sábado, 28 de maio de 2022

JOGO DE ASSASSINOS: NA VIDA REAL E NO CINEMA!

TRUCULÊNCIA E INÉPCIA 
Os agentes que detonaram uma bomba de gás lacrimogêneo dentro de uma viatura e mataram Genivaldo de Jesus Santos por asfixia sabiam o que queriam quando o jogaram no porta-malas do veículo.

Imagens produzidas por testemunhas que filmaram a cena com seus celulares mostram que o homem se agitava enquanto ficava sufocado com a fumaça e os policiais o forçavam a recolher as pernas.

É possível ouvir os gritos da vítima com nitidez num dos vídeos, que registra sua agonia até o momento em que o corpo inerte deixou de opor resistência e os agentes fecharam a porta traseira.

Santos, 38, morreu na última 4ª feira (25) em Umbaúba (SE), a 100 quilômetros de Aracaju, após ser parado pela Polícia Rodoviária Federal por dirigir uma motocicleta sem o capacete obrigatório.

Três agentes participaram da brutalidade, e caberá agora à Polícia Federal apurar responsabilidades. 

Não faltam testemunhas do episódio, e há fartas evidências para confrontar as canhestras explicações oferecidas pelas autoridades nas primeiras horas.

Os policiais disseram que o uso da força e o gás lacrimogêneo foram necessários para conter Santos após a abordagem. As imagens mostram que ele foi revistado sem reagir. Antes de ser jogado na viatura, foi imobilizado no chão e teve mãos e pés amarrados.
Nem todos os que andam sem capacete
recebem a punição que mereceriam...
 

Os agentes afirmaram que o homem sofreu um possível mal súbito quando era conduzido à delegacia e por isso o levaram ao hospital. Médicos que receberam Santos disseram que ele chegou morto. O laudo oficial apontou asfixia mecânica como causa da morte.

Chocante, o amadorismo dos policiais envolvidos na ação torna-se alarmante quando se constata que sua corporação ganhou impulso significativo após a chegada de Jair Bolsonaro ao poder.

Criada com a missão de patrulhar as rodovias federais, ela passou a fazer barulho com apreensões de drogas e produtos contrabandeados e teve suas atribuições ampliadas, recebendo recursos para participar de operações ostensivas e investigações ao lado de outras forças de segurança.

A mais recente dessas ações ocorreu na 3ª feira (24), quando membros do batalhão de elite da Polícia Militar do Rio e agentes da PRF foram a uma comunidade da cidade, a Vila Cruzeiro, supostamente à procura de traficantes, e 23 pessoas morreram. 

O despreparo profissional anda junto com a truculência. (editorial deste sábado, 28, da Folha de S. Paulo)
O jogo de assassinos na vida real foi mais uma abominação do circo
do Bozo. Já o do cinema, dirigido por Albert Pyun em 1997,
é também doentio, mas tem lá o seu charme bizarro e
o carisma de Christopher Lambert e Ice-T

O PT JÁ FEZ DISCURSOS IRADOS CONTRA O VOTO ÚTIL NO 1º TURNO

"Nada mais sem sentido do que a tese de que os partidos de esquerda devem apoiar [Mário] Covas para derrotar [Paulo] Maluf"
.
 (Zé Dirceu em 1998, repelindo o voto útil no 1º turno
da eleição para o governo de São Paulo; hoje, contudo,
PT promove um verdadeiro arrastão para forçar
voto útil contra Jair Bolsonaro já no 1º turno)

sexta-feira, 27 de maio de 2022

TÃO INVISÍVEL ELE ERA QUE NINGUÉM O VIU MORRENDO NUMA CÂMARA DE GÁS

luís augusto simon
GENIVALDO, UM BRASILEIRO QUE ESTAVA NO PAÍS ERRADO
G
enivaldo era Confiança?

Ou Genivaldo era Sergipe?

Genivaldo era Flamengo desde criancinha? 

Ou Vasco? 

Palmeiras? 

Corinthians? 

Genivaldo era ponta? 

Ou zagueiro? 

Comia macarrão com arroz? 

Ou Genivaldo adorava uma moqueca? 

Genivaldo votaria no Bolsonaro? 

Ou era Lula roxo

Talvez, Ciro? 

Assistia a Pantanal ou jogava truco?  
Gostava de Kung Fu ou sonhava ser bailarino?

Queria ter um filho ou se alistar no Exército Vermelho? 

Se lambuzava com jaca ou pedia pra mulher fazer creme brulèe

Ninguém sabe. 

Genivaldo era um brasileiro invisível. 

Só ficou conhecido quando virou estatística. 

Mais um brasileiro morto numa abordagem policial. 

Genivaldo morreu numa câmara de gás em praça pública. 

Em Umbaúba. 

Estava na rua errada. Na hora errada. 

Como todos nós, estava num país errado. 

Como todos nós, algum dia pensou estar no
país do futuro

Estava no país distópico. 

No país do lodo. 

Descanse em paz, Genivaldo!
.
(por Luís Augusto Simon, o Menon do jornalismo esportivo)

quinta-feira, 26 de maio de 2022

TIRAR O BODE DA SALA RESOLVE?

