quarta-feira, 1 de abril de 2026

SÉRIE "AS CINCO COPAS DO MUNDO QUE O BRASIL CONQUISTOU": 1970. BENDITOS CRAQUES, MALDITO DITADOR.

"Pai! Afasta de mim esse cálice
de vinho tinto de sangue.
(...) De que me vale
ser filho da santa?
Melhor seria
ser filho da outra,
outra realidade
menos morta,
tanta mentira
tanta força bruta!"
(Chico Buarque/Gilberto Gil)

Os que vêm acompanhando esta série hão de estranhar que a música citada acima não seja aquela que mais marcou a conquista do Mundial Fifa de 1970, Pra frente BrasilDepois de A taça do mundo é nossa (1958) e Frevo do Bi (1962), seria a escolha óbvia.

Mas, vivia-se o pior momento da ditadura brasileira e nem mesmo o maravilhoso futebol que exibíamos em gramados do México nos tornava noventa milhões em ação, todos ligados na mesma emoção.

Atravessei a Copa como preso político no DOI-Codi/RJ (só assistiria às partidas completas no primeiro aniversário do tri), tomando conhecimento dos gols canarinhos pela gritaria no quartel e recompondo as forças durante a pausa para respirar que as partidas da Seleção nos proporcionavam – pois os torturadores preferiam assistir às belas proezas nos estádios do que protagonizar a bestialidade nos porões.

Nada impedia que, poucas horas depois, estivéssemos recebendo choques elétricos e pancadas, pendurados no pau-de-arara. A gritaria de júbilo cedia lugar aos urros desesperados.


Não, naqueles dias podia até parecer que 
todo o Brasil deu a mão, mas havia um abismo intransponível entre as mãos que golpeavam e as mãos que acudiam.


Os que nos diziam comemorem! eram os mesmos que berravam cale-se!ame-o ou deixe-o! e comunista bom é comunista morto. O vinho desse cálice era fel.

E, para os que estranharem esta intromissão da detestável política num espaço dedicado ao encantamento do futebol, vale lembrarmos quão determinante ela foi no momento dos acontecimentos.

JOÃO SEM MEDO, AS FERAS E O OGRO – Depois do acachapante fiasco no Mundial da Inglaterra (quando a convocação de um número excessivo de jogadores e o tortuoso ritual dos cortes minaram a união do elenco), o Brasil decidiu definir desde o início um time-base.

Foi como agiu João Saldanha, jornalista e técnico com notórias afinidades com o Partido Comunista Brasileiro, um homem carismático e de personalidade fortíssima (o apelido de João Sem Medo era dos mais merecidos).

Montou o escrete para as eliminatórias com maioria de jogadores do Santos e Botafogo, as duas melhores equipes da época. E, para reerguer o combalido moral brasileiro, nada como o rótulo inspirado que o escritor e colunista Nelson Rodrigues criou: as
 feras do Saldanha

A ideia era que nossos jogadores não deveriam temer nem respeitar ninguém, entrando em campo para atropelar os adversários.
Ótimo especial do Canal 100 sobre a trajetória brasileira nas eliminatórias
,
E foi o que aconteceu nas eliminatórias: o Brasil passou como um trator sobre Colômbia, Paraguai e Venezuela, vencendo os seis jogos, com direito a goleadas. Foram 23 gols marcados e apenas dois sofridos.

Aí, uma conspiração esportivo-militar derrubou o técnico heroico; pesaram fatores como a independência que Saldanha assumia em relação aos repulsivos cartolas  e sua relutância em colaborar com o marketing do ditador de plantão. 

Emilio Garrastazu Médici, o sanguinário, era dado à demagogia futebolística. Ia, p. ex., assistir aos clássicos no Maracanã com um rádio de pilha colado ao ouvido... e batalhões de seguranças ao redor!

Tentando suavizar sua imagem de ogro, Médici sugeriu a entrega de uma camisa de titular ao folclórico atacante Dadá Maravilha, ao que Saldanha respondeu: 
Quem escala a seleção sou eu, quando o presidente escalou o seu ministério ele não pediu a minha opinião.


