quinta-feira, 25 de agosto de 2016

PT RETIRA A ESCADA E DEIXA DILMA PENDURADA NA BROCHA

O tiro de misericórdia no mandato de Dilma Rousseff acaba de ser dado pela executiva do PT, ao rechaçar por 14 votos a 2 sua proposta de realização de um plebiscito, visando à antecipação da próxima eleição presidencial.

Finalmente deve ter-lhe caído a ficha de que não existe um número suficiente de senadores dispostos a devolver-lhe as rédeas do governo. Então, tentando escapar da vergonha de ser impichada, Dilma agora se propõe, demagogicamente, a convocar um plebiscito que encurtaria seu mandato.

Como disse em 1958 o genial Garrincha, quando o técnico da Seleção Brasileira, Vicente Feola, desenhava no quadro-negro, nos mínimos detalhes, as jogadas que o nosso escrete deveria fazer para marcar gols e mais gols: "Mas, os adversários já concordaram com tudo isso?", indagou o Mané da perna torta. Pois, se eles não fizessem o que Feola esperava, do que serviriam todos aqueles rabiscos?

Da mesma força, sem a anuência do Judiciário e dos próprios adversários do PT, não existe possibilidade nenhuma de viabilizar tal plebiscito. Então, está certo o partido ao recusar-se a endossar o que não passa de uma proposta extemporânea e oportunística.

Chance de dar certo havia no mês de março, quando defendi pela primeira vez tal ideia. Mas, como eu queria honestamente evitar um governo Temer, não pugnando em causa própria como a afastada, acrescentei um ingrediente indigesto para ela, mas fundamental para o projeto vingar: a renúncia de Dilma. Caso contrário, as forças contrárias suspeitariam de tudo não passar de um pulo do gato para salvar o pescoço da dita cuja, e nada feito!

Enquanto havia uma (pequena) possibilidade de, com desprendimento pessoal, ela propiciar o desencadeamento de uma nova campanha por diretas-já, Dilma não admitiu de maneira nenhuma encurtar voluntariamente seu mandato. 

Azar dela, que poderia terminá-lo com um mínimo de dignidade, mas, como de hábito, tomou a decisão errada. 

Azar nosso, que vemos findar a fase dos governos petistas com perda total para a esquerda. Levaremos muito tempo para recuperar a credibilidade dilapidada nos últimos anos.
  
Eis o que sugeri no dia 11/03/2016 e voltei a propor em vários artigos seguintes, sempre clamando no deserto:.
Ele deu a vida para reagir ao inimigo. Ela, nem o mandato. 
"Como sou um homem generoso, vou dar à presidente uma dica de como ela ainda pode poupar-se de transpor a porta do fundo como cão escorraçado, mas, pelo contrário, sair atirando, não só para deixar uma última marca no bastião inimigo, como também, e principalmente, para prestar um serviço inestimável ao povo brasileiro, comparável ao suicídio e carta com que Vargas evitou que seu governo fosse herdado pelos ratos da época:

Dilma, convoque a imprensa para um pronunciamento decisivo e comunique ao País e ao mundo que você está disposta a abrir mão do seu mandato para o bem da Nação, desde que o Michel Temer faça o mesmo.

Argumente que a crise política, econômica e moral é tão profunda que os governantes atuais se deslegitimaram e é hora do poder voltar à fonte do qual emana, o povo.

Que o Brasil precisa novamente ser passado a limpo.

Que os brasileiros devem escolher livremente aquele(a) a quem querem delegar a difícil missão de tirá-los do fundo do poço, ao invés de serem obrigados a engolir um político que, por ação ou omissão, é co-responsável por tudo que tem sido feito de errado e desastroso pelo Governo federal desde 2011.
Ficaremos querendo: faltou desprendimento pessoal!

Exorte publicamente o Michel Temer a agir com o mesmo desapego pelo poder e a mesma disposição de colocar os interesses do povo sofrido acima dos cálculos mesquinhos da política e até das frustrações pessoais, por piores que elas sejam. Bote-o numa saia justa: ele merece!

Parafraseando uma afirmação que tanto nos empolgou lá no comecinho da nossa trajetória, a esta altura do campeonato você não tem mais nada a perder, Dilma, e um passado glorioso a honrar".

