terça-feira, 22 de junho de 2021

AVE RARA: EIS UM LULISTA QUE TEM OLHOS PARA ENXERGAR E HONESTIDADE PARA CONSTATAR O ÓBVIO ULULANTE

"O foco das ruas tem sido o impeachment de Bolsonaro, 
em contraponto à ideia de simplesmente aprofundar seu desgaste até as eleições de 2022. 
.
As perdas humanas e sociais
que podemos ter até lá caso
ele continue no comando 
são incalculáveis" 
(Guilherme Boulos)

ESTAMOS PERDENDO TEMPO, PENSANDO, PENSANDO SOBRE AQUILO QUE MAIS QUEREMOS. ATÉ QUANDO? ATÉ QUANDO?

hélio schwartsman
COMO BOLSONARO NÃO FOI DEPOSTO?
O fim de semana foi agitado, mas as duas grandes notícias do feriado, os 500 mil mortos e as manifestações contra Bolsonaro, não me comovem muito. 

Calma, eu explico. Cada uma das mortes é uma tragédia e ver as pessoas se mobilizando para depor o pior presidente da história é positivo. Receio, porém, que a forma como essas notícias se colocam obscurece a gravidade da situação.

Meu pendor racionalista faz com que eu não veja diferença de escala ou essência entre 500.000 e, digamos, 502.324, mas, mesmo que aquiesçamos ao fetiche humano por números redondos, a marca do meio milhão já foi ultrapassada um bom tempo atrás.

O fenômeno da subnotificação é quase universal. Até há países como a Bélgica em que o cômputo dos óbitos pelo Sars-CoV-2 é praticamente o mesmo que o do excesso de mortes em relação a anos não pandêmicos, só que isso é uma raridade. 

Na maioria das nações, a contagem oficial fica sistematicamente abaixo da de óbitos não esperados. Em casos extremos, como o de alguns estados indianos, o número real de vítimas pode ser até dez vezes maior que o oficial.

Para o Brasil, estudos como o da infectologista Ana Luiza Bierrenbach estimam uma subnotificação da ordem de 30%. Isso significa que ultrapassamos os 500 mil lá pelo meio de abril e já nos aproximamos dos 700 mil.

Algo parecido ocorre com as manifestações. Como prefiro medidas objetivas a impressionismos, dou mais relevo a pesquisas que a fotos. 

E o Datafolha nos diz que 49% dos brasileiros com mais de 16 anos defendem o impeachment. Estamos falando de um universo de descontentes da ordem de 75 milhões de pessoas, o que empalidece até as mais fantasiosas estimativas dos organizadores sobre o número de manifestantes no sábado.

A moral que extraio dessas considerações é que estamos atrasados. Com quase 700 mil mortos e maioria relativa a favor do afastamento, como Bolsonaro continua no poder? (por Hélio Schwartsman)
T
OQUE DO EDITOR 
– Elementar, meu caro Schwartsman, embora tão vexatório que poucos ousam somar 2 mais 2 e anunciarem 4 como resultado.

Ocorre que os brasileiros somos historicamente dóceis ao autoritarismo e (não há maneira mais delicada de dizer) pusilânimes quando nos cabe enfrentar o tirano da vez, mesmo que ele não passe de um palhaço demente.

Para não alongar-me, lembrarei que, houvesse um mínimo de determinação e ousadia, o projeto dos inconfidentes teria sido assumido por toda a colônia e coroado de êxito, com a independência sendo conquistada pra valer, ao invés de se reduzir a uma mera troca, tardia ainda por cima, da dependência política a Portugal pela dependência econômica à Inglaterra. 

"Se todos quisermos, poderemos fazer deste país uma grande nação", disse o Tiradentes, mas ele era exceção e quase todos tinham algo a perder, preferindo então permanecer em cima do muro.

Das maiores ditaduras do século passado, a de 15 e a de 21 anos, saímos pela porta dos fundos, com a redemocratização ocorrendo apenas ambas quando se tornaram insustentáveis e contraproducentes; os que ousaram resistir a elas antes disso se viram entregues às bestas-feras, exatamente como Tiradentes.

E por aí vai.  O povo heroico, ao invés de fazer ecoarem seus brados retumbantes,  é useiro e vezeiro em miar quando deveria rugir. (por Celso Lungaretti)
"Estas perdiendo el tiempo / Pensando, pensando /
Por lo que mas tu quieras / ¿Hasta cuándo? ¿Hasta cuándo?"

GENOCIDA BRAVO ARRANCA A FOCINHEIRA E QUASE MORDE UMA JORNALISTA. DEVERIAM TÊ-LO VACINADO CONTRA HIDROFOBIA...

