quarta-feira, 19 de setembro de 2018

AS URNAS DE NOSSA DESESPERANÇA – 7: OS AZARÕES DO PÁREO PRESIDENCIAL QUE CORREM PELO LADO DIREITO DA PISTA

(continuação deste post)
Meirelles: deveria limitar-se ao ofício de economista
Os candidatos menos cotados
nas pesquisas eleitorais, analisados
 por blocos
(1ª parte
Por mais difícil que pareça, é possível identificar pontos comuns de visão política nos dois blocos aparentemente heterogêneos de candidaturas menos cotados à Presidência da República, bem como num terceiro candidato à parte (mas que se insere no perfil do ultradireitista Bolsonaro).

O ponto de convergência é a crença (ou mensagem demagógica) na capacidade do Estado e do modo atual de produção mercantil por ele tutelado de resolver a contento os problemas sociais. 

Nenhum deles prega uma nova forma de relação e organização, como se a mediação social feita a partir do modo de produção capitalista fosse a única possível e o seu Estado, uma matriz indispensável da qual possam surgir apenas derivações, não alternativas.  

Este ponto comum reflete seus equívocos também comuns, que passam a existir desde o momento em que se propõem a participar no jogo eleitoral regido pela atual Constituição. 

As regras são previamente estabelecidas e joga quem quer.

Assim, analisemos as convergências de gênero nesses blocos político-eleitorais aparentemente heterogêneos.
Álvaro Dias: deveria limitar-se ao Paraná

O primeiro bloco é formado pelos candidatos Álvaro Dias, do Podemos; Henrique Meirelles, do MDB; João Amoêdo, do Partido Novo; e José Maria Eymael, da Democracia Cristã, todos de direita ou centro-direita. 

Apesar das diferenças cosméticas porventura existentes nos apelidos e situações geopolíticas em que se venha a rotulá-los, eles em nada se diferenciam quanto ao seu conteúdo. Pelo contrário, são inúmeras as identidades programáticas destes quatro candidatos que compõem o bloco da salvação do capitalismo com mais capitalismo pela via do Estado, e cuja identidade ideológica é neoliberal. 

Todos enfatizam, p. ex., a necessidade de crescimento econômico:  

— Álvaro Dias fala em crescimento de 5% ao ano; 

— Henrique Meirelles, um pouquinho mais modesto, aceita 4%, talvez por ter apenas conseguido, como ministro da Fazenda de Michel Temer (do qual agora procura distanciar-se como o diabo da cruz), -3,6% em 2016 e 1% em 2017, com previsão em torno de 1% para 2018; 

— João Amoêdo, como banqueiro pragmático, promete crescimento econômico a partir de 10 diretrizes básicas que mais não são do que o antigo corolário da visão burguesa segundo a qual o Estado deve circunscrever-se à função de regulamentação da ordem capitalista, deixando para o empresariado todas as demandas sociais a partir do conceito da mercadoria; 
Amoêdo: deveria limitar-se a otimizar a agiotagem dos bancos

— José Maria Eymael é o mais simplório nesta questão, apregoando apenas que a isenção de impostos para a construção civil seria a pedra de toque do desenvolvimento econômico.             
Ora, o próprio capital é que está travando o crescimento econômico mundial (e, mais acentuadamente, na periferia do capitalismo). E tal ocorre justamente porque são poucas as atividades empresariais com capacidade de geração de lucro.

Como dizia Karl Marx nas suas teses sobre a tendência da redução da taxa de lucro sob o capitalismo, o que vemos hoje é a exigência cada vez maior,  para fazer face à concorrência de mercado, de investimentos em equipamento tecnológicos e infraestrutura (capital fixo) e cada vez menos em capital variável (salários). 

O capital, ao concentrar riquezas por sua lógica concorrencial de mercado, à qual se aplica a lei darwiniana de seleção das espécies para a vida social, somente proporciona lucros àqueles que detêm mais capital (vide o caso dos grandes conglomerados comerciais e industriais que se fundem para ganhar da concorrência e abocanhar as fatias de mercado detidas pelos concorrentes).

