quarta-feira, 17 de agosto de 2022

ENTRADA DE LEÃO, SAÍDA DE BUFÃO: O BOZO VAI DESISTIR DA MICARETA GOLPISTA

mônica bergamo
BOLSONARO PODE ESVAZIAR 7 DE SETEMBRO
SE MILITARES CHEGAREM A ACORDO COM TSE
Os ministros de Jair Bolsonaro que têm maior trânsito na área política afirmam que o presidente da República pode, enfim, aceitar um armistício com o Tribunal Superior Eleitoral e colocar fim a uma disputa que, na visão de diversos estrategistas de sua campanha eleitoral, só traz desgaste e tira votos.

Caso isso ocorra, a ideia é esvaziar os ataques previstos contra o Judiciário no dia 7 de setembro, dando às manifestações um caráter mais festivo e de apoio eleitoral a Bolsonaro.

De acordo com integrantes da equipe de campanha, boa parte do eleitorado que já simpatizou, mas hoje reluta em votar nele, afirma em pesquisas que prefere um presidente que resolva seus problemas, e os do país –e não que fique arrumando briga quase o tempo todo.

A condição para o fim, ao menos temporário, da tensão seria o TSE aceitar pelo menos algumas das principais sugestões do Ministério da Defesa que foram inicialmente descartadas pela Corte.

Os militares queriam, p. ex., que o tribunal autorizasse a publicação de arquivos de dados dos boletins de urna, com os votos registrados e apurados em cada máquina.

Se o novo presidente do TSE, Alexandre de Moraes, aceitar as propostas, os militares darão o sinal verde para que Bolsonaro sele a paz com a corte –ao menos até o fim do ciclo eleitoral.

Há algumas semanas, Bolsonaro já vem baixando o tom dos ataques ao TSE. E percebeu, de volta, sinais de distensionamento.

Na terça, como uma de suas últimas medidas na presidência da Corte, o ministro Edson Fachin atendeu a pedido do Ministério da Defesa e autorizou a entrada de nove militares no grupo que inspeciona o código-fonte das urnas eletrônicas.

E ampliou de 12 para 19 de agosto o prazo para as Forças Armadas concluírem esta análise. (por Mônica Bergamo, na Folha de S. Paulo desta 4ª feira, 17)
TOQUE DO EDITOR   Colunista que está sempre informando em primeira mão o que se articula nos bastidores dos Poderes, a Mônica antecipa que o Bozo desistirá daquilo que os crédulos acreditavam que seria uma tentativa de autogolpe e eu sempre afirmei que não passaria de mais um fiasco como o do Dia da Pátria de 2021 ou de mais um blefe como os que o bufão aplica aos montes. 

É claro que a Mônica não pode escancarar o que está por trás da notícia, mas isto faço eu:
— a autorização do Fachin para mais nove militares irem desperdiçar tempo vistoriando as urnas, dada no dia em que se despedia da presidência do TSE, seria totalmente incompreensível se não fizesse parte de um pacto já firmado com o cape..., quer dizer, com o Bozo;
— o vazamento seletivo da informação de que o histrião pretende desarmar o picadeiro do 7 de setembro é a peça que faltava para completar o quebra-cabeças;
— na verdade, os militares agora farão algumas sugestões anódinas e o TSE, conforme combinado, as aceitará;
— aí o Bozo poderá sair pela tangente, desistindo de um braço-de-ferro que perderia e, ainda por cima, cantando vitória.

Não me enganem, pois eu não gosto. (por Celso Lungaretti) 

HOMEM INVADE BANCO NO LÍBANO E VIRA HERÓI...

 ...EM MEIO À CRISE ECONÔMICA.
Mais uma vez, a vida...
B
assam al-Sheikh Hussein entrou armado no Banco Federal do Líbano. Tomou reféns e exigiu uma recompensa para deixá-los sair. A população começou a se reunir em torno do banco, no centro de Beirute – para apoiar o sequestrador. 

Numa cena que poderia estar na série espanhola Casa de Papel, bradava coisas como "abaixo o poderio dos bancos" e "deem o dinheiro dele".

O episódio, que não deixou mortos nem feridos, é um eloquente símbolo do que o Líbano se tornou nestes anos. 

O país vive uma das piores crises econômicas do mundo desde meados do século 19. Cerca de 80% da população vive na pobreza. A moeda desvalorizou 20 vezes em relação ao dólar desde 2019. 

Quase metade dos libaneses passa fome. Falta de tudo: eletricidade, combustível, medicamentos.Hussein, 42, decidiu invadir o banco não para roubá-lo, e sim para exigir o direito de sacar dinheiro da sua própria conta. Queria, disse, pagar os custos do hospital em que seu pai está internado. 
...imitou a arte.
Segundo os relatos da imprensa, Hussein tem US$ 210 mil no banco (o equivalente a R$ 1 milhão). Só que as autoridades libanesas restringem desde 2019 os saques a um valor máximo de US$ 400 por mês (R$ 2.000). 

O gesto de Hussein, assim, deu voz à indignação de outros tantos no país – irados com um governo visto como corrupto, moroso e ineficiente.

O sequestrador ameaçou colocar fogo em si mesmo e matar os reféns, se o pedido não fosse atendido. Em acordo com as forças de segurança, depois de horas de negociação, saiu do banco com US$ 35 mil (R$ 180 mil). 

