen, falso rol de intenções da Internacional Comunista que os galinhas verdes colocaram em circulação para assustar milicos. 

Sedento de glória, em 1964 ele botou o bloco na rua, precipitando os acontecimentos: sem aval do Estado Maior golpista, marchou com suas tropas de Juiz de Fora para o Rio de Janeiro.  Foi duramente criticado pelo governador Magalhães Pinto (MG), para quem tal bravata poderia ter causado um banho de sangue.

Mas, a ameaça comunista na verdade inexistia, daí a marcha pela então BR-3 (hoje rodovia BR-040) acabar sendo um passeio (vide foto acima). Dois ou três caças da FAB teriam sido suficientes para a abortarem, pois os inexperientes recrutas, que mais pareciam patos de estandes de tiro, debandariam em pânico logo à primeira rajada de metralhadora disparada sobre suas cabeças à guisa de advertência. 

Já o poderoso Partido Comunista Brasileiro se embananava todo ao acreditar que os bons militares defenderiam Goulart.
Como consequência, o partidão semeava a confusão entre a esquerda (esta ficou sabendo tarde demais que não contaria com apoio fardado nenhum contra o golpe, só dependendo da resistência que ela própria conseguisse antepor).

A traquinagem do histérico Mourão Filho não o beneficiou: o poder acabou ficando com os conspiradores históricos, articulados em torno de Castello Branco. Eles é que estavam preparados para governar.

Pode-se dizer que João Goulart foi derrubado pelo peteleco de um mad dog fardado. (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

VASO RUIM NÃO QUEBRA NEM EM 75 ANOS

Dois meses após ter sido surpreendido com o diagnóstico  de que estava com uma grave arritmia cardíaca, meu quadro clínico mudou muito. As ameaças foram sendo removidas pelos médicos e acabo de ter alta no Hospital do Coração.

Falta uma última cirurgia, que eles consideraram arriscada demais para este momento, mas têm esperança de realizar lá por meados de 2026. Até então, tratamento ambulatorial e cautela. 

O repouso do guerreiro, que eu antes recusava, foi-me imposto. Fazer o quê?

Hoje (6)  completo 75 anos sem saber se, conforme a música do King Crimson que é uma das minhas favoritas, confusão será meu epitáfio. Não consegui construir o país que tanto queria legar para meus entes queridos e para o povo sofrido, no qual se priorizasse o bem de todos, não o lucro de minorias.

Mas, acredito ter provado que vale a pena lutarmos, mesmo quando o inimigo é tão poderoso como uma bestial ditadura militar ou tão desmobilizador quanto uma força majoritária da esquerda que perdeu o rumo e o foco. 

Fui buscar, na bacia das almas, vitórias expressivas contra ambos. 

Na falta de um legado propriamente dito, deixarei pelo menos um exemplo: o de que as grandes batalhas da vida não devem ser recusadas, mas lutadas até o fim.  

Numa poesia de décadas atrás eu escrevi: "O homem que luta sozinho comanda um exército invisível". Mantenho a afirmação. (Celso Lungaretti)  

quarta-feira, 9 de julho de 2025

O RESPONSÁVEL PELA MORTE DE CENTENAS DE MILHARES DE BRASILEIROS PODE FICAR IMPUNE. NEM HITLER TEVE TANTA SORTE...

Durante a pandemia de covid 19, quando Jair Bolsonaro tudo fazia para convencer os brasileiros a priorizarem a salvação dos seus empregos assumindo riscos maiores de morrerem sufocados, eu e toda a esquerda consequente nos posicionamos com firmeza a favor da manutenção rigorosa do distanciamento social. 

Mesmo os mais extremados devotos do capitalismo tinham dificuldade  para justificar que grana valesse mais do que vida.

Então, ciente de que algumas das mais respeitadas instituições científicas mundiais estimavam que a sabotagem vacinal do Bolsonaro, ao retardar a imunização e dispersar esforços  e recursos com óbvios placebos, elevaram o número de mortes evitáveis mas não evitadas em uns 400 mil brasileiros, desde sempre sustentei que o maior dos crimes por ele cometidos foi o genocídio (não há outra palavra para tal aberração) de pobres, excluídos, idosos e outros vulneráveis.

