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segunda-feira, 13 de abril de 2026

TERRA ARRASADA QUEM DEIXOU PRA TRÁS FOI O LEHMAN BROTHERS. AS FRAUDES DO BANCO MASTER NÃO CHEGAM NEM PERTO.

Tudo que você conhecia sobre a decadência do capitalismo e a podridão do mercado financeiro é superado  em O dia antes do fim (Margin Call, dir. J. C. Chandor, 2011). 

Trata-se de um filme que, sem chamar o vilão pelo nome, mostra como o banco de investimentos Lehman Brothers agiu em setembro de 2018, quando, movido pela ganância, maximizou uma crise anunciada a tal ponto que ela quase acabou sendo o estopim de uma nova Grande Depressão (a qual, ao que tudo indica, foi apenas adiada e está cada vez mais próxima).

Não é um documentário, mas sim um drama, focado na reação dos dirigentes e corretores a partir da materialização do seu pior pesadelo. 

Não demora muito para o espectador ficar sabendo que, entre o fim do expediente num dia e o início no outro, a empresa definiu sua linha de atuação e vai preparar-se para levá-la à prática, face à constatação de que o mercado logo saberá que seus títulos são podres  e o colapso é questão de horas.

Depois da má notícia, os corretores recebem a proposta indecente: a companhia espera que eles vendam o máximo  desses papéis antes que a notícia se espalhe.
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Os que aceitarem queimar-se em definitivo na profissão, receberão uma vultosa gratificação para irem mantendo seu alto padrão de vida enquanto se reciclam e buscam novas oportunidades. 

A reação deles é previsível: fazem das tripas coração para salvarem-se do naufrágio. O que mais se poderia esperar dos participantes conscientes daquele esquema de negociatas que lhes rendia rendia comissões e bônus magníficos?

Depois, nos papos entre os mandachuvas, percebemos que estes têm a exata noção do tsunami que suas manobras (ilegais) causarão no mercado, mas não estão nem aí; querem é salvar o máximo de grana que puderem antes da decretação da falência.

A excelência do filme se deve, entre outros méritos, a não pretender dar uma aula sobre subprimes e como se transformaram numa arapuca para os investidores, mas sim confrontar as várias reações das pessoas que, vendo uma fase de sua existência chegar ao fim, agem da pior maneira possível, na linha do f...-se o mundo, eu não me chamo Raimundo. (por Celso Lungaretti)

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

O BRASIL INTEIRO ESTÁ SABENDO QUE O 'BANANINHA' MANDOU O PAI TOMAR CAJU. ENTÃO, O FILME DO DIA É "CRIA CUERVOS".

O ditado espanhol Cria corvos e eles te arrancarão os olhos foi a primeira ilação que me veio à mente ao ficar sabendo que, no meio de toda a imundície que a Polícia Federal encontrou nas mensagens trocadas pelos membros do clã Bolsonaro entre si e com seus principais seguidores, encontrava-se esta do Eduardo Bolsonaro para o Jair: VTNC, seu ingrato do caralho!

O motivo teria sido a relutância do Bozo em prestar vassalagem ao rotten orange (laranja podre) que, como presidente do país que ainda é o mais poderoso do planeta, desceu ao nível de um reles mafioso ao chantagear o Executivo e o Judiciário brasileiros, na alegada defesa da impunidade do palhaço (e, principalmente, do direito divino de as empresas high tech fazerem suas lavagens cerebrais onde bem entenderem, violentando a soberania alheia).  

Desta vez o filme que garimpamos caiu como uma luva. Clássico de 1976 do cinema espanhol, com direção e roteiro do grande Carlos Saura, é sobre as lembranças de uma mulher que acredita haver possuído, quando criança, poderes mágicos e com eles ter causado a morte do pai. 

Até a etapa na vida dos dois personagens coincide, pois o bananinha parece ter agora exatamente a idade mental da menininha em tal momento do filme: nove anos. 