RENUNCIE, PRESIDENTE!
Descontrolado, perturbado, louco, exaltado, irritadiço, irascível, amalucado, alucinado, desvairado, enlouquecido, tresloucado. 

Qualquer uma destas expressões poderia ser usada para classificar o comportamento do presidente Jair Bolsonaro nesta 2ª feira (21), insultando jornalistas da TV Globo e da CNN.

Com seu destempero, Bolsonaro mostrou ter sentido profundamente o golpe representado pelas manifestações do último sábado. Elas desnudaram o crescente isolamento de seu governo.

Que o presidente nunca apreciou uma imprensa livre e crítica, é mais do que sabido. Mas, a cada dia, ele vai subindo o tom perigosamente. Pouco falta para que agrida fisicamente algum jornalista.

Seu comportamento chega a enfraquecer o movimento antimanicomial – movimento progressista e com conteúdo profundamente humanitário. Já há quem se pergunte como um cidadão com tamanho desequilíbrio pode andar por aí pelas ruas.

Mas a situação é ainda mais grave: esse cidadão é presidente de um país com a importância do Brasil.

Diante da rejeição crescente a seu governo, Bolsonaro prepara uma saída autoritária e, mesmo a um ano e meio da eleição, tenta desacreditar o sistema eleitoral. Seu objetivo é acumular forças para a não aceitação de um revés em outubro de 2022.

É preciso que os democratas estejam alertas e mobilizados.

Diante desse quadro, com a autoridade de seus 113 anos de luta pela democracia, a Associação Brasileira de Imprensa reitera sua posição a favor do impeachment do presidente.
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E reafirma que, decididamente, ele não tem condições de governar o Brasil.

Outra solução – até melhor, porque mais rápida – seria que ele se retirasse voluntariamente.
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Então, renuncie, presidente! (por Paulo Jeronimo, presidente da ABI)

O REPÚDIO MUNDIAL À DESTRUIÇÃO EM CURSO NA AMAZÔNIA ECOOU NA BERLINALE: O PÚBLICO PREMIOU "A ÚLTIMA FLORESTA"

rui martins
DOCUMENTÁRIO QUE RETRATA COMUNIDADE
INDÍGENA YANOMAMI É PREMIADO EM BERLIM
O
documentário brasileiro A Última Floresta (2021), dirigido pelo cineasta e antropólogo Luiz Bolognesi com o apoio do xamã Davi Kopenawa Yanomami, foi o vencedor, na votação popular, da mais prestigiosa mostra paralela do Festival de Berlim, encerrado no último domingo (20/06).

Tendo documentado a vida do Paiter Suruí em Ex Pajé (2018), Bolognesi agora se aproximou de outra comunidade indígena nas florestas tropicais da Amazônia. 

Neste novo trabalho, ele alterna filmagens tradicionalmente observacionais com sequências encenadas desenvolvidas em colaboração com o xamã Davi, um dos porta-vozes dos Yanomami mais conhecidos internacionalmente. 

Tais sequências descrevem os mitos da criação Yanomami, sua relação com a natureza e a luta contínua que travam para preservar seu ambiente natural.

O filme despertou ainda mais interesse devido à situação vivida atualmente pelo Brasil, onde não só os garimpeiros como também os madeireiros estão destruindo a floresta e invadindo comunidades indígenas.

Tal destruição, aliás, faz parte de um projeto da ditadura militar (vide aqui), agora retomado por Jair Bolsonaro, o que lhe valeu na campanha presidencial o apoio de grandes empresas interessadas em plantar cereais (como a soja) e desenvolver na vasta área desmatada a criação de gado bovino e suíno.  

Tanto o garimpo, como as madeiras seculares, os cereais e o gado serão destinados a exportação.

A exibição do filme foi precedida pela distribuição de uma nota explicativa para o público alemão e para a imprensa: desde que Bolsonaro assumiu o cargo em 2019, os garimpeiros de ouro e pedras preciosas voltaram a penetrar de forma massiva no ambiente de vida dos Yanomami, na fronteira entre  Brasil e Venezuela.

Os invasores não apenas envenenam a água com mercúrio, como também trazem doenças mortais –ultimamente a covid-19– para essas comunidades indígenas isoladas. 