C
omo ficaria a conhecida fábula do bode na sala, se a adaptássemos a estes tempos esquisitos que estamos vivendo? Abaixo está uma versão possível.

Um camponês ingênuo de aldeia, amargurado com sua miséria, aconselha-se com um sábio, rogando uma solução para a vida insuportável que leva. 

Recebe o conselho de colocar um bode fedorento no meio de sua pequena casa, e voltar quatro anos depois. 

Obediente (mesmo relutante), o camponês arruma um bode velho e faz tudo como foi determinado. Anos depois, a situação familiar já era de completa neurastenia nervosa e todos estavam a ponto de se matarem.

Aí, finalmente esgotou-se o prazo daquele suplício e o camponês voltou a se reunir com o sábio. E, inquirido sobre como iam as coisas, o humilde camponês desabafou: vivia um inferno, pois tudo havia piorado e todos estavam à beira de um esgotamento nervoso, tendo as agressões e o ódio aumentado com o uso indiscriminado de mensagens pelo celular. Cada um culpava o outro pela miséria em que todos viviam.

Acrescentou que:
— estavam passando fome por causa da inflação; 
— a mulher já não encontrava nenhuma roupa para lavar, pois seus antigos fregueses tinham comprado máquinas de lavar; 
 o filho menor voltava todo dia pra casa com as mãos vazias, após não ter conseguido vender as cocadas feitas pela sua mãe naquele fogão velho à lenha que sufocava a todos com a fumaça (o gás estava a preços proibitivos!); 
 a filha menor, de 15 anos, havia deixado de estudar, pois o ônibus que transportava os alunos enguiçara e não havia mais transporte para a aldeia mais próxima que possuía escola; 
 ele mesmo, agricultor calejado, já não podia plantar nas terras alheias porque estavam mecanizada;
 o Auxílio Brasil não dava para resolver os seus problemas de aluguel; compra de alimentos cada vez mais caros e remédios, idem (as doenças haviam aumentado por conta de pouca alimentação e das fezes do bode); gastos com transporte; consumo de água (estavam tendo de beber água do ribeirão, sem tratamento) e de energia elétrica (a eletricidade havia sido cortada por falta de pagamento), etc. 

Mas afirmou que o mal maior era o bode na sala, que empesteava tudo com seu odor e ainda obrigava o camponês sem forças a arranjar capim para alimentá-lo. 

Foi então que o empertigado sábio, acariciando a longa barba que lhe emprestava um ar de erudição e sapiência, aconselhou que retirasse o bode da sala e voltasse no fim do ano. 

Mais uma vez obediente e esperançoso, o camponês retornou a sua casa e soltou o bode que já estava impaciente e berrando incessantemente, após quase quatro anos em cativeiro doméstico.

Quando se viram de novo em dezembro, o camponês disse ao sábio que sua vida estava bem melhor, só que:
— 
o seu filho virara miliciano, andava armado e saía em motociatas com os amigos, mas estava descolando um grana preta
— a sua mulher se encarregava de levar uns fios de cobre estranhos (desses dos postes) que alguém lhe pedira para vender, com comissão, para a reciclagem, pagando-lhe muito bem, mesmo sem ela saber de onde eles vinham;
 a sua filha, ainda menor, se prostituíra e agora já nem vinha mais dormir em casa, o que aliviava o espaço diminuto daquele casebre em que mal cabia a família;
— ele, agricultor sem instrução, entrara para a fila do mutirão do emprego, tentando obter uma vaga de vigia na cidade grande mais próxima, um nicho de emprego que crescera contra os frequentes roubos de lojas que vinham ocorrendo na aldeia. 

De certa forma estava aliviado, pois, mesmo sem ter tomado cloroquina, não tinha morrido de covid, ficando fora da lista de óbitos de muitas pessoas que conhecia (até gente graúda!).

Com todo mundo se virando nos trinta depois da saída do bode, a vida havia melhorado um pouco, exceto numa coisa: a polícia e uns tipos mal encarados estavam rondando a sua casa e ameaçando toda a sua família de morte. 

Então, angustiado e sem saída dentro do que julgava ser comportamento honesto, perguntou ao sábio, o que era melhor: morrer de covid, de bala ou de fome? 

O sábio, esperto e sabendo que a retirada do bode nada resolveria, respondeu-lhe: espere pelas próximas eleições. (por Dalton Rosado)
O Dalton Rosado compôs, o Gomes Brasil interpreta.

quarta-feira, 25 de maio de 2022

SAIO DO PSOL. ALIVIADO, MAS TRISTE.

Em junho/2012 escrevi que estava dando o primeiro
passo de uma longa caminhada. Fui otimista demais
P
or uma questão de coerência com toda a minha trajetória revolucionária, acabo de me desfiliar do Partido Socialismo e Liberdade.

A convite de um assessor de Carlos Giannazi, então candidato a prefeito de São Paulo, nele ingressei  em 2012 para disputar a vereança. 

Meu objetivo era utilizar o mandato para criar uma central de denúncias das maracutaias e descalabros não só da administração municipal, como também da estadual e federal.

Não vou recordar agora as decepções que me levaram a abandonar, tão logo as urnas se fecharam, a militância ativa. Mas, como continuava respeitando os princípios do Psol, optei por não me desfiliar, apenas me afastar.

