sábado, 26 de novembro de 2022

O BOZO É BRINCALHÃO E GAIATO COMO UMA CRIANÇA OU APENAS CANALHA? OPINE

ruy castro
O COVARDE EM QUESTÃO
Acontece na guerra: o exército vencido bate em retirada e tenta se vingar do vitorioso deixando um rastro de destruição e morte. Mas, como bem sabem os militares, quem faz isto está sendo só covarde. 

Primeiro, porque é uma vingança a distância, a salvo, pelas costas, típica dos covardes. 

E também porque, ao plantar minas ao fugir, tocar fogo em cidades e florestas e envenenar rios e plantações, matarão muito mais inocentes, como crianças e animais, do que os experientes inimigos que pretendem atingir.

Jair Bolsonaro é o covarde em questão. Ao encontrar o que merecia nas urnas e ter data marcada para ir embora, está aproveitando os últimos dias no cargo para completar seus quatro anos de meticulosa demolição do país. 

Vide seu apoio mudo e tácito aos atos terroristas e às barricadas nas estradas. O histérico baderneiro que, há dias, impediu um pai de vencer a barreira para levar o filho a uma cirurgia que lhe garantiria a visão pode ter nome e sobrenome. 

O Bozo indo buscar proteção no colo do tio Temer, após
negar fogo na tentativa golpista de 7 de setembro de 2021
Mas este é só o pseudônimo do celerado. Seu verdadeiro nome é Jair Bolsonaro, e será a este que o pai deverá exigir satisfações se seu filho perder o olho.

Como ainda tem tinta na caneta, Bolsonaro tenta passar o resto da boiada, infiltrando os derradeiros pilantras de sua confiança em órgãos judiciais, cortando verbas essenciais e desmontando os já poucos serviços de proteção às florestas. 

Quem perde com isso é o Brasil, mas e daí? E seu silêncio fala alto quando, agora temendo processos de verdade, ele escala Walter Braga Netto e Valdemar Costa Neto para fazer o trabalho sujo.

Bolsonaro não tem a hombridade dos grandes generais que, ao perder a guerra, entregam sua espada ao vitorioso e saem de cabeça erguida –vencidos, mas não derrotados. Sua atitude é a de um moleque.

Moleque, segundo o Houaiss, pode ser tanto um sujeito brincalhão e gaiato quanto uma criança ou um canalha. Você escolhe. (por Ruy Castro)

SINAL TROCADO: ESQUERDA RESGATA A 'AMARELINHA' E GOLPISTAS VAIAM SELEÇÃO

A
té o dia da eleição, a camisa amarela da seleção brasileira era o uniforme oficial dos bolsonaristas desde a campanha de 2018, e os adversários tinham vergonha de usá-la para não serem confundidos. 

Isso vem desde os protestos antipetistas de 2015 e 2016 pelo impeachment de Dilma Rousseff nas ondas da Lava-Jato, quando ainda ninguém falava em Bolsonaro. 

Com a derrota do capitão nas urnas, e a proximidade da estreia do Brasil na Copa do Catar, algo mudou radicalmente nas últimas semanas.

Já em seus comícios durante a campanha, a esquerda resgatou os símbolos nacionais que haviam sido apropriados pelos seguidores de Bolsonaro. O Hino Nacional passou a ser tocado nos eventos da oposição, a Bandeira Nacional voltou aos palanques pelas mãos de Lula e camisas amarelas se misturavam às vermelhas do PT, sem medo de ser feliz. 

Na 5ª feira(24), o dia da estreia da seleção nacional no Catar, os sinais estavam trocados. Não se sabe que camiseta Bolsonaro usou para assistir ao jogo contra a Sérvia, de camisa vermelha, porque dessa vez ele não apareceu em público, mas Lula e Janja, na casa deles, e Alckmin e as equipes do governo de transição, em Brasília, estavam todos vestidos com a amarelinha tão celebrada por Zagallo. 

Nos acampamentos golpistas em frente aos quartéis, a torcida de Bolsonaro não quis saber do jogo, vaiou a seleção brasileira e preferiu ficar rezando, com terços nas mãos e a bandeira jogada nas costas, para pedir intervenção militar. 

Para completar, dentro de campo, despontou um novo ídolo da torcida no lugar do bolsonarista Neymar, que saiu de campo machucado, e viu o time melhorar sem ele, com a molecada de Tite a mil por hora.

