sábado, 18 de abril de 2026

CHANTAGISTA ASSUMIDO, LULA USARÁ DE NOVO A REJEIÇÃO AO BOLSONARISMO COMO ESPANTALHO ELEITORAL.

A decadência política e pessoal do Lula se traduz nos sucessivos sincericídios que comete, passando recibo daquilo que deveria esconder. Já não chega o Trump como presidente boquirroto e ridículo?

Neste sábado (18), por exemplo, o Lula confirmou o que há muito a verdadeira (mas minoritária) esquerda proclama: tanto quanto o Bozo, ele só se elege graças à polarização política: 
Posso dizer para vocês, companheiros, no meu Brasil nós acabamos de derrotar o extremismo. Nós temos um ex-presidente preso, condenado a 27 anos de cadeia. Nós temos quatro generais de quatro estrelas presos porque tentaram dar um golpe. Mas o extremismo não acabou. Ele continua vivo e vai disputar a eleição outra vez.
Lembram daquele passado no qual a direita não conseguia ganhar eleições e recorria o tempo todo ao anticomunismo? Mais uma vez o PT copia as piores mazelas do inimigo.  Que fim de feira!

Mas, como decaiu tanto? Sendo um mero partido reformista que precisa do apoio da direita para continuar no poder.
Para quem não se lembra, foi apenas após o lançamento do manifesto pró-democracia da elite empresarial, e
ncabeçado pela Fiesp e Febraban, que Lula assumiu a dianteira na última corrida eleitoral.

O documento foi divulgado por meio de anúncios de página inteira nos principais jornais e revistas, além da mídia eletrônica. Seria cômica se não fosse trágica a cara de pau daqueles que em 2022 haviam colocado o Bolsonaro no poder, mas ficaram desapontados com as loucuras da extrema-direita e saíram em busca de um serviçal mais equilibrado e confiável.
 
Ao invés de uma festa cívica, estamos passando por momento de imenso perigo para a normalidade democrática, risco às instituições da República e insinuações de desacato ao resultado das eleições. Tal catilinária não cabia na boca daquela gente sórdida, mas funcionou tão bem em 2022 como havia funcionado em 2018.

Lula hoje não passa do cavalo de Troia infestado de direitistas que vêm destruir as cidadelas populares para escancarar os portões aos exploradores do povo. (por Celso Lungaretti) 

DALTON DECLARA SEU AMOR A FORTALEZA

Era 16 de março de 1970 e eu tinha 19 anos e 10 meses de idade. 

Entrei pela avenida 13 de maio e, no cruzamento com a rua Jaime Benevolo, estava uma casa branca de esquina, bem pintada e cuidada, simples e bela como são as coisas sem ostentação e com grande significado. 

Nela havia uma placa de advogado que atendia na residência.

Eu, como legítimo rapaz latino americano, sem dinheiro no banco e vindo do interior para cursar a Faculdade de Direito, pensei com meus botões: se conseguir como advogado ter uma casa como essa já estará muito bom...

Consegui muito mais do que a minha modesta pretensão podia alcançar.

Mas a minha maior gratidão não reside nas coisas materiais que a cidade me deu, mas sim no acolhimento que se expressa em ter-me tornado em 1982 oficialmente cidadão de Fortaleza por lei municipal e de haver nela construído o bem mais importante de todos: minha família. juntamente com Albeniza, companheira por 51 anos e que era também uma fortaleza
Clique aqui  para ver o vídeo de Vou pra Fortaleza,
composta pelo Dalton e cantada por Graça Santos.

Minha esposa, a Albeniza, foi uma grande companheira por 51 anos. Ela era também uma fortaleza. Juntos geramos três filhos e fomos por eles contemplados com oito netos maraviliosos.

Fortaleza é nome feminino que expressa a força da mulher; é uma cidade-mulher com coração de mãe.

56 anos após, você, como é próprio às mães nordestinas, transformou-se na terceira capital do Brasil (Brasília, como Distrito Federal, não conta) e bairrismo incluso, esse texto é só pra dizer que te amo!  

Poderia acrescentar que você é a melhor cidade do mundo, mas não quero repetir tal obviedade. 

