terça-feira, 10 de março de 2026

A política brasileira anda um tédio só, com o exageradíssimo destaque dado a mais um episódio de corrupção, insignificante na comparação com outros do passado mas significativo como munição para os feios, sujos e malvados que disputam a corrida presidencial.
,
,Resolvi, então, publicar um trecho do meu livro Náufrago da Utopiasobre o momento em que saí de casa para, como cantou a Gal Costa, correr mundo, correr perigo.

Na primeira parte do livro, narrada na terceira pessoa, eu apareço como Júlio, meu nome de guerra quando era ativista da Frente Estudantil secundarista

Não sei a data exata do episódio, mas já lá se vão  57 anos, tendo, com certeza, ocorrido no mês de março de 1969. (CL)

"...há quedas em cascata a partir da prisão [em 23/01/1969] de quatro militantes que, numa chácara de Itapecerica da Serra. maquilavam um caminhão para torná-lo idêntico aos do Exército.

Júlio recebe aviso da irmã de Maria das Graças, a  
Baianinha: a repressão pode ficar conhecendo seu nome real e endereço a qualquer momento. Diego [Perez Hellin], Eremias [Delizoicov] e  Edmauro [Gopfert] também estão em risco. É melhor nenhum dos quatro passar o fim de semana em casa.

Júlio e Diego vão para Santos, com pouco dinheiro.

O azar os persegue. Só têm o suficiente para um almoço pobre, que dividem. Diego passa mal com sua gastrite.

À noite não podem dormir na praia por causa do toró que despenca. Tentam abrigar-se num edifício e acordam sob a mira do revólver do vigia, que os expulsa para a chuva. Finalmente o tempo melhora e ambos  desmaiam  na praia.

Acordando quase ao meio-dia, Júlio percebe que suas pernas haviam ficado expostas ao sol.

Queimadura brava, febre, fome, gastrite, tudo que pode acontecer de ruim com eles, acontece. Aguentam até o anoitecer e voltam.

Júlio chega em casa por volta da meia-noite e o pai dá o recado: a  Baianinha  esteve lá de novo e disse que o perigo é grande. Zonzo, desaba na cama e dorme. Mas, logo acorda sobressaltado e decide colocar-se a salvo. Já recobrou um pouco suas forças.

O que mais o inquieta, entretanto, é a suspeita de não estar preparado para as situações que vai enfrentar. O que faria agora um revolucionário experiente? Gastaria quase todo o seu dinheiro num hotel de bom padrão ou correria o risco de alojar-se num barato, mais exposto à polícia? É seguro colocar seu nome numa ficha?

No trajeto da Vila Prudente até o centro da cidade, não consegue desgrudar os olhos do taxímetro, fazendo contas e mais contas. Percebe que está fraco demais e precisa de repouso. Avalia que, mesmo sendo descoberto seu nome, levará tempo até que comecem a procurá-lo pra valer.

Acaba optando por um hotel simples mas respeitável, que não recebe casais para curta permanência.

Quando encosta a cabeça no travesseiro, percebe que o destino decidira por ele. Há alguns meses enfrentava o dilema de sair ou não de casa. Sabia que, para avançar na luta, teria de dar esse passo.

Levava a vantagem de, desde o primeiro momento, haver utilizado o nome-de-guerra em todas as atividades estudantis fora de sua própria escola. Os espiões da repressão devem conhecê-lo só como o  Júlio da Zona Leste. Jamais se colocava publicamente como aluno do MMDC. Tomava o maior cuidado para não ser seguido depois de uma passeata ou assembleia.

Mas, se o Deops realmente quisesse apanhá-lo, acabaria chegando a ele; suas chances de sobrevivência na luta aumentariam muito  
caindo na clandestinidade.

No outro prato da balança colocava o desgosto que causaria aos pais, a forma como reagiriam à perda do filho único. 

E, como não tinha mesmo dinheiro para manter-se fora de casa, ia adiando. Até que tudo se resolveu de forma praticamente automática, naquela noite. O rubicão foi transposto, as pontes queimadas.

Mas, jamais esquecerá a imagem do pai simulando um ataque cardíaco para comovê-lo e fazer com que desistisse. Foi a decisão mais difícil que tomara até então na vida
".

