sábado, 23 de julho de 2016

ESCÁRNIO: LEI ROUANET SERVIU ATÉ PARA BANCAR CASAMENTO GRANFINO!

OS ABUSOS COMETIDOS COM A LEI ROUANET

.Por Pedro Cardoso da Costa
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Imagens do casamento cultural, numa ótima montagem do Blog do Marcelo.
Na devassa da corrupção generalizada que se realiza há uns dois anos no Brasil, a Lei Federal de Incentivo à Cultura não foi exceção. A Operação Boca Livre da Polícia Federal apurou que um único grupo de fraudadores conseguiu a aprovação de projetos totalizando R$ 180 milhões, ao longo de quase 20 anos. Houve até um cidadão preso sob a acusação de ter bancado as despesas de seu casamento luxuoso com o dinheiro da dita cuja (saiba mais aqui). 

Os procedimentos para desviar os recursos da chamada Lei Rouanet não se diferenciam dos outros, mas a escala e duração do achaque conseguem impressionar, mesmo para uma população que convive com a corrupção em todas as áreas e, praticamente, em todos os governos.

Segundo o noticiário, já em 1992 começaram os desvios e houve casos em que começaram a meter a mão na grana da cultura antes mesmo de completado um ano desde a sanção da lei (ocorrida em 23/12/1991). 
Polícia Federal está investigando as bocas livres da cultura

Se encontraram tão depressa o mapa da mina, há grande probabilidade de que o planejamento já viesse ocorrendo durante a tramitação do projeto. Afinal, um ano é muito pouco para se detetarem as lacunas existentes, no sentido de se viabilizarem as falcatruas.

Aliás, responsabilizarem as chamadas lacunas da lei se tornou uma astúcia utilizada por grupos da mídia para isentar os verdadeiros responsáveis, que são os corruptos e os agentes públicos negligentes ou que têm envolvimento direto nos golpes. Não existe corrupção de acordo ou conforme a lei. Talvez por isto,se utilize tanto a expressão desvio de verba.

Tal omissão na fiscalização não é por falta de órgãos. Além das polícias investigativas, do Ministério Público e da Controladoria Geral da União, existem os vários tribunais de contas e as unidades de controle interno em cada órgão ou instituição da administração pública. Falta só o olho que vê, como diz Chico Cesar, na música Benazir. E o porquê de não ver é o que precisamos apurar e corrigir urgentemente.

Antes de tentar mudar a Lei Rouanet, como sugere o discurso oficial, é preciso consolidar o entendimento de que nenhuma lei é capaz de evitar a corrupção. Esta eficácia se obtém com as ações prévias de controle, que precisam do apoio de fato dos superiores e de punição rigorosa quando são julgadas.
Mecenato renascentista viabilizou muita obra- prima. E o atual?
Quando uma lei é criada num ano, no seguinte começa a ser fraudada e a fiscalização só chega duas décadas e meia depois, como ocorreu com a Lei Rouanet, fica claro e evidente que ninguém quis controlar nada. 

Muita gente que propõe soluções agora, mesmo que não tenha se beneficiado desses desvios, só saiu de cima do muro porque eles vieram à tona pela imprensa e em razão da onda de indignação decorrente das denúncias da Operação Lava-Jato. E sobre tais abusos não se viu nenhuma manifestação de um artista famoso...

Nenhum desvio de dinheiro é aceitável, mas quando a corrupção chega a patrocinar casamento com dinheiro público é porque já descamba para a desfaçatez e o escárnio. Isso ocorre por omissão ou corrupção de pessoas e não por lacunas de normas legais.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

DALTON ROSADO: "AS OLIMPÍADAS, AS GUERRAS E A POLÍTICA".

Isinbayeva pagará pelo doping alheio
"Obrigado a todos por terem enterrado 
o atletismo. Isso é puramente política."
(Yelena Isinbayeva, bi-campeã olímpica do salto 
com vara, após o atletismo de seu país, a Rússia, 
ser banido da Rio 2016 sob acusação de doping)
Os jogos olímpicos nasceram na Grécia antiga, no ano 776 a.C, em Olímpia, como forma de trégua entre as cidades-estados gregas que travavam frequentes guerras. As disputas esportivas tinham um conteúdo religioso e político de pacificação temporária pela via da competição esportiva, apesar de somente poderem participar homens livres, excluindo-se escravos e as mulheres. 

Desta forma é que a chamada paz olímpica permaneceu na memória do mundo ocidental, cuja cultura e tradição decorre da civilização greco-romana, como um lampejo de evolução da racionalidade humana. Nada mais oportuno neste momento de grave ebulição social mundial do que o resgate do sentido olímpico de confraternização esportiva dos povos, hoje tão maculado por interesses econômicos e políticos.     

Na chamada modernidade, os jogos olímpicos foram reativados em 1896 pelo pedagogo e historiador francês Pierre de Frèdy, o Barão de Coubertin (só poderia ser um homem ligado às letras!) com o propósito de resgate do espírito olímpico. Tiveram lugar no estádio ateniense de Panathenaic (construído em mármore no século IV a.C. e especialmente reformado para o evento), entre 6 e 15 de abril, com a participação de apenas 300 atletas, de 10 países: Alemanha, Austrália, Áustria, Dinamarca, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Grécia, Hungria e Suíça.

