domingo, 21 de julho de 2024

DESISTÊNCIA DE BIDEN É MAIS UM CAPÍTULO DA ATUAL INGOVERNABILIDADE DO REGIME BURGUÊS


 Biden finalmente atendeu à voz da razão e decidiu abandonar a corrida pela reeleição. Evitando o inescapável fiasco que viria em novembro, o atual presidente dos EUA colocou ponto final em sua infeliz saga política, poupando os estadunidenses de verem mais cenas lamentáveis durante os meses vindouros. Seria melhor mesmo que renunciasse também à presidência, mas isso deixaria Kamala Harris, sua possível substituta, impossibilitada de concorrer a um possível segundo mandato. 

O governo do morto-vivo Biden tem sido um desastre do início ao fim. Consumido lentamente pela crise capitalista, incapaz de dar respostas ao alto custo de vida e preso às concepções políticas ultrapassadas pela realidade histórica, afundou na impopularidade e tentou se salvar provocando uma guerra contra a Rússia. Porém, apesar de todos os esforços, a guerra da Ucrânia não foi abraçada pela população estadunidense, que passou mesmo a se opor fortemente a gastos estratosféricos com envios de armamentos em um contexto em que pessoas morrem de fome pelas ruas da terra do Tio Sam. 

Uma outra guerra - se é possível usar efetivamente tal designação àquele massacre - selou seu destino: a devastação israelense contra o povo palestino. Ao apoiar Israel e sustentar a matança perpetrada contra a população da Faixa de Gaza, Biden se viu diante de uma mobilização estudantil sem precedentes em anos pelos campi estadunidenses. Passou a ser denominado de GenocideJoe e manifestações contra ele passaram a ocorrer cotidianamente, encurralando-o às vésperas do início de sua campanha. 

A gota d'água, contudo, viria no primeiro debate transmitido pela rede de TV CNN, oportunidade na qual um perdido e fragilizado Biden foi tratorado por Trump. Ali ficou mais nítida a tendência que já se mostrava há pelo menos dois anos, o ex-presidente estava com o caminho totalmente aberto para vencer facilmente as eleições em novembro, por competir com um presidente fragilizado não apenas politicamente, mas também mentalmente. 

Com sua desistência, Biden se une a outros presidentes que também não conseguiram emplacar a continuação de seus mandatos, a exemplo de Alberto Fernández, Bolsonaro e do próprio Trump. A razão não poderia ser mais óbvia e está ligada à atual crise capitalista que gera um estado generalizado de ingovernabilidade da ordem burguesa. Tal ingovernabilidade é a causa das variadas substituições de governo ao redor do mundo nos anos recentes, levando mesmo a uma situação de impasse político em não poucos lugares, a exemplo dos governos minoritários em Portugal e mais recentemente na França. 

Não será surpresa caso essa ingovernabilidade se aprofunde, com crises não apenas dos governos, mas também dos regimes políticos, levando a uma situação de instabilidade generalizada. A estagnação do capital poderá evoluir para uma depressão, com consequências drásticas para o futuro capitalista e da própria humanidade. 

Por isso, é pouco provável que uma substituição de Biden por Kamala Harris vá trazer algum efeito para a corrida eleitoral. Essa é ainda mais impopular que o atual ocupante da Casa Branca e continua por demais associada ao establishment do partido democrata. Uma opção mais viável seria ou lançar Michele Obama -a qual conta em seu favor com o fato de nunca ter sido política e ter criado certo carisma enquanto primeira-dama - ou alguém da ala esquerda dos democratas, do grupo de Bernie Sanders. Esse é pouco provável que se candidate pela idade já avançada, mas alguém de seu grupo, como Ocássio-Cortez, poderia ter maior combatividade a Trump. 

Contudo, nas circunstâncias atuais, um governo mais à esquerda nos EUA poderia ser desastroso para a esquerda estadunidense, pois Sanders e cia nem de longe dariam solução aos problemas do país e poderiam mesmo desmoralizar o socialismo junto àquela população. Nesse aspecto, Michele poderia ser o melhor caminho, pois teria viabilidade eleitoral e seu desgaste não impactaria a esquerda.

De qualquer forma, hoje, Trump está mais próximo de sua vitória que nunca, enquanto Biden parte pateticamente para sua aposentadoria. (por David Coelho)

sexta-feira, 19 de julho de 2024

OS SAPATOS DE TRUMP

 

Já passei em revista numerosas informações sobre o atentado contra o ex-presidente Donald Trump, o décimo sexto atentado de uma série iniciada com o assassinato do presidente Abraham Lincoln, mas não achei explicações conclusivas para um pormenor talvez supérfluo.

Não se trata de incluir aqui uma homenagem póstuma ao Sérgio Cabral pai, falecido no domingo, criador junto com Jaguar e Tarso de Castro do jornal Pasquim, em 1969, com o qual cheguei a colaborar de Paris. Mas até que poderia ser.

Quem viu os primeiros vídeos, logo depois do atentado, vai se lembrar. Tão logo Trump se abaixou e foi envolvido pelos agentes do FBI para ser protegido e retirado do local, ouve-se a voz do ex-presidente, ainda de cabeça baixa, enquanto parece resistir aos agentes para procurar alguma coisa - "where are my shoes?" (onde estão meus sapatos?) e querendo calçar os sapatos.

Só depois do gesto de uma agente do FBI se abaixar e pegar alguma coisa, no caso o referido sapato, Trump se ergue, levanta a cabeça, mostra o punho cerrado e convoca seus seguidores para a luta dizendo um "fight!". Ainda bem para Trump, pois se insistisse em procurar ou colocar o sapato, sua frase no vídeo distribuído no mundo inteiro seria "Onde estão meus sapatos?", digna de participar da mesma campanha de descrédito de Biden por seus esquecimentos e trocas de nomes.