"Mamãe, mamãe, não chore,/ a vida é assim mesmo, eu fui embora./ 
Mamãe, mamãe, não chore,/ eu nunca mais vou voltar por aí/ ...eu quero
mesmo é isto aqui" Clique e ouça Gal Costa cantando Mamãe Coragem

segunda-feira, 9 de março de 2026

NO CLÁSSICO MINEIRO, O IMPORTANTE NÃO É VENCER NEM COMPETIR. É SOBREVIVER.


A frase o importante não é vencer, mas competir, atribuída ao Barão de Coubertin (fundador dos Jogos Olímpicos modernos), enfatiza a valorização do esforço, da superação pessoal e dos valores éticos em detrimento do resultado final. 

Ela promove a ideia de que a participação honesta e o desenvolvimento pessoal são o que realmente importa, e não a vitória a qualquer custo.

Faltou ensinar isto aos gladiadores do Atlético Mineiro x Cruzeiro. Eles protagonizaram a maior pancadaria nos campos de futebol que me lembro de ter visto na vida. Tanto que o clássico mineiro terminou com 23 expulsões (!).

Assim caminha a desumanidade. (CL)

Clique aqui para assistir, no Youtube, às
cenas deprimentes da barbárie em campo

domingo, 8 de março de 2026

EM 1845 MARX JÁ IMPLODIA AS PREMISSAS TEÓRICAS DO IDENTITARISMO

Companheiros que eu respeito sentiram-se incomodados com meu post deste sábado (7), intitulado O estupro é abominável, mas bem pior é a exploração do homem pelo homem

Em termos práticos, minha ojeriza pelas premissas do identitarismo vêm desde 1975, quando eu participava do Grupo Cacimba e o Movimento Negro alugou um grande salão próximo à nossa área de atuação. 

Como havia espaço sobrando, propusemos que cedessem um cantinho para nós, o que retribuiríamos de várias formas. Somar forças beneficiaria ambas as partes, mas recusaram porque queriam combater apenas o racismo. 

Durante minha trajetória posterior continuei ajudando o movimento negro em tudo que podia, principalmente na denúncia da vandalização de seus templos pelos truculentos evangélicos. Mas sempre me incomodou o fato de que eles não lutavam ao nosso lado contra o capitalismo. 

Quanto ao movimento feminista, eu o acompanho à distância desde que começou a repercutir mais no Brasil, a partir da década de 1960.

Li e gostei de cartilhas faministas como O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir; A Mulher Eunuco, de Germaine Greer; e A Liberdade É Uma Luta Constante. da Angela Davis.

São autoras que foram muito além do combate simplório ao machismo, uma bandeira que pode ser facilmente atendida pelo capitalismo (e, mais dia, menos dia, acabará o sendo), sem que isto altere sua natureza essencial, qual seja a exploração do homem pelo homem.
 
Depois, em 2010, quando outros identitários, agindo como 
aprendizes de censores, tentaram impedir a utilização de Caçadas de Pedrinho, do Monteiro Lobato, na rede estadual de ensino de SP, senti-me obrigado a defender o escritor que tanto contribuíra, com seus sensíveis livros infanto-juvenis, para moldar minha visão rebelde da sociedade. 

Na polêmica então travada, ressaltei que a visão marxista era a postura mais compatível com estes tristes tempos presentes e tinha sido explicitada por Marx em 1845, de forma irrefutável, nas Teses sobre Feuerbach. Ei-la:

A doutrina materialista de que os seres humanos são produtos das circunstâncias e da educação, de que seres humanos transformados são, portanto, produtos de outras circunstâncias e de uma educação mudada, esquece que as circunstâncias são transformadas precisamente pelos seres humanos e que o educador tem ele próprio de ser educado. 
Ela acaba, por isso, necessariamente, por separar a sociedade em duas partes, uma das quais fica elevada acima da sociedade.