Só encontrei o Cria Cuervos falado em espanhol e sem legendas, além de estar indisponível nos streamings. Mas dá para compreendê-lo perfeitamente. Afinal, somos todos latinos, embora amiúde o esqueçamos... (por Celso Lungaretti)  

quarta-feira, 30 de julho de 2025

ASSISTA AO FILME DE SERGIO LEONE QUE LANÇOU O WESTERN ITALIANO: "POR UM PUNHADO DE DÓLARES"

O western italiano surgiu em 1964, meio por acaso. 

A indústria cinematográfica daquele país conseguira nos anos anteriores faturar uma boa grana com filmes épicos e mitológicos. Hércules, Maciste, Ursus, Golias, fundação de Roma, guerra de Tróia, etc. O filão, entretanto, estava esgotando-se e a Cinecittà saiu à cata de um novo produto.

Sergio Leone, então com 34 anos, tinha começado a carreira no neo-realismo italiano (como assistente de direção e diretor de segunda unidade), mas não conseguira alçar-se ao cargo principal. Era difícil abrir um espaço entre mestres como Vittorio De Sica, Lucchino Visconti, Pier Paolo Pasolini, Federico Fellini, Michelangelo Antonioni, etc.

Então, entre atuar eternamente à sombra dos medalhões do cinema de arte ou mostrar seu trabalho no cinema dito comercial, escolheu a segunda opção. Após dirigir os épicos Os Últimos Dias de Pompéia (1959) e O Colosso de Rodes (1961), teve a sorte de estar no lugar certo, no momento exato, para dar o pontapé inicial num novo ciclo.

Adaptou para o Oeste a história de Yojimbo (1961), um filme de Akira Kurosawa sobre samurai que açula a discórdia entre dois senhores feudais para prestar-lhes serviço alternadamente, sem que percebam seu jogo duplo. 

O que Leone fez em Por Um Punhado de Dólares (1964), basicamente, foi mudar a ambientação e colocar um pistoleiro caça-prêmios no lugar do samurai.

Comparado aos faroestes posteriores de Leone, Por um punhado de dólares é apenas um filme bonzinho, mas embrionário. 

Mesmo assim, teve inesperado sucesso praticamente no mundo inteiro, talvez por já introduzir diferenciais significativos com relação aos congêneres estadunidenses, então em franco declínio.

Tais diferenciais, criados por Leone, foram praticamente copiados pelos outros diretores italianos que correram a fazer filmes semelhantes. São os seguintes: 
— a figura do anti-herói no centro da trama;
— a amoralidade básica dos tipos e das situações;
— a apresentação criativa dos letreiros iniciais, valorizada com vários recursos, inclusive o uso de animação;
— a nova concepção musical que Morricone trouxe para os westerns; e

Os concorrentes só não puderam contar com o ator principal do filme de Leone, Clint Eastwood, que acabou compondo um dos personagens mais emblemáticos do bangue-bangue à italiana, um pistoleiro oportunista que reapareceria nos seus dois bangue-bangues seguintes, Por uns dólares a mais e Três homens em conflito.

Eastwood não havia emplacado em Hollywood quando tentaram lançá-lo como mocinho convencional, daí o terem relegado a séries de TV e a filminhos classe B e C.

Leone o convidou para ganhar um dinheirinho extra durante suas férias nos EUA porque nele percebeu um bom anti-herói. 

Compôs seu personagem (o Estranho Sem Nome) com barba rala, chapéu sobre os olhos, charuto na boca, fala arrastada e um poncho. Com isto, acabou alçando-o ao estrelato e fazendo jus à homenagem que depois Eastwood lhe prestaria, ao dedicar-lhe sua obra-prima Os Imperdoáveis (1992).

