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sábado, 27 de julho de 2024

É IRRELEVANTE KAMALA HARRIS SER NEGRA E MULHER?

 

É sempre bom dar uma volta pelas redes sociais para saber como elas reagem diante das últimas notícias, pois pode haver surpresas ou temas para discussões. É o caso da desistência da candidatura à reeleição pelo presidente Joe Biden em favor da atual vice-presidenta Kamala Harris.

Kamala não tem nada a ver com os Pilgrims Fathers, os primeiros colonizadores dos EUA. Bem ao contrário, ela é negra,  filha de pai jamaicano e de mãe indiana, ambos imigrantes. Os EUA já tiveram um presidente negro por dois mandatos, Barak Obama. Já houve uma candidata mulher à presidência dos EUA, Hillary Clinton, esposa do ex-presidente Bill Clinton e descendente de famílias brancas tradicionais de origem européia. Para quem não se lembra, Bill Clinton foi reeleito e deixou o governo com alta popularidade. Mesmo assim, Hillary foi derrotada em 2016 por Donald Trump.

O Brasil já se antecipou aos EUA nessa experiência com a eleição em 2010 de Dilma Rousseff, branca, filha de pai búlgaro e mãe brasileira, reeleita e destituída dois anos depois por impeachment. Marina Silva, negra e filha de pais pobres, foi três vezes candidata à presidência sem sucesso. Que fatores teriam ajudado Dilma Rousseff e prejudicado Marina Silva?

De uma maneira geral, a imprensa internacional se pergunta se o eleitorado dos EUA já está no ponto para eleger uma mulher e, além disso, uma mulher negra. Ou ainda, mulher negra filha de imigrantes, quando o principal programa do candidato opositor, misógino e machista, é a deportação em massa de imigrantes.

Essa é a primeira pergunta genérica que leva a outra mais precisa: existe um significado maior para essa escolha por um dos partidos do país mais rico e mais desenvolvido do planeta? E, no caso de Kamala Harris ser eleita, poderá haver um avanço mundial para a situação das mulheres em termos de paridade com os homens?

Ou o fato de surgir a candidatura de uma mulher negra vinda da imigração com a possibilidade de ser eleita presidente dos EUA "não tem a menor importância, é irrelevante, não é determinante e é apenas uma questão secundária"? É simples assim? Isso não vai mudar em nada a situação mundial - e como ouvi e li - "continuará a exploração e o domínio do mundo pelo imperialismo norte-americano?"

Vou deixar de lado as críticas do Diário da Causa Operária ao texto do site Esquerda Online sobre "o caso Kamala Harris", por ser um debate mais específico. Agora, o mais apropriado é o vídeo de Breno Altman, no Opera Mundi, voltado ao grande público, no qual ele considera irrelevante e secundária a candidatura de uma mulher negra filha de imigrantes à presidência dos EUA. "As questões de raça e gênero só têm relevância no que concerne a direitos, preconceitos e privilégios".

Me lembro, durante o caso do treinador Cuca do Grêmio, alvo de um processo na Suíça por estupro coletivo de uma menor, que acabou se demitindo do Corinthians por pressão da torcida feminina, ter ouvido de alguém de esquerda, que a questão de gênero e o feminismo deveriam vir depois e não antes da revolução. E a recente piada de mau gosto do presidente Lula sobre violência doméstica contra mulher de corintiano vai nessa mesma linha.

"Qual a diferença" - pergunta Breno no seu vídeo - "se o povo palestino se faz bombardear por bombas enviadas por um homem branco ou uma mulher negra?" Isso não é uma síntese ou uma conclusão um tanto precária e redundante?

Diante da decisão de escolher uma mulher, negra e filha de imigrantes, por um dos principais partidos políticos da maior nação do mundo, minha reflexão é bem diferente. É a de constatar o longo caminho percorrido pelas mulheres norte-americanas até chegarem a esse tipo de conquista e reconhecimento - a de serem consideradas iguais aos homens para dirigirem o país. 