Digo-a apenas nessa música que compus para você e é cantada pela Graça Santos, que nasceu e vive por aqui e empresta a sua voz nessa homenagem: Obrigado! (por Dalton Rosado)

sexta-feira, 17 de abril de 2026

LEGADO DE UM REVOLUCIONÁRIO (PARTE 1)

Nunca superestimei a duração da minha existência, mas um grave atropelamento e duas hospitalizações por problemas cardíacos me alertaram de que estar vivo era um acaso e eu poderia morrer de um momento para outro, às vezes sem sequer perceber. 

Tal consciência me fez ficar bem mais preocupado com o legado que deixaria para os pósteros, pois não tinha certeza de quanto tempo me restava para produzi-lo, nem sabia se teria condições para reproduzir fielmente o que vivenciara lutando pelos ideais revolucionários.

Talvez haja sido mais eficiente em forjar meu legado na ação concreta do que em colocá-lo na tela e no papel como uma espécie de autobiografia precoce (lembrando o livro de Yevgeny Yevtushenko que tanto me impressionou quando eu ainda era um aprendiz nas lutas sociais). Pois é disto que se trata: dar, ainda vivo, uma interpretação final da minha trajetória no bom combate.

Espero que este balanço da minha jornada sirva da inspiração para os que virão depois, já que é remota a perspectiva de ver em vida germinarem as sementes revolucionárias que plantei. 

Tudo começou na virada de 1967 para 1968, quando, depois de uns poucos dias de imersão, junto com outros recrutas, nas obras dos papas do marxismo (bem no estilo do filme A Chinesa, do Godard), decidi dedicar a minha vida à revolução.

Mal acabara de completar 18 anos, portanto poderia estar apenas lançando palavras ao vento. Mas, no meu íntimo, já a considerava uma missão para a vida inteira. 

Colegas no primário e depois 
companheiros de militância
 
Rico em aprendizado, o ano de 1968  daquele grupo de oito secundaristas da zona leste paulistana não diferiu dos de tantos outros companheiros que iam às ruas confrontar a ditadura militar. Aceitávamos todas as missões e nos desincumbíamos delas com o arrojo próprio da idade. 

A coisa começou a mudar de figura com o AI-5, que marcou a transição da ditadura militar para o terrorismo de estado pleno, tornando a militância revolucionária quase kamikaze. Não ignorávamos os riscos que correríamos com a radicalização repressiva e, mesmo assim, os oito líderes  da Frente Estudantil Secundarista na zona leste paulistana optamos por seguir adiante. 

Aí sim se estabeleceu uma diferenciação, pois muito maior foi o número dos passeateiros que se omitiram quando a radicalização ditatorial deu um salto qualitativo com a assinatura do AI-5, preferindo não encarar o combate nas trevas. 

Nosso grupo de jovens (o mais novo com 17 anos e o mais velho com 21) preferiu os perigos bem maiores que passaram a existir para quem estava na linha de frente, descartando a autopreservação pusilânime. As mortes de dois dos nossos, Eremias Delizoicov e Gerson Theodoro de Oliveira, foram um dos preços que pagamos por nosso destemor. A prisão e as torturas  que cinco de nós sofremos, outro. 

Tereza Ângelo foi poupada de ambas, mas mesmo assim se tornou paranoica, imaginando estar sendo perseguida pela repressão mesmo após o fim da ditadura. Não foi por pouca coi: teve seu companheiro e seu irmão assassinados pelos exterminadores do regime.

Mal acabávamos de ser admitidos na Vanguarda Popular Revolucionária, em abril de 1969, fui surpreendido pela surpreendente designação para criar um setor de Inteligência em São Paulo, ou seja, fui alçado de imediato ao segundo escalão da VPR. Acima, só estava o Comando Nacional.

Visto por alguns veteranos como um estranho no ninho, pois não possuía os méritos que eles haviam acumulado em duras batalhas nas fases anteriores (muitos deles vinham na luta desde a vitoriosa resistência à tentativa golpista de 1961), me tratavam, quanto muito, com condescendência.
Gerson morreu baleado na rua


Era, ao que eu saiba, o mais jovem comandante de uma organização revolucionária brasileira nos anos de chumbo, mas isto não me iludia: percebia claramente que a minha participação no congresso de abril/1969 da VPR, embora vistosa, não  promoção tão precoce

Ademais, tinha sido designado para um trabalho pioneiro (não havia comandante de Inteligência nas demais organizações) e sem peso real na correlação interna de forças da VPR, já que eu não comandava militantes, apenas coordenava simpatizantes e aliados.