Vale para as novas gerações como curiosidade e decerto despertará boas lembranças em quem o viu no cinema ou no horário semanal que a TV Record dedicava ao gênero no século passado. (por Celso Lungaretti)   

terça-feira, 29 de julho de 2025

OBRA PRIMA DE SERGIO LEONE REVISITA O VELHO OESTE TAL QUAL ERA E O OESTE COMO O CINEMA O RETRATOU

Q
uarto bangue-bangue de Sergio Leone, Era uma vez no Oeste (1968) é um filme lento, virtuosístico, inusitado e belíssimo, com atuações inesquecíveis de Charles Bronson, Henry Fonda, Jason Robards e Claudia Cardinale; outra trilha musical superlativa de Ennio Morricone; e a colaboração de ninguém menos que Bernardo Bertolucci e Dario Argento na concepção da história. 

Destaque também para a singela homenagem que Leone presta ao grande John Ford, ao incluir no elenco um de seus atores favoritos, Woody Stroode (como um dos pistoleiros que esperam a chegada do trem na sequência inicial).

Nos 164 minutos de espetáculo, o italiano Leone evoca um dos temas clássicos dos faroestes estadunidenses, a vingança -- buscada por um homem misterioso (Bronson) que toca gaita de forma agônica e parece ter contas a ajustar com Frank (Fonda), o capanga do sr. Morton (Gabriele Ferzetti), capitalista selvagem que implanta a ferro e fogo a primeira ferrovia daquelas bandas.

Outro traço nostálgico, provável lembrança de muitas matinês, é a amizade que surge entre o Harmônica e o bandoleiro Cheyenne (Robards), começando pelo respeito mútuo e evoluindo para a simpatia e para uma aliança cheia de riscos enfrentados em conjunto.

E há também o primeiro grande personagem feminino da filmografia de Leone, a prostituta Jill (Cardinale), que resolve iniciar nova vida com um viajante que atendera no bordel -- mais mitologia do gênero!

De um sem-número de westerns outonais a que assisti, é um dos mais reverentes e românticos, emocionado e emocionante.

Mas, Leone não se permite o simplismo de apenas colocar na tela uma magistral sistematização das ilusões cinematográficas sobre o velho Oeste. Ele introduz também o contraponto da realidade, que se evidencia na sequência do tão aguardado duelo final.

Depois que o mocinho e o bandido finalmente se defrontam, a câmara vai se distanciando do confronto solitário para mostrar, logo ao lado, as centenas de trabalhadores construindo a estrada de ferro, que transformaria radicalmente a realidade econômica e social da região.

Breve não haveria mais lugar para os Harmônicas, os Cheyennes e os Franks. As individualidades lendárias estavam condenadas pelo desenvolvimento das forças produtivas; breve só existiriam... no celuloide.

O 
indutor do progresso também não é poupado por Leone. Ele o apresenta de forma mais contundente ainda do que como Orson Welles retratou o Cidadão Kane. 

Se Kane vê sua humanidade se dissipar entre o mundaréu de quinquilharias que acumula no final de sua trajetória, Morton vai morrendo enquanto sua ferrovia ganha vida.

Combalido, reduzido a cadeirante, só se movimenta com rapidez quando está no vagão do trem; Frank, aliás, sarcasticamente o compara a uma lesma que, por onde passa, deixa um rastro de gosma, na forma de trilhos.  

Este foi o primeiro filme da trilogia que Leone completaria com Era uma vez a revolução (no Brasil, Quando explode a vingança, 1977) e Era uma vez na América (1984). 

Dele também é a trilogia dos dólares: Por um punhado de dólares (1964), Por uns dólares a mais (1965) e Três homens em conflito (1966).

Um clássico absoluto. Imperdível! (por Celso Lungaretti)

sexta-feira, 18 de julho de 2025

O FILME DO DIA É PARA TRUMP FICAR SABENDO O QUE RESULTARÁ DE SEUS DESATINOS ATUAIS

O filme para ver no blog desta sexta-feira (18) tem tudo a ver com o acontecimento político do momento: os desatinos de Donald Trump que, ao tentar reverter a decadência do Império Estadunidense com decisões desastrosas, só faz acelerar sua queda.

A queda do império romano, épico de 1964 com três horas de duração, é uma superprodução dirigida por Anthony Mann com grandes atores da época como Sofia Loren, Alec Guinness, James Mason, Omar Sharif e Christopher Plummer. 

