domingo, 23 de julho de 2017

LEIA A ANÁLISE, VEJA O FILME: O CULT "JONAS, QUE TERÁ 25 ANOS NO ANO 2000" PROFETIZOU UM NOVO 1968.

A revolução renascerá das cinzas, como a fênix?
“O anseio meu nunca mais vai ser só
Procura ser da forma mais precisa
O que preciso for
Pra convencer a toda gente
Que no amor e só no amor
Há de nascer o homem de amanhã”
(
Geraldo Vandré, Bonita
)

.
O ideário político dos contestadores de 1968 é pouco lembrado e menos ainda reverenciado, já que não convém aos que hoje confrontam, a partir de posições ortodoxas, o capitalismo e suas inúmeras mazelas (desigualdade social, ganância e competição exacerbadas, parasitismo, mau aproveitamento do potencial produtivo que hoje seria suficiente para proporcionar-se uma existência digna a cada habitante do planeta, danos ecológicos, etc.).

Nas barricadas parisienses, gritando slogans como a imaginação no poder e é proibido proibir, muitos estudantes erguiam as bandeiras negras do anarquismo, que marcara forte presença nos movimentos revolucionários do século 19, mas havia perdido terreno desde a vitória do bolchevismo em 1917.

A tentativa de construção do socialismo em países isolados e economicamente atrasados já se evidenciava desastrosa, por degenerar em totalitarismo. A URSS e seus satélites, bem como a China e Cuba, sacrificavam uma das principais bandeiras históricas das esquerdas, a liberdade, para priorizarem a outra, a igualdade.
 Revolução traída: o poder usurpado por uma nomenklatura.

E nem a esta última conseguiam ser totalmente fiéis. Propiciavam, sim, melhoras materiais significativas para os trabalhadores, mas nem de longe extinguiram os privilégios, tornando-os até mais afrontosos ao substituírem as antigas classes dominantes por odiosas nomenklaturas (as camadas dirigentes do partido único e as burocracias governamentais, que se interpenetravam e coincidiam na justificativa/imposição de seu status de mais iguais).

O desencanto dos jovens europeus com o socialismo real  se somou à constatação de que o proletariado industrial das nações prósperas se tornara baluarte, e não inimigo, do capitalismo. Seduzido pelos avanços econômicos que vinha obtendo, preferia tentar ampliá-los do que apostar suas fichas numa transformação radical da sociedade. Ou seja, face à célebre alternativa de Rosa Luxemburgo –reforma ou revolução?– os aristocratizados operários do 1º mundo optaram pela primeira, como Edouard Bernstein previra.

Em termos teóricos, o filósofo Herbert Marcuse já dissecara tanto o desvirtuamento do marxismo soviético quanto a transformação do capitalismo avançado num sistema impermeável à mudança, a partir da sedução do consumo, da eficiência tecnológica e da influência atordoante da indústria cultural, que estava engendrando um homem unidimensional (incapaz de exercer o pensamento crítico).
68 francês: primeiro ensaio de uma revolução de novo tipo.
Foi ele a grande inspiração dos jovens contestadores de 1968, mesmo porque praticamente augurara sua entrada em cena, assumindo o papel de vanguarda que o proletariado deixara vago.

Para Marcuse, somente os descontentes com a sociedade (pós) industrial –intelectuais, estudantes, boêmios, poetas, beatniks e demais outsiders– perceberiam seu totalitarismo intrínseco e seriam capazes de revoltar-se contra ela. Os demais, partícipes do sistema como produtores e consumidores, seguiriam mesmerizados por sua racionalidade perversa.

O diagnóstico de Marcuse acabaria sendo melancolicamente confirmado quando esses descontentes colocaram a revolução nas ruas de Paris e o proletariado lhes voltou as costas, preferindo arrancar pequenas concessões de De Gaulle do que apeá-lo do poder. O Partido Comunista Francês, comprando uma passagem de ida sem volta para a irrelevância, desempenhou papel decisivo na manutenção do status quo e consequente salvação do capitalismo na França.