Infelizmente, os podres Poderes optaram por, na prática, considerar que símbolos vandalizados em palácios vazios num domingo qualquer constituíam agressão maior à democracia do que o total de assassinatos cometidos pela última ditadura militar brasileira em 21 anos de arbítrio. Então, a primeira prisão do responsável maior pelo genocídio tende a ser decretada por golpismo e não pela matança.
Como  os trâmites judiciais se encaminham para o inevitável encarceramento do Bolsonaro ainda em 2025, a ordem dos fatores pode, desta vez, ter alterado o produto: o comentarista político Josias de Souza, em Trump ajeita cenário de fuga para um pedido de asilo de Bolsonaro, interpreta o pontapé verbal dado  pelo presidente dos EUA na soberania brasileira como um preparativo para colocá-lo a salvo antes que o coloquemos atrás das grades. 

Afinal, foi exatamente a opção adotada por Bolsonaro quando parecia prestes a ser preso e enfurnou-se por dois dias na embaixada da Hungria. E a fuga será muito mais tentadora para ele com a perspectiva de passar os próximos anos em Miami ao invés de Budapeste.

Mais: Josias acrescenta que, em tal hipótese, Lula não poderia negar salvo-conduto para Bolsonaro escafeder-se, pois, tendo enviado um jato da FAB para resgatar a ex-primeira-dama do Peru, "condenada em seu país a 15 anos de cadeia por corrupção", ficaria exposto a uma tempestade de críticas.

Faz sentido. Mas, se tal abominação consumar-se, será como se Hitler tivesse escapado de morrer nas ruínas de Berlim depois de todos os horrores que causou e ficasse dançando sobre os túmulos das estimadas 7,4 milhões de pessoas cujas mortes decorreram de suas decisões. (por Celso Lungaretti)   

sábado, 17 de maio de 2025

DURANTE A DITADURA, POR AMÁ-LO NÓS ÉRAMOS ESCORRAÇADOS. DESISTIREMOS AGORA DO BRASIL DE MODO PRÓPRIO?

"Eu sou brasileiro, mas não tenho meu lugar/ pois lá sou
estrangeiro, estrangeiro no meu lar" (Boal e Garnieri)
É cada vez maior o número de parentes, conhecidos e amigos  cujos filhos estão participando de intercâmbio com outros países ou já se fixaram definitivamente no exterior. E tal possibilidade começa a ser um pesadelo para mim também. Reflitamos sobre o assunto.

Em termos teóricos, só há uma posição verdadeiramente defensável, a de que temos todos um compromisso moral com nosso povo sofrido, de permanecermos aqui e tentarmos fazer deste um país do qual nos orgulhemos, ao invés de nos causar profundo desencanto e enormes preocupações.

Mas, não serei eu a me colocar num falso pedestal, como se tivesse sempre pensado assim. Ao sair das prisões militares na década de 1970, também flertei com a ideia de dar o fora, pois não suportava o fato de que até 1969 percebia-se uma surda insatisfação do povo (em especial a classe média) com a ditadura militar, mas tal sentimento alterou-se diametralmente com o (mal) dito milagre brasileiro.

As pessoas comuns geralmente tinham medo de recriminar publicamente o regime dos generais, mas nas suas conversas havia sempre críticas mais ou menos veladas à vida que estavam levando sob o arbítrio ditatorial. 

Clandestino e caçado em todo país, com meu retrato nos cartazes de procurados, era gratificante para mim sentir que estava indo ao encontro  dos sentimentos da minha gente. 

Apesar de as perspectivas pessoais serem muito ruins (as chances maiores eram a de ser morto ou sofrer as piores torturas nos porões do regime), em nenhum momento cogitei aceitar a fuga para o exterior, que os coitados dos meus pais faziam até o impossível para viabilizar. 

Recebia por meio de pombos correios insuspeitos suas mensagens desesperadas e respondia  rechaçando as propostas e os consolando na medida do possível.
Então, quando a chance de comprar fuscas a prestação, lucrar uma merreca na bolsa de valores  e ter acesso a alguns itens de consumo rasteiro bastou para mudar os humores de contingentes significativos de brasileiros. vendo brotarem como cogumelos os cartazes de Ame-o ou deixe-o, lamentava profundamente a morte de companheiros queridos para quê... para ISSO?

Quanto mais o balanço das forças, em termos militares, se desequilibrava em nosso desfavor, mais convicto eu ficava de que melhor seria morrer lutando do que recuar juntamente com os pusilânimes. 

Ainda assim sobrevivi e, libertado em frangalhos, fui superar os traumas numa comunidade alternativa para a qual me convidaram antigos companheiros secundaristaa. Durante um ano recuperei as forças e  o bom ambiente entre quatro paredes me permitia ignorar que, fora delas, o Brasil que eu amara ia deixando de existir.