Homão amarelão

Ficou, claro, com a cabeça a prêmio. Os cartolas açularam então contra ele um técnico grosseiro e metido a valentão, que estava vivendo boa fase à frente do Flamengo: Dorival Knipel, o Yustrich.

Com a promessa de que sucederia Saldanha se o derrubasse, Yustrich desandou a atacá-lo de todas as formas, sem sucesso.


Até que levou a coisa para o lado pessoal, atingindo a honra do João, que provou ser mesmo sem medo: apanhou um revólver e foi atrás do difamador em pleno estádio do Flamengo.


Yustrich, o falso ferrabrás, fugiu pulando a cerca, apesar de obeso. Cena ridícula.


E os cartolas, a pretexto de descontrole emocional, demitiram Saldanha, substituindo-o pelo dócil Zagallo.
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QUADRADO MÁGICO: AFORTUNADO ACASO! – Tão dócil que os líderes do elenco lhe impuseram a escalação de Rivellino, o reizinho do Corinthians. Zagallo preferia Edu, do Santos, numa armação convencional de 4-2-4.

Assim, porque ninguém estava realmente aprovando na ponta-esquerda, surgiu, meio por acaso, a grande inovação tática da Copa de 1970: o  quadrado mágico, formado por Gerson, Pelé, Tostão e Rivellino, que não guardavam posições fixas, deslocando-se de acordo com o desenrolar de cada ataque. [Na Copa seguinte, o carrossel holandês ampliaria tal rotação, estendendo-a para os demais compartimentos do time.]

Para completar, ficava mais à frente Jairzinho, goleador hábil e oportunista, aproveitando muito bem as assistências dos craques.

Na estreia, contra a Checoslovaquia, os brasileiros viram pela primeira vez uma partida de Copa do Mundo sendo transmitida ao vivo pela TV. A grande maioria ainda em preto-e-branco, pois poucos tinham poder aquisitivo para adquirir os recém-lançados televisores coloridos.

Petras abriu o placar e surpreendeu o mundo ao fazer o sinal da cruz (
ué, comunistas também são cristãos? Eles não comem criancinha viva?).

Uma 
bomba de Rivellino, cobrando falta da meia-lua, restabeleceu a ordem natural das coisas. E o primeiro tempo ainda teve a tentativa de Pelé de encobrir o goleiro com um chute do meio de campo  um dos grandes gols que não aconteceram da história do futebol.

No segundo, só deu Brasil. Belos tentos de Pelé e Jairzinho (2) garantiram a goleada por 4x1, destacando-se os perfeitos lançamentos de longa distância que alcançavam atacantes com pouca marcação.

A partida seguinte foi a batalha dos mais recentes campeões: Brasil (1958 e 1962) contra Inglaterra (1966).
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Jogo equilibrado, disputadíssimo, no qual o grande Banks fez defesa antológica, numa cabeçada fulminante de Pelé; em que até nosso mediano goleiro Felix, quem diria, andou salvando a pátria; no qual Astle perdeu chance incrível após falha de Everaldo.

O único gol foi uma pintura: Tostão recebe pela ponta-esquerda, enrola-se com três adversários e, já caindo, consegue passar para Pelé, que talvez marcasse mas, com muitos ingleses à frente, preferiu colocar Jairzinho cara a cara com Banks. Caixa.

Vaga garantida, a partida com a Romênia virou amistoso de luxo. 3x2, com falhas de nossa defesa e gols de Pelé (2) e Jairzinho.

Nas quartas-de-final, a tradição prevaleceu. O Peru, treinado pelo nosso Didi, até que surpreendeu no ataque, comprovando a fragilidade da zaga brasileira (o craque Carlos Alberto; o bom Piazza, sacrificado por estar fora de sua posição; e os limitados Brito e Everaldo).

Em compensação, os zagueiros peruanos levaram o previsível o esperado baile. 4x2, com gols de Tostão (2), Rivellino e Jairzinho.
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DUELO DE GIGANTES – O outro rival sul-americano foi bem mais difícil. O Uruguai, campeão de 1930 e 1950, vendeu caro a derrota na semifinal.