Elas estavam no navio Mayflower que há 400 anos transportou da Inglaterra os puritanos peregrinos povoadores da primeira colônia permanente na costa leste norte-americana. Chegaram também nos navios vindos da África  para viverem a escravidão e muittas delas sofrem ainda o racismo generalizado, mesmo depois do fim de uma guerra civil pondo fim à escravatura. Sem esquecer das mulheres nativas do continente, grande parte massacrada pelos colonizadores, e das imigrantes de todo o mundo.

Enquanto isso, em muitos países, a situação social, econômica e individual das mulheres é de submissão e de privação de direitos, seja em consequência de ditaduras ou de teocracias retrógradas. (por Rui Martins)

sexta-feira, 24 de novembro de 2023

CONTRA A CENSURA SIONISTA A BRENO ALTMAN!

 


A
última pretensão dos sionistas no Brasil é calar jornalistas e críticos do Estado de Israel. A Conib - Confederação Israelita do Brasil - que se arregam o título de sionistas de esquerda, um contrassenso conceitual, decidiu ir à justiça para censurar publicações do jornalista Breno Altman, fundador do site Opera Mundi.

Já seria um absurdo imenso uma organização pleitear o silenciamento de alguém, mas, para completar  a insensatez, um juiz deu ganho parcial de causa aos sionistas, determinando que Altman retire do ar diversas publicações, sob pena de pesadas multas. Ou seja, na prática, impôs a censura, concordando com o falso argumento propagado pelos defensores do terrorismo israelense de que criticar Israel é ser antissionista. 

Em que pese as inúmeras divergências que possamos ter em relação às posições de Bruno Altman, sobretudo em seu apoio ao lulopetismo, não podemos ficar calados diante de tal perseguição. Por isso, prestamos nossa solidariedade a ele e reivindicamos o cumprimento integral do direito à liberdade de expressão, tal como é consagrado pela Constituição do Brasil. 

Contra a Conib, e demais defensores do sionismo, mascarados ou não de esquerda, só podemos deixar nosso repúdio e mais uma vez perceber o quão autoritário é esse movimento. (por David Emanuel Coelho) 

quarta-feira, 15 de novembro de 2023

A VISÃO DA ESQUERDA JUDAICA SOBRE O MASSACRE EM GAZA

 


Como os judeus da esquerda brasileira estão reagindo e interpretam a guerra de Israel contra o Hamas? Uma boa síntese para essa indagação foi possível por iniciativa do canal Diário do Centro do Mundo com um debate entre dois intelectuais esquerdistas judeus, um de formação e de origem comunista, o conhecido jornalista Breno Altman, e o advogado e professor de formação anarquista, Pietro Nardella-Dellova, como ambos explicaram durante o debate.

O encontro começou com a questão básica: é possível ser sionista e ser a favor do povo palestino? E surgiu a primeira divergência justamente sobre a essência do sionismo.

Aqui é preciso se buscar um resumo, uma definição de sionismo e como foi estruturado. Sirvo-me de uma definição acadêmica da Escola de Política Aplicada, da Universidade Sherbooke do Canadá:

“Movimento doutrinal e político cujo objetivo é a construção, consolidação e defesa de um estado judeu na Palestina, perto de Jerusalém. O movimento é assim chamado em referência à colina de Sião, em Jerusalém, onde a cidadela de Davi foi erguida nos tempos antigos. O fundador do sionismo é Theodor Herzl, político e jornalista judeu húngaro (1860-1904). Em resposta ao anti-semitismo presente em toda a Europa - caso Dreyfus em França, pogroms na Rússia -, publicou um manifesto fundador do sionismo intitulado "O Estado Judeu, em busca de ‘uma moderna resposta' à questão judaica" em 1896, onde apresentou sua tese sobre a necessidade de os judeus criarem seu próprio estado. Em 1897, um congresso judaico reunido em Basileia. na Suíça, sob a presidência do próprio Herzl, deu origem ao movimento sionista. Um ano depois, foi criado um banco colonial judeu, que em 1901 levou à criação do Fundo Nacional Judaico, cujo objetivo era adquirir terras na Palestina, região de origem do povo judeu há mais de dois milênios. No entanto, já em 1882, estudantes judeus da Rússia, os “Amantes de Sião”, iniciaram as primeiras formas de colonização.

