terça-feira, 5 de maio de 2026

PIPAS E BALÕES SE TORNARAM LETAIS

U
ma menina de 12 anos, no município de Álvares Machado (interior paulista), teve no domingo passado a péssima ideia de, através da janela, esticar a cabeça para fora do carro. 

Sofreu um corte profundo no pescoço, causado pela linha com cerol  (mistura de cola com vidro moído ou pó de ferro, aplicada em linhas de pipa para cortar outras pipas). Morreu.

No fim do século passado, eu atravessava um viaduto a uns 60 quilômetros por hora e, de repente. o motoqueiro que estava logo à frente parou por completo.

Não dá para explicar qual o motivo de eu ter dado uma freada brusca, cantando os pneus, em vez de ultrapassar a moto pela pista ao lado, como costumava fazer nessas situações.

Fábrica de plásticos incendiada por queda de balão
Ele havia parado porque percebeu uma linha de pipa no seu caminho. Se eu não tivesse conseguido brecar, atiraria a moto para a frente e ele morreria decapitado. Ademais, talvez meu carro se desgovernasse e me causasse um grave acidente.

Eu havia feito matérias sobre funcionários da Duratex cujo hobby era confeccionar pipas e balões. Simpatizei com ambos, pois havia muito de arte em seus passatempos. 

Depois, aprendi que pipas poderiam matar gente e balões incendiar construções (houve inclusive uma fábrica de fotos de artifício que foi pelos ares).

Tudo era menos perigoso na minha meninice. Nosso mundo ficou muito sem graça quando brotaram proibições como cogumelos. Lamentei por minhas filhas, que tiveram de crescer convivendo com  esses terrenos minados. Mas... (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 4 de maio de 2026

LEGADO DE UM REVOLUCIONÁRIO (parte 8)

O Capitão Guimarães virou
bandido. Seguiu sua vocação

Apesar dos espancamentos, o que realmente me abalava nas torturas eram os choques elétricos. Também pudera: desde a juventude eu tinha tal sensibilidade aos choques que, em dias de chuva, os sentia quando fazia uma ligação nos telefones de ferro espalhados pela cidade e quando viajava em ônibus elétrico. 

Pior ainda era quando recebia choques pendurado no pau-de-arara. O sentimento de impotência era detestável. Certa vez um capitão me mostrou um cabo de vassoura e disse que ia me penetrar com ele. Acabou ficando só na ameaça, mas o fato é que, se ele a cumprisse, eu não poderia fazer nada. Estava completamente  indefeso.

A falta de informações também me angustiava. Pensava que o choque passando pelo pênis e escoto poderia me tornar impotente; e quando os fios eram pendurados nas duas orelhas, que talvez ficasse com problemas mentais. Bobagem.    

Meu arrependimento forçado se deu no final de junho, porque a equipe de torturadores da PE da Vila Militar tinha sido privada da tarefa de caçar revolucionários e se ressentia muito da perda de tudo que roubava de nós ao sermos presos e dos generosos prêmios em dinheiro concedidos por empresários ultradireitistas. Parecia o velho Oeste.

Mas a morte do jovem Chael Charles Schreier naquela unidade, que repercutiu pessimamente no Brasil e em vários outros países, levou a repressão a unificar suas forças para evitar novos descontroles. No Rio de Janeiro só a  PE da rua Barão de Mesquita manteve o privilégio, enquanto os torturadores da Vila Militar ficaram chupando o dedo.

Aí o tenente Ailton Joaquim, que comandava os torturadores, teve a má ideia de arrancar informações inéditas  de mim e de outros presos da Inteligência da VPR, desrespeitando as ordens recebidas. Lá deveríamos apenas dar os depoimentos finais para a remessa do inquérito a alguma auditoria militar.

