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quarta-feira, 13 de maio de 2026

HOJE É DIA DE RELEMBRAR O 'TEATRO DO OPRIMIDO' E A PEÇA 'ARENA CONTA ZUMBI'

Se eu tivesse de escolher a melhor peça teatral brasileira de todos os tempos, cravaria sem pestanejar Arena conta Zumbi, que estreou no dia do trabalhador de 1975, mas serve também, até melhor, para marcar o dia da libertação dos escravos (hoje).

Afora o verdadeiro achado que foi, para compensar a parcimônia de recursos do teatro do oprimido, a criação do sistema do curinga (os mesmos atores alternam-se na representação de vários personagens, só mudando um ou outro item da indumentária), tratou-se de uma peça brilhante e indignada: expressou a frustração e a raiva pela rendição sem luta de 1964, uma das páginas mais vergonhosas da esquerda brasileira ao longo da História. 

Quando a censura forçava os artistas a recorrerem a subterfúgios para conseguirem levar sua mensagem ao público, a saga dos quilombos foi utilizada para simbolizar o ascenso dos movimentos de massa e seu esmagamento pelo golpe militar. 

Os paralelos, ironias e insinuações perpassam todo o espetáculo. Há, inclusive, uma velada conclamação à luta armada, que dali em diante se tornaria cada vez mais explícita no teatro, no cinema e na MPB. 

E o elenco era um arraso, com o próprio Guarnieri, Lima Duarte, David José, Dina Sfat, Marília Medalha, Carlos Castilho, etc.

Para os jovens conhecerem e os menos jovens matarem as saudades, eis o disco da peça, com 45 minutos de músicas (do Edu Lobo, algumas das quais se tornaram clássicos da MPB), diálogos e até o discurso de posse de um mandatário linha dura, cuja retórica é uma paródia hilária dos zurros dos golpistas de 1964. 

Para finalizar, uma curiosidade: foi a primeira peça de teatro adulto a que assisti, em temporada popular no Theatro Artur Azevedo. Tinha 14 anos e a epopeia dos quilombolas me impactou fortemente. (por Celso Lungaretti)
Para acessar o áudio completo da peça, copie
e cole no navegador este endereço:
 
https://youtu.be/RWzgOam2J8o?list=RDRWzgOam2J8o

terça-feira, 28 de abril de 2026

O ESTADÃO, VOLTANDO AOS MAUS TEMPOS, CONTESTA A DECISÃO DO STF PRÓ COTAS RACIAIS NA REACIONÁRIA SANTA CATARINA

A
Assembleia Legislativa do estado mais reacionário do Brasil, Santa Catarina, aprovou uma lei vedando cotas raciais para o ingresso de estudantes ou contratação de profissionais em universidades estaduais e instituições beneficiárias de verbas estaduais.

O STF, por unanimidade, a mandou para a lixeira, declarando-a inconstitucional. Afinal, hoje se trata de um assunto incontroverso no Brasil civilizado.

Parece que os estados do Sul continuam ansiosos por se tornarem independentes do resto do Brasil. Não percebem o quão odiosos se revelam.

Parece que o Estadão está voltando ao tempo em que era um dos mais importantes conspiradores civis do golpe militar: no seu espaço de Opinião contestou a decisão do Supremo com base numa intragável lengalenga jurídica. O tempo passou na janela e só o Estadão não viu...

Se a Assembleia Legislativa de SC decidir pela desobediência à Lei Áurea no território catarinense, é bem capaz de o Estadão apoiá-la também.  (CL)
Clique aqui para acessar o vídeo de Lero Lero

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

NÃO TOLERO LERO-LERO

Li que a Organização dos Estados Americanos convocou uma reunião extraordinária para os representes dos vários países fazerem discursos estridentes mas nada decidirem de concreto contra os EUA em função do sequestro de Maduro.

O blablablá do embaixador Benoni Belli, representante permanente do Brasil junto à organização, teve como principal trecho o seguinte:
“Os bombardeios no território da Venezuela e o sequestro do seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável. Esses atos representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e ameaçam a comunidade internacional com um precedente extremamente perigoso”. 
A pior roubada do mundo é ser aliado do Lula
O que o Brasil fará contra tal
precedente extremamente perigoso? Nada. 