Ademais, com suas promessas de um mundo moderno, a proximidade com garimpeiros também acaba se tornando um chamariz para os mais os jovens, por tentá-los a abandonarem suas vidas tradicionais na floresta. (por Rui Martins, diretamente de Berna, na Suíça)

segunda-feira, 21 de junho de 2021

DALTON ROSADO: SAÚDO A TODOS QUE FORAM ÀS RUAS CLAMAR PELO BOTA FORA DO GENOCIDA E POR NOSSA EMANCIPAÇÃO

POR UMA QUESTÃO DE PRINCÍPIOS
É inquestionável: o justo, sob o ponto de vista moral e ético, não comporta atitudes escravistas, racistas, segregacionistas, elitistas, misóginas, xonófobas, homofóbicas, populistas, ou seja, antipopulares na sua razão última, anticientíficas, fundamentalistas religiosas, genocidas, egoístas, ecocidas, etc. 

Tais atitudes negam o humanismo que deve nortear as nossas ações e comportamentos, independentemente de rótulos comportamentais.

Não há dúvidas de que o capitalismo, como forma de relação social, incorpora todas as adjetivações acima, ainda que muitos tentem dar-lhe a conotação de mal necessário para impulsionar o progresso. 

Numa entrevista dada por Paulo Guedes na enganosa campanha eleitoral de 2018, afirmou que o capitalismo havia retirado uma grande parte da humanidade da miséria mais cruel. Tal afirmação, falaciosa e oportunista, deve ser explicitada. 

O que proporcionou o avanço substancial dos meios de sobrevivência da humanidade foram os ganhos científicos por ela acumulados, malgrado muitos deles tenham decorrido das guerras e das invenções bélicas, além, é claro, da volúpia capitalista pelos lucros. 

Os ganhos da ciência, que poderiam ter acontecido de modo mais cômodo para a humanidade, ocorreram apesar dos regimes escravistas (imperiais, feudais e capitalistas) que dominaram as sociedades humanas ao longo dos últimos milênios, e ainda dominam, e não por causa deles.

Não há como se excluir da lógica funcional capitalista, representada pela existência de suas categorias fundantes (valor, dinheiro, trabalho abstrato, mercadoria, mercado, Estado e política) a maior parte, se não todos os motivos da permanência e intensificação das mazelas humanas listadas acima.

Um segmento mais consciencioso da humanidade tem procurado humanizar o capitalismo, acreditando ser possível dar-lhe uma feição civilizada. 

Entretanto, mesmo que se considerem os avanços alcançados, eles não têm o condão de evitar os retrocessos, que são inevitáveis por conta da natureza de uma forma de relação social cuja origem é escravista (e escravista ainda é). 

Não se pode querer que o diabo seja bom e generoso, ainda que às vezes ele ilusoriamente o pareça ser. O diabo termina sempre por mostrar a sua verdadeira face, tal como acaba se revelando Mefistófeles clássico Fausto

Que a direita defenda, sem pejo, postulados desumanos, tentando fazer o injusto passar por mal menor e necessário, é coerente com seu papel na ordem das coisas. 

Mas a esquerda não tem o direito de deixar-se enganar por Mefistófeles, muito menos o de reproduzir a máscara de ilusório caráter do personagem de Goethe. O meio jamais justifica os fins. 

Por que se admite a extração de mais-valia em países que se dizem marxistas e anticapitalistas? 

Por que se proíbe a livre manifestação da opinião na China, dita comunista, quando se sabe que a busca da verdade comporta o contraditório e a diversidade de visões, traduzida na defesa da tese e da antítese, que resulta na síntese?
Por que a China se tornou o segundo maior emissor de gases poluentes na atmosfera (rivalizando com os Estados Unidos, a meca do capitalismo) e produtor de mercadorias vendidas no mundo inteiro, dessubstancializando o próprio valor e ameaçando os fundamentos de sua própria economia e da economia mundial, que caminha a passos largos para o colapso econômico e ecológico? 

Por que Daniel Ortega (outrora guerrilheiro revolucionário de esquerda, atualmente ditador da Nicarágua) agora se faz passar por místico religioso, enquanto continue prendendo e arrebentando opositores, ou seja, repetindo descaradamente tudo aquilo que condenava no tirano que o antecedeu, o direitista Anastasio Somoza?

Por que Lula pede hipocritamente perdão aos italianos por não ter extraditado Cesari Battisti, um combatente dos anos de chumbo naquele país, depois de hipocritamente o ter salvado por exigência de dirigentes importantes do PT, embora desse mostras cabais de o estar fazendo a contragosto?

Por que o mesmo Lula assume ares de defensor do capitalismo e afirma, sorridente, que com ele a Ford não teria ido embora do país, escancarando a sua posição cada vez mais convergente com a centro-direita e contraditória com seu passado (o sindicalista se tornou defensor da exploração dos sindicalizados pelo capitalismo!)?