A consciência do mudar das circunstâncias e da atividade humana só pode ser tomada e racionalmente entendida como praxis revolucionária. (3ª tese)
 
Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo. (11ª tese)

Ou seja, os educadores que se arrogam o direito de decidir o que crianças (ou a sociedade como um todo) podem ou não ler, e com quais ressalvas, lhes devem ser permitidas tais leituras, têm, eles próprios, de ser educados.
Pois não basta a adoção de outras palavras para eliminar-se a carga de preconceitos com que as pessoas as impregnaram, nem fazer triagem de obras artísticas para extirparem-se os comportamentos condenáveis nela retratados.

Somente livrando a humanidade do pesadelo capitalista conseguiremos dar um fim a todas as formas de discriminação, pois uma das molas mestras da sociedade atual é exatamente a busca da diferenciação, do privilégio, do status, da superioridade.

Enquanto os seres humanos forem compelidos a lutarem com todas as suas forças para se colocarem acima de outros seres humanos, será ilusório pretendermos tangê-los ao respeito mútuo por meio de besteirinhas cosméticas.

É desprezando os iguais que eles adquirem forças para a disputa insana que travam, pisando até no pescoço da mãe para alçarem-se a um patamar superior na hierarquia social.

Então, a verdadeira tarefa continua sendo a transformação do mundo, para que não haja mais hierarquia e sim a priorização do bem comum, com cada um contribuindo no limite de suas possibilidades para que sejam atendidas as necessidades de todos.

Enquanto nos iludirmos com esses pequenos retoques na fachada do edifício capitalista, estaremos perdendo tempo: seus alicerces estão podres, para além de qualquer restauração. 

Ou o demolimos e tratamos de erguer novo edifício em bases sólidas, ou ele ruirá sobre nós É simples assim. (por Celso Lungaretti)

quinta-feira, 5 de março de 2026

O ESTUPRO É ABOMINÁVEL, MAS BEM PIOR É A EXPLORAÇÃO DO HOMEM PELO HOMEM

P
or que homens progressistas não se posicionam sobre notícias de estupro? -- indaga Luciana Bugni, colunista do Splash e da Folha de S. Paulo

Responderei eu, que detesto eufemismos e brigo com quem me xingar de progressista. Sou é revolucionário, com muito orgulho. 

Até o notório anticomunista Lula se considera progressista. Isto porque se trata de um rótulo que serve para ele e para qualquer um, até por quem apenas pleiteia reformas dentro do capitalismo (ou seja, algumas migalhas a mais na mesa dos explorados).  

Evidentemente, considero o estupro um crime abominável, que deve ser punido com todo rigor, mesmo quando o estuprador é rico e/ou famoso.

Mas, num país miserável e desgovernado como o Brasil, muito mais importante é a luta contra o capitalismo (o maior de nossos males, capaz até de condenar a espécie humana à extinção).

Daí eu não suportar todo esse estardalhaço por causa de uma prática que merece todo repúdio, mas não tamanha estridência.
Inocente como um anjo

E me enojam perseguições como as que as feministas moveram contra MiKe Tyson e Roman Polansky, ambos vítimas do chamado golpe do suadouro (uso de prostitutas para atrair homens até algum quarto e lá o extorquirem com a ameaça de enviar às respectivas famílias provas do seu adultério).

Os dois 
tiveram de desembolsar milhões de dólares para se livrarem da feroz campanha de difamação. 

Vale lembrar também outro extraordinário cineasta, Bernardo Bertolucci, embora o golpe não tenha funcionado contra ele. 

Quem é tolo a ponto de acreditar que uma atriz até então desconhecida, após concordar com a filmagem de uma simulação de sodomia, recebendo grana como nunca tinha visto na vida e uma promoção gigantesca do seu nome, houvesse se sentido estuprada?!

Vale também lembrar que, quando do lançamento de O Último Tango em Paris, ela dava entrevistas que eram pura cafajestice. Disse, p. ex., que vestido o Marlon Brando era um homem bonito, mas sem calça não impressionava mais ninguém. 

As feministas serão muito mais respeitadas em nossa sociedade sem tais excessos, ou seja,  se deixarem de concentrar seu fogo apenas contra ricaços e celebridades, passando a ajudar preferencialmente pessoas simples estupradas por outras pessoas simples. 