Resultado: o gigantesco Marcio Antônio Povorelli (que pesava 140 quilos e praticava judô), num dia em que era o cabo da guarda, ao invés de me levar para a solitária, após uma sessão de torturas, no meio do caminho me deu um tapa de mão aberta no meio do caminho  estourando o tímpano do meu ouvido direito; e uma aliada do meu setor cortou os pulsos, mas foi socorrida em tempo.
O Presídio Tiradentes, de triste memória.
O tenente Ailton decerto seria punido, então dobrou a aposta: inspirado no arrependimento voluntário de quatro presos políticos do Presídio Tiradentes e no arrependimento televisado do companheiro Massafumi Yoshinaga, exigiu que eu escrevesse uma carta aconselhando os jovens a não morrerem naquela luta perdida. 

Eu a redigi com a aliada recebendo choques e gritando na sala ao lado. Torturadores entravam e saíam o tempo todo, esmurrando-me de passagem.    

Pensei que seria apenas uma besteirinha pouco influente do setor de Guerra Psicológica do Exército, para ser distribuída impressa. Afinal, com as marcas de soco que eu tinha na cara, supunha que não fariam nada presencial comigo. 

Estava errado. Acordaram-me de madrugada dizendo para me vestir porque ia ser fuzilado. No trajeto o capitão Ailton Guimarães Jorge (futuro bicheiro e bingueiro) disse que eu estava sendo levado a uma tevê e teria de repetir fielmente o que constava na minha carta aos jovens, caso contrário nem voltaria para o quartel: seria executado no caminho e jogado embaixo da ponte. 

A TV era a Globo, no Jardim Botânico. E uma competente maquiladora conseguiu fazer desaparecerem quase  que por completo as manchas roxas no rosto. 
Na fase das torturas

Não fiz acordo nenhum com a repressão nem fui libertado logo em seguida, como meus cinco antecessores. 

Fiquei confuso durante alguns meses, mas o hábito da leitura me devolveu a racionalidade: o companheiro Wellington Moreira Diniz, que também estava preso na PE da Vila Militar, passou a ler os livros da biblioteca do quartel para desanuviar, já que era doente cardíaco.

Consegui pegar carona nesse esquema e os dois lemos principalmente a coleção completa do Julio Verne, várias vezes cada volume, pois a alternativa eram os intragáveis livros militares,

Quando minha última prisão preventiva foi finalmente revogada, eu estava tão normal quanto possível, irritadiço como nunca e sem saber o que faria do resto da vida, já que meus melhores sonhos haviam se dissolvido no ar. (por  Celso Lungaretti)

domingo, 3 de maio de 2026

CANARINHO OU CARANGUEJO? O BRASIL NÃO VOA, ANDA CADA VEZ MAIS PARA TRÁS

Na avalanche promocional da Copa do Mundo, os filhos de Goebbels (como os denominava o saudoso Zé Celso) insistem em adotar o canarinho como símbolo do Brasil. Os publicitários estão errados: o bicho mais apropriado é o caranguejo, que anda para trás.

O Fundo Monetário Internacional informa que, entre 1980 e 2025, o PIB per capita global subiu de US$ 3.380,47 para US$ 26.188,94 (aumentou 675%), enquanto o do Brasil cresceu de US$ 4.427,94 para US$ 23.380,98 (aumentou 428%).

Ou seja, o mundo avança e o Brasil não consegue acompanhar seu crescimento econômico. Pelo contrário, estava à frente da média e agora passou para trás da média.

Desses 45 anos, 16 anos e meio tiveram governos do PT, o que serve para provar que, sob o capitalismo, estamos e estaremos sempre condenados ao fracasso.

E que a aposta petista na democracia burguesa, com o consequente abandono das lutas para dar um fim à exploração do homem pelo homem, foram um tremendo tiro no pé. (por Celso Lungaretti

sábado, 2 de maio de 2026

A EXTREMA DIREITA FRANCESA QUER CONTROLAR A EDITORA GRASSET

Quem detém a produção de livros pode controlar o pensamento dos intelectuais e do público melhor informado, tanto quanto a TV e as redes sociais podem controlar o pensamento e o comportamento do povaréu, bem como direcionar suas opções políticas.

Toda imprensa francesa tem noticiado com destaque, nestes dias, a decisão de mais de 300 autores de romperem com a Éditions Grasset, pela qual seus livros eram editados. 

A Grasset vinha sendo, desde a sua criação em 1907, uma prestigiosa editora de literatura francesa e estrangeira, ensaios, romances, ciências humanas, etc.