Os acasos, no entanto, me projetaram muito acima do que eu pudesse imaginar ou, mesmo, quisesse. Começando por ter alugado um apartamento em parceria com outro comandante estadual, José Raimundo da Costa, pelos prosaicos motivos de que a grana estava curta para nós ambos e meu nome real poderia ser usado no contrato de locação, pois ainda não caíra.

A convivência com o Moisés (seu codinome), remanescente das escaramuças da marujada contra a direita golpista no pré-1964. me permitiu tomar rapidamente conhecimento da história da VPR e de suas lutas internas. 

Ele tinha na ponta da língua cada detalhe e eu sede de conhecer o passado da organização. Também me interessavam muito os acontecimentos do período em que a esquerda deixara a épica vitória de 1961 se transformar na derrota sem luta de 1964. 

Graças ao Moisés, fiquei conhecendo a encarniçada disputa de poder interno ao longo de 1968, entre as chamadas tendências militarista massista, a primeira priorizando as ações armadas contra a ditadura e a segunda insistindo na manutenção de vínculos orgânicos com os movimentos de massa.

O acerto de contas acabou ocorrendo no início de 1969, paralelamente à pior crise de segurança até então enfrentada pela VPR, com quedas de alguns de seus quadros mais importantes. 

Houve, em seguida, um congresso na praieira Mongaguá, para colocar a casa em ordem. Foi quando Carlos Lamarca se tornou o líder explícito da organização. E eu, que deveria apenas presenciar as discussões como convidado, acabei tendo o mesmo direito de palavra dos 12 participantes.

O Moisés foi executado na 
Casa da Morte de Petrópolis
O Comando Nacional da VPR passou a ter quatro integrantes incumbidos de preparar o desencadeamento da guerrilha rural e um à ligação com os comandos estaduais. 

A fusão pouco depois com o Comando de Libertação Nacional, uma organização congênere, manteve o mesmo desenho: quatro comandantes incumbidos da luta principal e dois de fazerem o meio de campo com as cidades.

Começamos a divagar sobre a possibilidade de, aproveitando a realização do congresso nacional convocado pela VAR-Palmares para legitimar a união VPR-Colina, colocarmos em xeque a própria fusão, preconizando a retomada da identidade de VPR. Parecia-nos que fora o ingresso dos militantes de origem Colina que impulsionara o fortalecimento da ala massista

Ademais, os comandantes estaduais de São Paulo passamos a ter vários motivos de insatisfação com os dois comandantes nacionais aos quais estávamos subordinados, Antônio Roberto Espinosa e Carlos Franklin da Paixão Araújo. Até que o Moisés e eu chegamos à conclusão de que eles, na prática, agiam para sabotar a luta principal e inchar a organização nas cidades, ressuscitando a derrotada tendência massista

Mas, é quase certo que ambos desistiríamos de dar um passo tão maior do que nossas pernas se uma munição inesperada não houvesse caído do céu. Ao percebermos que circulava internamente, mas sem ser levado a sério, um texto que propunha a melhor resposta aos impasses da esquerda armada naquele momento, eu não vacilei, endossando-o de imediato com um artigo que, sem ser brilhante, cumpriu a função de tornar mais compreensível o que Jamil (Ladislau Dowbor) teorizava.

A coisa então mudou de figura, pois se tratava da concordância estridente de um comandante estadual (o Moisés, mais discreto por natureza, era um comandante paulista que pensava igual, mas só deu a conhecer mais tarde o seu posicionamento).

Eu era, certamente, o mais subestimado de todos, mas o meu patamar hierárquico inspirava respeito. As chamadas 
Teses de Jamil já não podiam ser ignoradas e mantidas desdenhosamente à parte do debate das propostas estratégicas a serem discutidas no Congresso de Teresópolis, tanto que neo-massistas correram a lançar documentos refutando-as agressivamente. A luta interna voltava com força total. 
Com a indispensável ajuda do Moisés, eu coloquei em movimento a roda do destino de uma forma insólita, ainda mais por isto estar provindo de quem tinha tão pouca influência, prestígio e poder dentro da organização. 
E, claro, atraí sobre mim os piores pesadelos imagináveis.

