domingo, 1 de fevereiro de 2026

"ERA UMA CANÇÃO, UM SÓ CORDÃO E UMA VONTADE DE TOMAR A MÃO DE CADA IRMÃO PELA CIDADE" (Chico Buarque)

Mestre Cartola na Comissão de Frente da Mangueira, em 1977.
"
A Estação Primeira
de Mangueira passa
em ruas largas, passa
por debaixo da avenida
Presidente Vargas"
(Caetano Veloso) 
A origem do carnaval perde-se na poeira dos tempos. 

Há quem tente remontá-la ao culto agrário praticado por povos que existiram 10 mil anos antes de Cristo: homens e mulheres mascarados, com corpos pintados e cobertos de peles ou plumas, saíam em bandos e invadiam as casas, fazendo terríveis algazarras.

Outros autores lembram as festas alegres do paganismo, como a de Ísis e a do Boi Ápis, entre os egípcios; e as bacanais, lupercais e saturnais dos romanos.

Suetônio, historiador da Roma antiga, refere-se às saturnais como desenfreada libertinagem, cínica palhaçada. E diz que, durante esse período todos pareciam enlouquecer. Armavam-se grandes mesas à frente das casas para senhores e escravos comerem à vontade, sem distinções. E os escravos tinham o direito de dizer verdades a seus donos, ridicularizá-los, fazer o que quisessem.

A componente libidinosa do carnaval é inegável em todos os textos antigos. Sabe-se, p. ex., que o termo carnaval deriva do latim carrum novalis, designação de um tipo de carro alegórico da Grécia e Roma antigas. Dezenas de pessoas mascaradas caminhavam a seu lado e ele trazia no bojo mulheres nuas e homens que cantavam canções impudicas.

A Idade Média, com a rígida tutela religiosa sobre a vida social, não poderia trazer acréscimos significativos ao carnaval. Mas, pelo menos, não conseguiu extinguir esses festejos, que continuaram existindo como um contraponto à monótona existência nos feudos.


Contam alguns textos, inclusive, que os padres, depois de pregarem em vão contra o carnaval, acabavam convidando os fiéis a concentrarem as comemorações na praça da igreja, para que tal logradouro não ficasse desvalorizado...

A Renascença viria libertar os europeus da sensação de culpa que a religião procurava insistentemente associar ao prazer e à alegria. Os distantes e etéreos paraísos prometidos nos púlpitos, bem como as dantescas descrições do inferno que esperava os pecadores, tornaram-se insuficientes para afastar o povo da folia. A grande festa pagã renascia em todo o seu esplendor.
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O MEDONHO ENTRUDO PORTUGUÊS Para nós interessa, sobretudo, o carnaval português, conhecido como entrudo. Isto porque, até fins do século 19, o nosso carnaval teria as mesmas características do medonho entrudo português, porco e brutal a que se referiu uma historiadora, assim descrevendo-o:
Pelas ruas de Lisboa, generalizava-se uma verdadeira luta em que as armas eram os ovos de gema, ou suas cascas contendo farinha ou gesso, cartuchos de pó de goma, cabaças de cera com águas de cheiro, tremoços, tubos de vidro ou de cartão para soprar com violência, milho e feijão que se despejam aos alqueires sobre as cabeças dos transeuntes...
A pesquisadora Eneida, em sua História do Carnaval Carioca, relaciona diversos casos para comprovar que, a exemplo do que ocorria na Roma de Suetônio, o carnaval aqui também se constituía no único período em que os escravos desfrutavam de uma certa liberdade

E conclui: Parece que uma das características do carnaval é dar aos escravos de qualquer época o direito de criticar e zombar de seus senhores.

Os limites da democracia, entretanto, sempre foram muito exíguos no Brasil, então houve também medidas caracteristicamente autoritárias. Em 1857, o chefe de polícia do Rio de Janeiro lançou um edital proibindo o jogo do entrudo dentro do município. Qualquer pessoa que o jogar incorrerá na pena de 4$ a 12$ e não tendo com que satisfazer, sofrerá oito dias de cadeia, caso o seu senhor não o mande castigar no calabouço com cem açoites. Ou seja, multa para os brancos proprietários; xilindró e chicotadas para os escravos. A relatividade vem de longe...

A agressividade igualmente se evidencia em todos os textos da época. Sabe-se, p. ex., que o único objeto de divertimento do carnaval brasileiro era o limão de cheiro, uma imitação de laranja, com invólucro de cera e água fétida por dentro.

O pintor e engenheiro Jean-Baptiste Debret, que aqui veio com a Missão Artística Francesa em 1818, ficou estarrecido com a selvageria explícita: Vi jovens negociantes ingleses passearem, com orgulho e arrogância,  acompanhados por um negro vendedor de limões cujo tabuleiro esvaziavam pouco a pouco, jogando os limões às ventas de pessoas que nem sequer conheciam.