Agora, importantes jornais franceses preveem até mesmo o risco de a Grasset fechar, pela recusa dos bons autores a lhe entregarem seus originais para publicação.

Nem sempre autores militantes de extrema-direita têm o talento de Louis-Ferdinand Céline, notório militante pró-nazismo durante a ocupação francesa. Portanto, ficaria limitado o acesso da editora aos bons e inovadores originais.

O prestígio da Grasset provinha de sua independência na seleção e publicação de bons originais, sem favorecer este ou aquele conteúdo político.  
O milionário Vincent Bolloré e suas devoções
O responsável pela crise é o milionário Vincent Bolloré, proprietário da Grasset, bem como do Canal+, Europe1, CNews e do Journal du Dimanche, hoje transformados em propagadores de propaganda política.

Diante da proximidade das eleições francesas, com o fim do mandato de Emmanuel Macron, o milionário Bolloré deseja utilizar a penetração do seu aparelho midiático para a eleição do candidato Jordan Bardella, do partido de extrema direita francesa 
Rassemblement National, caso a atual presidenta do partido seja declarada inelegível em julho, pela Justiça francesa.

Sua intervenção na Grasset, da qual é proprietário, consistiu em demitir Olivier Nora, o responsável pela seleção dos originais e pela publicação dos livros Grasset há 26 anos.

Antes de demitir Olivier Nora para intervir na seleção de autores e originais da Grasset, Bolloré já havia provocado manifestações de protesto dos estudantes de jornalismo ao liderar um grupo de investidores na compra da Escola Superior de Jornalismo de Paris. (por Rui Martins)

Todos os bilionários têm simpatia pelo diabo ou só
alguns deles? (clique aqui para assistir ao vídeo)

sexta-feira, 1 de maio de 2026

SENNA, VÍTIMA DA GANÂNCIA CAPITALISTA

Quem é que pára a máquina de fazer dinheiro da Fórmula-1?

O desabafo foi de Roberto Cabrini, jornalista que, cobrindo o circo da F-1, se tornou amigo de Ayrton Senna. 

Em off, Senna revelou a Cabrini que o GP de Imola, no domingo, não deveria ser realizado, pois no sábado um corredor tinha morrido na pista e o óbito fora encoberto. A lei italiana determina que, quando tal ocorre no treino classificatório, a corrida tem de ser imediatamente suspensa.

Prevaleceu a versão de que o austríaco Roland Ratzenberger tinha expirado no hospital e não na pista, mas isto não passava de uma falsidade decorrente da ganância. 

Eis o relato do jornalista:
O Senna chegou para mim e falou: "Não posso dar entrevista, estou muito impactado, mas eu preciso contar para você: o cara morreu na pista, não pode divulgar porque, se isso é comprovado, não tem corrida".
A Itália investigou o sucedido por mais de uma década, mas se restringindo aos aspectos mecânicos. Seis pessoas foram indiciadas e, em 2007, a Suprema Corte italiana considerou Patrick Head, ex-sócio e cofundador da Williams, culpado por omissão de controle no projeto da coluna de direção. No entanto, o crime já prescrevera e ninguém foi preso. 

Neste dia em que se completam 32 anos desde a morte de Senna, vou reproduzir o único texto que eu escrevi sobre automobilismo ao longo da minha carreira.

De resto, naquele funesto primeiro de maio de 1994 não havia essa informação que Roberto Cabrini só divulgaria em 2024. 

Hoje, eu jamais teria escrito que Senna "não fora "assassinado pela incúria dos dirigentes do automobilismo mundial".  

Acredite quem quiser (CL)

RÉQUIEM PARA UM GLADIADOR
São indignas de Senna as lágrimas de crocodilo que jorram aos borbotões da mídia, reduzindo uma morte épica à banalidade das telenovelas. 

Não foi vítima de um destino traiçoeiro nem assassinado pela incúria dos dirigentes do automobilismo mundial. 

O muro que se agigantou à sua frente o perseguia desde os primórdios da carreira: está nos pesadelos de todos os pilotos. Não existe segurança a 300 quilômetros por hora.