Mas, o esmagamento das primaveras de Paris e de Praga não conteve o impulso dessa nova maré revolucionária, que continuou pipocando nos vários continentes, com especial destaque para a contracultura e o repúdio à Guerra do Vietnã por parte da juventude estadunidense.
Contestando a Guerra do Vietnã: as flores venceram o canhão.

Foi, principalmente, nos EUA que os novos anarquistas se lançaram à criação de comunidades urbanas e rurais para praticarem um novo estilo de vida, solidário e livre. Substituíam os antigos laços familiares pela comunhão grupal – ou, como diziam, tribal – e dividiam fraternalmente as tarefas relativas à sua sobrevivência, tal como sucedia nas colônias cecílias de outrora.

A ideia era a de irem expandindo a rede de territórios livres até que engolfassem toda a sociedade. Então, em vez de colocarem a tomada do poder como ponto-de-partida para as transformações sociais, deflagradas de cima para baixo, eles pretendiam expandir horizontalmente seu modelo, pelo exemplo e adesão voluntária (nunca pela coerção!), até que se tornasse dominante.

Acreditavam que, descaracterizando seus ideais para conquistarem os podres poderes, os revolucionários acabavam sendo mudados pelo mundo antes de conseguirem mudar o mundo. Então, era preciso que ambos os processos ocorressem simultaneamente: deveriam construir-se como homens novos à medida que fossem construindo a sociedade nova.
Veremos concretizada a profecia do filme Jonas?

Esse anarquismo renascido das cinzas e atualizado foi o último grande referencial revolucionário do nosso tempo, daí despertar até hoje a simpatia dos jovens que buscam a saída do inferno pamonha do capitalismo (uma definição antológica do Paulo Francis!) e a ojeriza daquela esquerda que ainda se restringe aos projetos de conquista do poder político.

A questão é se, como em outras circunstâncias históricas, a maré revolucionária será novamente retomada a partir do último ápice atingido (mesmo que com intervalo de décadas entre os dois ascensos).

Os artistas, antenas da raça, creem que sim. Desde o genial cineasta suíço Alain Tanner (Jonas, Que Terá 25 Anos no Ano 2000), para quem as vertentes e tendências de 1968 voltarão a confluir, reatando-se os fios da História; até nosso saudoso Raul Seixas, que nos aconselhava a tentarmos outra vez e tantas vezes quantas fossem necessárias, não dando ouvidos às pregações tendenciosas da mídia contra a geração das flores e das barricadas.

Esta digressão, que começou citando uma pungente canção de Vandré, merece ser encerrada com um desabafo, que talvez venha a se revelar profético, do bravo guerreiro Raulzito: “Todo jornal que eu leio/ Me diz que a gente já era/ Que já não é mais primavera/ Oh baby, oh baby,/ A gente ainda nem começou”.

sábado, 22 de julho de 2017

O PAPA FRANCISCO ESTÁ CERTO: O DINHEIRO É O EXCREMENTO DO DIABO.

dalton rosado
SOBRE O TEMPO DE TRABALHO E O CARÁTER ONÍVORO NEGATIVO DO DINHEIRO
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Nesses últimos dias, como acontece com todos os trabalhadores (sou um deles, é a advocacia que me garante o sustento), fiquei assoberbado de trabalho alienado (arre!), que tanto critico e que me impossibilitou de escrever para o blogue com a assiduidade a que me proponho. 

É que meus escritos de crítica da economia política –e outros temas mais amenos que o Celso Lungaretti tem a paciência e a abertura de publicar no seu (nosso) blogue, como adepto da dialética do conhecimento que é, servem para mim como um bálsamo contra aquilo que todos nós, para subsistirmos, somos obrigados a buscar com a nossa força de trabalho: o famigerado (mas de modo inadvertidamente adorado) dinheiro.

Diante de escassez de tempo refleti como nas sociedades mercantis, capitalistas, nós somos dele escravos; a frase cunhada pelo vulgo, de que tempo é dinheiro, reflete tal constatação. 

Aliás, é o tempo de trabalho excedente, não remunerado, do qual o capital extrai a mais-valia, que garante a acumulação do dito capital e faz funcionar de modo segregacionista toda a vida social na sociedade capitalista.

