segunda-feira, 20 de setembro de 2021

O BOZO MUDA O STATUS DOS BRASILEIROS: O COMPLEXO DE VIRA-LATAS ERA SÓ NOSSO, AGORA O MUNDO INTEIRO NOS VÊ ASSIM!

josias de souza
BOLSONARO DESPERDIÇA VERBA PÚBLICA PARA ENVERGONHAR OS BRASILEIROS NA ONU
Sejamos claros: A viagem de Bolsonaro a Nova York, para discursar pela terceira vez na abertura da Assembleia Geral da ONU, é uma inutilidade a serviço da desmoralização do Brasil. 

Ele desembarcou na cidade no domingo. Por determinação do serviço secreto americano, teve de entrar no hotel pela porta dos fundos para evitar contato com manifestantes que gritavam na entrada: "Fora, Bolsonaro". 

Saiu para comer à noite. Foi obrigado a mastigar pizza com auxiliares na calçada, pois apenas os vacinados têm acesso aos restaurantes nova-iorquinos. 

Sejamos diretos: Sob Bolsonaro, a imagem do Brasil no estrangeiro tornou-se um borrão no qual se misturam o vexame sanitário, os arroubos antidemocráticos, a estagnação econômica e a destruição ambiental –não necessariamente nessa ordem. 

Bolsonaro realizou o pesadelo que frequentava os sonhos de Ernesto Araújo. O ex-chanceler dizia que se a atuação do governo bolsonarista faz do Brasil "um pária internacional, então que sejamos esse pária".

Por último, 
sejamos didáticos: Até aqui, em matéria de diplomacia, Bolsonaro fez o pior o melhor que pôde. Conseguiu desfazer a boa imagem do Brasil no estrangeiro. 

Para começar a refazer o que desfez, o presidente teria de conciliar duas necessidades conflitantes: ser Bolsonaro e preservar minimamente o interesse nacional. Mas as manifestações prévias reforçam a suspeita de que Bolsonaro e interesse nacional são mesmo dois elementos inconciliáveis. 

O capitão já avisou que defenderá na ONU o chamado marco temporal, que limita a demarcação de terras indígenas às áreas ocupadas pelos índios em 1988. Ele alega que fala em nome do agronegócio. Na verdade, ecoa os interesses do ogronegócio, aquele pedaço de lavoura arcaico que invade, desmata e queima. 

Voar até Nova York para expor numa vitrine planetária posições retrógradas, que afugentam o capital estrangeiro, é uma variante nova do velho hábito de jogar dinheiro público pela janela. O brasileiro paga para passar vexame. (por Josias de Souza)

SE A EMANCIPAÇÃO HUMANA NÃO FOR ALEGRE E FRATERNA, JAMAIS SERÁ EMANCIPATÓRIA – 1

dalton rosado
UMA REFLEXÃO PROPOSITIVA E
 AUTOCRÍTICA HISTÓRICA DA ESQUERDA
Entre outras questões, o grande embate dos anarquistas com os marxistas tradicionais sempre foi a negação do Estado como etapa de se alcançar uma sociedade sem classes sociais. 

Os primeiros sempre admitiram que o Estado nas mãos dos trabalhadores promoveria, pela via revolucionária da tomada do poder burguês, a necessária transição; os anarquistas diziam que esta via do poder estatizante não seria capaz de usar o veneno como antídoto do dito cujo, algo assim, como se desconfiassem que o uso do cachimbo entortasse a boca.

Os marxistas tradicionais, que se diziam sábios do socialismo científico, criticavam (e, o que é pior, perseguiam) os anarquistas, atribuindo-lhes falta de consistência programática e organizacional, além de qualificá-los de pequenos burgueses inconsequentes, por mera divergência doutrinária.

Os anarquistas acusavam os marxistas tradicionais de estatistas totalitários, capazes de justificar todas as injustiças cometidas no processo revolucionário em nome de um fim que (no entender deles, anarquistas) por aquela via jamais seria alcançado. 

Ambos repudiavam o poder burguês e clerical, sendo este último bastante influente no século 19, quando surgiram as teses doutrinárias socialistas de combate ao florescente capitalismo da primeira revolução industrial e tentativas de consolidação do republicanismo burguês com suas marchas e contramarchas do início daquele século.
Nascidos em 1809 e 1818, Proudhon e Marx foram os
grandes formuladores do anarquismo e marxismo
 

A Europa ferveu nas décadas iniciais e seguintes do século 19, marcado pelas guerras napoleônicas imperialistas; luta pela preservação e volta do poder monárquico; episódio da Comuna de Paris em 1871; guerra franco-prussiana, e ascensão do capitalismo imposto pelas armas de fogo (então desenvolvidas). 

Posteriormente a estes episódios, os dirigente de partidos comunistas, procurando ser fieis ao que julgavam ser o marxismo mais fidedigno, mandavam seus militantes pular a 1ª parte de O capital, por considerá-la filosofia hegeliana de menor importância, de vez que tentava explicar a essência da forma-valor (mercadoria e dinheiro), e isso lhes parecia tão fácil concluir que não mereceria maior atenção. 

Fixaram-se nas estratégias políticas de tomada do poder revolucionário sem considerar a essência mais acurada do pensamento de Karl Marx, escoradas justamente na crítica da economia política, que era mais profunda e analítica no longo prazo do que as escaramuças de revolução armada defendidas por Friedrich Engels, que encontrou em Lenin, posteriormente, um estrategista perfeito. 