A partida ficou ainda mais complicada a partir de uma falha grotesca de Felix, que aparentemente fez golpe de vista numa bola que poderia ter agarrado com certa facilidade. 0x1.

Quando o primeiro tempo já terminava, Clodoaldo surgiu como elemento-surpresa para fazer um gol providencial. 1x1.
O Uruguai estava atravessado na garganta dos brasileiros desde 1950

Na segunda fase, o sofrimento durou 30 minutos, até Tostão servir Jairzinho num contra-ataque. Superando um adversário na corrida, o furacão da Copa desempatou.

Os uruguaios foram para cima e Felix se redimiu da bobeira do 1º tempo, fazendo defesas cruciais.

Pelé novamente deixa o mundo extasiado com um 
gol que não aconteceu: aplicando desconcertante drible da vaca no goleiraço Mazurkiewicz mas chuta raspando a trave.
No finzinho, a  patada atômica  de Rivellino funciona de novo, para dar números mais categóricos à vitória suada: 3x1.

Veio então o tira-teima entre duas seleções bicampeãs: Brasil e Itália (1934 e 1938). Quem vencesse, levaria a Taça Jules Rimet definitivamente para casa.


O Brasil jogou completo: Félix; Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo e Gérson; Jairzinho, Tostão, Pelé e Rivellino.

A superioridade brasileira foi marcante, contra uma Itália que, tecnicamente bem inferior, ainda se desgastara demais para despachar a Alemanha Ocidental na outra semifinal, decidida somente na prorrogação (4x3).

Centro perfeito de Rivellino para a cabeçada de Pelé. 1x0.
Clique aqui para ver o compacto da final
A Itália empata após saída atabalhoada de Felix, que foi disputar a bola na intermediária. 1x1.
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Gerson, o canhotinha de ouro, recebe a bola num corta-luz e desfere chute perfeito da meia-esquerda, aos 21 minutos do 2º tempo. 2x1.

A cansada Itália se entrega de vez quando, logo em seguida, Gerson lança a bola do meio-de-campo e Pelé, na área, apara de cabeça para Jairzinho marcar. 3x1.

O resto foi festa, olé e um gol apropriadamente qualificado de 
orgástico  pelo Pasquim: Pelé encosta para Carlos Alberto, que vinha na corrida e fez exatamente o que já se desenhara na mente de todos os brasileiros, desferindo um potente chute cruzado que estufou as redes italianas.

O único Mundial conquistado pelo Brasil sob regime ditatorial seria o mais instrumentalizado politicamente de todos os cinco. Ajudou a vender a ilusão de um deslanche econômico, logo desfeita pelos choques do petróleo; e a consolidar uma ditadura sanguinária, que escreveu página vergonhosa de nossa História.

Mas, o que ficou mesmo na memória popular foi a magnífica campanha de nossos craques, que venceram todas as partidas, dando-se ao luxo de sobrepujar, de forma categórica, três das outras seleções campeãs mundiais. Então, independentemente dos trastes que pegaram carona nos seus feitos esportivos, é dos jogadores e só dos jogadores que nos lembramos... com muito orgulho! (por Celso Lungaretti)

PARA VER AS CINCO COPAS DO MUNDO QUE O
BRASIL VEBCEY, CLIQUE NOS ANOS PARA ACESSAR
1958 -1962 - 1970 - 1994 - 2002

terça-feira, 31 de março de 2026

LEMBRANDO O GOLPE DO DIA DA MENTIRA DE 1964: GOULART FOI DERRUBADO PELO PETELOCO DE UM 'MAD DOG' FARDADO

N
ão há muito o que se dizer sobre a nefasta e nefanda quartelada de 1964,  que amanhã (1º de abril) estará soprando 62 velinhas ensanguentadas, num Brasil que em passado recente andou flertando de novo com o abismo, mas tomou a saudável decisão de nele não atirar-se. 

Enfim, como a História ultimamente se tornou um campo de batalha entre os que pesquisam e analisam os acontecimentos para conseguir interpretá-los e os que distorcem os acontecimentos para encaixá-los dentro de suas convicções prévias de um primarismo atroz, tentemos alinhavar o que realmente importa. 