Por que o PT defende uma ditadura corrupta, sustentada pelas forças militares dirigentes de estatais na Venezuela, como se aquele país, por ter sido (e ainda estar sendo) fustigado pelos ultradireitistas, representasse os ideais emancipacionistas que negam as categorias capitalistas na sua totalidade? 

Por que, como alternativa à volta de ditaduras de direita, se apoiam governos democrata burgueses, quando não passam de duas faces da mesma moeda, nenhuma delas merecedora de nosso apoio (apontar os primeiros como o inimigo menos pernicioso num determinado momento pode ser uma necessidade tática, mas apoiá-los equivale a passar recibo de uma identidade estratégica). 

Os governos de esquerda, antes e agora, sempre funcionaram sob uma base capitalista, ainda que se dissessem proletários, daí terminarem por sucumbir às ditatoriais regras de sua lógica funcional; dinheiro e poder são irmãos siameses. Não se pode construir o bem a partir de critérios consentâneos com o mal. 

Será que os postulados emancipatórios são tão difíceis de serem compreendidos e assimilados por uma população historicamente espremida entre projetos conservadores de um lado, e projetos políticos sociais-democratas, democratas burgueses e socialistas do outro lado, como se fosse impossível negar o poder vertical, e criarmos um estrutura de organização social horizontalizada e sob bases de produção social voltada para a satisfação de necessidades e não para a acumulação do lucro? 

Mas a vida caminha no sentido da superação do velho e assimilação do novo, representado por uma organização social que seja capaz de negar a negatividade.

Portanto, fico feliz quando a população oprimida abandona as teses políticas institucionais e, mesmo, sem compreender que a base dos seus problemas reside numa mediação social subtrativa da riqueza socialmente produzida, se rebela contra:
 o apartheid social racista (vide o movimento estadunidense black lives matter, ou seja, vidas negras importam, que se alastrou mundo afora);
— o movimento dos coletes amarelos na França, que encostou na parede os projetos falsamente dicotômicos da direita, do centro, e da esquerda institucional, e de tantos quantos se posicionem geografica e ideologicamente a favor da manutenção das causas da opressão;
— 
a surpreendente postura de grupos brasileiros de torcedores de futebol, que, para fazer inveja aos comprometidos e acovardados partidos de esquerda e sindicatos, se posicionam contra os nacionalistas verde-amarelos, promotores do ódio e da violência contra os oprimidos; 
— idem, idem quando a população aturdida com um genocídio premeditadamente praticado contra si, acorda e vai às ruas lançando um sonoro não!  ao morticínio em curso e exigindo mudança de rumos (sem nem mesmo saber como ou para onde ir, mas sabendo muito bem o que pode continuar ocorrendo); 
— idem, idem, idem quando um grupo de militantes se articula para promover um Tribunal do Genocídio e Ecocídio (vide aqui), visando dar nomes tanto ao que está na base de tal tragédia humana e ecológica, quanto aos seus executores, num espectro amplo que inclui crimes de misoginia, racismo, impossibilidade material de provimento da vida, escravismo indireto pelo trabalho abstrato e tantas outras mazelas sociais que se incorporam ao processo genocida em curso. 

Destarte, termino por saudar a todos que no sábado passado, deixando o aconchego dos seus lares e os atrativos de suas horas de lazer, foram às ruas clamar pelo bota fora do genocida, numa verdadeira festa da emancipação!

#Fora Bolsonaro! (por Dalton Rosado)

QUANDO A COVID ESTIVER CONTROLADA E O BOZO FORA DO PODER, RESTARÁ A DÚVIDA: POR QUE DEMORAMOS TANTO PARA REAGIR?

celso rocha de barros
POR QUE BOLSONARO DEIXOU MORRER 500 MIL?
Como previsto pelos especialistas, chegamos no meio milhão de brasileiros mortos por Covid-19 antes do fim do primeiro semestre. Só agora começamos a calcular quantos, dentre eles, foram mortos diretamente, documentadamente, pelas decisões de Jair Bolsonaro.

As revelações da CPI sobre os contratos de compra de vacinas, quando inseridas em modelos epidemiológicos construídos com o que já sabemos sobre a relação entre vacinação e mortandade, colocava 90 mil mortes nas costas de Bolsonaro com os números até o final de maio. Isso foi antes de sabermos que ele se recusou a comprar 43 milhões de doses do consórcio Covax Facility. Com as novas informações e os mortos de junho, mal dá para ver a marca de cem mil no retrovisor.

Desde fevereiro, quando, segundo estimativas do jornal O Estado de S. Paulo, já teria sido possível vacinar todos os idosos brasileiros se a oferta do Butantan em 2020 tivesse sido aceita por Bolsonaro, o número de brasileiros mortos dobrou.