Aí também se livrarão dessa imagem de caçadoras de holofotes, que eu delas tenho e muitos outros também têm. (por Celso Lungaretti).

quarta-feira, 4 de março de 2026

COVARDES E SANGUINÁRIOS

"O jornal de manhã chega cedo
Mas não traz o que quero saber
As notícias que leio, conheço
Já sabia antes mesmo de ler"
(Caetano Veloso e Gilberto Gil)
Os versos acima são da canção tropicalista Domingo, mas caem muito bem para o momento atual. 

Quase seis décadas se passaram e as notícias, inclusive as de horrores dantescos, continuam se repetindo sem cessar. Estamos condenados ao eterno retorno? Ao trem fantasma?

Agora assistimos à nova temporada de extermínio perpetrado pelos Estados Unidos e Israel, que continuam seguindo fielmente os passos de Hitler. 

Dos EUA eu não esperava algo diferente, mas os israelitas traem sua própria história
(vide aqui): sofreram o Holocausto no século passado e agora o impõem aos países árabes.  

Israel é o quarto Reich e os Estados Unidos em nada mudaram desde que despejaram bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, talvez o pior crime de guerra da história da humanidade.  

A única novidade que talvez vejamos será a extinção da Organização das Nações Unidas, por haver se tornado uma despesa inútil: existe para evitar genocídios, mas nunca consegue impor o respeito às  práticas civilizadas por parte dos arrogantes estadunidenses e israelitas.

Não comentarei as novas agressões covardes e sanguinárias a nações muito mais fracas. São iguais a todas que as antecederam, também impunes. De que adianta as deplorarmos se nada de concreto resulta?! 

Fazem enorme falta as brigadas de voluntários estrangeiros que foram combater os fascistas na guerra civil espanhola. Os novos assírios (o povo mais cruel de todos os tempos) mataram inclusive nossas esperanças e nossa disposição de lutar por causas justas.  (por Celso Lungaretti)

terça-feira, 3 de março de 2026

ATÉ O AGRONEGÓCIO COMEÇA A REJEITAR O BOLSONARISMO: A POLARIZAÇÃO NOS CONDENA À MEDIOCRIDADE!

Enfim surge uma notícia alvissareira nessa corrida presidencial que começou cedo demais e desmedidamente raivosa.

A precocidade se caracteriza por tais campanhas antigamente esquentarem só após as férias escolares de julho e agora durarem o ano inteiro.

Quanto  à polarização estridente e truculenta, ela nem sequer faz muito sentido, pois os litigantes são uma extrema-direita subserviente ao capital e uma direita moderada idem, só que travestida de esquerda

A novidade é que uma parte do agronegócio rejeita a candidatura de Flávio Bolsonaro,  ao contrário do que aconteceu em 2018.  

O motivo, aponta editorial do Estadão, é Flávio não passar de "alguém movido a revanchismo, mais interessado em livrar o pai da cadeia e anistiar golpistas do que em conduzir o País no caminho das reformas e da reconciliação". 

O pior é que o fato de as duas candidaturas representarem meras tendências da direita torna ainda mais agressiva a refrega ante elas, pois é preciso muito exagero para diferenciá-las e fazer o eleitor entusiasmar-se por uma ou por outra. 

Na opinião do principal jornal conservador do país, o cansaço com a política sem projeto de país não se verifica só no agronegócio, como também noutros segmentos:  
"Esses dois polos turvaram o debate público, converteram adversários em inimigos e inibiram alternativas. Hoje, segundo a Quaest, cerca de 30% dos brasileiros se dizem independentes, não querem nem Lula nem os Bolsonaros. Há, ainda, 14% enquadrados como esquerda não-lulista e 21% como direita não-bolsonarista". 
O remédio para sairmos dessa briga de foice no escuro, um impasse que nos condena à mediocridade, é, para o jornalão, um reerguimento da direita não-bolsonarista. 

Eu, como venho enfatizando há vários anos, considero de extrema necessidade a ressurreição de uma esquerda combativa, que volte a representar uma alternativa ao capitalismo e não sua linha auxiliar. (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 2 de março de 2026

SÉRIE "COMO FORAM AS CINCO COPAS DO MUNDO QUE O BRASIL CONQUISTOU": 1958.