#VaiTerGolpe

Autor: Clóvis Rossi.
Lembra-se do não vai ter golpe, o grito com o qual se esgoelavam os adeptos do governo Dilma Rousseff? Ao que tudo indica, vai ter, sim.

O grito era um compreensível apelo à mobilização dos seus seguidores, mas, ao mesmo tempo, evidenciava uma desconexão da realidade.

Até eu, que não me orgulho da minha sapiência, escrevia, em março, bem antes do primeiro momento do impeachment na Câmara, que "o que os argentinos adoram chamar de poderes fácticos abandonaram Dilma Rousseff (ou nunca a adotaram)".

A queda final era, portanto, apenas uma questão de tempo.

Ficar gritando golpe não mudou nada. Até porque era uma narrativa frouxa. Como disse, faz pouco, o prefeito Fernando Haddad, um petista insuspeito de ser um traidor, "golpe é uma palavra um pouco dura, que lembra a ditadura militar. O uso da palavra golpe lembra armas e tanques na rua".
Golpe de verdade é assim

Lembro outros ingredientes inexistentes no golpe jabuticaba que se está dando no Brasil: não há um só preso político, não houve nem uma única e miserável linha censurada em qualquer tipo de mídia, inclusive na mídia chapa branca, ninguém teve que partir para o exílio, ninguém perdeu o emprego no governo federal, exceto os ocupantes do primeiro escalão.

Aliás, um deles, Gilberto Kassab, conseguiu a proeza inédita no planeta de ser ministro com os golpeados e ministro com os golpistas – demonstração de quão jabuticaba está sendo o golpe à brasileira.

Deu-se até o fato de que uma das mais estridentes adeptas dos golpeados ganhou uma coluna na página nobre de um jornal tido como golpista. Acho até bom que seja assim, mas que é jabuticaba (que só dá no Brasil), lá isso é.

Houve acadêmicos que incitaram as massas a tomarem as ruas para depor o novo governo. Pena que as massas faltaram ao encontro com a História, ocupadas demais que estão em sobreviver penosamente na terra arrasada legada pelos golpeados.
"a segunda maior queda da renda per capita em 116 anos"

Só faltou sugerir a ocupação do Palácio de Inverno de Campos de Jordão, como se fosse o de São Petersburgo, para reencenar a Gloriosa Revolução de Outubro. Aliás, faz tempo que São Petersburgo voltou a se chamar São Petersburgo, em vez de Leningrado, evidência no detalhe de que revoluções caíram de moda.

Houve também acadêmicos que juraram que os golpistas promoverão o maior retrocesso social da história. Pode até vir a ser verdade, mas um mínimo de honestidade intelectual obrigaria a dizer que os golpeados provocaram a segunda maior queda da renda per capita em 116 anos, no período 2014-2016.

Se isso não é retrocesso social, não sei o que seria.

Para reforçar o caráter jabuticabalesco do golpe, deu-se que um de seus ourives, um certo Eduardo Cunha, em vez de ser carregado nos ombros, caminha inexoravelmente para o cadafalso – o que, de resto, é uma boa notícia.

Da mesma forma, parte da elite empresarial, geralmente força-motriz em golpes, em vez de sair da cadeia nela continua, como praticantes de criminosa promiscuidade com golpistas e golpeados. É o Brasil..

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

DALTON ROSADO: "EM LOUVOR DOS PERDEDORES SOCIAIS".

"Ao vencedor, as batatas!"
(frase irônica de Quincas Borba,
personagem de Machado de Assis)
. 
As modernas sociedades mercantis sacramentaram o conceito de vencer na vida, que consiste em subir na escala social. Os vencedores são aqueles que ganham dinheiro e ficam ricos; então, como a grande maioria da população (cerca de 80%) não consegue ficar rica, temos 80% de perdedores. 

Nada mais injusto do que se qualificar uma pessoa pelo seu poder aquisitivo e não pelas suas qualidades humanas e contribuição social! Mormente quando é a própria sociedade quem cria um mecanismo básico de mediação social segregacionista, fundado na extração de mais-valia, que viabiliza a acumulação do capital em detrimento de que o produz e que é causa da existência de uma sociedade de perdedores
   
O maior literato brasileiro, Machado de Assis, há mais de um século colocou na boca de um personagem sarcástico, Quincas Borba, a afirmação de que, numa disputa fratricida pelo alimento vital, aos vencedores caberiam batatas e aos perdedores, ódio ou compaixão – além da fome, é claro! A fina ironia machadiana contestava, assim, a tese darwiniana da seleção das espécies aplicada ao humanismo. 