É, portanto, graças à famigerada viabilidade econômica que somente se faz algo a partir de capacidade de lucro e, neste, sentido o Brasil equivale a um maratonista mal alimentado que concorre com atletas mais qualificados, sejam eles os donos do saber científico aplicado à produção de mercadorias (casos dos Estados Unidos e União Europeia), sejam eles os países de mão-de-obra abundante e miserável (casos da Índia e China).
Eymael: limita-se a aumentar para 8 suas derrotas eleitorais

Esquecem-se os candidatos de que o crescimento do PIB previsto para a América Latina no ano de 2018 está em torno de 1,6% (mesmo patamar projetado para os países de outros continentes que também pertencem à periferia do capitalismo ). Querer que seja retomado o desenvolvimento econômico a partir da indução pelo Estado, cujas finanças são cada vez mais deficitárias, é balela eleitoral de quinta categoria.   

A proposição de desenvolvimento econômico dos candidatos desse bloco, suposta varinha de condão capaz de suprir as finanças públicas e aliviar-nos de todos os males decorrentes da depressão econômica mundial (e da dívida pública e privada que já corresponde a 360% do PIB mundial, prenunciando um colapso no médio prazo), são tão irrealizáveis como se querer que um fusquinha dos anos 60 ganhe uma corrida de Fórmula 1 em 2018. 

Mas, há outras identidades programáticas que demonstram quão monocórdias são suas respectivas e repetitivas proposições. 

A redução de gastos estatais, que corresponde ao ajuste do orçamento fiscal, é uma proposição de todos os candidatos, num reconhecimento de que o Estado deve sanear as suas finanças para continuar viável.

Ocorre que, após o pagamento das despesas fixas estatais, pouco sobra para o atendimento das demandas sociais básicas. O objetivo deles é manter viável a tutela do Estado, tida como indispensável para a operacionalidade do sistema capitalista. 
Cabo Daciolo: limita-se a desfrutar seus 15 minutinhos de fama

Há despesas orçamentárias indispensáveis para a governabilidade, como a folha salarial dos poderes do Estado e o custeio da máquina estatal (poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, aí incluído os gastos militares com salários e equipamentos); os juros da dívida pública; e o déficit previdenciário. 

Tudo isso, somado a outras despesas menores mas igualmente obrigatórias, implica um déficit fiscal crescente, sem que o Brasil possa emitir moeda sem lastro (que causaria inflação insuportável), como o fazem os EUA e a União Europeia.

Os candidatos somente oferecem respostas a tal impasse acenando com a quimera do desenvolvimento econômico e do arrocho fiscal (este último item causador de grandes prejuízos para o povo no quesito das demandas sociais básicas de responsabilidade constitucional, principalmente saúde e educação). 

Aliás, a Constituição burguesa é sempre invocada quando se trata de cumprimento das regras republicanas que interessam aos capitalistas, mas ignorada solenemente quando se trata do respeito aos direitos populares ali consignados (e isto tem sido observado tanto nos governos de direita quanto nos de esquerda, neste momento de falência do Estado e de explicitação da coerção tácita do capital). 

Outro ponto comum a este bloco de candidatos é o enfoque da questão previdenciária, verdadeiramente explosiva se levarmos em conta quantos brasileiros hoje vivem às custas da previdência social, sem a qual ficariam no abandono, famintos e doentes. 

Para que fosse mantido o equilíbrio contábil das contas, quem deveria pagar as pensões dos inativos seriam os novos contribuintes previdenciários. 

Ocorre que, com o alto índice de desemprego do Brasil (mais de 12% da população economicamente ativa, ou 13,7 milhões de brasileiros), acrescido à redução do nível de salários sobre o qual incide a contribuição, o Estado vê-se obrigado a suprir a déficit previdenciário crescente. 

As fórmulas para o equacionamento desta questão sob a lógica do capital se resumem a duas opções, que procuram se somar. São elas: 
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— crescimento da economia e, consequentemente, do nível de empregabilidade e dos salários, o que faria aumentar o volume monetário de arrecadação e contribuição previdenciária; e
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— redução de direitos consubstanciados da redução do valor das pensões (a inflação colabora nesse sentido quando os valores permanecem inalterados) e aumento do tempo de contribuição, obrigando os contribuintes a se aposentarem quando estiverem perto da morte. 

Os candidatos de direita e de esquerda estão presos nesta jaula de ferro inexpugnável criada pelo capitalismo (que se oxida a olhos vistos), daí ser necessário inventarmos uma nova lavagem de roupa, como me disse certo desempregado crônico. 