Mas, toda vez que alguém me pergunta se isso valeu a pena, eu respondo que o Brasil seria um país patético se pelo menos uns 3 mil dos seus 9,05 milhões de habitantes de então não houvessem arriscado a vida na luta desigual contra uma ditadura bestial e infame. 

Assim como a Resistência francesa na segunda guerra mundial, não vencemos, mas salvamos a honra do nosso país. (por Celso Lungaretti) 
"O que sou nunca escondi/ Vantagem nunca contei/ Muita luta já perdi/
Muita esperança gastei/ Até medo já senti/ E não foi pouquinho,
não/ Mas fugir, nunca fugi/ Nunca abandonei meu chão"

quinta-feira, 16 de abril de 2026

HÁ 10 ANOS O IMPRESCINDÍVEL DALTON ROSADO COLABORA COM O NOSSO BLOG

Faz uma década Dalton Rosado estreou como colaborador deste blog, já mostrando a que vinha no artigo inicial: A democracia é antidemocrática; a república é anti-republicana (vide aqui).

Eis um trecho que continua sendo, 10 anos depois, uma perfeita síntese de suas posições: 
Democracia e república escondem no seu mais recôndito interior uma verdade que agora vem à tona deixando atônitos seus empedernidos defensores. 
Elas são o sustentáculo de uma ordem social fetichista, injusta na sua essência constitutiva, economicamente segregacionista, sexualmente dissociada, etnicamente racista, humanamente xenófoba, politicamente nacionalista, e que, portanto, são antidemocráticas e anti-republicanas, se quisermos dar aos dois termos um sentido de busca do ideal de justiça.
Já lá se vai mais de mil valiosas contribuições, seja na sua especialidade, a economia política (tendo sido, inclusive, secretário de Finanças da administração popular de Maria Luiza Fontenelle, em Fortaleza), seja como observador das artes e cronista do cotidiano. 

E foi como nosso colaborador que ele lançou seu livro Era Uma Vez o Brasil...  1928/1968, uma ficção baseada em fatos que se desenrolam a partir de referências do cenário político/cultural brasileiro, abrangendo os mais importantes fatos dessas cinco décadas e seus personagens, em conexão com outras regiões brasileiras e com o mundo, destacando, como ele disse,  o surgimento da rica música popular brasileira.

Hoje, seu nome se tornou indissociável deste blog, ajudando-me a concretizar o que sempre foi meu objetivo: transformar esta tribuna num espaço livre para discussões e curtições de internautas pertencentes ao campo da esquerda e de pessoas basicamente alinhadas com os valores civilizados.

Conto com o Dalton por mais uma década anos de inestimáveis contribuições ao blog. Com a esperança de que ele dobre a meta... (CL) 

quarta-feira, 15 de abril de 2026

SÉRIE "AS CINCO COPAS DO MUNDO QUE O BRASIL CONQUISTOU": 1994. ROMÁRIO CONTRA TUDO E CONTRA TODOS.

Após três conquistas que nos encheram de orgulho, veio o tetra cauteloso do técnico Carlos Alberto Parreira, que nos deixou a lembrança de um Romário decisivo e de uma única atuação memorável da seleção: a contra a Holanda na quarta-de-final. Copo meio cheio e meio vazio.

Que diferença entre as duas finais contra a Itália! Se nosso quarto gol em 1970 foi apropriadamente comparado a um orgasmo, a conquista da Copa sem vitória em 1994, após sonolentos 120 minutos de 0x0 e as emoções baratas da loteria dos pênaltis, esteve mais para um coitus interruptus!

Para piorar, tivemos de aguentar o desabafo raivoso do capitão Dunga, como se nosso escrete houvesse ganhado por 5x2, 3x1 ou 4x1, como fazia quando ainda éramos os melhores do planeta bola...

O Brasil chegou à Copa de 1994, nos EUA, com a responsabilidade de reconquistar a hegemonia do futebol mundial, depois de cinco decepções consecutivas.

Primeiro foi a desagradável surpresa de ver a Seleção totalmente superada pelo carrossel holandês em 1974, na Alemanha. Mereceu perder a semifinal para o timaço de Cruyff e Neeskens, por 2x0.