Balfour, idealizador do
Estado de Israel.

Foi apenas em 1917 que os sionistas conseguiram marcar pontos políticos com a “Declaração Balfour”, nomeada assim em função do ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, Balfour, que aceitou, em nome do Reino Unido, a criação de uma “casa nacional judaica” na Palestina. Em 1948, o Estado de Israel foi finalmente proclamado pela ONU, provocando fortes reações árabes.

O sionismo está hoje intimamente ligado à defesa ideológica e política do Estado de Israel, bem como à promoção das suas políticas de defesa. O sionismo diz se opor ao anti-semitismo”.

Parece-me também necessário acrescentar que ao judaismo só se chega por herança étnica de pai/mãe para filhos.

Para Pietro Nardella não existe um conceito único de sionismo: “penso no sionismo como uma defesa do Estado e quando o sionismo é de esquerda, progressista, é possível se pensar em questões sociais e na questão palestina ou no estabelecimento de um Estado palestino”.

Nada a ver com a opinião de Breno Altman: “é possível como uma fantasia, não como demonstrou a realidade histórica. Todas as correntes do sionismo acabaram por chegar à essência do sionismo. Embora haja muitos sionistas que se reivindicam de esquerda e pensam individualmente de uma maneira mais generosa, o sionismo, na sua essência, é colonialista e racista. Não existe nenhuma harmonia na defesa de um Estado palestino com o sionismo. Porque o racismo é uma outra forma de racismo. É evidente que se o sionismo se propôs construir um Estado étnico numa região ocupada por outros povos, ele assumiu uma característica racial, porque a proposta herzliana de um estado judeu, não é de um estado nacional, mas de um Estado étnico nacional, uma concepção racista, e de uma vertente colonial com a expulsão dos povos que ocupam a região. Isso o que fez o sionismo socialista do Mapai de Ben-Gurion ou o sionismo revisionista de Jabotinsky.”

Na mesma linha de pensamento, Altman cita que no processo africano de descolonização não houve nenhum país criando um Estado etnicamente negro. Mesmo na África do Sul, onde havia o colonialismo segregacionista criado pelos boers, ao terminar o apartheid não se criou um Estado negro, mas um Estado democrático nacional sem caráter étnico ou religioso. “Ora, disse Altman, o sionismo desde o princípio se propôs a criar um Estado com um grupo étnico cultural com raízes ancestrais religiosas. Israel é um Estado supremacista racial sem igual em todo mundo; nem as teocracias do Oriente Médio se baseiam no caráter étnico da população, mas no caráter religioso, coisa altamente condenável, mas que não constituem uma doutrina racista”.

Nakbar, a grande tragédia, quando milhares
de palestinos foram expulsos de duas casas para
criar o Estado de Israel. 

“Quando se começou a implantar o sionismo, os judeus eram apenas 10% da população”, diz Breno. "E isso leva à criação de um Estado colonial, que expulsa e precisa se militarizar, seja com Ben Gurion ou com Netanyahu”.

Depois de duas horas de debates ou de reafirmações recíprocas de seus pontos de vista, o professor Pietro se despediu reafirmando a necessidade de se criar um Estado palestino e sua condenação do Hamas. Breno com sua habitual verve enfatizou a representatividade dos palestinos de Gaza pelo Hamas sem entrar na questão da rivalidade do grupo com a Autoridade Palestina.

Não houve tempo para outros tipos de discussão e talvez nem o próprio Altman esteja se preocupando com o contraponto ao Estado sionista étnico judeu. Trata-se do Estado religioso teocrático islâmico ao qual alguns países do Oriente Médio aderiram ou estão aderindo. O sionismo restringe a sua própria expansão por ser étnico, enquanto o islamismo se expande por seu aspecto proselitista e missionário, não havendo nenhuma barreira étnica às conversões, como, aliás, ocorreu com o próprio cristianismo.

