sábado, 13 de julho de 2024

O CAPITALISMO EM ESTADO DE SENILIDADE

 


P
utin é o presidente da Ucrânia? Trump é o vice-presidente dos EUA? De acordo com recentes gafes cometidas por Joe Biden, sim. O presidente estadunidense vem sofrendo severas críticas quanto à sua condição física e mental após sucessivas frases infelizes e, sobretudo, após sua desastrosa participação no primeiro debate presidencial com seu adversário - e não seu vice! - Donald Trump

Não é preciso ser médico para diagnosticar em Biden claros sinais de senilidade, uma degeneração evidente de suas condições intelectuais e mesmo corporais. Obviamente, o presidente de 81 anos não é regra geral, pois existem inúmeros idosos que, com quase cem anos, levam vidas ativas e lúcidas, mas é impossível negar que a condição do atual ocupante da Casa Branca é claramente de alguém cujo melhor lugar hoje seria em casa repousando e não governando o país mais poderoso da história. 

Mas é equivocado pensar ser a saúde de Biden o grande motivo para os posicionamentos contra a continuidade de sua campanha à reeleição. A deterioração de sua saúde pode ter contribuído para aprofundar uma situação já existente, a do completo fracasso de sua presidência, conforme já analisávamos neste post, motivo de ele amargar baixíssimos níveis de aprovação.

Na verdade, Biden foi lançado pelo establishment do Partido Democrata unicamente para evitar a vitória de Bernie Sanders nas primárias de 2020, tal como já havia acontecido em 2016, quando igualmente Hillary Clinton usou e abusou de manobras para barrar o socialdemocrata. Igualmente, Biden se manteve no páreo para 2024 unicamente para não abrir disputa primária em seu partido, evitando mais uma vez que a ala esquerda vencesse por agora. São os democratas sem democracia. 

É bem possível que Biden se retire da disputa em prol de sua vice, a igualmente decrépita - embora apenas politicamente - Kamala Harris. Tudo indica que Trump vencerá, seja concorrendo com Biden ou com sua vice, a real, não a da gafe. Mas isso importa zero para o partido democrata e para a burguesia estadunidense, que dormirá em berço esplêndido sabendo que seus reais inimigos, Sanders e seu movimento, estarão fora do governo.

Não que Sanders seja um revolucionário ou mesmo uma ameaça séria à burguesia estadunidense. Igual Jean-Luc Mélechon, é apenas um reformista moderado, muito mais à esquerda que reacionários do tipo Lula ou Macron, mas ainda muito mais à direita que qualquer posicionamento autenticamente socialista. Contudo, Sanders e Mélechon dão caláfrios nos conservadores de qualquer lugar do mundo, pois colocam o dedo na ferida do capitalismo e ousam encampar a causa Palestina. Contra eles, os Biden, Lula e Macron - seguidos pelos seus séquitos - não irão pestanejar um só minuto em preferir que estejam no poder algum membro da extrema-direita, mas defensor intransigente do capital. 

Por isso, Biden insiste em sua campanha de faz de conta e, no máximo, aceitará ser substituído pela igualmente farsesca Kamala. No fim, vencendo Trump ou não, o capitalismo fica inquestionável. 

Mas, há algo profundamente sintomático quando se observa que a concorrência ao cargo de presidente dos EUA está entre um idoso senil e um idoso criminoso. Não teria ali indivíduos com mais qualidade? Mas colocar a questão em termos de indivíduos já é um erro, pois a política nunca é a respeito de indivíduos, mas da luta de classes e a disputa pela Casa Branca sempre foi um jogo ultra controlado em que, ao fim, disputam apenas os ungidos pelo capital, existindo zilhões de mecanismos -econômicos, administrativos, políticos, midiáticos, etc. - para filtrar os participantes e confluir em uma eleição bipartidária, engessada e estéril. Até a escolha do Papa é mais plural!

Assim, a disputa entre um presidente em estado avançado de senilidade e um ex-presidente criminoso condenado é apenas a expressão de algo muito mais profundo, a decadência da própria burguesia estadunidense e, ao fim, a senilidade do próprio capitalismo, incapaz de encontrar novas expressões. A caducidade eleitoral expressa a impossibilidade do capital em se reproduzir de forma ampliada, entrando em estado vegetativo. Essa é sua crise e esse é o estado terminal em que a sociedade capitalista se encontra neste começo de século. (por David Coelho)



quarta-feira, 10 de julho de 2024

MACRON SE RECUSA A RECONHECER DERROTA E GANHA TEMPO



 Rui Martins

Antes de partir para Washington, onde participa de uma reunião da OTAN, o presidente francês Emmanuel Macron deixou uma carta dirigida a todos os franceses, na qual pede aos eleitos no último domingo para se reunirem em torno dos valores republicanos, com ideias e programas acima de suas ambições pessoais, numa crítica velada às exigências do líder da França Insubmissa, Jean Luc Mélenchon.

Só depois de encontrado esse denominador comum, Macron tratará da nomeação do primeiro-ministro, "isso supõe se deixar passar um pouco de tempo às forças políticas para construírem compromissos com serenidade e respeito". Enquanto isso, permanecerá, não se sabe por quanto tempo, o atual governo de Gabriel Atall, cujo partido, o mesmo do presidente, ficou em segundo lugar nas eleições. Essa carta já provocou uma série de protestos, que poderão ser seguidos de convocações para manifestações populares.

Ao mesmo tempo, temerosos de que os deputados da França Insubmissa se aproveitem do clima para assumir a direção da Nova Frente Popular, os deputados ecologistas e socialistas programam se reunir para fazer face.

Existem lições a tirar para a esquerda brasileira da reviravolta nas eleições legislativas francesas de domingo?