O fascínio da Fórmula 1 tem tudo a ver com o instinto de morte, que Freud detectou como sendo um dos componentes essenciais de nossa psique e de nossa cultura.   

O herói do volante desafia o perigo a cada curva e o público junto com ele, numa identificação tão mágica quanto cômoda.   
São os gladiadores do século 20, correndo riscos em nosso lugar, para que tenhamos uma boa catarse (aliás, até seus trajes e os autódromos –principalmente os circulares da Fórmula Indy– lembram o visual das arenas romanas).

Mas, na era da propaganda, tudo isso deve ficar implícito. Galvões e Lucianos se limitam a dissecar pequenos detalhes técnicos que reduziriam ou aumentariam as probabilidades de sobrevivência dos pilotos. 

Já os próprios, em rasgos de sinceridade, admitem que a linha separando acidentes superficiais dos fatais é tão tênue quanto um fio de cabelo.

Muitos poderiam ter morrido nos oito anos em que a F-1 não registrou óbitos, mas aqueles ínfimos milímetros que decidem a sina do acidentado foram favoráveis. Em Ímola, os deuses não estavam complacentes e tudo saiu da pior maneira possível.

Como Christian Fittipaldi ressaltou, descartando uma maior periculosidade em função da retirada do controle de tração e suspensão ativa: Ano passado tinha tudo que vimos aqui mas, graças a Deus, ninguém se machucou. (...) O Berger, no GP de Portugal da última temporada, não se matou por milagre. (...) É relativo dizer que hoje o risco é maior.
Roland Ratzenberger

Eles, os pilotos, sabem. Mesmo assim, entram naquelas estranhas máquinas e, em posições cujo desconforto beira a tortura, percorrem o fio da navalha em velocidades estonteantes, conscientes de que a mínima falha –sua, dos outros ou do equipamento– poderá ser fatal.

Pior: sua condição de ídolos depende não apenas de receberem a bandeirada na frente, mas de guiarem com arrojo e agressividade. Os fãs cobram esta atitude temerária. Ai dos Prosts que pensam antes na autopreservação, colocando a vitória em segundo plano! São tidos como covardes.

Senna era um típico gladiador. Assumia todos os riscos e jamais refugava nas ultrapassagens difíceis, nos duelos insensatos. Os mesmos que denunciam a insegurança de Ímola eram os que aclamavam Senna quando ele realizava brilhantes –
e perigosíssimas– corridas em pista molhada. O muro esteve sempre muito perto dele, até que o alcançou.

Tímido, pouco à vontade no papel de celebridade, jamais aparentando satisfação maior com as coisas simples da vida, Senna atingia a plenitude na arena de suas conquistas e no pódio triunfal. É difícil imaginá-lo aposentado, remoendo o passado e amaldiçoando o presente.

Parafraseando os roqueiros Pete Townshend e Neil Young, talvez no caso de Senna fosse mesmo preferível morrer antes de envelhecer, consumir-se em chamas do que definhar aos poucos. Foi até o fim no rumo que escolheu: gladiador altaneiro, merece respeito e não lamúrias. (por Celso Lungaretti)

quinta-feira, 30 de abril de 2026

CUIDADO COM QUEM TEM O SOBRENOME 'MESSIAS' E ATUA NA POLÍTICA: PODE SER UM FALSO PROFETA OU UM ANJO CAÍDO

A rejeição do Senado ao indicado de Lula para o STF, Jorge Messias, foi um belo tapa na cara dos evangélicos, que forçam a barra para obterem cada vez mais poder.

E também na cara do Lula, que está fazendo um governo inconsistente e quer um quarto mandato por pura satisfação de ego, pois não confronta mais os poderosos como deveria e já abandonou as bandeiras anticapitalistas e libertárias faz muito tempo.

O currículo de Messias é pobre e não o qualifica para o Supremo. O atual episodio faz lembrar o de Dias Toffoli em 2009: é outro que Lula indicou por mera politicagem ou pelos  seus bons préstimos como serviçal do PT. Deu no escândalo que está dando.