Trata-se de uma abordagem muito melhor da história recontada por Riddley Scott em Gladiador (este último foi quase um remake).
A fita do ano 2000 só foi mais feliz na escolha do astro, Russell Crowe, pois Stephen Boyd estava muito longe de possuir o carisma que o papel exigia (será que Charlton Heston não estava disponível?).

A epigrafe do filme, de Will Durant, foi premonitória, ao interpretar tão bem o que significa o caos instalado por Trump nas relações internacionais. O historiador disse que os impérios eram corroídos por dentro antes de serem destruídos por fora.

Quando uma grande potência é submetida aos rompantes de um megalomaníaco destrambelhado como o Trump, podemos ter certeza de que seu apogeu ficou para trás e a queda é iminente. (por Celso Lungaretti) 


quinta-feira, 10 de julho de 2025

A FRASE DO DIA É SOBRE AS IRONIAS DA HISTÓRIA E TIROS SAINDO PELA CULATRA

O Lula ESTÁ INCONSOLÁVEL: desde OS ANOS 70 DANDO UM duro DANADO  para domesticar a esquerda brasileira 
e o Trump, EM POUCOS dias, DESTRUIU toda A SUa obra!
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A esperteza, quando é demais, acaba engolindo o esperto...
Não há nada como um dia depois do outro, daí estarmos
iniciando uma nova temporada do filme Os companheiros,
um clássico das lutas sociais, dirigido por Mario Monicelli.

sexta-feira, 4 de julho de 2025

ESTE FILME DEVERIA TER DIREÇÃO DO STANLEY KUBRICK E ROTEIRO DO SAM PECKINPAH. PERDEU MUITO SEM ELES?

Único filme dirigido pelo superlativo ator Marlon Brando, A Face Oculta (1961) é um western sobre vingança, tema pra lá de recorrente no gênero.
 
Introduziu, contudo, um toque de modernidade para a época, ao insinuar que  entre o bandido (Brando) abandonado e o comparsa (Karl Malden) que o deixou entregue à lei tenha existido uma atração homossexual, não necessariamente levada às vias de fato. 

Ou seja, há uma traição explícita que todos os espectadores captam e uma atração implícita, que só críticos e um público mais sofisticado percebem, pois Hollywood ainda se submetia ao código de  censura moralista que artificializou seu cinema por décadas.

Inicialmente,  A face oculta tinha Stanley Kubrick como diretor e Sam Peckinpah como roteirista, mas ambos saíram brigados com a Paramount e Brando assumiu. No entanto, seu relacionamento com a companhia se mostrou igualmente tempestuoso, as filmagens e a edição se alongaram, o orçamento foi em muito ultrapassado. Como consequência, mesmo sem fracassar na bilheteria o filme acabou dando prejuízo. 

Belas imagens, grande atuação do par central, algum aprofundamento psicológico, mas uma fita que perde muito na comparação com os faroestes italianos, que bombaram a partir de Por um punhado de dólares (1964) do Sergio Leone, e propondo uma abordagem  mais criativa e (os melhores deles) transgressora para os bang-bangs. (por Celso Lungaretti)
Clique aqui para ver A Face Oculta legendado no Youtube

sábado, 31 de maio de 2025

SOBRE O FILME 'NO CALOR DA NOITE', UM CLÁSSICO DE 1967, E A NOITE QUE HOJE SE ADENSA E AMEAÇA NOS TRAGAR A TODOS

F
oi por causa da insônia que resolvi rever No calor da noite (disponível no streaming da Prime Vídeo).

É que, quando acordo no meio da madrugada, assistir a um filme qualquer geralmente me ajuda a reencontrar o sono perdido.

A receita só não funcionou desta vez porque o velho clássico de Norman Jewison me provocou uma reflexão sobre a alternância dos humores do respeitável público, que oscilam do ótimo para o péssimo e vice-versa, sem alterarem o fundamental: enquanto o capitalismo continuar sobrevivendo à sua disfuncionalidade, os paliativos adotados pelas pessoas para seguirem vivendo não passarão de tempestades de som e fúria significando nada, como diria Shakespeare.