Talvez a mais importante seja a de se evitar o extremismo, provocador de divisões e de medos. Ao contrário dos entusiasmos mostrados por certas redes sociais brasileiras, o líder do partido LFI ou França Insubmissa, Jean Luc Mélenchon, considerado de extrema esquerda, não é um aglutinador de forças contra a extrema direita e nem foi o único chefe do movimento de união dos partidos de esquerda e direita.

Bem ao contrário! Mélenchon pode ser considerado como um dos inspiradores da vitoriosa Nova Frente Popular, porém, ao mesmo tempo, suas declarações extremas e egocêntricas fizeram muitos eleitores socialistas e de direita estarem dispostos a votar a contragosto na extrema-direita de Marine Le Pen.

O caso mais comentado foi o do "caçador de nazistas" Serge Klarsfeld que, na hipótese de uma final entre a extrema direita e extrema-esquerda, preferiria votar no partido de Le Pen e não seguir o voto nulo, indicado pelas instituições judaicas. Essa declaração provocou escândalo pois seu pai, Arno Klarsfeld, judeu, morreu em Auschwitz, para onde tinha sido deportado da França.

A razão dessa estranha opção foram as declarações de Jean Luc Mélenchon, consideradas antissemitas pelas forças conservadoras da França, sem ter declarado terrorista o ataque do 7 de outubro por parte do Hamas. Embora Mélenchon não seja um aglutinador, tanto que a maioria dos deputados eleitos pela Nova Frente Popular rejeita sua indicação para primeiro-ministro, uma parte da esquerda brasileira vê nele um líder a ser imitado.

Pelo menos um líder do PT, Paulo Paim, e uma líder do PSB, Lídice da Mata, ponderam pela moderação ao comentarem a vitória da esquerda na França. Nada a ver com o líder do que se poderia chamar de extrema esquerda brasileira, Rui Costa Pimenta, do Partido da Causa Operária que, embora sem a mesma verve seria a versão nacional do tribuno populista Mélenchon. Pimenta foi a favor da invasão da Ucrânia pela Rússia de Putin e aplaudiu o terrorismo do Hamas no 7 de outubro.

A lição das legislativas antecipadas na França para a esquerda brasileira poderia ser a de não encampar a linguagem extremada de um Mélenchon, como bem sintetiza Paulo Paim "precisamos entender a importância de trabalhar uma frente ampla de centro-esquerda porque senão, daqui dois anos, poderemos ter um retrocesso ainda maior no parlamento brasileiro em relação à realidade de hoje".

Talvez Celso Amorim e o presidente Lula devessem analisar como o discurso provocativo de Mélenchon estava assustando os franceses e os levando ao RN da extrema-direita, enquanto a linguagem conciliadora de Raphael Glucksmann funcionava como calmante.

O jornal Le Monde conta como toda a Europa teve um alívio diante dos primeiros resultados das eleições francesas, com exceção da italiana Melloni, do húngaro Orban e do russo Putin. O ambivalente Putin que consegue ser apoiado pela extrema direita de Orban e por países do Sul Global e por alguns países e teocracias do Brics.

Para terminar, uma coincidência - na França, a dinastia da extrema-direita se chama Le Pen; no Brasil, a extrema direita é também uma dinastia familiar, a de Bolsonaro. (por Rui Martins)

domingo, 7 de julho de 2024

BRASIL ELIMINADO DA COPA AMÉRICA: AS SELEÇÕES MULAS SEM CABEÇA NÃO TÊM VEZ NO SÉCULO 21.

A seleção de futebol brasileira acaba de ser eliminada da Copa América pela uruguaia na  loteria dos pênaltis, após vencer uma partida e empatar as outras três.   

E daí? Qual a novidade? Uruguaios acumulam 15 títulos dessa competição, argentinos idem e nós, 9. Deu a lógica. 

Além de terminarmos invictos, ainda fomos até ligeiramente superiores aos hermanos cisplatinos, que eram cravados como francos favoritos pelos cronistas esportivos daqui.

No entanto, quem der uma passada de olhos pelos textos dos ditos cujos, ficará com a impressão de que acabou de ocorrer uma verdadeira tragédia. 

Quase todos perderam o espírito crítico, o senso de proporção e a coragem intelectual para resistirem ao resultadismo rabugento dos torcedores. 

Tornaram-se espíritos polarizados, repetindo melancolicamente a cegueira da política ao fazerem média com o primarismo daqueles a quem deveriam transmitir luzes. Pelo contrário, conduzem-nos a escuridão mais profunda.

Uma análise pautada pelo equilíbrio teria reconhecido que, após o 2023 que a CBF jogou fora com o engana-trouxas de que Carlo Ancelotti trocaria o Real Madrid pela Irreal Pindorama e com a perda total que foi a passagem do  Fernando saidinha Diniz pelo escrete, o técnico Dorival Jr. nem de longe foi testado. Se queriam um mágico, que fossem procurar algum.

Após sair-se surpreendentemente bem nos amistosos internacionais, Dorival Jr. teve de jogar sua sorte na Copa América em ridículas miniaturas de gramados estadunidenses, ótimos para os selecionados que  congestionam todos os espaços, disputando a bola com transpiração extrema e inspiração quase nenhuma. 

Para piorar, um grotesco erro do arbitro e do VAR privou os brasileiros do primeiro lugar em seu grupo, colocando-o contra um adversário muito mais difícil no primeiro mata-mata.

E o dedo na ferida ninguém coloca. O principal problema do mendicante futebol brasileiro é haver-se tornando fornecedor de pé-de-obra para o exterior, não só negociando suas revelações a preço de banana enquanto ainda nem chegaram à maioridade, mas também formando-as de acordo com as exigências dos compradores.
Estes, os europeus com mais intensidade, continuam nos vendo apenas como intuitivos talentosos, bons para o drible e as improvisações, mas não como organizadores das equipes, capazes de pensar opções e ditar o ritmo do jogo coletivo. 