Só mesmo a polarização com os Bolsonaros leva a esquerda majoritária a engolir o flerte descarado de Lula com os vendilhões do templo, como se o Brasil não fosse um estado laico, constitucionalmente separado de qualquer religião desde 1891. 

O novo vexame do Lula deveria lhe servir de advertência. Quando a aceitação do Messias pelo Senado se tornou duvidosa, ele poderia simplesmente substituí-lo por alguém não identificado com nenhum partido e possuidor de notório saber jurídico. Sua teimosia tem aumentado cada vez mais no atual mandato.

De resto, parece que os messias se dão muito mal na política brasileira. 

O Jorge só se destacou como o carteiro escolhido por Dilma Rousseff para entregar ao Lula a papelada que o blindaria contra o Mensalão; e como o aspirante ao Supremo que foi feito de gato e sapato pelo Senado. É um falso profeta (aqueles que distorciam os ensinamentos de Cristo para benefício pessoal).

Já o Jair, pior presidente brasileiro de todos os tempos, tentou impor-nos uma ditadura por meio de golpe de estado e foi um desvairado sabotador da vacinação contra a covid. É um anjo caído (os que, liderados por Lúcifer, se rebelaram contra Deus e foram expulsos do céu).

O falso profeta não conseguiu pregar no templo e o anjo caído foi enxotado da vida pública. O destino pune. (por Celso Lungaretti)

LEGADO DE UM REVOLUCIONÁRIO (PARTE 7)

Para deixar bem esclarecido o episódio da queda da área de treinamento ativa da VPR no Vale do Ribeira, precisarei servir-me de informações das quais eu não dispunha naquele momento, mas foram chegando às minhas mãos nas décadas seguintes.

Assim, tendo eu aberto no final da tarde de 16/04 a localização da área abandonada, mas omitindo que ela havia sido desocupada pelo menos um mês antes, os analistas do DOI-Codi suspeitaram de que lhes entregava calhau como ouro e só despacharam uma equipe para investigar. 

Tal equipe  vasculhou, em 17/04, o sítio que nos servira de fachada e, ao voltar no dia seguinte para a capital, apenas comunicou que realmente houvera trabalho guerrilheiro no local, mas dele nada restava. Voltou com as mãos abanando.

A nova prisão de militante, na manhã de 18/04, foi a que justificou o lançamento da Operação Registro, pois forneceu o pacote completo à repressão: a existência de uma segunda área e de alguns aliados da VPR morando naquela região.

Com as novas informações, o DOI-Codi começou a montar o cerco de Registro. Daí tantos oficiais superiores não pertencentes a seus quadros terem sido chamados às pressas para uma reunião em plena tarde de sábado. E, como pensaram em obter mais detalhes por meu intermédio, me conduziram à sala em que uns 50 deles esboçavam seus planos de ação. 

Descuidados, nem se incomodaram em evitar que eu cruzasse no corredor com a pessoa que deveria ser a verdadeira responsável pela entrega da área ativa. [Havia também uma pequena possibilidade de a repressão ter chegado à área 2 por meio dos nossos aliados que prendeu, mas estes, eu soube depois, só foram aprisionados na segunda-feira].

Acabei sendo-lhes inútil por causa da minha pressão ter disparado. Receavam que uma nova morte de jovem, por problemas cardíacos que não deveria ter na sua idade, reavivasse a onda mundial de repúdio por eles sofrida quando da morte do Chael Charles Schreier. E não me escapou que haviam descoberto algo muito importante
Estátua comovente: Zequinha Barreto 
carregando Lamarca em fuga na Bahia
 

No domingo, 19/04, ambos fomos juntos transferidos, de carro, para a sede paulista do DOI-Codi, na rua Tutóia.  E na manhã do dia 20, embarcados num caça da FAB para o palco das ações. 

Aí me caiu a ficha de qual era a peça do quebra-cabeças que ainda estava faltando. Pois, quando Lamarca resolveu abandonar a área 1 e desenvolver a área 2, passou a sair de manhã cedinho com o motorista para ir comandar os preparativos. ´

Voltavam no começo da noite se queixando de estarem com a bunda doendo de tantos quilômetros de rodovia que teriam percorrido sentados.