Tendo à frente um tal de Richarlison, o Pombo, um herói improvável, meio desengonçado, que marcou os dois gols da vitória na sua estreia em Copa do Mundo, o segundo deles, antológico, com um acrobático voleio de meia bicicleta. 

Richarlison é um dos poucos não-bolsonaristas do elenco, que vem ganhando destaque também fora de campo, com suas preocupações sociais e posições políticas firmes em defesa do povo mais pobre, lembrando suas origens no interior do Espírito Santo, numa casa em que dormiam todos no mesmo quarto e chovia mais dentro do que fora. 

De quebra, por se identificar com a maioria da galera canarinha, sem ostentar riqueza e com humildade, ele poderá reconciliar o time da CBF com a torcida, que vinha perdendo a paixão pela amarelinha desde aqueles trágicos 7 a 1 na derrota para a Alemanha, no Mineirão, em 2014. 

Antes disso, qualquer amistoso da seleção fazia o país parar, mas nos últimos tempos foi aumentando o desinteresse pelo time de Tite, que já não lotava estádios
Tal situação pode ser revertida nesta Copa do Catar, em que o Brasil desponta como um dos grandes favoritos ao título. 

Faz 20 anos, desde a conquista do penta, não víamos nossa seleção jogar um futebol ao mesmo tempo tão competitivo e bonito de se ver, com uma penca de jovens e abusados talentos, graças à ousadia do velho técnico, que deixou seu teimoso conservadorismo de lado e resolveu apostar no futuro. 

Como a maioria dos seus colegas, Richarlison jogou pouco tempo no Brasil como profissional antes de ir para a Europa, onde atuam 23 dos 26 atletas do atual elenco. 

Com a interminável crise financeira e de gestão que abala a maioria dos grandes clubes brasileiros, nos últimos anos o Brasil tornou-se um país exportador de pé-de-obra, os jovens talentos indo embora cada vez mais cedo, o que ajudou a romper os vínculos afetivos da seleção com a sua torcida. O mesmo aconteceu em outras áreas da sociedade diante da decadência do país e da falta de oportunidades profissionais. 
A afinidade do Bozo nunca foi com a cor
da bandeira: ele tem é uma forte tendência
a amarelar sempre que convoca golpes
A apropriação indébita dos símbolos nacionais pelo bolsonarismo, por sua vez, levou também a polarização política para os estádios, fazendo da CBF um puxadinho do governo, com um presidente da República que quer plagiar o general Emilio Médici, de tão triste lembrança. 

Como desta vez a eleição veio antes da Copa, com a vitória da oposição, o que já mudou radicalmente o clima no país, não há mais motivos para misturar seleção com o governo de turno. 

A conquista do hexa no Catar pode ajudar a fazer o país confiar novamente no seu taco, e criar um ambiente propício para a reconciliação e reconstrução nacional, com a chegada das festas de fim de ano e as apostas de uma vida renovada, em 2023. 

Ganhando ou perdendo, a amarelinha já voltou a ser de todos nós, seus legítimos donos. 

Estamos virando a página na política e no futebol, com o fim de um ciclo e o começo de outro. 

Até a vitória! 

Vida que segue. (por Ricardo Kotscho)

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

RICHARLISON É O ÍDOLO QUE O BRASILEIRO MERECE APÓS TANTO SOFRIMENTO

R
icharlison é o cara, disse Galvão. Repetiu uma, duas vezes. O elogio do narrador veio firme no primeiro gol do camisa nove da seleção brasileira na estreia do grupo na Copa do Mundo, quinta (24), contra a Sérvia. 

Mas quando Richarlison marcou, de voleio, o segundo, Galvão perdeu até a voz. 

O Twitter também. Colegas de escola ressurgiram da casa do chapéu pra falar dele. Minha mãe ligou. Filha, conta pra sua avó que você foi até a casa da família dele

Mas a reação mais bonita foi a da tia de Richarlison, Audiceia. É o nosso menino, do meio do mato, remelento, brilhando na seleção, gritou ela numa mensagem de voz. Essa pegou. Porque Richarlison –que em casa é Charlinho– é um menino muito bom. 

Ter escarafunchado a vida dele me fez conhecer um cara especial, querido por todo mundo, amado pela tia, pelos primos, pelo pai, pela mãe, pelos vizinhos que não o veem há anos, pelos molequinhos que jogam bola no campinho de futebol da cidade e sequer o conhecem. Richarlison é unânime. 