Noutras palavras, ainda nos veem como intelectualmente inferiores e não se dispõem a pagar fortunas por grandes meio-campistas, simplesmente essenciais na modernidade futebolística.

Como a Argentina conseguiu quebrar a sequência de quatro Mundiais da Fifa consecutivos vencidos pelos europeus após o penta brasileiro? Graças a ter um gênio no meio-de-campo, simplesmente o maior futebolista de todos os tempos. 

E só o tinha porque vinha lapidado desde os 13 anos no Barcelona. Caso tivesse permanecido no seu país, Messi jamais atingiria as alturas que atingiu. 

Está muito melhor a seleção canarinho com Endrick, Vinícius Jr., a perspectiva de que Estevão vingue e que Vitor Roque se recupere. Provavelmente dará para montarmos um ataque poderoso. 

Mas o calcanhar de Aquiles, como se viu na Copa América, é não possuirmos nenhum meio-campista magistral como De Bruyne e Modric.
(por Celso Lungaretti)

sexta-feira, 5 de julho de 2024

O FILME PARA VER NO BLOG DE HOJE É UMA HOMENAGEM AOS PRESIDENTES QUE O BRASIL ELEGEU NO SÉCULO 21

Morro de vergonha a cada nova comprovação de que o povo brasileiro ou se submete a intermináveis ditaduras ou elege caricatos presidentes da República que o colocam em ridículo mundial.

E que, se no século passado houve exceção, no atual as escolhas têm sido as piores possíveis.

Primeiramente Lula, cuja visão de mundo começou a ser moldada no ambiente do coronelismo nordestino dos seus primeiros sete anos de vida e depois foi reciclada pelo sindicalismo de resultados estadunidense.

Nem em Garanhuns nem no ABC pôde adquirir conhecimentos que lhe permitissem perceber que o capitalismo mundial está há muito condenado por inviabilidade econômica e, por mais que consiga alongar sua agonia, inevitavelmente vai desembocar numa depressão que fará a da década de 1930 parecer brincadeira de criança.

Quis o destino que ele se tornasse dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, adaptando-se às circunstâncias como um camaleão para delas tirar melhor proveito pessoal, mas sem jamais haver tido capacidade para voos mais altos.

Assim, p. ex., singelamente já admitiu que, atendendo às viúvas que vinham requerer seus benefícios, passava a conversa nas que o atraíam e acabava lhes concedendo outros préstimos
Daí a filha fora do casamento que o prejudicou tanto na semana decisiva da eleição presidencial de 1989, não só pela revelação do seu adultério como por ele haver tentado convencer a amante a abortar em benefício de sua carreira política.

Escolhido pelos mandachuvas do PT como mera figura de proa para ganhar eleições no figurino populista, beneficiou-se no primeiro mandato de um contexto extremamente favorável às commodities brasileiras e da tutela que tais cabeças pensantes exerciam sobre ele, impedindo-o de cometer lambanças.

O escândalo do mensalão, no entanto, permitiu-lhe livrar-se da vigilância dos Genoínos e Dirceus, passando a fazer o que lhe dava na telha. O segundo mandato foi bem menos auspicioso do que o primeiro e a escolha da gerentona trapalhona para sucedê-lo, desastrosa ao extremo. 

Muito mais uma brizolista do que petista, ela tentou ressuscitar a política econômica do trabalhismo de Vargas como se fosse possível fazer o calendário da História recuar meio século. Com isto, Dilma Rousseff colocou o Brasil no rumo de uma terrível recessão, que tragou seu mandato, mandou Lula para o cativeiro e elegeu o palhaço psicopata.

Apesar do peso que a acusação de corrupção teve naquela desgraça do Lula, ele é muito mais movido por delírios de poder dentro da democracia burguesa (o que faz dele apenas um serviçal de luxo do poder econômico) do que pela imoralidade gananciosa. 

Apenas reproduziu o comportamento da esmagadora maioria dos políticos profissionais, certamente considerando normal que a Odebrecht reformasse seu sítio, lhe provesse tríplex, implantasse instituto e financiasse o partido por baixo do pano. 

Pelo mesmo critério, uns 95% dos políticos profissionais brasileiros acabariam em cana. O grande pecado do Lula foi outro: igualar a esquerda à qual o povo ingenuamente crê que ele pertença à ralé nefanda dos centrões fisiológicos.

Quanto a Jair Bolsonaro, o motivo de eu estar falando dele aqui é óbvio: seu indiciamento pela Polícia Federal por indiscutíveis e indefensáveis crimes de peculato, lavagem de dinheiro e associação criminosa (no caso das joias recebidas de governos estrangeiros). 

Fruto putrefato do ambiente miliciano fluminense, nunca passou de mero ladrão de galinhas com evidentes sintomas de desequilíbrio mental, capaz de planejar explosão de banheiros de quartéis, sabotagem do fornecimento de água à população... e depois contar tudo à imprensa! 

Também não podemos esquecer que ele obrigava seus auxiliares administrativos a lhe pagarem comissão, nem o uso fraudulento do dinheiro público para custear a faxineira de sua casa de praia... 

No caso desta excrescência  é desnecessário alongar-me. Foi o presidente responsável pelo maior extermínio de brasileiros em todos os tempos, o que pior governou e o que mais humilhou o Brasil aos olhos do mundo. 

Se Lula não precisasse dele para ter chances eleitorais como mal menor, há muito o bufão macabro deveria estar vendo o sol nascer quadrado. 