A alternativa a todos os impasses do capital no seu limite interno absoluto de expansão (por seus próprios fundamentos, e não por ação política externa) não é uma inverossímil otimização de sua administração, mas sim a sua superação. 

As demais propostas administrativas dos candidatos desse bloco apresentam apenas modificações cosméticas, que em nada alteram a substância de seus governos. 

Estes se defrontariam com os mesmos impasses dos seus antecessores, sempre experimentando, no médio prazo, as dificuldades da ingovernabilidade que lhes são impostas pelo capital (cujas agruras terminam invariavelmente arrebentando nas costas do povo explorado pela extração de mais-valia e pelos impostos escorchantes).  

E tudo isso tendo, ainda, de negociar com um parlamento eleito pela força da grana, que funciona da base do é dando que se recebe; e sendo geralmente obrigado a respeitar os interesses corporativos daqueles que se apegam encarniçadamente a suas benesses setoriais, mesmo quando elas conflitam com o interesse coletivo. 

Por último, não há motivo para se dedicar mais do que um parágrafo ao bloco do eu sozinho do Cabo Daciolo, do Patriota, cujo discurso é uma versão religiosa fundamentalista do militarismo bolsonariano, estando mais para o similar evangélico do fanatismo do Estado Islâmico do que para uma candidatura que mereça análise detalhada. (por Dalton Rosado)
(continua)

terça-feira, 18 de setembro de 2018

RELEMBRANDO UMA RARA CRÔNICA DE DAR ARREPIOS QUE O APOLLO NATALI ESCREVEU

A CIGARRA E EU
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Falo a verdade.

Desci do ônibus na avenida Paraguaçu Paulista, na Cidade Patriarca, para cruzar a linha férrea, sem muros nem cercas, em direção à minha casa, na Vila Ré. O metrô ainda não havia chegado no pedaço.

Era uma tarde de sol. O silencio da tarde era a calma para os nervos.

Acontece que eu estava cansado e apático. Aqueles trens, elétricos, eram silenciosos. De cor azul, confundiam-se com o céu. No instante em que, distraído, ia cruzar os trilhos, ouço um canto de cigarra.

Era um canto exagerado – riiiiiiiaaaaaaaaa!!! – que me fez parar e voltar para localizar uma provável enorme criatura, numa árvore de tronco e galhos finos, seca, como na história religiosa, de onde partia a gritaria. 

Assim que parei, o trem azul e silencioso passou, agora sim, rodas barulhentas, a um palmo de mim. Não fosse o canto da cigarra a me chamar a atenção eu teria morrido.

Quando o trem passou, examinei os galhos secos e não consegui ver cigarra nenhuma. Cruzei os trilhos na esperança de que, distante da árvore, a cigarra se animasse a berrar outra vez. Porque o que ela deu foi um autêntico berro, ao pé do meu ouvido. Nada de cigarra.

Com as pernas bambas, fui embora.

Um dia, sei que vou desencarnar. Entre o inferno, o purgatório e o paraíso, acho que irei para o purgatório, ridícula modéstia à parte, junto com alguns bilhõezinhos de irmãos por aí. Quem um dia viu de perto a morte por estraçalhamento, sabe o que eu senti.

Consegui me tranquilizar com a brilhante ideia de agradecer a Deus, muitas vezes, por me permitir continuar vivendo. 

Na manhã seguinte, mais lúcido, voltei à linha férrea para tentar localizar, na árvore seca, a querida cantora que driblou minha morte no berro. O terreno a lado dos trilhos é pedregoso desde que o conheço, faz mais de meio século. Lá nunca teve árvore nenhuma.
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Sempre às terças-feiras, este blog está republicando as melhores crônicas do seu inestimável
colaborador Apollo Natali, falecido
em 31/07/2018)


"Você em breve/ muito breve/ muito 
leve/ ouvirá o canto da cigarra..."

HADDAD x BOLSONARO É O CENÁRIO CERCADO DE PIORES AUGÚRIOS

O cenário que se esboça, de um 2º turno com Haddad x Bolsonaro, é o que está cercado de piores augúrios.

A decepção dos brasileiros com os Poderes da República está cada vez maior. Então, faz todo sentido que grandes contingentes, não vislumbrando esperança nenhuma à frente, busquem no passado as soluções para os problemas atuais, embora isto equivalha a repetir o que já deu errado com a vã ilusão de que dará certo na segunda tentativa. 