Ficará torcendo para a blitzkrieg do Adolf Trump não avançar Amazônia adentro. 

Fez-me lembrar que fazia um tempão que eu não disponibilizava aqui a ótima canção Lero-Lero, composta pelo Edu Lobo e Cacaso. 

É um bom momento para eu preencher essa lacuna. (por Celso Lungaretti) 

domingo, 6 de julho de 2025

PORTA-VOZ DO LULA NO SEU 1º MANDATO EXPLICA ATUAL CAMBALHOTA IDEOLÓGICA

"O vento virou novamente. Encurralado por um Congresso reacionário e fisiológico dominado pelo centrão bolsonarista, em que tem minoria absoluta (menos de cem deputados no colegiado de 513), esta semana Lula saiu das cordas para voltar às origens do PT, na luta por justiça social e na defesa do que resta do seu mandato em busca da reeleição.

Após a acachapante derrota na votação que derrubou a mudança no IOF na semana anterior, Lula despertou para a realidade: sem poder contar com a frágil base aliada e despencando nas pesquisas, se ficasse parado, não teria mais como governar. Foi ao ataque e recorreu ao STF contra a decisão do Congresso, uma iniciativa de alto risco.

O governo Lula acabou, já proclamavam os líderes da oposição e amplos setores da mídia e do mercado. Vivia-se no Palácio do Planalto o mesmo clima pesado de 2005, quando estourou o escândalo do mensalão e foi anunciada a primeira morte política do metalúrgico que virou presidente da República prometendo acabar com a fome." (por Ricardo Kotscho, jornalista e escritor, duas vezes agraciado com o então prestigioso Prêmio Esso e outras duas com o Prêmio Vladimir Herzog)
Está certo o Kotscho, secretário de Imprensa do Lula no biênio 2003/2004, ao reconhecer que o ex-sindicalista, desde o início empenhado em apenas minorar as terríveis mazelas do capitalismo mediante o desvio de algumas migalhas a mais do banquete dos bilionários para a mesa dos pobres, dá a atual cambalhota ideológica como um sapo que engolirá no desespero de tentar reerguer seu exaurido governo.

Omite, contudo, que o Lula só se salvou de ser impichado a partir do mensalão porque os realmente poderosos o viam como uma força auxiliar da dominação burguesa, que às vezes os incomodava  um pouco mas servia para evitar que os coitadezas se dessem conta de que mereciam uma parte bem maior do bolo que, vale dizer, há muito tempo o Delfim  Netto já negaceava em repartir.

Entre a desculpa esfarrapada do ministro que colheu os louros pelo fugaz milagre brasileiro (Temos de esperar o bolo crescer para depois dividirmos) e a incontinência verbal responsável pelos sucessivos sincericídios do histórico defensor da perpetuação da exploração do homem pelo homem desde que maquilada em social-democracia (Nunca antes nesse país os banqueiros lucraram tanto quanto no meu governo) jamais houve a incompatibilidade apregoada pela propaganda enganosa petista. 

Daí a classe dominante ter decidido poupar Lula em 2005, quando poderia tê-lo derrubado com um peteleco. Lampedusa, pela boca de seu personagem Tancredi Falconeri em
O leopardo, explica exemplarmente tal lógica: É preciso que algo mude para que continue tudo como está.

E a minha avaliação é de que ambas as partes estão blefando, cada uma querendo obter mais vantagens do que a outra nas negociações que farão. Nem Lula vai virar Brizola, nem o Tarcísio, se eleito, sucumbirá ao extremismo brochado do Bolsonaro.

É óbvio que a nova postura petista é preferível à anterior. Tão óbvio quanto que Lula, até por estar desde os anos 80 desideologizando e endireitando o PT, não a levará às últimas consequências. 

Se, para minha enorme surpresa, a classe dominante decidir descartá-lo de imediato ao invés de deixá-lo sangrando até a próxima eleição, duvido que ele saia atirando como Vargas e Allende. O estilo dele é mais de sair com o rabo entre as pernas, como o Jango e a Dilma.  (por Celso Lungaretti) 
"Não guardo mágoa, não blasfemo, não pondero/
Não tolero lero-lero, devo nada pra ninguém"

domingo, 15 de junho de 2025

O PUNITIVISMO SÓ PROVÊ INTIMIDAÇÃO OU VINGANÇA. É HORA DE DARMOS UM BASTA À DESUMANIDADE CAPITALISTA!