Ele continuar em liberdade até hoje é simplesmente uma aberração! (por Celso Lungaretti)
E por que dois perdidos? Porque eleitos foram ambos, a
outra não passou de um poste fincado no poder pelo Lula 

quinta-feira, 4 de julho de 2024

60 ANOS APÓS A OBRA-PRIMA DO GLAUBER, AINDA NÃO APRENDEMOS QUE A TERRA É DO HOMEM, NÃO É DE DEUS NEM DO DIABO.

P
roduzido em 1963 e lançado no ano seguinte, Deus e o diabo na terra do sol foi o primeiro filme nacional a atingir o patamar de obra-prima da sétima arte em termos mundiais.  

Estava anos-luz à frente de O Cangaceiro e de O pagador de promessas, cuja (pouca) repercussão internacional se devera à condescendência dos gringos para com os exotismos de países subdesenvolvidos.

Agora que voltamos ao universo sufocante da polarização maniqueísta, num retrocesso civilizatório que nem mesmo no ano maldito de 1964 acreditávamos ser possível, bem que a comemoração do seu 60º aniversário poderia ser aproveitado para despertar o interesse das novas gerações. 

Não só para um debate consistente sobre como pudemos regredir tanto, praticamente nos deixando subjugar novas formas de coronelismo político e fanatismo religioso, como até em termos estéticos. Os jovens precisam saber quão consistente e criativo o cinema brasileiro foi, antes de se subjugar à medíocre estética televisiva.
nordestern épico de Glauber Rocha, influenciado por John Ford, Sergei Eisenstein e os mestres do neo-realismo italiano, acompanha a jornada do vaqueiro Manuel (Geraldo Del Rey) em busca de um novo destino, pois saíra do trilho normal de sua existência ao matar o coronel da região numa desavença a respeito da partilha do gado.

Engaja-se nos efetivos messiânicos de Deus (o santo Sebastião, interpretado por Lídio Silva e evidentemente baseado em Antônio Conselheiro) e do diabo (o cangaceiro Corisco, personagem que deu oportunidade a um incrível tour de force de Othon Bastos, disparado o melhor ator do elenco).

As autoridades, os latifundiários e a Igreja recorrem ao jagunço Antônio das Mortes (Maurício do Valle) para exterminar os beatos do Monte Santo (Canudos, claro!) e os cangaceiros remanescentes após a morte de Lampião. 
Gigantesco, com capa de boiadeiro e barba cerrada, ele aluga sua papo amarelo calibre .44 para os poderosos, mas acredita estar cumprindo um papel mais nobre: o de desimpedir os caminhos para a guerra que um dia o povo haverá de travar
"sem a cegueira de Deus e do diabo".

Manuel sobrevive a ambos os massacres e sai com a convicção de que a libertação do sofrido povo nordestino não passa por cangaceiros e fanáticos, como enfatiza a magnífica canção final de Sérgio Ricardo: "Tá contada a minha história/ na verdade, imaginação,/ espero que o sinhô tenha tirado uma lição:/ que assim, mal dividido, este mundo anda errado,/ que a terra é do homem, não é de Deus nem do diabo". (por Celso Lungaretti)

quarta-feira, 3 de julho de 2024

PAPEL DO STF NA INSTITUCIONALIDADE BURGUESA

 


O STF é um órgão judicante constitucional, ou seja, é o guardião do espírito da lei contida na carta magna, assim denominada por ser a espinha dorsal de uma região ou país, no que se refere: 

- à sua organização política;  

- à definição dos direitos civis fundamentais; e 

- à natureza e essência da forma e conteúdo da relação de produção social ali estabelecida.  

A nossa constituição federal, assim denominada por ter abrangência de federação de estados membros a ela subordinados, tem natureza republicana burguesa e, portanto, defende a lógica do capital procurando equalizar a relação político-jurídica entre capital e trabalho de modo a que estas duas faces de uma mesma moeda possam pretensamente conviver harmoniosamente.  

Ora, por assim ser, o STF, em sua função institucional, tem caráter eminentemente político-jurídico e processual-constitucional burguês.  

A República - res publica, do latim, coisa pública - que vem sendo aprimorada juridicamente ao longo dos dois últimos séculos mundo afora, divide-se em duas vertentes na questão de forma política, e se unificam na questão de conteúdo. 

As duas formas políticas, com variações no seu interior respectivamente, são: 

- as que se inclinam para o liberalismo clássico, do estado mínimo, sem incumbências sociais mais relevantes, por entender que a “mão invisível do mercado” (Adam Smith) tudo equaliza;  

- e a vertente keynesiana, do estado intervencionista na economia, estrategicamente estatizante, com preocupações sociais que julga indispensáveis a serem patrocinadas pelo Estado.        

A vertente política marxista-leninista-maoista do capitalismo de estado experimentada na Rússia e na China mais não foram do que a exacerbação de uma visão capitalista político-econômica aparentemente sui generis, que se denominou como socialismo real, mais não sendo do que um keynesianismo mais radical.    

Nos casos da Rússia e China, e apenas incialmente, com um estado exclusivamente detentor dos meios de produção com estatutos jurídicos constitucionais próprios de ascensão ao poder político estatal unipartidário que, inevitavelmente, derivou para um capitalismo liberal de mercado por consequência natural da imposição das categorias capitalistas mantidas nestas duas experiências políticas.  

A lógica da forma valor, que consiste na acumulação capitalista, é absolutista  e não admite outro deus a lhe comandar as ações, senão a sua própria função autotélica.   

Na questão de conteúdo, tanto as experiências republicanas burguesas, como as marxista-leninistas remanescentes - Cuba, Coreia do Norte, Venezuela, e talvez Nicarágua -, identificadas como socialistas, que se pretendem antirrepublicanas burguesas, identificam-se, no conteúdo de suas relações sociais de produção, como produtoras de mercadorias, razão pela qual podemos dizer que todas elas são espécies políticas do gênero capitalismo.   

Nas democracias republicanas burguesas clássicas, as supremas cortes são antenadas com o interesse econômico que dita as ordens para todas as instituições que lhe servem, razão pela qual estas cortes judicantes assumem, principalmente, um papel político na definição daquilo que esteja coadunado com tal interesse.  

