segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

A EXONERAÇÃO SAIU BARATA PARA O ROBERTO ALVIM, QUE FEZ TAMBÉM POR MERECER A ADMISSÃO NO HOSPÍCIO!

Pela primeira (e, decerto, única) vez na vida serei obrigado a concordar em algo com o astrólogo da corte, Olavo de Carvalho: ele realmente acertou na mosca ao tuitar que seu discípulo Roberto Alvim "parecia não estar bem da cabeça" e era "maluco e trouxa".

Como discordar, depois da tentativa do fã de Goebbels de culpar o capeta pela trapalhada que o privou do cargo? Leiam e pasmem:
"Foi tudo uma série terrível de eventos e coincidências que levaram a essa catástrofe...
Estou orando sem parar, e começo a desconfiar não de uma  ação  humana, mas de uma ação satânica (!!!) em toda essa horrível história". 

A JUNÇÃO ENTRE ULTRANEOLIBERALISMO E VIOLÊNCIA FASCISTA ESTÁ SENDO TESTADA, TENDO O BRASIL COMO LABORATÓRIO

vladimir safatle 
UM FANTASMA ASSOMBRA O BRASIL
Em 2015, fiz a música para uma peça de Roberto Alvim. Tratava-se de uma interpretação de Júlio César, de Shakespeare, reduzida para dois atores. 

Havia algo na peça que ganhou atualidade inesperada. Seu próprio diretor a encenou da forma a mais macabra.

A ideia central era mostrar como a história se encarna em pessoas sem que elas o saibam. Brutus imaginava estar a defender a república, mas ele fora usado pela história para produzir o império. 

Pois tal processo traz novamente à vida fantasmas que são, na verdade, aquilo que uma sociedade tem de mais real. As pessoas acreditam estarem a agir por consciência própria, mas elas estão sendo movidas por processos que se dão às suas costas, que se encarnam em suas falas e gestos.

Alvim afirmou recusar a “origem espúria” das ideias estéticas que ele mesmo reconheceu partilhar com o ideário nazista, como se fosse possível fazer tal distinção. Ao mesmo tempo, afirmou que os trechos que plagiam Goebbels foram “enxertados”. Difícil imaginar descrição mais precisa, por mais que ela seja farsesca. 
De fato, a partir do momento em que o ideário estético nazista parece estranhamente próximo, nosso corpo será tomado de forma integral, nossa fala e nossas ações serão enxertadas por fantasmas que voltam com a força de espectros que estavam sempre latentes, à espera da primeira oportunidade para se explicitar. 

Não se fala em arte nacional feita para salvar a juventude da sua degradação e salvar a civilização cristã de sua ruína inexorável impunemente. 

Que esse espectro seja o fascismo, isso serve apenas para calar aqueles que durante esses últimos anos procuraram nos desqualificar, dizendo que éramos muito alarmistas quando falávamos do fascismo imanente ao governo Bolsonaro.

Pois esses preferiam tratar o fascismo brasileiro como um anedotário, sem querer ver que, ao contrário, ele era e continua a ser um eixo fundamental de um país cujos ocupantes do governo louvam torturadores e se veem numa revolução conservadora enfim realizada, mas há muito gestada.

Isso não poderia ser diferente, já que estamos a falar de um país que, nos anos 30, contava com mais de 1 milhão de membros nas hostes do integralismo. Um país que viu sua versão nacional do fascismo, com sua tríade deus, pátria, família (mais uma vez atualizada), fornecer à ditadura militar alguns de seus principais quadros. 

Miguel Reale, um dos ideólogos do aparato legal da ditadura militar fora integralista. Plínio Salgado, seu líder principal, terminará como deputado pela Arena, chegando a escrever compêndios de educação moral e cívica para a ditadura.

Nada disso serviu para que lembrássemos como nunca acertamos as contas com o fascismo brasileiro e seus representantes, com sua violência e segregação. 

Ao contrário, ele é tão útil que os ditos agentes modernizadores da economia não veem problemas em chamá-lo à superfície caso precisem passar os ditames de sua racionalidade econômica à força. 

Neste sentido, o Brasil caminha para se transformar num laboratório mundial de junção entre ultraneoliberalismo e violência fascista, mostrando o caminho para uma nova roupagem do autoritarismo. A queda do secretário da Cultura não muda em nada este horizonte.

Por fim, há de se lembrar que não cabe a um funcionário público dizer o que a arte de um país deve ser. A função do estado na cultura é simplesmente permitir a circulação daquilo que não circula, por ser estranho aos interesses econômicos ou às leituras predominantes. 