Apesar do seu conteúdo original pacifista, os jogos olímpicos têm sido afetados pela nociva interferência da economia e da política, pois, devido à sua repercussão, se transformaram num grande espetáculo midiático que transforma o esporte em mercadoria, e como tal, é fato gerador de disputas pouco ou nada esportivas (boicotes, doping, atentados, etc.).
Pôster dos jogos de 1896

Vejamos aspectos dos jogos olímpicos que evidenciam a sua nociva relação com o mundo político-econômico: 
  • em 1906, os jogos olímpicos praticamente deixaram de ocorrer por conta de questões políticas, restringindo-se a competições não oficiais com a participação de poucos países e sem repercussão internacional;
  • em 1916, os jogos olímpicos deveriam ocorrer na cidade alemã de Berlim, mas foram cancelados em razão por causa da 1ª Guerra Mundial;
  • em 1936, os jogos finalmente se realizaram em Berlim, mas os governantes nazistas impuseram um flagrante conteúdo político ao evento, na linha da primazia da raça ariana, além das pompas características do hitlerismo. A suástica, símbolo nazista, apareceu mais do que o símbolo dos jogos olímpicos, e apesar de a Alemanha ter ganhado os jogos olímpicos com folga (33 medalhas de ouro, 26 de prata e 30 de bronze, contra as 24 de ouro, 20 de prata e 12 de bronze do segundo colocado, os EUA), foi um negro estadunidense, o corredor Jesse Owens, o maior nome das olimpíadas, conquistando, sozinho, 4 medalhas de ouro. Muito se disse que Hitler retirara-se do estádio para não ter de cumprimentar solenemente Owens, o grande destaque individual dos jogos, tendo o atleta depois declarado que dele chegou a receber um aceno à distância);
  • em 1940 e 1944, os jogos olímpicos deixaram de se realizar em razão da 2ª Guerra Mundial; 
  • em 1968, nas Olimpíadas da cidade do México, os atletas americanos Tommie Smith (ouro nos 200m) e John Carlos (bronze), membros do movimento de libertação racial Panteras Negras, ergueram o punho esquerdo como símbolo de protesto e baixaram a cabeça quando da execução do hino estadunidense. Foram expulsos dos jogos e retirados do alojamento dos atletas;
  • em 1972, nas Olimpíadas da cidade alemã de Munique, um atentado do grupo terrorista palestino Setembro Negro matou 11 atletas da delegação de Israel. A partir daí, todos os Jogos Olímpicos redobraram os cuidados com a segurança dos participantes e espectadores;
  • Jesse Owens desmoralizou a raça pura
    em 1980, os Estados Unidos, sob a presidência de Jimmy Carter, lideraram um boicote à participação nos jogos olímpicos de Moscou, na Rússia, como protesto pela invasão do Afeganistão. Apesar do esvaziamento causado pela ausência de 69 países, houve um momento inesquecível: o ursinho Misha deixando escorrer uma lágrima de saudade, a partir de uma coreografia humana muito bem executada. Muitos a encararam como uma ironia ao boicote;
  • em 1984, foi a vez de a Rússia dar o troco, recusando-se a participar dos jogos olímpicos de Los Angeles. Seu boicote foi seguido por muitos países do chamado bloco socialista
  • em 1988, durante os jogos olímpicos realizados em Seul, na Coréia do Sul, surgiu o primeiro escândalo de doping, o uso de medicamentos para potencializar artificialmente o desempenho esportivo. Outros sucederiam adiante;
  • em 1996, nos jogos olímpicos de Atlanta, EUA, voltaram os ataques terroristas, desta vez matando duas pessoas e ferindo mais de 100;
  • em 2000, os jogos olímpicos realizados em Sidney, Austrália, tiveram como ponto alto a mensagem de reconciliação entre as Coreias do Sul e do Norte (as delegações desfilaram sob uma mesma bandeira, mas tal gesto depois se revelaria insuficiente para consolidar a reunificação) e da defesa da ecologia. As Olimpíadas tentavam resgatar o seu verdadeiro sentido de paz, fraternidade e racionalidade;
  • em 2004, os jogos voltaram à casa paterna, a Grécia, e, apesar das apreensões causadas pelos atentados recentes (o do WTC em setembro/2001 e o do metrô de Madri em 11 março/2004), transcorreram bem e com um único incidente marcante: o agarrão de um desconhecido que atrapalhou o maratonista brasileiro Vanderlei Cordeiro de Lima, quando este liderava a corrida na sua parte final. Cordeiro se desvencilhou, voltou à prova e entrou no Estádio Panathinaiko triunfalmente em 3º lugar, com um sorriso no rosto e braços abertos, atitude que lhe valeu um ouro moral, com a outorga da Medalha Barão Pierre de Coubertin, uma distinta e única condecoração olímpica;
    Vanderlei vendo a vitória evaporar
  • em 2008, os jogos olímpicos de Pequim mostraram ao mundo a afirmação da China como uma potência esportiva, com suas 51 medalhas de ouro lhe valendo o 1º lugar. A China atrasada dos mandarins havia dado lugar a um país dito comunista, que contrastava miséria social nos subúrbios e rincões distantes com a moderna Pequim e seus estádios monumentais; uma nação cujas práticas capitalistas agressivas já vinham colocando em xeque a supremacia dos conceitos de produção de mercadorias ocidentais e convulsionando o mundo (Mao Tsé-Tung jamais imaginou que a revolução chinesa contra o capitalismo acabasse sendo mais eficaz pela via dos fundamentos capitalistas);
  • em 2012, pela terceira vez na chamada era moderna, os jogos olímpicos se realizaram na capital inglesa, Londres (antes em 1908 e 1948), numa demonstração de como o poder político influencia as decisões do Comitê Olímpico Internacional. As Olimpíadas de Londres consolidaram a China como potência esportiva, pois terminou em 2º lugar, com 33 medalhas de ouro, 27 de prata e 23 de bronze, atrás apenas dos EUA, que conquistaram 46 de ouro, 29 de prata e 29 de bronze. 
UM CAVALO DE TROIA 
OCULTANDO HOSTES INIMIGAS?