Se a constituição é burguesa, todo o pensamento dominante nestas cortes obedece ao desenvolvimento, estabilidade e indução à manutenção constitucional do conjunto da institucionalidade política e econômica burguesa.  

O pé de laranja não dá manga.     

Nos regimes ditatoriais burgueses, as cortes supremas são moldadas ao seu feitio absolutista; nas democracias liberais são moldadas por critérios políticos menos acintosos, mas sem deixar de serem flagrantemente politicistas, uma vez que são escolhidas num filtro político majoritário de indicação dos seus membros. 

No capitalismo, sob a égide do deus valor, quem manda é o capital, e a ordem política é moldada para lhe servir, razão pela qual os poderes executivo, legislativo e judiciário, obedientes à constituição, não têm soberania de vontade e atuam de modo que tudo na sua ordem institucional se processe de modo a lhe dar manutenção e sustentação econômico-financeira, além de indução ao desenvolvimento de tal conteúdo.   

É por isso que quando Bolsonaro, o ignaro, passou a promover manifestações domingueiras temerárias em Brasília, estimuladas pelas suas redes sociais, o chamado gabinete do ódio, nas quais se liam frases como “Abaixo o STF”; “intervenção militar Já”; “AI 5 Já”, e com disparos de rojões contra as sedes dos poderes legislativo e judiciário, a elite brasileira - política, econômica, militar, alguns segmentos de setores religiosos, e o mercado, avesso a incertezas políticas - puseram as suas barbas de molho. 

Antes mesmo das manifestações pró golpe contra a posse de Lula e de golpe no 08 de janeiro de 2023, o mercado e toda a entourage do sistema financeiro e do grande capital industrial e comercial, e até mesmo a cúpula militar, entendeu que era hora de dar um freio nesse embalo considerado de futuro duvidoso capitaneado por um energúmeno militar afastado da caserna por insubordinação corporativa e mentor de um projeto ditatorial num momento de depressão mundial capitalista. 


Foi aí que Lula voltou institucionalmente ao jogo eleitoral como única forma de derrotar o projeto brasileiro de um novo Hugo Chavez absolutista, militar de baixa patente comandando o generalato, e o STF soube muito bem como explorar as falhas técnicas processuais e suas imparcialidades na Operação Lava Jato para tornar nulas as decisões de instâncias anteriores retirando o petista da prisão e reabilitando-o à elegibilidade, ainda que fossem feitas delações premiadas e reapropriadas as devoluções de bilhões de reais recuperados do exterior por conta da corrupção com o dinheiro da União Federal, dito público.   

 Essa talvez tenha sido a mais clara demonstração da intervenção política de uma corte superior, que nesse caso agiu de modo a evitar uma possível guerra civil brasileira, tal fosse o acirramento, que ainda persiste, de um país dividido pela animosidade política irrefletida, mais de um lado, a direita irascível, que do outro, a esquerda institucional socialdemocrata trabalhista. 

Os governos militares de 1964 a 1985, sabedores da função político-jurídica constitucional do STF, desde cedo se incumbiram de manipulá-lo ao seu favor, e na medida que seria melhor do que fechá-lo, como fizeram com o parlamento brasileiro por três vezes, porque era melhor tê-los sob sua tutela do que passar recibo de uma ditadura primitiva - os militares queriam dar um ar de legitimidade por apoio popular e convivência com políticos civis da oposição consentida, porque mantidos de boca fechada sob ameaça de cassação.    

Já no AI-2, de 25 de outubro de 1965, alteraram a composição dos Ministros de STF de 11 para 16 membros, de modo a que pudessem colocar lá os seus pretendidos e obedientes magistrados superiores, e não ficaram por aí: cassaram o mandato de três ministros pela via da aposentadoria compulsória - Evandro Lins, Hermes Lima e Victor Nunes -, sem falar que outros dois ministros abandonaram o  colegiado em protesto contra tais cassações e evidentes restrições ao ato soberano de julgar, Gonçalves de Oliveira e Antônio Carlos Lafayette de Andrada.  

A direita golpista brasileira hoje vocifera contra a interveniência do STF na vida política brasileira pelo simples fato de não ter podido colocá-la de joelhos sob seus interesses absolutistas burgueses, impedidos que foram pela elite política e militar brasileira que tem mais sorte do que juízo.  

O problema das instituições burguesas é a decomposição inconciliável dos fundamentos e contradições da lógica do capital em depressão que se explicitam e terminam por minar a credibilidade e aceitação popular dos poderes políticos instituídos, mesmo que o povo não estabeleça a conexão dessas mesmas instituições com a ordem político-econômica subtrativa e segregacionista que sustentam. (por Dalton Rosado)

segunda-feira, 1 de julho de 2024

A MÚSICA DO DIA É PARA O COMPANHEIRO DAVID, QUE SOFREU DURA DERROTA PARA O PASSADO MAS TEM O FUTURO A SEU LADO

"
Lula derrotou a greve [da Educação Federal], mas junto condenou seu próprio governo ao fiasco. Depois de suas ações, nunca mais poderá dizer que defende a educação ou os trabalhadores. 

Ao pisar na garganta de um setor historicamente aliado, enquanto valorizou os bolsonaristas, o presidente mostrou seu desprezo pelos aliados e seu delírio de onipotência. 

A conta já chegará nas eleições de outubro deste ano." (David Coelho,  editor deste blog e um dos líderes da greve, neste post)
 

LULA DERROTA GREVE DA EDUCAÇÃO FEDERAL

 


Após 86 dias, chega ao fim a greve da educação pública federal com a assinatura de um acordo entre os sindicatos representativos dos trabalhadores e o governo Lula. O resultado final do acordo ficou muito aquém do que era pretendido, com uma recomposição salarial insuficiente, recomposição tímida do orçamento e promessas vagas sobre reestruturação de carreira e novas concessões para docentes e técnicos. 