Mas, quem são eles e o que é ser perdedor? O critério de aferição a partir do poder aquisitivo e da renda é a expressão mais bem acabada de uma sociedade que elege pressupostos sociais equivocados como válidos, decorrendo daí a inversão dos melhores conceitos do que seja virtude. Ou seja, a construção da negatividade social passa a ser vista como algo virtuoso.
O certo não é mirar-se nos de cima, é lutar pela igualdade!

O que dizer daquele que acorda pela madrugada e pega um trem lotado, depois mais dois ônibus igualmente abarrotados, e que após quase duas horas de viagem chega ao trabalho (isto quando está empregado, pois desempregado é ainda pior), para uma jornada de oito horas de dura labuta, finda as quais refaz o itinerário no sentido inverso, passando pelas mesmíssimas agruras, para ganhar um salário pouco maior que o mínimo de R$ 880, a paga que recebe por produzir a riqueza do Brasil? Será ele um perdedor? Ou um herói? 

Acaso podem ser considerados vencedores e merecedores do respeito social aqueles que estabelecem conluios com seus apaniguados para a prática da corrupção? E que, quando aprisionados, correm a delatar seus iguais, para escaparem pela porta do fundo das (ou atenuarem as) consequências dos seus atos? Fruto de um sistema político no qual impera o poder econômico, eles amiúde amargam um certo tempo de ostracismo e logo recuperam seu status de privilegiados, chegando a cometer os mesmíssimos delitos adiante...

Acaso os
 vencedores, aí incluídos bicheiros, especuladores monopolistas financeiros e industriais, traficantes, políticos e empreiteiros corruptos, etc., merecem a reverência social que normalmente lhes é concedida por terem renda e patrimônio acima da média dos perdedores (apesar de a riqueza que embasa tal valorização ter sido produzida pelos últimos e indevidamente apropriada pelos primeiros)? 
Vale a pena tornar-se um vencedor ao preço da desumanização?
Acaso os manipuladores do capital e seus submissos capitães do mato, sempre prontos a punir os escravos da modernidade que venham a se rebelar de alguma forma contra a opressão, devem ser admirados e imitados?

Acaso um povo que tem renda média anual de R$ 2.117 (dado do IBGE, 2015), que reflete uma generalização e disseminação da pobreza, pode ser considerado culpado por tudo isso e, ainda por cima, taxado de perdedor

Costumamos a admirar o falso brilho da prosperidade expresso no brilho real das coisas belas que o dinheiro produz, e es
ta é a forma sublinear pela qual os perdedores inculcamos nas nossas mentes a culpa pela própria miséria. Mas, tal admiração a nos imposta é totalmente equivocada. Se não, vejamos:
– o esplendor das luzes de neon não ilumina os becos escuros onde dormem os meninos de rua e os velhos abandonados; 
 os carros luxuosos e com mil quinquilharias modernosas não encobre a irracionalidade da paralisia do trânsito que faz com que o congestionamento nas ruas torne o tráfego mais lento do que as carruagens do século XIX, além de emitirem na atmosfera o gás carbônico que produz o aquecimento do planeta graças ao efeito estufa (prisão planetária dos raios solares); 
Raridade: uma exortação religiosa que não trai Cristo.
– o conforto e elegância iluminada dos bairros grã-finos ofuscam a imensidão das ruelas mal iluminadas das favelas; 
– a alegria inata ao povo brasileiro, que contrasta com sua miséria (será alegre o dia-a-dia entre uma bala perdida e outra achada na favela?) e encanta turistas entediados em busca de prazer, não torna a miséria algo positivo; e por aí vai. 
Ocorreu-me o paralelo com a visão crítica dos homens novos, imortalizados no herói raznochintsy (1do livro Memórias do subsolo, de Dostoievski; embriões dos revolucionários bolcheviques de 1917, eles eram os invisíveis perdedores intelectuais na São Petersburgo que se industrializava com o capital estrangeiro na Rússia da metade do século XIX. 