Agora, contudo, não deu mais pra segurar. Lamento pelos bons companheiros que conheci lá, porém nada mais me ligava a um agrupamento político que pretendia ser uma alternativa ao Partido dos Trabalhadores e, melancolicamente, regrediu a força auxiliar do PT, cuja direitização não cessou de aumentar ao longo dos últimos dez anos. 

Fiz minha opção revolucionária no início de 1968, após passar parte das férias escolares aprendendo marxismo ao lado de outros interessados. No semestre anterior havia começado a atuar politicamente na minha escola, o Colégio Estadual MMDC, na Mooca (zona leste paulistana).
Mesmo ressabiado, tentei. O que mais 
podia fazer, remando contra a corrente?
Ao final, convidado a ingressar no agrupamento revolucionário a que pertencia o Zé Dirceu, a chamada Dissidência Universitária, aceitei. Mas, não tendo chegado a um acordo sobre associação com Carlos Marighella, ela não se considerava um partido, daí ter relutado em absorver organicamente nossas bases. Passamos o ano inteiro atuando no movimento secundarista com o apoio da Dissidência, mas sem nela estarmos integrados.

O certo é que já comecei (e dele nunca saí) no campo da esquerda socialista, que não via necessidade de uma etapa democrático-burguesa e mirava a superação imediata do capitalismo, tendo como sujeitos revolucionários os assalariados da cidade e do campo. 

Já os adversários pregavam uma revolução popular, com papel destacado do campesinato que, segundo eles, estaria disposto a lutar pela propriedade privada da terra por ele cultivada, mas não pelo cultivo conjunto dessa terra em bases solidárias.

E o primeiro programa teórico que redigi na vida foi a plataforma da Frente Estudantil Secundarista para o congresso da União Paulista dos Estudantes Secundaristas, em que, baseado no texto famoso da Rosa Luxemburgo, caracterizei nosso lado como revolucionário e o outro lado como reformista. 

Meio século depois, mantenho a firme convicção de que nosso papel é darmos um fim à exploração do homem pelo homem, ao invés de apenas a suavizarmos com a distribuição aos explorados de algumas migalhas do banquete capitalista. Então, não teria como continuar nesse Psol de 2022. 

O importante é que nossos princípios sobrevivam! (por Celso Lungaretti)
    

terça-feira, 24 de maio de 2022

ALÍVIO NA ECONOMIA DARIA FÔLEGO AO BOZO EM SUA AGONIA? ESTÁ DESCARTADO!

Nem reeleição, nem golpe. O que os meses restantes de 2022 reservam para o genocida é uma derrota eleitoral acachapante, com grande chance de não chegar sequer ao 2º turno; e um fracasso retumbante se tentar reproduzir a invasão do Capitólio, pois flopará como a micareta golpista do último 7 de setembro.

A quartelada de 1964 vingou porque os EUA, sob a presidência do caipirão Lyndon Johnson,  a respaldaram; porque os poderosos que davam as cartas na economia brasileira a incentivaram; e porque  a alta oficialidade das Forças Armadas se apavorou com a contestação que sofria dos subalternos. O apoio de uma classe média altamente manipulável pela Igreja e pela mídia foi só a cereja do bolo.

Hoje, Joe Biden  e os principais governantes europeus querem mais é entenderem-se com o sucessor do celerado, que é ruim para os negócios do capitalismo globalizado e, pessoalmente, exala um mau hálito insuportável para eles, ao apoiar  invasões disparatadas, criticar-lhes as esposas  e alinhar-se com seus adversários nas eleições.

Os empresários a bordo do trem fantasma do palhaço sinistro, por sua vez, são os vira-latas do capitalismo, que querem liberdade de ação para destruir a Amazônia, as reservas indígenas e tudo que lhes proporcionar lucros estratosféricos e imediatos, deixando depois uma terra arrasada atrás de si. Os que têm visão de médio e longo prazos já estão trocando figurinhas com o Lula na surdina.

Se há algo que as Forças Armadas aprenderam com a agonia lenta do regime militar na década de 1980 é que não lhes convém governar o Brasil quando a economia está estagnada. Trata-se exatamente do cenário que ora se vislumbra. 

Se não acreditam em mim, ouçam o que o presidente do Bradesco,  Octavio de Lazari Jr., disse nesta 2ª feira (23) a jornalistas que cobriam o Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, segundo noticiou Luciana Coelho na Folha de S. Paulo:
 
"Acredito que a inflação vá continuar persistente neste ano todo, e a expectativa é que ela comece a ficar mais controlada a partir do ano que vem. Isso globalmente, e no Brasil em especial.

O mundo todo está preocupado com o que está acontecendo com o fornecimento das cadeias globais de suprimentos, então isso enseja uma preocupação ou uma expectativa de continuidade da inflação por mais tempo. 

E isto de fato deve acontecer, até que você restabeleça todas as cadeias de suprimentos globais, que é o que precisa ocorrer efetivamente para que você tenha o melhor controle da inflação, que hoje é de oferta, não de demanda. 
Você ainda tem o problema da pandemia, que tem uma influência relevante, e o problema da guerra [na Ucrânia], que também tem influência importante porque tanto a Ucrânia quanto a Rússia são produtores importantes de matéria-prima e de produtos exportáveis
"
.