Quando a comunidade se dissolveu e tive de encarar aquela realidade detestável, morando com a companheira numa quitinete e amaldiçoando meu trabalho numa agência de comunicação empresarial, novamente cogitei o exterior como alternativa. Mas, já não tinha contatos que me permitissem viajar com segurança enquanto meus processos ainda  tramitassem nas auditorias militares. 
Ademais, caiu-me a ficha de que nem sequer conseguiria tirar passaporte italiano, embora meu avô paterno fosse de tal nacionalidade. Não tinha como comprovar isto com documentação  de lá nem como pagar a tradução de toda a papelada daqui para aquele idioma.

Resignei-me a esperar, mas aí foi tarde demais: os militares já não conseguiam fazer a economia brasileira crescer no ritmo necessário e dava para perceber que, mais dia, menos dia, devolveriam o abacaxi para os civis. 

A esperança em dias melhores ressurgiu. E logo eu estava comparecendo a cada uma das manifestações pelas diretas-já em São Paulo, até receber novo balde de água fria quando a emenda Dante de Oliveira foi rejeitada por uma Câmara Federal tão desfigurada como a atual.

Ou seja, eu também teria debandado se pudesse, principalmente na segunda metade da década de 1970. Mas, não sem dor no coração nem seduzido pela possibilidade de enriquecer; apenas por detestar o que o Brasil se tornara e não estar vendo perspectivas de melhoras. Quando estas surgiram, ainda que meio ilusórias, desisti definitivamente da evasão. 

O inesquecível futebolista Sócrates, face à perspectiva de ganhar rios de dinheiro na Fiorentina, prometeu, em plena manifestação das diretas-já no Vale do Anhangabaú, recusar a proposta italiana e permanecer no Brasil para reconstruir o país caso a eleição direta para presidente fosse restabelecida. Para mim também a perspectiva de livrar nosso povo da ganância capitalista era muito mais atraente que a de ser um estranho numa terra estranha.

Mas, talvez pelo fato de o Brasil, em termos gerais, estar agora pior ainda do que no século passado, serei sempre o primeiro a recomendar a nossos jovens que pensem um pouco no que estão deixando para trás: uma terra tão devastada que até a picaretagem religiosa e a loucura furiosa da ultradireita passaram a sensibilizar muitos cidadãos cujos cérebros foram bem lavados. 

E o que é pior: a esquerda que ora prevalece é a mais inadequada possível, empenhada apenas em maquilar o capitalismo, tornando-o palatável para os explorados, humilhados e ofendidos, ao invés de recolocar em pauta a substituição dessa competição canibalesca de todos contra todos pela priorização do bem comum e da união das gentes para a instauração de um regime de liberdade e justiça social plenas.

Em 1968, uma canção da peça Arena conta Tiradentes constatava: Eu sou brasileiro, mas não tenho meu lugar/ pois lá sou estrangeiro, estrangeiro no meu lar.

Fico me indagando se um dia os brasileiros teremos de conversar com nossos filhos e netos nos idiomas das nações prósperas que os acolhem.

Só seremos realmente felizes quando voltarmos a ser donos do nosso nariz e do nosso país, ao invés de nos conformarmos em virar estrangeiros em lares alheios. (por Celso Lungaretti)  

quinta-feira, 24 de abril de 2025

MAMÃE EU QUERO, MAMÃE EU QUERO, MAMÃE EU QUERO ANISTIA, DÁ CHUPETA, DÁ CHUPETA PRO BOLSONARO NÃO CHORAR

Foi de uma pusilanimidade extrema o chororô de Jair Bolsonaro, queixando-se por ter recebido numa UTI a intimação para responder pelo crime de haver sido o principal responsável por uma tentativa fracassada de golpe de estado para derrubar e matar  o presidente eleito do Brasil, com o objetivo de obter um novo mandato virando a mesa, após ser derrotado nas urnas. 

Primeiramente porque, mesmo hospitalizado, continuava gravando peças propagandísticas de sua incessante campanha para escapar das grades, ainda que seja provocando um confronto de Poderes que poderia ter consequências trágicas para nosso país.

Depois porque dá um péssimo exemplo como cidadão e como homem tentando despertar a compaixão dos brasileiros em seu momento de desgraça, logo ele que antes simulava a masculinidade mais tóxica:
— normalizando o estupro de uma deputada; 
— lamentando que a ditadura militar não houvesse fuzilado "uns 30 mil" oposicionistas, "inclusive o FHC'; e
— avacalhando os coitadezas que agonizavam sem ar durante a pandemia, para cuja letalidade, aliás, ele contribuiu intensamente, ao sabotar vacinas e estimular pajelanças.  