Passado o susto, acalmados os ânimos, desapareceu dos vídeos a preocupação de Trump por seus sapatos! Uma espécie de mini-censura para limpar o vídeo de uma coisa tão insignificante. Mesmo porque algum democrata poderia vir com um piadinha - "e a agente do FBI lavou as mãos depois de pegar o sapato do Trump?".

Entretanto, antes de prosseguirmos, vou contar talvez um outro pormenor secundário ou insignificante nessa história trágica bem estadunidense, de armas, atentados e mortes, na qual morreram duas e ficaram feridas outras duas pessoas. No local do atentado, no tablado vermelho onde falara Trump, depois de removidos o ex-presidente ferido no alto da orelha, o morto, os feridos e os policiais protetores agentes do FBI, ficou solitário um sapato preto clássico inglês de laços, Oxford, marca tradicional de origem inglesa. Com a confusão, arrastado pelos agentes do FBI, Trump não teve tempo para calçá-lo e com um só sapato foi de meia mancando ao carro que o levou ao hospital.

Talvez esse pormenor não seja assim tão insignificante. Senão vejamos: Reinaldo Azevedo no Uol diz ter havido um erro de meio centímetro por parte do jovem atirador Thomas Matthew Crooks, na sua tentativa de matar o próximo presidente dos EUA. Qual teria sido a causa desse erro? Ele era míope? Sim, tanto que usava óculos.

Nas investigações feitas sobre Crooks se descobriu, além de ser um rapaz inteligente em matemática e ciência, ter um gosto pelas armas. Isso nada tem de repreensível nos EUA onde todo mundo pode ter revólveres, fuzis, cartuchos de balas em casa à vontade, onde é tão fácil comprar armas como cigarros. Razão pela qual - e isso pode parecer absurdo - Crooks tentou fazer parte da equipe de atiradores de carabina no seu liceu ou ginásio Bethel Park. Tentou, mas não conseguiu por ser mau atirador ou ruim de pontaria.

A reprovação como atirador no seu ginásio poderia ter sido miopia, mas o ligeiro erro no atentado ao ex-presidente poderia ter sido também consequência de um certo nervosismo causador de tremor nas mãos, fazendo desviar os tiros de alguns milímetros ou meio centímetro do foco da cabeça de Trump e acertar em pessoas próximas, matando uma e ferindo outras duas. Mas poderia também ter sido o sapato de Trump...

Quem pode retornar às primeiras imagens do atentado, ou gravou no celular ou computador as primeiras imagens divulgadas ao vivo pelas reportagens de TV no local, poderá comprovar não haver mais, nos vídeos recentes do atentado, os cartazes trumpistas erguidos atrás e ao lado de Trump por seus seguidores com as palavras "Joe Biden you are fired" (Joe Biden você está demitido). E nem ouvirá o ex-presidente Trump perguntando por seus sapatos, querendo recuperá-los e calçá-los antes de ser arrastado do local pelos agentes do FBI.

Alguém poderia comentar - "mas depois de sofrer um atentado é hora de se preocupar com seus sapatos?" Ora, pelo jeito, Trump não queria ser visto de meias por seus seguidores! Mas por que estava sem sapatos se os sapatos Oxford são considerados ultra-confortáveis? Ora, o sapato de Trump deixado no local do atentado não tem salto e nem reforço interno escondido para aumentar seu tamanho, como fazem certos políticos de pequena estatura.  Mesmo porque Trump não precisa disso, pois tem 1,90m de altura.

Será que Trump costuma descalçar os pés ao fazer seus discursos? Seria um par de sapatos novos e ainda um tanto apertados? Ou, ao contrário, os sapatos eram largos, fáceis de descalçar como um mocassim, e saíram dos seus pés quando Trump foi jogado ao chão pelos agentes do FBI? E, neste caso, por que usar sapatos largos? Tem pés inchados, joanetes, unha encravada ou dores nos pés?

Uma coisa é certa, Trump não queria ser flagrado pela TV de meias ou mancando por falta de sapatos. Vaidoso, imaginava mesmo naquele instante tenso, que isso poderia ferir sua imagem - herói não é para ser fotografado de meias!

Enfim, existe a hipótese de Trump ter tirado os sapatos como se fossem mocassins, enquanto discursava, usando os calcanhares, justamente no momento de ser alvejado, saindo fora do alvo pela falta de um centímetro da sola e salvando assim sua vida. Ao que se saiba, os agentes do FBI não voltaram para recuperar o sapato Oxford deixado no tablado, documentado por alguns fotógrafos, até desaparecer levado como troféu por algum trumpista. (por Rui Martins)

quarta-feira, 17 de julho de 2024

GREVE DA EDUCAÇÃO FEDERAL: GOVERNO E DIREÇÕES PELEGAS AGIRAM PELA DERROTA

A greve da Educação Federal, encerrada em junho, foi o enfrentamento mais importante que a classe trabalhadora teve com o atual governo Lula. O final da greve foi marcado por algumas vitórias políticas importantes e um acordo econômico ruim. 

A greve, assim como a mobilização de outras categorias de servidores federais, não conseguiu derrotar o governo e o seu reajuste zero em 2024. Não conseguiu uma reestruturação efetiva das carreiras da Educação Federal, não garantiu a reposição das perdas salariais e arrancou uma reposição muito tímida das verbas das universidades e institutos federais. 

A proposta fechada com o governo basicamente impede a perda inflacionária durante os próximos quatro anos. Mas, esse acordo ficará sob o risco de não ser cumprido pelo governo, diante da pressão do setor financeiro para garantir o Arcabouço Fiscal. 

Embora muito aquém do que se pedia, o acordo é maior do que o governo gostaria de ter concedido, algo que só foi possível pela enorme força demonstrada pela greve, uma das maiores dos últimos tempos. Além disso, a greve impulsionou a organização e a confiança da categoria em suas próprias forças e revelou o papel traidor das direções sindicais governistas, que saíram desgastadas e desmoralizadas. 