O tempo cronologicamente medido serve ao capital na questão da definição do valor do trabalho por ele medido quantitativamente. O tempo linear sendo o instrumento da injustiça social patrocinada pelo capital.

Diz-se que o dinheiro não apenas fala mais alto, como tem a maior audiência. Complemento o adágio popular acrescentando que o dinheiro, para nosso infortúnio social, nos dá ordens e nos rouba o tempo de viver, pois só podemos consumir bens e serviços se o obtivermos em quantidade suficiente para bancar nossas compras, condição que consome quase todo o nosso tempo. Quem não ganha dinheiro é marginalizado. 

O paradoxo consiste no fato de que gastamos grande parte do nosso tempo para obtermos dinheiro e, assim, podermos viver o pouco tempo que nos resta a partir de sua obtenção. Na sociedade futura, não mediada pelo dinheiro, haverá tempo substancialmente maior para a vida prazerosa e o ócio produtivo.         

Mas não é apenas o tempo que o dinheiro nos rouba. Ele nos priva, principalmente, da discricionariedade das nossas escolhas e comportamentos; da nossa capacidade de solidariedade humana; e, como dissemos, ele nos dá ordens. 

Não fazemos o que queremos de modo absoluto ou não fazemos o que seria socialmente útil, mas sim o que a lógica da reprodução do valor nos determina que façamos. 
Acreditamos ter o poder de escolha sobre o que fazer com o nosso tempo, só que isto é um engano. Podemos até escolher o que fazer dentro de uma perspectiva de escolha de tarefas possíveis, mas mesmo tal escolha está circunscrita um espectro de funções voltadas para a reprodução do dinheiro como objeto teleológico inafastável.
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A FORMA-VALOR E SEU FETICHE AVASSALADOR  
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Qualquer atividade social de produção de bens e serviços a serem comercializados (e quase tudo é comercializado) tem de passar pelo crivo da viabilidade econômica, que mais não é do que a capacidade de produzir lucro. 

Assim, toda a atividade de trabalho está condicionada aos humores do mercado, bem como a própria sobrevivência do Estado e da política. Se não vejamos:
 o político somente se elege se tiver dinheiro para gastar na campanha. E, como o custo em dinheiro dessa atividade é proibitivamente alto, todo cidadão que se aventura na política como profissão é obrigado a prestar vassalagem ao capital, isto valendo tanto para os capitalistas urbanos e rurais como para os socialistas de todos os matizes; 
 os artistas e desportistas condicionam a continuidade de suas atividades à capacidade do mercado absorver suas artes e atividades esportivas. Assim, ao invés de condicionar para melhor o gosto popular, são pelo mesmo condicionado. E o gosto popular, por sua vez, é condicionado pelo mercado, numa simbiose de incenso à má qualidade;  
 a força de trabalho é a única mercadoria que o trabalhador tem para vender, mas, nestes tempos de desemprego estrutural, obviamente a sua mercadoria está substancialmente desvalorizada. Então, ele se vê obrigado a mendigar emprego e a vendê-la por salários e condições aviltantes à dignidade humana; 
 o Estado, diante da depressão econômica causada pelo limite interno da capacidade reprodutiva do valor (dinheiro e mercadorias), aumenta os tributos, como acaba de ocorrer com o imposto sobre combustíveis, para suprir as suas deficiências do caixa (leia-se déficit das contas públicas), aumentando o buraco no já combalido bolso da maior parte população, economicamente exaurida; 
 a preservação ecológica é duramente golpeada pela insanidade do sistema produtor de mercadorias, pois o imperativo de se produzir e vender para que seja mantida em velocidade sempre crescente a roda da economia acaba passando como um trator sobre os cuidados com o aumento da poluição ambiental terrestre e com a emissão na atmosfera de gases que provocam o aquecimento global. Afinal, para os Donalds Trumps da vida o essencial é a perpetuação dos seus poderios econômicos, ficando em segundo plano a própria sobrevivência da espécie humana. 
Seriam intermináveis os exemplos do negativo caráter onívoro da forma-valor (dinheiro e mercadorias) sem que a compreendamos a sua essência constitutiva e a ela nos submetamos de modo inconsciente; e tudo por sermos escravos do seu fetiche avassalador. 