Prêmio Nacional das Artes proposto deve ser imediatamente abortado. Ele é a continuação do fascismo por outros meios. (por Vladimir Safatle) 

domingo, 19 de janeiro de 2020

...ATÉ QUANDO O LULA DIRÁ MENTIRAS CABELUDAS SOBRE OS JOVENS QUE O PT DEIXOU SEREM MASSACRADOS EM 2013?!

bruno boghossian
LULA REPRODUZ TEORIAS CONSPIRATÓRIAS
PARA MASCARAR DISSABORES DO PT
Em 2008, ladrões abriram um contêiner da Petrobras e furtaram quatro notebooks e dois HDs com dados sigilosos sobre a exploração da bacia de Santos. A Polícia Federal tratou o caso como espionagem industrial. O ex-presidente Lula acredita que aquele foi o episódio inicial de um conluio estrangeiro para prejudicar o Brasil e o PT.

A teoria de um complô patrocinado pelo governo dos EUA contra a esquerda não é novidade entre os integrantes da legenda. O próprio líder petista, no entanto, passou a desenhar uma teia conspiratória cada vez mais larga para mascarar alguns dos grandes dissabores do partido.

Lula atribui aos americanos influência nos protestos de junho de 2013, na Lava-Jato, na derrocada da Petrobras e na quebra de empreiteiras brasileiras envolvidas em corrupção. 

Mistura fatos com boatos das redes e junta casos isolados, ainda que não haja ligação comprovada entre eles. Tudo para perturbar a discussão política sobre esses episódios.

Em entrevista ao portal Diário do Centro do Mundo, o ex-presidente disse achar “absolutamente verdadeiro o fato de que os Estados Unidos têm forte influência em toda a política da Lava Jato”. Mencionou conexões entre agentes americanos e a força-tarefa da operação, além do assalto ao contêiner há 12 anos.

O petista reproduz uma teoria, difundida por sites de esquerda, que atribui o furto dos documentos a empresas do EUA e alega que Sergio Moro recebeu treinamento de agentes quando deu uma palestra no país em 2009. Não há provas para sustentar o suposto complô.

O ex-presidente também disse enxergar orientações estrangeiras nas manifestações de 2013, que derreteram a popularidade de Dilma Rousseff. “Acho que teve dedo de fora.”

Para Pablo Ortellado, professor da USP e colunista da Folha de S. Paulo, “essa leitura conspiratória é irmã da miopia que o impede de reconhecer seus erros”, escreveu. “Lula prefere olhar para o lado e buscar os motivos dos protestos em delirantes indícios conspiratórios.” (por Bruno Boghossian).
Toque do editor: eis outra verdade absoluta e incontestável escancarada por Pablo Ortellado num tuíte: "Lula não pôde escutar as demandas de junho porque precisaria olhar de frente para as escolhas mais fundamentais do seu governo e o envolvimento do PT com a corrupção".
Daí o imperativo de a esquerda projetar um líder que não esteja condenado a mentir sobre o passado comprometedor, tendo, portanto, as mãos livres e a credibilidade intacta para construir o futuro.
(por Celso Lungaretti) 

O ÚLTIMO (?) ADEUS DE ANDRÉ MAURO

Toque do editor
Foi uma grata surpresa encontrar este post na vitrine do UOL: fiquei sabendo da existência do Combate Rock, um instigante blog dedicado ao rock e webradio, com apuro jornalístico e que se coloca corajosamente na trincheira da civilização nestes tempos sombrios em que os bárbaros rondam seus muros, à espreita de uma oportunidade para destruí-la.

Entrei em contato com a equipe para expressar minha admiração de velho roqueiro e velho guerrilheiro; acabei convidado para escrever algo sobre minha trajetória e sobre os motivos de a contestação ao sistema ter sido quase uma unanimidade na geração 68 e agora não sê-lo mais.

Na hora de enviar o artigo, ocorreu-me que será provavelmente a última oportunidade de me dirigir ao público roqueiro, matando as saudades do período de 1979/1984, quando o fazia o tempo todo e gostava imensamente do que fazia. Então, resolvi assinar-me com o pseudônimo que então utilizava para manter a censura longe de mim. 
 .
andré mauro
A PROLE MALDITA DOS HELLS ANGELS
Para quem participou intensamente das jornadas de 1968 e foi fundo nos caminhos que elas descortinaram, é chocante constatar que hoje há roqueiros apoiando o fascismo tosco dos ignaros empoderados. Mas, um pouquinho de reflexão ajudará a entender o fenômeno.