E isto sem se dar conta do ridículo em que incidia, ao proclamar-se "imorrível, imbrochável e incomível", mesmo sendo amplamente conhecido que entregou. moto e arma para a bandidagem como um garotinho apavorado.

Além de haver convocado três vezes seus seguidores para a tomado do poder e se mantido longe do palco da ação em todas elas, inclusive indo refugiar-se na Disneylândia quando da terceira.

E que dizer de sua alucinada  comparação, agora, com as vítimas do nazismo?!
Você só está cumprindo ordem aqui, 
mas o pessoal dos tribunais do Hitler também cumpriam (sic) sua missão: colocavam judeus na câmara de gás. Todos pagaram seu preço um dia. Não vai ser diferente no Brasil, trovejou para a assustada oficial de justiça.

Mais megalomaníaco, impossível. Pois a única comparação pertinente não seria com o Holocausto, mas sim com os julgamentos de Nuremberg, dos quais o Bolsonaro de lá escapou pela via do suicídio. Já o Hitler de cá, por mais que esperneie, desta vez não deixaremos escapar. (por Celso Lungaretti)

quarta-feira, 16 de abril de 2025

16 DE ABRIL DE 1970, QUANDO O SONHO SE TORNOU PESADELO E O PESO DA DITADURA MILITAR DESABOU INTEIRO SOBRE MIM

Júlio chega à praça Saens Peña às 6h38 do dia 16 de abril de 1970.

É uma fase de arbítrio e intolerância. Os partidos e organizações que ousaram pegar em armas para resistir à ditadura militar pagam um preço bem alto: as notícias de prisão e morte de militantes são praticamente diárias. Há indícios de melhora da situação econômica do País.

Ele veio de ônibus, calculando que daria tempo. Deu. O ponto com o Ivo e os dois simpatizantes está marcado para as 6h45.

Outro motivo para ter optado pelo ônibus é a certeza de que o coletivo estaria quase vazio nesse horário. Ótimo para quem precisa tomar cuidado com o revólver que traz na cintura, encoberto pela camisa folgada, que usa fora da calça.

Nesta manhã de quinta-feira Júlio não tem outros compromissos. Baterá um rápido papo com os simpatizantes que Ivo vai lhe passar e pronto! Estará livre para voltar ao quarto que aluga na casa de uma simpática velhinha do Rio Comprido (ótima cobertura, nada de fichas para preencher, nada que possa atrair atenções indesejáveis).

Para manter a fachada de vendedor, às vezes ele é obrigado a ficar matando tempo pela cidade mesmo quando não tem nenhuma tarefa da Organização para cumprir. Nesta semana, entretanto, ele disse à Dª Chica que ganhou alguns dias de folga.

Como os dois comandantes de unidades de combate foram convocados pelo Lamarca para uma reunião de emergência na área guerrilheira, não há muito para um comandante de Inteligência fazer.

Assim, Júlio tratou de arrumar uma desculpa para manter horários mais flexíveis. E, como vantagem adicional, pôde sair à paisana, sem o terno desconfortável para o clima carioca nem a pasta 007 em que costuma levar o seu .38 e uma caixa de balas.

Esteve com 
Ivo na véspera, num restaurante da avenida Nossa Senhora de Copacabana. Encaminharam algumas tarefas, discutiram novidades, fizeram avaliações políticas. Sempre bem informado, Ivo ajuda Júlio a montar suas análises da situação.

O jovem comandante dá alguns detalhes de bastidores que lhe foram transmitidos por outros aliados, Ivo diz o que sabe a respeito, trocam ideias, tecem conjeturas.

A conversa rendeu tanto que acabaram separando-se às 22h40, meio tarde para quem precisa manter-se a salvo das batidas policiais. Foi quando Ivo disse ter dois simpatizantes para passar:

— Eles trabalham numa estatal e têm informações interessantes para o teu setor. Mas só podem te encontrar bem cedinho, o expediente deles começa às 8.

Júlio, que detesta cair da cama, foi obrigado a aceitar o horário desagradável. Consolou-se com a ideia de que depois poderia voltar para seu quarto e dormir mais um pouco.

Chega sem cautela nenhuma, pois confia no jeitão tranqüilo e na experiência de Ivo, um renomado ginecologista beirando os 40 anos, que chegara até a ser candidato à Prefeitura por um pequeno partido. Simpático e bem relacionado, ele é uma verdadeira mina de aliados e simpatizantes para a Vanguarda Popular Revolucionária.