Os anarquistas desconfiavam do poder político (daí a máxima anedótica Hay gobierno? Soy contra!), mas não propuseram a superação das categorias capitalistas, acreditando ingenuamente que, com os meios de produção nas mãos do operariado, mas sob a égide do mercado e sem tutela política e clerical, tudo estaria resolvido.

O Marx político errou, envelheceu; o Marx da crítica da economia política é mais atual do que nunca. 

O anarquismo, sem um melhor entendimento da negatividade da essência da forma-valor (dinheiro e mercadorias), era ingênuo e, apesar de tentativas comunitárias como a Colônia Cecília, não teve a capacidade de se contrapor à ordem militar e capitalista.
A influência dos anarquistas no Brasil durou pouco, mas a eles se deve a greve geral de 1917 
Então, fragmentou-se e foi  perdendo força como contingente aglutinador de expressão social transformadora e emancipacionista.

Ambas as tentativas sempre foram bem intencionadas mas, como disse o próprio Marx, o caminho para o inferno está cheio de boas intenções.

Como previu Marx nos Grundrisse, o capitalismo atingiu atualmente um estágio avançado e irreversível de contradições dos seus fundamentos existenciais, tornando-se claramente autodestrutivo de sua própria forma e socialmente destrutivo porque inviável como forma de mediação social minimamente eficaz; e, o que é pior, ameaçando-nos com uma crise ecológica capaz de acarretar o ecocídio da humanidade.   

Mas a autodestrutibilidade da forma capitalista não é, por si só, capaz de provocar a emancipação humana, caso inexista uma teoria revolucionária que dê um norte exequível e factível de ruptura, capaz de galvanizar a sociedade humana atual sob seus pressupostos. 

Afinal, a sociedade já não é composta majoritariamente por uma única categoria profissional, como o foi no passado pelo proletariado, o sujeito da revolução segundo a doutrina marxista tradicional, tida como única revolucionária. (por Dalton Rosado)
(continua)
O Dalton escolheu para ilustrar este artigo a sua composição volta
do cipó, tributo que prestou a Geraldo Vandré, inspirando-se em 
duas canções do paraibano: Réquiem para Matraga e Aroeira

domingo, 19 de setembro de 2021

USO DE COBAIAS HUMANAS POR PARTE DOS NAZISTAS FOI ABORDADO POR INGMAR BERGMAN EM "O OVO DA SERPENTE"

A monstruosidade do Governo Bolsonaro em evidência no presente momento (logo surgirá outra, o estoque não acaba nunca...) é a parceria criminosa com o plano de saúde Prevent Senior para a realização de pesquisas 
de alto risco sem o conhecimento nem o consentimento dos conveniados, reduzindo-os, na prática, a cobaias humanas, enfocada no post anterior

Trata-se, portanto, de um bom momento para revermos um filme de 1977 em que tal prática abominável, da qual eram vítimas compulsórias os prisioneiros de campos de concentração, é importante para o desfecho da trama. 

Trata-se de O ovo da serpente, que traz a prestigiosa assinatura de Ingmar Bergman como diretor, mas, na minha opinião, começou com tudo e depois não manteve o pique. 

O impacto inicial se deve a ser o filme que melhor reconstituiu, até hoje, o impacto de um colapso econômico na vida dos cidadãos comuns (uma situação muito afim com o soturno momento pelo qual passamos).
Falo, é claro, da hiperinflação alemã de 1923, quando o dinheiro não valia mais nada  e as pessoas haviam perdido toda perspectiva de futuro; ou estavam prostradas, sem forças para reagirem aos infortúnios que as esmagavam, ou sofregamente perseguindo prazeres como se o mundo fosse acabar logo em seguida.

Fica muito claro que, não suportando a falta de uma âncora para suas existências, os alemães tenham se deixado mesmerizar pelos discursos raivosos daquele salvador da pátria com bigodinho engraçado, inspirador do mito micado brasileiro.

Mas, após uma primorosa primeira metade, o filme saiu dos trilhos. Bergman quis detalhar o ovo da serpente e não o soube fazer. A trama se torna policialesca a partir do momento em que seu foco se direciona para as primeiras experiências nazistas com cobaias humanas, e aí uma profusão de clichês invade a tela. Parece até filme hollywoodiano sobre o Holocausto.

De resto, os fãs sofisticados (ou seja, quase todos) do Bergman se escandalizaram com a escolha de David Kung Fu Carradine para o papel principal, ao invés do Max Von Sidow de sempre. Segundo a visão preconceituosa desses esnobes, Carradine não tinha pedigree suficiente para o cinema de arte. Eu, pelo contrário, o considerei um dos pontos altos do filme... (por Celso Lungaretti)

NO NAZISMO, OS PRISIONEIROS IDOSOS SERVIAM DE COBAIAS NA MARRA. AGORA, OS VELHINHOS SÃO APENAS MANIPULADOS

jânio de freitas
RECUSAR IMPEACHMENT
É ABRIR OPORTUNIDADES A MAIS BOLSONARISMOS
 NO PODER
A frase de Bolsonaro que menos deveríamos esquecer, vê-se hoje, era o seu programa de governo que nos parecia inexistente: "Tem que matar uns 30 mil".

Foi repetida e publicada várias vezes, e ainda assim sucumbiu, talvez porque crua demais até para bolsonaristas.

Nas 600 mil mortes atribuídas ao coronavírus, o destino de algumas centenas de milhares passa por Bolsonaro, sem por isso supor-se que estejam entre eles os 30 mil visados e inidentificados por Bolsonaro. Destes, só temos uma ideia pouco numerosa.

