segunda-feira, 6 de abril de 2020

CARTA DO RUI MARTINS AO PRIMO QUE O QUER CONVERTER EM EVANGÉLICO

Meu querido primo, 

temos trocado ideias  por WhatsApp sobre a quarentena ou confinamento: se o presidente Bolsonaro tem razão ou não em querer soltar o pessoal nas ruas com o risco de pegarem o coronavírus. Certo?

Nisso você me surpreendeu. E me citou e enviou um versículo da Bíblia, Salmo 91, no qual se lê que não devemos temer nada quando estamos com Deus.

Temer o que? No caso, imagino que seria o coronavírus. E como eu havia citado o presidente Bolsonaro no meio de pessoas em Brasília, a conclusão seria (me corrija se não for): mais forte do que as recomendações da OMS contra o vírus é a proteção de Deus. 

Bolsonaro está com Deus, então nada lhe acontecerá porque tem a proteção divina. E, por tabela, as pessoas tementes a Deus que se aglomeraram com ele naquele domingo não precisam temer o vírus, porque são também protegidas por Deus.

É isso mesmo que você quis me dizer? Tem certeza?
"diabo é o Bolsonaro, disfarçado em anjo de luz!!!"
Tudo bem. A seguir, você me pede para me arrepender dos meus pecados porque ainda há tempo. Que Deus me ama, que devo me converter. Que ele me protegerá do mal e da peste. Imagino, do coronavírus.

Fico imensamente grato por me falar isso, imagino que muitas pessoas estarão recebendo também tal mensagem nas igrejas e nos cultos em presença ou online. 

Se estiverem dentro de uma igreja com 50, 100, 200 fiéis, falando aleluia e cantando hinos, podem ficar tranquilos que não serão contaminados mesmo se o vírus estiver circulando no ar ou quando se derem as mãos. Admiro a sua fé, a ponto de colocar a vida em perigo!

Por volta do ano 1340, não havia ainda os evangélicos, eram os católicos que pregavam o cristianismo na Europa. E, de repente, vinda da Ásia e transmitida por ratos e pulgas, apareceu uma doença estranha, que provocava altas febres, criava gânglios ou inchaços na virilha e provocava a morte. Naquela época, não havia os cuidados de higiene de hoje, nem água encanada, nem se tomava banho de chuveiro e nem as roupas ficavam limpas nas máquinas de lavar.

Diante de tanta gente doente e das mortes que começavam, as igrejas ficavam cheias e, sem ninguém suspeitar do porquê, aumentavam as contaminações. Havia rezas, missas, cânticos, os pecadores se arrependiam, faziam penitências; os padres exorcizavam Satanás. 

Naquela época, não havia vacina, nem remédios, ninguém pensou em isolar a população num confinamento. A situação lembrava muito a agora existente com o coronavírus, mas a doença tinha outro nome: era a peste negra.

"a situação lembrava a agora existente com o coronavírus"
E, como sempre acontece, apareceram os charlatões, os vendedores de indulgências ou perdões para os doentes e para os que temiam ficar doentes. Muitos davam tudo quanto possuíam à Igreja, para se livrar da peste. E a Igreja Católica ficou muito rica, muito poderosa, porque era a única que tinha a chave para levar os homens a Deus.

A peste negra durou uns 40 anos, mas teve recorrências por quatro séculos. Morreram muitas e muitas pessoas, metade da população da época na Europa. A Igreja Católica era tão forte que vendia o céu, o perdão, o paraíso para os pecadores. E havia crédulos, tantos crédulos que aceitavam, acreditavam, rezavam, faziam penitências, pagavam e sentiam-se protegidos.

Foi nesse quadro que surgiu um monge, na Alemanha, revoltado com tanta exploração. Era Martinho Lutero, e com ele veio a Reforma. O mundo começou a mudar. Logo surgiram outros reformadores, como Calvino, e a mensagem principal era a salvação pela fé, sem a exploração dos fiéis pelo clero, pelo Vaticano, pelos padres.

Foi a Reforma que abriu as portas para os fiéis lerem a Bíblia, mas não só a Bíblia, e se libertarem da interpretação tendenciosa da Igreja Católica da época, a pensarem por si próprios. 