Era, percebi depois, uma encenação para eu e o Massafumi, que já havíamos decidido não continuar no trabalho de campo, ficarmos supondo que a nova área seria uma região rural em que pipocavam conflitos fundiários na Paraná. Na verdade, a área 2 distava apenas uns 30 quilômetros da área 1.

Mas, moradores iam recolher palmito na mata e poderiam a qualquer momento desconfiar dos novos moradores (nós), além de estarmos demasiadamente próximos da rodovia BR-116. 

Por que abandonarmos a área 1 e transferir o trabalho para outro ponto da mesma região? Porque o Lamarca deve ter concluído que a existência de uma base de 4 ou 5 aliados locais da VPR seria valiosa, começando pelo fato de que assim ele logo saberia se a chegada de um contingente mais numeroso de companheiros a serem treinados levantasse suspeitas entre os moradores. 

Ou seja, tomou uma decisão pouco recomendável em termos de segurança por carecer de apoiadores noutras regiões. Optou por correr maiores riscos onde já estava.

Pior ainda foi ter utilizado os préstimos desses aliados para a aquisição dos dois sítios. Dependendo das suspeitas que a repressão viesse a ter, uma simples ida ao cartório lhe revelaria o endereço de ambos.

Nem sequer foi necessário, contudo. A pessoa presa no sábado já deu ao DOI-Codi todas as informações de que necessitava.
Reportagem da Agência Pública revelou que os militares 
chegaram a bombardear as matas da região com napalm
O relatório de operações do II Exército na Operação Registro, do qual só tomei conhecimento em 2004, historiou com exatidão o ocorrido: eu dera involuntariamente a primeira pista à repressão ao revelar a localização da área 1, mas isto não foi levado a sério até que, com a nova queda de militante dois dias depois, os militares tomaram conhecimento de que havia também uma área 2, a qual continuava ativa.

Tive um vislumbre dessa verdade quando, em algum dia da semana seguinte, fui levado às duas áreas de viatura, provavelmente como um teste para averiguarem se eu sabia mais do que revelava. Passamos primeiramente pela área 1 e demonstrei que a conhecia. Não havia informação nenhuma útil para eles lá, então minha sinceridade não faria mal nenhum.

Depois fomos para uma segunda área, que eu desconhecia, mas logo percebi que era dela que se tratava. A área 2 ser tão próxima era a peça que me faltava para o quebra-cabeças inteiro fazer sentido.

Mas, claro, fingi nada ter percebido e os militares aparentemente acreditaram. Se soubessem quanta informação útil eu obtive deles porque me subestimavam...

Talvez pela gravidade do que eu intui, foi uma ocasião em que perdi um pouco a serenidade. Um capitão enfastiado, quando os demais milicos estavam afastados, tentou convencer-me a tentar a fuga pelo mato, aproveita agora que não tem ninguém olhando!
Paulo Betti como Lamarca, no filme de 1994: era
parecido, mas não tinha a aura de homem sofrido.
  

Respondi de bate-pronto, sem pensar, apontando o meu peito: Se é para me matar, atira logo pela frente. Não vou correr para levar bala nas costas.

O capitão não insistiu, apenas mandou me levarem de volta para o delegacia de Jacupiranga. onde me guardavam precariamente Se fosse mais profissional, perceberia que eu não era o jovenzinho assustado que me esforçava para aparentar. 

O que me tirou do sério? Foi haver percebido que  minha exclusão da lista de troca do embaixador alemão não deveria ter sido engano, mas sim uma providência necessária para que eu servisse de bode expiatório pela queda da área.

E por quê? Certamente porque preservar a pessoa presa no sábado era mais importante para a VPR  do que preservar a minha credibilidade revolucionária. 

Não tinha dúvida nenhuma de que Lamarca estava ciente da minha inocência; afinal, ele mesmo me havia contado que algum(ns) ex-colega(s) de farda o municiava com informações quentes sobre o que acontecia no DOI-Codi. Tanto que ele não mexera uma palha quando fui preso no dia 16, mas correu a levantar acampamento e iniciar sua fuga quando a outra pessoa foi presa no dia 18.