Para o caldo de cultura se tornar definitivamente infernal, desde as manifestações populares pró impeachment da Dilma estamos às voltas com fanáticos obtusos e as expectativas exageradas que eles criam. 

Eram bem minoritários nas jornadas de 2016, mas sua participação cresceu em volume e contundência na paralisação selvagem dos caminhoneiros de maio/2018, quando até flertaram com a possibilidade de um golpe de Estado destrambelhado, acabando, contudo, por concluírem que ainda não tinham cacife para tanto.

No caso de uma vitória eleitoral de Bolsonaro, os truculentos que esperam vê-lo tocar o terror sofreriam uma enorme decepção. 

Primeiramente, porque as duas linhas mestras do seu eventual governo seriam a submissão incondicional às imposições neoliberais, indo muito além do que Dilma e Temer tentaram mas não conseguiram entregar aos senhores do mundo; e o enfrentamento dos problemas sociais por meio da força bruta, sem controle nenhum. Alguém acredita que isso daria certo no Brasil do século 21?  
Ademais, um presidente da República brasileiro nem de longe tem poder para tornar realidade todas as barbaridades que ele está demagogicamente prometendo. O Congresso, o STF e a sociedade civil logo o fariam cair na real.

Mas, quem é tolo a ponto de acreditar nessas lorotas, é também tão primário que não se conformará facilmente quando seus castelos no ar desabarem. Mesmo Hitler e Mussolini tiveram dificuldade para lidar com seus radicais.  

Hitler precisou até promover  uma matança de correligionários (a noite dos punhais longos) para impor definitivamente sua autoridade aos nazistas. Mussolini enfrentou resistências no seio do fascismo, mas aproveitou o Caso Matteotti para limpar a área. Como eram líderes de maior envergadura, ambos acabaram prevalecendo e consolidando-se no poder. 

Já o Bolsonaro não passa de um demagogo explorando um nicho que se revelou promissor para suas ambições. Nem mesmo um novo Plínio Salgado ele é. Então, tenderia a ser ultrapassado pelos acontecimentos, dificilmente conseguindo administrar as inevitáveis crises e cumprir até o fim seu mandato. 

E, como aconteceu com Jânio Quadros e Dilma Rousseff, afastamentos traumáticos sempre deixam um legado de inconformismo, incompatibilidades, irreconciliabilidades e consequente instabilidade política. Vale lembrar, p. ex., a sucessão de quatro golpes de Estado ocorridos na Argentina de 1955 a 1976 e todos os governos formados a partir de cada um deles, sem conseguirem tirar o país do fundo do poço. 

Já com o Haddad o sistema (ou seja, o dominante poder econômico e os subalternos Executivo, Legislativo e Judiciário) provavelmente chegaria a um acordo, mas a pergunta é: as hordas de trogloditas ensandecidos engoliriam numa boa a volta do PT ao poder? 

E, havendo turbulências, os grandes capitalistas (e as chamadas forças da ordem, que nada mais são além de seus braços armados) não acabariam optando por se alinharem com os que lhes são afins? 

De resto, seria outro governo incapaz de entregar o que está prometendo, pois a volta aos tempos felizes do Lula presidente (nem tão auspiciosos assim pois a desigualdade econômica escandalosa não diminuiu um ponto percentual sequer, apenas era uma conjuntura mais favorável para as commodities brasileiras, a ponto de se poder aumentar a ração de migalhas para os explorados sem reduzir a esbórnia dos exploradores) esbarrará na agudização das contradições capitalistas. 

O que se prenuncia, pelo contrário, é uma nova crise financeira em ampla escala, provavelmente mais devastadora que a de 2007/2008. Até o Vaticano adverte que estamos marchando para um bis.

Em meio a tantas incertezas e maus pressentimentos, é desalentadora a postura do PT, que continua levando em conta unicamente os seus interesses, como de hábito. 

O melhor caminho, neste momento, seria a união das forças de esquerda em torno de uma candidatura que não representasse explicitamente o PT e Lula. Ou seja, pela ordem: 1) Ciro; 2) Marina; ou 3) Boulos.

Aí haveria condições para se pacificar um pouco os espíritos, tentando virar uma página que foi negativa sob todos os pontos de vista e criar anticorpos para não sucumbirmos aos difíceis desafios que se avizinham.
Mas, falta grandeza revolucionária e faltam estrategistas gabaritados ao PT, que quer porque quer impor uma derrota frontal ao sistema, sem ter o necessário para tanto: votos não prevalecem sobre o poder da grana e o poder das armas. 