Dessa liberdade, que acabou com a chamada Idade Média, surgiu um novo conceito de ser humano e o Estado laico, sem ligação com as diferentes religiões e crenças. E se desenvolveram a literatura, a filosofia e o livre pensamento. 

Dessa separação da igreja surgiu o mundo moderno.
"surgiu um monge [Lutero] revoltado com tanta exploração"
Isso foi forte na Europa, mas nos países distantes essa mudança nem sempre chegou com a mesma força. 

Na América Latina, a educação e a cultura nunca foram para todos. O povo sempre teve apenas um mínimo; no Brasil, a Igreja Católica sempre dominou e fora das capitais a religião sempre se misturou com crendices. A religião convivia com pobreza, ignorância e miséria. E se misturava com as religiões africanas. 

Foi quando surgiu uma novidade: dizendo-se evangélicos, mas sem ter nada a ver com os protestantes já existentes no Brasil, surgiu o Evangelho da Prosperidade, uma maneira diferente de ser cristão. A nova moda exportada e apoiada pelos Estados Unidos pegou e cresceu, e hoje seus fiéis seguidores equivalem a 30% da população – em 2050, serão mais que os católicos.

Diversas variantes existem e algumas garantem a cura divina e também o sucesso econômico. Os pastores não fazem seminário nem curso de teologia, alguns pregam o Evangelho como faziam os vendedores ambulantes de barbatanas para colarinhos na Praça da Sé. E as pessoas acreditam.

É claro que fiquei surpreso com sua mensagem, primo. Simples, direta. Nunca imaginei assim o Evangelho. Essa interpretação literal de alguns versículos da Bíblia me é estranha. Sei que você foi universitário, teve acesso à literatura, deve ter estudado um pouco de filosofia.

Se você pede para eu fazer, deve ter feito. Você se arrependeu e se converteu. Mas, primo, se arrependeu do quê? Tinha tantos pecados assim? Não acredito, sempre foi um jovem de bons princípios. Bom, mas se lhe faz bem, tudo certo. Entretanto, isso me parece pouco diferente das crendices e superstições.

A reunião contaminadora no Haut Rhin: como uma bomba  
E vou lhe contar uma coisa que vi e ouvi agora há pouco na TV francesa. Deus não protege ninguém desse coronavírus. Não seja tolo, nem inocente – a contaminação, na França, veio de uma reunião de 1.500 pessoas numa comunidade evangélica, a Igreja da Porta Cristã Aberta, na região do Haut Rhin. 

Os médicos dizem que foi como uma bomba – os casos de vírus vieram das pessoas que saíram desse culto, igreja lotada, com muita gente já contaminada e contaminando.

Se você quer acreditar em Deus, tudo bem, ninguém é proibido de ter fé. Mas não acredite no Bolsonaro como se fosse um enviado de Deus. Esse sujeito que gosta de armas não merece sua fé,  nem a de ninguém. E também não acredite em tudo quanto dizem os pastores. Você me parece crédulo!

Você precisa acreditar em alguma coisa? Tudo bem. Eu não preciso. Vivo bem sem a figura de um pai celestial ou Deus. Se eu tivesse de me arrepender, como você disse, nem sei do que seria. Não acredito nem em céu, nem em inferno. Nem em Deus, nem no diabo. Diabo é o Bolsonaro, disfarçado em anjo de luz!!!

Não tenho medo da morte, acho coisa normal. Mas acho um crime Bolsonaro menosprezar a vida do povo brasileiro em favor da economia, sem querer proteger as pessoas como se está fazendo na Europa. Se houvesse Deus, juro que Bolsonaro seria punido.

A Bíblia é um belo livro, com belas histórias, mas existem também outros livros para ler. Não se fixe só na Bíblia. E, importante – não pense que seu pastor detém a verdade. Ele é como qualquer um de nós, só que é metido a dizer que está perto de Deus. Como não existe Deus, é um mentiroso que vive da credulidade dos outros.

"esse sujeito que gosta de armas não merece sua fé"
Me desculpe ser franco, mas você é um jovem inteligente, não se deixe enganar. 

Nós, os ateus (toda minha família é ateia), nós vivemos bem, somos felizes, não somos pecadores, somos pessoas leais, corretas e defensoras dos direitos humanos. 