Episódios deste tipo o marcaram tanto que um de seus desenhos mais famosos, Cena de Carnaval (ao lado), mostra uma negra atacada na rua por um crioulo de cartola, que lhe esfrega no rosto um bocado de goma, enquanto o outro negro ensopa o primeiro com água de uma longa seringa.

Apenas no final daquele século a agressividade foi se atenuando e as bisnagas passaram a conter, ao invés de água suja, líquidos menos repugnantes, como vinagre, groselha e vinho; idem os limões de cheiro, cujas águas fétidas e até urina foram trocadas por inofensivos perfumes.
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ZÉ PEREIRA! BUM, BUM, BUM! – O personagem mais característico do carnaval brasileiro surgiu em meados do século 19 e logo se tornou uma instituição popular. Trata-se do Zé Pereira, calcado na figura do sapateiro José Nogueira de Azevedo Pereira.

Português de nascimento, ele um dia entretinha-se com outros patrícios, recordando as romarias, estúrdias e estrondos da pátria distante. A saudade era tanta que eles resolveram sair à rua, ao som de zabumbas e tambores alugados às pressas, para fazer uma passeata pela cidade.

Foi um enorme sucesso, logo copiado por dezenas de grupos semelhantes, fazendo com que o Zé Pereira se transformasse num personagem mística, identificado com o próprio carnaval (“E viva o Zé Pereira/ Pois que a ninguém faz mal/ E viva a bebedeira/ Nos dias de carnaval”).

A historiadora Eneida assim avaliou o Zé Pereira:

Foi essencialmente o carnaval do pobre. Tão fácil, no meio da miséria reinante, sair à rua com bumbos e tambores, uma camisa qualquer, uma calça de qualquer espécie e fazer barulho, alegrar com um ritmo efusivo as ruas e os bairros!

Seu desaparecimento, no começo do século passado, é indício de que o carnaval perdia espontaneidade, tornando-se festa opulenta e regulamentada, sem espaço para os improvisos populares.

Mas, a alma do Zé Pereira sobrevive até hoje nos blocos de sujos, que insistem em se formar sem ensaios e mensalidades, para existir num momento e viver intensamente esse momento, na melhor tradição do carnaval.

SAMBA E UMBIGADA  – Até o início do século passado samba e carnaval tiveram trajetórias distintas, que foram convergindo no sentido de uma perfeita complementação. 

O samba remonta à chegada no Brasil de escravos negros, que logo foram introduzindo seus ritmos, danças, cantigas, costumes e crenças. Assim, após o trabalho exaustivo (ou nos raros dias de folga), eles dançavam e batucavam com seus instrumentos rudes, nos terrenos das fazendas, engenhos e canaviais. Alegria sofrida, ritmo de quem esforçava-se por esquecer a tristeza, as privações e os maus tratos.

O batuque tipicamente africano foi caindo em desuso com o desaparecimento dos nativos daquele continente. Uma variação abrasileirada espalhou-se por todo o País, já com a denominação de samba. 

E, na zona rural, o encontro de culturas deu origem a uma derivação pitoresca, os chamados sambas sertanejos, em que homens e mulheres participavam da roda cantando em coro, ao som de instrumentos de percussão e da viola de arame.

Segundo um cronista da época, os dançadores formam roda e, ao compasso de uma viola, move-se o dançador do centro, avança e bate com a barriga de outro da roda, uma pessoa de outro sexo. Não se pode imaginar uma dança mais lasciva do que esta, razão por que tem muitos inimigos, principalmente entre os padres.
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LENÇO NO PESCOÇO – A fase heroica do samba foi a da pernada carioca, diversão a que se entregavam os remanescentes dos inúmeros grupos de capoeiristas existentes no Rio de Janeiro em fins do século 19.

Tratava-se de uma batucada braba, na base da pernada e cabeçada, regada com doses cavalares de cachaça (Samba de negro/ Não se pode frequentá/ Só tem cachaça/ Pra gente se embriagá).

                      
                                        
Os conflitos eram corriqueiros e a presença da polícia, também, dando origem a verdadeiras batalhas campais, em que instrumentos musicais serviam como armas e algumas cabeças acabavam sempre rachadas (Tava num samba/ Lá no Sarguero/ Veio a polícia/ Me jogou no tintureiro”).

O samba era tido como coisa de pretos, malandros e marginais. A posse de qualquer  instrumento de samba bastava como prova de que o indivíduo era vadio e merecia ser preso. E a brutalidade da polícia Era respondida à altura pelos bambas. Mortes ocorriam de lado a lado.