Evidentemente, sempre nos será mais gratificante vivermos em circunstâncias otimistas do que nas agônicas.  E os melhores dentre nós optam por resistirem com todas as forças ao avanço da desumanidade nos  regimes agônicos, ao invés de prostrarem-se a eles. 

Estimo que assim seja e minha opção de uma vida adulta inteira foi engrossar as fileiras dos resistentes. Tento, ademais, alertar os meus leitores e seguidores de que a alternância desses ciclos não significa que a solução esteja num deles. 

Não está. Ora sobreviveremos razoavelmente (mas muito aquém dos potenciais de melhora existentes) dentro do capitalismo, ora  comeremos o pão que o diabo amassou submetidos ao dito cujo, até que nos decidamos tomar a História nas mãos para destravá-la, livrando-nos do regime da exploração do homem pelo homem. É simples assim.

Atendo-nos ao passado mais recente, o século 20 começou com a ilusão de que os avanços científicos trariam grande progresso para a humanidade, que estaria entrando numa idade do ouro. 

Veio, no entanto, o primeiro conflito mundial e foi como um balde de água fria, com os horrores da guerra de trincheira superando os piores augúrios. E a paz precária acabou sendo apenas um intervalo no qual se incubaram totalitarismos e crises econômicas agudas, as quais desembocaram na Grande Depressão que perdurou durante toda a década de 1930 e só foi superada a partir de uma nova guerra mundial, seguida da penosa reconstrução do que fora destruído.

Assim como hoje falamos de décadas perdidas, poderíamos qualificar toda a primeira metade do século passado como perdida, do ponto de vista da ascensão da humanidade a um estágio superior de civilização.

A década de 1950 começou com a guerra fria pendendo como uma guilhotina sobre o futuro da humanidade e com uma repulsiva caça às bruxas ressurgindo em plenos EUA, o macartismo. 
Mas, após os Estados Unidos mostrarem sua pior face na perseguição arbitrária a alguns inimigos reais mas inofensivos e uma expressiva maioria de inimigos apenas imaginários, sucumbindo a uma grotesca histeria que foi insuflada ao máximo para servir à manipulação política, seria também lá que uma página mais digna da História começaria a ser escrita.

Foi a eclosão de movimentos para que os direitos civis dos negros passassem a ser respeitados, com os ditos cujos não mais sendo tratados como cidadãos de segunda categoria no seu próprio país. 

Hollywood, ainda que movida pelo interesse e não por convicção, não ficou indiferente aos ventos de mudança: a partir do metade final dos anos 50 produziu muitos filmes contrários ao racismo ou que abordavam criticamente as injustiças e desigualdades que continuavam existindo no país mais rico e poderoso do mundo.

A década de 1960 nasceu por lá sob o signo de esperanças ingênuas (John Kennedy não ascendeu ao poder por acaso!). E, embora houvesse uma encarniçada resistência dos setores mais retrógrados, foram crescendo as iniciativas para a erradicação de mazelas há muito arraigadas na sociedade. 

Os assassinatos de Martin Luther King e Malcon X reentronizariam o princípio da realidade, mas é impossível não simpatizarmos com aqueles esforços bem intencionados... e nem sempre bem concretizados em termos cinematográficos
.

A sequência de filmes que adotaram essas novas abordagens se inicia com Sementes de violência (d. Richard Brooks, 1955), seguindo-se Um homem tem três metros de altura (d. Martin Ritt, 1957), Acorrentados (d. Stanley Kramer, 1958), O sol é para todos (d. Robert Mulligan, 1962), Ao mestre, com carinho (d. James Clavell, 1967), Adivinhe quem vem para jantar (d. Stanley Kramer, 1967) e A libertação de L. B. Jones (d. William Wyler, 1970), entre outros.