Melhor do que o cristão Bolsonaro, não temos armas e nem queremos tê-las; achamos que são dignos de nosso amor e respeito tanto os negros como os amarelos, os homossexuais e os pobres. 

Para nós, esta vida humana é suficiente, não precisamos ter céu, nem nos ajoelhar diante do que não existe.

Grande abraço, não quero lhe converter, não tenho igreja; só esclarecer.

Seu primo Rui.

SE O BOZO CONTINUAR APOSTANDO QUE NÃO O DERRUBARÃO, UMA HORA ELE PERDE

celso rocha de barros
INDEPENDÊNCIA DE MANDETTA MOSTRA QUE CLIMA NÃO É FAVORÁVEL A BOLSONARO
Passei a última semana com febre, em geral baixa. Nada de assustador, não sei se é Covid-19, talvez não seja, não tem teste para fazer.

Já estou melhor, estou contando isso só para explicar uma história engraçada: no pior dia, fiquei tão doidão de febre que achei que tinha visto Bolsonaro fazendo um pronunciamento moderado e pragmático. Ali eu vi que era hora de tomar um antitérmico e ir dormir.

E, de fato, dois dias depois, o presidente da República dobrou a aposta no crime de responsabilidade. Em um programa de rádio, enquanto Augusto Nunes o massageava, Bolsonaro atacou abertamente seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

Disse que falta humildade ao ministro e que ele pode ser demitido a qualquer momento.

Segundo o Datafolha, Mandetta tem o dobro da aprovação popular de Bolsonaro.

A boa notícia é que a nova ofensiva de Bolsonaro é uma reação desesperada. A estratégia de colocar em quarentena a família Bolsonaro e os olavistas começou a funcionar.

Mandetta reassumiu a postura de independência. Voltou a recomendar enfaticamente que todos fiquem em casa e pediu que a população siga as orientações de seus governadores (isto é, não as da Presidência).

Já é público que o Ministério da Saúde atuará na crise ignorando o que diz o presidente da República, para sorte do Brasil. E se Mandetta sentiu que podia ser independente, é porque o clima em Brasília não é favorável a Bolsonaro.

A quarentena do presidente já era evidente na postura de militares e membros da equipe econômica, que já trabalham mais com o Congresso do que com o Planalto.

Mas foi oficialmente decretada em post no Instagram (pois é) de Rosângela Moro, esposa do ministro da Justiça. Publicado no dia do ataque de Bolsonaro ao ministro, o texto defendia a ciência contra os achismos e concluía: In Mandetta we trust.

Sempre houve a suspeita de que Moro transmite mensagens através da conta da esposa como forma de não se comprometer.

O post foi apagado, mas foi reproduzido em todos os jornais, como a autora e seu marido certamente sabiam que seria. Moro nunca havia esboçado qualquer crítica pública a seu chefe.

Bolsonaro está isolado, mas ainda não caiu. Ainda vem causando grande estrago com seu discurso contra o isolamento.

Ainda articula contra os governadores e costura apoio na facção canalha do empresariado. Sua aprovação é declinante, mas ainda gira em torno de 30%.

Ele ainda tem poder para sabotar Mandetta e os governadores e certamente continuará tentando.

Vale perguntar também o que seria um governo Bolsonaro depois disso tudo, se for permitido ao presidente sair da quarentena.

Ninguém nunca vai esquecer o que ele fez durante a crise nem ele vai esquecer que ministros o isolaram. 
Bolsonaro é excepcionalmente paranoico e vingativo. Que nova radicalização ele tentará se sobreviver à crise? O que os militares pretendem fazer com ele de agora em diante?

O cenário é de um governo que está caindo, mas é sustentado pelos militares e pela própria inconveniência de derrubá-lo durante a pandemia.

O cenário é inédito, e as previsões são arriscadas. Mas se Bolsonaro continuar apostando que nunca será derrubado, uma hora ele perde. (por Celso Rocha de Barros)

domingo, 5 de abril de 2020

TAMBÉM NESTE DOMINGO O LEIGO METIDO A BESTA SABOTOU O COMBATE À PANDEMIA

Mesmo que Jair Bolsonaro esteja sob tutela dos oficiais superiores, tendo aceitado que o general Braga Netto exerça a presidência de facto (foi o que relatou o Luís Nassif), ainda assim continuará dispondo de meios para sabotar o combate ao coronavírus.