Como se vê, as Olimpíadas passaram a ter uma importância geopolítica mundial, e sua mensagem original de paz e fraternidade foi sendo maculada pela política ignóbil e pela ganância exacerbada.

Chegamos, assim, à Rio-2016, em meio a um mundo conturbado pela mais grave crise econômica que já acometeu o capitalismo em seu itinerário de sangue e miséria, em chocante contraste com as conquistas científicas extraordinárias no campo do saber. 
O fantasma do terrorismo islâmico ronda a Rio-2016

Como a grande maioria dos países do mundo, o Brasil se vê às voltas com a recessão econômica, déficit orçamentário, crescimento da dívida pública, inflação alta e taxa de desemprego altíssima. Para piorar, temos um dos mais elevados índices de violência urbana do mundo, o que parece até haver atraído a atenção dos fundamentalistas islâmicos, suspeitos de pretenderem barbarizar a Olimpíada – logo aqui, país que sempre foi tido como um oásis de tolerância racial e religiosa, além de poder orgulhar-se da mais bela miscigenação racial do planeta.
Os jogos olímpicos do Brasil, como os demais da era moderna, infelizmente têm expressão e primazia político-econômica colocadas muito acima do seu conteúdo esportivo, o qual hoje mais parece um cavalo de Troia que oculta hostes inimigas.
Por Dalton Rosado

A violência política do mundo mercantil é onipresente no merchandising das Olimpíadas, matando o sentido esportivo, pacifista e heroico de sua existência. 

Será que o lema O importante é competir ainda vale? 

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quarta-feira, 20 de julho de 2016

DALTON ROSADO: "A PAIXÃO PELO FUTEBOL E O FETICHE DA TAÇA".

Gerson e a Taça Guanabara de 1967
"A um passe de Didi, Garrincha avança; colado o 
couro aos pés, o olhar atento; dribla um, dribla 
dois, depois descansa como a medir o lance do 
momento. Vem-lhe o pressentimento; ele se 
lança mais rápido que o próprio pensamento."
(O Anjo das Pernas Tortas, Vinícius de Moraes)
Por que será que me constrange ver o Botafogo perder? Por que será que me invade a alma uma alegria de regozijo ao ver o botafogo ganhar após os minutos finais de tensão e sofrimento, temendo o gol adversário que nos tiraria a conquista, e transbordar de euforia por ser campeão? 

Será que é porque, como todos os deserdados da sorte, as suas conquistas são mais raras do que aquelas que já se tornaram corriqueiras para os que estão acostumados a ganhar? 

Por que será que às vezes tenho a vontade de escrever para o Túlio Maravilha para lhe agradecer por aquele gol em impedimento contra o time do Santos, que deu ao Botafogo o título de campeão brasileiro em 1995, agora, passados 21 anos e os momentos dos tapinhas nas costas do grande artilheiro? Por que será? 

De onde vem essa paixão que Vinicius de Morais, com sua fina ironia poética, a ela se referia, perguntando ao magnata do petróleo: “Será que ganhar dinheiro é mais belo e prazeroso do que um chorinho do Pixinguinha ou torcer pelo Botafogo” (seu time)? 

De onde vem essa incomensurável paixão que nos faz tomar como nossa, pessoalmente nossa, a vitória de um time de futebol, como uma conquista da qual nos sentimos parte indissociável? 
        
Falar da paixão pelo Botafogo como psicanálise de comportamento social é algo impossível, porque torcer pelo botafogo transcende a racionalidade obsessiva dos cientistas sociais que consideram o futebol como mais um dos muitos modos de ópio do povo
Garrincha, símbolo da fase mais vitoriosa do Botafogo.

Gostar do Botafogo é tão gostosamente irracional como o era a loucura de Heleno de Freitas ou a ingenuidade de Garrincha, o anjo de pernas tortas, que ajudou o Brasil a se livrar do complexo de vira-latas (Nelson Rodrigues) ao conquistar as Copas do Mundo de 1958 e 1962. 

É falar de Carvalho Leite, Patesko, Paulo Valentim, Didi, Zagalo, Nilton Santos, Rildo, Manga, Quarentinha, Amarildo, Jairzinho, Roberto Miranda, Zequinha, Rogério, Leônidas, Paulo César Caju, Gérson e tantos outros heróis do povo, que, com a sua arte de jogar futebol, amenizaram a dor diária de uma gente que secularmente sofre com a injustiça da gritante desigualdade social. 