Comecemos parafraseando o Mick Jagger: please allow me to introduce myself, I'm a man of (no) wealth and (some) taste. 

Tinha 16 anos quando comecei a me entrosar com o movimento estudantil, primeiramente no meu colégio da Mooca. Em 1968 já estava entre os líderes da arregimentação secundarista em toda a enorme zona Leste paulistana. E em 1969, aos 18 anos, me tornei comandante estadual de uma das principais organizações guerrilheira que confrontavam a ditadura militar, a VPR do capitão Carlos Lamarca. 

Aprisionado; torturado; sofrendo lesão permanente; quase morrendo em várias ocasiões; amargando a perda (assassinados) de uns 20 companheiros que conheci, inclusive alguns muito próximos a mim, as portas do inferno finalmente se abriram em 1972 e voltei às ruas para tentar juntar os cacos, depois de haver optado por vencer ou morrer e não ter acontecido nem uma coisa, nem outra.
A seção Rock Stars nasceu assim
Foi quando colegas da antiga escola me convidaram para participar de uma comunidade alternativa e, sem nada mais a perder, aceitei de pronto. Nela lambi as feridas, superei traumas e me reconstruí. Conheci as drogas do meu tempo, abri as portas da percepção com o LSD e me fascinei pelo heavy metal de Alice Cooper e Black Sabbath. De certa forma, o rock macabro serviu para exorcizar meus pesadelos dos porões da repressão.

Passara batido pelo rock dos anos 50 porque era muito criança quando Elvis Presley escandalizava os EUA; e pelo dos '60 porque o mundinho encantado dos Beatles não tinha nada a ver comigo, aqueles filmecos ingênuos do quarteto eram um tédio só.

A fase de me ligar nos circos de horrores da tia Alice e do canastrão de reality show durou pouco. Logo descobri roqueiros bem mais afins comigo: Janis Joplin, Jimi Hendrix, Jim Morrison, Joe Cocker, Alvin Lee, Eric Burdon, Eric Clapton, Rolling Stones, praticamente toda a linhagem dos que haviam bebido nas fontes do blues e descartavam a herança do country and western.

A nossa comunidade no Jardim Bonfiglioli se estilhaçou em 1973 e eu juntei os trapos com uma menina, fomos viver em quitinete e fiquei reduzido à rotina de trabalhar em comunicação empresarial durante o dia, transar e escutar meus discos à noite. Repouso do guerreiro, depois de tanto alvoroço.

Em 1979 dei um bico na hibernação e fui buscar outras coisas na vida, partindo para o jornalismo de verdade, principalmente nas áreas de música e cinema. Em pouco tempo me tornei o homem do rock na Editora Imprima, que fazia as revistas Música, Violão & Guitarra e outros títulos menores. 
Minha seção na Música, Rock Stars, de duas páginas logo pulou para quatro. Aí criei uma revista também chamada de Rock Stars. Outra, a Internacional Extra, caiu nas minhas mãos e passou a abordar exclusivamente a trajetória de roqueiros. E pari a Rock Show, a Rock Passion.

Assinava André Mauro, porque continuava na lista negra da ditadura e meu nome real atrairia atenções indesejadas. Basicamente, mantive a abordagem do rock como contestação ao sistema capitalista num período em que ele começava a se transformar em máquina de fazer dinheiro a partir de altos investimentos promocionais e de mega-espetáculos (estava no gramado do Morumbi quando o Queen inaugurou no Brasil a era dos shows em estádios de futebol e captei a mudança dos ventos). 

Mas, o público-alvo da minha editora eram exatamente os roqueiros de raiz, que detestavam Peter Frampton, Abba, Wings, etc. Então, carreguei a bandeira do verdadeiro rock até o final de 1984; cheguei a ter uma breve amizade e a manter muitos papos etílicos com o Raul Seixas; e nunca fui tão feliz como jornalista, mesmo tendo de vender boa parte dos discos que recebia das gravadoras para completar o orçamento. Nada iguala o prazer de amar o que se faz.
Até que meu castelo de cartas desabou mais uma vez, a crise do papel levou a editora a extinguir metade dos seus títulos e não havia mais jeito de eu sobreviver com o que sobrara. Tive de ir ganhar muito mais fazendo um jornalismo do qual gostava muito menos.

No ano 2000, novamente troquei uma posição consolidada pela tentativa de realizar um sonho, o de ser pai biológico, o que não conseguira até então por força de uma existência tumultuada. Essa opção geraria tantas consequências que passei 2004 e 2005 numa penúria quase total, tendo de fazer das tripas, coração para obter logo a anistia de ex-preso político a que tinha pleno direito, mas certas panelinhas privilegiavam os seus integrantes e estavam passando os lobos solitários como eu para trás.

