sábado, 9 de maio de 2026

LEGADO DE UM REVOLUCIONÁRIO/10

No início de abril finalmente foi relaxada a última das minhas prisões preventivas por haver militado na VPR e na VAR-Palmares, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Um dos juízes auditores considerou desnecessária a medida., os outros três seguiram a diretriz oficial.

Mas eu estava lá para sofrer e continuaria sofrendo até o momento de recuperar a minha liberdade. Estava no DOI-Codi/SP e, certo dia, me mandaram juntar a tralha que tinha, pouca coisa, e ir esperar a soltura na entrada daquela unidade. 

Passei uma tarde inteira no que seria um estacionamento, vendo viaturas chegarem e partirem, à espera do fim do pesadelo. Em vão. No fim da tarde me encaminharam de novo para a cela, porque faltava resolverem algum detalhe burocrático.

Dia seguinte, a mesma coisa. Mas, depois da algumas horas, fui finalmente libertado. Passara 11 meses e meio no inferno e sobrevivera, mas sem perspectiva nenhuma na mente, sem a mínima ideia do que faria dali em diante. 

Decidi-me pelo vestibular de jornalismo e comecei a fazer o cursinho que levava um semestre. Mas, no meu primeiro julgamento, fui sentenciado a seis meses de prisão e o juiz não quis aceitar que o tempo já havia sido cumprido nas prisões preventivas. Argumentou que não fora ele quem as decretara. 
Voltei para o DOI-Codi/RJ, tendo de aguentar as piadas sem graça dos torturadores, tipo o bom filho à casa torna.  De quebra, estava livre das torturas, mas obrigado a ouvir os berros de presos sendo torturados, móveis tombando ou ysendo arrastados, gritos dos algozes para amedrontá-los, etc. Não há palavras para relatar quanto me machucou ter retornado àquele local maldito.

Depois de umas duas semanas o advogado consegui dobrar o juiz teimoso e voltei para a rua. Curiosamente, entre a prisão e o repique, acabei totalizando um ano exato de encarceramento.

Retomei o cursinho e, finalmente, tive um período mais afortunado. Comecei a namorar com A., que acabaria  se tornando a minha primeira esposa.  E reencontrei amigos que fizera no tempo do movimento secundarista.

Estavam prestes a se formarem uma comunidade alternativa num casarão espaçoso do Jardim Bonfiglioli. Convidaram-me e fui morar com eles.

Sem grana nem vontade de fazer análise, a comuna foi minha salvação. Acabei exorcizando sozinho meus fantasmas, mas vivendo novamente em grupo, num momento em que a bestialidade da ditadura grassava solta. Passei pelas experiências que me faziam falta, como ter um amor incandescente com uma das meninas, a V.

Quando ela viajou a Minas Gerais para visitar os pais e decidiu ficar por lá, fui atrás quase sem grana, numa última tentativa de convencê-la a mudar seus planos. João, meu melhor amigo naquela comunidade, fez questão de ir junto, temendo algum descontrole da minha parte. Fomos de carona em caminhões e voltamos com um empréstimo do pai dela, após passarmos uma tarde inteira tentando descolar uma carona.

Como quase todos nessas comunidades, experimentei as drogas. A maconha e os remédios que davam barato (como o Artane) não me entusiasmaram, mas o LSD sim. Não pelo início da viagem, que chegava a ser desagradável, mas pelo final. 

Conforme o efeito ia passando, eu sentia uma calmaria extrema, como se fosse um espírito observando a faina insensata dos vivos. Anotava a esmo o que me vinha à cabeça e mais tarde transformava os apontamentos em poesias, algumas boas, outras más. 

Após ter terminado meu relacionamento com a V., não por acaso, comecei a consumir mais as drogas. Outro amigo do tempo da Frente Estudantil Secundarista se tornara traficante e não cobrava nada de mim.

Também foi nessa fase que passei a contestar o líder da comunidade, por me parecer autoritário e stalinista. De certa forma revivi o drama histórico de Stálin contra Trotsky, influenciado pelos livros da Isaac Deutscher sobre o desvirtuamento da revolução russa. Era uma espécie de psicodrama, que teve papel importante na minha volta à normalidade.

Finalmente, uma viagem estranha simbolizou o esgotamento dessa fase: vi-me caminhando na direção de uma ponte e sabia que, se a atravessasse, passaria o resto da vida na dimensão paralela da loucura. 

Refleti durante alguns minutos e resolvi não transpor a ponte. A decisão tomada no transe lisérgico permaneceu quando saí dele. Nunca mais os tóxicos tiveram relevância na minha vida.

A comunidade se esfacelou pouco tempo depois. Eu, que fazia alguns meses já trabalhava em comunicação empresarial, aluguei uma quitinete para morar com a minha primeira namorada, da qual me reaproximara. 