Sabe-se, porém, que quase a cada semana a CPI da Covid deparou-se com as evidências de mortes em massa e outras tantas iminentes. Com a causa comum de diferentes ações de indução letal por Bolsonaro e seus agentes.

Nessa linha de pasmos, e já quando a visão burocrática da vida fixa o encerramento da CPI, chega-lhe a denúncia de um grupo de médicos e auxiliares sobre práticas indutivas ainda encobertas.

A exposição simplória que lhe está dada, por equívoco quando não por conveniência comercial, está longe dos meios e fins escabrosos da trama denunciada.
Médicos a serviço de um dos grandes planos de saúde, o Prevent Senior, acusam os superiores de ordená-los a prescrever, nos casos de Covid-19, cloroquina e outros três produtos da habitual indicação de Bolsonaro.

Os doentes assim tratados com medicação imprópria seriam objetos de uma pesquisa de eficácia.

Bolsonaro estava informado da pesquisa e propagou-a em defesa da cloroquina.

Mas as doenças e os resultados da medicação eram adulterados no decorrer do diagnóstico, do falso tratamento e do resultado. Entre outros males, dessa fraudulência resultaram ao menos sete mortes.

É um caso com várias faces de alta gravidade. Os pacientes não eram voluntários, não estavam expostos aos riscos da pesquisa por solidariedade humanitária. Buscavam tratamento para um mal e receberam progressão do padecimento e maior risco de morte, até consumada.

São crimes monstruosos e simultâneos: a adoção obrigatória de remédios com ineficácia cientificamente comprovada para a doença constatada; a redução dos pacientes a cobaias sem conhecimento da pesquisa; e as mortes que, nesses procedimentos próprios de pesquisas nazistas, foram assassinatos conscientes.
Conscientes, com certeza, porque aceito o risco de morte dos pacientes, com o tratamento cientificamente reprovado. E porque, ainda mais claro, ocorrida a primeira morte, ou as primeiras, o falso tratamento continuou para proporcionar a fraudulência confirmatória da eficácia propalada por Bolsonaro, no seu furor contra a vida.

Não se sabe quantos foram os mortos, de fato. Já por definição, o que é fraude não é confiável. A empresa denunciada cumpre a praxe e reclama de propósitos difamatórios dos denunciantes. A CPI já trabalha, no entanto, até com gravações que determinam sigilo na pesquisa e brindam Bolsonaro com útil citação.

Esse e demais crimes que passam por Bolsonaro, relacionados à pandemia, são do tempo da sua sensação de predomínio. Hoje, o êxito comprovado da vacinação desmoraliza os jacarés de sua mente, seu apoio público evapora, cai em derrotas sucessivas, Bolsonaro se esvai em sinais de desespero –visíveis até na sua humilhante mansidão.

Contudo nada disso muda sua índole. Nem a ambição e o seu projeto, exposto ainda antes da candidatura presidencial: "Se um dia eu for presidente, vou dar um golpe".

Recusar a aceitação do impeachment pelos crimes do passado, como fazem Arthur Lira e seus recompensados paus-mandados do centrão, na Câmara, é abrir oportunidades a Bolsonaro e seus corruptos para mais bolsonarismos do poder.

Nem mortes excluídas, seja por que modo e motivo forem. Violência, inflação, custo de vida, desemprego: o país desce empurrado para o desastre insondável.

O cidadão tem o direito de conhecer bem os que impedem a primeira providência capaz de sustar a descida. E os meios de comunicação têm o dever de proporcionar esse conhecimento cívico aos cidadãos. 

Congressistas nas vantagens sem limite nem moral, eles são tão responsáveis pelo havido e pelo que houver quanto Bolsonaro e seus quadrilheiros. (por Jânio de Freitas)

EDITORIAL DA FOLHA DE SP BATE PESADO NO BOZO, TACHANDO-O DE "PRESIDENTE INCAPAZ", "AVENTUREIRO BOÇAL", ETC.

 O VOTO OU A QUEDA
O
presidente Jair Bolsonaro vislumbrou o abismo da deposição e decidiu recuar. 

Esta hipótese, corrente para explicar os acontecimentos da Semana da Pátria, ganhou solidez com os resultados do Datafolha que foi a campo quatro dias depois da nota do chefe de Estado colocando panos quentes nas declarações subversivas do feriado.

Indagados sobre se o impeachment deveria ser a consequência caso o mandatário cumprisse a promessa, feita nos comícios, de desobedecer a ordens do Supremo Tribunal Federal, 76% dos brasileiros disseram que sim

O repúdio às ameaças autoritárias do governante não poderia ser mais claro.

Metade dos entrevistados reconhece possibilidades golpistas nas atitudes do presidente da República, mais um indicador do zelo pelo patrimônio em que se converteu para a sociedade brasileira a democracia –definida por 70% como a melhor forma de governo.

Esse conjunto de resultados ajuda a entender o beco sem saída em que se meteu Jair Bolsonaro não exatamente no 7 de setembro, mas sobretudo quando o dia seguinte amanheceu com o rochedo da institucionalidade avultando-se impávido sobre o aventureiro boçal.

Uma parcela de lunáticos que acompanhou o presidente em sua marcha sobre o nada acreditou que uma multidão, apoiada por caminhoneiros arruaceiros, teria o condão de reverter a decisão do Congresso pelo voto eletrônico, substituir juízes da corte constitucional e instalar uma nova era no poder.