Trocando em miúdos: as eleições de outubro transcorrerão com nossa economia no fundo do poço e, ao tentar travar canhestramente aumentos como o dos preços de combustíveis, o pária, além de não reconquistar a classe média, vai aumentar o receio que os poderosos da economia têm da gestação de um novo Chávez. 

No seu desespero de véspera de derrota, o pior presidente brasileiro de todos os tempos só consegue acelerar a própria desconstrução. Sem o apoio dos que o empurraram para cima com disparos ilegais de fake news e facadas cenográficas, ele se tornará, a partir da posse do Lula, exatamente o que era antes de fabricarem-no como presidente.  

Antes que volte a ser nada, deveria é estar negociando alguma saída honrosa, que lhe garantisse ao menos a impunidade para si e seus rebentos. Mas, falta-lhe discernimento até para isto. (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 23 de maio de 2022

A HOMOFOBIA NO CLÁSSICO, O IDENTITARISMO E OUTRAS MAZELAS

S
ou neto de italiano por parte de pai e bisneto por parte de mãe. Mas as raízes familiares, se me influenciaram em algo, foi pouco, porque me chegaram bem diluídas. 

Mesmo meu pai, que ficou órfão aos 11 anos, só aprendeu a arranhar o idioma porque era empregado de um grande cotonifício cujo proprietário, dirigentes e muitos colegas de trabalho tinham origem italiana.

Então, eu diria que pesaram muito mais na formação da minha personalidade os filmes humanistas e irreverentes que os italianos produziam nas décadas de ouro de1960 e 1970.

Assisti a boa parte deles e me senti traído quando, defendendo a liberdade do escritor Cesare Battisti, percebi que a outra face do povo italiano (a prostração infantilizada a homens fortes como Mussolini, Berlusconi e Salvini) atravessava os tempos, sobrevivendo à derrocada fascista na 2ª Guerra Mundial. 

Enfim, por temperamento e reações, desde cedo pareço me reger pelo bordão aristotélico a virtude está no meio. A ponto de quem me conhecia apenas pelos textos às vezes estranhar quando constatava que eu pessoalmente me assemelhava mais aos brasileiros cordiais de outrora do que aos estereótipos de revolucionário inflamado.

Mas, aí entrava a minha formação teórica: aos 17 anos já estava careca de saber que as soluções intermediárias nada resolvem na política brasileira, pois a desigualdade e o autoritarismo estão de tal forma entranhados que só uma transformação em profundidade fará com que os brasileiros em si se transformem em brasileiros para si

Daí eu nunca, nem mesmo durante a ditadura militar, ter-me sentido tão peixe fora d'água como neste terrível retrocesso civilizatório que vem desde que os erros crassos do PT ensejaram a volta triunfal da ultradireita ao poder na segunda metade da década passada, encorpada como nunca, embora ainda minoritária.
E o que me parte o coração é ver a esquerda reagir da pior maneira possível, estimulando o ódio e a polarização, ao invés de defender o legado civilizatório que deveria estar personificando. 

É fácil acusar o bolsonarismo de único responsável pela barbárie atual, mas, com sua ojeriza extremada à autocrítica, o PT omite que foi assim que combateu os tucanos no passado, recorrendo às mentiras e às meias-verdades para desqualificá-los, já que desertara do front revolucionário. 

Abdicou da superioridade moral indiscutível que detínhamos como marxistas ou anarquistas e acabou tornando as eleições meras escolhas do mal menor.

E também me deixa agoniado perceber que a confusão grosseira entre adversário e inimigo se irradia para todos os lados, a ponto de os piores preconceitos agora estarem envenenando até as torcidas de times de futebol com as melhores tradições, como a do Corinthians.

Sim, o Corinthians que, fundado em 1910, apenas duas décadas após o fim da escravidão, logo tentava incluir um jogador negro no seu time de futebol, o que foi vetado pela liga paulista, mas voltou à carga em 1919 e conseguiu inscrever o goleador Bingo.

E o Corinthians que brilhou não só na luta contra a ditadura militar como também no enfrentamento do autoritarismo no plano esportivo, graças a Sócrates e seus companheiros. Os gritos homofóbicos de parte de sua torcida no clássico deste domingo (22) contra o São Paulo devem ter feito o doutor revirar-se na cova.

Também aí percebo que chegamos a um beco sem saída. Há flagrantes excessos por parte dos que combatem os preconceitos tão inflexivelmente que tentam cancelar as criações populares do passado. Versos que outrora eram meramente singelos agora são fulminados como verdadeiras heresias a serem apagadas da linha do tempo.

Mas existe, por infelicidade, o outro lado: antigamente ninguém agredia e matava por causa deles, hoje há quem o faça. E isto hoje acaba  justificando um retrocesso civilizatório de outra espécie, mas igualmente lastimável. 