Neste fim-de-semana, p. ex., foi um dos convocadores de um dia de jejum, iniciativa asnática de pastores evangélicos que querem ver seus seguidores com a resistência orgânica debilitada bem no momento em que a escalada do contágio deslanchará.

Ademais, postou nas redes sociais dois vídeos com entrevistas de médicos que defendem a utilização da cloroquina no combate à pandemia, embora tal serventia adicional desse medicamento contra a malária não tenha ainda comprovação científica, tanto em termos de eficácia quanto de efeitos colaterais.

Tudo bem que pacientes em estado desesperador assumam tal risco, com o consentimento dos médicos, já que não têm mais nada a perder. Mas o proselitismo destrambelhado do leigo metido a besta poderá provocar uma corrida atrás da suposta droga milagrosa por parte de quem nem sequer necessita dela. 

O negacionista nº 1 da pandemia, dentre todos os governantes do planeta, agora completou seu tripé terapêutico contra a pior ameaça sanitária à humanidade desde a gripe espanhola de 1918: a volta ao trabalho, mais a confiança cega na cloroquina e na graça divina, já que Deus certamente ficará sensibilizado com o jejum dos já famintos...
Quem não obtiver os resultados prometidos, dificilmente lhe fará cobranças, pois vai estar morto.Encerrarei relembrando, em benefício dos desinformados e dos insensatos, um exemplo famoso dos danos que um medicamento não testado ou insuficientemente testado pode causar.

Reproduzo trechos do bom relato (vide íntegra aqui) da revista Saúde (CL):  
"A droga talidomida entrou no mercado alemão em 1957, lançada pela empresa Chemie Grünenthal como um medicamento que podia ser comprado sem receita, com base nas alegações de segurança do fabricante. Usado inicialmente como um tranquilizante para melhorar o sono, logo teve seu uso expandido para gestantes, pois melhorava o enjoo matinal.  
Contergan, a primeira marca do fármaco lançada no mercado, transformou-se rapidamente num dos medicamentos líderes de vendas na Alemanha. 
Mas um jornal alemão veio informar em 1959 que 161 bebês haviam sido afetados adversamente pela talidomida, levando os fabricantes da droga —que haviam ignorado os relatos de defeitos congênitos associados a ela— a finalmente interromper a distribuição na Alemanha e na Inglaterra. 
Outros países seguiram o exemplo e, em março de 1962, o medicamento foi banido na maioria dos países da Europa e América do Norte, onde era comercializada...
...No início da década de 1960, divulgou-se amplamente o tamanho da tragédia: mais de 10 mil crianças afetadas pelo mundo" 

JEJUM É TIRO NO PÉ: ENFRAQUECER O SISTEMA IMUNOLÓGICO DAS PESSOAS SÓ FARÁ AUMENTAR A RAPIDEZ DO CONTÁGIO

"Bolsonaro é coerente.

O presidente que, sistematicamente, desprezou as recomendações da ciência e da medicina para retardar a velocidade da infecção pelo coronavírus, ignorando parâmetros de isolamento social que estão sendo adotados em todo o mundo, convoca a população para ficar sem comer como solução.

A Covid-19 agradece. Afinal, enfraquecer o sistema imunológico das pessoas é tudo de que o vírus precisa para avançar mais rápido"(Leonardo Sakamoto)

ESTARÃO SUBMETENDO O BOZO A UMA "INTERDIÇÃO BRANCA"? ISTO VAI EVITAR QUE ELE CONTINUE DESTRUINDO O PAÍS?

ricardo kotscho
AFINAL, QUEM GOVERNA O BRASIL?
Já havia muitas evidências, mas na última semana uma grande dúvida percorreu as principais colunas de política da imprensa brasileira: se Jair Bolsonaro não governa mais, quem governa o Brasil em meio à pandemia do coronavírus?

O primeiro a fornecer uma resposta foi Luis Nassif, que deu em manchete no seu site: Acordo das Forças Armadas coloca Braga Netto como presidente operacional.