Só se verdadeiramente possui aquilo que se é capaz de defender em qualquer circunstância. O PT não conseguiu articular nenhuma reação de verdade ao defenestramento da Dilma e nada indica que o conseguirá quando vier a ser novamente necessário, pois não desencanou até agora das ilusões democrático-burguesas. 

Quando a correlação de forças nos desfavorece, temos de ser sensatos e realistas, deixando os confrontos de maior monta para depois. Blefes e bravatas nos momentos impróprios quase sempre produzem resultados desastrosos. 

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

BOLSONARO PROMETE ENTREGAR BATTISTI À ITÁLIA. ESTARÁ CIENTE DE QUE PRECISARIA PASSAR POR CIMA DO STF?

Bolsonaro, que cultua a memória de Brilhante Ustra, só poderia mesmo ser o candidato preferido...
Como o demagogo fanfarrão que é, o candidato ultradireitista Jair Bolsonaro vem há algum tempo prometendo que, se eleito presidente, vai extraditar o escritor Cesare Battisti para a Itália. 

Acaba de o fazer novamente, respondendo a uma estapafúrdia mensagem do ministro do Interior da Itália, Matteo Salvini, que declarou estar torcendo por sua (dele, Bolsonaro) vitória no pleito presidencial. É, claro, absolutamente impróprio um ministro de país amigo meter o nariz na eleição brasileira, manifestando preferência por qualquer candidato.

Mas, há uma explicação: trata-se de um congênere ideológico de Bolsonaro, tanto que no último sábado (15), Salvini foi acusado pelo ministro das Relações Exteriores de Luxemburgo, Jean Asselborn, de usar "métodos e tons dos fascistas dos anos 1930". Com quem mais o discípulo de Benito Mussolini poderia identificar-se no Brasil, senão com o discípulo do Brilhante Ustra?
...do carrasco dos imigrantes Salvini, que até fisicamente lembra Mussolini. 

Acontece que a extradição foi definitivamente negada pelo então presidente Lula em 2010 e o Supremo Tribunal Federal avalizou sua decisão em 2011. Tratou-se de um ato jurídico perfeito, que não está mais na esfera de competência do presidente da República. 

Quando Angelino Alfano, outro ministro ultradireitista italiano, andou sugerindo ao governo Temer, na calada da noite, pulo(s) do gato para burlar as leis brasileiras, o STF foi acionado e o ministro Luiz Fux determinou que a extradição de Battisti não poderia ser executada sem um posicionamento de nossa corte suprema a respeito.

Fux ainda não deu uma palavra final. Poderá tomar uma decisão monocrática, submeter o assunto à 1ª Turma (à qual pertence, juntamente com Alexandre de Moraes, Luiz Roberto Barroso, Marco Aurélio Mello e Rosa Weber) ou ao plenário. 
Assistiremos a mais um capítulo da perseguição sem fim?

Até que ele faça uma destas três coisas, qualquer iniciativa contra Battisti será ilegal, constituindo-se numa invasão da competência do Judiciário por parte de outro Poder.

Resumo da ópera: Bolsonaro, como de hábito, promete o que não poderia entregar. Mas, em se tratando de um presidenciável tão tosco como ele, é impossível saber-se se o faz por mera má fé ou por crassa ignorância.

SE A VERDADE É REVOLUCIONÁRIA E A MENTIRA É FASCISTA, COMO DEVEMOS QUALIFICAR AS NARRATIVAS DO PT?

Em que momento o Peru tinha se f...?, pergunta Mario Vargas Llosa na abertura de seu melhor romance, Conversa na Catedral

Aplicada ao PT, a indagação tem muitas respostas possíveis: quando abdicou da luta de classes e passou a nortear-se pela conciliação de classe; quando trocou a praça que é do povo como o céu é do condor pela Praça dos Três Poderes que está para os poderosos como os esgotos estão para os ratos; quando deletou a austera moral revolucionária e passou a emporcalhar-se com a amoralidade do capitalismo terminal, etc.

Por último mas não menos importante, quando deixou de falar a verdade para o povo e, igualando-se aos partidos podres de uma sociedade podre, oPTou pelo utilitarismo e pelas narrativas convenientes.