Um magnífico exemplar de tal tendência é o que motivou esta digressão,  
No calor da noite (1967), que consegue passar sua mensagem edificante sem ranço didático nem pieguice. 

Começa com um sofisticado policial negro da Filadelfia, Virgil Tibbs (Sidney Poitier), de passagem por uma cidadezinha sulista atrasada e preconceituosa, se envolvendo com a investigação do assassinato de um grande empresário.

O xerife Bill Gillespie (Rod Steiger), cuja mentalidade é igualmente tacanha, se vê obrigado a pedir sua colaboração, pois é inexperiente em episódios de tal gravidade e os cidadãos não lhe perdoarão um fracasso, ainda mais sabendo que ele tinha um especialista à mão.

Então, mais do que o esclarecimento do crime, o filme vale mesmo é pela interação entre Gillespie e Virgil, que começa em choques de personalidade e acaba em respeito mútuo; e pela reação da comunidade racista à momentânea ascendência que o policial negro adquire.

Assistir de novo, tanto tempo depois, este filme bem intencionado foi paradoxal porque os preconceitos e a obtusidade que estavam então em fase de superação são exatamente aquilo que o presidente Donald Trump tudo faz para restabelecer, cometendo uma lambança atrás da outra. 

Trata-se de missão impossível e que causará enormes danos à humanidade (principalmente no enfrentamento das alterações climáticas), além de poder levar os EUA a deixarem de ser potência dominante. A China, que já morde seus calcanhares, deverá ser a grande beneficiada pela guerra que Trump move contra a ciência e o pensamento. 

Quem tenta fazer a História andar para trás invariavelmente  quebra a cara, como o Jair Bolsonaro aprendeu (e o Lula, que parece não ter compreendido o porquê do retumbante fracasso da política econômica da Dilma Rousseff, mostra-se tentado a repetir as mesmas besteiras...). 

Quanto à esquerda, mais do que nunca precisa compenetrar-se de que seu papel hoje é o de lutar contra os retrocessos civilizatórios e resistir à desumanização. mas não dentro da perspectiva de restaurar o status quo anterior.   
E há um forte motivo para tanto: as perspectivas que pareciam existir na última virada de século, de que finalmente a humanidade se beneficiaria em larga escala dos avanços científicos e tecnológicos, desfez-se como bolhas de sabão.

Outra vez se comprovou que o capitalismo não pode ser regenerado, nem os principais ganhos obtidos com as melhoras nas atividades produtivas serem redirecionado para os mais necessitados, pois sua lógica é a do aumento incessante da desigualdade econômica e tais ganhos acabam servindo apenas para reforçar a dominação exercida pelos bilionários, uma minoria de repulsivos Eltons Musks. (por Celso Lungaretti)

sábado, 10 de maio de 2025

BOLSONARO SOFRE DUPLA DERROTA: ALÉM DE NÃO TER CONSEGUIDO EVITAR A PRISÃO, AVACALHOU-SE AINDA MAIS.

O cavalo de Troia por meio do qual deputados federais pretenderam salvar Jair Bolsonaro do merecido castigo por ter sido o principal responsável pela tentativa de golpe de Estado do 8/1 virou cinzas.

Dos cinco integrantes da 1@ Turma do Supremo Tribunal Federal, quatro já votaram contra tal manobra casuística e a quinta, Carmen Lúcia, mantendo-se coerente com seus posicionamentos anteriores, certamente fechará o placar em 5x0.

O nome dos que já honraram as próprias togas merece ser citado: Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin, Flávio Dino e Luiz Fux.

Bolsonaro, que não disse uma única palavra contra o artifício utilizado por seus parças para tentarem evitar-lhe a prisão, comportou-se  mais uma vez de maneira incompatível com a dignidade que se espera de um ex-presidente da República... e nem sequer lucrou com isto. Sai mais desmoralizado ainda do que já estava, e com as mãos abanando.

A jogada era obterem uma decisão contrária da Câmara Federal, antecipando-se à inevitável condenação do deputado Alexandre Ramagem no STF por golpismo.