Lula cerrou fileiras junto aos capitalistas e não aceitou que se colocasse qualquer fissura na política de austeridade fiscal, cuja defesa foi elemento fundamental do pacto que permitiu sua saída da prisão e posterior eleição, na farsa da frente ampla pela democracia. Acuado pela fortíssima greve, emparedado pelas manifestações, Lula não teve outra alternativa que fazer prepotente discurso (veja aqui) exigindo que os líderes sindicais, seus paus mandados, colocassem fim à greve.

A indignação de Lula era porque esses líderes não tinham conseguido impedir a greve de acontecer. Tentaram, mas os trabalhadores os atropelaram. Uma vez a greve deflagrada, eles a boicotaram de todas as formas, seja poupando Lula das críticas, seja impedindo a realização de atos de rua, seja induzindo medo entre os trabalhadores. No fim, inclusive, foi esse discurso do medo o determinante para o fim do movimento, pois foi incutido na cabeça dos trabalhadores que se não aceitassem as migalhas concedidas por Lula, ele não daria nada, como já havia feito Dilma em 2011.

Com quase três meses de greve, muitas disputas, pressões e cansaço, os trabalhadores não tiveram outra opção que acatar o encaminhamento do fim do movimento paredista. Seus líderes, obedecendo a Lula, faziam o discurso do medo e o iam instando a retomar as atividades, e esses, em dúvida profunda, resolveram que o melhor era recuar e garantir a miséria concedida pelo governo. 

Contudo, essa greve conseguiu avanços gigantescos, as maiores foram na organização e na consciência política. Foi desnudado o caráter conservador de Lula e sua mentira em relação a valorizar a educação. Ficou também claro seu papel de defensor intransigente dos interesses dos capitalistas, protegendo-os mesmo às custas da implosão de seu governo. Finalmente, os trabalhadores avançaram na compreensão de seu papel enquanto classe, na importância de sua organização e em que, ao fim das contas, são eles próprios os sujeitos da história. 

Lula derrotou a greve, mas junto condenou seu próprio governo ao fiasco, conforme já tínhamos alertado anteriormente em outro post. Depois de suas ações, não poderá nunca mais dizer que defende a educação ou os trabalhadores. Ao pisar na garganta de um setor historicamente aliado, enquanto valorizou os bolsonaristas, o presidente mostrou seu desprezo pelos aliados e seu delírio de onipotência. A conta já chegará nas eleições de outubro desse ano. 

A greve se encerrou, mas a luta por um novo mundo continuará! (por David Coelho)


 Fala em assembleia do Colégio Pedro II em que se decidiu o encerramento da greve

domingo, 30 de junho de 2024

EU AINDA NÃO MORRI (mensagem à ombudsman da "Folha de S. Paulo")

Prezada colega Alexandra Moraes,

quando do lançamento do UOL na década de 1990, as parceiras Grupo Folha e Editora Abril concederam aos primeiros assinantes do pacote o acesso virtual vitalício ao jornal Folha de S. Paulo e à revista Veja. Fui um deles.

A Abril recuou da sua promessa ainda no século passado: passou a liberar o acesso à edição anterior apenas no dia em que a nova edição entrava em bancas. Até que, em algum momento, até tal subterfúgio desapareceu de vez.

A Folha, aos trancos e barrancos, foi honrando seu compromisso, mas, desde a década passada, vem dificultando cada vez mais o acesso. 

Tornou-se frequente a utilização de uma nova modalidade de assinatura ("só para assinantes") para introduzir uma barreira criada posteriormente ao contrato original, o que, todos sabemos, é uma prática ilegal.

Mesmo assim, estressando-me e perdendo meu tempo com atendentes para exigir aquilo a que tinha direito, eu acabava contornando o obstáculo, obtendo acesso às matérias vedadas aos assinantes classe B e nelas ingressando com meus comentários.

A novidade na década atual é que até tal porta foi fechada. E eu, aos 73 anos, sendo jornalista e não advogado, estou solicitando sua intervenção:
— como assinante cujo contrato vigente está sendo desrespeitado, e
— como idoso que ainda tenho necessidade da informação adquirida vitaliciamente, mesmo que o seja agora apenas como cidadão e eu não exerça mais qualquer atividade remunerada relativa à minha profissão.

Espero que a colega aja com justiça. Afinal, não é minha culpa estar vivo até hoje, haver conservado a lucidez e não ter perdido a memória...

Atenciosamente,
.
CELSO LUNGARETTI
Em 30/06/2024
"...e todo jornal que eu leio me diz que a gente já era, que não é
mais primavera, oh baby, oh baby, a gente ainda nem começou..."

sexta-feira, 28 de junho de 2024

PARA O CRÍTICA RADICAL, A POSTURA DE "NÃO REMOER O PASSADO" TORNA LULA CONIVENTE COM OS CRIMES DA DITADURA

O
grupo de esquerda emancipacionista Crítica Radical, baseado em Fortaleza, está divulgando carta aberta ao presidente Lula na qual contesta um posicionamento polêmico por ele assumido quatro meses atrás. 

O inconformismo é com a declaração na qual Lula descartou "remoer o passado", dizendo não ver urgência na apuração dos crimes da ditadura dos generais, muitos dos quais já completaram 60 anos de impunidade.

Com isto, acusa o documento, Lula:
—  se torna conivente com a ocultação de cabeças e dedos cortados e corpos queimados vivos de revolucionários(as);
— facilita os esforços dos que querem, agora, apagar os rastros desses assassinatos.    
— dá de ombros para o sumiço dos seus cadáveres;
Arquivo Nacional escondeu por quatro décadas foto que
comprova ter Lamarca sido preso vivo e depois executado



— foge da responsabilidade de apurar o destino dos que desapareceram com vidas;
— evita mostrar o sistema de controle então exercido sobre os opositores e que continua vigente no aparelho estatal dos dias atuais, etc.