Como, então, rejeitar o Botafogo e o futebol como alegria fugaz, mesmo sabendo que ele se tornou mercadoria e instrumento de anestesia contra a opressão?
A racionalidade fria costuma dizer que sofrer pela derrota do seu time é algo ingênuo. Mas, como evitar este sentimento e compreendê-lo na sua grandeza emocional e igualmente ingênua? 

É melhor não tentarmos nos imiscuir nas complexas buscas de entendimento psicanalítico e chorar de alegria como o gol feito aos 49 minutos, na prorrogação, e que deu o campeonato ao Botafogo. Não é preciso explicar o inexplicável da emoção; basta senti-la e viver o êxtase confortável do momento ritual simbólico da conquista: o levantamento da taça. 

Aliás, levantar a taça ao alto é um gesto inventado por nós, pois imortalizado por Bellini em 1958 após a conquista da nossa seleção, sem que ele ali dimensionasse o seu significado, e que passou a ser imitado mundialmente. A psicanálise deve explicar cientificamente a adoração à taça conquistada, como símbolo de supremacia, mas não nós, torcedores apaixonados (tenha dó...). 
A bola, a grama e um mar de lama.

Uma análise teórica e circunspecta diria que a homenagem prestada pelos jogadores da seleção de futebol germânica aos índios pataxós na Bahia, logo após a conquista do campeonato mundial de futebol de 2104, tem um relevante grau de simbolismo. E tem. 

A cena dos campeões dançando num rito tribal em torno da taça colocada no centro de uma roda representou a adoração ao objeto da conquista desportiva – a taça do mundo – numa simbiose entre o arcaico e o moderno. 

É que o simbolismo do brilho do ouro contido no troféu se mistura ao culto subjetivo afirmador da capacidade desportiva alemã (resultados políticos e financeiros que advêm de uma conquista como essa à parte). 

Pode-se fazer uma analogia daquela cena em torno do troféu com o culto fetichista normalmente feito ao móvel da sociedade moderna – a produção de mercadorias. Mas, a quem isto interessa? 

A quem interessa saber dos valores econômico-financeiros que envolvem o futebol (e a corrupção nele entranhada), atividade esportiva mais popular do mundo? Eles atingem bilhões de reais em ganhos diretos e em merchandising, tendo, certamente, um significado expressivo numa sociedade que necessita cada vez mais de criar artifícios que impulsionem o seu decadente mundo mercantil. Mas, ter consciência disto não reduz em nós a paixão pelo nosso time ou seleção, nem nos impede de tê-la. E daí? 

A quem interessa a analogia da paixão pelo futebol com a adoração ao totem da modernidade, o dinheiro, objeto teleológico da vida social, mas vazio de sentido virtuoso, e que se consubstancia num fetichismo pelo qual todos nós sofremos as consequências, mas do qual não conseguimos nos desapegar por dependência ao seu comando opressivo? 

A quem interessa saber que o futebol é, hoje, uma mercadoria, e instrumento de venda de outras mercadorias pelos garotos-propaganda campeões que tudo venderão por meio da grande mídia, movimentando bilhões em dinheiro? Trata-se, certamente, da atividade esportiva mais cultuada no mundo pela indústria cultural, com grande importância na economia e na política, daí a presença de chefes de estado nas arenas romanas do panis et circenses da modernidade.
Com os pataxós: a dança dos 7 passos para cá e 1 para lá.

A quem interessa saber que o rito de adoração alemã à conquista da taça, num gesto de boa-vontade para com os índios pataxós, simboliza, por analogia, a permanência do fetichismo das sociedades primitivas na pós-moderna sociedade produtora de mercadorias, sob uma forma midiática global? 

Mas, pedindo desculpas aos conscientes críticos do fanatismo aos totens da modernidade, deixemos que nós, os vitoriosos, curtamos a nossa vitória. Devemos nos dar esse direito em nome da fugaz alegria.  

Mais do que o interesse das análises psico-sociológicas da paixão pelo futebol (no meu caso, pelo Botafogo; no do Lungaretti, pelo Corinthians), o importante é dar um abraço emocionado na arquibancada no torcedor desconhecido que está ao nosso lado na hora do gol da conquista do campeonato, e da taça, com a intimidade de um velho conhecido. 

Que me desculpe Guy Debord e sua crítica metafórica a nossa paixão pelos fetiches mercadológicos que transformam a arte e o esporte em mercadorias aptas a anestesiar a consciência coletiva, mas o pecado da inconsciência apaixonada pelo futebol deve ser perdoado.    

Em tempo: além do gol e da taça, é bonita, também, a cena da criança portuguesa que, ao ver o francês chorando no final da Eurocopa, lhe deu um abraço fraterno de consolo e solidariedade, mostrando que nem tudo estava perdido. (por Dalton Rosado)
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Fim de 1962: canto do cisne de Garrincha no Botafogo.

SUCESSORA DE FAUSTO, DILMA QUIS FLEXIBILIZAR O PACTO COM MEFISTÓFELES...