O sol nasceu no dia 8 com o presidente da República diante de duas vias: ou honrava a sua palavra da véspera e encarava o impeachment como bem frisou o ministro Luiz Fux, ecoando a convicção de 3 em cada 4 brasileiros, ou se desmoralizava, trocando o dito pelo não dito, na tentativa de sobrenadar. Agarrou-se à segunda opção.

Sob a Carta de 1988, a alternativa do mandatário ao cumprimento da regra constitucional é a queda. 

Bolsonaro não está obrigado a concorrer à reeleição, mas, se o fizer, vai submeter-se ao processo de votação e apuração eletrônico, sob a arbitragem neutra dos magistrados legitimamente escolhidos para conduzir a Justiça Eleitoral.

Caso sobrepuje seus adversários em votos, será empossado em 1º de janeiro de 2023 para novo mandato. Se perder, como hoje indica o Datafolha, volta para casa. Nessa hipótese sairá derrotado, não morto ou preso, do Palácio do Planalto.

O trabalho de reverter a impopularidade, ademais para um presidente incapaz como Bolsonaro, não será fácil. Passa por oferecer melhores condições de vida e de futuro à maioria dos brasileiros.

A miragem inebriada de que poderia haver um atalho se desfez na ressaca cívica que se seguiu ao 7/9. (editorial dominical da Folha de S. Paulo)

sábado, 18 de setembro de 2021

O APÓSTOLO BARROSO ADEQUOU JOÃO 8:32 ÀS LIÇÕES DO NOVO MESSIAS: "CONHECEREIS A MENTIRA, E A MENTIRA VOS APRISIONARÁ"

josias de souza
AMOR DE BOLSONARO PELA MENTIRA
É PLENAMENTE CORRESPONDIDO
Eleito pelo poder econômico, que inundou a web com
fake news, o mandato do Bozo é, em si, uma mentira...  
 
A
semana começou com uma declaração de amor de Bolsonaro às fake news: "Faz parte da nossa vida". O presidente tratou o flagelo com carinho inaudito: "Quem nunca contou uma mentirinha pra namorada?". 

A semana chega ao fim com a revelação do DataFolha de que o amor do capitão pela mentira nunca foi tão correspondido.

A grossa maioria do eleitorado (85%) ouve Bolsonaro com a pulga atrás da orelha  57% nunca confiam naquilo que o presidente da República declara, 28% confiam só de vez em quando. Apenas uma minoria (15%) confia 100% no que escorre dos lábios do suposto chefe da nação. 

O nível de desconfiança em relação às falas do capitão nunca foi tão alto. 

O país se deu conta de que Bolsonaro opera num mundo com duas verdades: a dele e a verdadeira. O primeiro Bolsonaro personifica a nova política, abomina a corrupção, afugenta o comunismo e cultua um versículo do Evangelho de João: "Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará". O outro Bolsonaro, retratado pelo DataFolha, é parecido com o primeiro, só que mente um pouco. 

Tanto desapreço pelos fatos acabou convertendo Bolsonaro numa espécie de fake presidente. Justiça se lhe faça: ninguém chega a tal posição por acaso.   
...engolida por desinformados e/ou pusilânimes até 
que a pandemia e a penúria abriram seus olhos...
 

Não é que o personagem flerta esporadicamente com a inverdade. Não, não, absolutamente. É preciso reconhecer que o progresso de Bolsonaro está alicerçado na mentira. O Brasil só piora. Mas as finanças do clã presidencial não param de melhorar.

A família Bolsonaro prosperou na vida pelo trabalho duro – trabalho do contribuinte. A dinastia desfruta de todos os confortos que o suor do brasileiro é capaz de pagar.

O patriarca é um grande defensor do patriotismo e da instituição familiar. Educou os filhos para amar a bandeira verde e amarela. Os rapazes não hesitaram em seguir os passos do pai. Casaram-se com a pátria. E foram morar no déficit público. 

Bolsonaro refugiou-se num contracheque do Estado pela primeira vez aos 18 anos, quando entrou para o Exército. Hoje, à frente do governo civil mais militar da história, o capitão se jacta da origem castrense, embora tenha sido expurgado do quartel pela porta dos fundo apenas 15 anos depois de sentar praça. 

Político há 32 anos, Bolsonaro já acumula mais tempo de rachadinha do que de farda. 

Presidente há quase três anos, Bolsonaro faz aos brasileiros o favor de se sacrificar pelo bem da coletividade. Queixou-se em 21 de julho: "Costumo dizer aos meus amigos: não queiram essa cadeira, que isso aqui tem kriptonita, brocha o Super-homem, que dirá eu!" 
...e eles se deram conta de que estavam sendo feitos de
otários por um paspalhão que nem mentir direito sabe...

Há uma semana, reclamou: "A vida de presidente não é fácil. Se alguém quiser trocar comigo, troco agora." 

Para Bolsonaro, a Presidência é uma missão de Deus. Sem receio de que a CPI da Covid o convoque para uma acareação com o Todo-Poderoso, o capitão se oferece para resolver até os problemas que o brasileiro não sabia que tinha. Por exemplo: o comunismo. 

Nesta sexta-feira, de passagem por Minas Gerais, Bolsonaro tranquilizou o país: "Uma das coisas que mais me confortam é saber que naquela minha cadeira lá em Brasília não está sentado um comunista".

Confirmou que estará em Nova York na próxima terça-feira. Discursará na abertura da Assembleia Geral da ONU. Anunciou que dirá algumas verdades sobre o Brasil. Tremei, mundo! 