Seria o caso de se perguntar, qual o mais perigoso?, o Estado étnico, que se restringe com suas exigências, ou o Estado religioso que se expande e se impõe com o objetivo de criar uma teocracia mundial?

Neste caso, perde importância o conceito de posse de territórios, substituído pelo conceito de valores e direitos humanos. As atuais teocracias islâmicas - e o Hamas tem um projeto de teocracia islâmica para a região - significam um avanço ou um retrocesso para o Oriente Médio e para a humanidade em geral? Seja nas tão discutidas questões do feminismo e do gênero, e mesmo na liberdade de cada um dispor de sua vida, implicam ou não no retorno a um fundamentalismo religioso comportamental ultrapassado que restringe o espaço vital das mulheres, da liberdade sexual e de tantos outros direitos com os quais já nos acostumamos e nem nos damos conta nas democracias laicas ou seculares?

Entre as vítimas do morticínio de Israel estão
milhares de crianças. 

Na avaliação da atual guerra e na condenação de Israel por seu bombardeios das populações civis, não estaria faltando, principalmente por parte das mulheres independentes donas de seus corpos, dos jovens laicos, livres e de todos os gêneros, deixarem claro nas manifestações serem favoráveis apenas aos palestinos e não ao projeto de teocracia islâmica do Hamas, que representaria um enorme retrocesso para a região? 

Com a perda das liberdades seculares e o surgimento de outros tipos de arbitrariedades, restrições religiosas, perseguições e crimes que se cometem contra mulheres e LGBTs no Irã, a teocracia islâmica mais conhecida e modelo para o Hamas, seria esse o melhor caminho para a Palestina ou, antes, a criação de uma comunidade laica? (por Rui Martins) 


segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

EXCESSO DE PACTOS PODE TORNAR CATASTRÓFICO O GOVERNO DE LULA

O
alerta foi lançado pelo filósofo Vladimir Safatle, no programa 20 minutos da semana passada, cuja íntegra pode ser acessada pelo leitor na janelinha do rodapé):
"A bomba ia explodir agora com o risco de eleger Bolsonaro, mas com a frete ampla [que o PT está articulando] vai explodir depois e pode ser politicamente catastrófico para a esquerda. O risco é não conseguir governar, ficar tudo paralisado por conta de tantos pactos, ou fazer um governo de centro-direita porque é isso que temos para hoje".
Segundo Vladimir Safatle, a estratégia da frente amplíssima contra o fascismo pode tornar as eleições presidenciais deste ano um jogo apenas simbólico:
"Como não se configurou nenhuma outra esquerda, o PT pode fazer o que quiser, porque quem é de esquerda não tem outra opção de voto. Mas, o PT deveria explicar para a sociedade o que é um programa de esquerda efetivo para o Brasil. Se colocasse isso no 1º turno, poderia negociar no 2º. Mas, se já entra na disputa com um rebaixamento do horizonte propositivo, o PT joga a toalha antes de começar a luta".
Ele pondera que "riscos existem em vários níveis e a gente está trocando um pelo outro". E não esconde seu pessimismo:
"O Brasil é um país sem esquerda e, de forma geral, a esquerda latino-americana já não acredita em si mesma".

 

quarta-feira, 22 de abril de 2020

RUGIDOS QUE VÊM DO FUNDO DO POÇO NÃO ASSUSTAM, POIS SOAM COMO MIADOS...

"Apenas haverá saída democrática se o povo exercer sua soberania, com a derrocada do governo Bolsonaro-Mourão e a antecipação das eleições presidenciais, precedidas do cancelamento das farsas judiciais que impedem a participação de Lula" (Breno Altman, do site Ópera Mundi, esquecido de que, quando a correlação de forças nos é tão desfavorável como agora, temos de agarrar o que pudermos obter, sem afugentarmos os imprescindíveis aliados com pleitos irrealistas. Para quem tem Bolsonaro, Mourão é lucro. O resto pode ficar para depois de reconstruirmos a esquerda, resgatando a credibilidade e a combatividade perdidas) 

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

POR NÃO TERMOS FEITO A AUTOCRÍTICA OBRIGATÓRIA EM 2016, SOFREMOS UMA DERROTA PIOR AINDA EM 2018

Nunca foi isto que se pretendeu do PT...
Sou um brasileiro cordial, então estou sempre pronto para fornecer as informações necessárias a companheiros que redigem seus artigos sem conhecimento de causa. Nem precisam agradecer...