Chegou a ser detido, mas foi solto depois que a instituição financeira retirou a queixa contra ele. Nas ruas, manifestantes exigiam a liberdade dele, a quem chamavam de herói. (por Diogo Bercito, que produz o blog Orientalíssimo)
Mais do que a série Casa de Papel, a ocorrência nos faz lembrar 
o filme Um ato de coragem (d. Nick Cassavetes, 2002), em que 
Denzel Washington é um pai que toma toda a equipe de emergência do
hospital como refém para forçar o transplante do coração de seu filho.

terça-feira, 16 de agosto de 2022

AS FIRULAS DO DIREITO BURGUÊS FAZEM O INJUSTO PASSAR POR JUSTO – 2

 (continuação deste post)
Devemos agradecer a tais beneméritos?
O
 benemérito empreendedor
 – Durante a CPI da Covid, vimos um empresário se jactar (e com a anuência dos parlamentares) de que era um benemérito social.

Tal benemerência se comprovaria por estar, disse ele, proporcionando cerca de 100 mil empregos diretos em seus empreendimentos.

Este rico homem, que acumula poder econômico considerável e, com ele, passa a ter poder político decorrente, esqueceu-se de dizer que são justamente aqueles 100 mil assalariados (aos quais sequer conhece pessoalmente) quem lhe oportuniza a acumulação do capital extraído de cada salário por tempo-valor produzido, sendo exatamente isto o que faz a sua fortuna e poder.

Assim, de quem é a benemerência? De quem ganha uma remuneração baixa e enfrenta diariamente ida e volta em ônibus lotado, gastando mais da metade de seu dia numa faina exaustiva?

Ou daquele que viaja de jatinho particular para depor numa audiência parlamentar e desfilar com sua arrogância de capitalista, arrotando poder e influência social?

Por conta do conceito inverso subliminar introjetado diariamente nas mentes coletivas, o beneficiário passa a ser benfeitor, enquanto os explorados promotores da riqueza aleia são tidos como devedores de gratidão àquele que os explora.

Há uma falsa consciência sobre a benemerência do capital na promoção da vida social. Isto faz com que todos (direita e esquerda institucional) pugnem para a retomada do desenvolvimento econômico como apanágio do bem e fórmula capaz de melhorar a distribuição da renda e fortalecer o Estado enquanto ente benfeitor incumbido do suprimento das demandas sociais.
A corrupção que não é crime – O poder econômico, que tudo comanda na sociedade do capital e que subjuga o poder político, advém de um ato de corrupção oficialmente aceito.

A corrupção econômica, instituída como forma de relação social destinada à escravização indireta do ser humano para extração de mais-valia, nada mais é do que a apropriação indébita pelo capital da mercadoria força de trabalho pela via do valor-tempo de trabalho abstrato do trabalhador na atividade empresarial dos vários setores da economia (primário, secundário e terciário).

É por isto que, ao invés de defendermos os direitos do trabalhador, devemos lutar para superar esta categoria primária da formação do capital. Tentar melhorar algo intrinsicamente ruim não passa de esforço desperdiçado, quando é a sua própria existência que precisa ser superada. Vemos aqui, portanto, mais um exemplo do capcioso significado de cada intenção embutido nas palavras.

O direito burguês admite oficialmente, dentro de regras jurídicas da relação capital/trabalho, que alguém se aproprie do valor global produzido por um trabalhador abstrato (assim considerado por produzir valor abstrato na venda da mercadoria força de trabalho) durante determinado período (hora-valor de trabalho abstrato), sem que tal apropriação seja indébita, ou seja, que tal corrupção não seja assim considerada.

Dito direito burguês tem a característica de fazer firulas na ciência jurídica capazes de transformar o justo em injusto e o injusto em justo (o faz em contraposição ao jus, na ciência do direito). A questão da conceituação da corrupção econômica é uma delas.

Entretanto, a apropriação de dinheiro dito público (advindo dos impostos cobrados a uma população exaurida em sua grande maioria pelo próprio capital), levada a cabo por políticos ou empresários com eles mancomunados, é considerada crime (dependendo de quem o pratique e do momento em que isto sucede).

Tal ocorre porque o Estado é a cidadela de regulamentação e coerção das regras constitucionais burguesas pelo Poder Judiciário.

O Estado deve estar economicamente fortalecido para cumprir a sua função de apoio e sustentação da ordem da relação social estabelecida pelo capital e o desvio de tal finalidade pelo segmento administrativo (o Poder Executivo, que administra o orçamento dos valores arrecadados pelo erário via cobrança de imposto) pode representar um desserviço ao objeto para o qual foi concebido.

Há outras palavras cujos conceitos e significados deturpados, manipulados ou imprecisos deverei oportunamente analisar e dimensionar noutros artigos, tais como terrorismo de estado, estado democrático de direito, exercício da soberania do voto, liberdade de imprensa, patriotismo e nacionalismo, obediência civil, conceito de segurança pública, conteúdo da educação, direito à saúde, tacocracia, meritocracia e competitividade, dentre outros. 

Por fim, não devemos esquecer que, neste momento da decrepitude da lógica capitalista decorrente da contradição autodestrutiva dos seus próprios fundamentos, o Estado definha conjuntamente e se endivida além do que seria recomendável. 