Ele aparece em Nova Venécia [cidade natal dE Richarlison no ES, com cerca de 50 mil habitantes, distante 80 km da capital Vitória] de vez em quando. Passa pela mesma rua em que morou quando criança e repete o gesto gentil que costumava fazer quando via alguma senhorinha abarrotada de sacolas de supermercado.  
Richarlison com a família durante rápida
passagem por Nova Venécia, 5 anos atrás
Criou um time de futebol na cidade, financiou pesquisas para a vacina contra a covid-19 e usou da própria imagem para incentivar as pessoas a se vacinarem.

Richarlison faz questão de reiterar que, pelo muito que já passou na vida, não pode fechar os olhos quando a coisa pega pra quem é pobre. E geralmente é pra quem é pobre que a coisa pega. 

Ele já foi pobre. Quando morou com a tia Audiceia, numa casa em ruínas que alagava a cada chuva, dormia amontoado com os primos e tios num quarto e vendia picolé pra completar a renda. 

Richarlison é politizado. Se manifestou sobre o apagão que afetou o Amapá, sobre as queimadas no Pantanal, protestou contra a morte de George Floyd; levanta tópicos sobre racismo e cuida de pessoas em situação de vulnerabilidade social. 

Pede comida na mesa do povo e educação de verdade para as crianças que menos têm. Richarlison e suas ações beneficentes ganharam o prêmio Community Champion, da Associação de Jogadores Profissionais da Inglaterra.

É hora de o brasileiro respirar um pouco depois de tanta angústia: uma pandemia que levou mais de 600 mil pessoas, que enclausurou gente em casa e desestabilizou mais um monte, devastou até o ânimo pelo que viria depois. Ainda não era clima de Copa, até Richarlison arrebentar ontem e escancarar que o clima de Copa está dentro da gente. 

Talvez o respiro possa ser no acolhimento de um ídolo que luta com o povo contra o que agride valores e vivências de quem é brasileiro. 

Por que não adotar Richarlison como ídolo da redenção que o Brasil merece? Que, nacionalmente, Richarlison também vire
Charlinho
.
(por Talyta Vespaque é repórter de Esporte
no UOL, após ter passado pelo Portal R7
e pelo site da revista Veja)

QUE SEJA RICHARLISON O POMBO DA PAZ ENTRE OS BRASILEIROS!

O
Brasil da desbozificação já tem seu herói. 

Nada mais simbólico do que a atuação apagada da antiga estrela da seleção, seguida das dores e lágrimas emblemáticas da sua condição de ídolo caído.

Porque Neymar é a cara de uma parte dos brasileiros, aqueles que:
— só pensam em si mesmos;
— estão em guerra permanente para alçarem-se acima dos seus iguais (pois os veem como competidores e não como irmãos!); 
— querem levar vantagem em tudo; 
— são capazes de pactuar com qualquer tinhoso para atingir seus fins, não hesitando em receber grana ou bens em troca dos seus votos, nem em obterem favorecimentos indevidos do Fisco em troca de participar de campanhas eleitorais imundas.

[Uma agravante é quando o cidadão sonega impostos mas torra toneladas de dinheiro em megafestanças exibicionistas. Este pertence à categoria dos brasileiros que se acham maiores do que os demais brasileiros, merecedor de todos os privilégios e de todos os holofotes.] 

Tal divisão precisa acabar, pois, se continuarmos deixando que os poderosos nos induzam a ser os lobos dos outros brasileiros, nos destruiremos todos enquanto tentamos destruí-los.

Ninguém melhor para personificar uma nova etapa da vida nacional do que Richarlison, o futebolista que suou sangue para encontrar um lugar ao sol mas nunca esqueceu de onde veio e quem é. 

Que paga seus impostos sem mendigar favores de genocidas e oferecer-lhes contrapartidas ignóbeis. 

Que não nega contribuições para causas justas, inclusive a salvação de coitadezas que morriam sufocados ante a indiferença e os sarcasmos de quem tinha o dever de assegurar-lhes o mais elementar dos direitos humanos: o direito à vida.

Que pode vir a ser o pombo da paz entre os brasileiros, unindo-os como  uniu na comemoração do mais belo gol da seleção canarinha de muito tempo para cá.
Pois só assim nossa gente conseguirá reconstruir este país reduzido a escombros durante o primado do ódio e da barbárie que perdura desde o primeiro dia de 2019, mas que tem dia certo para terminar, daqui a cinco semanas, na virada do ano. (por Celso Lungaretti)

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

O ILUSTRÍSSIMO DR. DALTON JUSTIFICA, EM JURIDIQUÊS, A DECISÃO DO XANDÃO

A Justiça não é mero muro de lamentações politico-eleitorais na frente de QGs militares.