Grande parte dos trabalhadores e trabalhadoras da Educação Federal tinham grandes expectativas de que, com Lula, haveria mudanças na situação de precariedade no ensino superior federal. Mas, o presidente ignorou suas promessas de campanha e, no seu primeiro ano de governo, aprovou o Arcabouço Fiscal para garantir o teto de gastos exigido pelos banqueiros e grandes empresários. 

Com isso, em 2024, no primeiro orçamento elaborado pelo novo governo, os servidores foram presenteados com reajuste zero e, para as universidades e institutos federais, com um corte de mais de R$ 300 milhões nas verbas de custeio. 

A expectativa em Lula começou a virar decepção e revolta. Foi esse sentimento de traição que alimentou a mobilização dos técnicos-administrativos das universidades e institutos federais e que depois contagiou os docentes e levou o movimento à greve nacional. 

Nesse momento, esse mesmo sentimento impulsiona a greve da área ambiental, que foi judicializada por Lula, visando que a greve seja decretada ilegal, e a greve dos servidores do INSS, marcada para o dia 16.

Durante a greve, a indignação com Lula aumentou muito. Em primeiro lugar, pela postura intransigente do governo, que lutou todo o tempo para não fazer qualquer tipo de concessão ao movimento e, até o fim, manteve sua decisão de conceder zero de reajuste em 2024.

Em segundo lugar, o movimento foi marcado pela prática antissindical adotada na negociação, com ultimatos, manobras, tabelas erradas e a construção da farsa do acordo com a PROIFES-Federação, uma entidade fantasma, controlada pelo PT e pela CUT, que assinou um acordo contra a decisão das suas assembleias de base. 

Em terceiro lugar, a postura do governo foi caracterizada por suas declarações públicas, atacando a greve e dizendo que os servidores deveriam agradecer ao governo, ao invés de criticá-lo.  

“Tem dinheiro para banqueiro, mas não tem para Educação!”

A indignação com o governo cresceu também em função do cinismo de Lula, afirmando que estava fazendo tudo ao seu alcance pela Educação. Uma grande mentira, que ficou evidente para os grevistas. 

O governo se nega a conceder um reajuste salarial em 2024 e a recomposição das verbas dos institutos e universidades federais, que teriam um custo anual de menos de R$ 10 bilhões. Contudo, continua cedendo uma enorme fatia das verbas públicas ao agronegócio, às grandes indústrias e ao setor financeiro. 

Com aquilo que a União gasta em apenas dois dias com a dívida pública - R$ 10,5 bilhões -, seria possível garantir mais de 7% para recomposição salarial, em 2024, e os R$ 4 bilhões que pedem os reitores para as verbas de custeio das universidades e institutos federais. 

Com 2% dos R$ 519 bilhões concedidos em isenções fiscais aos grandes empresários, somente em 2023, seria possível quase triplicar a proposta de reajuste salarial fechada com o governo, que custará R$ R$ 6,2 bilhões, em dois anos. 

É preciso também lembrar do papel das direções pelegas dos sindicatos, nas quais Lula se apoiou para tentar derrotar o movimento.

Para impor sua proposta salarial, Lula se apoiou nas direções governistas das entidades sindicais - PT, PSOL, PCdoB, PCB e UP -, que buscaram impedir e, depois, controlar a greve, para não afetar a popularidade do governo. 

A primeira traição foi abandonar a campanha salarial unificada e semear ilusões nas mesas específicas, que têm se mostrado desastrosas. Com essa postura, as entidades de servidores federais dividiram o movimento e isolaram a greve da Educação Federal. Entidades importantes, como a Confederação dos Trabalhadores Serviço Público Federal (Condsef), sequer entraram na greve. 

A segunda traição foi tentar impedir a greve na Educação Federal, mas, nesse caso, foram atropelados pela base. Durante a greve, passaram semanas preparando o desmonte da paralisação e não se cansaram em repetir argumentos para defender o governo: “A greve não pode se prolongar, para não fortalecer o fascismo”, “Lula, assuma as negociações”, etc. 

Foram inúmeras manobras, práticas burocráticas e antidemocráticas nos comandos de greve nacional e locais, para tentar impedir que a vontade das bases prevalecesse na condução da greve. Mesmo assim, o movimento conseguiu impor ações radicalizadas e mobilizações nacionais. 

A greve deixou algumas lições importantes. Está claro que Lula não vai resolver os problemas da Educação pública. Seu compromisso é governar com e para os grandes empresários, lhes garantindo todo tipo de privilégio fiscal e grandes fatias do orçamento. Contudo, não é possível governar para a burguesia e para os trabalhadores ao mesmo tempo.

Para garantir os investimentos nas universidades e institutos federais, a valorização salarial e o fim do processo de privatização, é preciso derrotar o Arcabouço Fiscal de Lula. E isso só será possível construindo um poderoso processo de mobilização, que envolva não apenas o setor da Educação, mas todos os setores da nossa classe.

Para isso, é necessário construir uma nova direção para as entidades sindicais. Uma direção sindical que se paute pela independência de classe e assegure a democracia operária como método de condução do movimento. Que organize e impulsione a luta da classe trabalhadora por suas demandas e, consequentemente, para enfrentar e derrotar o governo.

Isso não implica descuidar da luta contra a ultradireita, que segue como uma ameaça concreta contra a classe trabalhadora. Mas, é falacioso o argumento de que combater Lula ajuda a ultradireita, pois Lula não a está combatendo. 

Pelo contrário, quando aplica as diretrizes do Arcabouço Fiscal, atua para derrotar e desmoralizar as lutas dos trabalhadores; quando passa a mão na cabeça dos chefes da tentativa de golpe do ano passado, está justamente pavimentando o caminho para a volta desse setor ao poder.