Eis alguns exemplos, extraídos de sambas e marchinhas carnavalescas:
— "Você só pensa em luxo e riqueza/ Tudo que você, você quer/ Ai, meu Deus, que saudade da Amélia/ Aquilo sim é que era mulher" (de Mário Lago e Ataulfo Alves, 1942);
— "Nega do cabelo duro/ Qual é o pente que te penteia?/ Qual é o pente que te penteia?/ Qual é o pente que te penteia?" (de Ary Barroso,  David Nasser e Rubens Soares, 1942);
— "Olha a cabeleira do Zezé/ Será que ele é?/ Será que ele é/... Será que ele é transviado?/ Mas isso eu não sei se ele é" (de João Roberto Kelly, 1963);
— "Tá na cara/ Não minta/ Você já passou dos trinta" (de uma marchinha de carnaval hoje esquecida);
"Maria Sapatão/ Sapatão, Sapatão/ De dia é Maria/ De noite é João" (de João Roberto Kelly, 1981);
"A pipa do vovô não sobe mais/ A pipa do vovô não sobe mais/ Apesar de fazer tanta força/ O vovô foi passado pra trás" (de Manoel Ferreira e Ruth Amaral, na década de 1980);
"A mulher do branco é esposa/ E a esposa do preto é mulher/ Mas minha mulher é só minha/ A do branco eu não sei se só dele é" (de César Roldão Vieira, provavelmente em 1965).

A política já chegava a ser amiúde um terreno minado, mas, quanto ao resto, bons tempos eram aqueles em que essas besteirinhas eram levadas na galhofa pelos demais e na esportiva pelos que se encaixavam em tais estereótipos, 

Agora, são tantos os terrenos minados que já nem sabemos mais onde pisar! (por Celso Lungaretti)

domingo, 22 de maio de 2022

ARTIGO PARA LER E REFLETIR (O BRASIL AGONIZA NO BECO SEM SAÍDA DA POLARIZAÇÃO)

luiz felipe pondé
BOLSONARISTAS SÃO BATEDORES DE
 CARTEIRA E O PT É GANGUE SOFISTICADA
B
olsonaristas são uma quadrilha de batedores de carteira, milicianos e praticantes de rachadinha

O PT é outro nível. Com o DNA do sindicalismo bandido com metafísica social, o PT é uma gangue sofisticada.

Rouba com garfo e faca e com discursos intelectuais quando Haddad passa, ciclistas revolucionários e estudantes de humanas soltam suspiros profundos. 

Conta com a bênção de muitos membros da elite, retomará o poder e vai remontar suas redes de corrupção. Artistas ficarão emocionados e jornalistas conterão o gozo no canto dos lábios.

Bolsonaristas veem a si mesmos como machos alfa a andar de motocicleta por aí. 

Se você é simpatizante do Lula, você vê a si mesmo como um ser evoluído, com altíssima consciência cósmica e amor à humanidade.

Se você não abraça nenhum dos polos da corrupção acima descritos, terá zero opção nas eleições para presidente neste ano. 

Ou vota nulo e resguarda sua consciência, o que de nada adianta quanto à miséria política do país mas, dirão os mais céticos, "um voto não faz nenhuma diferença mesmo". 

Ou tapa o nariz e vota no que você considera menos fedido. O odor de ovo podre exala das duas opções. A miséria política brasileira tocou o fundo do poço.

Estamos no mato sem cachorro. Para apoiar Bolsonaro, você tem que ser uma espécie de estúpido raivoso e cego. Para apoiar Lula, você tem que ser um obcecado ideológico ou um mentiroso contumaz.

A 3ª via descortinou essa mesma miséria. Um desfile de vaidades indiferentes ao destino do país. Afoitos em adiantar alguma vantagem para suas carreiras e seus partidos enfim, sua sobrevivência, mesmo na inviabilidade da vitória, os candidatos da 3ª via nunca quiseram ser uma opção viável, mas apenas aparecer para projetos futuros.

Não têm nenhuma cerimônia em entregar o país a um dos dois lixos que concorrem à presidência. A sensação que se tem ao olhar para os ex-candidatos da 3ª via é a de assistir a um desfile de Napoleões loucos numa ópera bufa.

A elite econômica nunca se preocupou com o país. Somos uma vaca leiteira para aumentar suas riquezas. Farão, como sempre fizeram, acordos com os canalhas da vez. 

O cidadão brasileiro continuará vivendo entre assaltos, craqueiros, inflação, fome, picaretas progressistas e reacionários que babam na gravata.

Os militares, infelizmente, demonstraram avidez pelo poder e pequenez histórica. Antes do governo Bolsonaro, haviam amealhado uma boa posição na opinião pública. Depois do governo Bolsonaro, ficaram com cara de homem inseguro em busca de provas públicas de sua condição de macho.

Com Bolsonaro, gozam muitos evangélicos, milicianos e ladrões de galinha, destruidores da Amazônia, dos índios, num arco de liberalismo estúpido que destrói um patrimônio essencial a serviço da gang do garimpo.
Com o PT, todos os inteligentinhos gozarão ao voltar finalmente ao poder e poderão roubar o Estado com discurso progressista.
A classe teatral poderá fazer o L com os dedinhos como se estivessem resistindo a ditaduras de alto risco em seus palquinhos. Se bolsonaristas cospem quando falam, simpatizantes do Lula choram, emocionados, com a própria sensibilidade fake.