Por que Bolsonaro fez isso? Hoje em dia parece claro que, além de um crime, foi um erro. Se Bolsonaro perder a eleição de 2022, terá sido pelas centenas de milhares, talvez pelo milhão de mortes que causou entre 2020 e 2021.

Por que, você deve estar pensando, esse idiota não comprou as vacinas? Por que este imbecil não tentou unir o país com um discurso de mobilização nacional contra a pandemia? Se tivesse feito isso, sua reeleição seria certa. Bolsonaro foi um dos poucos líderes mundiais cuja popularidade não subiu no começo da pandemia.

Bolsonaro deixou essa gente toda morrer por três motivos.

O primeiro foi ideologia: uma desconfiança populista dos especialistas, aversão ao globalismo da Organização Mundial de Saúde, ódio visceral dos chineses, a influência ideológica de Donald Trump e da direita radical estadunidense, a dificuldade de encaixar problemas complexos do mundo real na retórica paranoica do bolsonarismo. 

É sempre bom lembrar que a primeira demonstração clara de insatisfação de Bolsonaro contra as medidas de isolamento social foi sua reação aos apelos para que cancelasse a primeira de suas manifestações golpistas de 2020.

O segundo motivo foi cálculo eleitoral. Bolsonaro temia que as medidas de contenção da pandemia derrubassem a economia e ameaçassem sua reeleição em 2022. 
Com sua aposta na promoção da
imunidade de rebanho, documentada em estudo dos pesquisadores Deisy Ventura, Fernando Aith e Rossana Reis, Bolsonaro esperava que os curados ficassem imunes, a economia continuasse rodando e os mortos não votassem em 2022. Se os brasileiros se mostrassem um rebanho recalcitrante, Bolsonaro lhes ofereceria a falsa esperança de cura pela cloroquina.

Quase deu certo. A popularidade de Bolsonaro sobreviveu bem à primeira onda da pandemia, e só voltou a cair porque o auxílio emergencial foi cancelado, com requintes de crueldade, na hora em que a segunda onda se formava. Mesmo assim, se a alta das commodities ajudar a economia, Bolsonaro pode testar de novo ano que vem a hipótese de que genocídio não custa voto.

Mas o terceiro motivo pelo qual Bolsonaro mandou tantos brasileiros para a morte por asfixia é o que realmente deve nos preocupar como país.

Foi porque nós deixamos. (por Celso Rocha de Barros)

domingo, 20 de junho de 2021

FAMÍLIAS POBRES FORAM ÀS RUAS SÁBADO POR NÃO CONSEGUIREM SOBREVIVER COM AUXÍLIO EMERGENCIAL TÃO IRRISÓRIO

leonardo sakamoto
FOME, FILHA DE BOLSONARO, TAMBÉM ESTAVA
NOS PROTESTOS POR SEU IMPEACHMENT
P
ostagens que circulam em grupos bolsonaristas tentam fazer crer que os protestos contra Jair Bolsonaro, ocorridos em todo o país neste sábado (19), reuniram militantes de partidos políticos para eleger Lula. Apontam como prova o uso de bandeiras e camisas vermelhas. Argumentos pró-Terra plana são mais elaborados do que isso. 

Para além de estudantes, professores, movimentos sociais, organizações da sociedade civil, sindicatos, partidos políticos e uma massa de cidadãos comuns cansados da sabotagem do governo federal contra a vacina e a favor do coronavírus, as manifestações também trouxeram novamente brasileiros que não estão conseguindo sobreviver com a mixaria paga pelo governo como auxílio emergencial. 

Ou seja, a fome, que não tem cor, também estava lá representada. A incapacidade de enxerga-la só reforça que ela parece invisível aos planos do presidente e de seu rebanho. 

Conversei com mulheres que chefiam famílias em ocupações nas zonas Leste e Sul após os dois atos na avenida Paulista. Apesar de algumas terem, finalmente, conseguido sacar o benefício após um longo trâmite, elas continuam relatando o óbvio: que o valor pago não é suficiente para alimentar seus filhos, dependendo de doações. 

O auxílio emergencial está sendo pago em parcelas de R$ 150, R$ 250 e R$ 375. O piso compra menos de 25% da cesta básica em Florianópolis, São Paulo, Porto Alegre e Rio de Janeiro, segundo o Dieese

Na primeira onda da pandemia, o governo propôs um auxílio de apenas R$ 200, mas o Congresso Nacional forçou o aumento do valor, que passou a ser de R$ 600/R$ 1.200 por domicílio. No segundo semestre, o benefício foi reduzido para R$ 300/R$ 600 por família.
PRESIDENTE CONTINUA RECORDISTA EM ARREMESSO DE RESPONSABILIDADE À DISTÂNCIA – Bolsonaro culpa prefeitos e governadores pela fome, afirmando que ela é fruto das medidas de isolamento social. Terceirizando responsabilidades que são suas, como sempre faz, joga uma cortina de fumaça sobre as reais causas da falta de alimentos nas casas dos brasileiros pobres. 