E, seja por corporativismo ou por fascismo, 315 deputados realmente votaram pela suspensão do processo contra Ramagem enquanto ele estiver no exercício do seu mandato.

Se a empulhação fosse bem sucedida, o absurdo seguinte seria tentarem estender tal benefício a Bolsonaro, embora se trate de um privilégio concedido tão somente aos possuidores de mandato legislativo, não se tratando, portanto, do caso do dito sujo (atenção, a palavra que eu quis grafar não era cujo, é sujo mesmo...).

Conforme antecipei no meu artigo da véspera, os quatro ministros que já deram seu voto entenderam que só duas das acusações a Ranagem (dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado) devem  ser suspensas até o final do seu mandato, mas as de extrema gravidade (abolição violenta do Estado de Direito,  associação criminosa armada e tentativa de golpe de Estado), não.

Flávio Dino ressaltou que, quando está em causa um processo jurídico, "a deliberação do Poder Legislativo não é imune ao controle jurisdicional, sendo certo que, nessa conjuntura, a decisão final constitui ato típico e exclusivo do órgão competente do Poder Judiciário".

Para finalizar, parabenizo o colega Josias de Souza por ter esgotado este assunto com tão poucas frases, mas afiadas como navalhas: "A imunidade parlamentar, quando usada para cavar a impunidade, vira um outro nome para vigarice. Quando pessoas sem mandato tentam pegar carona na imunidade alheia, a picaretagem vira formação de quadrilha. Se o crime do qual se deseja escapar é uma tentativa de golpe de Estado, com invasão e depredação das sedes dos Três Poderes, tem-se a reiteração do ataque à democracia".  (por Celso Lungaretti)

quinta-feira, 8 de maio de 2025

TAL COMO SEU ANTECESSOR NOMINAL, IRÁ LEÃO XIV FAZER UM PONTIFICADO CONTRADITÓRIO? O TEMPO DIRÁ.

O nome escolhido por um Papa diz muito sobre os caminhos que ele deseja trilhar em seu reinado e no caso do novo pontífice a escolha vem carregada de significado. 

Leão XIII foi o Papa responsável pela encíclica chamada De Rerum Novarum, um documento publicado em 1891 que tratava especificamente da questão operária em um contexto de perda de influência do catolicismo entre a classe trabalhadora europeia, cada vez mais ganha pelo socialismo. Contraditório, o documento criticava a situação miserável dos trabalhadores, defendia o direito de greve e de sindicalização, mas também atacava o socialismo, o liberalismo e a laicização social. Foi a primeira grande tentativa do Vaticano de entrar no mundo moderno. 

Leão XIII tentou combater a influência
socialista entre os trabalhadores.

Essa informação histórica é importante para entendermos a escolha de Robert Francis Prevost pelo nome Leão XIV. Arcebispo de origem estadunidense, nascido em Chicago, Prevost foi durante mais de duas décadas bispo no Peru, país do qual é cidadão naturalizado. Portanto, a rigor, ele é o primeiro Papa estadunidense, mas também o primeiro peruano, continuando com o movimento do Vaticano, iniciado com Francisco, de eleger pontífices oriundos da América Latina, região onde hoje o catolicismo encontra-se em franca decadência. Que ele também seja estadunidense é mais uma peça política nada gratuita, diante dos recentes desgastes da Igreja nos EUA por causa das denúncias de pedofilia que abalaram aquele país. 

O agora Papa, inclusive, é criticado por ter acobertado padres pedófilos e é lembrado por ter feito declarações nada abonadoras a respeito da comunidade LGBT, declarando que suas práticas não estariam de acordo com o evangelho. Condenou igualmente a tentativa de se ensinar ideologia de gênero nas escolas da pequena e miserável cidade peruana onde era bispo. Em geral, é tido como um moderado, mais à direita que Francisco, mas sem o reacionarismo de um Bento XVI. 