Consolamo-nos com a avaliação de que havia sido a Copa da entressafra. Uma geração de craques chegara ao fim (Pelé, Gerson, Carlos Alberto, Tostão, Clodoaldo), Jairzinho deixara de ser um furacão e Rivellino não conseguiu resolver tudo sozinho.

Foram os defensores que carregaram o Brasil, aos trancos e barrancos, até o 4º lugar, aceitando só quatro gols. Pena que os atacantes fizeram míseros seis, metade dos quais contra o patético Zaire.

Em 1978, na Argentina, Rivellino estava maduro demais e Zico ainda verde. Mas, depois de empates decepcionantes contra a Suécia e a Espanha, a Seleção do técnico Cláudio Coutinho melhorou. Esteve próxima de derrotar os anfitriões (0x0), além de obter quatro vitórias.
Só não foi à final porque o Peru entregou o jogo para a Argentina, deixando-se golear por 6x0 para que ela alcançasse o saldo de gols necessário.

Por haver terminado a campanha invicto, derrotado apenas nos bastidores mafiosos do futebol, o Brasil autoproclamou-se campeão moral.
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A DERROTA MAIS SOFRIDA, EM 1982
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E seria derrotado novamente em 1982, não por armações extracampo, mas pela fatalidade que se abateu sobre a melhor seleção do Mundial da Espanha. Como a Hungria em 1954 e a Holanda de 1974, o Brasil maravilhou o mundo mas foi sobrepujado por um adversário retranqueiro e calculista em dia de sorte.

Com Falcão, Zico e Sócrates compondo um meio-de-campo notável, o Brasil não se abalou com um frangaço de Valdir Peres, vencendo a URSS de virada por 2x1; goleou como quis a Nova Zelândia (4x0) e a Escócia (4x1); e impôs categóricos 3x1 à Argentina de Maradona, a outra favorita ao título.
Capa histórica do JT 
Três falhas da defesa puseram tudo a perder contra a Itália, apesar dos golaços de Sócrates e Falcão.

Os torcedores brasileiros, que desde 1970 não ficavam tão empolgados com a Seleção, respaldaram a renovação, na Copa seguinte, da aposta do técnico Telê Santana no futebol-arte – caso raro após uma campanha malsucedida em termos práticos.

A volta ao México em 1986 não foi, entretanto, auspiciosa. Sócrates e Falcão já tinham passado do auge, Zico andou contundido. Mesmo assim, acumulamos quatro vitórias até a eliminação noutra partida sumamente infeliz, contra o esquadrão francês de Platini.

Com 1x1 no placar, Zico desperdiçou uma penalidade máxima e a partida foi para a prorrogação, equilibrada até o fim. Na decisão por pênaltis (3x4), brilhou a estrela de Bats, que fez defesa elástica no chute de Sócrates e teve a sorte que faltou ao nosso goleiro: uma cobrança brasileira bateu na trave e saiu, uma francesa bateu na trave, nas costas de Carlos e entrou.

Tão decepcionados ficaram os brasileiros com essa derrota do futebol-espetácuLO que nem se deram conta de que o talento acabara saindo vencedor do duelo contra as rígidas esquematizações táticas: a Argentina foi campeã, com Maradona fulgurante como nunca.

Assim, no Mundial da Itália, em 1990, foi numa rígida esquematização 5-3-2 que o técnico Sebastião Lazaroni apostou, para vê-la ruir como castelo de areia num solitário lampejo do já decadente Maradona.

NOVE ATRÁS E DOIS NA FRENTE.
 
Em 1994, o técnico Carlos Alberto Parreira avaliou que o fundamental era interromper a série de fracassos, mesmo que sacrificando a beleza e a ousadia novamente reivindicadas pelos brasileiros. 
Clique aqui e veja o melhor de Brasil 3x2 Holanda
Comparando as estilísticas exibições da 
Era Telê com a perda total na chamada Era Dunga em 1990 (feia retranca, futebol burocrático e desclassificação precoce), os torcedores haviam voltado a preferir a primeira opção.

Parreira ficou no meio termo. Descartou esquemas pretensiosos que engessavam o time, como os de Cláudio Coutinho e Lazaroni; mas evitou expor a Seleção em demasia.