Antes mesmo de ouvir as verdades que Bolsonaro despejará sobre a tribuna da ONU, o brasileiro, já vacinado contra as mentiras do orador, percebe que a vida de presidente é muito fácil, difícil é ser presidido diariamente por Bolsonaro. Se a passagem do capitão pelo Planalto serve para alguma coisa é para provar que governar o Brasil não é tão difícil.  
...e agora só falta um pequeno detalhe.

O horário é bom, o dinheiro é razoável, viaja-se de graça para Nova York, passeia-se de moto nos finais de semana, e há sempre a possibilidade de demitir o ministro Marcelo Queiroga, que deve proporcionar uma sensação muito boa. 

Por uma trapaça da sorte, Bolsonaro acredita que a falta do voto impresso desvirtuará as urnas eletrônicas que já lhe concederam tantos mandatos eletivos.

Dias atrás, em resposta às mentiras sobre urnas eletrônicas que Bolsonaro repetiu nos palanques de 7 de setembro, o presidente do TSE, Luís Roberto Barroso, chamou-o de farsante

Ecoando a maioria que se expressou por meio do DataFolha, Barroso disse que o lema de Bolsonaro é diferente daquele que está anotado em João 8:32. "Conhecereis a mentira, e a mentira vos aprisionará", contrapôs o magistrado. 

Barroso pode ter soado premonitório. (por Josias De Souza)

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

O MITÔMANO DELIRANTE É DESMENTIDO: O EXÉRCITO NÃO ADMITIA PIRRALHOS NA PERSEGUIÇÃO A GUERRILHEIROS.

eduardo reina
BOLSONARO MENTE SOBRE PARTICIPAÇÃO EM CAÇADA A LAMARCA
No começo de 1970, Carlos Lamarca, o capitão que havia desertado do Exército para se tornar um comandante guerrilheiro contra a ditadura militar, estava na região do Vale do Ribeira, interior de São Paulo. Ele e seus homens realizavam treinamentos militares da guerrilha da Vanguarda Popular Revolucionária. 

A localização de Lamarca foi descoberta pelo Exército brasileiro que promoveu um cerco gigantesco para capturá-lo: durou 41 dias com ocorrência de episódios de confrontos a tiros entre os militares e os guerrilheiros. Mesmo assim, ele escapou. O episódio foi classificado como embaraçoso pelos Estados Unidos. 

Documentos da diplomacia do governo dos Estados Unidos mostram que o país acompanhou as tentativas da ditadura militar de capturar e matar Carlos Lamarca, o que só aconteceu em 17 de setembro de 1971, no interior da Bahia. 

"A embaraçosa derrocada do ano passado na região de Registro, no estado de São Paulo, durante o qual Lamarca escapou de uma grande força-tarefa militar, também serviu para aumentar a determinação das forças de segurança para ter a cabeça do líder terrorista", relatou o diplomata Rountree em 30 de setembro de 1971. Rountree enviou seu telegrama 13 dias depois da morte de Lamarca.

O episódio da caçada ao capitão no Vale do Ribeira é utilizado pelo presidente Jair Bolsonaro como parte da construção de sua própria
mitologia política. Na época, ele tinha cerca de 15 anos de idade e morava em Eldorado Paulista (SP), uma cidade da região do Vale do Ribeira. 

Levantamento da BBC Brasil mostra que Lamarca foi citado em pelo menos 33 discursos de Bolsonaro no plenário da Câmara dos Deputados desde 1995 até o fim de seu último mandato como deputado federal, em 2018. No ano seguinte, assumiu a Presidência da República. 

Bolsonaro repetiu diversas vezes que, quando adolescente, ajudou os militares a procurarem o guerrilheiro na mata. "Eu sou de Eldorado Paulista. Eu participei, de forma bastante discreta, porque tinha 15 anos de idade, da caça ao Lamarca, ao lado do Ribeira", disse Bolsonaro em sessão da Câmara ocorrida em março de 2012.

A história é desmentida por um dos companheiros de Lamarca na luta armada: o capitão da reserva Darcy Rodrigues. "Num desses choques, sei porque eu estava lá, esse cidadão estava num barzinho perto da entrada de Eldorado. Houve o combate e ele fugiu. Era final de abril de 1970", afirma Darcy Rodrigues. 

Na época, Darcy Rodrigues era um sargento que tinha desertado do Exército junto com Lamarca, após roubarem 63 fuzis e metralhadoras de um quartel em Osasco, na Grande São Paulo. 
Darcy Rodrigues foi preso em Registro


São muitas as controvérsias na história contada pelo presidente da República. Uma delas é de que estaria na escola no momento em que as tropas do Exército localizaram o grupo de Lamarca em Eldorado Paulista. Ele chega a descrever ação dos professores que teriam mandado os alunos para casa por causa da troca de tiros. 

Mas os registros militares atestam que as tropas chegaram a Eldorado no período da noite. Assim, Bolsonaro precisaria ter aulas no período noturno. Contudo, a localidade não oferecia aulas noturnas à época. 

"Você acha que o Exército iria pegar um garoto para ajudar a andar nas matas lá? Trouxeram mateiros profissionais do Nordeste", disse Darcy Rodrigues. 

Procurado pela reportagem, o Palácio do Planalto não se pronunciou. (por Eduardo Reina)

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

UM DEPOIMENTO PESSOAL SOBRE O COMANDANTE CARLOS LAMARCA, MEIO SÉCULO DEPOIS DE SUA COVARDE EXECUÇÃO

Esta foto foi muito divulgada quando da morte de Lamarca. Mas fazia parte de uma farsa... 
O
comandante Carlos Lamarca – cuja inclusão no Livro dos Heróis e das Heroínas da Pátria nem mesmo presidentes da República ditos progressistas ousaram propor, embora tenha sido um dos maiores deles – estava debilitado e indefeso quando a repressão ditatorial o  executou no sertão baiano, em 17 de setembro de 1971, numa típica  vendetta  de gangstêres.