O Breno Altman, fundador do Ópera Mundi, aparece no site da Folha de S. Paulo com um artigo em que explica da seguinte forma o que Deus e o mundo vêm exigindo do Partido dos Trabalhadores nos últimos anos:
"De Giordano Bruno, Galilei e Copérnico, entre outros hereges, a Santa Inquisição não queria extrair apenas a liberdade ou a própria vida. Acima de tudo, buscava abjuração das ideias. Puni-los era insuficiente: a Igreja somente se dava por satisfeita quando beijavam a cruz e reconheciam que a Terra era o centro do universo.
Esse espírito atravessou os tempos. Muitas das vozes que exigem autocrítica do Partido dos Trabalhadores, por exemplo, assim mascaram o desejo de vê-lo renegando sua natureza classista".
Também Carlos Lungarzo, que sempre merecerá nosso reconhecimento pela abnegada colaboração que presta há tantos anos à causa de Cesare Battisti, foi extremamente infeliz ao tecer estes comentários, em artigo publicado no Congresso em Foco:        
"...a autoflagelação é apenas uma versão masoquista do sadismo judicial, cujo objetivo não é “redimir” o autor do crime, mas fazer que ele seja castigado para prazer de seus carrascos e da turba que estes levam do cabresto.
...mas sim o reconhecimento dos erros cometidos...
A autocrítica do PT só serviria para que a ralé linchadora pequena-burguesa se delicie, e possa dizer: até eles próprios, os malditos petralhas, reconhecem seus crimes".
Quem não conheceu a esquerda de tempos melhores nem está informado sobre suas práticas, pode até concordar com a desnecessidade de o PT fazer uma autocrítica, confundida, por meio de uma retórica melodramática, com o mero arrependimento cristão.

O que eu tenho a dizer a ambos é: menos, companheiros, menos

Se consideram necessário atirar boias para um partido que se afoga num mar de lama, façam-no, mas não omitam que é uma tradição de longa data da esquerda desencadear processos de crítica e autocrítica após ter cometido graves erros, cujos resultados hajam sido desastrosos.

Do ponto de vista da esquerda, nunca se tratou de ajoelhar no milho, dizer perdoe-me, Pai, pois eu pequei e beijar cruzes, mas sim de identificar onde estavam as falhas, corrigi-las e tomar providências para evitar sua futura repetição (a chamada autocrítica na prática), além de avaliar o comportamento dos dirigentes responsáveis por fracassos catastróficos.

O processo de autocrítica mais emblemático da esquerda brasileira foi o ocorrido em 1964 e anos seguintes, porque nos era totalmente inaceitável o fato de sequer ter havido qualquer reação significativa à usurpação do poder pelos golpistas.
...e o resgate de bandeiras fundamentais para o partido...
Como resultado, o PCB perdeu sua hegemonia na esquerda e nunca mais a reconquistou; novos partidos e organizações foram criados, outros se fundiram, muitos racharam, mudando diametralmente a correlação de forças no nosso campo; e se preparou o terreno para a adesão à guerrilha urbana e rural, que se tornaria a forma predominante de luta a partir do AI-5.

E isto tudo em função de um golpe dado com tropas e tanques na rua. O que dizer do impeachment de Dilma Rousseff, uma vergonhosa rendição sem luta, em que bastou um peteleco parlamentar para mandar a presidente eleita para casa?!

Então, tendo Dilma sido afastada temporariamente da presidência da República em 12 de maio de 2016 e estando careca de saber que a ela não voltaria 180 dias depois nem que a vaca tossisse, eu abri o blog Náufrago da Utopia para a discussão em profundidade das causas e consequências do que acabara de ocorrer.

No próprio dia 12 saíram estes dois artigos analíticos, um meu e o outro do Dalton Rosado.  