Optou por um futebol pragmático e cauteloso, com defesa sólida e ataque que aproveitasse bem as poucas chances criadas.

Nos seus planos não cabia Romário, o maior atacante brasileiro então em atividade (no Barcelona), mas tido como independente em demasia. Na verdade, Romário tinha consciência de que podia fazer mais pelo time do que qualquer técnico e, pouco dado à diplomacia, trombeteava tal convicção.

Ao final de uma péssima campanha na eliminatória, entretanto, o Brasil não poderia perder do Uruguai no Maracanã, caso contrário se repetiria a tragédia de 1950. Parreira tremeu. E, a contragosto, atendeu ao clamor unânime dos torcedores brasileiros pelo craque Romário.

Aconteceu o previsível: o baixinho exorcizou os fantasmas com dois belos gols e garantiu seu lugar na Copa, contra a vontade de técnico e cartolas.
A dupla funcionou bem nos contra-ataques

Sobre ele e Bebeto recaía a responsabilidade de fazerem os gols, como únicos atacantes avançados. Para servi-los, Mazinho e Zinho, o que não era grande coisa. 

Tecnicamente superior, Raí estava em má fase: começou como titular e acabou na reserva.

Romário abriu caminho para a vitória contra a Rússia, sofrendo, depois, o pênalti que culminou no gol de Raí. 2x0.

Repetiu a dose contra a empolgada mas ingênua seleção de Camarões. Márcio Santos e Bebeto fecharam o placar: 3x0.

E, assinalando o gol de empate, evitou pelo menos uma derrota diante da Suécia: 1x1.

Também foi dele o tento que mandou os suecos para casa, na semifinal. 1x0. Se em 1958 os fizemos de saco de pancadas, em 1994 tivemos de suar sangue para derrotá-los pelo placar mínimo.

Bebeto, por sua vez, despachou os anfitriões, nas oitavas-de-final. A vitória sofrida (outro 1x0!) contra os incipientes estadunidenses dá bem uma ideia de como o futebol brasileiro minguava sob Parreira.

A partida inesquecível da nossa Seleção em 1994 foi a pedreira contra os holandeses, nas quartas-de-final. O Brasil começou melhor o 2º tempo e, em ótima jornada, Romário e Bebeto marcaram. Com 2x0, parecia tudo decidido.

De repente, a sólida defesa brasileira desmanchou no ar, tomando gol até em escanteio alçado para a pequena área.
Assista aqui ao melhor de Brasil 0(3) x Itália (02) 
Jogo empatado e se aproximando da prorrogação, quem salvou a pátria foi o lateral Branco, cavando uma falta na intermediária e a cobrando com um petardo indefensável. 3x2.

Quanto à final contra a Itália – 120 minutos de quase nada –, foi o que se poderia esperar de duas seleções com medo de atacar.

Aliás, a escalação do Brasil já diz tudo: Taffarel; Branco, Aldair, Márcio Santos e Jorginho; Dunga, Mauro Silva, Zinho e Mazinho; Romário e Bebeto.

Deu no que deu, Romário e Bebeto brigando sempre com uns 4 ou 5 italianos, enquanto quem deveria ajudá-los estava pregado lá atrás...

Já na prorrogação, com a Itália caindo de cansaço, Parreira ousou colocar um terceiro atacante, Viola, deixando o Brasil bem mais perto do gol; e os brasileiros, com a nítida sensação de que uma vitória de verdade teria sido possível.

Nos pênaltis deu Brasil, porque a Itália abusou do direito de errar, desperdiçando três deles. Até o craque do time, Baggio, isolou o seu...
Eis, em compacto, a campanha inteira
Pelo Brasil marcaram Romário, Branco e Dunga. Márcio Santos desperdiçou e nossa quinta cobrança foi desnecessária. 0x0 no jogo, 0x0 na prorrogação e 3x2 nos pênaltis.

Os deuses do futebol nos pregaram uma peça, devolvendo pela metade o título que tomaram em 1982: veio a taça, mas não o orgulho de tê-la conquistado com o brilhantismo a que nos havíamos acostumado. 