Foi a época do tipo celebrizado por Wilson Batista, com seu andar gingado, chapéu tombado, olhar dormente, fala cheia de gírias, lenço de seda no pescoço (para proteger-se das navalhadas), camisa listrada, calças largas (boca-de-sino) ou balão (bombacha) caídas sobre os sapatos de bico fino com salto carrapeta (mais tarde, tamancos) e, evidentemente, a inseparável navalha.

Os versos do sambista da Lapa o descrevem admiravelmente: Meu chapéu de lado/ Tamanco arrastando/ Lenço no pescoço/ Navalha no bolso/ Eu passo gingando/ Provoco desafio/ Eu tenho orgulho de ser vadio.

Trata-se de uma figura que, como o verdadeiro carnaval, sairia de cena entre as décadas de 1930 e 1940.
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O PINTO E OS ÍNDIOS – O carnaval era uma pedra no sapato dos autoritários de todos os matizes. Os chefes de polícia, desde meados do século 19, lançaram uma interminável série de editais, ora proibindo, ora regulamentando os festejos.
No carnaval carioca de 1888, entre as muitas determinações draconianas, figurava a de que, sem a autorização do Chefe de Polícia, não podem aparecer críticas, principalmente ao Governo.

Episódios anedóticos ocorreram aos montes. Um delegado carioca chamado Alfredo Pinto, p. ex., notabilizou-se pela perseguição aos foliões. Em 1909, tentou proibir as passeatas e o Zé Pereira, sendo obrigado a voltar atrás por causa dos protestos da população e da imprensa.

Furioso, voltou à carga proibindo as fantasias de índio, sob a alegação de que os tacapes poderiam ser utilizados como armas. Os blocos contra-atacaram com refrãos provocativos que difundiram por toda a cidade, tipo Eu vou beber/ Eu vou me embriagar/ Eu vou sair de índio/ Pra polícia me pegar. Em outros, houve até alusões picarescas ao sobrenome do delegado...
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DOMESTICAÇÃO E TURISTIFICAÇÃO – Nem a polícia do terrível Filinto Müller, durante a ditadura getulista, conseguiu pôr fim aos festejos de Momo. De repente, entretanto, o povo perdeu seu carnaval, que virou um próspero negócio para as escolas de samba e foi alçado a item prioritário da promoção do turismo.

Comemorações rigorosamente planejadas substituíram as iniciativas espontâneas do povão. Os foliões se tornaram passivos espectadores dos suntuosos e multicoloridos desfiles. Sambistas passaram a competir encarniçadamente por classificações espúrias.

Enfim, a festa do congraçamento cedeu lugar à disputa calculista. O que a polícia não conseguiu com seus cassetetes, conseguiram os negociantes com seus talões de cheque.


Como explicar essa transição negativa? Dizer que, com a industrialização, fecharam-se os espaços para a desordem remanescente da sociedade rural? Que o carnaval morreu ao se institucionalizar? Que nosso povo já não tem humor nem revolta? Explicações podem ser alinhavadas às dezenas. Mas, nenhuma servirá como consolo.

O certo é que uma genuína explosão de vida se tornou ritual de repetição. E o povo se conformou em não inventar mais seus festejos nem improvisar seus itinerários, recebendo como contrapartida lugares confortáveis nas arquibancadas dos sambódromos e o direito à licenciosidade em salões sufocantes.

Enfim, foi expulso das ruas e não se dispõe mais a lutar mais por elas.
Observação: desde que escrevi este artigo, voltou a haver mais carnaval nas ruas, com os blocos de sujos.  Contudo o velho espírito libertário e transgressor, este não voltou. Continua sendo uma festa consentida, com a diferença de que hoje se consente mais em alguns dias para que todos suportem engolir uma quantidade maior de sapos nos outros dias. (por Celso Lungaretti) 

sábado, 31 de janeiro de 2026

NINGUÉM ESTAVA OLHANDO, ENTÃO OS POLÍTICOS DO BRASIL E OUTROS PAÍSES TOSQUIARAM OS CONTRIBUINTES.

Ken Griffin discorreu sobre os riscos que o Brasil corre

Um assunto frequente nos artigos do Dalton Rosado é o de que o capitalismo agoniza, cada vez se aproximando mais  de um novo crash como o de 1929, que causou uma década de crise aguda nas principais economias do mundo, começando pela estadunidense .

É a mesma avaliação do Alexandre Borges em seu artigo deste sábado (31) na Folha de S. Paulo, no qual sustenta que a disparada da dívida pública é uma bomba relógio da qual ninguém fala, prestes a explodir nos EUA, França, Reino Unido, Japão e Brasil. 