Acabei vencendo a duras penas essa batalha e ela projetou meu nome na web, abrindo caminho para um livro de memórias meu e de minha geração, a partir do qual fui me tornando conhecido principalmente como o principal jornalista que defendia Cesare Battisti e outros perseguidos políticos, como cronista da luta armada e dos combatentes que a travaram e, enfim, como um velho guerreiro que não trocou seus ideais pelas regalias do poder. 
[Existem muitos e muitos outros que também não venderam a alma, mas a imprensa canalha prefere direcionar todos os seus holofotes para os maus exemplos.]

E, enfim, nunca deixo de lembrar que o ex-guerrilheiro Celso Lungaretti é também o ex-crítico roqueiro André Mauro. Tenho idêntico orgulho dessas duas facetas do meu passado.
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OS ROQUEIROS E O BOM COMBATE: O QUE MUDOU DESDE A GERAÇÃO 68? Voltando à questão inicial, o rock do final da década de 1960 identificou-se fortemente com a contestação política e a contracultura porque era o momento em que os jovens se chocavam com as barreiras de sociedades conservadoras e puritanas, nas quais a autoridade dos adultos é que deveria sempre prevalecer, sufocando seus sonhos e seus anseios (além de, nos EUA, estarem sob ameaça de morte na tão repudiada Guerra do Vietnã). 
Era o fim do patriarcalismo e da hegemonia do capitalismo industrial, em processo de transição para a sociedade de consumo e para a ascendência dos setores financeiros e de serviços. Entre uma forma de sociedade que caducava e outra que se instalava, a rebeldia dos jovens foi uma espécie de cunha: o que eles quiseram naquele instante foi avançarem não para outra etapa capitalista, mas  para além do capitalismo.

As melhores cabeças dentre eles perceberam que já existiam plenas condições econômicas de, sem agressões suicidas ao nosso habitat natural, assegurar-se uma sobrevivência digna a cada habitante do planeta, desde que os frutos do trabalho humano fossem distribuídos de acordo com o critério do bem comum, e não usurpados por minorias de privilegiados.

E mais: que isto poderia ser conseguido com uma carga muito menor de trabalho e de estresse para cada um de nós, dando-nos a oportunidade de desfrutar plenamente a existência, não mais como inimigos na luta pela sobrevivência, mas como companheiros fraternos na edificação da harmonia e da liberdade.
Os ventos de mudança sopraram intensamente na Europa e nas Américas, mas não o suficiente. A transição para a sociedade de consumo acabou se completando, mas o capitalismo estagnaria no presente século, incapaz de retomar o crescimento, além de impotente face à escalada do aquecimento global e das alterações climáticas, uma lâmina de guilhotina pendente sobre o futuro de nossa espécie.

Incapazes de entender o que realmente está acontecendo e manipuladas o tempo todo pela indústria cultural, as pessoas se agarram ao populismo dos salvadores da pátria, ao autoritarismo embutido no combate à corrupção, à fé mercantilizada dos novos vendilhões do templo e até à barbárie de milicianos e incendiários.

Mesmo nos idos da juventude paz & amor, existiam os Hells Angels, barbarizando, estuprando e matando. Sua prole maldita nunca foi extinta e hoje se faz mais visível sob o bolsonarismo, que obviamente a estimula e protege. 
Mas por aí só se chegará à entropia, daí ser fundamental que as novas gerações de roqueiros se mirem nos Lennons ("Imagine") e Raulzitos ("Sociedade Alternativa"), jamais nesses rebeldes sem cabeça que pensam estar combatendo o sistema quando apenas favorecem o afloramento do que há de mais bestial e nefasto no sistema. (por André Mauro)   

sábado, 18 de janeiro de 2020

NAZISMO TERRAPLANISTA: O PROBLEMA ESTÁ NO ÂMAGO DO GOVERNO, NÃO NOS SEUS CÍRCULOS PERIFÉRICOS

josias de souza
FOI-SE ALVIM, PERMANECEU A POLÍTICA CULTURAL TÓXICA
A presença de expressões de Joseph Goebbels, ex-ministro da Propaganda de Adolf Hitler, nos lábios de uma autoridade do Brasil não poderia ter outro desfecho senão a exoneração de Roberto Alvim da poltrona de secretário Nacional de Cultura. 

Apesar de a ficha de Jair Bolsonaro ter demorado algumas horas para cair, foi ao olho da rua um assessor que não deveria nem ter sido nomeado. 