Quando se judicializa uma reivindicação, a parte promovente há que se acercar da razoabilidade e possibilidade jurídica do que almeja, porque há o princípio da sucumbência processual, ou seja, quem perde deve arcar com o ônus da improcedência do seu pedido.

O pleito do Partido Liberal, no sentido de que fosse anulada parte dos votos do 2º turno, era  tecnicamente esdrúxulo desde o princípio. Motivo: não se pode separar  coisas inseparáveis no pedido. 

Embora quisesse preservar os seus 99 deputados (a maior bancada da Câmara Federal), senadores e governadores eleitos pelas mesmas urnas questionadas, o PL não poderia deixar de aditar  seu pedido e incluir os dois momentos eleitorais em toda plenitude, conforme requerido pelo ministro Alexandre de Moraes . 

Ficou confirmada, portanto, a tentativa de uso indevido do Poder Judiciário para fins políticos, por parte de quem perdeu as eleições. 
 
O ônus da imprudência judicial cabe a quem o praticou. (por Dalton Rosado)
TOQUE DO EDITOR – Nem todos sabem, mas o nosso bom Dalton, embora tenha sido o secretário de Finanças da prefeitura de Fortaleza e escreva principalmente sobre economia, é advogado e até hoje continua, septuagenário, exercendo o ofício. 

Este texto mostra como ele justificou, em puro juridiquês, a decisão de Alexandre de Moraes de rechaçar e punir a mais recente tentativa do Bozo e do Valdemar Costa Neto de melarem a última eleição. (CL) 

SE LULA FOR COMUNISTA, HITLER É DEMOCRATA! – 2

(continuação deste post)
A
s experiências iniciais sob o receituário marxista-leninista em países originalmente rurícolas como a Rússia e a China, optaram por uma acelerada industrialização sob os moldes capitalistas e conseguiram recuperar no tempo o atraso de suas relações sociais, feudais ou semifeudais, em relação ao republicanismo capitalista.

Como esses dois países têm dimensões continentais, foram capazes de suprir internamente as suas carências materiais e avançar na recuperação do atraso das suas relações econômico-industriais com o ocidente capitalista, branco e masculino tecnologicamente desenvolvido socialmente, mas cindido em classes sociais distintas.

No entanto, como o uso do cachimbo entorta a boca, os revolucionários sucumbiram frente aos burocratas do partido comunista que se assenhorearam do poder político.

Deu-se então uma intensificação das relações capitalistas de Estado até a abertura ao capitalismo de mercado mundial. Isto porque o capital é viciante e os que caem nas suas garras, como os jogadores num cassino, ficam ávidos por acumular ganhos que só são garantidos para os banqueiros da jogatina (estes sempre lucram e o conjunto dos apostadores sempre perde, embora um ou outro deles se saia bem, até para que o restante mantenha sua ilusão de que um dia quebrará a banca). 

Como se considerar comunista um país como a China, que oferece ao mundo mercadorias baratas a partir de uma produção empresarial capitalista de extração brutal de mais-valia? Na verdade, o que a China faz é solapar os fundamentos capitalistas atuais adotando a desumanidade extrema de uma fase anterior, a do capitalismo selvagem.

Mao Tsé-Tung provavelmente jamais terá imaginado que sua vitoriosa revolução armada de 1949 contra os nacionalistas de Chiang Kai-shek iria debilitar o capitalismo mundial usando as regras de mercado do próprio capitalismo como fatores desestabilizadores do dito cujo (além de semear a confusão ao intitular-se falaciosamente como comunista).

O que dizer da Rússia, atualmente governada por um ditador plutocrata que, incapaz de vencer a guerra contra o país menor e menos populoso por ele invadido injustificadamente, torna-se um covarde franco atirador de mísseis de longa distância que matam civis a esmo?

A confusão semântica sobre o conteúdo do receituário marxiano de comunismo, identificado nos maus exemplos da Rússia e da China num mundo de economia capitalista globalizada, é largamente fomentada pelos capitalistas em geral.

Capitalismo ocidental é hoje a mesma coisa que capitalismo eurasiano, com diferenças cosméticas apenas no campo da forma política de governo.

Não, senhores, o capitalismo de Estado não é comunista e opera sobre as mesmas bases categoriais do capitalismo de mercado liberal clássico ou keynesiano social-democrata.

Estas três formas de capitalismo representam o oposto ao preconizado no ideário comunista. Este, pelo contrário, seria capaz de promover prosperidade linear, paz e elevação do intelecto humano, ao invés da atual miséria material de fome e pobreza eco/suicida capitalista.