Entretanto, apesar de estarmos impositivamente a ele submetidos, podemos ter uma visão crítica sobre o seu objeto negativo e conspirarmos para seu fim, dentro das nossas possibilidades de servos voluntários ou involuntários que somos. 

sexta-feira, 21 de julho de 2017

NORAMBUENA PODERÁ SER FINALMENTE EXTRADITADO PARA O CHILE

O chileno Mauricio Hernández Norambuena, que teve participação destacada na luta armada contra a sanguinária ditadura de Augusto Pinochet, acaba de receber duas notícias de suma importância para a definição de seu destino.

A primeira foi a renovação, no último dia 18, de sua permanência na Penitenciária Federal de Mossoró (RN), por mais 360 dias, contados a partir de 13 de dezembro de 2016. 

Ou seja, a Corregedoria Judicial do dito estabelecimento penal, atendendo a pedido da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, estendeu até 7 de dezembro de 2017 o confinamento em condições extremamente desumanas a que Norambuena, detido em 2002 no Brasil por causa do sequestro do empresário Washington Olivetto, vem sendo submetido nos últimos 10 anos.

Ele está desde 2007 sob o chamado Regime Disciplinar Diferenciado, eufemismo para o aniquilamento físico, psicológico e moral de prisioneiros especialmente malquistos pelas autoridades. Norambuena permanece encerrado durante 22 horas por dia numa cela de dois metros por três, desprovida de luz natural. Só lhe permitem sair para um pequeno pátio por uma hora diária, quando mantém o único contato permitido com outros prisioneiros, durante o banho de sol. 

Não tem acesso a rádio, TV ou qualquer outro meio de comunicação, de forma que seu isolamento do mundo exterior é quase total. Pode receber dois livros por semana, desde que os carcereiros os considerem aceitáveis. Tanto as cartas que envia quanto as que recebe não podem ultrapassar uma página, sendo, ademais, previamente lidas e censuradas. 
O cumprimento de pena em penitenciárias federais é encarado pelas autoridades brasileiras como uma excepcionalidade, daí o terem limitado a 360 dias. A permissão, contudo, pode ser renovada, como acaba de ocorrer. Só que nenhum motivo atual foi apresentado para pleitearem a renovação, alegando apenas seus antecedentes e uma suposta "capacidade de liderança" que teria resistido à passagem de 15 anos e à óbvia debilitação de sua saúde e vigor!

Pelo contrário, o diretor da penitenciária atestou, em Certidão de Conduta Carcerária, que Norambuena (hoje com 59 anos) possui bom comportamento prisional, daí haver recomendado sua devolução ao Estado de origem, SP. Mesmo assim, decidiu-se pela sua continuidade num dos presídios mais dantescos do País, com a excepcionalidade podendo agora ultrapassar uma década (!), o que é, inclusive, uma contradição em termos!
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LUZ  NO FIM DO TÚNEL
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Existe uma luz no fim do túnel, citada na própria decisão da Corregedoria, que prolongou sua permanência "até 7 de dezembro de 2017, sem prejuízo de que, antes do encerramento desse prazo, seja providenciada a materialização de sua extradição para o Chile".

É que, em decisão recente, o conhecido magistrado Mario Carroza, da Corte de Apelações de Santiago, decidiu iniciar a prescrição gradual das penas que Norambuena ainda tem pendentes no Chile, deixando, portanto, de existir a incompatibilidade com o dispositivo legal brasileiro que impede a extradição de condenados quando eles têm de cumprir 30 anos de prisão ou mais em seus países de origem.

Como nosso Supremo Tribunal Federal já se posicionou favoravelmente à extradição, espera-se que, suprimido este último entrave, tudo seja rapidamente resolvido. Houve recurso contra a decisão de Carroza, mas a expectativa nos meios jurídicos chilenos é de que ela venha a ser confirmada, com grande chance de tudo estar resolvido antes do Natal.