O que há, ainda, para se dizer sobre Lamarca, o personagem brasileiro mais próximo de Che Guevara, por sua história de vida e pela forma como encontrou a morte?

Foi, acima de tudo, um homem que não se conformou com as injustiças do seu tempo e considerou ter o dever pessoal de lutar contra elas, arriscando-se sem limites e pagando um preço altíssimo pela opção que fez.

Teve enormes acertos e também cometeu graves erros, praticamente inevitáveis numa luta travada com tamanha desigualdade de forças e em circunstâncias tão dramáticas.

Mas, nunca impôs a ninguém sacrifícios que ele mesmo não fizesse. Chegava a ser comovente seu zelo com os companheiros – via-se como responsável pelo destino de cada um dos quadros da Organização e, quando ocorria uma baixa, deixava transparecer pesar comparável ao de quem acaba de perder um ente querido.
...conforme ficou provado em 2012, ao vir a público esta foto com os ferimentos em destaque.
Dos seus melhores momentos, houve dois que me sensibilizaram particularmente.

Logo depois do Congresso de Mongaguá (abril/1969), quando a VPR saía de uma temporada de luta interna e de quedas em cascata, o caixa estava a zero e os militantes, clandestinos em sua maioria, careciam desesperadamente de dinheiro para manter as respectivas fachadas de cidadãos inofensivos – qualquer anomalia, mesmo um atraso no pagamento de aluguel, poderia atrair atenções indesejáveis.

Mas, o chamado grupo tático fora o setor mais duramente golpeado pelas investidas repressivas. Então, quando se planejou a expropriação simultânea de dois bancos vizinhos, na zona Leste paulistana, o pessoal experiente que sobrara não era suficiente para levá-la a cabo.

Eu e os sete companheiros secundaristas que acabáramos de ingressar na VPR fomos todos escalados – na enésima hora, entretanto, chegou a decisão do Comando, que me incumbiu de criar e coordenar um setor de Inteligência, então fiquei de fora.

Lamarca, procuradíssimo pelos órgãos repressivos, fez questão de estar lá para proteger os recrutas no seu batismo de fogo. Os outros quatro comandantes nacionais tudo fizeram para demovê-lo, em nome da sua importância para a revolução. Em vão. A lealdade para com a tropa nele falava mais alto.
O Globo e a Folha de SP deram
grande destaque à revelação
Depois de muita discussão, chegou-se a um compromisso: ele não entraria nas agências, mas ficaria observando à distância, pronto para intervir caso houvesse necessidade.

Houve: um guarda de trânsito, alertado por transeunte, postou-se na porta de um dos bancos, arma na mão, pronto para atingir o primeiro que saísse.

Lamarca, que tomava café num bar a 40 metros de distância, só teve tempo de apanhar seu .38 cano longo de competição, mirar e desferir um tiro dificílimo – tão prodigioso que, no mesmo dia, a ditadura já percebeu quem fora o autor. Só um exímio atirador seria capaz de acertar. 

[Foi, como nos contaria meses depois, a primeira vez em que atirou num ser humano. Temendo não haver acertado, fez um segundo disparo. Pelos jornais ficou sabendo que ambos atingiram o policial em cheio.] 

Como resultado, a repressão teve pretexto para fazer de Lamarca o inimigo público nº 1 – e, claro, o aproveitou ao máximo. A imagem dele foi difundida à exaustão em jornais, revistas e tevês, obrigando-o a redobrar cuidados e até a submeter-se a uma cirurgia plástica.

Também teve de brigar muito com os demais dirigentes e militantes para salvar a vida do sequestrado embaixador suíço Giovanni Butcher, quando a ditadura militar se recusou a libertar alguns dos prisioneiros pedidos em troca dele e ainda anunciou que o Eduardo Leite (Bacuri) morrera ao tentar fugir.

Dá para qualquer um imaginar a indignação resultante – afinal, as dantescas circunstâncias reais da morte daquele companheiro ficaram conhecidas na Organização ("Além de hematomas, escoriações, cortes profundos e queimaduras por toda a parte, apresentava dentes arrancados, orelhas decepadas e os olhos vazados", segundo o relatório da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos). 

Mesmo assim Lamarca não cedeu, usando sua autoridade até o limite para evitar que a VPR desse aos inimigos o monumental trunfo que as Brigadas Vermelhas mais tarde dariam, ao executarem Aldo Moro. O episódio foi tão traumático que, logo adiante, ele acabaria deixando a VPR.

E, no MR-8, novamente divergiu da maioria dos companheiros – quanto à sua salvação.
Dando aulas de tiro a bancárias. Ele nos contou que as
aconselhava a não reagirem, "esse pessoal é perigoso".
 
 

Pressionaram-no muito para que saísse do Brasil, preservando-se para etapas posteriores da luta, pois em 1971 nada mais havia a se fazer. Aquilo se tornara um matadouro.

Conhecendo-o como conheci, tenho a certeza absoluta de que não perseverou por acreditar numa reviravolta mágica. Em termos militares, suas análises eram das mais realistas e acuradas. Nunca iludia a si próprio.