Um provérbio chinês diz que a palavra ensina, o exemplo arrasta; realmente, os exemplos do que seria um caminhar para o comunismo idealizado foram péssimos e deseducativos.

No meu entender, Rússia e China poderiam haver tomado rumos diferentes dos adotados, já que dispunham de trunfos consideráveis, tais como suas dimensões continentais e capacidade de suprimento das próprias necessidades de consumo. 

É possível que isso contrabalançasse sua manutenção sob isolamento econômico por parte das grandes nações capitalistas (que, ademais, enviaram tropas para combater a nascente república soviética e insuflaram/financiaram ações contra-revolucionárias).

No entanto, ao invés de negarem as categorias capitalistas, tais nações estimularam e incentivaram a existência das ditas cujas sob um monopólio estatal de mercado interno que é o pior modelo de concorrência de produção e comercialização. Paulatinamente, ambas acabaram se direcionando para um capitalismo liberal, acolhendo o capital externo e passando a com ele concorrer sob uma mesma lógica.

Ora, para manter as rédeas de um regime de exploração sob o qual os trabalhadores produtores de valor jamais se beneficiaram com a riqueza abstrata por eles produzida, vieram regras de contenção política em nome de um comunismo que jamais existiu e que nega todo o primado de socialização comunista de fraternas relações humanas.

Assim, a propaganda ideológica capitalista passou a rotular como comunistas exemplos históricos que, mais do que semelhantes, são idênticos aos dos opressores: excludentes e exploradores. Ou seja, os mesmos pecados originais do capitalismo liberal ocidental clássico, mas com o defeito adicional de serem politicamente fechados e opressores.

Ao longo da história, as mutações semânticas são frequentes e intencionais. Exemplo disto é a palavra democracia, hoje tida como critério inquestionável de participação popular saudável.

Tal termo, na Grécia antiga, significava uma opção ao poder centralizado num monarca, contrapondo-lhe uma diluição que propiciasse aumento da participação social. Mas tal participação excluía os escravos que existiam em grande número. 

Somente os demos (uma casta de cidadãos privilegiados) podiam ter voz nas audiências públicas de deliberação. Ou seja, a democracia grega não era tão democrática assim.

Do mesmo modo a democracia burguesa moderna, regida pelo poder econômico dominante e dentro das regras preestabelecidas pela ordem jurídico-constitucional capitalista, não representa a livre manifestação consciente do eleitorado manipulado e vigiado (principalmente nas regiões mais afastadas do interior, onde reside a maioria dos eleitores).

Isto não significa que o oposto irrecusável da democracia burguesa seja a ditadura, como pedem os fanáticos seguidores do Boçalnaro, o ignaro. Se a democracia burguesa não passa de uma arapuca de representação popular, a ditadura é a prisão dentro da arapuca.

Como vimos, a repetição exaustiva de um conceito deturpado de comunismo, baseado em exemplos negativos de socialização sob valores comunistas deturpados e descaracterizados, consolidou uma noção de que ser comunista é querer conquistar governos para apropriar-se da riqueza socialmente produzida e agir de modo despótico, mazelas frequentes no capitalismo.

Daí eu utilizar a palavra
emancipacionismo (que não é criação minha, mas da turma da crítica radical social marxiana do valor) como
 ideal de realização da justiça social a partir de critérios de produção social:
— fora da lógica capitalista da forma-valor; 
— sob novos cânones do direito; e 
— sob critérios de organização jurídico-constitucionais de base popular.

A direita derrotada qualifica Lula de comunista, mas é uma pecha tão obtusa quanto seria intitular Hitler de democrata. (por Dalton Rosado)

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

O ANO ACABA MAL TAMBÉM PARA O 3º PATETA DA EXTREMA-DIREITA

Moe, Curly e Larry terminam 2022 em franco declínio, após fracassarem miseravelmente...
rui martins
TRUMP SE ENGANOU
Trump nos enganou ou, o mais provável, foi ele quem se enganou nas previsões sobre as eleições de meio-mandato nos EUA? 

Era tanta sua empáfia, que declarava, por antecipação, seu Partido Republicano como o grande vencedor. A ponto de convencer a própria imprensa e levá-la a se indagar como Joe Biden poderia governar na contracorrente. Uma grande vitória tão anunciada iria comprometer a imagem democrática dos Estados Unidos, comentávamos aqui.

