domingo, 10 de maio de 2026
HOJE É O DIA EM QUE AS MÃES SÃO USADAS PARA ALAVANCAR VENDAS E ENDINHEIRAR OS SALAFRÁRIOS DO CAPITALISMO
sábado, 9 de maio de 2026
LEGADO DE UM REVOLUCIONÁRIO/10
Mas eu estava lá para sofrer e continuaria sofrendo até o momento de recuperar a minha liberdade. Estava no DOI-Codi/SP e, certo dia, me mandaram juntar a tralha que tinha, pouca coisa, e ir esperar a soltura na entrada daquela unidade.
Passei uma tarde inteira no que seria um estacionamento, vendo viaturas chegarem e partirem, à espera do fim do pesadelo. Em vão. No fim da tarde me encaminharam de novo para a cela, porque faltava resolverem algum detalhe burocrático.
Dia seguinte, a mesma coisa. Mas, depois da algumas horas, fui finalmente libertado. Passara 11 meses e meio no inferno e sobrevivera, mas sem perspectiva nenhuma na mente, sem a mínima ideia do que faria dali em diante.
Depois de umas duas semanas o advogado consegui dobrar o juiz teimoso e voltei para a rua. Curiosamente, entre a prisão e o repique, acabei totalizando um ano exato de encarceramento.
Retomei o cursinho e, finalmente, tive um período mais afortunado. Comecei a namorar com A., que acabaria se tornando a minha primeira esposa. E reencontrei amigos que fizera no tempo do movimento secundarista.
Estavam prestes a se formarem uma comunidade alternativa num casarão espaçoso do Jardim Bonfiglioli. Convidaram-me e fui morar com eles.
Após ter terminado meu relacionamento com a V., não por acaso, comecei a consumir mais as drogas. Outro amigo do tempo da Frente Estudantil Secundarista se tornara traficante e não cobrava nada de mim.
Também foi nessa fase que passei a contestar o líder da comunidade, por me parecer autoritário e stalinista. De certa forma revivi o drama histórico de Stálin contra Trotsky, influenciado pelos livros da Isaac Deutscher sobre o desvirtuamento da revolução russa. Era uma espécie de psicodrama, que teve papel importante na minha volta à normalidade.
Finalmente, uma viagem estranha simbolizou o esgotamento dessa fase: vi-me caminhando na direção de uma ponte e sabia que, se a atravessasse, passaria o resto da vida na dimensão paralela da loucura.
Refleti durante alguns minutos e resolvi não transpor a ponte. A decisão tomada no transe lisérgico permaneceu quando saí dele. Nunca mais os tóxicos tiveram relevância na minha vida.
Teria chegado ao fim de minha inquietação e combatividade? Não, ainda tinha muitas páginas a escrever no livro da vida. (por Celso Lungaretti)
sexta-feira, 8 de maio de 2026
O MOVIMENTO ESTUDANTIL ERGUE-SE CONTRA O SUCATEAMENTO DAS UNIVERSIDADES PÚBLICAS
| Aqui foi travada a batalha da Maria Antônia |
quinta-feira, 7 de maio de 2026
MAIO É UM BOM MÊS PARA LEMBRARMOS O LIBERTÁRIO 1968 FRANCÊS
| A liberdade guiando o povo (versão 68) |
— seja porque a vanguarda bolchevique incubava mesmo uma nomenklatura ou seja, uma burocracia partidária quase equivalente a uma nova classe privilegiada;
| Invasão da Tchecoslováquia desiludiu socialistas do mundo inteiro |
quarta-feira, 6 de maio de 2026
LEGADO DE UM REVOLUCIONÁRIO (parte 9)
Meus pais puderam enfim me visitar. Ficaram estarrecidos com minha magreza; perdera uns 30 quilos. Mais tarde me disseram que eu estava parecendo os esqueléticos prisioneiros soltos dos campos de extermínio nazistas.
De lá até a libertação eu estaria salvo das torturas, a menos que algum companheiro recém preso lhes dissesse que eu conhecia uma informação importante. Não foi o caso.