Há que se reconhecer que, com o Lula, a imagem internacional do Brasil deverá melhorar um pouco. A política é um circo, seja em que nível for, do município à ONU.

Bolsonaro é um palhaço pró-ditadura, Lula, um político datado que traz no seu portfólio lutas contra a ditadura. Um saldo pobre para um país cansado no mato sem cachorro.

Dirão que não há saída fora da política –e não há mesmo, por isso estamos sem saída. Não há alternativas que não passem, de alguma forma, pelo fim da picada. O Brasil parece um paciente terminal, com uma classe política que nos asfixia.

O PT, que dominou o cenário político partidário pós-ditadura, é uma gangue. Deverá voltar ao poder nas eleições deste ano –salvo algum acidente de percurso– e voltará a roubar, ainda que com algum verniz. 

E voltará a perseguir todo mundo que não rezar no seu altar, como fez em governos anteriores, apesar de posar de democrático. (por Luiz Felipe Pondé)
TOQUE DO EDITOR – Quanto à crítica ao que está aí, tem tudo a ver. 

Mas, se o capitalismo se aproxima a passos largos do fim da linha e a democracia burguesa cada vez mais se evidencia como um tapume colorido atrás do qual se escondem os cordéis da ditadura do poder econômico, é certo que estamos entrando num período totalmente imprevisível da história da humanidade, que tanto abrirá janelas revolucionárias como poderá consumar o fim da nossa espécie.

O quadro é mesmo o que Pondé exibiu. No entanto, depende de nós aproveitarmos tais janelas revolucionárias para garantir que continuará existindo um planeta para nossos filhos, netos e bisnetos viverem. E não será com amargor e ceticismo que salvaremos algo do incêndio.

O Pondé tem, contudo, o mérito de afastar as ilusões simplórias, que não nos servem de nada. Graças a elas, nos encaminhamos  para trocar o retrocesso à Idade Média pelo retrocesso ao pré-1968, numa grotesca alternância entre governos bonzinhos (mas coniventes com a dominação burguesa) e governos malvadões (que a impõem a ferro e fogo).
Ou voltamos a andar para a frente ou acabaremos enterrados nesse pântano em que nos debatemos desde 1985, abraçados aos cadáveres putrefatos do reformismo e do populismo.
 
.
(por Celso Lungaretti)

sábado, 21 de maio de 2022

ATENÇÃO, MILITARES: "ACORDO DE BOCA" BOZO-MUSK É ATO DE LESA-PÁTRIA!

jânio de freitas
A AMAZÔNIA SAINDO DO BRASIL 
A
s Forças Armadas estão postas por Bolsonaro, determinados militares e empresários sob um teste que não espera aquele a que responderão nas eleições. 

Até que o resolvam, estão invadidas por uma contradição interna que as deixa à mercê de interesses descomunais. E nisso arrastam o próprio país, estando em jogo riquezas nacionais de grande importância e a própria segurança territorial brasileira.

É notório que o centro da visão geopolítica dos militares está na presumida ambição dos países-potências de apropriar-se da Amazônia. Ideia fixa no Exército, daí vem o descaso pelas questões ambientais amazônicas e pelos indígenas, predominando a concepção de um território protegido por ocupação de pecuária, agricultura extensiva e mineração. 

Os Estados Unidos são o motivo maior da suposição militar, apesar de citados apenas em situações de especial reserva, por conveniência até da sedução que suscitam nos integrantes das Forças Armadas. Bolsonaro e seu governo levaram a aplicação da proposta militar para a Amazônia ao nunca imaginado. Não só em razão da influência do Exército na composição e na orientação governamentais. 

Há também as facilidades para exploração criminosa da riqueza natural por garimpeiros ilegais, madeireiros idem, contrabandistas, invasores de terras indígenas e do patrimônio público para fazendeiros e agroindustriais. E, criação no atual governo, a interseção de milícias urbanas nessa criminalidade amazônica. 

Agora se arma o grande avanço. Ou, mais claro, inicia-se a perda da Amazônia. 

A reunião de Bolsonaro, vários dos seus generais e uns tantos empresários com Elon Musk não foi para ouvir um dos homens mais ricos do mundo, se não o mais, de extrema direita, grande aliado de Donald Trump. E, nas últimas semanas, presença diária no noticiário com sua duvidosa compra do Twitter.

Nem é para se acreditar na informação de que só na 5ª feira (19), véspera do encontro, Bolsonaro decidiu estar presente com seus generais: Fábio Faria, ministro das Comunicações íntimo das transações de Bolsonaro, foi um dos articulares da trama, ou farsa, Musk-Planalto-empresários.

Musk veio ao Brasil para receber, sob as aparências de um acaso feliz, o que levou para os EUA. É notória a caça de metais preciosos e outros para inovações nas indústrias estadunidenses de carros elétricos e de exploração espacial privada, por foguetes, satélites e telecomunicações. Três entradas no futuro, nas quais Musk é a figura proeminente no mundo.