O motivo certamente foi a incapacidade de conciliar a ideia de fuga com todos os horrores já ocorridos, a morte e os terríveis sofrimentos infligidos a tantos seres humanos idealistas e valorosos. Fez questão de compartilhar até o fim o destino dos companheiros, honrando a promessa, tantas vezes repetida, de vencer ou morrer.

Doeu – e como! – vermos os militares exibindo seu cadáver como troféu, da forma mais selvagem e repulsiva.

Mas, ele havia conquistado plenamente o direito de desconsiderar fatores políticos e decidir apenas como homem se preferia viver ou morrer.
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O FILHO DO SAPATEIRO E OS REBENTOS DAS CLASSES PRIVILEGIADAS – Foi no já citado congresso de abril de 1969, quando a VPR juntava os cacos após uma temporada de luta interna e quedas,  que o conheci. Eu estava lá como representante de um grupo de oito secundaristas que havíamos decidido ingressar na Organização, mas dependíamos ainda da palavra final do novo Comando a ser eleito naquele encontro. 
Aspirante a oficial, finalmente. Mas 
logo a carruagem viraria abóbora...
 
Coadjuvantes nas jornadas estudantis de 1968, atuando a reboque do movimento universitário, era natural que ficássemos todos um tanto deslumbrados com nosso novo status
. Eu, então, adorei estar conhecendo militantes que vivenciaram  ou estiveram próximo de todos os acontecimentos para nós importantes da década de 1960. 

Minha impressão sobre o Lamarca foi a melhor possível. Filho de sapateiro, aos 16 anos participara de manifestações de rua da campanha nacionalista O petróleo é nosso e  em 1955 ingressara numa escola preparatória de cadetes, passando dois anos depois para a Academia Militar de Agulhas Negras.

No final de 1969, quando, em cinco militantes, avaliávamos um sítio próximo a Jacupiranga como possível base para a instalação de uma área de treinamento guerrilheiro (acabaria sendo vetado), ele nos contou que, ingenuamente, tinha a ilusão de que o Exército seria uma força imparcial e democrática, daí o grande esforço que fez para formar-se aspirante a oficial em 1960. 

Seus concorrentes eram quase todos de famílias prósperas e haviam cursado escolas bem caras e melhores. Mesmo assim, conseguiu ser o 46º dos 57 aprovados, o que os detratores depois utilizariam para o desqualificar. Na verdade, tinha até superado as expectativas.

Mas, não foi recebido como um igual pelos oficiais vindos das ditas camadas superiores da sociedade, passando, então, a desprezá-los; seus amigos na caserna eram sobretudo cabos e sargentos. E tinha muita compaixão pelos recrutas, referindo-se amiúde a eles, nas nossas conversas, como filhos do povo.

Em 1962 foi designado para integrar as Forças de Paz da ONU no Canal de Suez e aqueles 18 meses foram decisivos para suas escolhas posteriores: a maneira como os árabes eram tratados e a miséria a que estavam submetidos o indignaram profundamente. Disse-nos que detestava ter de permanecer neutro diante de tudo aquilo, quando morria de vontade de abraçar a causa dos árabes.

Já sob a ditadura militar, teve a lealdade colocada sob suspeita quando um capitão brizolista que estava sob a sua guarda fugiu em dezembro de 1964. Mas, seu comandante na PE gaúcha se responsabilizou por ele, mantendo-o a salvo dos caçadores de bruxas. Era respeitado como oficial sério no cumprimento do dever e como um dos principais atiradores de elite nas competições de tiro da caserna.
Estes eram os integrantes da base em Quintaúna

De qualquer forma, logo no ano seguinte o transferiram para Quintaúna, na região paulista de Osasco; e em 1967 foi promovido a capitão, evidenciando que o episódio da fuga havia sido totalmente superado.

Em Quintaúna, contudo, reencontrou o sargento Darcy Rodrigues, uma figurinha carimbada que já conhecia do passado e que realizava o trabalho de politização no quartel. 

Darcy o aproximou da esquerda organizada e, graças à ajuda de Carlos Marighella, Lamarca conseguiria enviar mulher e filhos para Cuba, preparando-se para em seguida deixar aquela unidade juntamente com os três integrantes da base que formara lá dentro. 

Teve de realizar a operação de afogadilho porque o plano estava na iminência de ser descoberto, mas conseguiu levar consigo 63 fuzis FAL e três metralhadoras leves, em 24 de janeiro de 1969.

Naquele congresso em Mongaguá, com 31 anos, ele aparentava mais idade e sua nova condição na esquerda não lhe inspirara nenhum estrelismo. 

Era modesto, tratava bem os companheiros, lia muito os clássicos do marxismo para adquirir conhecimento comparável ao dos integrantes mais intelectualizados da VPR e estava ansioso por atuar: a situação de dirigente preservado em função de sua importância para a causa o exasperava visivelmente, embora tentasse não dar tanto na vista. Não via a hora de montar a coluna móvel estratégica.

Esta era sua grande contribuição aos planos da VPR. Ele considerava impossível, no Brasil, repetir experiências como a da China (o exército popular se formando nos campos e cercando as cidades para a tomada do poder) ou de Cuba (o mesmo desfecho, mas tendo como ponto de partida o foco guerrilheiro).
Lamarca mostrava querer muito Iara Iavelberg e
recebia com azedume as críticas a tal relacionamento
Lamarca sabia que uma guerrilha que atuasse numa região fixa seria logo esmagada por efetivos inimigos imensamente superiores, além de ter seus apoiadores locais presos e barbarizados. Então, propôs como alternativa colunas (a VPR lançaria a primeira, outras viriam depois) que se mantivessem em constante movimento, atacando os efetivos da repressão e logo se distanciando, pois o importante era que não fossem dizimadas e continuassem fustigando os repressores.