Tinham extrema ojeriza pelo Projeto Urbanístico Nevski, em função de sua pretensão de brilho modernoso à moda de Paris, com o qual se queria encobrir a miséria e o atraso reinante na periferia da cidade e em todo o país, patrocinado pela monarquia czarista. E estavam certos, embora isto possa hoje parecer até uma esquisitice: é que os perdedores imitam mesmo os vencedores, querendo desfrutar seus privilégios, imbuídos, no dizer de Marx, de uma falsa consciência da realidade em que vivem.  Isto é o que tornava o tal Projet Nevski tão detestável para os raznochintsy.
Lance Armstrong: destruído!
Com um pouco de sorte, os perdedores acabam finalmente percebendo que a busca da igualdade na diversidade é o melhor caminho a ser seguido. Mas, por enquanto, são raros o que atingem tal estágio de discernimento. 
   
É evidente que este artigo não terá o condão de mudar o conceito de vencedores e perdedores, pois, ainda que consideremos como corretos os questionamentos aqui levantados, será a regra do você vale quanto você tem que continuará prevalecendo. Afinal, trata-se de um critério internalizado nas nossas mentes pelas sociedades mercantis ao longo de séculos. 

Apesar disto, quero fazer a meu solitário e solidário louvor aos perdedores contumazes nas batalhas de uma vida mal vivida, conferindo-lhes uma medalha de ouro social, ainda que eu não tenha nenhuma legitimidade nem méritos para incumbir-me de tal outorga; mesmo assim faço-o, por ter certeza de que os seus sofridos e oprimidos méritos existem. (por Dalton Rosado)

(1) Os raznochintsy, que se pretendiam  representantes do homem novo, eram uma nova geração de cidadãos russos intelectuais que não provinham das classes nobres. Tal geração começou a surgir na década de 1860, durante o reinado de Alexandre II, período em que houve transformações radicais na cultura russa, como a libertação dos servos. Os homens novos questionavam as instituições, as convenções sociais e, na década de 1870, realizavam manifestações públicas, algo até então desconhecido na Rússia autocrática. [Observação do editor: não confundir com a acepção dada ao homem novo pelos contestadores de 1968, que o viam como um ideal de perfeição a ser atingido, o ser humano solidário e pleno que uma sociedade livre engendraria.] 

APÓS O IMPEACHMENT, DILMA CUIDARÁ DA VIDA, LULA TENTARÁ SE REINVENTAR E MILITANTES VOLTARÃO À OPOSIÇÃO.

Por Elio Gaspari
BRASIL PRECISA DE OPOSIÇÃO
Começa amanhã o julgamento de Dilma Rousseff. Ela será condenada. Os julgamentos que decidem o destino dos presidentes são políticos. Formalmente, Dilma vai ser deposta pelo desembaraço de sua contabilidade criativa, mas sempre será repetida a frase da senadora Rose de Freitas, líder do governo de Michel Temer no Senado: "Na minha tese, não teve esse negócio de pedalada, o que teve foi um país paralisado, sem direção e sem base nenhuma para administrar".

Pura verdade, que pode ser contraposta a outro julgamento de impeachment de um presidente, o de Bill Clinton em 1999. Ele era acusado de práticas mais simples, comuns e disseminadas do que as "pedaladas fiscais". Uma pessoa pode não entender de contabilidade pública, mas entende o que a estagiária Monica Lewinsky fazia com o presidente dos Estados Unidos na Casa Branca. 

Clinton foi absolvido porque o país não estava paralisado e a renda per capita dos americanos cresceu enquanto a dívida pública encolheu. Com Dilma, aconteceu o contrário. Todo mundo sabia o que Clinton fez e, apesar disso, achou-se que deveria continuar. No caso de Dilma, não se sabe direito o que eram as pedaladas, mas acha-se que ela deve ir embora.
Economia ia bem, Clinton se safou.

Quando Dilma entregar as chaves do Palácio da Alvorada, estará encerrado um ciclo de 13 anos de poder do Partido dos Trabalhadores. Em 2003, Lula vestiu a faixa e a oposição foi para o poder. Hoje, ninguém haverá de dizer o mesmo. 