Hoje me recordo mais da fase operacional do que desse período intermediário, no qual as novidades eram apenas a de ser levado a São Paulo para comparecer às audiências nas auditorias militares e ser devolvido para o Rio de Janeiro.
Em São Paulo, eu permanecia até que os milicos tivessem outro companheiro para enviar ao Rio de Janeiro. Então, me mantinham ou na sede do DOI-Codi ou no quartel da Polícia do Exército.
Do quartel, uma das minhas principais lembranças é a de que, quando estava sendo transportado para alguma das duas auditorias da Avenida Brigadeiro Luís Antônio, o carro ficou preso num congestionamento exatamente diante de uma banca de jornais.
Nela estava exposto para os transeuntes um que destacava a morte de mais integrantes do Movimento Revolucionário Tiradentes que supostamente tinham reagido à prisão.
O oficial que comandava o destacamento disse que eu tinha sorte de haver sido preso no semestre anterior, caso contrário dificilmente escaparia com vida. Era o que eu deduzira da sequência de óbitos dos militantes do MRT. Mas serviu como confirmação de que havia prisioneiros sendo executados já no segundo semestre de 1970. Depois a prática se generalizou.
Mas, fiquei desolado ao saber exatamente quem dera tal informação para o inimigo, ajudando-o a me perseguir. Tratava-se de um dos integrantes da minha base secundarista
Outra recordação marcante foi a de que dois prisioneiros cuja libertação já estava decidida concordaram em levar mensagem para meus pais, que sabiam da minha saída da Vila Militar, mas foram mantidos na ignorância de para onde eu fora transferido.
Até duvidei de que eles, após passarem por aquele inferno, arriscassem sua liberdade para me fazerem tal favor. No entanto, meu pai contou que haviam cumprido o prometido, visivelmente assustados, mas com muita coragem.
Certa vez o coronel Brilhante Ustra mentiu que nunca havia escutado os ruídos da pancadaria e os berros dos torturados. Respondi que isto só seria possível se ele fosse surdo, pois aquela barulhada se ouvia até na rua.
Lá fiquei conhecendo a triste história do sargento Kogi Kondo, cuja cela ficava próxima da minha. Ouvia os oficiais indo até as celas para xingá-lo de covarde e vergonha da farda, então perguntei qual era o motivo desse tratamento.
Eu estava só com recos [recrutas] inexperientes. Os terroristas nos renderam, obrigando-nos a transportá-los, no nosso caminhão, para fora do cerco. Disseram que nos matariam se não colaborássemos. Então, passamos as barreiras calados, sim. É graças a isso que estou vivo. Prefiro aguentar ofensas e zombarias do que morrer.
Levando uma rotina tediosa, velhos sargentos adoravam ter os subalternos e nós presos como ouvintes compulsórios de seus causos e bravatas.
Um deles contou que a PE/RJ estava incumbida do policiamento do bairro em que se localizava a Vila Militar. Então, ao prender um estuprador de menores, o matou batendo nas solas dos seus pés com uma palmatória e obrigando-o a correr.
Após tal procedimento ser repetido várias vezes, ele teria expirado. Eu nunca consegui confirmar se uma pessoa poderia ou não ser executada dessa maneira,
Por último, um episódio pitoresco. Cumprindo sua missão de policiar a área de Deodoro, na véspera de uma data festiva qualquer os bravos soldados aprisionaram perigosas... prostitutas. Duas ou três dezenas delas foram trazidas para onde estavam nossas celas.
Então ouvi uma boa alma propondo que alguma delas fosse colocada na minha cela e o sargento respondendo que seria arriscado. Caso eu contraísse uma doença venérea, como iriam explicar isso para os oficiais? (por Celso Lungaretti)
terça-feira, 5 de maio de 2026
PIPAS E BALÕES SE TORNARAM LETAIS
Não dá para explicar qual o motivo de eu ter dado uma freada brusca, cantando os pneus, em vez de ultrapassar a moto pela pista ao lado, como costumava fazer nessas situações.
| Fábrica de plásticos incendiada por queda de balão |
Eu havia feito matérias sobre funcionários da Duratex cujo hobby era confeccionar pipas e balões. Simpatizei com ambos, pois havia muito de arte em seus passatempos.