Como se trata de um texto muito longo para as características deste blog, vou reproduzir apenas os trechos  de maior interesse para nós, brasileiros. (CL)

Em Davos, Ken Griffin, fundador e CEO da Citadel, levou o debate para um ponto pouco frequente no Fórum Econômico Mundial: a deterioração fiscal das grandes economias e o retorno da pressão dos mercados de dívida sobre governos. assunto árido, mas que representa um risco sistêmico, o mais urgente de todos.

Os dados mostram uma deterioração fiscal disseminada nas principais economias mundiais. Segundo o Fundo Monetário Internacional, o déficit fiscal médio das economias avançadas passou de cerca de 3,3% do PIB em 2019 para mais de 5% em 2024...

...Nas (nações) emergentes, o Brasil aparece como um dos casos mais graves. O país encerrou 2024 com déficit nominal próximo de 8% do PIB, um dos maiores do mundo, segundo estimativas de bancos e organismos multilaterais. 

Em 2025, as projeções apontam déficit entre 8% e 8,6% do PIB, superado apenas por poucas nações em situação fiscal extrema. A dívida bruta brasileira saiu de 71,7% do PIB em 2022 para cerca de 79% no fim de 2025, segundo o Banco Central. 

Para efeito de comparação, a média da dívida dos emergentes passa dos 60% do PIB, e a de países com classificação de risco semelhante ao do Brasil fica abaixo de 55%.

O histórico recente do país reforça o alerta. Entre 2012 e 2015, o resultado primário do governo saiu de superávit de 2,4% do PIB para déficit de 1,9%. O déficit nominal ultrapassou 10% do PIB. A dívida bruta saltou de 51,5% para 66,5% do PIB. 

No mesmo período, a inflação atingiu 10,7%, o desemprego subiu de 6,5% para mais de 11% e o PIB acumulou retração próxima de 7% em dois anos. O país perdeu o grau de investimento...

...Num mundo em que todas as discussões racionais e relevantes foram eclipsadas por pautas elitistas, alienadas, emotivas ou identitárias, a política percebeu que ninguém estava olhando e meteu a mão no cofre do contribuinte. Os efeitos estão apenas começando, e os riscos não poderiam ser maiores. (Alexandre Borges é jornalista e analista político) 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O GRANDE IRMÃO TINHA UMA POLÍCIA DO PENSAMENTO; JÁ O GRANDE FANFARRÃO O CONTROLA COM RECURSOS CIBERNÉTICOS.

rui martins
GROKIPEDIA CONTRA WIKIPEDIA
O
alerta foi dado pelo governador democrata da Califórnia, Gavin Newsom, ao denunciar o TikTok, versão estadunidense, de praticar censura em favor de Donald Trump. 

Newsom recebeu denúncias de usuários do TikTok com dificuldades para postar vídeos sobre a morte do enfermeiro Alex Pretti pela polícia anti-imigração ICE.

O jornal suíço Le Temps publicou com destaque uma reportagem sobre acusações de censura e controle do TikTok, num estranho e perigoso conluio do Vale do Silício com a Casa Branca. 
 
1984 orwelliano vem chegando
Além disto, o próprio uso da inteligência artificial poderia ser manipulado politicamente, pois o ChatGPT passou a utilizar nos EUA, como fonte de informação, a enciclopédia Grokipedia, lançada por Elon Musk para concorrer com a Wikipedia.

O risco é o controle da informação pela IA segundo a versão dos seguidores de Trump, dispensando mesmo a necessidade de censura. Não será ainda o controle total previsto por George Orwell, mas um 1984 regional.

Outro perigo é o de uma enciclopédia desse tipo inventar e impor uma outra narrativa histórica, segundo a visão ideológica de Elon Musk.

Inicialmente serão os conservadores e fundamentalistas eleitores de Trump os utilizadores dessa enciclopédia, mas rapidamente suas interpretações serão difundidas em outros países (como o Brasil), e nas nações com movimentos ultradireitistas influentes e em expansão. 

Já existem mesmo previsões de um fim para a neutra Wikipedia, não se podendo excluir a potência financeira e tecnológica do grupo chefiado por Elon Musk. Os efeitos desses meios de doutrinação e controle se farão sentir nas novas gerações, a longo prazo. 

Estes autoritários são farinha do mesmo saco 
Trump, Musk e a extrema-direita fundamentalista, que deles já dispõem, poderão testá-los na preparação das eleições de novembro nos EUA.

Se já nas eleições brasileiras de 2918 as redes sociais da ultradireita despejavam fake news aos montes, pode-se imaginar o impacto do uso da IA nas de 2026. 