Michel Temer era o vice-presidente de Dilma e seu primeiro escalão ampara-se em figuras que sustentaram o comissariado petista. Henrique Meirelles presidiu o Banco Central de Lula, Eliseu Padilha e Gilberto Kassab foram ministros de Dilma. Mudança imediata, drástica e irrecorrível, só a do garçom Catalão, do Palácio do Planalto, que hoje está no gabinete da senadora Kátia Abreu, ministra de Dilma e adversária do impeachment.

O PT foi apeado do governo e, de uma maneira geral, abriu espaço para quem nunca saiu dele. O tempo dirá quanto custou ao comissariado o inchaço de sua base de apoio e, sobretudo, a expansão de seus interesses pecuniários. 

Lula e Dilma viveram o engano de um governo com o mínimo possível de oposição. Depostos, Dilma cuidará da vida, Lula tentará se reinventar, mas alguns comissários sabem que suas carreiras estão encerradas. Outros seguem a ordem de batalha do coronel Tamarindo em Canudos: "É tempo de murici, cada um cuide de si". Astro dessa categoria é Cândido Vaccarezza, líder do PT na Câmara até 2012. Dois anos depois, perdeu a eleição. Deixou o partido e aninhou-se na campanha de Celso Russomanno (PRB) pela Prefeitura de São Paulo.
Economia ia mal, Dilma não se safou.

Cortando aqui e perdendo ali, sobra uma militância cujas raízes estão nos anos 70 do século passado. Defendiam o fim da unicidade sindical, a reforma da CLT, as negociações diretas entre empresas e trabalhadores e tinham horror a empreiteiros. (A recíproca era verdadeira.) 

Esse era um tempo em que os sindicalistas do PT eram bancários. Com o acesso aos fundos estatais alguns viraram banqueiros e, como João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do partido, estão na cadeia.

Oposição, com algumas ideias na cabeça e pouco dinheiro no bolso, é tudo que o Brasil precisa.

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terça-feira, 23 de agosto de 2016

NÃO HÁ O QUE LAMENTARMOS QUANDO UM DEUS DE BARRO VIRA PÓ

A música mais apropriada para o momento que vivemos é Deus de Barro, do LP de 1975 do grande Sérgio Ricardo.

Pelo menos para os que consideramos que a esquerda, ou é revolucionária, ou nada é, pois inexiste existência digna para os explorados dentro do capitalismo.

Então, não há o que lamentarmos quando um deus de barro é arrojado do altar e se esfarela no chão.

Como o velho da canção, farsantes que juravam ser de esquerda enquanto se refestelavam com as mordomias e maracutaias do poder, agora bradam: "Eis aqui o fim de tudo!".

O verso seguinte está à espera que novas gerações de revolucionários, mais íntegras, imunes às tentações de um sistema podre até a medula, o escrevam em letras de fogo, nas escolas, nas ruas, campos e construções, na praça que é do povo como o céu é do condor: "Veio o moço e continuou".

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

DALTON ROSADO ADVERTE: DEIXARMOS EXPLODIR A BOMBA DA PREVIDÊNCIA SOCIAL SERÁ UM CRIME DE LESA-HUMANIDADE!

UMA TRAGÉDIA ANUNCIADA: O COLAPSO 
DA PREVIDÊNCIA SOCIAL.

"O modelo da Previdência tem 
que ser sustentável, sob pena 
de comprometermos o futuro."
(Romero Jucá, o breve, quando 
ministro  do Planejamento de Temer)
As últimas estatísticas oficiais do PNAD/IBGE mostram que houve um aumento do desemprego no Brasil no primeiro trimestre de 2016. A taxa de desemprego atingiu o patamar de 11,4% que significa uma alta de 18,6% sobre o trimestre anterior, e joga na rua da amargura milhões de trabalhadores. 

Todos nós sabemos o que significa a ausência de salário para uma família que normalmente não possui reservas financeiras e tem dívidas para pagar, alem de precisar prover o seu sustento material diário com compra de alimentos; pagamento das contas da luz; da água; e da prestação da casa ou do aluguel, para ficarmos apenas no básico.