Celebridades que questionaram a sentença monstruosa da juíza Bárbara de Lima Iseppi contra o comediante Léo Lins estão voltando atrás à medida que os rancorosos punitivistas divulgam exemplos chocantes do tipo de humor que ele fazia, chantageando esses me(r)dalhões eternamente reféns das tendências majoritárias nos seus respectivos nichos. 

Entre interesses e convicções, escolhem sem pestanejar os primeiros, por mais humilhante que seja a retratação. Preferem ser vistos como cidadãos que opinam levianamente, sem informarem-se direito sobre o assunto, do que como vozes discrepantes das Maria-vai-com-as-outras que seguem invariavelmente o rebanho, mesmo no erro e na abjeção.

Depois que Hitler e Mussolini tiveram o fim que sempre mereceram, alemães e italianos que antes esmagadoramente os idolatravam, correram a proclamar inocência. 

Mas os chifres e os rabos pontiagudos não sumiram graças a tamanha hipocrisia, tanto que a Itália continuou se rendendo ao fascismo. A virtude não está mais no meio...  

Assim, após chafurdar na lama com o pornocrata Silvio Berlusconi, a velha bota tem hoje como primeira-ministra a Giorgia Meloni,  cujo lema é Deus, Pátria e Família

Opositora do aborto voluntário, da eutanásia, da união civil entre pessoas do mesmo sexo, da paternidade LGBT, etc., ela se diz apenas conservadora cristã. Sei.

Então, eu faço questão de reafirmar que, seja lá o que o Léo Lins tiver um dia afirmado, mantenho minha posição de sempre: penas de prisão só se justificam como resposta a ações e não, jamais, a opiniões, por mais repulsivas que sejam.

Se roubou, estuprou, feriu, matou, vandalizou, etc., que mofe na prisão. 

Se apenas escandalizou a sociedade ou debochou de minorias, que seja condenado a prestar serviços comunitários, assistir a palestras, receber tratamentos, etc. 

Tal era o entendimento da esquerda à qual aderi na virada de 1967 para 1968: uma sociedade que erige a ganância em prioridade suprema predispõe os indivíduos a todo tipo de comportamentos distorcidos, daí devermos antes reeducar as vítimas do capitalismo do que fazer desabar sobre elas todo o peso da lei.
A esquerda daquele tempo tinha coragem de assumir que o crime maior de todos é a própria existência do capitalismo e, enquanto não o superarmos, o punitivismo será quase sempre intimidação e/ou vingança, não justiça.

Mas as pessoas simples estão ainda imbuídas do simplismo do olho por olho, dente por dente, ilusório lenitivo para suas dores. 

E a esquerda atual abre mão do dever de educá-las, preferindo a opção confortável de somar-se cinicamente a elas, jogando Marx no lixo.

Eu fico com Marx. (por Celso Lungaretti)
"Não guardo mágoa, não blasfemo, não pondero/ 
Não tolero lero-lero, devo nada pra ninguém"

domingo, 1 de junho de 2025

O CÉU COMO BANDEIRA E A HISTÓRIA NA MÃO (A GENTE AINDA NEM COMEÇOU!)

No início do ano letivo de 1968, sem que ninguém esperasse, a repressão da ditadura militar atacou com bestialidade extrema um restaurante para estudantes carentes no Rio de Janeiro, acabando por matar a tiros um secundarista de apenas 16 anos, Edson Souto.

O movimento estudantil brasileiro, que tinha sido praticamente extinto pela repressão em 1964, já tentara renascer nas chamadas setembradas de 1966, mas a violência dos usurpadores do poder novamente havia prevalecido. Em março de 1968, no entanto, os estudantes voltaram às ruas... para ficarem! Com a certeza na frente, tentando tomar História na mão [1], marcaram forte presença ao longo do ano.