Mas há um problema: permanece intacta a pretensão do presidente de colocar em pé uma política cultural tóxica. 

Os detalhes da nova política foram aprovados por Bolsonaro. O demitido esteve com o presidente na véspera. Participou de uma live. Recebeu efusivos elogios do chefe. A política do governo para esse setor parte de um diagnóstico segundo o qual a cultura está doente e seria necessário promover um renascimento da arte

Esses conceitos mimetizam, macaqueiam a teoria nazista da arte degenerada, cujo expurgo Hitler promoveu na Alemanha.
A pretexto de estimular um nacionalismo de viés governista, conspira-se contra a essência da manifestação artística, combate-se tudo o que possa parecer crítico, transgressor ou plural.

A ideia de que o Brasil precisa ser salvo de sua própria cultura —respeitada mundialmente pela diversidade— sobreviverá à saída de Alvim. 

O que nos conduz ao miolo da encrenca: o problema está no bunker do Planalto, não nos subúrbios do governo. Sob Bolsonaro, o palácio convive com a patologia da guerra. O lema de Bolsonaro é: Nós estamos certos e todos os outros estão errados.

Estabelecida a lógica do bunker, o mundo ao redor deixa de ter importância. Guerreia-se pelo gosto de guerrear. Podendo se concentrar em guerras relevantes —contra a paralisia econômica, contra a corrupção, contra o analfabetismo— o governo dispersa energias com guerras imaginárias —contra coisas como o globalismo e o marxismo cultural. 

Bolsonaro e seus ideólogos criam os fantasmas que assustam o governo. (por Josias de Souza)

ESPECTRO DO NAZISMO VOLTA A RONDAR O BRASIL, AGORA EM VERSÃO TERRAPLANISTA

dalton rosado
O TOTALITARISMO PELO VOTO
O capitalismo é intrinsecamente totalitário, com sua vontade sendo imposta de três maneiras (de modo independente ou simultâneo, conforme as circunstâncias o exijam): 
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— o domínio econômico; 
 a manipulação da vontade popular; ou
 a força militar. 

Em 1919, um ex-cabo do exército alemão, ressentido pelo derrota alemã na 1ª Guerra Mundial, filia-se ao obscuro Partido dos Trabalhadores Alemães.  Em 1920 o nome foi um mudado para Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães.

Os anos seguintes foram terríveis para o povo alemão, obrigado a enfrentar um processo inflacionário que praticamente destruiu a sua moeda; e a arcar com os pesados ônus que lhe foram impostos por seus adversários em razão da derrota na guara. 

Quando a Alemanha começava a dar tímidos sinais de melhora, a grande depressão de 1929 a privou dos créditos externos de que necessitava para levar adiante o processo de estabilização de sua economia, inutilizando os esforços dos anos anteriores e provocando grande frustração popular. 

O discurso fácil da redenção xenófoga alavancou então o crescimento do nazismo, que defendia a riqueza para os nacionais e atribuía à tolerância da República de Weimar para com a corrupção e grupos étnicos específicos (judeus, ciganos e eslavos) e ideológicos (os comunistas) os males que atingiam o povo alemão. 

O Partido Nazista se autoproclamava como pragmático; disciplinado; viril; eficiente; defensor intransigente das virtudes do trabalho abstrato, capaz de resgatar o orgulho alemão oriundo dos atributos étnicos da raça ariana. 

Com tais bandeiras e um intenso programa de comunicação de massa por via radiofônica, foi, paulatinamente, ganhando força política, até que, em 14 de julho de 1933, completou a conquista do Estado, mediante decreto-lei cujo teor era o seguinte:
"O Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães se constitui como o único partido político da Alemanha. Aquele que tentar manter ou formar um novo partido será punido com trabalhos forçados por três anos ou com prisão de seis meses a três anos, se a ação não tiver sujeita a penalidade maior, em conformidade com outros regulamentos".
Daí em diante o que se viu foi um crescente ufanismo da população alemã, deslumbrada com a melhora econômica decorrente da grande eficiência do povo alemão no seu processo pós-segunda revolução industrial fordista, alardeada como mérito nazista pelo ministro da Propaganda Joseph Goebbels.
Na Alemanha se praticavam todos os tipos de arbitrariedades ao arrepio da lei, sem que o coro dos contentes visse naquelas atrocidades qualquer problema. 

Algo parecido com os anos do falso milagre brasileiro dos tempos de Médici, nos quais a população, deslumbrada com o crescimento econômico insustentável, fazia ouvidos moucos para a tortura e morte de quem ousasse questionar o governo militar e suas práticas absolutistas. 