Serenidade" de um lado, "falas desconexas" do outro.
O jornalista e historiador Elio Gaspari é um homem de esquerda formado na cultura do velho PCB. Como tal, manteve-se bem distante das ilusões armadas e hoje não crê nem mesmo nas ilusões desarmadas. Move-o, contudo, um elogiável sentimento de compaixão e solidariedade para com o povo sofrido, daí ter assumido posição contrária ao Governo Dilma, principalmente no catastrófico segundo mandato.

Em artigo recém-publicado, ele compara com sapiência e sarcasmo os estilos pessoais: 
"Antes mesmo de completar cem dias, Michel Temer conseguiu dar estabilidade ao seu governo. Começou da pior maneira possível, com um ministério pífio e contaminado, cercado de suspeitas e de ligações inconvenientes. A mágica tem um nome: calma, sangue frio ou mesmo serenidade.  
...A estabilidade trazida pela mágica da calma foi ajudada pela esperança que a blindagem de Henrique Meirelles levou para o Ministério da Fazenda. Por enquanto, na panela da ekipekonomica há muito pirão e pouca carne. Felizmente, o mercado compra esperança e o novo governo mostrou que, com o afastamento dos pedalantes, pior a coisa não fica.   
 ...Temer também teve sorte. O PT ainda não acordou da pancada do início do processo de impedimento e Dilma Rousseff percorre plateias amigas cada vez menores, com falas cada vez mais desconexas. Na última, comparou o seu infortúnio aos acontecimentos da Turquia"
Meirelles: Lula gostava, Dilma enxotou, Temer foi buscar.
No fundo, para quem analisa a política oficial sem antolhos ideológicos, boa parte do que ele escreveu é o chamado óbvio ululante, começando pelo fato que que, nos moldes da democracia burguesa, Michel Temer governa muito melhor do que Dilma Rousseff.

Afinal, durante os 16 meses do seu segundo mandato ela nem sequer conseguiu governar. Quando estava nos estertores, desistiu até de tentar. Foi ultrapassada pelos acontecimentos e acabou deixando o país e a economia à deriva, enquanto se dedicava, exclusiva e obsessivamente, à defesa vã do seu mandato.

Quanto à gradativa melhora das perspectivas econômicas desde que ela foi afastada, é um fato. Não apenas em razão da incompetência abissal de Dilma, que deu significativa contribuição para atingirmos o terrível patamar de 11 milhões de brasileiros na rua da amargura (desemprego elevado haveria de qualquer maneira, mas os erros bisonhos de política econômica o maximizaram), como também porque o modelo populista encarnado no PT estava esgotado, cá como noutros países sul-americanos.

Todos coincidiram no ponto de partida: a tomada de governos pela via eleitoral. Depois, alguns foram mais longe na tentativa de tomada progressiva do estado, outros acabaram detidos no meio do caminho.

O certo é que não houve uma revolução clássica em nenhum deles. Os explorados não se organizaram para exercer o poder, foram organizados para apoiar governantes caudilhescos. Marx sempre quis torná-los protagonistas da História, não vê-los relegados ao papel de objetos de homens providenciais, servindo de peões no tabuleiro do seu jogo, cujo objetivo final nunca foi o xeque-mate, mas sim a mera perpetuação no poder.

Dez anos depois, só Morales continua no poder.
Como a História cansa de ensinar, regimes caudilhescos podem até prosperar durante a vida física dos caudilhos, mas não sobrevivem a eles. Primeiramente, porque não estimulam o povo a pensar e agir de forma autônoma, preferindo mantê-lo sempre sob controle, daí sua incapacidade de reação quando fica órfão do paizão.

Depois, porque o grande homem costuma temer a sombra de um sucessor e geralmente favorece o mais medíocre dos seus cortesãos, o que acaba colocando cavalgaduras como Maduro numa posição à qual jamais deveriam ser alçados.

No Brasil, o governo petista nasceu atrelado aos compromissos que assumiu em 2002 com o poder econômico, de submeter-se a ele na tomada de decisões macroeconômicas, contentando-se em administrar as miudezas do varejo.

Enquanto a conjuntura internacional favorecia as commodities brasileiras, a receita funcionou. O grande capital continuou com a parte do leão (sem um mínimo de simancol, Lula se vangloriava de que os banqueiros nunca haviam lucrado tanto quanto nos seus governos!!!) e ainda sobrava uma graninha para aumentar a quota de migalhas dos explorados, por meio do bolsa-família e outros mecanismos de transferência ínfima de renda para os pobres.

Quando a maré virou no exterior e o cobertor ficou curto para continuar cobrindo tanto as cabeças garbosas da burguesia quanto os pés sofridos dos coitadezas, Dilma resolveu desconsiderar em certa medida o pacto firmado por seu padrinho com Mefistófeles e tentar fazer a economia pegar no tranco, seguindo o figurino do velho nacional-desenvolvimentismo (ou seja, com os investimentos estatais a empurrando), de forma a manter e talvez ampliar as conquistas sociais das duas gestões anteriores. 
A esquerda já deveria ter começado a mudar em 2013
Sua soberba a cegou: não percebeu que era um passo maior do que suas pernas, impossível de ser dado sem o apoio incondicional do Lula, pois era ele quem mandava (e continua mandando) no PT.

Os capitalistas também não gostaram da brincadeira e, como quem manda no capitalismo são eles, despacharam Dilma com um piparote, fazendo-a desabar no chão do Palácio da Alvorada, do qual será também despejada no mês que vem.