E muitos mais vieram na esteira, tanto da nossa equipe quando os que pinçamos na grande imprensa e nas redes sociais, até que, no dia 17,  lancei esta convocação para todos que quisessem dar suas contribuições ao debate sobre a refundação da esquerda, detalhando o que tínhamos a obrigação de abordar naquele instante:
...continuar sendo uma alternativa ao sistema político podre.
.
"A reaglutinação de forças deve marchar paralelamente com a depuração moral, pois não conseguiremos reconquistar o respeito do cidadão comum se nossa imagem continuar associada à daqueles que, comprovadamente, tenham utilizado a atuação política para, de forma ilícita, perseguir objetivos pessoais como o enriquecimento e a conquista de status.
E, claro, como não adianta repetirmos o que deu errado na esperança de que na vez seguinte dê certo, temos de discutir quais as novas estratégias e táticas a serem adotadas, para substituírem as que chegaram ao esgotamento na atual década".
Enfim, como blogueiro de esquerda que desde o primeiro momento abracei a ideia da autocrítica e fiz tudo que pude para que a dita cuja se tornasse realidade, espero dos companheiros Lungarzo e Altman as ressalvas obrigatórias: 
— de que a autocrítica do PT foi pleiteada em primeiro lugar pela esquerda e dentro da concepção que a esquerda tem deste processo, que não tem absolutamente nada a ver com o arrependimento cristão nem com as práticas da Inquisição Católica; e
— de que, seja lá o que for que a direita tenha cobrado muito tempo depois do PT em termos de autocrítica, quem lançou a ideia não foi ela, fomos nós, daí ser inaceitável fazê-la passar por uma iniciativa dos inimigos de classe e, a partir daí, desqualificá-la aos olhos dos leitores do nosso lado.
Para acessar a imperdível entrevista do Paulo Paim, clique aqui
[O nós a que me refiro no parágrafo anterior inclui desde a equipe do Náufrago até o Tarso Genro (que nos antecedeu), bem como os companheiros que simultaneamente ou mais adiante se manifestaram no mesmo sentido, dentre eles o Leonardo Boff, o Paulo Paim, o Gilberto Carvalho, o Guilherme Boulos e tantos outros, além do grande Noam Chomsky lá fora.]

E o que deveria e deve constar de tal autocrítica? Principalmente isto:
— se foi correta a derivação do PT para a conciliação de classes, para o populismo e para o reformismo ou deveria ter sido mantida a opção pela luta de classes e pela transformação em profundidade da sociedade brasileira;
— se, face à facilidade com que Dilma foi expelida da Presidência quando os poderosos decidiram fazê-lo em 2016, compensa continuar-se priorizando a conquista de posições no Estado burguês ou é hora de voltarmos a colocar em primeiro plano a participação nas lutas sociais e a acumulação de forças para a superação do capitalismo;
Walter Pomar discutiu a autocrítica com outros expoentes da esquerda 
.
— o reconhecimento de que foi um erro terrível o PT ter voltado as costas aos manifestantes de junho de 2013 e ficado indiferente à desmedida repressão policial e judicial que foi lançada contra eles;
— o reconhecimento da responsabilidade que o PT teve na gestação da pior recessão econômica da História brasileira;
— o reconhecimento de que a adesão do Governo Dilma Rousseff ao neoliberalismo em 2015 confundiu e desmobilizou a esquerda, o que contribuiria decisivamente para a perda da batalha pela supremacia nas ruas em 2016;
— o reconhecimento de que a derrota eleitoral em 2018, diante de um inimigo destrambelhado e caricato (mas perigoso), se deveu a erros crassos como a insistência na candidatura fantasma do Lula e o torpedeamento da tentativa de articular-se uma frente da esquerda, tendo como cabeça de chapa um candidato que não carregasse consigo a imensa rejeição ao PT; e
— o reconhecimento de que a conduta moral do PT no poder não foi condizente com os valores da esquerda nem deverá ser jamais repetido por aqueles cuja razão de existir é regenerar uma sociedade apodrecida (sendo, portanto, os que mais devem resistir à tentação de chafurdarem em tal podridão). 
Até o Juca Kfouri exige, de forma veemente, a autocrítica.
.
Enquanto não acertarmos as contas do passado, continuaremos sendo vistos como inconfiáveis por aqueles que precisamos conquistar ou reconquistar para juntos construirmos um futuro bem diferente desse pesadelo com que o populismo neofascista nos acena.