Começando pela obviedade de que a conspiração direitista vinha de longe e quase emplacara quando da destrambelhada renúncia de Jânio Quadros.  O dispositivo golpista, contudo, ainda não estava pronto e a tentativa de aproveitamento de uma oportunidade de ocasião se revelou precipitada. 

As principais mudanças ocorridas entre aquele agosto de 1961 e o dia da grande mentira em 1964 foram:
Mourão Filho atravessou o samba 
e os golpistas o escantearam
— após a firmeza do governador gaúcho Leonel Brizola e dos cabos e sargentos das Forças Armadas ter frustrado os golpistas e garantido sua posse, o bobalhão João Goulart tudo fez para apaziguar os inimigos.

Chegou ao cúmulo de permitir que os oficiais reacionários desencadeassem um amplo expurgo na caserna, transferindo os líderes dos subalternos para bem longe das respectivas bases. 

As associações dos legalistas ainda continuaram estridentes, como convinha aos planos dos reaças de usá-los como espantalhos, mas eles passaram a ser caciques com poucos índios e poder de fogo quase nenhum;

— a participação civil no golpe, inexistente em 1961, foi buscada mediante propaganda enganosa maciça e parcerias com  a direita católica, não porque tivesse verdadeira importância no script conspiratório, mas como azeitona na empada, a fim de tornar a virada de mesa mais palatável no Brasil e, principalmente, no exterior;

— o Governo João Goulart vagava à deriva, ora inclinando-se à esquerda, ora contemporizando com a direita, o que fez os dois campos o encararem com suspeitas e não priorizarem a defesa do mandato legítimo;

quando o atentado de Dallas atirou a presidência dos EUA no colo do caipirão Lyndon Johnson, os pratos feitos da CIA voltaram a ser engolidos na Casa Branca (dificilmente John Kennedy deixaria suas digitais impressas numa ruptura constitucional no Brasil, assim como evitou oficializar o envolvimento estadunidense na invasão da Baia dos Porcos, negando apoio aéreo aos mercenários recrutados pelos gusanos de Miami para a derrubada de Fidel Castro); e

Eu vou, eu vou, derrubar o governo agora
eu vou, pararatimbum, pararatimbum...
 
Mesmo com todos os ases e curingas nas mãos, os líderes golpistas hesitavam. Aí, o impasse foi quebrado por um ferrabrás que tinha papel secundário na conspiração: o general Olímpio Mourão Filho. 

Tratava-se de um fascistão com carteirinha assinada. Fora um dos líderes da Ação Integralista Brasileira e autor em 1937 do famoso Plano Cohen, falso rol de intenções da Internacional Comunista que os galinhas verdes colocaram em circulação para assustar milicos. 

Sedento de glória, em 1964 ele botou o bloco na rua, precipitando os acontecimentos: sem aval do Estado Maior golpista, marchou com suas tropas de Juiz de Fora para o Rio de Janeiro.  Foi duramente criticado pelo governador Magalhães Pinto (MG), para quem tal bravata poderia ter causado um banho de sangue.

Mas, a ameaça comunista na verdade inexistia, daí a marcha pela então BR-3 (hoje rodovia BR-040) acabar sendo um passeio (vide foto acima). Dois ou três caças da FAB teriam sido suficientes para a abortarem, pois os inexperientes recrutas, que mais pareciam patos de estandes de tiro, debandariam em pânico logo à primeira rajada de metralhadora disparada sobre suas cabeças à guisa de advertência. 

Já o poderoso Partido Comunista Brasileiro se embananava todo ao acreditar que os bons militares defenderiam Goulart.
Como consequência, o partidão semeava a confusão entre a esquerda (esta ficou sabendo tarde demais que não contaria com apoio fardado nenhum contra o golpe, só dependendo da resistência que ela própria conseguisse antepor).

A traquinagem do histérico Mourão Filho não o beneficiou: o poder acabou ficando com os conspiradores históricos, articulados em torno de Castello Branco. Eles é que estavam preparados para governar.

Pode-se dizer que João Goulart foi derrubado pelo peteleco de um mad dog fardado. (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 30 de março de 2026

O MEU CAMINHO PELO MUNDO EU MESMO TRAÇO, MARX E PROUDHON JÁ ME DERAM RÉGUA E COMPASSO...