Vale lembrar que a propagação de mentiras e falsificações de notícias terão  o total apoio dos EUA, cujo presidente fanfarrão quer porque quer controlar os países sul-americanos. (por Rui Martins)

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

SANTA CATARINA LAVA MAIS BRANCO... O CÉREBRO DOS SEUS ESTUDANTES!

Sabem a massa fecal, aquela que, quanto mais mexemos nela, mais fede? É o que acontece com a tentativa catarinense de extirpar várias modalidades de ações afirmativas do ensino estadual.

Tentando explicar o inexplicável e inaceitável, o governo de SC saiu-se com esta pérola: a norma seria constitucional por levar em conta as singularidades demográficas do estado, que tem a maior proporção de população branca do país.

Só não entendo por que Ira Levin, ao escrever Os Meninos do Brasil, colocou a Amazônia como a região brasileira na qual atuavam remanescentes do nazismo. Para algo assim eles escolheriam um estado com acentuada predominância de brancos. 

Adivinhem qual. (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

DEPUTADOS BOLSONARISTAS DE SC QUEREM ACABAR COM AS AÇÕES AFIRMATIVAS NO ESTADO

Santa Catarina, que disputa com o Paraná a vergonhosa posição de Estado brasileiro mais reacionário, quer com uma mera lei estadual anular a vigência em território catarinense das leis federais número 12.711/2012 (que regulamentou o regime de cotas no ensino superior), 12.990/2014 (idem em concursos federais), bem como da Nova Lei de Cotas. 

Esta última, sancionada em junho de 2025, renovou e ampliou as cotas em concursos federais para 30% das vagas, incluindo negros, indígenas e quilombolas.

A Ordem dos Advogados do Brasil entrou nesta 2ª feira com uma ação direta de inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal,  pedindo a imediata suspensão da lei que proibiu a adoção de cotas e outras ações afirmativas em instituições de ensino de SC.

A entidade aponta que tal legislação estadual, aprovada na semana passada, é totalmente inconstitucional, por afrontar princípios da Constituição como a proibição de retrocessos sociais, a autonomia universitária e até o pacto federativo.

Como o governo federal já promulgou leis que instituem o sistema de cotas, incluindo o Estatuto da Igualdade Racial, o governo estadual jamais conseguiria derrubar esses mecanismos. Na verdade, a iniciativa do Legislativo catarinense não passa de uma provocação direitista, sem chance nenhuma de atingir seu objetivo.

Observação: meu prognóstico no último parágrafo foi rapidamente confirmado: nesta terça-feira (27) o Tribunal de Justiça de Santa Catarina suspendeu os efeitos da lei catarinense que proibia a adoção de cotas raciais e voltadas a outras minorias em universidades públicas estaduais ou que recebam verbas públicas em SC. 

A ligeireza com que a iniciativa de deputados bolsonaristas foi liminarmente fulminada por uma ação direta de inconstitucionalidade do Psol não deixa dúvidas quanto ao destino que a proposta terá quando do julgamento do mérito da questão: a lata de lixo. (por Celso Lungaretti)
"...só trago o amargo rumor / que o asfalto rumorejou. / Só trago a foto
da flor / que o beija-flor recusou. / E a terra em canto  minguante, /
 refrão de guerra crescente, / armado eu vim só de amor, camará"

A SOBREVIDA DO CAPITALISMO PARECE A DOS ZUMBIS DA FICÇÃO: FALTA-LHE VIDA, MAS NÃO SE CONFORMA COM A MORTE.

dalton rosado 
A CONJUNTURA POLÍTICO-ECONÔMICA MUNDIAL 
"As máquinas e robôs da Inteligência Artificial farão mais 
e melhor as coisas que o homem pode fazer...  Vamos
instituir uma renda básica universal para suprir 
a capacidade de consumo" (Elon Musc)
Nos últimos 200 anos, o mundo conviveu com a repetição cíclica de crises do capitalismo e com guerras civis e a busca de hegemonia de países contra países. A conclusão é clara: o capitalismo é genocida.      

Agora, quando a depressão econômica mundial se expressa na queda acentuada da curva de crescimento do PIB mundial simultaneamente ao aumento da dívida privada e pública, numa rota de acelerada de colisão rumo ao colapso, com ele vem a desagregação política de uma ordem criada para servir ao Deus Valor, que se autodestrói pelos próprios fundamentos.

Assim, a disfuncionalidade social da metafísica do capital gera a inconciliável briga por um espólio falido pela via política que é incapaz de compreender e aceitar que a lógica do capital chegou ao fim da linha, com os governos e seus governantes ególatras querendo continuar o féretro de um defunto que insiste em não ser sepultado. 