O Brasil é um dos recordistas em duração de quarentena porque, enquanto governadores e prefeitos tentavam conter o aumento do contágio fechando atividades econômicas, o presidente da República atuava para boicotar as medidas. Se houvesse ajudado, ao invés de atrapalhar, os fechamentos seriam bem mais curtos, como em outros países, e teriam afetado menos o emprego e a economia. 

Mas Bolsonaro acreditou nas palavras de seu gabinete das sombras, de que a pandemia iria durar pouco e a saída era forçar a contaminação em busca de uma imunidade coletiva. Uma mentira que ignora as mutações do vírus. 

Da mesma forma, se tivesse comprado vacinas no ano passado, aceitando as dezenas de milhões de doses ofertadas pela Pfizer e pelo Instituto Butantan, estaríamos tão adiantados que discutiríamos agora a reabertura geral. 
Com isso, chegamos a 500 mil mortos e 14,8 milhões de desempregados. Sem falar de 19,1 milhões de famintos em um universo de 116,8 milhões que não tiveram acesso pleno e permanente à comida. 

A pesquisa da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional que chegou a esses números foi realizada em dezembro do ano passado, quando o auxílio emergencial estava sendo pago em parcelas de R$ 300 ou R$ 600. 

Há seis meses, a fome chegava a 9% da população, a maior taxa desde 2004. A situação hoje está bem pior, ainda mais porque Bolsonaro suspendeu por 96 dias o pagamento do benefício no começo de 2021. 

Tudo o que o presidente faz na pandemia é pensando em outubro do ano que vem. Foi assim, p. ex., na briga com o governador João Doria, que fez atrasar a aquisição da CoronaVac. Ainda hoje, aliás, ele sabota esse imunizante por questões eleitorais – na semana que passou, disse que ele não tem eficácia nem comprovação científica. 

Não se importa se suas mentiras matarem, contanto que se reeleja. 

A mesma lógica é adotada ao discutir um aumento no Bolsa Família, que deve ir de R$ 190, em média, para algo em torno de R$ 280. O efeito disso é para 2022, ano de eleições. Mas as pessoas estão passando fome neste momento, vivendo da caridade de outras pessoas. 

O governo usa como escudo o teto de gastos, mas o Congresso Nacional estava pronto para costurar uma saída que permitisse um auxílio digno. Jair é que não quis. Preferiu distribuir trator para a base aliada que impede que seu impeachment seja apreciado. 

Agora, redes bolsonaristas tentam apagar o fato de famílias pobres terem engrossado o caldo dos protestos, pois isso é uma pedra no sapato do argumento presidencial. 

Após serem tratados como invisíveis na política pública, agora são invisibilizados até na hora de reclamar. (por Leonardo Sakamoto)
"Meus filhos de perna bamba, pelo amor de Deus. / Inda tem minha Maria,
pelo Zebedeu, / que traz mais um na barriga, pelo amor de Deus, / com os
que tem no pensamento, pelo zebedeu. / Até se perdeu a conta, pelo amor
de Deus. / Vá sentar minha filhinha, pelo zebedeu. / Joguem um pouco de
dinheiro, pelo amor de Deus, / aumentou mais a farinha, pelo zebedeu"

O GOVERNO NEGACIONISTA E GENOCIDA COMEÇOU A CHEGAR AO FIM NESTE SÁBADO

ricardo kotscho
BRASIL VAI ÀS RUAS PARA GRITAR "FORA BOLSONARO!" NO DIA DAS 500 MIL MORTES
De norte a sul, em grandes e pequenas cidades, milhares de brasileiros saíram às ruas nos mais de 400 atos de manifestações do Fora Bolsonaro! neste sábado de outono cinzento e frio, quando o Brasil chegou à marca das 500 mil vidas perdidas para a pandemia, uma trágica coincidência. 

Foi a segunda grande manifestação popular contra Bolsonaro em menos de um mês, um grito de libertação e esperança do povo brasileiro depois de passar quase um ano e meio sofrendo em silêncio as consequências dos desmandos e das omissões de um governo negacionista, que boicotou as vacinas enquanto pôde e preferiu oferecer toneladas de cloroquina, além de continuar até hoje contra o uso de máscaras e o distanciamento social, na contramão das autoridades sanitárias de todo o mundo. 
Ainda esta semana, em sua live semanal, o presidente teve a coragem de colocar em dúvida a eficácia das vacinas e defender a imunidade de rebanho como a melhor forma de combater a pandemia. Ou seja, você precisa pegar o vírus para se salvar da doença. 