Muitos companheiros me criticam por desafinar o coro dos contentes (vide aqui), não participando de correntes de solidariedade a nomenklaturas corruptas e tirânicas como a de Cuba. 

Faço-o, primeiramente, por eles acreditarem estar lutando quando apenas martelam os teclados. Na verdade, só fariam a diferença hoje em dia se fossem combatentes solidários, como aqueles bravos estrangeiros que se voluntariaram para ajudar as tropas republicanas na guerra civil espanhola.

Depois, por tais luminares dos teclados me lembrarem demasiadamente os sociais patriotas que se avacalharam na  guerra mundial. Também eles eram numericamente muito superiores aos verdadeiros revolucionários e isto não impediu que acabassem na lata de lixo da História.
Marx, o teórico mais influente dos últimos séculos

Aliás, tal história merece ser contada ou lembrada.
 É o que faremos.

No princípio, Marx e Engels anunciavam uma maré revolucionária que uniria e imantaria os proletários de todos os países, varrendo o planeta. É o que lemos no mais inspirado panfleto político que a humanidade já produziu, o Manifesto do Partido Comunista de 1848.

Os trabalhadores do mundo inteiro estavam irmanados pela sina de terem uma substancial parcela da riqueza que geravam (a mais-valia) expropriada pelo patronato. Ademais, a exploração capitalista havia subjugado países e culturas, submetendo proletários de todos os quadrantes a uma mesma lógica de dominação. 

Os papas do marxismo profetizaram, então, que o socialismo seria igualmente implantado em escala global, começando pelas nações de economias mais avançadas e estendendo-se às demais.

O movimento revolucionário foi, pouco a pouco, conquistado pela premissa teórica do internacionalismo, ainda mais depois de a heroica Comuna de Paris ser esmagada em 1871 pela ação conjunta de tropas reacionárias francesas com o invasor alemão. 
Uma rara imagem nítida da 3ª Internacional

Se as nações capitalistas conjugavam suas forças para sufocar qualquer governo operário que fosse instalado, então os movimentos revolucionários precisariam também transpor fronteiras, para terem alguma chance de êxito – foi a conclusão que se impôs.

A Internacional Socialista, que havia sido fundada en 1864, soçobrou principalmente devido ao impacto da derrota da Comuna de Paris sobre o conjunto do movimento operário europeu, mas a semente plantada frutificou na poderosa 2ª Internacional, que aglutinou em 1889 os grandes partidos socialistas consolidados nesse ínterim.

A bonança, entretanto, não fez bem a esses partidos. Muitos dirigentes, deslumbrando-se com os aparelhos conquistados, passaram a querer mantê-los a qualquer preço, lutando por melhoras para a classe operária do seu próprio país, em detrimento da solidariedade internacional. 

Teorizaram que o socialismo poderia surgir a partir das reformas realizadas pacificamente e do crescimento numérico da classe média, sem necessidade de uma revolução. A deflagração da 1ª Guerra Mundial cindiu definitivamente o movimento revolucionário
Proudhon nos ensinou que 
a propriedade é um roubo

Os reformistas acabaram alinhados com os governos de seus respectivos países no esforço guerreiro, enquanto os marxistas conclamaram os proletários a não dispararem contra seus irmãos de outras nações. 

Lênin, Trotsky e Rosa Luxemburgo encabeçaram a reação contra os (por eles designados pejorativamente como) sociais patriotas e os trâmites para a fundação da 3ª Internacional, contraponto àquela que perdera sua razão de ser.

As nomenklaturas são igualmente perniciosas, pois, passado o momento heroico da revolução, se tornam regines desvirtuados pelo favorecimento escandaloso aos altos funcionários. A dominação de classe capitalista dá lugar à dominação de casta do chamado socialismo real

Fico com Lênin, Trotsky e Rosa Luxemburgo, até porque é neles que me inspiro desde 1967
(por Celso Lungaretti)

domingo, 29 de março de 2026

POR QUE OS SINOS DOBRAM PARA CUBA?