Nas terríveis condições da clandestinidade, os militantes tentam agarrar-se a pequenas ilusões, que os ajudam a manter a ilusão maior de que exista alguma segurança para eles. Se encararem a verdade — de que, a cada instante, estão sujeitos a serem presos, torturados e mortos —, acabarão enlouquecendo.
Apelidamos ironicamente esses 
cartazes de "os imortais da Oban"
Assim, 
Júlio tem muito medo de cair num ponto com calouros na luta armada, mas confia quase cegamente nos veteranos — dentre os quais ele próprio se inclui, afinal já leva essa vida há um ano e a maioria não aguenta mais do que alguns meses.

Além disso, esteve com Ivo oito horas atrás. O que poderia acontecer ao bom doutor em tão curto espaço de tempo?

Se pressentisse algum perigo, Júlio teria ido de terno, com o braço para dentro e a arma já engatilhada na mão direita, oculta pelo paletó. É o que faz em pontos arriscados.

Até algumas semanas atrás, teria também uma cápsula de cianureto entre os dentes, pronta para ser rompida por uma mordida mais forte. Foi uma contribuição de simpatizantes da área de medicina, mas o primeiro quadro que preferiu a morte à tortura... sofreu apenas um ataque de diarreia que o debilitou ainda mais diante dos algozes. É que os aprendizes de feiticeiro ignoravam algum detalhe da fabricação do comprimido letal.

A notícia do fracasso chegou à Organização e os militantes mais queimado— aqueles com reais motivos para evitarem cair vivos — tiveram de voltar a conviver com seus temores, sem a opção de uma saída fácil e quase indolor.

O ponto é numa padaria da praça. Júlio olha para os lados antes de entrar, mas só por hábito. E começa a pedir um café no balcão, quando é violentamente agarrado por vários homens. Um o segura por trás, impedindo que mexa os braços. É arrastado para fora, desarmado, encapuzado e jogado no chão de um veículo. Percebe que seu pior pesadelo virou realidade.

Com as mãos algemadas para trás, o capuz apertado, a cara contra o chão, sente falta de ar. Alguém lhe segura a cabeça, forçando-a para baixo, de forma que fique bem oculto dos civis. Durante o trajeto, vai repassando na memória o que lera no panfleto Se Fores Preso, Companheiro, do experiente Carlos Marighella.

Lembra-se de que aconselhava o revolucionário a se comportar como um militar nas mãos do inimigo: dar só o nome (nem mesmo a patente poderia abrir). Mas, isso foi escrito em tempos distantes. Será possível manter agora essa atitude de desafio?
Morte por infarto do jovem Chael Charles
Schreier despertou indignação mundial

Um companheiro mandou do presídio uma descrição da sala de tortura, que disse ser envidraçada. Sugeriu que o preso se atirasse contra o vidro — o que ele próprio não fizera. 
Júlio pensa que é uma boa opção.

Isto, claro, se lhe derem chance. E se não lhe faltar coragem. A hora da verdade chegou e ele não tem certeza de como se comportará. 

Quanto durou o trajeto? Quinze minutos? Vinte? Percebe que chegou num quartel, o motorista explica-se ao sentinela. Acesso permitido. O veículo pára e Júlio é retirado aos trambolhões. Tiram as algemas, mas mantêm o capuz. Sente que está numa espécie de recepção.

- Nome!

Resolve ficar calado. Que vantagem há em revelar um nome que está nos cartazes de Terroristas Assassinos Procurados? Imediatamente começaria a ser tratado como um peixe grande.

-Nome!

- Como você se chama, filho-da-puta?

- É, assim não vai. Leva ele logo pro pau.

Conduzem-no aos empurrões. Cai, levanta-se, tenta manter a dignidade. Finalmente tiram o capuz. Está numa sala repleta de homens fortes e mal-encarados. Procura os vidros contra os quais se atirar, mas não existe nenhum. As paredes são todas acolchoadas.

Mandam-no tirar a roupa. Fica imóvel, mas também não resiste quando lhe arrancam todas as peças. Sente-se inferiorizado e frágil diante dos brutamontes. Deixa que lhe envolvam os braços com tecido, amarrem com uma corda, coloquem um cabo de vassoura entre eles e as pernas e o icem. Fica pendurado sobre dois cavaletes, como um frango no grill das padarias.

Atam eletrodos nos dedos. Começam a girar a manivela de um telefone de campanha, lentamente. Ele concentra todas as suas forças em não gritar. Não lhes dar esse prazer. Não mostrar fraqueza. Resistir.
Eremias, meu amigo desde o primário,
morto por dezenas de tiros aos 18 anos
De repente, o torturador acelera, gira bem depressa a maquininha. A sensação é terrível. Não consegue respirar. Sufoca. Quando o choque cessa, 
Júlio tenta absorver todo o ar que existe na sala. Mas, giram de novo. Param. Giram. Param.