O que é isso? Nunca tinha ouvido falar nessa expressão, mas o colega deu detalhes: 
"Oficialmente, o general de Exército Braga Netto assumiu o comando do governo Bolsonaro em cargo que os meios militares estão chamando de Estado-Maior do Planalto".
Esse Estado-Maior é formado pelos generais palacianos, uma espécie de junta militar informal, que cuida da administração, enquanto o presidente vai para a galera no cercadinho do Alvorada para encontrar devotos da sua seita, brigar com os jornalistas e xingar os governadores. 

Na retaguarda, fica o general da reserva Villas Bôas, o fiador da candidatura de Bolsonaro, que o presidente foi visitar na 2ª feira (30) em sua casa, no Setor Militar Urbano, em busca de apoio e de conselhos.

Pouco depois, Villas Bôas publicou um post no Twitter manifestando seu apoio ao presidente. Numa entrevista ao Estadão, o general revelou que Bolsonaro acha que está todo mundo contra ele, principalmente a mídia, nacional e internacional.

Por que será? A maior prova do esvaziamento do poder de Bolsonaro foi dada na 6ª feira (3) por Thais Oyama, no UOL, ao divulgar a agenda do presidente naquele dia.

Nela havia apenas duas audiências previstas na parte da manhã, com os ministros terraplanistas Ernesto Araújo, de Relações Exteriores, e Abraham Weintraub, da Educação, os dois indicados pelo guru Olavo de Carvalho.

Braga Netto assumiu oficialmente suas novas funções na 2ª feira (30), quando passou a comandar a mesa da entrevista coletiva com ministros encarregados de prestar contas do trabalho do governo no combate à pandemia.
Foi uma forma também de tirar o protagonismo do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, transferindo a coletiva diária para o Palácio do Planalto.

Não adiantou muito porque, na hora das perguntas, a maioria é dirigida a Mandetta, já que os outros não têm muito o que dizer, além de sempre elogiar Bolsonaro, que não participa do ritual.

Nos outros países, quem dá orientações e presta contas diariamente à população são os próprios presidentes ou primeiros-ministros, mas aqui o presidente prefere os monólogos, em rede nacional de TV, ou em entrevistas exclusivas para a imprensa amiga (Ratinho, Datena, etc).

O chefe da Casa Civil pouco fala nessas entrevistas e se limita ao papel de mestre de cerimônias, apenas passando a palavra aos ministros. Depois de alguns atritos com os repórteres, na última entrevista da semana o general chamou três deles para elogiar suas perguntas.

O papel de figurante do presidente em seu próprio governo ficou claro no novo Datafolha em que 51% dos entrevistados responderam que Bolsonaro mais atrapalha do que ajuda no combate ao vírus.

Na semana em que mais bombardeou o ministro da Saúde, para acabar com o isolamento social e reabrir o comércio, outro número da pesquisa deve ter preocupado Bolsonaro: enquanto Mandetta alcançava 76% de aprovação, o índice do presidente ficou em 33%, o núcleo duro do seu eleitorado que lhe permanece fiel.

Presidente tutelar do Brasil?
Quer dizer, para mais de dois terços da população, que não conhece os meandros do poder no Palácio do Planalto, o ministro da Saúde é a figura mais importante e bem aprovada do governo.

Com índice também bastante superior ao do presidente, com 57% de aprovação, aparece o governador João Doria, de São Paulo, que pediu para a população não seguir as orientações de Bolsonaro e fez campanha para todos ficarem em casa.

Dividido entre a ala militar e a ala ideológica dos filhos olavistas, Bolsonaro se equilibra na corda bamba, cada vez mais isolado e fragilizado no Palácio do Planalto, sem ter muito o que fazer.

O brasileiro elegeu um presidente da República, mas é comandado por um vereador, disse ao Painel da Folha de S. Paulo o deputado Alessandro Molon, líder da minoria na Câmara, referindo-se ao filho Carlos Bolsonaro, que agora ganhou um gabinete no mesmo andar do pai.

A única iniciativa concreta que Bolsonaro tomou durante a semana, em que o número de mortes e de infectados pelo coronavírus bateu recordes no Brasil, foi convocar para este domingo um jejum nacional com as igrejas evangélicas, que lhe deram a ideia.

Com tanta gente já passando fome, não vai fazer muita diferença.

O clima em Brasília é de fim de feira, hora da xepa.

Bom domingo. (por Ricardo Kotscho)
"Eu sei que é difícil defender uma política impopular"

SÓ FALTA UM "VADE RETRO PANDEMIA!"