É por isto que o segmento mais consciente do stablishment não gosta da corrupção com o dinheiro dito público e olha atravessado para muitos dos seus empresários e representantes políticos que a praticam em benefício próprio e individual.

A falência estatal decorrente da falência do capital que defende, ocorre concomitantemente à depressão deste último, e se constitui como mais uma das suas muitas contradições, sendo a primeira anunciação da inflexão social que está prestes a acontecer num tempo indeterminado, mas historicamente próximo.

As palavras, mais cedo ou mais tarde, tendem a demonstrar aquilo que verdadeiramente significam e, assim, serem conceitualmente modificadas ou substituídas por outras que espelhem melhor seus reais, prejudiciais ou virtuosos significados. (por Dalton Rosado)

NÃO HÁ POR QUE TEMERMOS A NOVA MICARETA: FLOPARÁ COMO A ANTERIOR!

Será que o menino maluquinho vai ter de
sentar de novo no colo do Michel Temer?
 
A cada nova pesquisa eleitoral divulgada, os comentaristas da grande imprensa e das redes sociais elucubram exaustivamente sobre as tendências que elas apontam, como se fossem todas conclusivas. 

Na verdade bem poucas o são, cerca de 90% delas apenas refletindo escaramuças de alcance limitado e efêmero.

Para os colegas dos jornalões, revistonas e tevezonas, faz todo sentido fingirem que se trava batalha titânica, com a vitória sendo disputada em cada detalhe insignificante. 

É tal ilusão que faz aumentar o faturamento de seus respectivos veículos, portanto, quer queiram, quer não, precisam alavancar o interesse por essas tempestades de som e fúria significando nada, como diria Shakespeare.

Os comentaristas das redes sociais seguem ridiculamente na esteira dos bambambãs da mídia, apenas sendo menos hábeis em fazer passar por desinteressadas suas análises típicas de torcedores de futebol. O maniqueísmo deles transparece em cada frase.

Uma única vez na vida acompanhei atentamente e de cabo a rabo uma campanha eleitoral. Foi quando trabalhava na Agência Estado, em 1989. Era pago para fazer enrolações semelhantes às de todos os concorrentes, mas detestava tal papel. Sentia-me um charlatão, já que o resultado final quase sempre pode ser antevisto desde o comecinho da campanha.

Na de 1989, entrevistei longamente Lula e Collor logo no início da corrida, em abril. E percebi que o caçador-de-si-mesmo era quem falava o que o empresariado e a classe média queriam ouvir naquele período.
Isto porque as estatais (tão inchadas quanto ineficientes) e o protecionismo às empresas brasileiras de informática atrapalhavam a modernização e crescimento da economia. A oratória collorida ia ao encontro de uma insatisfação bem disseminada.

Lula, por sua vez, não se dera conta da importância do colapso do capitalismo de estado soviético e consequente queda do muro de Berlim. Defendia as detestadas estatais. 

Quando lhe perguntei como as colocaria a serviço do povo e não dos mandarins que as chefiavam e seus respectivos grupos políticos, ele respondeu que entregaria o comando a conselhos de trabalhadores. 

No exato instante em que ele me contava esta lorota eu já sabia que, caso chegasse ao poder, Lula jamais ousaria cumprir tal promessa. 

Não deu outra. Teve oito anos para fazê-lo (de 2003 até 2010) e... nada! Perdeu, talvez, a chance de evitar que ocorresse o petrolão, consequentemente a Lava-Jato, consequentemente a derrocada petista na década passada.

Naquele abril de 1989, fui o primeiro a alertar que o Collor, líder das pesquisas iniciais, não era um cavalo paraguaio,  mas sim o mais perigoso direitista no páreo.  Ninguém acreditou.

Seria enfadonho enumerar todas as minhas antevisões que deram certo desde então, mas elas têm em comum o fato de que foram feitas com tempo suficiente para a esquerda brasileira evitar tragédias anunciadas, mas esta as ignorou olimpicamente.

Não há como provar que as linhas de ação alternativas por mim propostas produziriam resultados melhores, mas é certo que as linhas de ação adotadas pelas forças dominantes da esquerda produziram resultados catastróficos. 

A invasão dos bárbaros não foi uma fatalidade, mas sim o desfecho de uma longa sucessão de erros crassos cometidos desde o primeiro governo da Dilma. 

Quando o Bozo tomou posse, eu já tinha convicção plena de que em médio e longo prazo aquele fascismo redivivo fracassaria, mas não havia como descartar um autogolpe bem sucedido, ainda que de breve duração, em 2019.

Em 2020 passei a considerar pouco provável o sucesso golpista, principalmente depois que o bufão rompeu com Sergio Moro e a Lava-Jato, jogando no lixo a bandeira farsesca de combate à corrupção, como também jogaria a do liberalismo econômico. 

O sonhado putsch igualmente esbarrava na resistência surda das Forças Armadas quanto a acompanharem o desvario golpista, jamais realmente superada pelo Bozo, apesar de seus faniquitos e da troca intempestiva de comandantes.