O tal gabinete paralelo montado no Palácio do Planalto, sob o comando do presidente, continua mandando no Ministério da Saúde, mesmo depois de ser desmascarado pela CPI da Covid, que está mostrando ao Brasil e ao mundo que aqui houve uma matança programada. 

Quantos destes 500 mil brasileiros não precisariam ter morrido? Quantos mais ainda vão morrer? 

Se, desde o início da pandemia, o governo federal não tivesse menosprezado a gravidade da doença e assumido a coordenação nacional do combate à pandemia, convocando médicos e cientistas em lugar de palpiteiros interessados como os doutores de Bolsonaro, certamente hoje muitas famílias não precisariam ir aos cemitérios para velar os seus mortos. 

Ainda que tomando todos os cuidados, milhares de brasileiros perderam o medo e se uniram nas ruas para dar um basta a tantas barbaridades – e esse é o fato político mais importante desde o início da pandemia.  

Por mais que queira negar a dimensão desses protestos e fazer comparações infantis com as motociatas do capitão, daqui para a frente o governo saberá que o país ainda tem um povo com vergonha na cara e coragem para mudar o seu destino, que não é gado para ser tangido sem tugir ao matadouro.

Não haverá propaganda oficial nem dinheiro público correndo a rodo nos palácios e gabinetes capaz de mudar a história de horror que vivemos nestes tempos sombrios, em que a ignorância venceu a ciência e as mentiras superaram os fatos. 

Quem foi às ruas é gente de todas as gerações, etnias, gêneros, partidos e classes sociais, das capitais e das cidades do interior (e até do exterior!), que não perderam a esperança de acabar com esse pesadelo e resgatar nosso orgulho de ter nascido aqui. 

Em São Paulo, com suas bandeiras de todas as cores, máscaras e faixas pedindo impeachment, bicicletas em lugar de motos, muitos jovens e até crianças com suas famílias, a grande manifestação se espalhou por toda a avenida Paulista. 

Só não chamou a atenção da Globo News, que preferiu ouvir seus comentaristas no estúdio em lugar de repórteres nas ruas e demorou para entrar ao vivo. A CNN, que transmitiu por horas ao vivo a motociata bolsonarista da semana passada, também limitou-se a dar flashes. A TV Globo continuava passando o Caldeirão do Huck 
Como na campanha das Diretas Já, no século passado, o povo saiu na frente e a televisão brasileira vem a reboque, quando já não dá mais para esconder o que acontece. 

Não queremos mais ser um país pária, que banaliza as mortes e nos faz passar vergonha nos fóruns internacionais, com um presidente que chegou a fazer propaganda da cloroquina dos seus amigos em reunião do G 20.

Bolsonaro e seus generais um dia vão pagar por seus atos, mas ninguém trará de volta as vidas perdidas e os sonhos desfeitos. 

No final da tarde, a manifestação já ocupava toda a avenida Paulista e muita gente continuava chegando, apesar da ameaça de chuva, seguindo rumo ao centro da cidade. 

Sábado, o governo negacionista e genocida começou a chegar ao fim. A civilização vencerá a barbárie e a vacina vencerá a cloroquina. Vai ser uma festa. 

Vida que segue, para quem sobreviveu, agora com mais esperança de que todo o mal um dia acaba. (por Ricardo Kotscho) 

sábado, 19 de junho de 2021

OS CAFAJESTES DIZIAM QUE AS MULHERES, AO APANHAREM DOS HOMENS, GAMAVAM. ISTO VALE MESMO É PARA BOLSOMINIONS!

As charges são de autoria do Jota Camelo
ruy castro
ESBOFETEADOS POR BOLSONARO
No momento e que você estiver lendo este texto, a Covid  terá atingido perto de 18 milhões de brasileiros.

Desses, quase meio milhão já perderam a vida, e essa estatística está longe do fim. 

Mais de 1 milhão estão em acompanhamento –na fila por um leito, respirando por máquina ou inconscientes numa UTI– e 16 milhões se recuperaram. 

Dos que morreram ou estão lutando pela vida, só os seus médicos e familiares saberão dizer. Mas, pelos relatórios dos sobreviventes, podemos calcular o que representou para eles ter o inimigo dentro de si.