Depois de sua aposta alucinada em que um medicamento contra a malária será a droga milagrosa para combatermos o coronavírus, antes de qualquer comprovação científica de que não haverá efeitos colaterais trágicos, o presidente Jair Bolsonaro aprontou de novo.

Ele se somou aos pastores evangélicos que, num vídeo divulgado neste sábado (4) nas redes sociais, convocaram jejum de um dia para reduzir ainda mais a capacidade de resistência da população ao contágio.

O negacionista nº 1 da pandemia, dentre todos os governantes do planeta, agora completou seu tripé terapêutico contra a pior ameaça sanitária à humanidade desde a gripe espanhola de 1918: a volta ao trabalho, confiando-se na cloroquina e na graça divina, já que Deus certamente ficará sensibilizado com o jejum dos já famintos.
Quem não obtiver os resultados prometidos, dificilmente lhe atirará isso na cara, pois vai estar morto.

Encerrarei relembrando, em benefício dos desinformados e dos insensatos, um exemplo famoso dos danos que um medicamento não testado ou insuficientemente testado pode causar. 

Reproduzo trechos do bom relato (vide íntegra aqui) da revista Saúde (CL):  
"A droga talidomida entrou no mercado alemão em 1957, lançada pela empresa Chemie Grünenthal como um medicamento que podia ser comprado sem receita, com base nas alegações de segurança do fabricante. Usado inicialmente como um tranquilizante para melhorar o sono, logo teve seu uso expandido para gestantes, pois melhorava o enjoo matinal. 
Contergan, a primeira marca do fármaco lançada no mercado, transformou-se rapidamente num dos medicamentos líderes de vendas na Alemanha. 
Mas um jornal alemão veio informar em 1959 que 161 bebês haviam sido afetados adversamente pela talidomida, levando os fabricantes da droga —que haviam ignorado os relatos de defeitos congênitos associados a ela— a finalmente interromper a distribuição na Alemanha e na Inglaterra. 
Outros países seguiram o exemplo e, em março de 1962, o medicamento foi banido na maioria dos países da Europa e América do Norte, onde era comercializada...
...No início da década de 1960, divulgou-se amplamente o tamanho da tragédia: mais de 10 mil crianças afetadas pelo mundo" 

sábado, 4 de abril de 2020

OS EFEITOS CONJUGADOS DA PANDEMIA E RECESSÃO PODEM SER MAIS DEVASTADORES QUE OS DA 2ª GUERRA MUNDIAL– 2

(continuação deste post)
O Estado não pode distribuir dinheiro (valor) sem valor por tempo indefinido; é um ponto em que fica evidenciada a excelência da teoria marxiana da crítica da economia política. 

Vejamos o que Marx nos diz a tal respeito nos Grundrisse:
"... A troca do trabalho vivo por trabalho objetivado, o pôr do trabalho social na forma de oposição entre capital e trabalho assalariado, é o último desenvolvimento da relação de valor e da produção baseada no valor. O seu pressuposto é e continua sendo a massa do tempo do trabalho imediato, o quantum de trabalho empregado como fator decisivo da produção da riqueza. 
No entanto, à medida que a grande indústria se desenvolve, a criação da riqueza efetiva passa a depender menos do tempo de trabalho e do quantum de trabalho empregado do que do poder dos agentes postos em movimento durante o tempo de trabalho, poder que — em sua poderosa efetividade —, por sua vez, não tem nenhuma relação com o tempo de trabalho imediato que custa sua produção, mas que depende, ao contrário, do nível da ciência e do progresso da tecnologia, ou da aplicação dessa ciência na produção...
... O roubo do tempo de trabalho alheio, sobre o qual a riqueza atual se baseia, aparece com fundamento miserável em comparação com esse novo fundamento desenvolvido, criado por meio da própria grande indústria..."  
Marx se referia à questão da substituição em maior parte da trabalho abstrato, assalariado, produtor de valor, pelo trabalho das máquinas, redutor de valor nas mercadorias, para concluir:
"... As forças produtivas e as relações sociais — ambas aspectos diferentes do desenvolvimento do indivíduo social — aparecem somente como meios do capital, e para ele são exclusivamente meios para poder produzir a partir do seu fundamento acanhado. De fato, porém, elas constituem as condições materiais para fazê-lo voar pelos ares..."
Marx conclui, enfim, que as relações de produção capitalistas, sob tais pressupostos, se tornariam inviabilizadas. 