Isto permitiria que Norambuena passasse a receber o carinho de parentes, amigos e companheiros, ao invés de permanecer deles afastado pelos 5 mil quilômetros de distância entre Santiago e Mossoró.

E o livraria desta tortura remanescente dos cárceres medievais, o tal RDD, que é diferenciado mesmo... no sentido de que se diferencia de toda a evolução da humanidade, em termos de respeito aos direitos humanos, nos últimos séculos! 
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"VINGANÇA EXTREMA"
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O professor Carlos Lungarzo, que há quase quatro décadas defende o respeito aos direitos humanos em nosso continente e teve participação destacada na luta contra a extradição do escritor italiano Cesare Battisti, já apontou várias incoerências e ilegalidades na sentença recebida por Norambuena e nas condições carcerárias que lhe estão sendo impostas. 

Questionou, primeiramente, sua condenação a 30 anos de prisão, já que o artigo 148 do Código Penal brasileiro estabelece para tais casos a pena máxima de cinco anos.  "Isto inclui até o caso de sequestro de crianças e doentes, e casos em que o sequestrado é ferido durante sua captura", explicou, destacando a inexistência de agravantes que tornassem pelo menos compreensível o rigor extremado da corte: 
"Apesar da animosidade da mídia, dos inimigos da esquerda brasileira e da elite empresarial, nunca foi dito que o magnata tivesse recebido coação física, salvo a de estar encerrado quase dois meses num pequeno quarto. Quando foi liberado, deu uma breve entrevista à imprensa, e seu estado físico, pelo menos de longe, parecia normal. Em sua entrevista, o mais substantivo que disse é que descobriu que os raptores não eram brasileiros, porque ninguém falou nunca do Corinthians".
Para Lungarzo, a condenação não só foi "ilegal e desproporcional, como cruel e desumana, pois ela transcorre no RDD, um "método indireto de tortura (...), um método insano utilizado especialmente nas teocracias orientais, mas também em estados maniqueístas como os EUA e a Itália".
Foto recente da penitenciária de Mossoró...
Uma observação importantíssima de Lungarzo sobre a utilização do RDD contra o prisioneiro chileno: "O RDD viola os acordos assinados pelo Brasil contra as penas cruéis, e também a própria Constituição, que proíbe os tratamentos degradantes". 

Ele também assinala que o RDD foi introduzido pela Lei 10.792, de 01/12/2003, inexistente, portanto, no momento do crime. 

Além disto, acrescento eu, o RDD nunca passou de uma variante mais rigorosa do confinamento nas chamadas celas solitárias. Deveria servir apenas para a punição do prisioneiro que, conforme está especificado no artigo 52 de da Lei 10.792, incidisse em "falta grave" que ocasionasse a "subversão da ordem ou disciplina internas". 
...uma das mais draconianas do País.
Mais: o texto legal diz que o RDD tem a "duração máxima de trezentos e sessenta dias, sem prejuízo de repetição da sanção por nova falta grave de mesma espécie, até o limite de um sexto da pena aplicada".

Ou seja, Norambuena não poderia estar sendo submetido ininterrupta e indefinidamente ao RDD, mas somente por períodos escalonados de 360 dias, a cada falta grave que cometesse. E a soma desses períodos não poderia ultrapassar cinco anos (um sexto da sua pena), mas já totaliza quase dez anos!!! Será que a ditadura voltou e esqueceram de nos avisar?!

Lungarzo não tem dúvidas de que Norambuena está sendo retaliado pelas autoridades brasileiras com "uma vingança extrema", até porque  "nenhum chefe do narcotráfico sofreu RDD por tempo tão longo".

VARIAÇÕES SOBRE UMA POESIA DO BRECHT

AOS QUE VIRÃO DEPOIS DE NÓS
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Bertold Brecht

Eu vivo em tempos sombrios.
Uma linguagem sem malícia é sinal de estupidez,
uma testa sem rugas é sinal de indiferença.
Aquele que ri, é porque
ainda não recebeu a terrível notícia.

Que tempos são esses, quando
falar de flores é quase um crime,
pois significa silenciar sobre tanta injustiça?