Essa coluna não recrutaria na região nem procuraria crescer numericamente. Seu objetivo seria propagandístico: provar que o Exército, tido como invencível, poderia ser derrotado, ainda que em meras escaramuças. 

Mas, a coluna travando combate (quando as circunstâncias fossem favoráveis) e sobrevivendo para lutar de novo seria um alento para que grupos revolucionários fossem se formando no país inteiro e agissem também, até a conquista do poder ocorrer como resultado da somatória de todas essas iniciativas independentes.  

No cerco do Vale do Ribeira, em abril de 1970, Lamarca pôde constatar que, mesmo assim, a inferioridade de forças continuava determinando o resultado final. Descoberta a escola de guerrilha com 17 militantes, ainda houve tempo para ele despachar oito para a cidade pelos transportes normais, enfurnando-se na selva com os nove restantes. 

O Exército mobilizou contra eles algo entre 2.500 soldados e o dobro disto (as versões variam), além de um sem-número de helicópteros. Dois companheiros foram presos e o restante escapou naquela que deveria ser, mas não é, reconhecida como uma das maiores façanhas militares realizadas por combatentes brasileiros em todos os tempos. 

Mas, se Lamarca tirou coelho da cartola, o certo é que a coluna móvel estratégica, embora não da forma como ele pretendia, entrou em ação e, constatada a impossibilidade de sobreviver, teve de se desmobilizar para salvar a pele dos seus integrantes. 
Uma rara foto com a família,
antes que partisse para Havana

Daí a minha convicção de que ele sabia muito bem que o sonho se esfumara e não havia mais chance de outra guerrilha resultar. E, pelo que avaliei de sua personalidade, ele certamente terá decidido seguir adiante por um único motivo: haver preferido afundar junto com seu navio.  
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UM ADENDO SOBRE A CAMPANHA MIDIÁTICA DE DIFAMAÇÃO EM 2007  Por último, um esclarecimento. Quando preso, detonado e quase destruído aos 19 anos de idade, fiquei indignado com o Lamarca pelo fato de, mesmo sabendo da verdade, ele haver consentido com (e corroborado) a versão conveniente de que a segunda área de treinamento no Vale do Ribeira, na qual eu nem sequer estivera, teria sido delatada por mim. 

A estigmatização decorrente, eu supunha, praticamente encerraria minha trajetória como revolucionário. Além disto, fui deixado à mercê do inimigo ao não incluírem-me na lista de presos políticos a serem trocados pelo embaixador alemão Ehrenfried von Holleben, o que me acarretou um novo período de torturas e um tímpano estourado.

Levei 34 anos até conseguir tornar amplamente conhecida a verdade dos fatos e recuperar minha credibilidade (embora não tenha ficado inerte durante todo esse tempo, vale acrescentar). 

E uma luta que travei no período 2004/2005 me permitiu tomar conhecimento do que acontecera na VPR no período da minha prisão. Fiquei sabendo o quanto as quedas em cascata de abril de 1970 a  haviam abalado e deduzi o resto. 

Ou seja, que naquele momento, caso se chegasse ao conhecimento da esquerda em geral que quem delatara a informação mais importante que a VPR detinha era comandante nacional, como conseguir repor os quadros que perdera, atraindo recrutas e apoios desesperadamente necessários? Quem, ciente disso, ingressaria numa Organização com segurança tão precária?

Convinha, portanto, que a culpa recaísse com um jovem pouco conhecido fora da VPR, que nem sequer pertencia a alguma família de esquerdistas ilustres. A decisão de relegar-me à estigmatização não se devera a motivos fúteis, mas objetivava ajudar a VPR a sobreviver a uma crise quase terminal.  
Tive de refletir bem sobre passado e presente quando a direita, com o apoio servil da grande mídia, fez em 2007 campanha cerrada e das mais falaciosas contra o Lamarca, por ter a Comissão de Anistia decidido que sua família deveria, com promoções incluídas, receber pensão de coronel, ascendendo a general de brigada pela passagem à reserva. Motivo: um governo ilegal, fruto de um golpe de Estado, o executara a sangue-frio.

Considerei repulsiva a campanha e inaceitável que nenhum dos companheiros mais próximos do Lamarca o estivesse defendendo dos ataques na imprensa. Mas, não causaria estranheza ser logo eu a zelar por sua memória?

No entanto, o que acontecera em 1970 não tinha o mesmo peso para ambos. No caso de um revolucionário que tinha formação anti-stalinista, como eu, era simplesmente inconcebível tamanho falseamento da verdade, em detrimento da dignidade de um militante honesto. Mas, o Lamarca era sobretudo um pragmático, priorizava a causa, tendo ele próprio feito sacrifícios extremos em nome do seu ideal.

Lembrei-me de quando, na área de treinamento, ele recebia cartas vindas de Cuba, ia para um canto e quase chorava, inconformado com as notícias sobre como seus filhos evoluíam e o quanto ele estava perdendo ao não presenciar isso. Só depois de horas conseguia aparentar normalidade, mas percebíamos que a tristeza ainda o remoía.    

E, claro, não poderia esquecer que ele entregara a vida, recusando as hipóteses de salvação que lhe foram oferecidas pelo MR-8.

Resolvi, então, assumir o papel de principal defensor da imagem do Lamarca e dos direitos de sua família, confrontando a grande mídia (vide aqui), porque era a atitude que a consciência me ditava. (por Celso Lungaretti)
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