Cansei de alertar que, por tal caminho, o PT perderia o seu maior patrimônio, mais importante inclusive do que a conquista de presidências da República: a credibilidade.

Assim foi com o desfecho calhorda que o partido deu ao caso Paulo de Tarso Venceslau x Roberto Teixeira (vide aqui), sacrificando o militante honrado para preservar a maçã podre. Justificativas foram inventadas para tentar explicar o inexplicável, o precedente que equivaleu a escancarar as portas para a corrupção. Quem se deu por satisfeito com elas? Os fanáticos que engolem qualquer lorota e os despersonalizados que não ousam marchar contra a corrente.

Veio a Carta ao Povo Brasileiro de 2002 (vide aqui),  em cuja redação, conforme veio à tona no ano passado, colaborou inclusive... o corruptor-mor Emílio Odebrecht! 

Tratou-se de um compromisso assumido pela candidatura presidencial de Lula  com "o respeito aos contratos e obrigações do país". Ou seja, se atrás de cada grande fortuna sempre há algum crime, este era antecipadamente perdoado e olvidado... 

E, ao invés de confrontar a classe dominante e seus privilégios, responsáveis pela desigualdade econômica gritante em que padeciam os explorados, Lula se propunha a manter com os exploradores uma "ampla negociação nacional, que deve conduzir a uma autêntica aliança pelo país, a um novo contrato social, capaz de assegurar o crescimento com estabilidade". 

Mas, esta leitura crítica era a que faziam os lúcidos, os coerentes e os corajosos. A militância foi convencida de que se tratava apenas de um recuo momentâneo e não de uma mudança qualitativa a partir da qual os inimigos de classe passariam a ser tratados como companheiros de luta (enquanto muitos ex-companheiros de luta, vale lembrar, vinham sendo tratados como inimigos desde a década de 1980, quando o PT começou a expurgar as tendências de esquerda). 

Guardadas as proporções, do ponto de vista ideológico foi um episódio tão aberrante quanto o pacto entre a União Soviética e a Alemanha nazista em 1939, que deixou Hitler com as mãos livres para conquistar quase toda a Europa ocidental. Também então Stálin e seus cúmplices criaram narrativas para fazerem passar um pecado ideológico mortal por um pecadilho venal, tendo a maioria dos comunistas, por ingenuidade ou por medo, se calado.
A verdade sobre Neca Setubal. O PT oPTou pela mentira

No poder o PT se posicionou, com relação aos acontecimentos do exterior, segundo os abomináveis critérios geopolíticos, em contraposição aos valores revolucionários: passou a minimizar as práticas hediondas de alguns dos piores carrascos no poder, mandando às urtigas os direitos humanos. 

E mentia descaradamente ao minimizar carnificinas e torturas, atribuindo-as à desinformação insidiosa da indústria cultural (que existe, mas não serve como desculpa genérica para todos e quaisquer governantes que usam e abusam da força bruta para manter subjugados seus povos).

À medida que ia projetando uma imagem cada vez mais populista e demagógica, o PT se distanciava dos formadores de opinião e perdia a capacidade de convencer os cidadãos dotados de raciocínio crítico. Ao invés de fazer autocrítica e mudar suas práticas, exacerbou-as. Passou a trombetear mentiras capazes de fazerem corar um frade de pedra (como se dizia antigamente).

Assim agiu na campanha presidencial de 2014, quando, para desconstruir Marina Silva, não se vexou de lançar a acusação fajuta de que ela seria subserviente ao Itaú, pois tinha o apoio de uma banqueira. De nada adiantou eu provar irrefutavelmente que a tal Neca Setubal era uma herdeira sem participação nenhuma nos negócios do banco, uma senhora bem intencionada que gastava sua rica mesada em projetos educativos e culturais, tendo se engajado da mesmíssima maneira na campanha do petista Fernando Haddad à prefeitura de São Paulo em 2012. 

Eu não passava de uma voz clamando no deserto, enquanto as redes sociais eram infestadas por uma propaganda enganosa típica de Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda de Hitler. 

[Consumada sua vitória, Dilma ofereceria o posto de ministro da Fazenda para o então mandachuva do Bradesco, Luís Carlos Trabuco, que declinou o convite e indicou para o cargo um diretor de importância mediana no organograma do banco, mesmo assim aceito de imediato pela presidente. Quem era, afinal, que comia na mão dos banqueiros?!]