Cuba ora entra em decomposição – sentencia o jornalista Rodrigo da Silva, o criador do canal Sputniks do Youtube.

Infelizmente, desta vez não se trata da habitual propaganda anticomunista que infesta os jornalões. Eis alguns dados:
– Cuba enfrenta um terrível colapso no setor elétrico, com apagões durando até mais de 10 horas em Havana. Quando o sol vai embora, o país desliga junto. As usinas termelétricas, construídas entre 1960 e 1970, caducaram. A capacidade de geração do país cai cada vez mais;
– o salário médio mensal em Cuba equivale, no mercado negro, a US$ 16,30  por mês. O salário mínimo caiu para o equivalente a US$ 5,42 por mês;.
– a falta crônica de combustível já era um enorme problema, pois Cuba precisa de 100 mil barris de petróleo por dia para funcionar e só produz 50 mil. Com a ocupação militar da Venezuela por Trump, tal carência se tornou dramática, pois nenhuma gota mais de petróleo venezuelano foi exportada para Cuba;
– segundo o relatório En Cuba Hay Hambre, 96,91% dos cubanos relatam ter perdido acesso a alimentos devido à inflação e à queda no poder de compra. Um em cada quatro vai dormir sem jantar. 
– dos itens alimentícios que eram subsidiados pelo governo, carne, óleo e café deixaram de sê-lo e os restantes são entregues com semanas de atraso;
– o Estado hoje cobre algo entre 20% a 30% das necessidades calóricas de uma família, tendo de adquirir o restante a preços de mercado;
– o ministro da Saúde admitiu que só 30% dos medicamentos essenciais estão disponíveis. Na verdade, dos 651 medicamentos do quadro básico cubano, só 292 estão disponíveis na rede de farmácias;
Parece o Brasil, mas é Cuba...
– o número de médicos trabalhando efetivamente dentro de Cuba cai a cada ano. 
– a população vem desabando. Cuba tinha 11,18 milhões de habitantes em 2020. Oficialmente, em 2024, esse número passou para 9,75 milhões;;
– só entre 2021 e 2024, mais de 860 mil cubanos chegaram aos Estados Unidos.
– Cuba produz hoje menos açúcar do que em 1899. Chegou a ser o maior exportador mundial de açúcar, mas hoje importa açúcar do Brasil.

Como a coisa chegou até esse ponto? Para entender isto, temos de recordar o que foi o socialismo real  nela praticado, principalmente, a partir da vitória do tirano obtuso Joseph Stalin sobre o grande revolucionário que foi Leon Trotsky.

No início do século passado, os fantasmas da destruição da frouxa Comuna de Paris tiravam o sono de Lênin, daí ele considerar imperativa a construção de um partido duro, de revolucionários profissionais submetidos a direção e disciplina rígidas, enquanto Trotsky via nisto um ovo da serpente (primeiramente, o partido substituirá a classe operária, depois o Comitê Central substituirá o partido e, afinal, um tirano substituirá o Comitê Central). 

De certa forma, ambos estavam certos. Só um partido tipo jacobino, como o Bolchevique, conseguiria ter tomado o poder em 1917 e o sustentado nos anos seguintes contra a formidável coalizão de inimigos interno e externos. 

Mas, seu centralismo quase militar era mesmo terreno fértil para a tirania, como Stalin provaria.
Trotsky comandou a tomada de poder e depois, com seu exército
vermelho, evitou que a revolução sucumbisse nos campos de batalha
 

Na inflamada discussão interna sobre se os bolcheviques deveriam ou não tomar o poder num país que nem de longe estava pronto para o socialismo, prevaleceu a tese de que a revolução soviética seria o estopim de uma sucessão de outras, começando pela alemã, cujo apoio permitiria construir o novo regime na Rússia em condições menos draconianas.

Mas, abortada a sonhada sequência, a URSS contou apenas consigo mesma para superar seu acentuado atraso econômico, acabando por fazê-lo a ferro e fogo. Com isto, o chamado socialismo real soviético se tornou tão odioso e execrável que serviu como exemplo negativo para a máquina de propaganda burguesa dele afastar o proletariado das nações mais avançadas.