O resultado dessa aventura alemã totalitária, nascida com a eleição de Hitler e de parlamentares do seu partido, todos conhecemos: 50 milhões de mortos, correspondentes a 3% da população mundial de então.  

Aqui no Brasil tivemos algo parecido em 2018 e que, infelizmente, está em curso, seja para nossa passividade cumpliciada, ou para nossa estupefação. 

Um pretenso outsider, favorecido por acasos  e praticando ilegalidades por atacado, viu cair-lhe a presidência da República no colo, embora fosse um cidadão:
— sem qualquer ligação comprometimento com os vários partidos pelos quais se elegera várias vezes deputado federal;
— portador de um discurso nacionalista-liberal (uma filosofia tão contraditória no seu enunciado quanto o nacional-socialismo de Hitler) de combate à corrupção; 
— fervoroso adepto do policiamento ostensivo e contumaz autor de ameaça de morte e prisão aos que saíssem de sua linha programática raivosa e genérica contra tudo que aí está; e
— de um primarismo chocante em termos de conhecimentos gerais (apesar de astuto como todo ilusionista).

Utilizou, para tanto, um discurso que calou profundamente na maior parte do eleitorado, desinformada sobre a verdadeira gênese de seus sofrimentos; e também numa classe média inconformada com a achatamento de poder aquisitivo. 

A partir daí, ele passou a aparelhar (ou desaparelhar) furiosamente o Estado, contando com a cumplicidade de outros medíocres como ele, pinçados para sua equipe de governo.

Não é de estranhar-se que um Ricardo Alvim da vida, patético secretário de Cultura do governo federal, não haja tido o menor pejo em reproduzir num discurso público as palavras de Joseph Goebbels propondo diretrizes para as artes alemãs, ao som da ópera Lohengrin, de Richard Wagner (uma das preferidas de Hitler), cena emoldurada por um retrato do presidente Boçalnaro, o ignaro 

Como demonstramos numa recente série de cinco artigos (vide aqui), estamos saindo de um ano terrível, marcado por:
— crescimento pífio do PIB (agora, em face dos resultados a menor de novembro para a indústria e o comércio, a previsão foi reduzida ainda mais e o resultado final deverá ser de mísero 1,0%);
— crescimento para 80% da nossa dívida externa em relação ao PIB;
— déficit orçamentário de R$ 80 bilhões, mesmo com a venda de ativos e cessão onerosa do petróleo;
— inflação em alta e chegando a 10% nos gêneros alimentícios, maior peso da economia popular;
— alta taxa de desemprego renitente (ainda que com ligeira queda);
— aumento do desmatamento em 30% na região amazônica;
— filas de pensionistas em busca dos seus direitos previdenciários com atraso de vários meses;
— desentendimentos políticos entre destacados membros do governo e de parlamentares que até ontem serviam como artífices das quimeras eleitorais;
— corte de verbas para as universidades;
— estremecimentos das relações políticas internacionais, como no caso da França e da Argentina (nossa importante vizinha e parceira comercial);
— vexames sucessivos protagonizados por ministros ineptos (como esse impreCionante Weintraub, da Educação, que substituiu outro tão estapafúrdio quanto ele), ou por dirigentes de órgãos que sustentam absurdos como o de que a escravidão negra teria sido boa para os negros trazidos da África sob condições desumanas e aqui tratados como animais;
— maior queda de popularidade para um presidente eleito em seu primeiro ano de (des)governo, etc., etc., etc. 

Mas mesmo diante de tantos fracassos político-econômicos, esse governo continua a administrar o desmonte de tudo de bom que foi construído com sacrifícios no Brasil, sem que o governo apresente realizações positivas (a menos que se considere como tal a perda de direitos previdenciários).

Sempre fui consciente do que é capaz um presidente: 
— que adota o coronel Brilhante Ustra, um militar destacado pela ditadura para comandar e praticar torturas e mortes de presos indefesos, como exemplo a ser seguido;
— que afirmou, do alto da sua falta de sensibilidade humanista, que os governos militares deveriam ter matado pelo menos uns 30 mil opositores;
— que tergiversa diante de afirmações como a de um dos seus filhos zero à esquerda, de que bastaria um cabo e um soldado para fechar o Supremo Tribunal Federal (certamente para montar um tribunal de exceção a ser presidido pelo guru-astro(i)lógico Olavo de Carvalho, desde que este ousasse vir defender em pessoa suas posições, ao invés de teleguiar zumbis desde os EUA); 
— que tem na alta cúpula governamental pessoas que admitem a reintrodução do AI-5, medida definidora da possibilidade do arbítrio indiscriminado;
— que, militar insubordinado, foi passado para a reserva com poucos anos de serviços por ameaça de atentado à bomba;
— que afirma que as crianças, ao praticarem o trabalho infantil, se educam para a vida (!), etc.