Aprofundando um pouco a análise, podemos dizer que o final da década de 1960 marca a transição da sociedade rígida e patriarcal, característica da fase da industrialização, para o amoralismo da sociedade de consumo, em que tudo e todos devem estar disponíveis para o mercado.
Então, de certa forma, a contestação à autoridade de autoridades, reitores, sacerdotes, doutores disso e daquilo, dos luminares da sociedade em geral, convinha ao próprio capitalismo, que estava passando da etapa das grandes individualidades para a da liderança participativa. O foco passaria a ser o consumidor, o cidadão comum, em lugar do grande homem, a personificação da elite.

Respirava-se antiautoritarismo. As artes passavam por um momento de ousadias e experimentalismo no mundo inteiro, a imprensa se modernizava a olhos vistos, a liberalização de costumes e a liberação sexual entravam com força total. O movimento estudantil, estimulado pelos ventos de mudança, foi fundo na tarefa de derrubar as prateleiras, as estátuas, as estantes, as vidraças, louças, livros, sim! [2].
E, no hiato entre a etapa capitalista que terminava e a que ia começar, muitos jovens sonharam com algo maior: uma sociedade sem classes, em que não existisse a exploração do homem pelo homem e na qual a economia se voltasse para a satisfação das necessidades humanas em vez de ser regida pela ganância. Um ideal simbolizado por Che Guevara, o último revolucionário internacionalista de dimensões míticas, com seu corpo cheio de estrelas e tendo el cielo como bandera [3].

Mas, a repressão brutal desencadeada pela ditadura, principalmente após a assinatura do AI-5, inviabilizou a mudança maior que muitos pretendiam. Então, sobre a terra arrasada, o que floresceu foi mesmo a sociedade de consumo.
A classe média, eufórica com o milagre brasileiro, tratou é de enriquecer. E a esquerda estava tão debilitada pela perda de seus melhores quadros que pouco pôde fazer contra a conjugação de  boom  econômico e terrorismo de estado.

O movimento estudantil de 1968 foi, portanto, resultado de circunstâncias especiais e únicas. Daí não poder ser comparado com o de hoje (como muitos fazem, para depreciá-lo), quando os jovens, ademais, têm de esforçar-se no limite de suas forças para começarem bem uma carreira, o que acaba fazendo-os desinteressarem-se por quase todo o resto.
UMA COMPETIÇÃO EXTREMADA DE TODOS CONTRA TODOS
-- A dificuldade insana que encontram para afirmar-se profissionalmente deveria levá-los a refletir sobre as distorções da sociedade atual. 

A competição obsessiva que aborta talentos e condena tanta gente a não desenvolver seu potencial é um dos horrores do capitalismo globalizado. Então, é tempo de muitos estudantes mais começarem a se indagar sobre a validade de continuarem nesse funil perverso, passando por cima dos despojos dos que tombarem no caminho. 

E isto com enorme possibilidade de, adiante, baterem com o nariz na porta, à medida em que a crise do capitalismo for aprofundando-se e o descompasso entre a oferta de empregos para profissionais com formação superior e o contingente de candidatos dela dotados a buscarem empregos se tornar  cada vez maior, condenando a grande maioria à frustração e ao exercício de funções sem nada a ver com aquelas para as quais se capacitaram.
Desde a onda de ocupações iniciada em 2007 pela tomada da reitoria da USP, o movimento estudantil brasileiro vem tentando renascer. Mas, quase duas décadas depois, ainda está longe de atingir a amplitude e a consistência do de 1968, talvez por não haver tido como fermento a truculência e o obscurantismo de uma ditadura, contra a qual, necessariamente, os melhores seres humanos tomavam partido. 

Zuenir Ventura, contudo, está certo: 1968 foi um ano que não terminou. A revolução ainda voltará a identificar-se com as flores e as primaveras, depois deste longo inverno da desesperança que nos está sendo imposto.

Ainda veremos outras primaveras como as de Paris e de Praga, pois há uma lição que a História várias vezes nos ensinou: a humanidade não aguenta viver indefinidamente sem solidariedade e compaixão.
O mundo se tornou um lugar muito ruim para se habitar sob o neoliberalismo, ainda mais na versão selvagem que Donald Trump insiste em tentar nos enfiar goela abaixo. Algo tem de mudar – e esta mudança precisa começar o quanto antes, para deter a marcha da insensatez enquanto ainda existe algo para salvarmos.