E, embora a construção do socialismo em nações isoladas esteja completando mais de um século de fracassos, até hoje a esquerda a continua tentando, em vão. Não seria o caso de voltar a apostar suas principais fichas na revolução mundial? Não é paradoxal a economia estar globalizada e os movimentos revolucionários terem praticamente abandonado o internacionalismo de outrora?

Por último, mais de uma década de antecedência já se previa o colapso do regime soviético. Mas, depois da primavera de 1968, o país regredira ao mais tacanho maniqueísmo, com o consequente embotamento do espírito crítico.
Até o Pasquim ele era homem
de esquerda, aí perdeu o rumo
O jornalista Paulo Francis foi um dos pouco a antever que o leviatã sucumbiria, principalmente por não conseguir incorporar os avanços tecnológicos da 3ª revolução industrial e começar a perder de goleada no front econômico, o que o forçou a optar entre a decadência irreversível ou a volta ao capitalismo. 

As várias experiências de socialismo num só país tiveram o mesmo destino que Cuba está colhendo agora, porque, como Marx já dizia, só com a integração econômica dos principais países se aproveitarão ao máximo os avanços científicos e tecnológicos alcançados sob o capitalismo, mas que, paradoxalmente, estão sendo desperdiçados e destruídos pelo próprio capitalismo.

É hora de recolocarmos como nossa principal tarefa a efetivação do internacionalismo revolucionário, pois desde 1989 vêm desmoronando todas as nomenklaturas .

Trata-se de regimes dito socialistas mas cujos expoentes compõem, como membros poderosos do Partido supostamente revolucionário, como administradores do Estado, como oficiais superiores das forças armadas, etc.,  uma nova elite privilegiada, que só se diferencia da anterior por não exercer uma dominação de classe, mas sim de casta.

Um jornalista perguntou a Trotsky, já no exílio, o que ele faria se ficasse confirmado que a luta de sua vida inteira acabara servindo apenas para empoderar uma nova elite. Ele não titubeou: Começarei a organizar a luta dos explorados contra ela(por Celso Lungaretti) 

quinta-feira, 26 de março de 2026

A VITÓRIA DO IRÃ SOBRE OS EUA FOI EMPOLGANTE, MAS NÃO MUDARÁ A FACE DO MUNDO. TEMOS DE FAZER MUITO MAIS.

A hidra de Lerna tinha muitas cabeças, mas o capitalismo
 é bem mais monstruoso. Um Hércules só não dá conta
 

Há companheiros que estão em êxtase com a vitória do Irã sobre os Estados Unidos. Devagar com o andor, que o santo é de barro! 

Para nós da esquerda, é uma enorme roubada apoiar uma nação mais fraca que cometeu um mundaréu de bestialidades para derrotar uma nação mais forte que fez exatamente o mesmo. 

Tal deslumbramento com um país encalhado no feudalismo, uma república teocrática em pleno século 21 (!!!) e repressora ao extremo, é tudo de que não precisamos. Afasta de nós os explorados das nações que têm suas forças produtivas mais desenvolvidas e são, segundo Marx,  aquelas que determinam a direção para a qual a humanidade seguirá. 
Che Guevara: "O conhecimento nos faz responsáveis".

E, claro, nos deixa sem moral para defendermos os direitos humanos sem que nos chamem de charlatões. 

Temos de descobrir maneiras para prevalecermos nos países desenvolvidos, não dando a tarefa por impossível nem  nos contentando com uma ou outra vitória em países periféricos.

Essas moedas que caem em pé não mudam nada em escala global.

Che Guevara estava certo: ou a revolução se expandiria para outros países, ou Cuba seria estrangulada pelos mais poderosos. Está sendo agora.

Desde a mitologia grega se sabe que a hidra de Lerna só morre se cortarmos todas as suas cabeças. E, ao contrário de Hércules, estamos pressionados pelo tempo. Ou mudamos a face do mundo ou seremos dele deletados ainda neste século. (por Celso lungaretti)

quarta-feira, 25 de março de 2026

COSTA RICA SE ARRASTA AOS PÉS DE TRUMP

gilberto lopes
ExTRADIÇÃO DE NACIONAIS
A imagem dos cidadãos entregues à polícia estadunidense em solo nacional simboliza a abdicação do Estado à sua função soberana de aplicar justiça, num gesto humilhante que nenhuma potência hegemônica admite para si.