A genocida administração da pandemia foi, em seguida, o maior fator de esvaziamento do celerado.
Ainda mais quando ficou evidenciado que a insistência em drogas milagrosas fajutas embutia grandes negociatas. Se um dia isto for investigado a fundo, ele mofará na prisão até o fim de sua nociva e parasitária existência.  

E se o esquema de sustentação política do Bozo já se fragilizara significativamente com o
tchau Lava-Jato, alô corrupção, bem como com o maior extermínio de brasileiros já desencadeado por um presidente da República, a pá de cal foi a expulsão dos ultradireitistas da Casa Branca.

Por tudo que os EUA representam para nossa economia e pela influência determinante que exercem sobre o alto oficialato das Forças Armadas brasileiras, não tive mais a menor dúvida que a parada estava decidida. O ano de 2021 já começou com o autogolpe definitivamente inviabilizado. 

Mesmo assim, o pária nº 1 no mundo civilizado ainda tentou uma última cartada, com a micareta golpista do último Dia da Pátria. Colheu derrota acachapante e teve de humilhar-se, implorando a ajuda do Michel Temer para safar-se  da encrenca.

Passou a ter como único real sustentáculo o centrão, que agora está raspando os recursos públicos que restam no fundo do tacho e logo pulará para a arca de Noé na qual Lula acolhe todos os canalhas da política fisiológica brasileira.

Aí o palhaço sinistro terá também contra si os poderosos da economia (até a Fiesp e a Febraban hoje defendem a democracia, como se não soubéssemos o que elas fizeram na ditadura passada...), a sociedade civil, os militares, os Estados Unidos e a quase totalidade das nações civilizadas do planeta. 

Resumo da ópera: o Bozo inevitavelmente será reconduzido ao seu verdadeiro patamar, de 15% a 20% de fanáticos obtusos e rancorosos, insuficientes para dar qualquer golpe ou para ganhar qualquer eleição majoritária. 

Não serão os resultados das pesquisas eleitorais que vão alterar este roteiro. Ele teve princípio, meio e fim. O debiloide ainda poderá espernear, gente ainda poderá morrer, mas a página ultradireitista por esta vez está virada. Ponto final.

A cautela que precisamos ter não é com relação à nova micareta (de antemão fracassada), mas sim com uma volta por cima das hordas do retrocesso caso D. Sebastião da Silva não consiga a partir de 2023 entregar o que o povo dele espera. 

Por ora o fantasma foi exorcizado e logo vai estar arrastando correntes apenas no limbo. E, se o Brasil, no espírito do 11 de agosto, resolver tornar-se um país sério, o Bozo não escapará das grades que já fazia por merecer muito antes de 2018. (por Celso Lungaretti)  

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

SARAVÁ, OGUM!

Não sou umbandista.

Nem católico, nem espírita, nem islamita, nem budista.

Menos ainda adepto de qualquer dos cultos ao bezerro de ouro que hoje proliferam, arrancando com  engodos as últimas moedas dos miseráveis.

Com os religiosos sinceros convivo.  Aos mercantilizadores da fé desprezo profundamente.   
Minha mãe era kardecista e eu a acompanhava às sessões quando criança. Lá pelos 11 ou 12 anos, numa semana estava doente e não fui. Noutra, chovia forte e não fomos. Na terceira percebi que, bem lá no fundo, eu realmente não queria ir, então nunca mais fui.

As religiões de matriz africana me agradam esteticamente, pela alegria, pelas cores, pelas danças, pela musicalidade e porque as histórias de orixás me lembram a mitologia grega, que eu adoro.

Se tivesse de escolher culto para assistir, dentre todas as religiões que conheço, seria um da umbanda. Certamente não ficaria entediado nem contando os minutos para dar o fora dali. Mas, e a fé?  Continuaria ausente.
Quando não passam de engana-trouxas, as religiões são exatamente o que Karl Marx disse no arrazoado célebre, tantas vezes e tão sordidamente deturpado:
"A religião é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração e a alma de situações sem alma. A religião é o ópio do povo.

A abolição da religião enquanto felicidade ilusória dos homens é a exigência da sua felicidade real. O apelo para que abandonem as ilusões a respeito da sua condição é o apelo para abandonarem uma condição que precisa de ilusões. A crítica da religião é, pois, o germe da crítica do vale de lágrimas, do qual a religião é a auréola".
O ópio, como todos deveriam saber, era uma droga utilizada no século retrasado para mitigar a dor. Cumpria bem tal papel, evitando que doentes graves sofressem terrivelmente. Mas, como não atacava a causa da moléstia, proporcionava apenas um alívio momentâneo. Foi neste sentido que Marx a ele se referiu, como se constata indiscutivelmente na frase completa.

Sou revolucionário e dediquei a minha vida a substituir as felicidades ilusórias dos homens pela satisfação das necessidades humanas, numa sociedade regida pela priorização do bem comum e pela fraternidade plena. 

Mas, até chegarmos ao reino da liberdade, para além da necessidade, os revolucionários não podemos jamais nos omitir da defesa dos injustiçados e perseguidos neste vale de lágrimas.
É o que estão sendo hoje e agora os devotos das religiões africanas. Impiedosamente.

Que ninguém se iluda: a cruzada encabeçada pela Micheque não é espiritual, mas racista. Apela aos piores instintos das piores pessoas, aquelas para quem um repulsivo consolo é existir alguém em situação mais desgraçada ainda. 