Tudo era menos perigoso na minha meninice. Nosso mundo ficou muito sem graça quando brotaram proibições como cogumelos. Lamentei por minhas filhas, que tiveram de crescer convivendo com esses terrenos minados. Mas... (por Celso Lungaretti)
segunda-feira, 4 de maio de 2026
LEGADO DE UM REVOLUCIONÁRIO (parte 8)
| O Capitão Guimarães virou bandido. Seguiu sua vocação |
Apesar dos espancamentos, o que realmente me abalava nas torturas eram os choques elétricos. Também pudera: desde a juventude eu tinha tal sensibilidade aos choques que, em dias de chuva, os sentia quando fazia uma ligação nos telefones de ferro espalhados pela cidade e quando viajava em ônibus elétrico.
Pior ainda era quando recebia choques pendurado no pau-de-arara. O sentimento de impotência era detestável. Certa vez um capitão me mostrou um cabo de vassoura e disse que ia me penetrar com ele. Acabou ficando só na ameaça, mas o fato é que, se ele a cumprisse, eu não poderia fazer nada. Estava completamente indefeso.
A falta de informações também me angustiava. Pensava que o choque passando pelo pênis e escoto poderia me tornar impotente; e quando os fios eram pendurados nas duas orelhas, que talvez ficasse com problemas mentais. Bobagem.
Meu arrependimento forçado se deu no final de junho, porque a equipe de torturadores da PE da Vila Militar tinha sido privada da tarefa de caçar revolucionários e se ressentia muito da perda de tudo que roubava de nós ao sermos presos e dos generosos prêmios em dinheiro concedidos por empresários ultradireitistas. Parecia o velho Oeste.
Mas a morte do jovem Chael Charles Schreier naquela unidade, que repercutiu pessimamente no Brasil e em vários outros países, levou a repressão a unificar suas forças para evitar novos descontroles. No Rio de Janeiro só a PE da rua Barão de Mesquita manteve o privilégio, enquanto os torturadores da Vila Militar ficaram chupando o dedo.
Aí o tenente Ailton Joaquim, que comandava os torturadores, teve a má ideia de arrancar informações inéditas de mim e de outros presos da Inteligência da VPR, desrespeitando as ordens recebidas. Lá deveríamos apenas dar os depoimentos finais para a remessa do inquérito a alguma auditoria militar.
Pensei que seria apenas uma besteirinha pouco influente do setor de Guerra Psicológica do Exército, para ser distribuída impressa. Afinal, com as marcas de soco que eu tinha na cara, supunha que não fariam nada presencial comigo.
Estava errado. Acordaram-me de madrugada dizendo para me vestir porque ia ser fuzilado. No trajeto o capitão Ailton Guimarães Jorge (futuro bicheiro e bingueiro) disse que eu estava sendo levado a uma tevê e teria de repetir fielmente o que constava na minha carta aos jovens, caso contrário nem voltaria para o quartel: seria executado no caminho e jogado embaixo da ponte.
| Na fase das torturas |
Fiquei confuso durante alguns meses, mas o hábito da leitura me devolveu a racionalidade: o companheiro Wellington Moreira Diniz, que também estava preso na PE da Vila Militar, passou a ler os livros da biblioteca do quartel para desanuviar, já que era doente cardíaco.
Consegui pegar carona nesse esquema e os dois lemos principalmente a coleção completa do Julio Verne, várias vezes cada volume, pois a alternativa eram os intragáveis livros militares,
Quando minha última prisão preventiva foi finalmente revogada, eu estava tão normal quanto possível, irritadiço como nunca e sem saber o que faria do resto da vida, já que meus melhores sonhos haviam se dissolvido no ar. (por Celso Lungaretti)