Aquele que cruza tranquilamente a rua
já está, então, inacessível aos amigos
que se encontram necessitados?

É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver.
Mas, acreditem: é por mero acaso.
Nada do que eu faço
me dá o direito de comer quando tenho fome.
Por acaso venho sendo poupado.
Se a minha sorte me abandona, estou perdido!

Dizem-me: come e bebe!
Fica feliz por teres o que tens!
Mas, como é que posso comer e beber,
se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome?
Se o copo de água que bebo, faz falta a quem tem sede?
Mas, mesmo assim, eu continuo comendo e bebendo.

Eu queria ser um sábio.
Nos livros antigos está escrito o que é a sabedoria:
manter-se afastado dos problemas do mundo
e sem medo passar o tempo
que se tem para viver na terra.
Seguir seu caminho sem violência,
pagar o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, mas esquecê-los.
Sabedoria é isso!
Mas, eu não consigo agir assim.
É verdade, eu vivo em tempos sombrios!

Eu vim para a cidade no tempo da desordem,
quando a fome reinava.
Eu vim para o convívio dos homens
no tempo da revolta
e me revoltei ao lado deles.
Assim se passou o tempo
que me foi dado viver sobre a Terra.

Eu comi o meu pão no meio das batalhas,
deitei-me entre os assassinos para dormir,
fiz amor sem muita atenção
e não tive paciência com a natureza.
Assim se passou o tempo
que me foi dado viver sobre a Terra.

Vocês, que vão emergir das ondas
em que nós perecemos, pensem,
quando falarem das nossas fraquezas,
nos tempos sombrios
de que tiveram a sorte de escapar.

Nós existíamos através da luta de classes,
mudando mais seguidamente de países
que de sapatos, desesperados!
Quando só havia injustiça e não havia revolta.

Nós sabemos:
o ódio contra a baixeza
também endurece os rostos!
A cólera contra a injustiça
faz a voz ficar rouca!

Infelizmente, nós,
que queríamos preparar
o caminho para a amizade,
não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos.

Mas vocês, quando chegar o tempo
em que o homem seja amigo do homem,
pensem em nós com um pouco de compreensão.
.

EU VIVO NUM TEMPO DE GUERRA

Boal e Guarnieri (Arena conta Zumbi)

Eu vivo num tempo de guerra. Eu vivo num tempo sem sol.

Só quem não sabe das coisas é um homem capaz de rir. Ah, triste tempo presente, em que falar de amor e flor é esquecer que tanta gente está sofrendo tanta dor!

Todo mundo me diz que eu devo comer e beber. Mas, como é que eu posso comer? Mas, como é que eu posso beber? Se eu sei que estou tirando o que vou comer e beber de um irmão que está com fome, de um irmão que está com sede, de um irmão...

Mas, mesmo assim, eu como e bebo. Mas, mesmo assim: esta é a verdade!

Dizem crenças antigas que viver não é lutar. Que sábio é o que consegue ao mal com o bem pagar. Quem esquece a própria vontade, quem aceita não ter seu desejo, é tido por todos um sábio. É isso que eu sempre vejo. É a isso que eu digo NÃO!

Eu sei que é preciso vencer
Eu sei que é preciso brigar
Eu sei que é preciso morrer
Eu sei que é preciso matar
É um tempo de guerra
É um tempo sem sol
É um tempo de guerra
É um tempo sem sol

Sem sol, sem sol, tem dó!
Sem sol, sem sol, tem dó!


Ah, eu vivi na cidade no tempo das desordens, eu vivi no meio da gente minha no tempo da revolta, assim passei os tempos que me deram pra viver!

E você que me prossegue
E vai ver feliz a Terra
Lembre bem do nosso tempo
Desse tempo que é de guerra

Veja bem que preparando
O caminho da amizade
Não podemos ser amigos, ao mau
Ao mau vamos dar maldade

Se você chegar a ver
Essa terra da amizade
Onde o homem ajuda ao homem
Pense em nós só com bondade
.