Apesar de sua cara de mandão e autoritário, Trump não passa de um fanfarrão, de um farsante, de um bufão desmascarado no decorrer dos oito dias das demoradas apurações das eleições do 8 de novembro. Não houve nenhum tsunami republicano
...nas suas apatetadas tentativas de protagonizar dramas históricos!  
Ninguém melhor do que ele corporifica a expressão ter o rei dentro da barriga. Desta vez, contudo, há outra joia da sabedoria popular que se aplica perfeitamente ao Trump: Não se deve contar com o ovo na barriga da galinha.

Depois de tanta pretensão, tanto alarde e tantos arrotos, Trump ganhou, mas foi por pouco. Os republicanos não fizeram maioria no Senado nem conseguiram eleger o governador de Nova York.

Saíram com alguns deputados a mais na Câmara de Representantes, mas falharam em impedir a eleição de duas governadoras e uma deputada lésbicas, mais um vereador transgênero no New Hampshire. Nisso, sem dúvida, o machão Donald Trump foi derrotado, pelo que a associação de defesa dos direitos das pessoas LGBTQI considerou vitórias históricas nos estados do Massachusetts, do Oregon e do Vermont. 

Aliás, é a primeira vez em que foram eleitos candidatos LGBTQI em todos os estados dos EUA.
Sem a tal onda vermelha, o futuro
político de Trump ficou embaçado...
 

Assim, o objetivo de Trump de paralisar a administração de Joe Biden, se relativizou: embora detenha a Câmara de Representantes, as grandes decisões, como nomeação dos juízes da Suprema Corte e dos cargos na alta administração, estão nas mãos do Senado. 

Os republicanos não poderão liberalizar ainda mais a legislação sobre armas e nem modificar a legislação sobre o aborto. Mas vão ter como dissolver a comissão encarregada do inquérito sobre o ataque ao Capitólio, no qual houve morte e feridos, e descartar as acusações a Trump como incitador desse ataque.

Mesmo dentro do Partido Republicano nem tudo é positivo para o bilionário. O provável speaker dos republicanos na Câmara, Kevin McCarthy, que sucederá à democrata Nancy Pelosi, não é um seguidor incondicional de Trump, que até hoje, continua sustentando ter havido fraude na vitória de Baiden à presidência. 

Logo depois das eleições nas quais Trump foi derrotado, Kevin aderiu à narrativa trumpista sobre fraude, porém reviu sua posição algumas semanas depois, diante do ataque de trumpistas ao Capitólio.

Chegou até a reconhecer que houve responsabilidade de Trump nas agressões cometidas. Tal posicionamento crítico poderá impedir Kevin McCarthy de se tornar o speaker da Câmara. Porém…

Porém Trump, que se já se declarou candidato à presidência em 2024, não detém mais a condição de líder absoluto dos republicanos. Além das críticas de McCarthy, existem as de seu ex-vice-presidente Mike Pence no livro So help me God

E surgiu mesmo um concorrente à candidatura de Trump dentro do próprio Partido Republicano: trata-se do reeleito governador da Flórida, Ron DeSantis, considerado já um líder pela direita dura no partido.
DeSanctis morderá a mão que o alimentou?
DeSantis é o espinho na garganta de Trump, um ex-protegido que agora quer tomar sua dianteira (como se o governador eleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas, se tornasse candidato em 2026 contra Bolsonaro). 

Irritado, num encontro com jornalistas Trump ameaçou dizer coisas nada lisonjeiras sobre seu outrora pupilo, embora afirmasse não saber muita coisa a respeito dele, exceto ser sua esposa quem comandou sua campanha eleitoral

Tal concorrência não significa, no entanto, que haja grandes diferenças entre ambos, pois DeSantis é considerado um clone de Trump – o qual nos interessa mais por ser o modelo seguido por Bolsonaro. Enfim, vale notar que:
— os dois têm intenções golpistas;
— Trump possui diversos processos e poderá até mesmo ser impedido de se candidatar;
— Bolsonaro terá uma profusão de processos tão logo deixe a presidência; e, 
— se Bolsonaro não conseguir dar o golpe anunciado pelo ministro Augusto Nardes, do Tribunal de Contas da União, mas pelo menos se livrar da erisipela na perna e estiver em condições de disputar a próxima eleição presidencial, é certo que terá também diversos DeSantis pela frente. (por Rui Martins)

MUNDIAIS DA FIFA/5 VEZES BRASIL: DA 5ª APOTEOSE AO 5º DOS INFERNOS

Quanto mais alto é o coqueiro...
Q
uis o destino que um mesmo técnico, o Felipão, atingisse o ápice de sua carreira ao comandar a seleção brasileira na conquista do pentacampeonato mundial de futebol em 2002 e personificasse a maior humilhação sofrida até hoje pelo escrete canarinho, pois fracassou miseravelmente quando do chocolate que a Alemanha nos aplicou na Copa de 1914.