Há coisa mais ridiculamente narcisista, mas belicamente perigosa, do que a reencarnação do lebensraum nazista pelo TrumPIRATA do Caribe querendo ser dono do mundo? 

Na esteira da megalomania político-econômica de bilionários na política se pode aceitar que eles instituam um voucher de sobrevivência por eles controlado, como propôs Elon Musk?!

Por outro lado, diante da clara decadência do capitalismo estadunidense ora em curso, que se soma à decadência das nações da União Europeia, acirra-se a disputa pela hegemonia capitalista, por parte dos países que se aglutinam como força de produção de mercadorias a partir da junção de multinacionais que se deslocam dos países de origem em busca de mão-de-obra barata.

Trata-se de um endividamento crescente para fazer face à exigência de capital constante (equipamentos, instalações, energia, pesquisa, etc.) e subsídios fiscais. Tal deslocamento da produção de mercadorias se soma ao fenômeno da Inteligência Artificial, ao permitir que máquinas simulem habilidades humanas nos vários campos da vida social.

Com isto o trabalho abstrato se torna cada vez mais prescindível, em maior parte na produção de mercadorias, gerando novos nichos de receita para os países detentores dessa tecnológica microeletrônica/cibernética, mas que, paradoxalmente, implode toda a lógica de produção do valor, ou seja, torna inviável a relação social capitalista pela redução da massa global de valor.

Sem produção de valor nos níveis necessários para a irrigação funcional da mediação pelo dinheiro como valor válido (ou seja, advindo da produção de mercadorias), todo o organismo capitalista morre de inanição.
 
O dinheiro, que deveria ser a expressão monetária do valor, agora é em grande parte dele desconectado: vive sob emissão de moeda sem lastro, oficial mas falsa, gerando inflação. Tal fenômeno ora assola o mundo inteiro.

Sendo ele a mercadoria das mercadorias e a única sem valor de uso intrínseco (não passa de uma abstração meramente numérica no mais alto grau de sua metafisica funcional), o dinheiro, quando desconectado do valor, corresponde ao recurso suicida de uma ordem econômica que roda em falso, como ora ocorre.

É sob esse contexto de depressão capitalista que a guerra comercial perde espaço para a força militar altamente desenvolvida sob um comando político de governos que manipulam a insatisfação popular, inconsciente do que está por trás da perda coletiva da qualidade de vida pela maior parte da população.

O crescimento eleitoral da direita no mundo atual se escuda numa mentira de salvação, tal como cresceu Hitler diante da penúria da Alemanha no final da década de 1920 e ao longo dos anos 30, com a enganosa cantilena nacionalista e racista de retomada alemã do progresso e prosperidade.  

Enquanto isto vivemos o aquecimento global gerado pela emissão na atmosfera dos combustíveis fósseis, com o petróleo ainda disputado a tapa e novas extrações sendo liberadas como fonte de sustentação econômica.    
      
A irracionalidade da permanência do uso dos combustíveis fósseis se prende advém de haver uma enorme gama de atividades econômicas ligadas à produção e comercio dos combustíveis na era do desemprego estrutural, tornando-se uma exigência suicida do sistema produtor de mercadorias; tudo converge a uma fuga para a frente, como se fôssemos uma manada que segue veloz para o precipício.   

Há, portanto, uma cegueira quanto à identificação social da causa dos problemas e, mais ainda, da solução dele.

A causa fundamental dos problemas sociais reside no sistema produtor de mercadorias que entrou numa espiral de contradições que revelam a sua ilogia diante do avanço do saber tecnológico aplicado ao próprio sistema e por ele provocado paradoxalmente; e com ele, a queda da máscara de caráter democrático da política.

Ora, por que não se quer identificar a causa do problema e se intensifica a prática dessa mesma causa como solução?

Por que não se pode produzir bens de consumo e serviços apenas pelo seu valor de uso que satisfaça as necessidades humanas e sociais, superando-se o famigerado valor de troca, substrato oportunista de uma relação social escravista?

Em sua maioria, os economistas (principalmente os burgueses) só apontam saídas ineficazes, ignorando os números macroeconômicos, sem falar que precisam eles mesmos criticar a ciência da qual e na qual são profissionais? 

Tais números estão a demonstrar a correção dos prognósticos de Karl Marx em sua crítica da economia política, na qual demonstrou cientificamente a marcha para o que hoje está a ocorrer.

Nada se faz nesse sentido, justamente porque a negação do valor de troca desnudaria toda a engrenagem da dominação política que está posta a seu serviço.   

As populações empobrecidas do mundo, cuja grande rebelião ora atinge pincipalmente a juventude que chega à idade adulta esbarrando no desemprego estrutural, precisam tomar consciência de que nunca foi tão factível se prover as necessidades de consumo.