O capital agora nega aos seus súditos até a possibilidade de serem por ele explorados! Qualquer que seja a opinião do leitor tenha sobre esta questão, o fato é que estamos diante de um impasse e as opções atuais se restringem a duas:
a) insistir na busca do impossível aumento do nível de emprego causado pela produção tecnológica de mercadorias dentro do próprio sistema produtor de mercadorias e seus danos ambientais, ou
b) buscar formas alternativas de suprimento das necessidades de pessoas colocadas à margem do sistema produtivo.      
Aqui estabelecemos a relação com o desemprego no Brasil, inserido no contexto do desemprego estrutural mundial, para falar do liame indissociável que esta questão tem com a falência econômica anunciada da previdência social e suas terríveis consequências para os nossos pensionistas idosos, inválidos e viúvas. 

Mas a encrenca não fica por aí, pois, além do déficit da previdência social, o Brasil tem indicadores crescentes de dificuldades econômicas, tais como:
– endividamento público cada vez maior em relação ao PIB que caminha para a insolvabilidade (com perda da credibilidade creditícia que encurta prazo de pagamento e aumenta as taxas de juros dos empréstimos internacionais); 
– queda renitente do Produto Interno Bruto; 
– aumento constante dos custos fixos da máquina pública com relação à arrecadação; 
– alto índice de inflação, que corrói salários.
A previdência social tem uma contabilidade simples por todos nós conhecida: os trabalhadores empregados contribuem com parte dos seus salários para o pagamento das pensões dos aposentados por idade, invalidez ou dependência econômica. Tanto aqui como em todo o mundo capitalista de antanho esta equação funcionou graças ao fato de que no capitalismo em expansão (sem a qual ele definha e morre) havia sempre um número crescente de pessoas entrando no mercado de trabalho, com relação ao número dos que se aposentavam. 

Agora, com o desemprego estrutural e o aumento da longevidade graças aos avanços da medicina e do saber sobre questões alimentares, de higiene e de vida saudável, tal equação se tornou irresolúvel, causando um déficit financeiro previdenciário em todo o mundo.

No Brasil, o governo do presidente Temerário já anunciou, pelo ministro do Planejamento Dyogo Henrique de Oliveira, que o déficit da previdência, contabilizados pelo Instituto Nacional do Seguro Social, sistema público que atende aos trabalhadores do setor privado, dos R$ 147 bilhões previstos para este ano, avançará para R$ 183 bilhões em 2017. A estimativa foi divulgada durante entrevista na qual o governo anunciou a nova proposta de meta fiscal para 2017, encaminhada ao Congresso com um pedido de autorização para que as contas públicas registrem no ano que vem um déficit (despesas superiores às receitas) de R$ 139 bilhões.

Como se vê, o Estado brasileiro é obrigado a bancar tal déficit, sob a pena de jogar na rua da amargura os pensionistas que já são tão mal remunerados, após longos anos de contribuição previdenciária. 

Como o dito cujo está endividado até o pescoço (basta dizer que pagamos R$ 367 bilhões somente de juros da dívida pública em 2015 e muito mais pagaremos no presente ano) e a renitente recessão econômica afirmada pelo índice negativo do PIB reduz a arrecadação de impostos, qualquer que seja o governante gerindo a máquina estatal dentro dos atuais cânones estabelecidos constitucionalmente imanentes à lógica mercantil, terá de tomar as seguintes e cruéis medidas clássicas como forma de manutenção da contabilidade pública dentro da lei de responsabilidade fiscal e da solvabilidade de curto prazo: 
– redução dos gastos com serviços públicos de sua incumbência constitucional (educação, saúde e segurança pública); 
–  aumento de impostos; 
  aumento da dívida pública; 
 redução das pensões e aposentadorias;
Mais sacrifícios serão, portanto, impostos à população dentro em breve. Assim, chegamos às seguintes conclusões e questionamentos:
  qual a contribuição que a esquerda pode dar sendo governo, a não ser se tornar mera administradora de uma crise que (presumivelmente) não é sua? Que o capital, a partir de seu instrumento institucional, o Estado e seus áulicos políticos, imponham sacrifícios aos seus súditos no altar da sua exploração capitalista histórica, é atitude consentânea com sua razão de ser socialmente repugnante; mas, para quem se coloca como crítico consciente dos postulados capitalistas, administrar a sua crise a partir do Estado é função absolutamente contraditória e que se constitui numa servidão voluntária ao regime de exploração e num exemplo de incoerência entre o discurso e a ação diante da população (ou mero oportunismo em função das benesses das tetas do governo, o que é moralmente abjeto);
  o problema do déficit da previdência social é irresolúvel a partir do limite interno da expansão capitalista ora vivenciado, ainda que sejam reduzidas a um mínimo as contribuições previdenciárias para torna-la sustentável (vide Romero Jucá), que nessa última hipótese deixa de cumprir a sua função social.  
A falência do sistema de previdência social, que ocorre mundo afora, atingindo inclusive os países economicamente hegemônicos (que vêm reduzindo não só as pensões previdenciárias, como também os direitos trabalhistas!), é mais um aspecto da derrocada do capitalismo, que clama por superação.