Percebe que esses gritos animalescos estão saindo de sua garganta.

Socam-lhe o corpo, a cabeça. Mas são os choques que o abalam de verdade. A impressão de que morrerá sufocado, de que seu coração vai estourar.

Deixam que tome fôlego, perguntam-lhe o nome. Percebe que não aguentará, vai ter de mudar de atitude. Precisa de tempo para pensar. Diz o nome.

- Tá mentindo, piroca! Fala a verdade! Como se chama? (outra descarga)

- (ofegando) Sou eu mesmo! O dos cartazes!

Vão digerir a informação. Tiram-no do pau-de-arara, mandam ficar em pé, com o rosto contra a parede. Deixam que amarre de qualquer jeito a calça e a camisa rasgada em torno do corpo.

Antes de dar-lhes as costas, vê os torturadores sorrindo, com ar de deboche. Odeia-se por não ter resistido mais.

Percebe que isso é só o começo, o pior está para vir.

Um grandalhão dá um tapa na sua nuca, depois tenta assustá-lo com o símbolo do Esquadrão da Morte. Com uma mão agarra-o pelos cabelos da nuca; com a outra, coloca bem diante dos seus olhos a caveira do ridículo anel que usa.

— Bem-vindo ao inferno!
plateia estoura em gargalhadas.

À dor e vergonha vem se somar o desânimo. “Até quando terei de suportar essa ralé?” — pensa Júlio. Sua impressão é de que realmente desceu ao inferno.

Acima reproduzi a introdução do meu livro Náufrago da Utopia (Geração Editorial, 2005).

Quando meu pior pesadelo se materializou há exatos 55 anos, eu só poderia supor que estivesse diante de três opções:
- sobreviver incólume;
- sobreviver lesionado;
- morrer.

Havia uma quarta, que nunca me ocorreria: sobreviver duplamente lesionado, fisica e moralmente,
por haver caído numa armadilha da História, em que me debateria pelos quase 35 anos seguintes.

Mas, somos mesmo joguetes dos deuses.

Quando já me conformava com a ideia de que a verdade a meu respeito só viria à tona -- se viesse --, após a morte, uma sequência de acontecimentos favoráveis alterou todo o cenário, no final de 2004.

Como se os fados quisessem me compensar pela maré de azar que me tornou bode expiatório de falhas alheias e por pouco não me destruíra em 1970.

Então, meia existência depois, os efeitos daquele terrível 16 de abril (e dos meses seguintes) foram superados. Passei a viver uma nova vida -- aquela que deveria ter vivido. (por Celso Lungaretti)

terça-feira, 28 de janeiro de 2025

AINDA ESTOU AQUI É UM RETRATO DESPOLITIZADO E REVISIONISTA DA DITADURA MILITAR

Em Ainda Estou Aqui, lançado em 2024 e que traz Fernanda Torres e Selton Melo nos papéis principais de Eunice Paiva e Rubens Paiva, a ditadura militar brasileira é praticamente um pano de fundo para o desenvolvimento do drama familiar em torno do desaparecimento do pai, Rubens. O motivo para tal desaparecimento poderia ter sido variado, sendo causa para as angústias e dilemas familiares dos Paiva, mas ocorreu de ser pelo sequestro perpetrado pelos aparatos repressores do estado. 

Importante colocar que o filme não é sobre Rubens Paiva, mas sobre Eunice Paiva e todo ele se passa por sua perspectiva. Somos apresentados a uma típica família de classe média do Rio de Janeiro dos anos 1970, quase de margarina, frequentadora das praias de Copacabana, que adora recepcionar os amigos, com planos para construir uma nova casa e cuja filha se prepara para estudar em Londres. A ditadura aí é um detalhe, surgindo furtivamente nos caminhões com soldados ou na blitz responsável por atrasar o retorno da filha para casa. De resto, tudo vai bem.

Em Ainda Estou Aqui a ditadura aparece para 
atrasar o retorno das pessoas para casa.

Em certo sentido, há um realismo aqui, pois uma parte considerável da classe média brasileira daqueles períodos de falso milagre econômico deveriam mesmo viver a dolce vita, só tropeçando na ditadura ocasionalmente. Mesmo os trabalhadores, esmagados pelo arrocho, estavam siderados pela economia aquecida e a popularização da TV, item antes de luxo. Os revolucionários, isolados, amargavam a derrota das guerrilhas e iam caindo uns atrás dos outros. 