Não lamento, porque é difícil enxergarmos alguma vantagem em ser petista quem gerencia o capitalismo para os capitalistas, ajudando a mistificar os explorados. Mil vezes melhor a esquerda permanecer fora do poder, lutando para conquistá-lo de forma digna; ou seja, sem abdicar de sua verdadeira identidade, nem trocá-la por uma versão light e, muito menos, negociar a alma em acordos podres!

Então, enquanto muitos (principalmente os que perderam suas escandalosas boquinhas) veem a queda de Dilma como uma desgraça, eu a vejo como mais uma oportunidade para construirmos uma esquerda de verdade, revolucionária, no Brasil. Aquela que deveríamos ter começado a forjar tão logo terminou a ditadura de 1930-1945, e depois a de 1964-1985.

Agora que o populismo de esquerda desmoronou e se desmoralizou por completo, temos uma terceira chance para fazer direito a lição de casa, quiçá a última, pois a alternativa para nós neste instante é retomada revolucionária ou marcha para a irrelevância.

terça-feira, 19 de julho de 2016

O BRASIL NA MIRA DO EI. LEMBREI-ME DE UMA MÚSICA QUE DIZIA: "ESTE SOL TÃO FORTE É UM SOL DE MORTE".

Segundo notícia do UOL, um grupo extremista brasileiro declarou lealdade ao Estado Islâmico e submissão ao líder do califado, Abu Bakr al-Baghdadi, tendo criado um canal chamado Ansar al-Khilafah Brazil na rede social Telegram

Trata-se do primeiro anúncio de adesão ao EI que vem de uma nação sul-americana. E os novos adeptos já lançaram um desafio: "Se a polícia francesa não consegue deter ataques dentro do seu território, o treinamento dado à polícia brasileira não servirá de nada".

Deu-me calafrios. O EI se diferencia de seus antecessores tanto por ter levado a brutalidade ao paroxismo, quanto por não nortear-se por critérios políticos como os que colocavam o Brasil a salvo de atentados.

Antes, era levado em conta o fato de nossa nação ser simpática aos povos árabes e receber bem os imigrantes de lá, os quais seriam evidentemente prejudicados por qualquer carnificina cometida nas bandas de cá. iAhora, no más!

Os augúrios são tão ruins que até me fizeram lembrar de um verso que sempre me incomodou: "Este sol tão forte é um sol de morte". Está numa das canções mais soturnas do Jards Macalé, lançada no ano da desgraça de 1970, quando o terrorismo de estado estava no auge entre nós. Esta:
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segunda-feira, 18 de julho de 2016

A VOLTA DO DINHEIRO SEM VALOR E O RISCO DE MARCHARMOS PARA A BARBÁRIE

A NOVA E DESPÓTICA FUNÇÃO DO ESTADO 
COMO MANTENEDOR DO CAPITALISMO

Por Dalton Rosado
"A ditadura perfeita terá as aparências de democracia; 
uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não 
sonharão sequer com a fuga; um sistema de 
escravatura onde, graças ao consumo 
e à diversão, os escravos terão 
amor à escravidão."
(Aldous Huxley)
Nas sociedades agrárias, feudais, pré-capitalistas, era a aristocracia rural quem comandava o processo de produção e dava as ordens locais numa modalidade de escravidão na qual os servos eram a máquina de produção, posto que, como o próprio nome indica, eram escravos que serviam aos parasitários proprietários de terra. 

Vivia-se a era da fisiocracia, na qual se entendia que toda riqueza se consubstanciava na terra que tudo produzia (ainda predominava a riqueza material e não a riqueza abstrata, da forma valor). A produção de bens necessários ao consumo humano era detida em grande parte pelos proprietários rurais; os servos produziam para si em terras a eles reservadas, geralmente as menos produtivas, delas tirando os seus precários sustentos em poucos dias da semana (os de folga); nos demais dias produziam para o senhorio. 

Havia também o sistema de produção no qual os servos ficavam com uma menor parte dos produtos agrícolas por eles produzidos (uma exploração material, irmã gêmea da futura extração de mais-valia). 

Nas fazendas de tudo se produzia para um consumo de subsistência e restrito a utensílios rudimentares. Havia pouca produção excedente (em razão do baixo nível de produtividade de então) que era trocada por mercadorias não produzidas nas fazendas; tal comércio se operava nas feiras dos pequenos burgos (núcleos embrionários das cidades), consistindo geralmente em artefatos fabricados pelos oficiais carpinteiros, funileiros, tecelões, etc..
Emissão de moeda sem lastro causa uma "absurda inflação" 

Tal produção era trocada muitas vezes sob a prática do escambo (mercadorias por mercadorias) ou por pagamento em moeda emitida pelo poder monárquico-teocrático com valor definido pelo próprio monarca, que era detentor de riquezas materiais enquanto proprietário de terras ou cobrador de impostos em mercadoria sem vinculação com a substância do valor oriunda do trabalho assalariado. A moeda emitida pelo reino era aceita como representação do valor por critérios de mera credibilidade no emissor monárquico e aceitação por todos como válida. 