"A taça do mundo é nossa
Com o brasileiro não há quem possa
Êh eta esquadrão de ouro
É bom no samba, é bom no couro
-
O brasileiro lá no estrangeiro
Mostrou o futebol como é que é
Ganhou a taça do mundo
Sambando com a bola no pé"
(Maugeri, Müller, Sobrinho e Dagô)
A conquista da Copa de 1958, disputada na Suécia, teve um significado imenso para nós, brasileiros: provamos ao mundo e, principalmente, a nós mesmos que poderíamos ser os melhores em alguma coisa, começando a livrar-nos do COmplexo de vira-latas.

Até então, víamo-nos como seres inferiores, deitados eternamente em berço esplêndido, sem nunca concretizarmos o nosso potencial. Uma vinheta radiofônica dizia: Brasil, um país a caminho do seu grande destino. Que nunca chegava.

Enquanto isto, admirávamos, embasbacados, o progresso dos EUA e as imagens fantasiosas que os grandes irmãos do Norte projetavam de si próprios via cinema e TV. Isso, claro, só fazia aumentar nossa sensação de inferioridade.

Consolávamo-nos com a ilusão de que seríamos a nação do futuro – uma pífia compensação para o passado inglório e o presente insosso. Era como a promessa católica do paraíso, o sonho que ajudava a suportar uma vida de privações.
Mané Garrincha, devastador!

O futebol já dera mostras, em 1950, de que poderia se tornar nosso grande motivo de orgulho nacional. No entanto, vacilamos na hora H e a euforia se transformou em frustração.

Meu pai costumava contar que, depois da fatídica derrota contra o Uruguai, a principal rua do nosso bairro ficou quase deserta, como ele nunca a vira num domingo. Rapazes e moças não tiveram nem ânimo para saírem de casa, na noite habitualmente destinada à paquera.

Em 1954 trombamos com o inesquecível esquadrão da Hungria e fomos merecidamente eliminados por Puskas & cia.

Aí, em 1958, receosos de mais uma frustração, não ousávamos acreditar na Seleção Brasileira. Ainda mais depois de duas derrotas vexatórias em amistosos de 1956 (0x3 Itália e 2x4 Inglaterra, apesar dos milagres de são Gylmar) e da eliminatória tortuosa em 1957, quando sofremos o diabo para vencer... o Peru!

É que a Venezuela desistira de disputar uma vaga no Mundial, deixando-nos a tarefa aparentemente facílima de derrotarmos um único e pouco ameaçador adversário.

No entanto, o Peru não morreu na véspera. O jogo em Lima ficou em 1x1 e, no Maracanã, num magro 1x0 -- gol de falta de Didi, cobrando com a maestria habitual uma infração da entrada da área.
Bellini criou o gesto de erguer a taça
[Um causo hilário. Excursionando pelo Brasil, o grande Benfica de então enfrentou o Botafogo e seu famoso goleiro Costa Pereira sofreu um gol de falta do Didi exatamente da mesma maneira, a folha seca, com o arremate parecendo que passaria sobre o gol e a bola descendo nos últimos metros.

Aí, no Pacaembu, o corinthiano Cláudio repetiu a dose, com seu chute que se dirigia para fora e entortava no finzinho da trajetória. Costa Pereira, que caminhava tranquilamente para bater o tiro de meta, botou as mãos na cabeça, estupefato, ao ver a redonda balançando suas redes, depois de fazer o que, nas entrevistas, ele qualificaria de
uma curvita...]

O empate diante da Inglaterra, no segundo jogo das oitavas-de-final (depois da boa estreia contra a Áustria, 3x0, com direito a golaço de Nilton Santos) fez aumentar nosso pessimismo. 

Foram 90 minutos de sofrimento, grudados nos rádios cujo som às vezes fugia, pois as transmissões a longa distância estavam longe de ser perfeitas; quando voltava, era uma agonia tentarmos adivinhar o que sucedera, até constatarmos que não tinha sido marcado nenhum gol durante o apagão.