Como se tudo fossem entendimentos ali mesmo descobertos e consumados, em algumas dezenas de minutos, Bolsonaro comunicou ao país acordos de boca pelos quais ficam contratadas empresas de Musk para monitoramento da Amazônia por satélite; para telecomunicações lá e em outras regiões, e a ele concedido o uso explorativo das informações detidas por órgãos brasileiros sobre o território amazônico, natureza, solo e subsolo.

"Não tem contrato, é um acordo. Vamos facilitar tudo. Com ligeireza e desburocratização" e por aí foi Bolsonaro, com sucessivas repetições e ênfases.

Diante de ministros, dentre eles o Dias Toffoli do Supremo, cidadãos escolhidos, e generais até colaborativos como o comandante da Aeronáutica, brigadeiro Carlos Almeida Baptista Jr. (que pôs à disposição de Musk a base de Alcântara para lançamentos espaciais).

O monitoramento é mentira bruta. O país já conta com linhas múltiplas desse serviço. Citações imediatas, o competente Instituto Nacional de estudos espaciais e o Sistema de Vigilância da Amazônia entregue por Fernando Henrique, em licitação violentada, à estadunidense Raytheon –a "pedido de Bill Clinton", como informou sem cerimônia alguma.

Acordo de boca para empresas de Musk devassarem, por satélite e por meios terrenos, o maior patrimônio natural do território, sobretudo a sua riqueza mineral, de importância decisiva para o amanhã do país. 

Acordo de boca, de pessoa a pessoa, sem interveniência de qualquer das instituições oficiais ao menos como consulta. 

Acordo de boca para interesses estrangeiros fazerem na e da Amazônia o que quiserem, como se o território deixasse de ser brasileiro, passando ao domínio de fato de poderes externos, situação de território ocupado. As empresas estadunidenses no exterior estão sob o compromisso, compulsório, de sujeitar-se ao alegado interesse nacional dos EUA.

Tal acordo é ato de lesa-pátria. Implica violação de exigências constitucionais, contraria os interesses nacionais permanentes (expressão da linguagem militar) e configura violação da soberania sobre parte do território. 

É a transformação, do hipotético à realidade pretendida, da visão que por mais de meio século, foi geradora do chamado pensamento geopolítico das Forças Armadas. 

Até a 5ª feira, 19 de maio. Desde de aí, as Forças Armadas estão em contradição, entre sua premissa orientadora e, de outra parte, a tolerância, ou apoio, ou comprometimento com ação oposta, cometida pelo ex-capitão com o qual se identificam.

O que emergirá da contradição não se prevê, e não cabem otimismos. Nem se sabe o que esperar dos poderes do Congresso desconsiderado e do Judiciário na guarda da Constituição. Sabe-se, isso sim, que a fortuna excessiva e os meios conhecidos e desconhecidos de Musk estarão muito interessados em vitória de Bolsonaro sobre Lula. 

Aos golpes militares sobreveio o golpe parlamentar contra Dilma; Moro e Dallagnol deram o golpe eleitoral com incentivos externos, e agora prenuncia-se o golpe financeiro-eleitoral. 

Sempre disseram que o brasileiro é muito criativo. E emotivo: saudade da Amazônia. (por Jânio de Freitas)

sexta-feira, 20 de maio de 2022

A VIDA É AVESSA À ECONOMIA

Todos os raciocínios partem, hoje, de um único pressuposto: a retomada do crescimento econômico. 

Todos os segmentos políticos querem mais dinheiro, que somente poderá vir se a economia deslanchar.

Todos os partidos políticos, idem.

Todas as instituições criadas e formatadas para a manutenção do capital criam sofismas sobre a ideia do dinheiro como mero instrumento, tal qual uma faca que pode cortar ou alimento que sacia a fome ou um corpo ferindo-o de morte, dependendo do seu bom ou mau uso (e, com isto, desviam o foco da essência da negatividade intrínseca ao dinheiro).   

Todas as religiões querem o dízimo, que a bíblia bendiz, ainda que fale do mal representado pelo uso avarento do dinheiro (seguindo o mesmo preceito conceitual equivocado, do dinheiro como mero instrumento). 

Toda arte é mercadoria mensurada pelo valor de troca expresso no dinheiro que a desqualifica.

Todos os trabalhadores querem mais dinheiro: uns fazem greve por ele e outros param a greve por ele.

Todos os ditadores e todos os democratas elogiam o trabalho produtor de valor e dinheiro.
O trabalho infantil nas minas de carvão, quando o
capital não tinha todos os braços de que carecia...

Todos nós acordamos pelas manhãs ou nos mantemos acordados nas noites pela única forma de sustentação que nos é permitida: ganhar dinheiro.

Todos os rentistas estão de olho nas bolsas de valores, em seus alugueis, na variação do câmbio das moedas que guardam sob números bancários, em cofres seguros ou debaixo de colchões.

O crime organizado investe em armas que custam dinheiro para adquirir mais dinheiro com suas atividades criminosas.

Os políticos corruptos querem o dinheiro para o financiamento de suas campanhas, sem o qual eles não se elegem e reelegem, ou para enriquecimento ilícito pessoal; e o eleitor inconsciente aceita o favor em dinheiro ou algo que o represente como forma de obter uma vantagem imediata para seu triste futuro de desventuras anunciadas.