Por não termos feito a lição de casa em 2016, sofremos derrota ainda pior em 2018. 

Então, ou nos colocamos à altura dos desafios que passaremos a enfrentar a partir do primeiro dia de 2019, ou nosso destino será, na melhor das hipóteses, a irrelevância; e na pior, a tragédia. 
                             (por Celso lungaretti)

sábado, 2 de abril de 2016

MINHA MAIS IRRESTRITA SOLIDARIEDADE A LUCIANA GENRO. MEU MAIS INDIGNADO REPÚDIO AO STALINISMO.

O baixíssimo nível do debate político nas redes sociais me deixou tão desencantado que, de uns anos para cá, não tenho sentido vontade nenhuma de o acompanhar. As demonstrações gritantes de sectarismo e fanatismo só me fazem duvidar de que o pensamento crítico volte um dia a ser estimulado e cultivado em nossas fileiras como na primavera de 1968 –ou, sequer, relativamente praticado na web, como nos saudosos tempos iniciais do Orkut. 

Vejo facebook, twitter, etc., como territórios minados para a reflexão sobre assuntos sérios, além de feiras da vaidade em que internautas ostentam pateticamente status, fotos e feitos, em verdadeiras overdoses de egolatria, como se fossem colunistas sociais de si próprios.

Vai daí que só agora há pouco fiquei sabendo que o jornalista Breno Altman, do site Opera Mundi, fez uma afirmação inqualificável, de extrema truculência, ao sugerir que Luciana Genro deveria ser assassinada como o grande Leon Trotsky, principal responsável pela tomada de poder em 1917 e pela sobrevivência da revolução soviética nos campos de batalha dos anos seguintes.

Aliás, venho percebendo isto claramente, trata-se de algo que muitos escrevinhadores chapa branca, desesperados com a iminente perda de suas boquinhas, gostariam de fazer com os expoentes da esquerda revolucionária, que mantêm posicionamento crítico com relação ao governo neoliberal de Dilma Rousseff.

Não sei se Altman merece ser colocado nessa vala comum. O fato de ter sido levado para depor na nova fase da Operação Lava-Jato indica apenas que sobre ele pesam suspeitas policiais. Deixemos as conclusões para se e quando ele for indiciado e processado. De qualquer forma, o que ele disse sobre Luciana Genro não projeta uma boa imagem. Se queria queimar mais ainda o próprio filme, conseguiu.

Quanto ao mandante de assassinatos covardes e infames, Stalin não foi apenas o coveiro da revolução soviética. Com seu totalitarismo bestial, serviu como o grande exemplo negativo que a indústria cultural utilizou mundialmente para denegrir o socialismo e afastar os trabalhadores dos ideais revolucionários. 

Graças ao carniceiro de Moscou, todas as tomadas de poder subsequentes se deram em países atrasados e periféricos, pois o proletariado das nações centrais –aquelas que, segundo Marx, seriam decisivas para a escalada da humanidade rumo ao socialismo– ficou horrorizado com a coletivização forçada da agricultura (causadora de milhões de óbitos), com as caças às bruxas e extermínio da velha guarda, com as invasões da Hungria e da Checoslováquia, etc.

Minha total e irrestrita solidariedade à guerreira Luciana Genro, uma mulher que não vendeu sua alma nem se lambuzou com o melado do poder.

Meu mais indignado repúdio a Breno Altman e a todos os que incitam a violência contra companheiros de outras tendências do campo socialista, como se tivéssemos voltado aos nefandos tempos do monolitismo e consequente esmagamento das posições divergentes.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

TSIPRAS TEVE A CORAGEM POLÍTICA DE ADMITIR QUE CEDEU A CHANTAGEM

DISCURSO DE TSIPRAS ENSINA UMA VELHA LIÇÃO
Breno Altman (*)
Concordando-se ou não com a posição do primeiro-ministro grego, chama atenção seu discurso político.