Com o advento das armas de fogo e o enfrentamento bélico de regiões e reinos contra seus adversários (outras regiões e reinos) visando ao domínio governamental e subjugação dos dominados, foi se estabelecendo a necessidade de formação de exércitos regulares, com armas e equipamentos, cujos guerreiros treinados recebiam soldos militares, sendo pagos em dinheiro (daí a palavra soldado). Daí adveio a necessidade cada vez maior de dinheiro em espécie, emitido pelos governantes. 

Ao mesmo tempo, foi-se incrementado o comércio de mercadorias em dinheiro nos burgos e o dinheiro passou a ser representado por metais nobres (cunhados em ouro, prata ou em ligas metálicas minerais). Paulatinamente foi se corporificando a substituição do dinheiro sem valor, meramente simbólico do poder e credibilidade governamental absolutista monárquico, pelo dinheiro fundado na produção de mercadorias, fossem elas produzidas por servos e escravos de toda natureza ou pela incipiente forma do trabalho assalariado de então. 

Todas as formas de produção tinham como fundamento a escravização (tanto assim é que a palavra trabalho deriva do latim tripalium, um instrumento de tortura do Império Romano), até atingir o estágio mercantil one world, no qual o grande móvel de um sistema é o trabalho abstrato na produção de mercadorias, binômio da constituição da forma-valor que submete hoje todas as sociedades.
"Um mero título de crédito dos governos"

O antigo modus operandi dos governos monárquicos absolutistas com relação à moeda está voltando a ser adotado na atualidade: a emissão de moeda sem lastro de dólar estadunidense (moeda universal) e do euro pela União Europeia, em grandes volumes, tem sido uma prática usual como forma de suprimento da minguante massa global de valor produzido mundialmente. 

Isto se dá porque a produção tecnológica de mercadorias hoje prescinde do trabalho abstrato num patamar incompatível com a necessidade de circulação monetária, daí decorrendo a emissão de moeda sem lastro, que se constitui na causa da absurda inflação mundial nos últimos 50 anos. 

Assim é que a onça ouro em 1968 valia US$ 200,00 e hoje, passados apenas 48 anos, vale US$ 1.278,38, demonstrando que a moeda internacionalmente aceita como padrão monetário, teve uma desvalorização de mais de 500%. Como os Estados Unidos emitem moeda internacional desde o pós-guerra (1945), sua inflação é exportada para os países mundo afora. 

Estes, ainda por cima, acabam arcando com maiores índices inflacionários, pois não podem emitir moeda sem lastro, sob pena de fazerem explodir suas próprias inflações! Trata-se, evidentemente, de um mecanismo desigual e injusto.       

O dinheiro está deixando de ser lastreado pelo valor para se tornar um mero título de crédito dos governos, destituído de valor válido, ou seja, daquele que é lastreado na produção de mercadorias. Consequentemente, estamos caminhando para um impasse no qual todas as regras da ciência social econômica deixarão de servir como lógica de administração do funcionamento social e passaremos a viver sob um critério despótico, com a vontade política do Estado estabelecendo quem vive e quem morre. Sob a égide de tal regramento social, caminharemos definitivamente para a extinção bárbara da humanidade.  
Ben Bernanke, ex-presidente da Reserva Federal dos EUA 

As incógnitas são as seguintes:
  • se conseguiremos entender o que está em curso e nos rebelarmos contra a nova ordem que está se formatando, passando a colocarmos a produção de bens e serviços indispensáveis ao funcionamento das sociedades modernas sob um critério capaz de emancipá-la do conceito mesquinho de riqueza abstrata (mediação social sob a forma valor), de modo a aproveitarmos todo o potencial produtivo disponível pelo saber adquirido pela humanidade,  e com práticas ecologicamente sustentáveis;
  • se teremos a sapiência necessária para promovermos a sociedade do ócio produtivo e da abundância da produção de bens indispensáveis à vida (como por exemplo, habitação digna para todos) sem a necessidade da produção das quinquilharias que o capitalismo desenvolve como tentativa desesperada de produção e venda para aqueles poucos que ainda podem comprá-las.

domingo, 17 de julho de 2016

PARA EMPRESÁRIOS E BANQUEIROS, AS DOAÇÕES DO BNDES; PARA O AGRONEGÓCIO, A MARACUTAIA DA TRANSPOSIÇÃO...

Um dos aspectos mais chocantes do período em que o Partido dos Trabalhadores impôs sua hegemonia sobre a esquerda brasileira foi a passividade com a qual esta aceitou o entrelaçamento de interesses com os mais predatórios segmentos da burguesia e com os mais repulsivos inimigos da liberdade. 

Práticas que, quando adotadas pelos adversários de direita, eram denunciadas como emblemáticas de sua condição de inimigos do povo, passaram a ser copiadas descaradamente pelos mandatários do PT e toleradas pela companheirada como um preço a ser pago pela governabilidade.