Iríamos para o tudo ou nada contra a poderosa URSS, que anunciava ter utilizado os mais avançados recursos científicos para detetcar as vulnerabilidades dos futebolistas brasileiros.

Foi quando o técnico Vicente Feola se curvou à pressão dos líderes do elenco e escalou o fenômeno Garrincha... que até então ficara no banco porque um laudo psicológico o dava como pouco mais do que um débil mental. Foi preciso chegarmos à beira do abismo para o treinador desconsiderar os preconceitos dos engravatados.
Pelé mostrou a que vinha contra gauleses

O resultado foi aquilo que passou à história do futebol como um dos inícios de partida mais avassaladores de uma Copa do Mundo. 

Imprevisível como uma força da natureza, Garrincha pulverizou a ciência soviética, colocando uma bola na trave, servindo Vavá no primeiro gol e criando sucessivas jogadas agudas. 2x0.

Na quarta-de-final contra o retrancadíssimo Pais de Gales, foi a vez de Pelé dar o ar de sua graça, fazendo o gol salvador. 1x0. Ele também começara a Copa como reserva (de Mazzola), pois Feola temia que, aos 17 anos, não aguentasse tamanha responsabilidade. 

Ledo engano. O escrete melhorou muito com sua escalação a partir do jogo contra a URSS, para deslanchar de vez na semifinal contra a poderosa França de Fontaine (que, com seus 13 gols marcados nos gramados suecos, dificilmente perderá um dia a coroa de maior artilheiro de um só Mundial). 

Graças ao idiota Garrincha e ao inexperiente Pelé, o Brasil obteve a mais retumbante conquista de uma Copa do Mundo até hoje: com exibições da mais refinada arte futebolística já vista no Planeta Bola, emplacou goleadas de 5x2 tanto na semifinal contra a França quanto na final contra a Suécia.
                  
Gilmar; Djalma Santos, Belini, Orlando e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Vavá, Pelé e Zagallo disputaram a partida final, não se intimidando com a abertura do placar pelos anfitriões.

Duas arrancadas fulminantes de Garrincha, dois centros convertidos por Vavá e a vantagem mudou de mãos. Pelé (2) e Zagallo liquidaram a fatura, sob aplausos dos maravilhados suecos.
                  
O nosso povo, que há tanto tempo andava atrás de qualquer alegria, pôde finalmente desabafar: com o brasileiro, não há quem possa

Pena que as lições foram logo esquecidas. O embasbacamento face às metrópoles e a submissão aos preconceitos dos engravatados voltaram a prevalecer.
Clique aqui para assistir à final contra a Suécia
E continuamos reprimindo o Macunaíma que temos dentro de nós – tanto que, ao contrário dos argentinos com seu ídolo Maradona, fomos terrivelmente ingratos com nosso herói de duas Copas, deixando Garrincha agonizar no alcoolismo e abandono. (por Celso Lungaretti)

domingo, 1 de março de 2026

DEPUTADO VENDE SUA CANDIDATURA POR R$ 15 MILHÕES. OTÁRIOS QUE O ELEGERAM DEVERIAM PEDIR DEVOLUÇÃO DO VOTO...

Foto de um desavisado que elegeu o Marco Pollon 
C
erta vez o Lula disse que o Leonel Brizola pisaria no pescoço da própria mãe para conquistar a presidência do Brasil. Esqueceu de informar qual político profissional não o faria.

Sempre constatei que os ditos  sujos (ôps, quero dizer cujos), salvo raríssimas exceções, são os incorrigíveis praticantes de uma politicalha sórdida.

E que a democracia burguesa não passa de um jogo de cartas marcadas, que no curto, médio ou longo prazo, acaba sempre favorecendo o capital.

É exatamente isto que depreendemos de uma notícia publicada há alguns dias pelo Estadão.

De tão acostumado à impunidade do seu clã, o senador Flávio Bolsonaro se descuidou e cometeu sincericídio: anotações sobre a situação nos Estados, por ele esquecidas após uma reunião na sede do Partido Liberal, foram encaminhadas por algum muy amigo ao jornalão. 
Tomara que esta foto do Pollon vire presságio

Grafadas com sua própria mão, elas revelam que o deputado federal sul-mato-grossense Marcos Pollon está pedindo R$ 15 milhões como compensação para não ser candidato ao pleito desde ano.