Nosso desafio é a construção de uma forte oposição pela esquerda ao governo Lula, sem descuidar do combate à ultradireita. Uma oposição que se apoie na organização e na mobilização da nossa classe, em defesa das demandas do povo trabalhador e dos interesses do país, e que tenha como perspectiva colocar os trabalhadores e trabalhadoras para governar o Brasil, através das suas organizações e de conselhos populares.

Só assim abriremos caminho para a superação do capitalismo, um sistema em que a riqueza está a serviço do lucro e do enriquecimento de poucos. Assim, poderemos dar curso à construção do socialismo, garantindo não apenas uma educação pública, de qualidade e a serviço do desenvolvimento cultural, científico e tecnológico do país, como também uma vida digna e humana para todos e a todas. (Eduardo Zanata, do jornal Opinião Socialista)

segunda-feira, 15 de julho de 2024

O IMPOSTO, UM GRANDE IMPOSTOR!

 


Desculpem o trocadilho fácil do título deste artigo, mas não consegui me livrar da tentação de fazê-lo. É que, desde logo, quis afirmar a falácia da cobrança de impostos como forma de proporcionar ao Estado os meios de proteção ao cidadão.  

Na relação social mercantil, própria ao sistema produtor de mercadorias, juntamente como a extração de mais-valia e a inflação de preços das mercadorias que causa a perda de poder aquisitivo dos salários, os impostos se configuram como outra grande forma de exploração social.   

O imposto é uma mensuração em valor econômico, portanto sob a forma da mercadoria dinheiro, cobrado aos consumidores de mercadorias; em parte dos lucros obtidos empresarialmente pela produção e venda de mercadorias que são repassados aos consumidores; ou nas operações financeiras, para a sustentação da máquina estatal, predominantemente opressora.  

Por mais que se queira dourar a pílula, como querem todos os governantes, os impostos são cobranças impostas ao povo sob a forma-valor representada pelo padrão monetário estatal, o dinheiro, e como categoria capitalista sui generis, imprescindível e imanente à opressão estatal do capital como forma jurídica circunscrita à regência social da forma-mercadoria, fonte de todos os males. 

O tributo, ou imposto, palavra que se origina do latim tributum, nasceu inicialmente sob a forma de contribuição material - alimentos, animais, peles, etc. - dos produtores das tribos para a sustentação administrativa comunitária solidária, sem a característica posterior de quantificação monetária impositiva, o que demonstra que pode existir participação comunitária na sustentação material da sua organização jurídico-constitucional horizontal e fora do sistema produtor de mercadorias e da forma-valor.  

À altura correspondia a uma doação espontânea, fruto de uma necessidade de suprimento material para aqueles que se incumbissem da organização comunitária, contribuição que, infelizmente, com o passar do tempo adquiriu uma conotação opressora.     

A sua consolidação como tributo oficial, estatal, veio com a escravização e a consequente necessidade de formação de forças militares garantidoras do regime escravista, principalmente sob a forma de salário em dinheiro, de onde se pode concluir a negatividade intrínseca a essa categoria social que mais tarde se configuraria como uma das mais importantes categorias capitalistas da chamada modernidade.  

Há hoje um descompasso entre duas contas mercantis fiscais estatais: 

a necessidade de suprimento financeiro dos seus custos operacionais estatais, que incluem gastos com a infraestrutura de produção capitalista (estradas, energia, portos, etc.); gastos com os juros da dívida pública crescente; subsídios de financiamento à produção com juros baixos pelos chamados Bancos de Desenvolvimentos; instituições do poder político (parlamento e justiça); máquina administrativa (salários do poder executivo); juros da dívida pública; e gastos miliares (tropa, equipamentos e manutenção) e; 

- a capacidade de arrecadação de impostos numa economia mundialmente depressiva, que está levando a máquina estatal a um endividamento insuportável graças aos juros pagos aos bancos, grandes e pequenos rentistas e aos grandes capitalistas industriais e comerciais que hoje vivem mais das aplicações financeiras do que da produção e venda de mercadorias. 

Neste cenário, a direita, sabedora do colapso iminente das contas públicas e da consequente falência do sistema de crédito bancário, defende o estado mínimo, sem preocupações sociais, e pronto a fazer, pela força das armas, o ajuste das contas públicas a qualquer preço, inclusive com o aumento dos impostos cobrados à população na compra e venda de mercadorias.  

Mas a esquerda institucional, com argumentos diferenciados, e com preocupações sociais eleitorais, converge com a direita no item relativo à cobrança dos impostos. 

 A esquerda mais combativa, a intelectualidade fora da institucionalidade e alguns tímidos setores da esquerda institucional defendem a taxação das grandes fortunas como se fosse a pedra fundamental para a solução da crise do capital. Incorrem no erro de querer consertar o capitalismo a partir de suas próprias categorias, sem superá-las.

É necessário entender que as grandes fortunas estão na propriedade das pessoas jurídicas e apenas uma menor parte delas na propriedade das pessoas físicas. As empresas precisam permanentemente de mais capital para fazer face à corrida concorrencial de mercado cujo capital é cada vez mais monopolista e concentrado nesses monopólios.  

Taxar os seus patrimônios financeiros e lucros das empresas, aliviaria a falência estatal e, consequentemente as finanças públicas, mas causaria uma depressão econômica ainda maior do que a atual por conta da redução da capacidade empresarial de investimento, ou seja, sob a lógica do capital na fase do seu limite interno e externo de expansão, não há soluções simples e viáveis.  

Os efeitos colaterais aparecem como num lençol curto na tentativa de cobrir um corpo agigantado e descoberto. 