Daí a uma mentira mais cabeluda ainda foi só um passo: a campanha de Dilma pintou Aécio Neves como o demônio que imporia ao povo brasileiro reformas neoliberais, enquanto a angelical Dilma evitaria tal desgraça. O que ela fez foi, tão logo empossada, entregar o comando da economia para o Joaquim Levy, encarregado de fazer exatamente o que ela prometera impedir que fosse feito. 

O impeachment ocorreu depois de Dilma ter passado o ano inteiro de 2015 apostando numa saída pela direita, inviabilizada, contudo, pelo fogo amigo dos movimentos populares ligados ao PT e pela relutância da bancada de sustentação do governo em defender as medidas impopulares que Levy precisava ver aprovadas para que seu castelo de cartas se mantivesse em pé. Cansado de remar contra a corrente, Levy entregou o cargo uma semana antes do Natal.

Foi também em dezembro que os donos do PIB concluíram ser inútil continuarem esperando Dilma entregar o que lhes prometera: o ajuste fiscal e as reformas trabalhista e previdenciária. Se ela se revelava uma serviçal incompetente, eles a demitiriam. E, como é o poder econômico que manda no Brasil e seus expoentes mais destacados apoiavam a destituição, a destituição ocorreu. 
Isto foi um verdadeiro golpe de Estado...

Dentro da Constituição, pois cumpriu, uma por uma, todas as etapas prescritas para um impeachment presidencial; e, embora a maquilagem das contas públicas até então não tivesse resultado em punição tão extrema, o certo é que se tratou de algo inusual, mas não ilegal. O tradicional dois pesos e duas medidas.

Qual era a verdadeira lição a tirar-se do episódio, num enfoque de esquerda? A de que a democracia brasileira não passa de uma encenação mambembe, na qual o poder econômico detém os cordéis que movimentam os fantoches. Então, de que adianta continuarmos apostando todas as fichas na eleição de presidentes da República, como o PT vem fazendo nas últimas décadas? 

Ficara cabalmente comprovado que eles mais não são do que as figuras de proa incumbidas de cumprir funções cerimoniais e com autoridade apenas para gerenciar o varejo, enquanto as principais decisões  macroeconômicas são ditadas pelo grande empresariado e, quando não obedecidas a contento, levam ao defenestramento de gerentões e gerentonas.

Mas, era tarde demais para o PT reassumir-se como partido combativo e realmente dedicado à causa dos explorados. Preferiu continuar lutando encarniçadamente por posições de poder subalterno dentro do capitalismo (e as benesses delas decorrentes) e mandando às favas todos os escrúpulos de consciência, como fez Jarbas Passarinho há meio século.

Daí, p. ex., a desfaçatez com que continua martelando para a sociedade brasileira a narrativa do golpe e a narrativa do preso político, pois precisa jogar o tempo todo poeira nos olhos dos cidadãos, como forma de evitar que seus erros crassos e terríveis dos últimos anos sejam questionados e dele exigida a autocrítica da qual vem fugindo desde 2016. 
...e esta chanchada de mau gosto, apenas a versão piorada do Domingão do Faustão.
A recente entrevista de Fernando Haddad no Jornal Nacional foi simplesmente patética. O antigo discípulo da Escola de Frankfurt afirmando, com a maior cara de pau, que a derrocada econômica sob Dilma se deveu à sabotagem de uns e outros, enquanto omitia que (mais do que tudo) decorreu da extrema e notória incompetência dela mesma!