Ter chegado à conclusão de que provavelmente estaria sendo desacreditado pela organização quando me esforçava ao máximo para preservar seus principais quadros foi a gota d'água que extravasou o copo, pois se acrescentou: 
Por 40 anos prevaleceu a versão de que Lamarca morrera
em tiroteio, mas esta foto provou que ele fora executado
— a
o impacto das torturas (bem maior do que eu esperava); 
à profunda decepção que me causara a briga de foice no escuro na qual se constituíra o congresso da VAR-Palmares; e 
— ao remorso que sentia por não haver zelado melhor pelos companheiros cujo ingresso na VPR eu liderara.

Daí a prostração que tomou conta de mim no final de julho. O arrependimento forçado que me impuseram parecia insignificante diante de tudo que eu já havia sofrido. 

E, no fundo, realmente era uma mera armação dos serviços de Guerra Psicológica das Forças Armadas. Quem acreditava naquilo engoliria qualquer coisa. 

Mesmo assim, feria demais o meu amor próprio lembrar-me daquela madrugada de pesadelo na sede da Rede Globo no Jardim Botânico. Quis até acreditar que nada daquilo acontecera, mas, no fundo, sabia que ficara muito aquém da imagem que eu tinha de mim mesmo.

Mas, dos tempos em que devorava os livros de Sartre e Camus, me restou a disposição de nunca buscar consolo fácil. Considerei definitivo aquele péssimo momento e assumi comigo mesmo o compromisso de superá-lo com o que fizesse doravante.

Ao sair da prisão já recobrara a combatividade. A luta armada havia sido inviabilizada por décadas, mas resistir ao capitalismo, ainda que de outra forma, continuava sendo um imperativo para mim.

Quanto ao Lamarca, com o tempo fui compreendendo melhor seus motivos. Apostara tudo na sua visão de guerrilha rural e, quando teve a oportunidade de partir para o tudo ou nada (já estava na selva, armado e conduzindo um grupo de aprendizes de guerrilheiros), percebeu que não tinha como sobreviver ao poder de fogo imensamente superior do Exército, só lhe restando, como opção para salvar a si próprio e a seus comandados, a volta para a cidade.

Num momento tão dramático, ele resolveu sacrificar a minha reputação para tentar salvar o seu sonho: a verdade nua e crua lançaria sérias dúvidas sobre a competência da VPR para ainda lançar sua guerrilha rural.

Ao ficar sabendo, depois de libertado, como tinha sido o final de vida do Lamarca, resolvi não questionar mais a decisão que tomara a meu respeito e quase me destruíra. Afinal, tendo entregado a vida em nome de suas convicções, ele fizera por merecer a minha compreensão.

Aí, em 2007, quando a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça concedeu a seus entes queridos uma pensão equivalente à de um coronel de Exército e as viúvas da ditadura bateram pesado em tal decisão, com o apoio repulsivo da grande imprensa, não suportei ver a omissão de tantos sobreviventes da nossa luta, que tinham o dever moral de defender a Família Lamarca.

Ao ter certeza de que não o fariam, entrei na polêmica,  confrontando Folha de S. PauloO Estado de S. Paulo e a Veja. Eu tinha a obrigação de ser maior do que aquela ralé que o atacava com tanta fúria, como se continuasse temendo o seu  desprendimento e coragem.  (por Celso Lungaretti

quarta-feira, 29 de abril de 2026

SÉRIE "AS CINCO COPAS DO MUNDO QUE O BRASIL CONQUISTOU": FINAL. SEREMOS HEXACAMPEÕES OU HEXAPERDEDORES?

N
o século passado, havia uma acirrada disputa entre continentes pela hegemonia no futebol mundial.

Nas Copas do Mundo, a América (do Sul...) conseguia equilibrar a disputa graças a seus excepcionais valores individuais

Nenhum dos dois continentes era capaz de se colocar dois Mundiais à frente do outro: a alternância prevaleceu no tempo todo.