Nem me lembro mais de que personagem de filme ouvi a frase que melhor explica a atitude e a visão de mundo de um branco pobre e racista: "Se eu não sou melhor do que um negro, melhor do que quem eu vou ser?". 
Quem não tem coragem para queimar os negros nas cruzes, como os carrascos da Ku Klux Khan, inventa lorotas para disfarçar o sonho monstruoso que carrega na alma. 

Como revolucionários, nosso lugar é sempre ao lado dos negros barbarizados e que têm seus templos vandalizados, além de serem expostos à estigmatização pelos farsantes da política crapulosa. 

Se houvéssemos todos sido mais firmes na solidariedade às vítimas desse racismo travestido de religiosidade, tão ignóbil preconceito não estaria sendo usado nas fake news contra o candidato Lula, nem na cínica retórica das ovelhas desgarradas que Cristo, se aqui estivesse, expulsaria das marchas a si dedicadas como fez com os vendilhões do templo. (por Celso Lungaretti)
 

AS FIRULAS DO DIREITO BURGUÊS FAZEM O INJUSTO PASSAR POR JUSTO – 1

dalton rosado
AS DETURPAÇÕES SEMÂNTICAS
As palavras têm a força do sentido que encerram. É por isto que devemos ter o cuidado de entender o espírito daquilo que elas significam e, principalmente, as transformações que nelas possam ocorrer em razão do uso indevido e intencionalmente deturpado.

As metamorfoses perigosamente manipuladas que as palavras podem passar a ter (e têm tido) ao longo da vida social é o que abordo neste artigo.

Assim, passo a analisar algumas metamorfoses e conceitos semânticos e/ou duplos e contraditórios sentidos que detêm, se não vejamos:
A sacralidade dos preceitos constitucionais – Há quem considere, principalmente no mundo jurídico, que a obediência e imutabilidade dos preceitos constitucionais é fator de estabilidade social, configuração e solidificação de comportamentos sociais pretensamente virtuosos.

A dialética do movimento social e os princípios da formatação do direito estão a nos ensinar que não é a norma que deve engessar o comportamento social, mas é o comportamento social e suas vontades e interesses coletivos regidos a partir de princípios éticos e morais elevados, que deve promover as reformas normativas constitucionais e o direito dela derivado.

Devemos considerar que a Assembleia Nacional Constituinte, encarregada da elaboração de qualquer constituição (como recentemente ocorreu no Chile, após a derrocada da economia chilena e os protestos de rua contra os resquícios da ditadura Pinochet), é sempre decorrente de um conjunto de parlamentares eleitos sob a influência econômica que sempre marca as eleições parlamentares burguesas.

Desde sempre, nas eleições burguesas a maioria dos eleitos é de parlamentares burgueses. 

Parlamentares burgueses que, evidentemente, farão uma constituição burguesa, voltada para os interesses do capital; e, sendo o capital intrinsicamente opressor, a constituição que o protege também o é.

A constituição burguesa é a norma que pauta o direito ordinário burguês. Por sua vez, o direito ordinário burguês é, em muitos dos seus institutos, marcadamente injusto para com a maioria da coletividade. Um antidireito no sentido fascista.

A constituição burguesa prevê, p. ex., o direito à propriedade como cláusula pétrea. Complementarmente, vem o direito civil e concede possibilidades de acúmulo ilimitado da propriedade sem considerar a hipoteca social da dita cuja.

Há quem, não tendo nenhuma propriedade, aspire por tê-la e, assim, defenda o direito à propriedade tal como está prevista na constituição burguesa. Um fetiche opressor.

Ora, como a propriedade é sempre uma mercadoria na sociedade burguesa, alguém pode ter mil ou mais casas alugadas àqueles não têm nenhuma e cobrar dos ditos cujos o aluguel destas como renda pessoal patrimonial, despejando o devedor desempregado que ficar inadimplente no aluguel. 

O magistrado incumbido de tal processo de despejo terá de obedecer ao direito burguês estatuído, sob pena de ter reformadas as suas sentenças por desacordo normativo e, em alguns casos de repetição, ser punido pelas instâncias superiores da magistratura por descumprimento da norma.

Assim o Poder Judiciário, sob a constituição burguesa, é o cutelo opressor do capital, sob o manto da pretensa e hipócrita realização do ideal de justiça. 
O pior é ser o povo quem paga, pela via da cobrança de impostos constitucionalmente definidos, o valor-dinheiro-mercadoria que subvenciona a sua própria opressão.

Muitos outros exemplos do caráter opressor da constituição burguesa poderiam ser citados aqui, mas este basta para demonstrar que aqueles que querem rasgar a constituição (como os ultraconservadores nazistóides) em benefício ditatorial próprio, são diferentes e o oposto daqueles que almejam por uma constituição verdadeiramente popular e voltada para o interesse majoritário da coletividade.

Neste caso a virtude não está no meio, ou seja, entre aqueles que preferem a conservação do status quo constitucional burguês atual por medo do retrocesso da dita cuja.

Não é jurando obediência a uma constituição burguesa, como forma de contraposição à ameaça de uma constituição ditatorial, que se avança na busca de um estágio superior de civilização social.
Cidadania – O filósofo Sócrates, no momento em que se formavam as cidades-estado gregas (como Atenas) e o conceito de cidadania como pretensa proteção social aos cidadãos, afirmou que "o cidadão é o cadáver do homem".