Na sexta-feira (20), foram extraditados para os Estados Unidos os dois primeiros costarriquenhos, Celso Gamboa e Edwin López, acusados de narcotráfico, na sequência da reforma constitucional que revogou a disposição que impedia tal procedimento, em vigor até o ano passado.

A Costa Rica deixou de ser um paraíso para o crime organizado, afirmou um jornal, citando políticos nacionais. Na manhã daquele dia, na imprensa, podia-se ver a foto dos dois nas mãos dos agentes da DEA estadunidense, com seus uniformes laranja, prontos para embarcar no avião que os levaria para o Texas.

A foto dizia muitas coisas. Era, para mim, a foto do Estado costarriquenho abdicando de uma de suas funções básicas: a de aplicar justiça. 

Fazia-o de uma maneira humilhante, entregando dois cidadãos a uma potência estrangeira. Uma potência que não entrega seus cidadãos a qualquer Estado estrangeiro.
Também não entrega criminosos estrangeiros que encontraram asilo em seu território, a tribunais nacionais que os exigem. Existem muitos, responsáveis por graves crimes. 

Gostaria de destacar duas coisas que este caso evidencia: uma é o circo para as massas, o tipo de cobertura jornalística, a exploração da tragédia humana.

A outra é que, longe de servir à aplicação da justiça, o pedido de extradição será uma poderosa ferramenta política utilizada de acordo com os interesses de Washington. Ou alguém pensa que isso funciona, por lá, de forma alheia aos interesses políticos?

A extradição de nacionais tem pouco ou nenhum impacto na luta contra o narcotráfico. É preciso refletir um pouco. Não é fácil, quando os fogos de artifício explodem, quando tudo é circo e festa.

Qualquer pessoa minimamente informada sabe que a extradição de nacionais tem pouco – ou nenhum – impacto na luta contra o narcotráfico. Veja-se a situação do México ou da Colômbia. 

Ou, de certa forma, a própria situação dos EUA, principal mercado das drogas, ou da lavagem de dinheiro, onde o crime organizado sempre atuou com certa comodidade. Ou não?
"Os entreguistas gostariam mesmo é que a Costa Rica 
se tornasse outra estrela na bandeira dos EUA"

O desenvolvimento e a implantação do crime organizado em nossos países – incluindo os Estados Unidos – têm muitas razões, como um modelo de desenvolvimento cada vez mais excludente na Costa Rica. 

Tal modelo está baseado na implantação de zonas francas, cujas consequências para o crescente desemprego, sobretudo entre os jovens, e o déficit fiscal são bem conhecidas, estimulado pela privatização dos serviços públicos. 

Trata–se de um modelo que o país vem promovendo há mais de 40 anos, incluindo o governo atual.

Não surpreende, de qualquer forma, a posição do governo e do Ministério das Relações Exteriores. Não deram mostras de qualquer independência em seus quatro anos, que terminam agora em primeiro de maio, nem contribuíram em nada para a necessária reflexão sobre o lugar da América Latina na reconfiguração da ordem internacional que está atualmente em desenvolvimento.

Não consigo dissociar a imagem de dois cidadãos costarriquenhos entregues a funcionários da DEA em território nacional, com a desordem política no país, com a vergonhosa unanimidade com que a medida foi aprovada na Assembleia Legislativa, com a necessidade de reivindicar as funções de um Estado Nacional que promova a indispensável solidariedade social, que assuma suas funções não delegáveis, como a de julgar seus cidadãos que devam ser julgados. 

Será exatamente o contrário. Creio que muitos daqueles que ordenaram a entrega de cidadãos nacionais à justiça estadunidense, aqueles que sonham em dolarizar a economia, não conseguem imaginar destino mais feliz do que transformarmo-nos noutra estrela da bandeira dos Estados Unidos. (por Gilberto Lopes,  jornalista e doutor em Estudos da Sociedade e da Cultura pela Universidad de Costa Rica)
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das Repúblicas das Bananas americanas

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