Ademais, há uma predominância de parlamentares conservadores nas casas legislativas mundo afora, como resultante do jogo democrático burguês onde impera o poder econômico eleitoral, e a taxação das grandes fortunas empresariais seria matéria controversa por conta de que tal medida aumentaria o desemprego estrutural que já é crescente por conta mecanização eletrônica irrefreável na produção de mercadorias, pois o capitalismo cava a sua própria sepultura, conforme já expressava Marx.         

Essa unidade de comportamento de aumento tributário da direita e da esquerda, mesmo que sob intenções diferenciadas, decorre do fato de que ambas dirigem as suas diretrizes políticas sob uma mesma base mercantil.   

A direita age assim por razões obvias, ou seja, para tentar dar sequência ao seu objeto teleológico de crescimento do bolo para que dele possa jogar ao chão para o povo as migalhas que sobrarem dos seus banquetes, mas sem querer compreender que a festa acabou, tal qual o baile da Ilha Fiscal no crepúsculo da monarquia brasileira em transição para a república. 

A esquerda institucional, estatizante, quer colocar o capital a serviço da política, sem compreender que a política, na sociedade do capital, extrai recursos das relações mercantis e é a ela submissa, razão pela qual fala permanentemente na retomada do desenvolvimento econômico para equalizar as contas públicas e tentar aumentar e melhorar o nível de empregabilidade, ou seja, tentar aumentar a quantidade de gente na exploração pelo trabalho abstrato que defendem equivocadamente.  

Lula, há pouco tempo, fez um discurso contra a liberação de cobrança de impostos aos empresários sob a forma de subsídios, mas misturou coisas diferentes como se fossem idênticas para defender o aumento indiscriminado da arrecadação de impostos.  

Isentar imposto sobre mercadorias de consumo popular é medida que beneficia o povo que as compra; desonerar a folha de pagamento, algo feito pela presidente Dilma Rousseff em 2012, na contribuição previdenciária de responsabilidade empresarial em 20% e substituí-la por uma taxa de imposto menor sobre a renda bruta é agradar o capital sem benefício direto para as contas da previdência social - que ele quis equalizar tirando direitos dos aposentados, razão da dissidência que criou o Psol, ainda em 2003, agora aliado político no cínico jogo eleitoral. 

Javier Milei, por sua vez, afirma que o ajuste das contas públicas dar-se-á sobre o corte de gastos com demandas sociais, não com o setor capitalista privado que, claro, quer revitalizar diante do marasmo atual.  

Não tenhamos dúvidas: as categorias capitalistas valor, trabalho abstrato, dinheiro, mercadoria, mercado, Estado, política institucional, partidos políticos, e essa que tratamos neste artigo, o imposto, formatam o universo de uma relação social que entrou em disfunção orgânica por seus próprios fundamentos ao atingir o limite interno e externo das suas existências expansionistas.  

Precisamos ter a coragem de nos desprendermos delas e estabelecermos uma nova forma de relação social que nos humanize e que negue todas as categorias que são imanentes à destrutiva e, agora, autodestrutiva relação social capitalista. (por Dalton Rosado)

sábado, 13 de julho de 2024

O CAPITALISMO EM ESTADO DE SENILIDADE

 


P
utin é o presidente da Ucrânia? Trump é o vice-presidente dos EUA? De acordo com recentes gafes cometidas por Joe Biden, sim. O presidente estadunidense vem sofrendo severas críticas quanto à sua condição física e mental após sucessivas frases infelizes e, sobretudo, após sua desastrosa participação no primeiro debate presidencial com seu adversário - e não seu vice! - Donald Trump

Não é preciso ser médico para diagnosticar em Biden claros sinais de senilidade, uma degeneração evidente de suas condições intelectuais e mesmo corporais. Obviamente, o presidente de 81 anos não é regra geral, pois existem inúmeros idosos que, com quase cem anos, levam vidas ativas e lúcidas, mas é impossível negar que a condição do atual ocupante da Casa Branca é claramente de alguém cujo melhor lugar hoje seria em casa repousando e não governando o país mais poderoso da história. 

Mas é equivocado pensar ser a saúde de Biden o grande motivo para os posicionamentos contra a continuidade de sua campanha à reeleição. A deterioração de sua saúde pode ter contribuído para aprofundar uma situação já existente, a do completo fracasso de sua presidência, conforme já analisávamos neste post, motivo de ele amargar baixíssimos níveis de aprovação.

Na verdade, Biden foi lançado pelo establishment do Partido Democrata unicamente para evitar a vitória de Bernie Sanders nas primárias de 2020, tal como já havia acontecido em 2016, quando igualmente Hillary Clinton usou e abusou de manobras para barrar o socialdemocrata. Igualmente, Biden se manteve no páreo para 2024 unicamente para não abrir disputa primária em seu partido, evitando mais uma vez que a ala esquerda vencesse por agora. São os democratas sem democracia. 

É bem possível que Biden se retire da disputa em prol de sua vice, a igualmente decrépita - embora apenas politicamente - Kamala Harris. Tudo indica que Trump vencerá, seja concorrendo com Biden ou com sua vice, a real, não a da gafe. Mas isso importa zero para o partido democrata e para a burguesia estadunidense, que dormirá em berço esplêndido sabendo que seus reais inimigos, Sanders e seu movimento, estarão fora do governo.

Não que Sanders seja um revolucionário ou mesmo uma ameaça séria à burguesia estadunidense. Igual Jean-Luc Mélechon, é apenas um reformista moderado, muito mais à esquerda que reacionários do tipo Lula ou Macron, mas ainda muito mais à direita que qualquer posicionamento autenticamente socialista. Contudo, Sanders e Mélechon dão caláfrios nos conservadores de qualquer lugar do mundo, pois colocam o dedo na ferida do capitalismo e ousam encampar a causa Palestina. Contra eles, os Biden, Lula e Macron - seguidos pelos seus séquitos - não irão pestanejar um só minuto em preferir que estejam no poder algum membro da extrema-direita, mas defensor intransigente do capital. 