E, depois dos terríveis fracassos a que a esquerda domesticada, populista e reformista nos tem conduzido ao longo deste século, a esperança de volta por cima só pode provir das novas gerações, da juventude que ainda é capaz de sonhar com uma sociedade igualitária e justa, e de lutar com todas as suas forças para concretizar este sonho. 

Temos de aprender a lição que a História, ultimamente, não cansa de nos ensinar: os que se contentam com um mínimo, acabam ficando sem nada. É hora de voltarmos a mirar o prêmio máximo, aquele pelo qual vale realmente a pena lutarmos: o fim do capitalismo. E é a juventude que pode e deve encabeçar esta luta.
Lembrando a grande música do Sérgio Ricardo: se você não vem, eu mesmo vou brigar [4].

Lembrando o Edu Lobo dos melhores momentos: vou ver o tempo mudado e um novo lugar pra cantar [5].

Lembrando o Raulzito, profeta da sociedade alternativa que nos serve de inspiração para transformarmos a sociedade como um todo: oh baby, a gente ainda nem começou [6].
[1] Geraldo Vandré, Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores
[2] Caetano Veloso, É Proibido Proibir
[3] Gil, Capinam e Torquato Neto, Soy Loco Por Ti, América
[4] Sérgio Ricardo, Esse mundo é meu
[5] Edu Lobo, Ponteio
[6] Raul Seixas, Cachorro Urubu

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

...VEIO A MOÇA E CONTINUOU!

L
á pelos meus 16 anos, quando começava a me interessar pelo movimento estudantil, minha imaginação já voava longe. 

Desencanei muito cedo do futuro insosso que meus pais e parentes projetavam para mim, pois fui me dando conta de que não queria formar-me engenheiro, ter casa própria na cidade e outra na praia, casar com uma esposa prendada, trocar de carro todo ano, etc. 

O porvir sonhado pelos meus colegas de escola e pela turminha da rua Curupace mais me parecia um tédio infinito.

cheguei até a elucubrar sobre como queria morrer, inspirado em leituras sobre a guerra civil espanhola, quando militantes de vários países se alistavam nas brigadas internacionais de apoio aos socialistas e anarquistas espanhóis, na heroica resistência que mantinham contra os fascistas de Franco. 

Ingenuamente, acreditei que sempre haveria uma guerra tão justa assim à espera de mim, quando  me sentisse velho demais para travar o bom combate.

Aliás, nunca imaginei que chegaria a septuagenário. Jamais me agradou a ideia de decair, de ficar sentado no trono de um apartamento, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar, como o Raul Seixas tão bem definiria em Ouro de Tolo.

Aí, quando eu já estava com 51 anos, nasceu a Luana. E, de imediato, mandou para o espaço os planos que eu tinha de, no momento certo, escolher a minha morte. 
Também depondo na auditoria da Marinha, um dia depois daquela foto famosa da Dilma
Planos que, aliás, não eram mais tão fáceis de concretizar, porque as guerras deixaram de ser justas (viraram carnificinas hediondas!); e também porque sempre me repugnou a outra possível saída, o suicídio, tão dissonante das grandes esperanças que movem os revolucionários. 

Hoje seria complicado encontrar por quem valeria a pena eu morrer lutando (desfecho que eu considerava o mais apropriado para a minha trajetória).

Mas aí nasceu a Luana, minha primogênita. Nunca entenderei direito por que, na virada do milênio, me veio tamanha vontade de ser, finalmente, pai biológico. Imperativa a ponto de eu aceitar rapidamente a mudança de planos, assumindo a responsabilidade de tudo fazer para alongar a minha existência, pelo menos até que a minha garotinha encontrasse o seu caminho e o seu palco nesta vida.

A ironia em tudo isto é que a Lu, após ver o filme Ainda Estou Aqui, postou no Tik Tok um vídeo sobre a própria experiência de filha de militante e conseguiu chamar um bocado de atenção, tanto que a BBC News Brasil acaba de inclui-la numa reportagem (clique aqui p/ abrir) sobre quatro situações reais desse tipo.   
Batizamos tais cartazes de imortais
da Oban
. Eu sou o sétimo da lista.
 