Imagino que, mesmo para os assintomáticos, houve certa apreensão ao serem informados de que o teste dera positivo. Quero crer que até os seguidores de Jair Bolsonaro entre eles terão acusado um susto –porque, ainda que convencidos de que a Covid era uma gripezinha, como adivinhar de que forma ela se desenvolveria? 
Claro que, tratados com cloroquina, Coca-Cola e Gatorade, e tendo o vírus cedido espontaneamente, tais infectados se jactaram da eficácia de seu tratamento.

Não sei quantos deles estão entre os 18 milhões. Mas sei de muitas pessoas que não tiveram igual sorte e, com ou sem recursos, ainda sofrem as consequências da doença. 

Ouço falar de graves problemas pulmonares, cardíacos, renais, intestinais. 

De doenças autoimunes, inflamações, colesterol alto, hipertensão. 

De joelhos e calcanhares inchados, formigamento nas pernas, pés que não esquentam, dificuldade para reaprender a andar. 

De ansiedade, depressão, angústia, enxaqueca, insônia, perda de paladar e olfato. Alguns levarão para sempre a rouquidão provocada pela intubação,

Entre os 18 milhões de 
recuperados, muitos tiveram a vida pessoal, emocional e profissional destroçada. Eles também talvez sejam alguns milhões. 

Bolsonaro os esbofeteia diariamente com sua crueldade e seu deboche. Quantos não terão sido seus eleitores?

A ver se continuarão a ser. (por Ruy Castro)
                                                                      .
TOQUE DO EDITOR – Muitos textos já foram dedicados ao tema, mas a melhor explicação para tal simpatia pelo diabo, na minha opinião, é a do Eugênio Bucci, neste artigo.

sexta-feira, 18 de junho de 2021

AS MANIFESTAÇÕES DE AMANHÃ CONTRA BOLSONARO FARÃO DESLANCHAR A RESISTÊNCIA AO GENOCÍDIO

Um dilúvio de manifestantes tomou a avenida
Paulista no último dia 29. Amanhã serão mais
S
erão realizadas por todo o país neste sábado (19/06) manifestações populares exigindo o afastamento de Jair Bolsonaro da presidência da República que verdadeiramente não exerce nem jamais exerceu. 

Isto porque, desde o primeiro dia do seu catastrófico mandato, ele vem se omitindo dos deveres do cargo e se portando como um agitador insano de extrema-direita, empenhado tão somente em destruir os fundamentos da vida civilizada no Brasil e, assim, criar condições para um golpe de Estado.

A expectativa é de se constituírem nas maiores de 2021 e até dos dois anos e meio desse desgoverno atual, pois a lista de forças empenhadas na organização dos atos supera em muito a dos protestos anteriores. 

Desta vez até o PT apoia a iniciativa da Campanha Nacional Fora Bolsonaro, embora ainda não tenha anunciado se Lula já superou suas dúvidas hamletianas e estará presente no palco principal da luta contra o genocídio em curso. 

Que venha e seja bem-vindo, pois livrarmo-nos do  exterminador de brasileiros é agora mil vezes mais importante do que a eleição marcada para daqui a 16 intermináveis meses visando decidir-se quem assumirá a presidência em 2023, caso o calendário eleitoral não vá pelos ares até lá, detonado pela explosão social e pelo caos que se aproximam. 

Caso o mandato de Bolsonaro sobreviva às centenas de milhares de óbitos evitáveis que sua incompetência e sabotagem estão acrescentando às mortes inevitáveis da pandemia, a tendência é que, administrando a crise econômica da mesma forma demencial e destrambelhada, cause outro morticínio em larga escala.
Tomarmos armas hoje beneficiaria o inimigo,
mas, mesmo sem elas, resistir é preciso!
 

As próximas semanas serão as mais propícias para determos a contagem regressiva rumo ao imponderável, até porque a CPI da Covid está prestes a
levantar o véu sobre quem lucrou desmedidamente com dispêndios governamentais estapafúrdios durante a pandemia. 

Casos dos recursos desperdiçados em doses astronômicas da inócua cloroquina e na encomenda a toque de caixa e preços exorbitantes da vacina indiana, que nem sequer o aval da Anvisa tinha na ocasião.

Daqui a alguns meses será tarde demais para evitarmos que o Brasil fique em cacos e os brasileiros pobres, principalmente, sejam ceifados como moscas. 

Quem quiser evitar o pior enquanto há tempo não pode deixar de comparecer ao ensaio geral deste sábado pois, lembrando o alerta musical de Gilberto Gil noutra situação em que uma tempestade se formava no horizonte, é preciso ter coragem e aplaudir o pessoal!  (por Celso Lungaretti) 

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