Mas, sabendo que a sensibilidade humanista e consciência sobre direitos civis de muita gente passa pelo bolso, preocupa-me imensamente a seguinte questão: quão despótico seria um governo com a orientação ideológica acima exposta, acaso experimentássemos no Brasil um período de ascensão capitalista (mesmo que episódica), capaz de lhe conferir algum apoio popular?

O capitalismo é totalitário tanto pelo voto como pelos golpes militares tão comuns na sua periferia, e a democracia burguesa mostra a sua face carantonha tão logo esteja ameaçada na sua hegemonia por proposições consistentes e que recebam apoio popular para um novo modo de produção social e organização horizontalizada.

Depois de Plínio Salgado e integralistas, desde 1930 até 1955 (quando foram definitivamente derrotados nas urnas), o espectro nazista volta a rondar o Brasil.

Agora pelas mãos desses terraplanistas idiossincrásicos, comandados por um presidente primário, que certamente transita entre a admiração (e submissão incondicional) ao rico presidente Destrumpelhado e fascinação pelo legado do ridículo genocida Adolf Hitler. (por Dalton Rosado)

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

ACREDITE SE QUISER: FÃ DO GOEBBELS É EXONERADO PELO FÃ DO BRILHANTE USTRA

bruno boghossian
AGORA DEMITIDO, ALVIM AINDA REPRESENTA PROGRAMA BOLSONARISTA
Roberto Alvim não é o único. Agora demitido, o secretário de Jair Bolsonaro que plagiou um discurso do chefe da propaganda nazista manifestou uma visão que está entranhada no governo e na rede de apoio mais próxima do presidente.

O programa ultranacionalista, preconceituoso e exclusivista para a cultura faz parte da essência do bolsonarismo. Aparece em dezenas de pronunciamentos do presidente e de seus auxiliares.

O próprio Bolsonaro já disse que a cultura precisa ser submetida a um filtro governamental e que as políticas públicas dessa área só devem servir à maioria —ou seja, a quem pensa como ele. Alvim, fica evidente, não era um tirano solitário.

Os valores exaltados pelo dramaturgo ao copiar o ministro de Adolf Hitler fazem parte da espinha dorsal de um projeto de poder. Estão, aliás, num documento registrado em cartório pelo presidente da República.

O programa do Aliança pelo Brasil, legenda de Bolsonaro em processo de fundação, ecoa essas mesmas palavras: 
"O partido se compromete a lutar, na cultura, pela restauração dos valores tradicionais do Brasil, consolidados no pensamento e na vida de grandes homens e mulheres do passado, heroicos exemplares da virtude e do vigor brasileiros".
Esse suposto desejo de purificação e retorno às origens nacionais é um disfarce mal-acabado para uma perspectiva totalitária, que prega a eliminação do pensamento dissidente e o uso da máquina pública para promover valores políticos.

Alvim e Bolsonaro fazem parte desse mesmo projeto de poder. No início do vídeo em que repete as palavras de Joseph Goebbels, o secretário diz que recebeu uma missão do presidente: 
"Ele pediu que eu faça uma cultura que não destrua, mas que salve nossa juventude".
Há menos de um ano, o dramaturgo saiu do merecido anonimato e foi premiado duas vezes por Bolsonaro. Ganhou um cargo de direção na Funarte em junho e, menos de cinco meses depois, foi promovido a secretário especial de Cultura.
Bolsonaro demonstrou apreço ímpar por Alvim, dando poderes amplos ao novo auxiliar. Terceirizou a ele quase todas as decisões da área e deu a ele liberdade para que nomeasse a estrutura da pasta: 
"Porteira fechada para ele. Vem muita coisa boa por aí".
A versão de que Alvim teria ganhado o cargo por defender Bolsonaro e atacar a atriz Fernanda Montenegro é absolutamente secundária. A dupla, vê-se, estava em sintonia perfeita em seus planos para a cultura.

O receituário do chefe da propaganda nazista está tão amarrado a esse olhar que Alvim foi incapaz de se desdizer por completo. Ele argumentou que aquela foi uma "coincidência retórica". Para acreditar nisso, seria preciso admitir, então, que ele pensa como Goebbels, a ponto de repetir suas palavras sem precisar copiá-las.