Eis um desdobramento totalmente inesperado para mim. 

A vida é uma história contada por um idiota, repleta de som e fúria, significando nada, disse Shakespeare. 

Ainda assim, ela tem seus encantos. E ver como nossos filhos ressignificam (para usar um termo da moda) as memórias que lhes transmitimos é um dos mais gratificantes. 

Até ajuda a nos conformarmos com a nova condição de já não estarmos abrindo nossos caminhos e pedindo passagem, mas sim reduzidos a espectadores, enquanto os jovens tomam o nosso lugar. 

É como cantou o inesquecível Sérgio Ricardo: Disse o velho, eis aqui o fim de tudo, veio o moço e continuou(por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

10 ANOS APÓS A MORTE DE SARACENI, UM NOVO DESAFIO ESTÁ NAS RUAS

Paulo César Saraceni morreu em 2012.

Tinha 78 anos e fazia cinema desde 1959.

Em mais de meio século de atividades, dirigiu 13 filmes, nove dos quais também roteirizou.

Foi um dos fundadores do  cinema novo, mas nem de longe fez obras de importância equiparável às dos dois outros parceiros de empreitada: Glauber Rocha (indiscutivelmente, o maior cineasta brasileiro de todos os tempos) e Nelson Pereira dos Santos (bem mais prolífico e realizador de clássicos como Rio 40 Graus e Vidas Secas).

No entanto, Saraceni constituiu-se numa referência muito forte para minha geração, por um único motivo.

Seu O Desafio, lançado em 1965, foi provavelmente a primeira resposta cinematográfica à quartelada.

Enfoca os sentimentos de culpa, impotência e prostração subsequentes à vergonhosa derrota sem luta.

Foi o mal-estar que acometeu toda aquela esquerda: supunha-se a um passo do poder, iludida pelo triunfalismo inconsequente do Partido Comunista Brasileiro e seu principal dirigente (Luiz Carlos Prestes), mas acordou ouvindo marchas militares no famigerado 1º de abril de 1964.

E dá-lhe más ressacas! E dá-lhe lavagens de roupa suja! E dá-lhe lutas internas no partidão! E dá-lhe rachas!

Em 1965, a esquerda lambia as feridas e se reconfigurava, voltada para dentro de si mesma. Não reagia.

Aí, foi lançado
O Desafio. E juro! o título apareceu pichado nos muros de São Paulo. Só o título, com a tinta escorrendo. Eu tinha 14 anos, via aquilo e nada entendia. Ignorava que fosse uma mensagem vinda das catabumbas: não estamos mortos!

Só em 1967, dando os primeiros passos no movimento estudantil, fui assistir ao filme e compreender o motivo das pichações.

E, francamente, não gostei daquele imenso desencanto que ele flagra, o atoleiro no qual se move Marcelo, o personagem politizado (interpretado pelo Vianninha, de saudosa memória), durante quase todo o tempo.

Mas vibrei com o final, quando ele enfim levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima, decidido a voltar ao bom combate.

Isto ficou apenas sugerido, como se fazia necessário sob o tacão da censura. Depois de um porre com um repulsivo colega de trabalho, vão ao apartamento deste, cuja esposa se despe e se-lhe oferece. Antes que ele tenha qualquer reação, o marido acorda e fita ambos, em meio à sua névoa alcoolica. 

Marcelo empurra a mulher e vai embora, enojado. Desce uma escadaria com expressão resoluta, afaga a cabeça de um menino pobre e se distancia, marchando ao encontro do seu destino.

Tudo isto ao som de um tema da peça Arena conta ZumbiÉ um tempo de guerra,  canção que Augusto Boal, Gianfrancesco Guarnieri e Edu Lobo haviam derivado da poesia antológica de Bertolt Brecht, para usar o esmagamento do quilombo de Palmares como metáfora do golpe militar.
Na peça, era a lição que um guerreiro às portas da morte legava aos que viriam depois. Uma sugestão velada também, claro ("Eu sei que é preciso vencer/ Eu sei que é preciso lutar/ Eu sei que é preciso morrer/ Eu sei que é preciso matar"). 