Por isso, Biden insiste em sua campanha de faz de conta e, no máximo, aceitará ser substituído pela igualmente farsesca Kamala. No fim, vencendo Trump ou não, o capitalismo fica inquestionável. 

Mas, há algo profundamente sintomático quando se observa que a concorrência ao cargo de presidente dos EUA está entre um idoso senil e um idoso criminoso. Não teria ali indivíduos com mais qualidade? Mas colocar a questão em termos de indivíduos já é um erro, pois a política nunca é a respeito de indivíduos, mas da luta de classes e a disputa pela Casa Branca sempre foi um jogo ultra controlado em que, ao fim, disputam apenas os ungidos pelo capital, existindo zilhões de mecanismos -econômicos, administrativos, políticos, midiáticos, etc. - para filtrar os participantes e confluir em uma eleição bipartidária, engessada e estéril. Até a escolha do Papa é mais plural!

Assim, a disputa entre um presidente em estado avançado de senilidade e um ex-presidente criminoso condenado é apenas a expressão de algo muito mais profundo, a decadência da própria burguesia estadunidense e, ao fim, a senilidade do próprio capitalismo, incapaz de encontrar novas expressões. A caducidade eleitoral expressa a impossibilidade do capital em se reproduzir de forma ampliada, entrando em estado vegetativo. Essa é sua crise e esse é o estado terminal em que a sociedade capitalista se encontra neste começo de século. (por David Coelho)



quarta-feira, 10 de julho de 2024

MACRON SE RECUSA A RECONHECER DERROTA E GANHA TEMPO



 Rui Martins

Antes de partir para Washington, onde participa de uma reunião da OTAN, o presidente francês Emmanuel Macron deixou uma carta dirigida a todos os franceses, na qual pede aos eleitos no último domingo para se reunirem em torno dos valores republicanos, com ideias e programas acima de suas ambições pessoais, numa crítica velada às exigências do líder da França Insubmissa, Jean Luc Mélenchon.

Só depois de encontrado esse denominador comum, Macron tratará da nomeação do primeiro-ministro, "isso supõe se deixar passar um pouco de tempo às forças políticas para construírem compromissos com serenidade e respeito". Enquanto isso, permanecerá, não se sabe por quanto tempo, o atual governo de Gabriel Atall, cujo partido, o mesmo do presidente, ficou em segundo lugar nas eleições. Essa carta já provocou uma série de protestos, que poderão ser seguidos de convocações para manifestações populares.

Ao mesmo tempo, temerosos de que os deputados da França Insubmissa se aproveitem do clima para assumir a direção da Nova Frente Popular, os deputados ecologistas e socialistas programam se reunir para fazer face.

Existem lições a tirar para a esquerda brasileira da reviravolta nas eleições legislativas francesas de domingo?

Talvez a mais importante seja a de se evitar o extremismo, provocador de divisões e de medos. Ao contrário dos entusiasmos mostrados por certas redes sociais brasileiras, o líder do partido LFI ou França Insubmissa, Jean Luc Mélenchon, considerado de extrema esquerda, não é um aglutinador de forças contra a extrema direita e nem foi o único chefe do movimento de união dos partidos de esquerda e direita.

Bem ao contrário! Mélenchon pode ser considerado como um dos inspiradores da vitoriosa Nova Frente Popular, porém, ao mesmo tempo, suas declarações extremas e egocêntricas fizeram muitos eleitores socialistas e de direita estarem dispostos a votar a contragosto na extrema-direita de Marine Le Pen.

O caso mais comentado foi o do "caçador de nazistas" Serge Klarsfeld que, na hipótese de uma final entre a extrema direita e extrema-esquerda, preferiria votar no partido de Le Pen e não seguir o voto nulo, indicado pelas instituições judaicas. Essa declaração provocou escândalo pois seu pai, Arno Klarsfeld, judeu, morreu em Auschwitz, para onde tinha sido deportado da França.

A razão dessa estranha opção foram as declarações de Jean Luc Mélenchon, consideradas antissemitas pelas forças conservadoras da França, sem ter declarado terrorista o ataque do 7 de outubro por parte do Hamas. Embora Mélenchon não seja um aglutinador, tanto que a maioria dos deputados eleitos pela Nova Frente Popular rejeita sua indicação para primeiro-ministro, uma parte da esquerda brasileira vê nele um líder a ser imitado.

Pelo menos um líder do PT, Paulo Paim, e uma líder do PSB, Lídice da Mata, ponderam pela moderação ao comentarem a vitória da esquerda na França. Nada a ver com o líder do que se poderia chamar de extrema esquerda brasileira, Rui Costa Pimenta, do Partido da Causa Operária que, embora sem a mesma verve seria a versão nacional do tribuno populista Mélenchon. Pimenta foi a favor da invasão da Ucrânia pela Rússia de Putin e aplaudiu o terrorismo do Hamas no 7 de outubro.

A lição das legislativas antecipadas na França para a esquerda brasileira poderia ser a de não encampar a linguagem extremada de um Mélenchon, como bem sintetiza Paulo Paim "precisamos entender a importância de trabalhar uma frente ampla de centro-esquerda porque senão, daqui dois anos, poderemos ter um retrocesso ainda maior no parlamento brasileiro em relação à realidade de hoje".

Talvez Celso Amorim e o presidente Lula devessem analisar como o discurso provocativo de Mélenchon estava assustando os franceses e os levando ao RN da extrema-direita, enquanto a linguagem conciliadora de Raphael Glucksmann funcionava como calmante.

O jornal Le Monde conta como toda a Europa teve um alívio diante dos primeiros resultados das eleições francesas, com exceção da italiana Melloni, do húngaro Orban e do russo Putin. O ambivalente Putin que consegue ser apoiado pela extrema direita de Orban e por países do Sul Global e por alguns países e teocracias do Brics.