"
O não acerto de contas com o passado reforça a violência como elemento estrutural da sociedade que marca a exclusão de povos originários, indígenas, negros, mulheres, pobres, LGBTQIA+, ciganos, etc. 

Isso colabora para criar e reforçar a política de terror do Estado de Segurança Nacional, o que possibilita manter a impunidade de ditadores, torturadores e assassinos", conclui o Crítica Radical.   

quinta-feira, 27 de junho de 2024

ISRAEL AINDA CHORA O HOLOCAUSTO, MAS NÃO PASSA DE UM GENOCIDA BESTIAL QUE AGORA SE ATRIBUI DIREITO AO MASSACRE

Trechos selecionados e editados do artigo Pensar após Gaza, do Vladimir Safatle
Genocídio ocorre todas as vezes em que o vínculo orgânico de populações ao genos, ao que nos é comum, é negada. 

Quando o comandante das forças armadas israelense diz que do outro lado há animais humanos, ele expressa, de forma pedagógica, intenções genocidárias. 

[É este também o caso quando, por exemplo]:
— o presidente de Israel diz não haver diferença entre civis e combatentes e depois submete toda a população palestina a punições coletivas;
— ministros [minoritários] do governo de Israel afirmam ser plausível o uso de bombas nucleares contra Gaza e não têm outra punição que o simples afastamento de reuniões ministeriais futuras;
— descobrimos planos de deslocamento em massa dos palestinos para o Egito; ou
— a ministra da Igualdade Social e Empoderamento Feminino afirma ter "orgulho das ruínas de Gaza" e que daqui há 80 anos todos os bebês possam contar a seus netos sobre o que os judeus fizeram lá. 

[Em tais situações], estamos não apenas diante de intenções genocidárias, mas de uma das declarações mais sórdidas e intoleráveis de culto a violência que se possa imaginar. Isso é sim uma expressão clara e imperdoável de prática genocidária. Nada disso provocou sequer a pressão de tirar esses indivíduos do governo.

Genocídio não é algo ligado a algum número absoluto de mortes, não há um número que começa a valer por genocídio. 

Ele diz respeito a uma forma específica de ação de Estado no apagamento dos corpos, na desumanização da dor de populações, na profanação de sua memória, no silenciamento do luto público que retiram tais populações de seu pertencimento ao genos.

E de nada adianta utilizar a teoria espúria do escudo humano nesse contexto, um clássico do colonialismo contra a violência dos colonizados. 

Mesmo aceitando, para efeitos de argumentação, que um grupo de luta armada tomasse uma população como refém e a usasse como escudo, isso não dá a ninguém o direito de ignorar essa mesma população e tratá-la objetivamente como cúmplice ou como alguém cuja morte é um mero efeito colateral. 

Até segunda ordem, ainda não inventaram o direito de massacre. 

(por Vladimir Safatle)

quarta-feira, 26 de junho de 2024

FINALMENTE ASSANGE É LIBERTO DAS MASMORRAS ESTADUNIDENSES

 


Após 12 anos sendo perseguido pelo governo dos EUA, primeiro através de falsa acusação de agressão sexual, depois por acusações diretas do governo estadunidense, Julian Assange está livre e de volta a seu país natal, Austrália. Sua libertação ocorreu após se declarar culpado das acusações feitas pela justiça estadunidense durante audiência no tribunal de Saipan, ilha pertencente aos EUA e localizada no meio do oceano pacífico. 

Por óbvio, o reconhecimento de culpa só vem como resposta à chantagem sofrida por Assange que, após mais de uma década encarcerado na embaixada equatoriana em Londres e nas prisões inglesas, poderia vir a ser trancafiado pelo resto de sua vida na Terra da Liberdade. Semelhante a Galileu, que reconheceu seus crimes diante da ameaça de ser torturado e mesmo queimado vivo, o jornalista australiano reconhece sua culpa por titânica pressão do estado mais poderoso da história mundial. Em nada, portanto, anula sua luta pela verdade e pela dignidade. Ao contrário, saí da prisão tão íntegro quanto entrou, tendo demonstrado por todo esse tempo sua dignidade. 

Assange foi perseguido apenas e tão somente por revelar os nefandos crimes cometidos pelos EUA em suas guerras contra o terror. Através de suas publicações, feitas em colaboração com centenas de jornais ao redor do mundo, ele desnudou a hipocrisia e a violência do imperialismo ianque, sua crueldade e falta de humanidade. Por sua colaboração em prol da verdade e da justiça, Julian Assange será eternamente um dos maiores heróis da história e inspiração para todos os que lutam por um novo mundo. (por David Coelho)



segunda-feira, 24 de junho de 2024

ULTRALIBERALISMO DO BUFÃO ARGENTINO BISARÁ FIASCO DO CONGÊNERE BRASILEIRO

dalton rosado
SEIS MESES DE JAVIER MILEI
"Ao contrário do passado, o ajuste recairá quase inteiramente sobre o Estado e não sobre o setor privado
" (Javier Milei)
O presidente argentino Javier Milei pauta seu governo pelo liberalismo clássico, que é a mais antiga das formas iniciais adotadas pelo capitalismo defendido por Adam Smith, anterior mesmo ao republicanismo burguês francês que lhe deu o formato jurídico hoje predominante.    

Ele se autodenomina anarcoliberal libertário (?) mas, concreta e politicamente só tem mesmo de novo a aparência de roqueiro laçado pela gravata e adepto de um esoterismo capaz de clonar os cachorros (diz com eles dialogar...) com os espíritos da ascendência destes. 