Só que parecia algo meio distante, lá pra frente, pois o momento era de derrocada.

No filme, ficou mais fácil perceber que se tratava do passo seguinte, imediato: um recado de que não só a luta tinha de ser retomada, como assumiria doravante características de guerra.

Foi profético. Houve mesmo a guerra, de consequências trágicas para a esquerda (quantos quadros insubstituíveis foram dizimados!), mas inevitável: ela só reconquistaria o respeito do povo caso se dispusesse a sangrar por seus ideais, como deixara de fazer em 1964.

Muitos dos que não pegaram em armas recriminaram nosso  vanguardismo, nosso imediatismo pequeno-burguês. Segundo eles, só servíramos para acirrar a repressão e fornecer pretextos para o endurecimento do regime.

Omitiram ter sido exatamente sua tibieza em 1964, quando deixaram de travar a luta em condições bem mais favoráveis, que nos obrigou a assumir adiante a missão quase kamikaze de lavar a honra da esquerda, virando a página da desmoralização e restituindo-lhe a credibilidade. 

Resolvi rememorar o desafio de 1965 porque um novo desafio será lançado às forças da intolerância e do retrocesso daqui a três, diante da Faculdade de Direito da USP,  no Largo São Francisco, com a leitura de dois manifestos antigolpe que têm tudo para detonarem as últimas esperanças do presidente delinquente. 

Aqueles que pensam por ele (pois se trata de uma faculdade da qual o Bozo é carente) temem que o ato da 5
ª feira consolide definitivamente a rejeição ao celerado, desencadeando a revoada dos apoiadores comprados por cargos e verbas públicas para a arca de Noé do Lula, na qual cabe tudo, até cobras e lagartos...

Nisto, pelo menos, eles estão certos: tal página, uma das mais vergonhosas da História do Brasil, deverá mesmo começar a ser virada nesta quinta.

Enquanto esperamos, que tal darmos uma olhadinha em O desafio, para irmos entrando no clima? (por Celso Lungaretti) 

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

A ÉPOCA DE OURO DA MPB/5 (1969/1972)

No 7º FIC (1972), o amargo fim: artistas demais e talento de menos no palco.
N4º Festival da Música Popular Brasileira, que a Record realizou em outubro/novembro de 1968, a censura já dava as cartas, toda poderosa. Tom Zé, p. ex., teve de trocar os versos "o empregador que condena/ um atentado por quinzena" (referência a ações armadas) por "o pregador que condena/ um festival por quinzena"!!!

Como novidade, houve duas relações de premiados.

júri especial (críticos e artistas ilustres) escolheu "São, São Paulo, meu amor", de Tom Zé, seguida de "Memórias de Marta Saré" (Edu Lobo/Gianfrancesco Guarnieri), "Divino Maravilhoso" (os autores Caetano e Gil, até em razão da má experiência com o FIC, cederam a música e o palco para a tímida Maria das Graças se metamorfosear na agressiva Gal, sob óbvia influência de Janis Joplin), "2001" (Tom Zé/Rita Lee) e "Dia da Graça" (Sérgio Ricardo).
Melhores momentos da final do 4º festival da Record 
.
"Marta Saré" também foi vice na votação popular, enquanto o tributo sarcástico de Tom Zé a São Paulo ficou apenas em 5º lugar.

O povo preferiu a xaroposa "Bem-vinda", outra canção convencional e atemporal que Chico Buarque compôs no ano de maior efervescência política e cultural da nossa história recente.

Em 3º, uma curiosa parceria entre Ary Toledo e Chico Anísio, para enaltecer o clã dos Kennedys: "A Família".

O 4º foi para "Bonita", estranha guarânia de um Geraldo Vandré que parecia pressentir a tragédia que se abateria sobre ele.
Inacreditavelmente, a magnífica "Sentinela", de Milton Nascimento, não entrou em nenhuma das listas. Talvez porque o júri especial soubesse tratar-se de (e temesse premiar) um tributo velado a Che Guevara, enquanto os cidadãos comuns ignoravam tal detalhe...

No 4º FIC, em setembro de 1969, vitória de "Cantiga para Luciana", de Edmundo Souto e Paulinho Tapajós.