Pois bem. Vivemos uma depressão mundial em ciclos cada vez mais próximos e em números expressivos. De 2008/2009 para 2020, juntam-se duas ondas gigantescas de crise ocorrendo num espaço de apenas 12 anos (que, em termos de história da evolução social, representam cronologicamente pouco).

Mas a crise sanitária tornou evidente a certeza de que não podemos viver socialmente sob a égide do capital, que é uma forma de relação social somente viável (e, assim mesmo, de forma precária e segregacionista) sob determinadas circunstâncias, que agora desaparecem. 

Juntou-se o desemprego estrutural causado pela contradição da produção sob o capital, com a paralisia das relações mercantis de produção acentuada pela crise sanitária.

O resultado disso é que não se produz mercadorias porque não se tem quem compre a produção dessas mercadorias.

É um impasse irresolúvel sob os critérios mercantis, e de um modo que nunca antes havia sido experimentado. O inimigo é silencioso; abrangente; disperso pelo alto grau de contaminação; e traiçoeiramente letal, tanto no que se refere à vida humana quanto às relações sociais abstratas e escravistas estabelecidas.  

A solução de tal impasse econômico-sanitário (que restringe sobremodo as transações comerciais frenéticas) só poder ser a produção de distribuição de bens de consumo independentemente de seus custos de produção e de capacidade aquisitiva em dinheiro, porque estamos tratando de salvar vidas numa escala mundial. Afinal, num quilo de feijão não há nenhum átomo de dinheiro. 

O limite autodestrutivo da forma-valor restará evidenciado no momento em que os padrões monetários deixarem de ter relação com a substância do valor, que é o tempo-trabalho mensurado e remunerado pelo mesmo critério de valor monetário. Quando isto ocorre, está decretada insustentabilidade e o começo do fim da relação social denominada capitalismo.

Uma vez excluída do padrão monetário (que é, ou deve ser, representação do valor) a substância tempo de trabalho em valor, o dinheiro passa a ser mero bilhete/cota para aquisição de mercadorias, que é o que já estamos praticando e que não tem sustentação no longo prazo. 

É que tal critério de abastecimento, que visa a manutenção do valor como forma de mediação social, tende a fugir do controle do Estado, demonstrando não apenas a prescindibilidade do Estado como gestor econômico vertical da vida social, como também a ineficácia do valor (dinheiro e mercadorias) como modo de mediação social.
Este é o temor não apenas do segmento político, mas de todo o edifício erigido em torno da riqueza abstrata: o receio de que o conceito jurídico de propriedade ilimitada da riqueza abstrata (que, sob tal pressuposto, perderá a sua função de conversibilidade em valor e funcionalidade social), venha a evidenciar-se como causador de penúria absoluta. 

Ainda que a crise sanitária seja debelada (coisa que desejamos, como forma de evitar-se o genocídio) em tempo hábil para a retomada da precária normalidade da mediação social pela forma-mercadoria, a fragilidade de tal modo de relação social restará comprovada. 

Estamos vivendo o começo do fim daquela relação social que, vaticinou Marx, um dia iria voar pelos ares graças às contradições dos seus fundamentos, erroneamente tidos por muitos como ontológicos e não apenas históricos. 

Precisaremos sobreviver ao pesadelo do coronavírus para, adiante, vermos a concretização do sonho emancipatório da humanidade realizado, com a abolição da escravatura milenar, mesmo que depois surjam problemas existenciais próprios à condição humana. (por Dalton Rosado)

UMA TRAGÉDIA BRASILEIRA É TER COMO PRESIDENTE, EM PLENA PANDEMIA, UM GROTESCO RESSENTIDO DO SUBSOLO

joão pereira coutinho
BOLSONARO SE ALIMENTA DO RESSENTIMENTO
CONTRA A TIRANIA DOS ESPECIALISTAS
Aqui de longe, na Europa, acompanhando o cenário de medo e morte que corre por estas bandas, confesso um certo fascínio com a irresponsabilidade de Jair Messias Bolsonaro. 