A inconsciência social é desculpável ou compreensível, mas a omissão comodista diante do imperativo de encontrarmos uma resposta para este (e muitos outros) gravíssimo desafio e, assim evitar o pior, deve ser considerada um crime de lesa-humanidade. (por Dalton Rosado)

domingo, 21 de agosto de 2016

SOB NOVA GERÊNCIA, SELEÇÃO CANARINHA COMEÇA A SAIR DO FUNDO DO POÇO.

Com Paulo Machado de Carvalho deixamos de ser vira latas...
O futebol brasileiro é praticamente imune à moralização: ela nunca acontece, como mais uma vez está sendo comprovado. Não houve nem mesmo o mínimo necessário para salvar as aparências, a partir das predatórias gestões de escroques como João Havelange, Ricardo Teixeira, José Maria Marin e Marco Polo Del Nero à frente da CBF. 

Quando enfim nos livramos de um, entra outro, pois quem elege Al Capone são miniaturas de Al Capone, os presidentes dos clubes. A única mudança é de rosto.

Os frustrados com a incrível permanência do Marco Polo que não ousa viajar à frente da CBF após a devassa que o FBI desencadeou na Fifa, recriminaram a decisão de Tite, de aceitar o posto de técnico da Seleção Brasileira, mesmo sabendo que estaria tendo ratos como seus superiores hierárquicos.

Eu, não. Por um motivo estatístico: lembrei de que, das 20 Copas do Mundo já disputadas, o Brasil venceu as duas únicas em que teve um comandante de verdade, cuja personalidade era forte a ponto de não deixar os repulsivos cartolas meterem o nariz no trabalho dele e dos profissionais honestos e competentes que reuniu na sua equipe de trabalho.
Tite quer uma taça dessas para chamar de sua. E pode obter...

Refiro-me, evidentemente, a Paulo Machado de Carvalho, o marechal da vitória, o grande artífice do bi (1958 e 1962) nos bastidores. Sua taxa de sucesso foi de 100%.

Das outras 18 Copas ganhamos três, ou seja, quando não havia um ser humano de qualidade superior dando as cartas por lá, a taxa de sucesso despencava para 17%.

Então, quando os podres poderosos da CBF resolveram engolir um Tite, o contrário de tudo que eles são, é porquê já não conseguiam mais administrar o duplo descrédito decorrente das investigações da sua roubalheira e dos fiascos esportivos causados por sua incompetência.

Como Tite não é bobo nem nada, aproveitou bem a chance: já que estava com a faca e o queijo nas mãos, o preço que ele cobrou para servir de escudo para essa corja foi o mesmo de Paulo Machado de Carvalho: carta branca para tentar tornar a Seleção uma ilha de excelência, sem interferências de cima ou dos lados.
Há quanto tempo não víamos esta cena!
Acabamos de ver a primeira consequência: ao perceber que o escrete olímpico tinha um profissional honesto e atualizado a dirigi-lo, recusou-se a assumir ele próprio o posto, como já estava decidido que Dunga faria. Preferiu dar força para Rogério Micale de público e discretos conselhos ao pé de ouvido.

A aposta deu tão certo que não só conquistamos o ouro, como já temos o promissor esboço de uma seleção principal realmente competitiva, começando pelo líder (o impressionante Renato Augusto!) e pelo craque (Neymar, que finalmente exibiu uma personalidade à altura do seu futebol). Afora promessas como os Gabrieis, o Luan e o Marquinhos, que têm tudo para conquistarem a titularidade.