O fundo do poço, contudo, ainda estava distante. Só chegaríamos a ele 20 anos depois, quando a blitzkrieg alemã nos reduziu a picadinho em pleno Mineirão. Celso Lungaretti)

ACESSE OS POSTS DA SÉRIE "AS CINCO COPAS DO MUNDO
QUE O BRASIL CONQUISTOU" CLICANDO NOS ANOS
1958 - 1962 1970 - 1994 - 2002

terça-feira, 14 de abril de 2026

SERÁ O FIM DO IMPÉRIO ESTADUNIDENSE?

 “Uma civilização inteira morrerá hoje à noite”.
(Donald Trump, flertando com a barbárie)
Estamos presenciando se não o fim, pelo menos o declínio (perigoso, mas benfazejo) de um império. 

O que se viu nos últimos dias, com o presidente Donald Trump a ameaçar abertamente e sem o menor escrúpulo a extinção de uma civilização milenar como a iraniana, num país extenso e populoso (90 milhões de habitantes), bem demonstra o grau de retrocesso civilizatório causado por uma forma de relação social que se exaure pelos seus próprios fundamentos. 

Os Estados Unidos, país abençoado por recursos naturais existentes em grande extensão territorial, desde a sua ocupação por imigrantes europeus (como, de resto, ocorreu em todos os outros países das Américas), deu um mau exemplo aos autóctones com a implantação de uma civilização de rapinagem trazida por governos que escravizavam os servos do feudalismo. Estes apenas se submeteram como colonos à velha ordem institucional escravista europeia. 

A grande maioria dos colonos, de servos europeus passaram a ser donos de terras, e cedo trouxeram africanos escravizados em substituição aos autóctones que haviam sido dizimados por não se submeterem ao jugo dos invasores e suas culturas escravistas. 

Tratados como semi-humanos, os autóctones acabaram sendo em grande parte dizimados e expulsos das terras nas quais habitavam há milênios e, incorporados à nova ordem, foram sempre tratados com resquícios de racismo desumano. 
A história da humanidade em sua segunda natureza racional se pontua pela irracionalidade, ainda que se queira admitir uma evolução intelectual e científica capaz de prodígios. E Donald Trump é o exemplo mais eloquente de que há algo profundamente primário (e errado) no sentido de obsolescência no nosso modo de ser institucional e econômico.  

Somos, simultanea e coletivamente, vítimas e coautores inconscientes de nossa própria tragédia; mas está mais do que na hora de mudarmos nossa realidade, até porque talvez nunca as condições contextuais tenham sido tão propícias para tanto. 

Vivemos o impasse de fim de linha de uma lógica de relação social contraditória, segregacionista, escravista, socialmente destrutiva e autodestrutiva da forma, posto que a sua própria dinâmica se encarregou de expor a sua irracionalidade.  

Mas, infelizmente, os governos e suas tiranias insistem em manter de pé uma forma de relação social exaurida que clama por superação. Como disse o poeta, caberá à gente exausta a tarefa da emancipação humana, e nós nos juntamentos a esse sobrecarregado contingente humano emancipatório. Aproveitemos as condições materiais e subjetivas que se apresentam para o fazermos! 

Os últimos dias e acontecimentos nos forneceram elementos de análise que devem ser considerados. 

A guerra de escolha promovida pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã, com alta disparidade de forças bélicas (que afinal demonstraram não serem tão díspares assim, posto que Davi sempre encontra meios de retrucar a violência de Golias), demonstrou a dependência econômica que pode ser exposta por fatores da assimetria de efeitos colaterais econômicos mal dimensionados pelos agressores. 

Os Estados Unidos, por terem o maior PIB entre os países mundo afora e emitirem o dólar como moeda internacional, representam o centro nervoso de uma crise de fundamentos econômicos que lhe causa desespero por evidente esgotamento do seu poder de tração. Tal se expressa não só na queda de poder aquisitivo de sua população, mas, principalmente, pelo medo da perda da hegemonia internacional que exerce. É o exemplo mais claro do feitiço virando contra o feiticeiro. 

O fundamento da crise atual do modo de relação social que vem se aperfeiçoando e se ajustando ao longo dos séculos de modo desigual nos diversos cantos do Planeta, reside no fato de que a sua base de sustentação configurada na exploração do trabalho humano pela escravização direta e, posteriormente, pela escravização indireta do salário, perdeu função. 
A guerra concorrencial de mercado promoveu a mecanização da produção de mercadorias e agora no estágio de automação, com a substituição majoritária do trabalho abstrato (assalariado), único capaz de produzir valor econômico e extração de mais valia necessária para dar dinâmica à valorização do valor. É a morte da galinha dos ovos de ouro. 