Pensemos na diferença, enquanto ser humano e indivíduo social, entre:
— alguém que se arrisca a atravessar as fronteiras dos países do G7 por barco inseguro cheio de gente, caminhando pelo deserto ou se arrastando por tuneis, com filhos menores e arriscando a própria vida, e
 aqueles que viajam de avião após terem obtido o visto de entrada e que até conseguem o green card depositando US$ 1 milhão num banco qualquer. 

A disparidade entre eles reside no conceito de cidadania atribuído a cada um.

O ser humano rico é cidadão bem recebido e com honras de turista nos países ricos; o outro não passa de um marginal invasor que, se não morrer na travessia mas for preso, terá seus filhos amontoados separadamente em jaulas, todos a serem deportados como seres indesejados.

O cidadão comum, assalariado, é aquele explorado pelo capital na extração de mais-valia na produção das mercadorias por subtração da mercadoria hora-valor de trabalho abstrato, e obrigado a pagar o imposto em qualquer mercadoria que compre para o seu sustento material, com isto sustentando a reprodução vital capitalista e seu Estado regulamentador e opressor.

Este é o mundo da cidadania e da mercadoria. 

Este é o quid pro quo destinado a oprimir sub-repticiamente o ser humano enquanto cidadão! 
(por Dalton Rosado – continua neste post)

domingo, 14 de agosto de 2022

NO JARGÃO GROSSEIRO DO BOZO, ELE PEIDA NA FAROFA AO FUGIR DOS DEBATES

josias de souza
BOLSONARO E LULA SE IGUALAM
AO TOMAR A MESMA FUGA DO
DEBATE EM POOL
Convidado a participar de uma dezena de debates, Lula exigiu que as empresas de comunicação se reunissem para realizar eventos conjuntos. 

Bolsonaro declarou que iria aos debates se o seu principal antagonista também fosse. Era lorota. 

O consórcio de veículos de imprensa formado por Folha, UOL, g1, Estadão, Globo e Valor realizaria neste domingo (14) o primeiro debate presidencial de 2022 no formato de pool. Lula e Bolsonaro bateram em retirada, forçando o cancelamento do evento. 

Em eleições passadas, os debates eram necessários. Em 2022, tornaram-se imprescindíveis, pois o país vive a sua mais importante e conturbada eleição presidencial desde a redemocratização.

E os dois principais contendores 
um ex-presidente que reivindica o terceiro mandato e um presidente que pleiteia a reeleição sonegam aos eleitorado a exposição de duas horas de questionamentos sobre suas lacunas e contradições.

Nos palanques e nas redes sociais, Lua chama Bolsonaro de
golpista e genocida. É chamado pelo rival de bêbado e ladrão. Podendo desfrutar do privilégio de um confronto direto, os dois se igualam ao tomar a rota de fuga. 

Lula teve o pedido de formação de pools atendido. Deve explicações. Bolsonaro disse em sua live da noite de 5ª feira (11) que prefere participar de programas na internet. Citou a pseudo-entrevista de cinco horas que concedeu ao podcast Flow

Nessa conversa, Bolsonaro disse a certa altura que não está interessado na aprovação de uma PEC da Anistia, para evitar a prisão em caso de derrota. Explicou sua posição assim:
"Vão falar que estou pedindo arrego, peidou na farofa. Não quero essa imunidade"
Para usar a mesma linguagem vadia, o valentão do Planalto peida na farofa ao fugir dos debates. (por Josias de Souza)

sábado, 13 de agosto de 2022

HADDAD QUER REPETIR AS CARAVANAS ELEITORAIS DO LULA. CADÊ O CARISMA?!

Haddad: só funcionou bem como poste
em 2012, mas perdeu em 2016 e 2018
E
stá no  noticiário que Fernando Haddad, candidato a perder também a eleição para governador de São Paulo,  tentará repetir as caravanas eleitorais do Lula, viajando por municípios do interior que costumam não constar da relação dos redutos eleitorais priorizados. 

Os marqueteiros tiveram esta brilhante ideia ao constatarem, mediante sondagens internas, que os eleitores paulistas se lembravam mais do Haddad como derrotado no pleito presidencial de 2018 do que como ex-prefeito de São Paulo (2013/2016) .

Deveriam estar espocando champanhes, pois quem se recorda dele como burgomestre paulistano foi exatamente quem lhe negou a reeleição: Haddad é caso único de prefeito que, na vez seguinte não chegou sequer ao 2º turno, pois João Doria liquidou a fatura logo na primeira rodada.