Mas, comecemos esta recapitulação um pouco antes, mais precisamente em 1998, quando o Brasil perdeu o Mundial da França por causa da lambança de um enfermeiro, das rixas no seio do elenco e da pusilanimidade do técnico Zagallo.

Não vinha mesmo fazendo campanha brilhante: fora derrotado pela Noruega (1x2) na 1ª fase e necessitara dos pênaltis (4x2) para despachar a Holanda nas semifinais, depois do 1x1 no tempo normal. 

Pior: a liderança do grupo era disputada por Dunga (apoiado pelos veteranos de 1994) e Bebeto (o preferido dos novatos), com direito a uma cabeçada do brucutu no bebê chorão durante a partida contra o Marrocos.

Poucas horas antes da final contra os anfitriões, Ronaldo Fenômeno recebe uma rotineira infiltração de xilocaína para diminuir as dores no seu joelho. Mal aplicada: atingiu uma veia e espalhou-se na corrente sanguínea, fazendo com que, 10 minutos depois, ele entrasse em convulsão.

Zagallo, acertadamente, pretendeu substitui-lo pelo animal Edmundo. Mas, o inacreditável Ricardo Teixeira, presidente da CBF, impôs uma mudança de escalação na enésima hora, em benefício do garoto-propaganda da Nike, que voltava sonado do tratamento de emergência.

Dunga ainda tentou dar força a Zagallo, para que mantivesse a decisão sensata. Mas, Bebeto usou sua influência no sentido oposto, favorecendo a aceitação do ultimato de Teixeira.
...maior é o tombo do coco, afinal!

Inexistindo unanimidade no grupo, Zagallo ficou com as mãos livres... para submeter-se ao cartola-mor, como sempre.

Os jogadores levaram para o campo os rancores do vestiário, fazendo exibição das mais apáticas no 1º tempo. Era tudo de que Zidaine precisava para praticamente liquidar o Brasil com os dois gols que marcou.

Quando acordaram, já era tarde. A França resistiu à pressão brasileira, fez outro tento em contra-ataque e poderia ter indo além. A goleada por 0x3 saiu barata.

A frustração por haver deixado escapar uma Copa tida como ganha ainda se fazia sentir nas eliminatórias para o Mundial seguinte.

Em suas 18 partidas o Brasil foi dirigido por nada menos do que quatro técnicos: Luxemburgo, Candinho, Leão e Felipão. 

Acabou por garantir sua vaga apenas na última rodada, ficando 13 pontos atrás da Argentina e só três à frente do Uruguai (repescagem) e da Colômbia (desclassificada).

Luiz Felipe Scolari, técnico de conceitos rústicos e perfil autoritário, era malvisto pela cartolagem, pois não se prostrava diante dela.

Assombrados pelo fantasma da desclassificação, os dirigentes, entretanto, acabaram cedendo à pressão dos torcedores, para quem, depois do fracasso de Luxemburgo, Felipão se tornara unanimidade – como consequência, principalmente, de seu ótimo currículo em mata-matas da Copa Libertadores da América.

Não foi nada além de razoável (três vitórias e três derrotas), mas segurou o rojão num momento crítico, bem de acordo com sua imagem de homem forte.

De quebra indispôs-se com Romário, por suposta ou real má vontade do baixinho para com o escrete. Afastou-o definitivamente, apesar do seu pedido de desculpas público e do lobby de cartolas & imprensa esportiva.

Situação paradoxal: queda de braço entre um técnico que era preferência nacional e um jogador, idem. 
Ronaldos: Kahn bateu roupa e o Fenômeno guardou...
Para dar a volta por cima, Felipão fez uma jogada arriscadíssima, ao contrapor um mito a outro mito: escolheu Ronaldo 
Fenômeno como seu artilheiro, embora viesse em maré de fracassos, contusões graves e longos períodos de convalescença, desde a fatídica final contra a França em 1998.

Com seu carisma e habilidade motivacional, aproveitou as críticas à Seleção para fechar o grupo em torno de si. Era a Família Scolari  lutando contra tudo e contra todos.