Em entrevista à Rádio Gaúcha, o ex-secretário também disse que tinha "repugnância visceral" ao regime de Hitler. Mas acrescentou: 
"As ideias contidas na frase são absolutamente perfeitas. Assino embaixo".
O comportamento é revelador. A "repugnância visceral" de Alvim se dirige apenas ao fato de ter sido comparado a um grupo de facínoras, mas não aos métodos adotados por eles.

Bolsonaro decidiu demitir Alvim para se livrar da bandeira nazista em que o então secretário havia se embrulhado, mas está claro que os valores expostos em suas palavras continuarão a guiar o governo. (por Bruno Boghossian)

BOZO E SEUS MIQUINHOS AMESTRADOS CANTAM VITÓRIA, MAS UMA TEMPESTADE ESTÁ SE FORMANDO NO CÉU DA ECONOMIA

vinícius torres freire
SOBREVIDA DO GOVERNO BOLSONARO
 DEPENDE DE ARROCHÃO DE GASTOS EM 2020
A sobrevida política de Jair Bolsonaro depende de pelo menos uma votação no Congresso neste 2020. 

Trata-se da emenda constitucional que permite o arrochão do gasto com servidores federais, entre outras contenções de despesas obrigatórias, uma guerra política em potencial.

O talho de gastos começaria ainda neste ano, como previsto na emenda constitucional que foi ao Congresso em novembro passado, a PEC Emergencial, ora esquecida depois da ressaquinha da Previdência e do pilequinho da ideia do PIB bombando na nova era.

O arrochão é quase tão importante para a sobrevivência econômica do governo quanto a reforma da Previdência em 2019. Dado que não haverá aumento relevante de imposto, isto se houver algum, sem esse arrochão o gasto do governo vai bater no teto constitucional em 2021. Haveria então tumulto, da quase paralisação da máquina federal a alguma balbúrdia no mercado financeiro.

Sim, na hipótese de a economia e a receita crescerem 4% neste 2020 e no ano seguinte, o problema seria adiado. Mas fantasia grande é coisa de Carnaval.

Em seu primeiro relatório do ano, a Instituição Fiscal Independente refresca a memória do tamanho crítico da pindaíba. A IFI é um órgão de análise das contas públicas, ligado ao Senado.

A dívida bruta do governo deve ter parado de crescer em 2019, perto de 77% ou 78% do PIB, mas graças a medidas e receitas extraordinárias.

Para que não volte a crescer sem limite, ainda será preciso arrumar dinheiros extraordinários, além de contenções de despesas e aumentos de receitas regulares, duradouros.

A dívida parou de crescer porque: 
1) o governo fez o BNDES pagar o que devia ; 
2) os juros baixaram; 
3) o déficit diminuiu um pouco; e
4) se venderam reservas em dólar.

Para que permaneça controlada, embora em nível alto, seria preciso: 
1fazer o BNDES pagar logo o resto do que deve; 
2aprovar o arrochão
3o governo mandar lei que reduza os benefícios tributários (reduções de impostos, grosso modo, para empresas e famílias, como desconto de saúde e educação no IR), prevista na Lei de Diretrizes Orçamentárias, coisa de R$ 35 bilhões por ano; e
4fazer muita privatização, o que não fez até agora; e
5) talvez aumentar imposto.

Sim, a situação continua muito crítica, e as soluções para o problema são muito graves. O gasto discricionário (operação do governo e investimentos) cairá neste ano a níveis críticos, quase de paralisia. 

A gente não nota, distraída demais pelo disparate presidencial diário nas saidinhas do Alvorada.

O arrochão seria acionado sempre que o governo estivesse fazendo dívida em valor maior do que a despesa de investimento, acumulados em 12 meses; duraria por dois anos. Essa já é a situação do governo, faz tempo. Assim, aprovada a PEC, o arrochão entraria logo em vigor.

Ainda que as taxas de juros da dívida pública fiquem em nível historicamente baixo, em algum momento elas subirão (2021?). E, ainda que a dívida pública se estabilize, seu nível é alto. 

Qualquer chacoalhada na economia, com queda de receita, do PIB e alta de juros, o endividamento voltaria a explodir.

Pelo menos essa é sabedoria econômica convencional. Goste-se ou não, para todos os efeitos práticos é a conversa dominante dentro e fora do governo. De resto, as alternativas na praça são malucas ou programas ainda mal explicados em números.

Logo, a conversa político-econômica de 2020 é o arrochão, ano dois, e seus efeitos sociais e político-partidários. 
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(por Vinicius Torres Freire)
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