Contudo, a família retratada não é qualquer uma, mas a família de um ex-deputado do PTB, ex-exilado, retornado ao país com a promessa de não se envolver mais em política. Não eram raros os retornos de exilados após fazerem acordos com os militares. Um exemplo notório é de Álvaro Vieira Pinto, antigo diretor do ISEB - Instituto Superior de Estudos Brasileiros -, considerado inimigo mortal pelos golpistas de 1964 e que, após ficar no exílio na Iugoslávia e no Chile, retorna ao Brasil em 1968 para nunca mais sequer publicar um artigo de jornal com seu nome. Outros voltam e, além de abdicarem de suas atividades políticas ou intelectuais, também se curvam diante dos ditadores, caso de Geraldo Vandré, cuja submissão aos militares após seu retorno é conhecida. 

Cada com seus acordos para voltar à pátria-mãe. Porém, Rubens Paiva parece não ter cumprido sua parte do trato e volta a se imiscuir na política, para surpresa de sua esposa. O filme não mostra quais seriam as atividades políticas de Rubens Paiva, fica o dúbio nos telefonemas para ele, nas entregas noturnas e nas reuniões reservadas em seu escritório. Lembremos que o filme transcorre na perspectiva de Eunice, então, na realidade, tal modo dúbio nos é apresentado por ela mesma. Mas aí reside um ponto crucial na trama do longa, pois essa dubiedade fica lançada na tela para justificar que a prisão de Rubens teria sido injusta, pois o ex-deputado não estaria envolvido em política. Algo semelhante também é sempre reafirmado no caso de Herzog, ele não estaria envolvido em política. 

O drama familiar é retratado de forma contida.

Ora, qual o fundo disso? Uma sutil reafirmação que a mobilização política contra o regime militar era de fato um crime, agravado em caso de envolvimento com a luta armada. Algumas cenas de Ainda Estou Aqui, inclusive, reafirmam esse pecado da luta armada. No fim, é a visão mdbista de oposição consentida ao regime sendo reafirmada: a oposição só pode ser institucional, compactuando com as diretrizes políticas, econômicas e sociais da ditadura, particularmente sua guerra contra os subversivos. 

A crença no sistema jurídico da ditadura, inclusive, é reafirmada quando Eunice - seria candidamente? - sugere ir à polícia denunciar o desaparecimento de seu marido e quando o caminho do habeas corpus é insistentemente apresentado com uma fé quase religiosa. Mais uma vez, o espectador fica com a impressão que não se está em uma ditadura, mas em um regime político como qualquer outro em que uma simples carteirinha da OAB tem imensos poderes sob a milicada. Até a imprensa parece ser livre, pois Eunice fala abertamente ao jornalista sob seu caso e chega mesmo a criticar a censura. Em uma cena de puro delírio histórico, Cid Moreira, âncora do Jornal Nacional da Globo, é ouvido narrar que presos políticos foram libertos em troca do embaixador suíço sequestrado pela guerrilha. É difícil acreditar que o doutor Roberto Marinho deixasse que seu principal telejornal lesse um texto falando em presos políticos ao invés de subversivos ou terroristas. Tal cena, sutil, é exemplificadora do revisionismo histórico do filme, tentando livrar a imagem da Globo que, conforme é de conhecimento geral, funcionava como canal oficioso da ditadura. 

Roberto Marinho deixava que seu telejornal
falasse em presos políticos?

Outra cena emblemática é um soldado dizendo a Eunice não concordar com o tratamento por ela recebido na prisão. Ou seria não concordar com as próprias torturas e com a ditadura em geral? O filme deixa, mais uma vez, a dubiedade. Fato é que o famoso tira bom entra em cena aqui para, em mais um revisionismo, defender que nem todas as forças armadas compactuavam com aqueles crimes. Ora, os militares contrários ou tinham sido expulsos em 1964 ou haviam ido para a luta armada. Embora possa ser verídica a presença dos compassivos militares ao lado das câmaras de tortura - igual aos compassivos nazistas dos campos de extermínio - sua presença em tela não visa outra coisa senão limpar a imagem dos militares. 

Mesmo os militares maus, no retrato dicotômico apresentado em tela, são mostrados como praticamente lordes. Um é doutor em paranormalidade, outro adora brincar com crianças, um terceiro pede desculpas por colocar o capuz em Eunice. Claro, tudo pode estar relacionado à condição de classe da protagonista, mas, lembremos, Rubens foi barbaramente torturado e morto muito provavelmente pelos mesmos agentes tão gentilmente retratos para o espectador. Vejamos o clássico Lúcio Flávio, Passageiro da Agonia, filmado durante a ditadura, para ter um retrato mais efetivo de quem eram os agentes da repressão. 