AOS QUE VIERAM DEPOIS DE NÓS

Celso Lungaretti (saudando os 
manifestantes de rua de 2013)

Jovens companheiros,

recebam o abraço de um náufrago da utopia de 1968, quando os melhores brasileiros, muitos deles tão novos como vocês, percorreram esses mesmos caminhos de idealismo e esperança, sem conseguirem levar a bom termo a jornada.

Eram tempos sem sol, em que só tinham testas sem rugas os indiferentes e só se davam ao luxo de rir aqueles que ainda não haviam recebido a terrível notícia.

Num país de tão gritante desigualdade social, eu e meus amigos chegávamos a ser tidos como privilegiados. E, tanto quanto a vocês, os reacionários empedernidos e os eternos conformistas nos diziam: “Come e bebe! Fica feliz por teres o que tens!”.

Da mesma forma que vocês agora, um dia percebemos que nada do que fazíamos nos dava o direito de comer quando tínhamos fome. Por acaso, estávamos sendo poupados – ao preço de silenciarmos sobre tanta injustiça.
E cada um de nós se perguntou: “Como é que eu posso comer e beber, se a comida que eu como, eu tiro a quem tem fome? Se o copo de água que eu bebo, faz falta a quem tem sede?”.

Escolhemos o caminho árduo dos que têm espírito solidário e senso de justiça.

Poderíamos, é claro, nos manter afastados dos problemas do mundo e sem medo passarmos o tempo que se tem para viver na terra. Mas, não conseguíamos agir assim. Viéramos para o convívio dos homens no tempo da revolta e nos revoltamos ao lado deles.

Foi uma luta desigual e trágica. Muitos daqueles com quem contávamos preferiram a sabedoria de seguir seu caminho sem violência, não satisfazendo seus melhores anseios, mas esquecendo-os. E se tornaram inacessíveis aos amigos que se encontravam necessitados.

No final, desesperados, trocávamos mais de refúgios do que de sapatos, pois só havia injustiça e não havia mais revolta.

Os que sobrevivemos, ainda amargamos a incompreensão dos que se puseram a falar sobre nossas fraquezas, sem pensarem nos tempos sem sol de que tiveram a sorte de escapar.

E assim transcorreram anos e décadas. Só nos restava confiar em que o ódio contra a vilania acabaria endurecendo novos rostos e que a cólera contra a injustiça um dia ainda faria outras vozes ficarem roucas.

A espera chegou ao fim. Saudamos esse movimento que vocês iniciaram e estão sustentando contra todas as incompreensões e calúnias, como o renascer da nossa utopia.

Nós, que tentamos e não conseguimos preparar o terreno para a amizade, temos agora a certeza de que a luta prosseguirá. E a esperança de que vocês vejam chegar o tempo em que o homem será, para sempre, amigo do homem.

UMA POESIA DO LUNGARETTI, COM O PERDÃO DO T. S. ELIOT

OS HOMENS DE ESQUERDA TORNADOS OCOS

A nossa força estava nas ruas.
Na fidelidade aos explorados.
Na solidariedade para com todos
que travam o bom combate.
Na capacidade de personificarmos
a nova sociedade a ser erguida 
sobre os escombros da que está ruindo.

Na integridade e desapego
com que travávamos nossas lutas 
e perseguíamos nossos objetivos,
sempre colocando o bem maior
acima dos interesses mesquinhos. 

  Na opção de sermos eternos
                   revolucionários,
                  com um pé no presente inglório
                   e outro no porvir desejado.

Na opção de jamais sermos
homens de poder,
abdicando do futuro
por um prato de lentilhas.

Perdendo as ruas,
perdemos tudo.
E isolados, ficamos indefesos
diante de inimigos tão poderosos.

"É assim que acaba o mundo,
é assim que acaba o mundo,
é assim que acaba o mundo:
não com estrondo, 
mas com um suspiro"

quinta-feira, 20 de julho de 2017

CONFRONTO É IMINENTE NA VENEZUELA

Toque do editor
O Governo Maduro coloca num amargo dilema os defensores dos ideais revolucionários em todo o mundo. Forças direitistas locais e exteriores o confrontam politicamente e o asfixiam economicamente, mas ele responde da pior maneira possível, arrastando o povo venezuelano à penúria extrema e resvalando para o mais desembestado autoritarismo, com os assassinatos políticos aumentando dia a dia.