Ao contrário da tradição demagógica, que infesta também círculos de esquerda em vários cantos do mundo, Tsipras não edulcora o acordo que defendeu diante do Syriza e do parlamento de seu país.

Denuncia que foi chantageado.

Esclarece que considera o pacto com a União Europeia, em boa medida, lesivo aos interesses nacionais e dos trabalhadores.

Relata que bateu à porta dos Estados Unidos, Rússia e China em busca de alternativas, mas não encontrou apoio.

Destaca claramente que a escolha é entre a rendição sob condições ou o colapso político-econômico, identificando os inimigos que combate e sua natureza.

Não transforma necessidade em virtude, como se o acordo fosse algum capítulo harmônico à estratégia de desenvolvimento traçada por seu partido.

Não vende felicidade ou irrealismo.

Pinta o quadro com todas as suas cores, em um esforço notável para informar e educar militantes e cidadãos que até agora marcharam ao seu lado.

Tsipras pode estar certo ou errado. Mas revela-se um discípulo da velha lição de Gramsci, que horroriza os defensores de substituir a política pelo marketing: apenas a verdade é revolucionária.

* diretor do site Opera Mundi e da revista Samuel

quarta-feira, 17 de junho de 2015

O PT, HOJE, NÃO PASSA DE UM PARTIDO DE RETAGUARDA, QUE FUNCIONA COMO APÊNDICE DO MINISTÉRIO.

O melancólico desfecho do 5º congresso do Partido dos Trabalhadores está inspirando reflexões críticas oportunas e consistentes, como 
a que o companheiro Breno Altman, 
do site Opera Mundi, fez no 
artigo O PT está preso 
em um labirinto

Eis um resumo: 

"O leninismo forjou a ideia do partido como vanguarda da sociedade e do Estado. O petismo inventou, sem nominar aquilo que é inominável, o partido de retaguarda, conforme expressão cunhada por Valter Pomar.

Pode-se discutir o futuro à vontade, até mesmo com uma releitura do passado e do presente, (...) desde que preservada a clausula pétrea segundo a qual o PT é braço político e parlamentar do governo de coalizão.

Todos os demais partidos da aliança podem disputar publicamente suas posições, pressionar e negociar seus pontos de vista. O PT, no entanto, está auto-circunscrito a funcionar como apêndice do ministério.
No ponto a que chegou o PT, não há Teseu que dê jeito!

Ao aceitar tal cerceamento, o partido deixa a esquerda sem vez e voz, particularmente em um tabuleiro dominado por forças conservadoras, da política e do mercado, diante das quais o governo Dilma decidiu ceder para sobreviver.

Este desequilíbrio político, provocado pela anorexia da principal agremiação progressista, debilita o governo ao invés de protegê-lo, abre espaços crescentes para a consolidação da hegemonia conservadora, dissemina desânimo no campo de esquerda, dificulta a atração do centro democrático e facilita a preponderância da pressão de direita.

...Para que se restabeleça discurso coerente e efetivo, o PT teria de harmonizar sua tática aos escritos sobre o futuro, ou vice-versa, sob o risco de seus documentos se decomporem como peça de publicidade enganosa.

O V Congresso foi, no entanto, incapaz de resolver este dilema. Impôs-se, na prática, a concepção passiva de que o PT somente deveria tentar recuperar protagonismo quando o governo tiver resolvido os objetivos fixados pelo ajuste fiscal.

O grande problema é que (...) políticas de austeridade são longevas, dilacerantes dos direitos da classe trabalhadora, desorganizadoras do desenvolvimento nacional e concentradoras de renda nas mãos do capital financeiro.

Com um pé na renovação estratégica e outro na subordinação incondicional a um governo no qual não é mais força dirigente, o PT perambula por um complexo labirinto, empurrado pela radicalização de sua base social e puxado por uma lógica de governabilidade que lhe virou as costas".
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