O peso político do desaparecimento de Rubens
Paiva é diluído.
Conforme dito, porém, Ainda Estou Aqui é um drama familiar e a ditadura existe apenas como pano de fundo. Igual a ele existem milhares de filmes abordando a temática do luto pela ausência de um ente querido, com todos os cacoetes relacionados: a privação das crianças da verdade dos acontecimentos, como se elas fossem idiotas, as angústias, os apertos financeiros e finalmente a mudança de rumo, abandonando a casa onde antes estavam. Tudo, no entanto, no filme de Walter Salles, é retratado de forma absolutamente desapaixonada e não vemos drama ou verdadeiro conflito. O sofrimento familiar parece ter sido sublimado, mas o diretor não consegue transmitir, por incapacidade ou escolha, as tensões desse processo de sublimação. A vida prossegue como se o sumiço de Rubens fosse apenas um detalhe. A cena do sorriso chega a ser paradoxal, pois é difícil compreender Eunice insistir em sorrir sabendo que seu marido está morto. Ato de resistência ou negação da realidade? Mais uma vez, fica ambíguo. 

É inabalável a fé na legalidade,
seja a da ditadura...
O drama familiar se fecha na democracia, urdida pelos generais e sem punição aos fardados, quando somos apresentados a dois momentos. Um é quando Eunice recebe a certidão de óbito de Rubens Paiva em 1996 e o outro quando é citada na TV a comissão da verdade do governo Dilma. Eunice agora é uma militante pelos direitos indígenas, advogada, e busca fazer cumprir a Constituição de 1988. Diante do reconhecimento pelo estado e das revelações da comissão da verdade, o drama familiar é encerrado e a família é mostrada reunida com as novas gerações prontas para seguir em frente. A mensagem de Walter Salles e dos produtores globais é que foi feita justiça, Rubens foi reconhecido em sua inocência e a angústia da família enfim pode se encerrar porque a ausência não é mais ausência, mas presença na forma da memória cristalizada pela certidão de óbito e pela elucidação do crime pela comissão da verdade. 

Mais que isso, na Nova República vivemos no melhor dos mundos, em que a verdade do período de chumbo é restituída, bastando se lutar para cumprir a constituição, conforme se diz em uma cena. A mensagem exibida na tela, após o fim do filme, contudo, relativiza o clima otimista do final ao indicar que os militares foram denunciados, mas não condenados. Por que não encenar isso e apenas exibir enquanto mensagem? Talvez porque esse fato desminta a própria mensagem final, ao ressaltar as contradições profundas da redemocratização. 

Ao final, Walter Salles e a Globo entregam um filme despolitizado, um drama familiar comum em que a ditadura militar brasileira é apenas um eco distante. O peso político do desaparecimento de Rubens Paiva é diluído como se fosse um equívoco jurídico. A fé na institucionalidade é reforçada, seja em 1971, seja em 1996, seja em 2014, com uma confiança acrítica nas leis e na constituição, seja ela a imposta pelos generais-ditadores, seja ela a costurada com a burguesia reacionária. 

...seja a da Nova República.
Sem tirar, nem por, é a visão da ala liberal da burguesia brasileira sobre a ditadura e sobre o Brasil de hoje, pois condena na ditadura os abusos, sobretudo contra os inocentes, enquanto faz apologia do Estado Democrático de Direito, ignorando que aqui e agora também existem desaparecidos, torturados e mortos pelas forças policiais e militares. Sua produção e lançamento no contexto atual não é acaso e visa disseminar a mensagem que tudo estaria bem, bastando evitar o retorno dos abusos do passado. A fé judicial do filme casa bem com a fé judicial do pós 8 de janeiro em que Alexandre de Moraes e sua caneta redentora se tornaram pilares da salvação nacional contra o barbarismo bolsonarista. 

O filme tem tudo para sair premiado do Oscar de 2025 pois é exatamente o tipo de produção tão amada pela indústria cultural de Hollywood e pelo imperialismo estadunidense. Aliás, outro grande ausente nas duas horas do filme é justamente os EUA, aparecendo apenas sutilmente nos dólares contados por Eunice já em cena passada durante o período democrático. Em 1996 o Brasil avançava com as medidas neoliberais de FHC e o capital financeiro internacional ia sendo santificado por aqui. Cena aleatória ou mais uma mensagem?

Walter Salles e a Globo nos entregam um melodrama familiar revisionista que, embora tenha seus méritos técnicos, não esconde sua vocação liberal. A respeito do tenebroso período da ditadura militar sempre haverão outros filmes melhores. (por David Coelho)

Related Posts with Thumbnails