Daens acreditou na encíclica
de Leão XIII, mas foi por ele
abandonado.
A encíclica de Leão XIII foi muito mais um documento vazio que uma correção concreta de rumos na empoeirada Igreja Católica. Quem tiver curiosidade, pode assistir ao filme Daens, colocado na janelinha ao final deste post, cuja trama aborda a história do padre belga  Adolf Daens. Vivendo no interior da Bélgica, esse sacerdote acreditava nas promessas da De Rerum Novarum e inicia potente campanha em prol dos operários, ali submetidos à superexploração e à miséria mais implacável, e entra em disputa com os burgueses locais. Os industriais da região iniciam brutal perseguição contra ele, o levando a bater nas portas do Papa em busca de ajuda. Contrariando sua encíclica, Leão XIII não ousa se colocar contra a poderosa burguesia belga e abandona o pobre Daens à própria sorte. No fim, condenado ao silêncio obsequioso, sua única alternativa é abandonar a Igreja e seguir sua luta.

Ao escolher seu nome, Leão XIV mostra qual será o espírito de seu pontificado e esse espírito parece ser o mesmo de seu antecessor nominal: contraditório e formal, buscando se entregar ao mundo moderno, mas o condenando, confrontando os poderosos no discurso, mas não na prática, e no fim acima de tudo preocupado com sua perda acelerada de fiéis. No fim, o novo Papa parece ser uma síntese impossível de uma Igreja atravessada por uma profunda crise entre os ressentimentos reacionários e as aspirações liberalizantes. (por David Coelho) 

terça-feira, 6 de maio de 2025

HÁ 50 ANOS, O SUCESSO AVASSALADOR DE "TUBARÃO" ALÇAVA STEVEN SPIELBERG INSTANTANEAMENTE A GRANDE DIRETOR

Em 1975, quando Steven Spielberg estava com 28 anos, sua carreira como diretor se resumia a curtas metragens, filmes e episódios de seriados para TV e um único longa para cinema, Louca escapada, sem grande repercussão. 

Mas Encurralado (1971), um dos seus trabalhos para a tela pequena, impressionara tanto que acabou sendo lançado na tela grande. Esperava-se dele algo maior e a promessa foi cumprida com Tubarão, que o alçou instantaneamente à condição de grande diretor de Hollywood. 

Foi novamente um filme de ação, tendo como receita do seu êxito a temática do duelo . Em Encurralado, havia sido o confronto, que acaba se tornando mortal, entre os motoristas de um conversível e de m enorme caminhão, ao longo da rodovia.

Tubarão tem 124 minutos e vale sobretudo pela metade final, quando um xerife, um oceanografo e um caçador profissional de tubarões saem no encalço de uma fera gigantesca que atacava os banhistas de uma cidade turística e, ao invés de fugir, os enfrenta.
Ou seja, o enredo tinha a mesma inverossimilhança de
Moby Dick: peixes não duelam com homens, estão apenas ocupados com alimentarem-se de peixes menores. Mas, se tanto a baleia quanto o tubarão não fossem vingativos e perseguissem os homens que os haviam tentado matar, ambas as histórias não seriam tão impactantes.

O talento de Spielberg em culminar seu filme com ação eletrizante, de tirar o fôlego, foi recompensado: Tubarão bombou no mundo inteiro e motivou os produtores a lançarem três sequelas (com histórias encomendadas do mesmo escritor e roteirista, Peter Benchley) e vários trabalhos menores com outras criaturas marinhas gigantescas, mas a moeda não caiu outra vez em pé. 

Sem Spielberg, que não quis continuar explorando filão que inaugurara, não houve mais nenhuma  bilheteria expressiva. 

De resto, a grande atuação do filme ficou por conta do Robert Shaw, que precisava compor um personagem impressionante, obcecado em vingar-se dos peixes que quase o haviam devorado, e deu total conta do recado. 

E o tema musical do ataque do tubarão, composto pelo John Williams, é do tipo chiclete: gruda nos ouvidos. (por Celso Lungaretti)    
O filme Tubarão pode ser alugado/comprado no próprio
Youtube; está disponível também no streaming da Prime.
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