A desculpa do Flávio Bolsonaro foi uma das mais esfarrapadas de que já tomei conhecimento: ele teria feito a anotação para não esquecer de avisar o deputado que essa falsa (!) acusação sobre ele estava circulando por aí.

Quem acreditar nessa patranha compra até terreno na lua

E, já que estamos falando de um rebento da Famiglia Bolsonarone, ele nem deveria poder participar da eleição presidencial depois de trombetear que, uma vez eleito, livrará a cara do homicida culposo chamado Jair e do traidor da pátria chamado Eduardo. Confessou a intenção de delinquir... (por Celso Lungaretti) 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

QUEM É O MAIS OCIOSO, O TRABALHADOR QUE QUER TRABALHAR 5 DIAS POR SEMANA OU O DEPUTADO QUE TRABALHA SÓ 1,5 DIA?

Os trabalhadores correm risco de se tornarem ociosos  caso sua jornada  seja reduzida para cinco dias por semana. Ócio demais faz mal...

O autor de afirmações tão calhordas é o presidente do Republicanos, deputado Marcos Pereira, que faz lobby explícito contra o fim da escala 6x1. 
Ele sustenta que os pobres não podem pagar por lazer, portanto não passariam mais tempo com a família. Ademais, ficariam expostos a drogas e a jogos de azar. Trágico...

A sua verdadeira preocupação é bem outra, muito mais espúria: a medida supostamente reduziria a competitividade das empresas brasileiras. 

Quanto mais trabalho, mais prosperidade, disse quem trabalha somente 1,5 dia por semana, como os deputados em geral. (por Celso Lungaretti)
Clique aqui e curta no Youtube a
música Construção, que aborda
os ociosos da construção civil.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

"O FUTEBOL DEVERIA SER UM ESPAÇO DE PAIXÃO, COMPETIÇÃO E UNIÃO, NUNCA DE DISCRIMINAÇÃO!" BRAVO, HUGO SOUZA!

A
pós salvar o Corinthians de ser eliminado pela Portuguesa em partida do Paulistão no último domingo (22), tendo defendido uma penalidade máxima no tempo normal e duas cobranças na decisão por pênaltis, Hugo Souza deu uma lição de comportamento ao Vini Jr.

Grande responsável pelo triunfo corinthiano, ele foi xingado por torcedores à saída do gramado: sem dente; passa fome; vai cortar esse cabelo, seu piolhento e favelado

Hugo evitou fazer estardalhaço despropositado ou provocações desnecessárias Vini Jr., pelo contrário, dá sempre a impressão de que esteja capitalizando a ocorrência para valorizar-se como profissional, afora preocupar-se demais com palavras que não matam e de menos com a máfia das apostas, que mata os brothers de fome. 

Só no dia seguinte Hugo Souza se manifestou, em nota distribuída à imprensa e redes sociais:
"...Trata-se de uma situação grave, que ultrapassa qualquer limite esportivo e atinge princípios fundamentais de respeito, dignidade e igualdade. 
O racismo é crime e precisa ser tratado com a seriedade que exige. 
Episódios como esse não podem ser relativizados, naturalizados ou ignorados. 
Infelizmente, [os xingamentos racistas ainda são} uma realidade enfrentada por muitas pessoas pretas diariamente, dentro e fora do esporte. 
Repudio de forma veemente qualquer manifestação preconceituosa e reforço meu compromisso com a luta por uma sociedade mais justa e consciente. 

O futebol deveria ser um espaço de paixão, competição e união, nunca de discriminação. 

Espero que o caso seja apurado com rigor na esfera jurídica e que medidas exemplares sejam tomadas. O combate ao racismo é uma responsabilidade de todos".

A Federação Paulista de Futebol deplorou o ocorrido e a Portuguesa prometeu punir os autores. 

De forma discreta, sem a estridência bombástica do Vini Jr., o goleiro não deixou os insultos passarem em branco, mas também não deu importância exagerada a desabafos de torcedores com a cabeça quente após uma desclassificação. (por Celso Lungaretti) 
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