Infelizmente, Maduro parece estar decidido a travar uma guerra que não tem como vencer. Com isto, engrossará a onda reacionária no nosso continente e vai destruir o que possa ter sobrado do legado de Chávez. Só podemos encarar este quadro com profundo pesar e desalento.

Mas, no estágio em que a coisa chegou, as prioridades máximas, agora, são deter a matança e restituir aos venezuelanos condições minimamente civilizadas de existência. Não parece restar sequer uma esperança de o pior ser evitado. (CL) 
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DIPLOMACIA BRASILEIRA JÁ SE PREPARA
PARA CENÁRIO DE GUERRA NA VENEZUELA
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Por Clóvis Rossi
O embaixador brasileiro em Caracas, Ruy Pereira, marcou para as próximas terça e quarta (25 e 26) uma reunião com os representantes diplomáticos na Venezuela para, segundo o chanceler Aloysio Nunes Ferreira Filho, discutir providências para proteger a comunidade de brasileiros no país na eventualidade de um agravamento de uma crise que já está em ponto de combustão.

A conta mais recente indica que vivem na Venezuela cerca de 32 mil brasileiros.

A iniciativa do embaixador é sábia, a julgar pela descrição que faz da conjuntura venezuelana um de seus melhores analistas, Luis Vicente León, responsável pelo centro de pesquisas Datanalisis:
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"O governo acredita que está morto politicamente se não consegue passar a sua Constituinte [votação convocada para dia 30]. Mas, da mesma forma, a oposição sente que essa Constituinte representa sua morte e também a da democracia, da República, dos direitos humanos e econômicos e das possibilidades de resgatar a paz".
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Caminhão de comida saqueado em Sinamaica
Como nenhum dos lados em confronto quer morrer, é inevitável que soem tambores de guerra em um país já conflagrado por manifestações diárias há cem dias (96 mortos até agora) e por uma situação econômica e social que fica mais dramática a cada dia.

O drama do dia (quarta-feira, 19): o custo da cesta básica subiu 24,1% de maio para junho. Em um ano, o aumento foi de 343,2%.

Para poder adquirir a cesta básica, um venezuelano precisa de 18,9 salários mínimos.

Não há quem consiga viver nesse ambiente, o que ajuda a explicar a notável mobilização para votar no domingo (16) em um plebiscito não oficial, convocado pela oposição.

Compareceram, segundo os oposicionistas, 7,6 milhões de pessoas, que era o máximo para o qual se preparara a coalizão opositora Mesa de Unidade Democrática. Foram montados locais de votação para apenas um terço do eleitorado total (19,8 milhões), o máximo de capacidade logística que a oposição conseguiu. O comparecimento foi, portanto, praticamente o total do esperado.

Com base nesse resultado, a MUD declarou nesta quarta-feira que a mudança de governo "é inevitável e iminente" e anunciou seu compromisso de "formar um governo de união nacional", para "garantir a governabilidade do país no caso de que se logre a saída de Nicolás Maduro do poder".
Protesto contra o governo em Caracas
A oposição acredita que o sucesso de uma greve geral convocada para esta quinta-feira (20) servirá para tornar ainda mais "inevitável e iminente" a queda de Maduro.

Mas o governo não está nem remotamente disposto a ceder um milímetro nesta batalha.

Toca, ele também, os tambores de guerra, na forma, por exemplo, da convocação do Conselho de Defesa. Trata-se do "organismo máximo de consulta para a planificação e assessoramento do Poder Público em assuntos relacionados com a defesa integral da Nação, sua soberania e a integridade de seu espaço geográfico".

É, em tese, resposta à ameaça dos Estados Unidos de impor sanções à Venezuela, se não for desconvocada a votação para a Assembleia Constituinte.

Na prática, contudo, é a preparação do governo Maduro para a guerra antevista pelo analista Luis Vicente León.
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