Nas colocações seguintes, outras musiquinhas rasteiras.

E pensar que concorriam "Gotham City" (Macalé/Capinan), "Ando Meio Desligado" (Mutantes) e a antológica "Charles Anjo 45" (Jorge Ben)!!! Os juris continuavam sendo simpáticos, mas incompetentes...
5º FIC, em outubro de 1970, lançou Ivan Lins (2º lugar, com "O amor é meu país", dele e Ronaldo Monteiro) e Gonzaguinha (4º, com "Um abraço terno em você, viu, mãe".

Sueli Costa ficou em 3º, com "Encouraçado", dela e Tite Lemos.

E quem venceu, acreditem, foi a intragável "BR-3", de Antônio Adolfo e Tibério Gaspar, projetando Tony Tornado – cuja carreira principal logo se tornaria a de ator coadjuvante em pornochanchadas.

No 6º FIC, setembro de 1971, os artistas mais renomados tramaram um protesto contra a censura, que ocorreria quando o festival estivesse sendo transmitido ao vivo para o Brasil e outros países.
A TV Globo ficou sabendo (espalhou-se, com base em mera suposição, que o delator teria sido o Wilson Simonal, por ter agentes subalternos da repressão como companheiros de farras) e, inviabilizada a surpresa, os grandes nomes retiraram em bloco suas composições.

Vitória de "Kyrie", de Paulinho Soares e Marcelo Silva.

A 3ª colocada, "Desacato", da dupla Antonio Carlos e Jocafi, foi a única que emplacou em termos comerciais. Artisticamente, nenhuma.

Finalmente, no 7º FIC, setembro de 1972, a TV Globo teve de destituir o júri para premiar sua preferida, "Fio Maravilha", de Jorge Ben, com Maria Alcina.
Fim de feira apropriado para um ciclo que, na verdade, tinha terminado em dezembro de 1968, quando o Ato Institucional nº 5 impôs ao País a paz dos cemitérios, sufocando as energias criativas dos artistas, que não puderam mais cumprir seu papel de antenas da raça.

Melancólico, o derradeiro FIC deixou, pelo menos, uma semente: "Cabeça", de Walter Franco, lançou o experimentalismo pós-tropicalista que vicejaria nos anos seguintes, com ele próprio, Jards Macalé, Jorge Mautner, Hermeto Paschoal, Naná Vasconcellos, Wagner Tiso, Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção, entre outros.

Epílogo – Em termos artísticos a era dos festivais se encerrara no final de 1968, com a assinatura do AI-5; o que teve fim em 1972 foi a sequência de eventos anuais que se iniciara em 1965. Daí em diante, pipocariam esporadicamente tentativas de retomada, mas estas serviram apenas para confirmar que aquela página tinha sido mesmo virada.
Uns poucos resquícios da época de ouro da MPB ainda se notariam no Festival Abertura da TV Globo (fevereiro/1975), cuja vitória coube à esquecível e esquecida "Como um ladrão", de Carlinhos Vergueiro. Marcantes foram, isto sim, a partida de dados que Walter Franco e o maestro Júlio Medaglia fingiram estar jogando, enquanto o público vaiava histericamente "Muito tudo"; e Alceu Valença despontando para o estrelato com "Vou danado pra Catende".

E também no Festival 79 da Música Popular, que a TV Tupi promoveu quatro anos mais tarde – até porque Walter Franco, com sua blueseira e contundente "Canalha", recebeu nova vaia digna de Sérgio bom de bola Ricardo e de Caetano Cohn-Bendit Veloso.

O júri igualmente bisou a crassa incompetência dos congêneres de outrora, dando a vitória à banal "Quem me levará sou eu" (Dominguinhos/Manduka), quando imensamente melhores eram a própria "Canalha", "Bandolins" (Oswaldo Montenegro") e "Sabor de veneno" (Arrigo Barnabé).

Depois, nem isto. Os MPB Shell de 1980, 1981 e 1982, bem como o Festival dos festivais de 1985, foram meras irrelevâncias. Nada sobrara do boi para a TV Globo faturar mais uma graninha, nem mesmo o berro...  (por Celso Lungaretti)
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