A crise mundial do capitalismo em rota direta para o colapso se acelera com as guerras e guerrilhas (como no Iêmen), e isso ocorre por três motivos básicos: 
--a redução do fluxo de comércio mundial em face dos riscos de transporte de mercadorias dos navios mercantes (de valor muito maior do que as mercadorias que transportam), onerando custos de seguros dos fretes e de rotas alternativas mais distantes; 
--o petróleo continua sendo o insumo mais usado na produção e transporte de mercadorias e o seu aumento de preço implica o aumento de investimento em capital constante (máquinas, instalações e insumos) na relação com o capital variável (salários), com a consequência de reduzir a porcentagem de geração de mais valia e lucro sob o capital investido, já precarizada; 
--o aumento do já acentuado endividamento privado e público, por força dos investimentos em capital constante, sem que haja correspondente remuneração para pagamento dos juros dessas dívidas, aponta para o crash futuro de todo o sistema bancário que já vem demonstrando fissuras (como na crise do subprime). 

Esse é o leitmotiv da rendição do governo de Donald Trump diante do clamor mundial e perda de prestígio interno do seu governo, que recua sem ver saída para a nova realidade que se apresentou perante um governante bilionário e ególatra, cuja capacidade de percepção da nova realidade  é do tamanho do cérebro dos seus assessores energúmenos e imberbes a dizerem amém às suas sandices.  

O capitalismo é mesmo uma contradição em processo (Marx) e que agora se explicita como metástase num corpo cancerígeno.

Nunca estivemos tão próximos da virada emancipatória da humanidade. (por Dalton Rosado)

segunda-feira, 13 de abril de 2026

TERRA ARRASADA QUEM DEIXOU PRA TRÁS FOI O LEHMAN BROTHERS. AS FRAUDES DO BANCO MASTER NÃO CHEGAM NEM PERTO.

Tudo que você conhecia sobre a decadência do capitalismo e a podridão do mercado financeiro é superado  em O dia antes do fim (Margin Call, dir. J. C. Chandor, 2011). 

Trata-se de um filme que, sem chamar o vilão pelo nome, mostra como o banco de investimentos Lehman Brothers agiu em setembro de 2018, quando, movido pela ganância, maximizou uma crise anunciada a tal ponto que ela quase acabou sendo o estopim de uma nova Grande Depressão (a qual, ao que tudo indica, foi apenas adiada e está cada vez mais próxima).

Não é um documentário, mas sim um drama, focado na reação dos dirigentes e corretores a partir da materialização do seu pior pesadelo. 

Não demora muito para o espectador ficar sabendo que, entre o fim do expediente num dia e o início no outro, a empresa definiu sua linha de atuação e vai preparar-se para levá-la à prática, face à constatação de que o mercado logo saberá que seus títulos são podres  e o colapso é questão de horas.

Depois da má notícia, os corretores recebem a proposta indecente: a companhia espera que eles vendam o máximo  desses papéis antes que a notícia se espalhe.
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Os que aceitarem queimar-se em definitivo na profissão, receberão uma vultosa gratificação para irem mantendo seu alto padrão de vida enquanto se reciclam e buscam novas oportunidades. 

A reação deles é previsível: fazem das tripas coração para salvarem-se do naufrágio. O que mais se poderia esperar dos participantes conscientes daquele esquema de negociatas que lhes rendia rendia comissões e bônus magníficos?

Depois, nos papos entre os mandachuvas, percebemos que estes têm a exata noção do tsunami que suas manobras (ilegais) causarão no mercado, mas não estão nem aí; querem é salvar o máximo de grana que puderem antes da decretação da falência.

A excelência do filme se deve, entre outros méritos, a não pretender dar uma aula sobre subprimes e como se transformaram numa arapuca para os investidores, mas sim confrontar as várias reações das pessoas que, vendo uma fase de sua existência chegar ao fim, agem da pior maneira possível, na linha do f...-se o mundo, eu não me chamo Raimundo(por Celso Lungaretti)
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