Bastaria aliar-se o uso das máquinas ao conhecimento adquirido pela humanidade nos vários campos do saber que promove níveis de produtividade jamais imaginados. Como? Destravando-se da vida social o famigerado critério da viabilidade econômica, que impõe a todo o fazer uma paralisia inaceitável.

Antes de nos armarmos para a guerra, por que não nos desarmarmos para a paz, diferentemente do que propõe o entusiasta digno do Prêmio Nobel da Guerra, sentado na cadeira presidencial dos EUA como se fosse chefe de gang de bullying de escola primária?

Viva Karl Marx e sua crítica da mercadoria, contida no livro O Capital, praticamente um resumo de tudo o que escreveu (por Dalton Rosado)

domingo, 25 de janeiro de 2026

PRESIDENTE SUÍÇO PEGOU O TRUMPINÓQUIO NA MENTIRA

"O maior de todos os farsantes"
UM SHOWMAN MEGALOMANÍACO 
Parecia a estreia de um grande espetáculo. Havia filas para entrar, a sala estava cheia, muita gente ficou de fora. 

No centro do palco, em pé, como um star estadunidense que ao final seria aplaudido em pé pela plateia numa standing ovation, o showman. 

Conhecido como criador de suspense, ele contava lorotas nas quais era sempre o melhor ou o ganhador. 

Era Donald Trump, presidente dos EUA, que havia ameaçado a Dinamarca de empregar a força, caso o país não lhe vendesse um enorme pedaço de gelo, a Groenlândia.

O lugar era o Fórum Econômico de Davos, na Suíça, durante alguns dias o centro da economia ocidental. Trump já esteve por lá outras vezes, mas nunca num clima de tanta expectativa, pois uma parte dos europeus temia uma guerra se houvesse uma invasão da Groenlândia pelos Estados Unidos.

Na metade da sua hora e doze minutos de show, como qualificaram alguns jornalistas suíços, Trump garantiu que não usaria a força para obter seu grande pedaço de gelo, essencial, segundo ele, para garantir a segurança dos EUA. 

E chamou a Dinamarca de ingrata pois se não fossem os Estados Unidos, hoje estaria falando alemão ou japonês, referindo-se à participação do país na libertação da Dinamarca na Segunda Guerra Mundial.

Irreverente, ou mais precisamente mal-educado, Trump procurou ridicularizar o presidente francês Emmanuel Macron e a ex-presidenta do conselho federal suíço Karin Keller-Sutter. Ao contar à sua maneira a conversa telefônica mantida com um e outro, é sempre Trump, o esperto e mais forte, quem sai ganhando.

A Europa voltou a respirar mais tranquila após o encontro do secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte com Trump, no qual Mark Rutte praticamente jurou fidelidade e apoio no caso de uma guerra envolvendo os EUA. Ambos negociaram, depois do discurso do  Trump em Davos, a instalação e utilização de bases militares dos EUA soberanas e autônomas na Groenlândia.

Trump se demonstrou satisfeito com esse acordo pelo qual pode dominar a região ártica. Mas existe um problema, o governo dinamarquês não participou e poderá vetar, em nome da soberania do país. O acordo inclui uma ajuda estadunidense para a exploração dos recursos minerais da ilha de gelo. Será o próximo capítulo.

Com base nesse acordo, o poderoso Trump anulou suas ameaças de um tarifaço suplementar em fevereiro e junho para os europeus.

Sempre cortês e calmo, o atual presidente suíço, Guy Parmelin, Pegou Trump na mentira, ao provar-lhe que não existe um déficit comercial de US$ 41 bilhões favorável à Suíça, como ele dizia, mas sim um superávit de US$ 8,8 bilhões em favor dos Estados Unidos. 

Trump teria se mostrado surpreso e sem a irritação costumeira de quando ele é contraditado. 

Aproveitando o encontro com o presidente suíço, Trump se mostrou curioso quanto ao funcionamento do rodízio presidencial no conselho federal suíço. De acordo com o um jornal suíço, logo perguntou se um presidente suíço poderia exercer duas vezes seu mandato, revelando a intenção de prorrogar o próprio mandato.

Embora no seu discurso megalomaníaco tudo aparentasse ser um sucesso, parece haver uma erosão do apoio a Trump entre os republicanos e por parte de seus eleitores. 

As eleições de meio mandato, em novembro, revelarão se Trump poderá continuar se exibindo como o star do Faça a América Grande de Novo. (por Rui Martins, diretamente da Suíça).

sábado, 24 de janeiro de 2026

DUELO ENTRE BANDIDOS E DISPARATADOS ESTÁ CHEGANDO AO 60º ANIVERSÁRIO

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oi em 1966 que se deu a disputa mais acirrada dos grandes festivais de MPB, entre torcedores da Disparada (que os adversários apelidaram de disparatados) e de A Banda (zoados como bandidos).