Duas delas foram esmiuçadas pelos jornalões paulistas neste final de semana. O Estado de S. Paulo, em editorial do sábado (16), constatou que vultosos recursos públicos foram generosamente doados pelos governos petistas não apenas para os companheiros empresários, mas também para os camaradas banqueiros:
"Sabia-se que as centenas de bilhões de reais que, entre 2009 e 2015, o Tesouro repassou ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para financiar investimentos não estimularam o crescimento, mas beneficiaram muitas empresas escolhidas pelo governo do PT, daí o programa ter sido chamado de bolsa-empresário, uma ajuda financeira do poder público para grupos empresariais preferidos do Palácio do Planalto. 
O que pesquisas recentes demonstram é que não foram apenas as empresas selecionadas pela administração petista que ganharam com esse imenso desperdício de dinheiro público. Mesmo dispondo de condições bastante favoráveis para administrar os recursos do Tesouro (que assumiu os subsídios implícitos nas operações), o BNDES ficou com uma parcela reduzida dos resultados desses financiamentos. Os bancos comerciais que realizaram as operações em seu nome se apropriaram de mais de 80% dos rendimentos. O programa transformou-se, também, numa espécie de bolsa-banqueiro 
...o Tesouro emitiu títulos de dívida pública para transferir R$ 520 bilhões ao BNDES. Esses recursos deveriam ser utilizados no financiamento de máquinas e equipamentos, de modo a estimular a produção e, assim, reativar a economia. O PSI [Programa de Sustentação do Investimento] deveria durar um ano, mas foi sendo renovado seguidamente até o fim do ano passado, quando o governo petista resolveu enterrá-lo.
Foi de grande valia para um grupo de empresas, mas, apesar de sua longa duração, de sete anos, e, sobretudo, do montante que envolveu, não teve resultados expressivos para o País. A economia não se recuperou e, desde meados de 2014, está em recessão...
...Levantamento feito pelo economista José Roberto Afonso, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, mostra que os bancos comerciais (...) se apropriaram de mais de R$ 8 bilhões dos R$ 10 bilhões de spreads que as operações geraram. O BNDES, assim, ficou com menos de R$ 2 bilhões".
E, na Folha de S. Paulo dominical, ficamos sabendo que o malfadado projeto de transposição do rio São Francisco, uma descarada maracutaia em benefício do progressista agronegócio, continua detonando orçamentos e prazos:
"Sérias dúvidas sobre a capacidade do rio São Francisco de gerar água suficiente para a bilionária obra da transposição fizeram o governo lançar um novo programa de revitalização do rio.
Batizado de Novo Chico, (...) o programa visa terminar obras de saneamento nas cidades na bacia do rio, desassorear o leito e recuperar mananciais, entre outras intervenções. Estão acertados gastos de, no mínimo, R$ 10 bilhões até 2026. 
Mas o valor vai aumentar porque o governo ainda trabalha no orçamento de algumas intervenções, como dragagem, e também pedirá aos Estados da região que invistam mais recursos no projeto...
...quase dez anos depois [do lançamento do programa], o governo já gastou R$ 10 bilhões na obra dos canais e R$ 2,2 bilhões na revitalização, e nenhuma delas está pronta. Além disso, em ambas há suspeitas de desvio de recursos, corrupção e ineficiência. A construção dos canais é alvo da Lava Jato".
Admito, humildemente, que passei batido pela bolsa-empresário e pela bolsa-banqueiro no momento em que deveriam ter sido contundentemente denunciadas e combatidas. Mea maxima culpa.

Mas, quanto à bolsa-agronegócio, esta foi objeto de uma infinidade de artigos, principalmente durante a greve de fome do bispo Flávio Cappio, com a qual me solidarizei. Em dezembro de 2007, cobrei incisivamente uma postura mais digna e combativa por parte da esquerda:
"Passamos a vida recriminando a sordidez da política oficial e as negociatas que colocam recursos públicos a serviço de interesses privados. Como procedemos, no entanto, quando um bispo sexagenário ousa confrontar os abutres que saqueiam uma das regiões mais miseráveis do País e arrisca a vida em defesa do seu rebanho? O que estamos fazendo para apoiar esse altaneiro desafio às práticas viciadas e viciosas de nossa democracia? Pouco, quase nada".
E, em carta aberta a Lula, botei o dedo na ferida:
"A relutância extrema do seu governo em discutir a interligação das águas do rio São Francisco é evidência gritante de que tal projeto não sobreviveria a um debate franco. E reforça as suspeitas de que haja interesses escusos envolvidos. 
Cidadãos de reconhecida competência e credibilidade apontam falhas de todo tipo: concepção equivocada, relação custo/benefício muitíssimo pior que a de projetos alternativos, danos ecológicos que podem se tornar catastróficos. Por que tanta insistência, a ponto de tocar a obra com soldados, evocando os tempos sinistros da ditadura militar?"
Hoje salta aos olhos que os opositores do faraônico projeto sempre estiveram certos. E que as suspeitas por eles levantadas tinham tudo a ver, pois tal elefante branco, inicialmente orçado em R$ 4,6 bilhões, já consumiu R$ 12,2 bilhões e agora somos informados de que vai exigir, pelo menos, outros R$ 10 bilhões. Ou seja, o estouro se encaminha para a casa de 400% e nada nos garante que ficará por aí...

Esta fase do amoralismo petista no poder será lembrada pela verdadeira esquerda como motivo de terrível vergonha e como anos totalmente perdidos para a revolução brasileira.
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Antônio Conselheiro não viu realizada sua profecia de 
que sertão viraria mardestacada na obra-prima de 
Glauber Rocha (clique acima e assista-a na íntegra). 
Lula também dificilmente a verá... 
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