O menino que ainda nem sabe ler, já estende a mão pedindo uma moeda para comprar a guloseima preferida.

A mocinha pobre, que sonha com roupa cara e  tênis de griffe, aquiesce ao beijo fácil sem amor, pela necessidade do dinheiro que lhe servirá de meio para a satisfação do seu desejo de consumo.

O viciado mata e rouba na crise de abstenção para obter o dinheiro que lhe aliviará da crise de abstinência e lhe permitirá aprofundar-se ainda mais na escravidão da dependência.
...e a legião de candidatos a raras vagas (hoje o capital
despeja na rua da amargura os braços de que não carece)

A mãe trabalhadora e desempregada que vê o seu filho chorar faminto, submete-se a pedir dinheiro com o coração aflito e supera a vergonha de, sendo apta para a produção, não ter onde vender sua força de trabalho, porque o capital já tornou a sua aptidão socialmente supérflua.

O trabalhador, sem saber por que lhe falta trabalho, engrossa a fila tortuosa e longa do mutirão do emprego, clamando por obter justamente o trabalho que é fonte do capital e de todo o seu tormento.

Há fome em grandes plantações graças a uma agricultura de escala voltada para a exportação, o lucro e o equilíbrio na balança de pagamentos (leia-se dinheiro), e há terras desocupadas no nordeste do Brasil semiárido em razão de que por lá a produção de alimentos não é competitiva no mercado.

Os governantes, obedecendo às ordens do capital, descumprem os acordos internacionais dos quais são signatários em relação ao controle sobre a emissão de gases poluentes na atmosfera e outros tipos de poluições no Planeta, agravando o aquecimento global.

Pululam favelas e guetos malformados porque o salário, cada vez mais baixo ou inexistente, não comporta a compra da mercadoria terra, para que sobre ela se construam moradias digna e com infraestrutura urbana minimamente aceitável.  

Tanto o capitalista avarento como o capitalista que se pretende generoso enfartam ao verem que já não podem obter os lucros com seus capitais em valores e mercadorias e, com isto, manterem os seus negócios e seus padrões de consumos em face da depressão econômica.
"Mefistófeles belo e radiante que encobre
uma carcaça podre e assassina"

O capitalista explorador, que apenas obedece à lógica do capital como um obediente soldado de uma guerra socialmente perdida, morre de enfarte, enquanto o trabalhador desempregado morre de fome ou  frio.

A criança subnutrida dos países pobres e periferias das nações ricas lançam sobre todos nós aquele olhar desesperado que Van Gogh tão bem captou em suas telas, sem saber por que veio a um mundo tão miserável como o que acaba de conhecer após desembargar da gestação de um útero materno sem os nutrientes necessários.

A mãe de um soldado morto na guerra se debruça sobre um corpo inerte e fardado, tal como as mães pretas choram seus filhos pretos e descamisados após outro massacre numa favela qualquer. 

Ufa!!! 

Será que estou sendo demasiado dramático, ou será o dinheiro algo tão dramático e tão adorado como se fosse a encarnação de um Mefistófeles belo e radiante que encobre uma carcaça podre e assassina?    

Observo, com tristeza, a tristeza dos rostos que se cruzam solitários nas multidões; constato com igual angustia a intolerância do seres humanos com seus semelhantes, ainda que muitos ainda conservem traços de humanidade em seus comportamentos; recuso-me a aceitar passivamente a raiva social generalizada e a falta de delicadeza. 

Mas a vida é avessa ao capital e a toda a sua lógica econômica. Não somos seres produtores de valores monetários, mas seres produtores de vida e que a devem perpetuar por gerações em gerações. 
Ai daquelas infelizes para quem só resta uma
mercadoria com valor de mercado: seu corpo!
Humanos é o que somos, e não
homo oeconomicus.

Não é justo que condicionemos a vida à um único parâmetro de relação social: a obtenção do desenvolvimento econômico. 

Que se dane o PIB; o teto de gastos e o orçamento público; o Estado cobrador de impostos; o valor do câmbio; o valor das mercadorias; o mercado; a bolsa de valores; a inflação; as dívidas públicas e privadas; o trabalho produtor de valor econômico; o próprio valor econômico; e tudo que condiciona a vida à lógica histórica das relações de produção de valor, nada ontológicas. 

Sou incrédulo quanto à possibilidade de superação de problemas num futuro para o qual se quer usar mecanismos errados (como os que anunciam os próximos governantes de hoje, e já anunciaram os governantes de ontem) para consertar aquilo que foi criado negativamente por estes mesmos mecanismos errados. 

Não se pode querer que o pé de laranja dê caju, nem com enxerto.

Vade retro auri sacra fames (Virgílio, Eneida, III – 56-57).  

Que não se dê nada a César, porque nada é devido a César; que se obtenha da natureza tudo que ela é capaz de nos dar, e que distribuamos equitativamente tudo que for produzido socialmente pelos seres humanos e para os seres humanos que ela própria criou, e que possamos chamar a tudo isto de Deus. (por Dalton Rosado)
No mundo inteiro, como no nordeste brasileiro, o capital causa a 
mesma desolação, os mesmos tormentos e as mesmas desgraças
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