Vandré vinha de vitória no 2º Festival da TV Excelsior, com "Porta-Estandarte", além de haver criado uma trilha  musical  superlativa para o filme A Hora e  Vez de Augusto Matraga, de Roberto Santos, na qual se destacavam "Réquiem para Matraga", "Modinha" ("Rosa, Hortência e Margarida") e a vigorosa “Cantiga Brava”.

Tendo pesquisado a obra do Guimarães Rosa para criar a trilha daquele filmaço, isto deve tê-lo influenciado quando compôs a “Disparada”, com letra dele e música do Théo de Barros, merecidamente uma das ganhadoras do 2º Festival da Música Popular Brasileira que a TV Record promoveu em setembro/outubro de 1966.

Épico sertanejo, “Disparada” coroa as pesquisas de Vandré no sentido de definir um idioma musical comum ao Centro-Nordeste e às pessoas egressas dessas regiões que se estabeleceram no chamado  Sul Maravilha, mas ainda traziam as marcas do êxodo para as cidades grandes.

É a saga do peão que, após longo tempo cumprindo tarefas subalternas (“na boiada já fui boi”), ascende a boiadeiro, “por necessidade do dono de uma boiada/ cujo vaqueiro morreu”.  

Contar com uma montaria é uma verdadeira realização para aquele homem simples, mas “o mundo foi rodando, nas patas do meu cavalo”, até que, de repente, ele acorda de sua euforia e se descobre “valente lugar-tenente de dono de gado e gente”.
 
Então recusa a condição de braço-direito do latifundiário, “porque gado a gente marca, tange, ferra, engorda e mata, mas com gente é diferente”. 

A interpretação foi de Jair Rodrigues, a simpatia em pessoa. Não percebia, contudo, que o público explodia em aplausos no trecho "mas, com gente é diferente" como um desabafo contra a ditadura; sua inadequada reação era abrir um largo sorriso ao invés de adotar um tom dramático. 

De resto, chamou a atenção o uso, como instrumento musical, de uma queixada-de-burro, na verdade mais uma atração exótica do que qualquer outra coisa.

“Disparada” dividiu o primeiro lugar com “A Banda”, de Chico Buarque, interpretada pelo autor juntamente com a Nara Leão.

Carioca radicado em São Pulo, Chico em pouco tempo saltou da boêmia universitária para a consagração nacional, apontado como um novo Noel Rosa.

As letras de precoce desencanto faziam a delícia das mocinhas românticas, como também sua timidez e os paparicados olhos verdes.
Suas composições mais características eram do tipo “Meu Refrão”, “Olê Olá” e “A Banda”, com lirismo, tristeza e rimas certinhas.

Vez por outra incursionava no campo das preocupações sociais, mais por influência do ambiente político que frequentava. Caso, p. ex., da “Pedro Pedreiro”.

Fãs menos atentos acabaram identificando-o também com os poemas (de João Cabral de Melo Neto) que Chico musicou para a peça famosa do Tuca, Morte e Vida Severina. Superestimavam-no.

O público teve participação intensa neste festival, praticamente se dividindo no apoio à “Disparada” e “A Banda”. Como se estivessem num estádio de futebol, os torcedores hostilizavam o time adversário, xingando-se uns aos outros.

Por estreita diferença, o júri concedeu o 1º lugar a Chico Buarque que insurgiu-se contra sua vitória! Dela cientificado pelos organizadores antes de ser chamado ao palco para o anúncio da decisão, dignamente se recusou a aceitar o prêmio, por não considerar "A Banda" melhor do que "Disparada". Impasse estabelecido, a saída foi proclamarem ambas como vencedoras.
Outros destaques foram a quinta colocada, “Ensaio Geral”, de Gilberto Gil, por Elis Regina (um erro de cálculo do Gil: pensando que a fase ainda fosse de marchas-ranchos, ele foi na cola do Vandré, inscrevendo uma espécie de Porta-Estandarte 2...).

E a belíssima “Um Dia” ("Eu não estou indo embora, 'tou só preparando a hora de voltar"), merecia muito mais do que o prêmio de melhor letra.  Até hoje, ao ouvi-la, sentimos saudades do simpático Caetano Veloso de antes do endeusamento e da máscara... 

Na definição lapidar de Paulo Francis, o Caetano era então um ser humano vulnerável, sensível, tanto que um dia foi parar na PE do Rio, “mas isto foi em outro país e aquele rapaz morreu”. (por Celso Lungaretti)
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