E a sorte o bafejou: não só Ronaldo renasceu das cinzas na Copa da Coréia do Sul/Japão, como a Seleção teve a tarefa facilitada por enfrentar as galinhas mortas que pediu a Deus.

Treinou contra a China (4x0), Costa Rica (5x2) e desperdiçou duas vezes a oportunidade de golear a incipiente Turquia, vencendo-a apenas por 2x1 na 1ª fase e 1x0 na semifinal (gol de Ronaldo, em bela arrancada pela meia-esquerda).

Nas oitavas-de-final, a Bélgica chegou a dar algum trabalho a são Marcos (um dos destaques da campanha), mas Rivaldo e Ronaldo resolveram. 2x0.

O único adversário de verdade foi o das quartas-de-final: a Inglaterra de Beckham, Owen e Campbell, que sobrevivera ao grupo da morte na 1ª fase (vencendo a Argentina e empatando com a Suécia e a Nigéria) e vinha de golear a Dinamarca. Não havia favorito.
...já Seaman se adiantou demais e o Gaúcho o encobriu. 

Uma rara falha de Lúcio propiciou gol a Owen, mas o personagem do jogo seria Ronaldinho Gaúcho, que:
— carregando a bola do meio-de-campo até a entrada da área, serviu Rivaldo livre, para este empatar;
— cobrando falta da zona morta (na intermediária, junto à lateral), acertou chute primoroso, encobrindo o goleiro David Seaman, que esperava um cruzamento; e
— foi expulso logo em seguida por causa de uma solada, mas os dez restantes souberam segurar o 2x1.

Depois de fazer a lição de casa contra a Turquia, teve pela frente uma Alemanha que nem sequer cogitava chegar à final: seu objetivo era preparar o time para a Copa seguinte, que iria disputar em casa.

Vitória, com autoridade, do Brasil de Marcos; Cafu, Lúcio, Edmilson, Roque Jr. e Roberto Carlos; Gilberto Silva, Kleberson e Ronaldinho Gaúcho (Juninho Paulista); Rivaldo e Ronaldo (Denilson).

Já criara mais chances no 1º tempo, quando Kleberson acertou o travessão e Oliver Kahn, o melhor goleiro do Mundial, andou fazendo defesas difíceis.
Dever cumprido em 2002. Ninguém imaginava que viria então uma ressaca de 4 Copas 
Decidiu no 2º. A tarefa foi facilitada por uma inusitada falha de Khan, que bateu roupa num chute forte mas defensável de Rivaldo, deixando Ronaldo à vontade para abrir o marcador.

A Alemanha saiu para o jogo e, em rápido contra-ataque pela direita, Kleberson cruzou, Rivaldo deixou passar e Ronaldo colocou no canto: 2x0.

Terminou a campanha com estatísticas invejáveis:
— só vitórias, como em 1970 (quando um campeão jogava seis vezes, e não as atuais sete);
— melhor ataque (18 gols);
— artilheiro (Ronaldo, 8);
— um dos vice-artilheiros (Rivaldo, 5, na companhia do alemão Miroslav Klose);
— uma das melhores defesas (4 gols sofridos, atrás apenas da Alemanha, 3); e
— melhor saldo de gols (14) de um campeão nos 21 Mundiais jogados até hoje (a Alemanha igualou o saldo 14 em 2014, disputando, contudo, duas prorrogações).
O melhor da vitória sobre os ingleses; veja aqui toda a partida    
Sem ser um esquadrão dos sonhos como os de 1958, 1970 e 1982, soube fazer valer a experiência e a qualidade técnica do seu elenco.

Na empolgação da conquista, contudo, os brasileiros valorizaram em demasia um treinador que apenas soubera aproveitar bem o elenco superior que tinha nas mãos. 

Do dia para a noite, o Felipão virou estrela de palestras de liderança para empresários, como se fossem de grande valia lições como a do que se deve fazer quando o concorrente esnoba sua empresa. 

Deveriam eles correr atrás dos rivais para agredi-los (como Scolari instigou Paulo Nunes a fazer numa decisão de Campeonato Paulista, aos gritos de Pega!Pega!Pega!)? 

Como diziam os antigos, quanto mais alto o coqueiro, maior é o tombo. O Felipão aprenderia isto em 2014, ao sofrer a pior goleada de uma seleção brasileira de futebol em 108 anos de existência, com a agravante de o 1x7 diante da Alemanha ter ocorrido numa semifinal de Copa do Mundo disputada no Brasil! (por Celso Lungaretti)
O melhor da final contra os alemães; veja aqui toda a partida

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