Para terminar, uma coincidência - na França, a dinastia da extrema-direita se chama Le Pen; no Brasil, a extrema direita é também uma dinastia familiar, a de Bolsonaro. (por Rui Martins)

domingo, 7 de julho de 2024

BRASIL ELIMINADO DA COPA AMÉRICA: AS SELEÇÕES MULAS SEM CABEÇA NÃO TÊM VEZ NO SÉCULO 21.

A seleção de futebol brasileira acaba de ser eliminada da Copa América pela uruguaia na  loteria dos pênaltis, após vencer uma partida e empatar as outras três.   

E daí? Qual a novidade? Uruguaios acumulam 15 títulos dessa competição, argentinos idem e nós, 9. Deu a lógica. 

Além de terminarmos invictos, ainda fomos até ligeiramente superiores aos hermanos cisplatinos, que eram cravados como francos favoritos pelos cronistas esportivos daqui.

No entanto, quem der uma passada de olhos pelos textos dos ditos cujos, ficará com a impressão de que acabou de ocorrer uma verdadeira tragédia. 

Quase todos perderam o espírito crítico, o senso de proporção e a coragem intelectual para resistirem ao resultadismo rabugento dos torcedores. 

Tornaram-se espíritos polarizados, repetindo melancolicamente a cegueira da política ao fazerem média com o primarismo daqueles a quem deveriam transmitir luzes. Pelo contrário, conduzem-nos a escuridão mais profunda.

Uma análise pautada pelo equilíbrio teria reconhecido que, após o 2023 que a CBF jogou fora com o engana-trouxas de que Carlo Ancelotti trocaria o Real Madrid pela Irreal Pindorama e com a perda total que foi a passagem do  Fernando saidinha Diniz pelo escrete, o técnico Dorival Jr. nem de longe foi testado. Se queriam um mágico, que fossem procurar algum.

Após sair-se surpreendentemente bem nos amistosos internacionais, Dorival Jr. teve de jogar sua sorte na Copa América em ridículas miniaturas de gramados estadunidenses, ótimos para os selecionados que  congestionam todos os espaços, disputando a bola com transpiração extrema e inspiração quase nenhuma. 

Para piorar, um grotesco erro do arbitro e do VAR privou os brasileiros do primeiro lugar em seu grupo, colocando-o contra um adversário muito mais difícil no primeiro mata-mata.

E o dedo na ferida ninguém coloca. O principal problema do mendicante futebol brasileiro é haver-se tornando fornecedor de pé-de-obra para o exterior, não só negociando suas revelações a preço de banana enquanto ainda nem chegaram à maioridade, mas também formando-as de acordo com as exigências dos compradores.
Estes, os europeus com mais intensidade, continuam nos vendo apenas como intuitivos talentosos, bons para o drible e as improvisações, mas não como organizadores das equipes, capazes de pensar opções e ditar o ritmo do jogo coletivo. 

Noutras palavras, ainda nos veem como intelectualmente inferiores e não se dispõem a pagar fortunas por grandes meio-campistas, simplesmente essenciais na modernidade futebolística.

Como a Argentina conseguiu quebrar a sequência de quatro Mundiais da Fifa consecutivos vencidos pelos europeus após o penta brasileiro? Graças a ter um gênio no meio-de-campo, simplesmente o maior futebolista de todos os tempos. 

E só o tinha porque vinha lapidado desde os 13 anos no Barcelona. Caso tivesse permanecido no seu país, Messi jamais atingiria as alturas que atingiu. 

Está muito melhor a seleção canarinho com Endrick, Vinícius Jr., a perspectiva de que Estevão vingue e que Vitor Roque se recupere. Provavelmente dará para montarmos um ataque poderoso. 

Mas o calcanhar de Aquiles, como se viu na Copa América, é não possuirmos nenhum meio-campista magistral como De Bruyne e Modric.
(por Celso Lungaretti)

sexta-feira, 5 de julho de 2024

O FILME PARA VER NO BLOG DE HOJE É UMA HOMENAGEM AOS PRESIDENTES QUE O BRASIL ELEGEU NO SÉCULO 21

Morro de vergonha a cada nova comprovação de que o povo brasileiro ou se submete a intermináveis ditaduras ou elege caricatos presidentes da República que o colocam em ridículo mundial.

E que, se no século passado houve exceção, no atual as escolhas têm sido as piores possíveis.

Primeiramente Lula, cuja visão de mundo começou a ser moldada no ambiente do coronelismo nordestino dos seus primeiros sete anos de vida e depois foi reciclada pelo sindicalismo de resultados estadunidense.

Nem em Garanhuns nem no ABC pôde adquirir conhecimentos que lhe permitissem perceber que o capitalismo mundial está há muito condenado por inviabilidade econômica e, por mais que consiga alongar sua agonia, inevitavelmente vai desembocar numa depressão que fará a da década de 1930 parecer brincadeira de criança.

Quis o destino que ele se tornasse dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, adaptando-se às circunstâncias como um camaleão para delas tirar melhor proveito pessoal, mas sem jamais haver tido capacidade para voos mais altos.

Assim, p. ex., singelamente já admitiu que, atendendo às viúvas que vinham requerer seus benefícios, passava a conversa nas que o atraíam e acabava lhes concedendo outros préstimos
Daí a filha fora do casamento que o prejudicou tanto na semana decisiva da eleição presidencial de 1989, não só pela revelação do seu adultério como por ele haver tentado convencer a amante a abortar em benefício de sua carreira política.

Escolhido pelos mandachuvas do PT como mera figura de proa para ganhar eleições no figurino populista, beneficiou-se no primeiro mandato de um contexto extremamente favorável às commodities brasileiras e da tutela que tais cabeças pensantes exerciam sobre ele, impedindo-o de cometer lambanças.