O liberalismo clássico é a forma política estatal obediente às regras funcionais e absolutistas capitalistas que consistem predominantemente  na compatibilização das receitas fiscais com os gastos da manutenção das instituições do Estado, e que se restringe somente a esta preocupação nas crises. Seu objeto teleológico básico é dar sustentação institucional e regulamentar à ordem capitalista. 

É claro que, mantendo-se neste quadrado administrativo estatal, as finanças públicas tendem a ser superavitárias e a emissão de moeda, restringindo-se à produção de valor válido (advindo da produção de mercadorias e serviços), faz com que a inflação tenda a ficar em patamares suportáveis e a moeda passe a ter alguma credibilidade. É o receituário clássico.   

Do jeito que as coisas iam na Argentina, o capitalismo portenho explodiria por conta de que não se pode conviver com a farra de gastos públicos descontrolados dentro da ordem ditatorial capitalista. Dinheiro não aguenta abuso (leia-se desobediência às suas regras comportamentais e contábeis absolutistas).  

É neste sentido que, agora, lá se explicita mais claramente a submissão dos governantes à lógica do capital. Mas, os hermanos estão apenas se equilibrando na administração das finanças públicas, tais quais surfistas nas ondas, sem alterarem sua natureza.      

A tese famosa dos governantes adeptos do liberalismo clássico ("deixai fazer, deixai ficar, o mundo segue por ele mesmo"), segundo a qual o mercado tudo equaliza, esbarra na própria lógica do capitalismo que acreditam, equivocadamente, ser remédio socialmente eficaz. Só que não é, muito menos nesta sua etapa falimentar!

Na fase atual do limite interno do capitalismo, na qual foi atingido o auge de suas contradições internas, aquilo que antes era minimamente suportável graças ao crescimento ainda possível de uma forma de relação social baseada na massificação do trabalho abstrato (a qual, embora sobrevivesse da inescrupulosa segregação social dos trabalhadores podia prover minimamente o sustento destes últimos),  agora deixou de sê-lo. 

O capitalismo tinha etapas a cumprir, fronteiras a serem atingidas, mas, tal como as ditas pirâmides financeiras que se sustentavam ilusoriamente no crescimento contínuo até estagnarem e morrerem por inconsistência da sua própria natureza constitutiva, esta situação era necessariamente transitória. Muitos não o percebiam porque, em alguns países detentores da hegemonia da produção de mercadorias, o sistema da exploração do homem pelo homem podia até dar aos seus operários um relativo poder aquisitivo e assistência social do Estado.  

Isso acabou. Hoje até as economias outrora prósperas estão cada vez mais precarizadas e economicamente depressivas (vide a questão previdenciária explosiva na França e Inglaterra). 

O processo migratório mundial dos povos do hemisfério Sul para o Norte, resultado da depressão econômica, explicita a desigualdade e desequilíbrio econômicos na globalização e é responsável pelos retrocessos civilizatórios encabeçados pela  direita recalcitrante à luz do dia.   
Sindicatos protestam contra a carestia no fim de 2023...

Dessa forma não há saídas, nem para o liberalismo clássico redivivo por Javier Milei, nem para as sociais-democracias com pretensões de assistências sociais dentro da lógica do capital.  

No liberalismo clássico, as finanças públicas se desequilibram menos, mas assim mesmo a dívida pública e os juros aumentam; e nas sociais-democracias, as finanças públicas tendem a se debilitar: 
 nas primeiras, o Estado se fortifica, mas seu povo morre desassistido;
— nas segundas, o povo tem suas finanças dragadas pelo flagelo da inflação; e,
 em ambas, campeia o desemprego estrutural, com maior crueldade social nos liberalismos clássicos.  

O final desse filme de quinta categoria é a coexistência pendular eleitoral entre projetos políticos que se dissemelham na forma política e se assemelham no conteúdo de exploração do trabalho abstrato e do trabalhador mediante a extração de mais-valia e cobrança de impostos.   

Os números da Argentina, ora devastada pelo liberalismo mais radical, o provam indubitavelmente: 
 a inflação (uma das piores do mundo) por lá vem perdendo força, mas lentamente; 
 após uma queda violenta de desvalorização cambial oficial, chegou-se a um maior equilíbrio da moeda em relação ao dólar estadunidense;
— mas houve superação do déficit primário (gastos em relação às receitas estatais) pela primeira vez desde 2008, num total de 285 bilhões de pesos no primeiro trimestre;
 a bolsa argentina voltou a apresentar alta (de 70%, chegando a 1.659.247,63 pontos);
 os investidores estrangeiros voltaram a olhar a economia argentina com interesse.  
...e estudantes repudiam cortes na Educação em abril último.

A contrapartida foram resultados indesejáveis como estes:
— em março a retração na economia foi de 8,4%, em comparação a fevereiro, marcando o quinto mês consecutivo de queda;
 aumenta o índice de pobreza no país, que de 41,7% apurado pelo IBGE de lá, foi para 57,4%; 
 continua imperativo o pagamento dos juros astronômicos (60% a 70% ao ano) da dívida pública (88,4% do PIB), inviabilizando, no país em recessão, a possibilidade de investimentos.  

Desse modo, mesmo que Milei esteja debelando de modo tímido mas constante o maior inimigo dos assalariados ao lado da extração de mais-valia e também os impostos (que são o dragão da inflação), podemos afirmar que a economia mercantil privada patina, o seu povo piora e as finanças estatais estão naquela situação de devedor sem crédito obrigado a submeter-se aos juros extorsivos do sistema bancário mundial. 

O liberalismo clássico num país da periferia do capitalismo (outrora rico) se resume à aceitação ingenuamente esperançosa de uma tragédia anunciada e politicamente manipulada.  

Até quando? (por Dalton Rosado)
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