E a tempestade em copo d'água que o PT armou em torno da exigência da ONU de que Lula participasse da eleição, a que verdadeiramente se reduzia? Rui Martins (vide íntegra aqui), de seu posto de observação privilegiado na Suíça, apurou o que havia de real na exageradíssima versão petista:
"...até o Comitê de Direitos Humanos da ONU, numa recomendação de dois vice-presidentes [tem quatro, um presidente e um total de 18 membros] , defendeu a manutenção de Lula como candidato, mesmo preso, contrariando decisões legais da Justiça brasileira e sem avaliar as consequências internas, caso o Brasil aplicasse a recomendação ainda sem uma análise maior da questão quanto ao seu mérito
Menos, bem menos. Não me engana, que eu não gosto
Porém, o Pacto assinado com o Comitê [no sentido de que o Brasil se obrigaria a cumprir suas decisões], embora aprovado pelo Legislativo, não chegou a ser assinado [nem] por Lula [que era então o presidente, nem por seus sucessores]...
...Para reforçar a imagem de um Lula vítima de perseguição, seus advogados divulgaram [no dia 10/09/2018] um comunicado do que seria uma nova decisão do Comitê de Direitos Humanos em favor da candidatura de Lula. 
Não é isso, trata-se de uma comunicação pessoal enviada aos advogados de Lula, que haviam pedido maiores explicações aos relatores do Comitê sobre a recomendação do 17 de agosto".
De passa-moleque em passa-moleque, o PT descaracterizado deixa perceber, cada vez mais, que suas narrativas tendenciosamente infladas ou meramente falseadas hoje se destinam apenas à produção de impactos imediatos, apostando que não lhes serão cobradas adiante graças à memória curta do cidadão comum. Era exatamente o que Goebbels pregava e o que Rosa Luxemburgo, Antonio Gramsci e George Orwell execravam. 

Quem segue o preceito de que a verdade é revolucionária e dele extrai a ilação de que a mentira é fascista, tem de refletir seriamente sobre os artifícios de que o PT ora se utiliza para manter-se à tona após a interminável sucessão de desastres (como o impeachment da Dilma e a prisão do Lula) e vexames (como a farsa do candidato fantasma) dos últimos anos.

Todos eles decorrentes de suas lambanças, muito mais que de mirabolantes conspirações do inimigo, o qual só aproveitou as oportunidades que lhe caíram no colo, como os revolucionários sempre soubemos que faria se lhe déssemos ensejo para tanto...

domingo, 16 de setembro de 2018

JAIR BOLSONARO JÁ FOI ULTRA-ESTATISTA, HOJE É UM ULTRALIBERAL, MAS ALGO ELE SEMPRE SERÁ: UM ULTRA-OPORTUNISTA!

"...por tudo o que li e vi até agora, a candidatura que se revela mais incoerente é a de Jair Bolsonaro, que apresenta um programa ultraliberal na economia, mas ostenta, como deputado, um longo histórico de posições ultra-estatistas.

Assinale-se que outros candidatos competitivos também passaram por mudanças. Marina Silva foi do campo da esquerda para um ideário econômico mais liberal e Ciro Gomes caminhou do PDS, sucedâneo da Arena, para a centro-esquerda. Suas transições, contudo, foram paulatinas e temos registro de posições intermediárias. 
Já com Bolsonaro, a guinada foi muito mais rápida e se deu no contexto de uma disputa eleitoral. Fica difícil pelo menos não suspeitar de que sua conversão tenha mais a ver com oportunismo do que com convicção." 
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(Hélio Schwartsman)

sábado, 15 de setembro de 2018

BOLSONARO ESTÁ MAIS DEBILITADO DO QUE DEIXAM TRANSPARECER. NEM FAZER A BARBA SOZINHO ELE CONSEGUE!

Em sua coluna deste sábado (15), a jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo, mais uma vez traz uma informação de bastidores que pode ter importância crucial para o resultado da eleição presidencial. Vamos a ela:
"O mercado financeiro acionou nesta semana ex-ministros de tribunais eleitorais e advogados especialistas no tema para traçar os vários cenários que podem surgir depois que ficou claro que Jair Bolsonaro não se recuperará rapidamente da facada que recebeu.
Representantes de grandes fundos, inclusive estrangeiros, queriam saber o que ocorreria no caso de um eventual impedimento do candidato.
Há vários cenários possíveis e os especialistas começaram a preparar relatórios para cada um deles.
Antes da segunda cirurgia, Bolsonaro já dava sinais preocupantes de debilidade. Em uma ocasião, tentou fazer a barba sozinho e não conseguiu. Foi auxiliado por um profissional.

O capitão reformado queria também ficar sentado mas não conseguia"

O blog deseja ao Bolsonaro exatamente o mesmo que ao Lula: que seus dramas atuais sejam superados e, em seguida, tenham uma velhice tranquila em casa, ao lado de suas famílias, sem mais envolvimentos com a política brasileira.

Pois ambos representam passados que não voltarão, estão sendo nefastos no presente e não têm perspectiva nenhuma a oferecer para o futuro.

O tempo da conciliação de classe passou. O da utilização da força para resolver problemas sociais, idem. Temos de, a partir de agora, construir uma nova História, sem fantasmas do passado a nos assombrarem.
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