O escândalo do mensalão, no entanto, permitiu-lhe livrar-se da vigilância dos Genoínos e Dirceus, passando a fazer o que lhe dava na telha. O segundo mandato foi bem menos auspicioso do que o primeiro e a escolha da gerentona trapalhona para sucedê-lo, desastrosa ao extremo. 

Muito mais uma brizolista do que petista, ela tentou ressuscitar a política econômica do trabalhismo de Vargas como se fosse possível fazer o calendário da História recuar meio século. Com isto, Dilma Rousseff colocou o Brasil no rumo de uma terrível recessão, que tragou seu mandato, mandou Lula para o cativeiro e elegeu o palhaço psicopata.

Apesar do peso que a acusação de corrupção teve naquela desgraça do Lula, ele é muito mais movido por delírios de poder dentro da democracia burguesa (o que faz dele apenas um serviçal de luxo do poder econômico) do que pela imoralidade gananciosa. 

Apenas reproduziu o comportamento da esmagadora maioria dos políticos profissionais, certamente considerando normal que a Odebrecht reformasse seu sítio, lhe provesse tríplex, implantasse instituto e financiasse o partido por baixo do pano. 

Pelo mesmo critério, uns 95% dos políticos profissionais brasileiros acabariam em cana. O grande pecado do Lula foi outro: igualar a esquerda à qual o povo ingenuamente crê que ele pertença à ralé nefanda dos centrões fisiológicos.

Quanto a Jair Bolsonaro, o motivo de eu estar falando dele aqui é óbvio: seu indiciamento pela Polícia Federal por indiscutíveis e indefensáveis crimes de peculato, lavagem de dinheiro e associação criminosa (no caso das joias recebidas de governos estrangeiros). 

Fruto putrefato do ambiente miliciano fluminense, nunca passou de mero ladrão de galinhas com evidentes sintomas de desequilíbrio mental, capaz de planejar explosão de banheiros de quartéis, sabotagem do fornecimento de água à população... e depois contar tudo à imprensa! 

Também não podemos esquecer que ele obrigava seus auxiliares administrativos a lhe pagarem comissão, nem o uso fraudulento do dinheiro público para custear a faxineira de sua casa de praia... 

No caso desta excrescência  é desnecessário alongar-me. Foi o presidente responsável pelo maior extermínio de brasileiros em todos os tempos, o que pior governou e o que mais humilhou o Brasil aos olhos do mundo. 

Se Lula não precisasse dele para ter chances eleitorais como mal menor, há muito o bufão macabro deveria estar vendo o sol nascer quadrado. 

Ele continuar em liberdade até hoje é simplesmente uma aberração! (por Celso Lungaretti)
E por que dois perdidos? Porque eleitos foram ambos, a
outra não passou de um poste fincado no poder pelo Lula 

quinta-feira, 4 de julho de 2024

60 ANOS APÓS A OBRA-PRIMA DO GLAUBER, AINDA NÃO APRENDEMOS QUE A TERRA É DO HOMEM, NÃO É DE DEUS NEM DO DIABO.

P
roduzido em 1963 e lançado no ano seguinte, Deus e o diabo na terra do sol foi o primeiro filme nacional a atingir o patamar de obra-prima da sétima arte em termos mundiais.  

Estava anos-luz à frente de O Cangaceiro e de O pagador de promessas, cuja (pouca) repercussão internacional se devera à condescendência dos gringos para com os exotismos de países subdesenvolvidos.

Agora que voltamos ao universo sufocante da polarização maniqueísta, num retrocesso civilizatório que nem mesmo no ano maldito de 1964 acreditávamos ser possível, bem que a comemoração do seu 60º aniversário poderia ser aproveitado para despertar o interesse das novas gerações. 

Não só para um debate consistente sobre como pudemos regredir tanto, praticamente nos deixando subjugar novas formas de coronelismo político e fanatismo religioso, como até em termos estéticos. Os jovens precisam saber quão consistente e criativo o cinema brasileiro foi, antes de se subjugar à medíocre estética televisiva.
nordestern épico de Glauber Rocha, influenciado por John Ford, Sergei Eisenstein e os mestres do neo-realismo italiano, acompanha a jornada do vaqueiro Manuel (Geraldo Del Rey) em busca de um novo destino, pois saíra do trilho normal de sua existência ao matar o coronel da região numa desavença a respeito da partilha do gado.

Engaja-se nos efetivos messiânicos de Deus (o santo Sebastião, interpretado por Lídio Silva e evidentemente baseado em Antônio Conselheiro) e do diabo (o cangaceiro Corisco, personagem que deu oportunidade a um incrível tour de force de Othon Bastos, disparado o melhor ator do elenco).

As autoridades, os latifundiários e a Igreja recorrem ao jagunço Antônio das Mortes (Maurício do Valle) para exterminar os beatos do Monte Santo (Canudos, claro!) e os cangaceiros remanescentes após a morte de Lampião. 
Gigantesco, com capa de boiadeiro e barba cerrada, ele aluga sua papo amarelo calibre .44 para os poderosos, mas acredita estar cumprindo um papel mais nobre: o de desimpedir os caminhos para a guerra que um dia o povo haverá de travar
"sem a cegueira de Deus e do diabo".

Manuel sobrevive a ambos os massacres e sai com a convicção de que a libertação do sofrido povo nordestino não passa por cangaceiros e fanáticos, como enfatiza a magnífica canção final de Sérgio Ricardo: "Tá contada a minha história/ na verdade, imaginação,/ espero que o sinhô tenha tirado uma lição:/ que assim, mal dividido, este mundo anda errado,/ que a terra é do homem, não é de Deus nem do diabo". (por Celso Lungaretti)
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