O motivo foram duas medidas do politicamente correto Haddad que irritaram profundamente eleitores paulistanos que não moram na Vila Madalena:
1. impôs um limite de velocidade ridicuolamente baixo nos trechos das rodovias que entravam na cidade ou dela saíam, o que criou um verdadeiro pandemônio. Nunca vi tanto acidente nesses trechos como naquela época. Caminhoneiros e motoristas conhecedores de onde existiam os radares reduziam  a velocidade quando iam passar por eles, mas logo em seguida enterravam o pé no acelerador, surpreendendo os que desconheciam tal detalhe.  E, claro, também o faziam quando estavam deixando o trecho paulistano. Isto, mais os congestionamentos terríveis das marginais na hora do rush ou quando ocorria acidente, reduziu a cinzas o filme do Haddad;
Boulos tinha energia e carisma para
vencer; Lula preferiu um borocochô
 
 
2
implantou faixas exclusivas para ciclistas em avenidas e ruas de intenso movimento, sem levar em conta que a imensa São Paulo tem área mais de seis vezes maior que a da diminuta Amsterdam. E essas faixas geralmente só serviam para algo nos fins de semana e feriados. Em dias úteis passava 1 bicicleta a cada 5 minutos (pelo menos era a impressão que eu tinha enquanto ficava mofando na pista comum abarrotada de automóveis avançando com rapidez de lesmas...).

Haddad foi um dos fatores importantes para a vitória do horroroso Bozo na trágica eleição de 2018, pois, com zero de carisma, impressionava muito menos os eleitores despotizados do que o bufão estridente.    

Tenho absoluta certeza de que, com Ciro Gomes ou Guilherme Boulos como candidato, a chance de vitória antifascista teria sido muito maior. Mas o Lula, embriagado com seu êxito em impingir os postes Dilma Rousseff e o próprio Haddad, em 2010 e 2012 respectivamente, acreditou que pudesse repetir a mágica e o resultado foi... genocida no poder.

Incrivelmente, o dono do PT vai bisar o fracasso agora, quando poderia ter feito uma aposta muito mais segura com o Boulos. 

Já o Ciro Gomes, inconformado com a puxada de tapete que levou do Lula em 2018, não fará mais alianças com o petismo enquanto o jenio reformista der as cartas. (por Celso Lungaretti) 

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

A CARTA É DOS NOTÁVEIS, MAS FEZ A DESBOZIFICAÇÃO AVANÇAR

A
té a manhã de ontem (11) ainda não tinha decidido se iria ou não ao ato de repúdio ao golpismo bolsonarista no Largo São Francisco.

Como jornalista, fascinava-me estar presente em  mais um momento importante da História brasileira: a guinada no sentido do fim do circo de horrores do Bozo, com o exorcismo da extrema-direita por um bom tempo. 

As almas penadas voltarão para o limbo, mas não vão desistir de nos assombrar adiante. Compete a nós fazermos a lição de casa completa desta vez, não aceitando meias-medidas, como na saída da ditadura militar. 

Foi por causa de nossos erros e tibieza durante a última redemocratização que elas ensaiaram uma volta com o caçador-de-si-mesmo em 1990 e voltaram triunfalmente em 2018, a bordo do trem fantasma do Pennywise.

Já como revolucionário, detestaria uma identificação tão estreita com o Estado de Direita, que perpetua a dominação de classe exercida pela burguesia. Pretende-se democrático mas, ao colocar o direito à propriedade acima da plena satisfação das necessidades humanas e da concretização do bem comum, prioriza uma pequena minoria dos cidadãos em detrimento da grande maioria.

Sou um humanista, daí ter-me resignado a dar uma pequena contribuição para que a carta dos notáveis atingisse o patamar de 1 milhão de signatários, divulgando-a, assinando-a e recomendando aos leitores deste blog também o fizessem.
Sem ilusões: infelizmente, está certíssimo aquele grande empresário papeleiro ao diagnosticar que com o celerado saltaríamos de vez no abismo, enquanto que com o reformista continuaremos estacionados nesta recessão sem fim. 

[Isto porque suas propostas de governo, pra lá de anacrônicas, quanto muito nos proporcionarão pequenas melhoras; e o restabelecimento daquela institucionalidade anterior à invasão dos bárbaros não é defendido apenas por ele,  tornou-se praticamente consensual entre os civilizados, então até mesmo um presidente moderado de direita fará o mesmo.]

Mas, como dos desequilibrados mentais tudo se pode esperar, era importante acelerarmos o derretimento do fãzoca do Trump, para que não bisasse aquele pandemônio de mau perdedor no momento da derrota. Já se perderam vidas demais graças às suas maluquices destrambelhadas.

Daí, contudo, a ir em pessoa jurar obediência ao Estado de Direita, seria um sapo indigesto demais para eu engolir. Já me basta o enorme desgosto de ver a derrocada do bufão chegar pelas mãos dos adversários e não pelas nossas. 

Quase morri de vergonha quando a expulsão das hordas fascistas da avenida Paulista dependeu de secundaristas e dos Gaviões da Fiel, enquanto a esquerda descaracterizada permanecia longe da batalha das ruas e até mesmo da luta pelo impeachment, tudo fazendo para garantir sobrevida ao histrião desvairado porque apostava em que seria ele o candidato mais fácil de ser derrotado nas urnas de 2022. 

E quase morro agora de vergonha por constatar que o empurrão decisivo para expelir o autoproclamado herdeiro do Brilhante Ustra dependeu desses nossos novos aliados que nos anos de chumbo apoiavam a ditadura militar e financiaram a Oban, como bem lembrou o Celso Ming (vide aqui).

Enfim, consola-me a esperança de que talvez ainda tiremos o bilhete premiado. Pois, como os perspicazes já perceberam há muito tempo, a maldita polarização é que alimenta essa alternância maniqueísta entre a esquerda domesticada e a direita extremada.