Já no século 21, não só a Europa atingiu a marca de de três Copas à frente, como teria ficado com uma acachapante vantagem de quatro, se a Argentina não houvesse interrompido sua sequência vitoriosa. Poderia estar 13x9, mas, graças aos hermanosé só 12x10.

Quanto aos Mundiais de clubes, no século 20 permaneciam igualmente equilibrados, mas nos de 2000 para cá a supremacia europeia se tornou avassaladora: 17x4. O último time brasileiro a conquistar o título foi o Corinthians, em 2012.

A Argentina tem a melhor seleção das Américas, mas vai depender como nunca do maior futebolista de todos os tempos, Messi, que terá contra si a idade avançada para um futebolista: vai completar 39 anos durante a Copa. 

Quais são as chances de nosotros no Mundial Fifa de 2026? Bem poucas, quase nenhuma. 

O Brasil tem uma seleção meramente mediana, que só joga bem quando tem espaço para o contra-ataque. Como ninguém lhe concede mais tal espaço, sua atuação desde a chegada do técnico italiano Carlo Ancelotti vem sendo pra lá de decepcionante.

Daria para consertar em tempo? Até daria. Mas não com um treinador ultrapassado, em franca decadência, que nada conquistou na última temporada e que, na Espanha, foi feito quatro vezes de gato e sapato pelo Barcelona, o principal rival do Real Madrid. 

E que, por aqui, é inepto a ponto de colocar Igo Thiago e Endrick à frente de Pedro, na disputa por uma vaga no escrete. Pedro é, disparado, o melhor centroavante do Brasil. 

Chega a ser desconcertante a recusa a Jorge Jesus, que queria treinar os canarinhos, mas foi esnobado! Provavelmente perderemos a Copa por causa dessa escolha infeliz.

Falta ao nosso selecionado, ademais, o maestro do time. Seria o Neymar, se ainda tivesse o futebol como prioridade e não houvesse ficado com canela de vidro

Só o Raphinha poderá, talvez, carregar a seleção nas costas. Nenhum dos demais convocados por Ancelotti está sendo decisivo.

Não formamos mais os Didis, Gersons e Rivaldos porque os clubes brasileiros agora privilegiam como joias os jovens que correm, driblam e fazem gols, não os que ditam o ritmo do time e colocam os companheiros diante do goleiro com assistências precisas e preciosas. 

Isto ocorre porque os ricos clubes europeus continuam nos vendo como inferiores em termos mentais, tal qual no tempo da escravidão. Quem pensa o jogo são eles, e não nós. E os mendicantes clubes daqui querem mesmo é formar os que vão alcançar bons preços lá.

A hipótese mais provável é a de novamente voltarmos para casa com as mãos abanando, logo depois das oitavas-de-final ou das quartas. Esta tem sido a tônica de 2002 para cá.  Queremos ser hexacampeões mas, depois de fazermos triste figura em 2006, 2010, 2014, 2018 e 2022, parecemos fadados a nos tornar hexaperdedores. 

O mais deprimente é que o Brasil se destacava nas décadas de 1950 e 1960 por ter um escrete goleador. Hoje uma semifinal da Champions acaba em 5x4, enquanto boa parte dos duelos entre os times brasileiros mais fortes fica no 1x0. Tornamo-nos retranqueiros e catimbeiros. Só o Flamengo está dando espetáculo.   

Existe, contudo, um fator de imprevisibilidade que pode até nos favorecer: o futebol, neste momento de capitalismo alucinado, virou um do boi só se perde o berro. Os atletas jogam partidas demais e com truculência excessiva. 

A consequência é uma onda assustadora de contusões às vésperas do Mundial. 

Então, a
 ausência de qualquer um dos craques desequilibrantes (Bellingham,  Haaland, Harry Kane, Kvaratskhelia, Lamine Yamal, Mbappé e Messi) pode abrir espaço para algum selecionado azarão surpreender. 

A esperança é a última que morre. (por Celso Lungaretti) 

ACESSE OS POSTS DA SÉRIE "AS CINCO COPAS DO MUNDO
QUE O BRASIL CONQUISTOU" CLICANDO NOS ANOS
1958 - 1962 1970 1994 - 2002 - final
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