Se lembrarmos que os dirigentes do Corinthians não diferem em nada dos da Casa Bandida do Futebol, teremos um parâmetro para antever o que um técnico como Tite, ótimo no seu ofício e homem de bem, poderá fazer pelo futebol brasileiro, um dos consolos que ainda nos restam nestes tristes trópicos.

sábado, 20 de agosto de 2016

O 'TANTO FAZ' DEIXA TUDO MAL FEITO. QUE TAL ADOTARMOS O 'VAMOS FAZER DIREITO'?

Há comportamentos característicos de cada povo, e outros que são atribuídos e pegam, a despeito de existirem de fato ou apenas subjetivamente, genericamente.

Embora sejam encontrados exemplos em todo o planeta, ficaremos com os vícios, reais ou atribuídos, dos brasileiros. Uns são mais disseminados, outros mais restritos.

Na categoria dos mais constatados está o de justificarem-se os erros com desculpas, em vez de assumi-los e buscar a solução mais adequada. Pessoas de todos os segmentos sociais recorrem a tais expedientes, mas são os gestores públicos que o fazem com mais frequência, talvez em razão da atividade que exercem. Toda vez que acontece algo desabonador, as reações consistem em desculpas evasivas, desconexas dos fatos e sem nenhuma consistência.

Porque motoristas acham irrelevante acionarem a seta de alerta e tanto motoristas quanto pedestres desobedecem o semáforo, os brasileiros fazem do nosso país o campeão mundial de acidentes automobilísticos, provocando graves consequências pessoais e econômicas. Trata-se de um mal gigantesco, que poderia ser evitado com uma mudança de postura.

Com relação à educação brasileira ocorre o mesmo. Os professores anseiam por um feriado que lhes permita emendarem os dias úteis. Ainda pressionam os alunos: se vier um, teremos de dar aula. Nenhum colega vai arriscar-se ao linchamento pela sala inteira. Não se ouve um aluno brasileiro vangloriar-se do que aprendeu; mas se escuta todo dia gabar-se por ter tirado nota 10 colando.

Apagar as luzes quando se sai de um ambiente não faz parte dos nossos hábitos. Usar fio dental após as refeições, também não. Assim como não fazer o exame de próstata ou de mamografia com a regularidade recomendada.
E o que dizer dos milhões de luminares, com pós-doutorado e tudo, falando sejeestrupo (a palavra campeã de erro de pronúncia), etc.?! 

Além de os ditos cujos acentuarem o nosso delicioso coco. Num condomínio em São Paulo, já recebi um panfleto ofertando deliciosos doces de cocô. Imagine!

O vício de fazer de qualquer jeito começa com os cidadãos na base da sociedade e sobe pelas camadas mais altas. Repete-se em todos os ramos de atividade e se intensifica nos governos.

As prefeituras, atribuindo tal tarefa às polícias militares, não fiscalizam os pichadores. Os policiais, por sua vez, não perdem tempo prendendo os pichadores, por saberem que a Justiça vai soltá-los imediatamente. O Poder Judiciário os libera porque as leis são frouxas. Finalmente, os legisladores não endurecem para evitarem passar recibo de que, como é voz corrente, no Brasil só se punem os pobres (camada social na qual, em regra, estão inseridos os pichadores). 

Forma-se uma cadeia do tanto faz, que traz como resultado pessoas se divertindo em destruir prédios públicos e residências particulares.

Fazer o que tem de ser feito e como se deve fazer não deveria ser apenas um nome de livro. Este ser feito envolve o fazer correto, na quantidade e qualidade exigidas, com a fórmula determinada. Não é fazer por fazer. Chegar atrasado ou não ir traz prejuízo material e de caráter emocional, valorativo, em termos de comportamento a ser assumido numa sociedade.

E o principal: fazer pelo caminho recomendado, no tempo estipulado, sem pular etapas; se for com improviso, que não seja prejudicial à forma correta.

Enfim, assim como o combate à corrupção não cessa, mesmo sabendo que ela nunca será extinta; assim como não se deixa de tomar remédio porque a doença é incurável, todos ganharão com um combate incessante a esse vício do tanto faz, onipresente no país. 
Por Pedro Cardoso da Costa
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