Com o Lula, incapaz de oferecer novamente aos brasileiros as migalhas que lhes pareceram banquetes em 2003/2006  (o agravamento da crise capitalista já não o permite!), a chance será enorme de advir nova derrocada como a ocorrida sob Dilma, capaz de ensejar outra ressurreição da ultradireita. Ou seja, nos arriscaríamos a continuar patinando sem sair do lugar até sabe-se lá quando.

Se o misógino-mor sair da parada, ainda dá tempo para outro(a) candidato(a) chegar ao 2º turno e derrotar Lula na arrancada final. Aí destravaríamos a História e, contra um(a) presidente com propostas de governo mais modernas (é difícil imaginarmos algum presidenciável viável que não as tenha melhores que as do ex-metalúrgico e as do ex-militar), a esquerda seria obrigada a finalmente sair da zona de conforto, reciclar-se e passar a desenvolver uma atuação compatível com os desafios que enfrenta no século 21.

No mínimo precisamos assumir, como bandeiras fundamentais de uma esquerda renovada:
— a substituição dos combustíveis fósseis pela energia limpa, ao invés de se despejarem mais recursos na Petrobrás de todos os petrolões e da contribuição kamikaze para o fim da espécie humana; e 
— a autogestão das empresas alternativas à ganância capitalista, ao invés da reestatização das já privatizadas e do reforço às que continuam estatais. 

Livrarmo-nos do principal responsável pelo extermínio de centenas de milhares de brasileiros durante a pandemia é um indispensável passo inicial.
 
Precisamos, no entanto, ter clareza quanto ao fato de que a tarefa não terminará por aí. Longe disto. (por Celso Lungaretti) 

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

GUERRAS CONVENCIONAIS ESTÃO A UMA BOMBA DE DISTÂNCIA DO APOCALIPSE/2

(continuação deste post)
E
sta é a razão de estar existindo neste instante uma tensão tenebrosa da guerra nuclear.

A Ucrânia tem laços históricos com a grande Rússia, o mesmo acontecendo com Taiwan, a antiga Ilha Formosa (nome dado pelos primeiros colonizadores, os portugueses, depois substituídos pelos holandeses, chineses e japoneses). 

Com a vitória da revolução maoísta em 1949, os derrotados nacionalistas de Chiang Kai-shek, em fuga, ali se instalaram sob uma perspectiva burguesa tradicional.

Mas as diferenças político-ideológicas permaneceram latentes até o presente momento, no qual a importância estratégica da Ucrânia e Taiwan no campo da economia fez eclodir o desejo de dominação que sempre permeia as potências econômicas capitalistas, seja sob um regime ditatorial capitalista de mercado como a Rússia, ou seja de um capitalismo de mercado dito comunista como a China.

Por sua vez, o mundo ocidental capitalista burguês hegemônico, dos Estados Unidos e União Europeia, que está em franca decadência como tal, não quer abrir mão da sua influência sobre estas duas nações pouco populosas, mas estrategicamente importantes no cenário mundial.

A Ucrânia é celeiro de um grande número de nações que precisam consumir o seu trigo e milho, os quais, embora tenham baixo valor agregado, são fundamentais num mundo no qual cresce o fantasma da fome, seja por conta do empobrecimento populacional mundial, seja por conta do aquecimento global que vem causando transtornos na produção de alimentos.

Taiwan, por sua vez, mesmo sendo uma ilha de apenas 35.881 km², coloca-se como a 21ª economia mundial. Tem renda per capita de $ 53.074 PPC (2018), constituindo-se numa das maiores do cenário mundial graças à exportação de equipamentos eletrônicos. 
Chineses veem Taiwan como parte do seu território, 
daí considerarem  "provocação" a ida à ilha de Nancy
Pelosi, presidente da Câmara dos Deputados dos EUA

Só as companhias United Microelectronics e Taiwan Semiconductor Manufacturing, fundadas respectivamente em 1980 e 1987, têm capitalização de mercado que responde por cerca de 90% do PIB de Taiwan.

A TSMC, ademais, já é a oitava maior empresa de tecnologia do mundo e a principal fabricante mundial de semicondutores, superando a Intel e a Samsung.

Ora, não se precisa fazer grandes exercícios de análise para se concluir o que está subjacente à guerra pelo domínio político-econômico destas duas nações que tentam se proclamar independentes num mundo capitalista no qual todos os grandes países e blocos político-econômicos querem, isto sim, subjugar aqueles que não detêm a mesma força bélica.

A tensão atual de guerra, que por enquanto se restringe à guerra convencional, pode resvalar para um conflito nuclear até mesmo por um erro banal de gerenciamento, como declarou recentemente o secretário-geral da Organização das Nações (des)Unidas.

Os conflitos nestas duas localidades próximas da Rússia e da China apenas repetem aquilo que antecedeu as duas grandes guerras mundiais: a tentativa de reconfiguração do mapa da hegemonia político-econômica pela força bélica, que representa a certificação do estágio intelectual atrasado sob o qual ainda estamos atrelados.

É que, como diz o velho ditado popular, em casa que falta pão, todos brigam e ninguém tem razão. (por Dalton Rosado)
Chico Pio é o intérprete deste bolero do Dalton
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