De onde vem essa hubris que leva o presidente a desprezar um vírus potencialmente letal?

De onde vem a atitude guerreira de desconfiar do confinamento, o único método comprovadamente eficaz para evitar o crescimento exponencial de casos e o colapso do sistema de saúde?

A Itália, convém lembrar, tem um bom sistema de saúde, com um número razoável de unidades de cuidados intensivos. Já enterrou 14 mil mortos. Espanha, aqui ao meu lado, mais de 10 mil.

A ignorância não é explicação. Há momentos em que o ignorante, assoberbado pela violência das circunstâncias, procura ajuda competente.

A preocupação com a economia seria uma atitude compreensível porque sem dinheiro não haverá saúde para ninguém –razão pela qual a Alemanha pondera criar certificados de imunidade, documentos que atestam a recuperação total de alguns cidadãos que poderiam, assim, voltar ao trabalho.

Mas a imprudência de Bolsonaro se alimenta de outras águas –um ressentimento antigo, quase instintivo, contra a tirania dos especialistas

A grande diferença, desta vez, é que o lobo existe mesmo e os especialistas, os verdadeiros especialistas, têm razão em temer o bicho.

Uma boa forma de compreender o impasse do momento é ler um autor singular com um ensaio de mesmo nível. O nome é Martim Vasques da Cunha, que concedeu uma entrevista importante à Folha de S. Paulo a propósito do seu livro A tirania dos especialistas – da revolta das elites do PT à revolta do subsolo de Olavo de Carvalho.

É um ensaio notável e denso, em que o Brasil é apresentado como vítima de duas tenazes.

De um lado, existe o que Vasques da Cunha designa por revolta das elites, uma expressão cara a Christopher Lasch, e que significa a adesão do intelectual orgânico à velha tentação demiúrgica de transformar a realidade à luz dos seus princípios iluminados.

As elites das universidades, da cultura, da mídia, gravitando em torno desse planeta imenso chamado PT, foram construindo, ao longo dos anos, uma narrativa que não apenas ignorava a realidade como a procurava suplantar.

E quando essa mesma realidade dava sinais de vida, procurando romper as muralhas fechadas do castelo, a função do intelectual nunca passou por escutar ou compreender o rumor que ascendia do solo e do subsolo. 
Faz parte do racionalismo em política reduzir qualquer dissonância, e, sobretudo, qualquer dissonância de natureza prática, a uma mera questão técnica, que a razão facilmente classifica e resolve.

O que a razão, por si só, não é capaz de classificar e resolver, não demonstra, ipso facto, as limitações epistemológicas do sujeito. Mostra, isso sim, as limitações das massas que devem ser simplesmente ignoradas como primitivas que são.

O grande problema, esclarece Vasques da Cunha, é que as massas do subsolo não desparecem. Elas vão se constituindo como um exército vitimário e ressentido, pronto para a sua revolta.

Se juntarmos a esse exército faminto um líder de seita que fez do curto-circuito de paralogismo a sua igreja –a transformação do autoexílio e da automarginalidade em fonte de autoridade e poder incorruptível– temos os condimentos para o grande enfrentamento entre as elites do PT e o subsolo de Olavo de Carvalho.

O livro de Vasques da Cunha é precioso para entendermos a constituição desses dois exércitos no século 21 brasileiro. Mas seria um erro olhar para ambos como planetas distantes. Na verdade, são espelhos um do outro no mesmo desejo de poder e na mesma ambição de criar ou recriar o mundo à luz das suas ideias.

Cumprindo o calvário clássico do neurótico, eles se veem como vítimas e como deuses, o que os exclui do círculo da dúvida e da responsabilidade. São perigosos e nem sabem como o são.

Se nem toda a gente sente o que digo, a falta é minha, escreveu Montaigne.

Mas os especialistas tirânicos, de esquerda ou de direita, do PT ou de Olavo, não têm qualquer falta. Se nem toda a gente sente o que eles dizem, o problema é dos outros e os outros que se danem.

Em condições normais, essa mistura de alienação e pleonexia seria cômica –apenas um espetáculo grotesco para divertir os intelectos civilizados.

Em tempos de peste, deixar no comando um ressentido do subsolo é uma forma cruel que o destino encontrou para punir esses pequenos deuses. (por João Pereira Coutinho)
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