Esgotado pelo frenesi em que levara a minha vida nos últimos anos, decidi conceder-me o repouso do guerreiro. 
Desinteressei-me da realidade sufocante da ditadura, que grassava lá fora, e passei a me restringir  ao aqui dentro da minha toca, dividindo a existência entre o trabalho alienado durante o dia e, á noite, os rocks de terceira geração que escutava: King Crimson, Pink Floyd, Yes, Focus, Genesis, etc.

Teria chegado ao fim de minha inquietação e combatividade? Não, ainda tinha muitas páginas a escrever no livro da vida. (por Celso Lungaretti)

sexta-feira, 8 de maio de 2026

O MOVIMENTO ESTUDANTIL ERGUE-SE CONTRA O SUCATEAMENTO DAS UNIVERSIDADES PÚBLICAS

Para matar as saudades das ocupações estudantis de 1968 e da tomada da reitoria da USP em maio de 2007, republico abaixo minhas impressões de quando visitei a segunda. Já com 56 anos, fiz questão de levar  minha solidariedade à moçada que ficou lá por 50 dias e acabou sendo vitoriosa contra a truculência policial e fulminando os quatro decretos autoritários do governador José Serra.

Gostaria de estar publicando aqui um texto sobre a ocupação atual, mas as pernas não me ajudam.

Transmito, ainda assim, meu abraço aos que vieram depois mas honram a combatividade de minha geração, a de 1968. 

Um dos maiores orgulhos da minha vida é ter-me mantido fiel à opção revolucionária que fiz entre dezembro de 1967 e janeiro de 1968.  Muitos da minha geração abandonaram os seus ideais e foram enriquecer ou empoderar-se. 

Lamento por eles, mas tomo a liberdade de citar-lhes  Marcos 8:36: de que vale alguém ganhar o mundo inteiro se perder a sua almaMemória não morrerá. (CL) 
POR DENTRO DA REITORIA OCUPADA
A última segunda-feira de maio [dia 28] é ensolarada, uma exceção no invernal outono paulistano. As pessoas ao redor da reitoria da Universidade de São Paulo, ocupada pelos estudantes desde o dia 3, mostram aquela animação habitual de quem reencontra o calor e o céu azul, após vários dias frios e cinzentos.

Conversam, brincam, confraternizam. Há líderes de servidores públicos se revezando num alto-falante para instruir/entreter quem chegou adiantado à reunião da categoria que terá lugar ali mesmo, ao ar livre. Ninguém parece preocupar-se com uma invasão da Polícia Militar, para cumprir o mandado de reintegração de posse concedido pela Justiça.

Uma barricada de pneus diante da entrada é a vitrine da ocupação. De que realmente servirá, caso cheguem brutamontes bem treinados e equipados, que têm a violência como realidade cotidiana? Quase nada. Mas, os símbolos têm papel importante nas batalhas em que o grande objetivo estratégico é a conquista de corações e mentes.

Diante da única porta de entrada, alguns estudantes do esquema de segurança fazem a triagem dos visitantes. Basta ter uma carteirinha de aluno ou professor da USP para entrar sem problemas. Como não sou uma coisa nem outra, levo alguns minutos para convencê-los de que não vim brincar de 007

Como credencial, apresento meu livro Náufrago da Utopia, que por acaso trago comigo. Agrada-lhes o caderno iconográfico, com muitas fotos do movimento estudantil de 1968. Meio convencidos de minhas boas intenções, deixam que eu vá parlamentar com a Comissão de Comunicação (ou rótulo que o valha). Acompanhado, por enquanto.

Lá decidem que eu posso circular à vontade pela reitoria ocupada, liberando meu cicerone/vigia para outras tarefas. Uns 15 estudantes rodeiam meia dúzia de computadores, uns digitando e os outros palpitando.
Cuidam de manter o blog da ocupação no ar, de selecionar e imprimir textos que serão expostos nos quadros de avisos e paredes. E também de mandar mensagens de esclarecimento aos jornalistas que falam mal da ocupação. [Como se isso adiantasse. Tirando honrosas exceções, a imprensa se colocou contra os estudantes, às vezes dissimuladamente, outras da forma mais panfletária e caluniosa, como fez a Veja São Paulo, que os acusou de vândalos, baderneiros e arruaceiros.]

A diferença mais marcante com relação às ocupações antigas é, exatamente, o esquema de comunicação sofisticado da atual, incluindo TV por Internet e rádio livre

De resto, sinto-me como se tivesse entrado num túnel do tempo e desembarcado naquele mês de julho de 1968 em que a Faculdade de Filosofia da rua Maria Antônia (SP) esteve ocupada para servir como QG das iniciativas em apoio da greve de Osasco, lançando a nova onda que (como agora) rapidamente se alastrou.

Os mesmos colchonetes espalhados por um salão em que repousam alguns sentinelas cansados, após a vigília da madrugada – período mais propício para uma operação policial, exigindo, portanto, cuidados redobrados (e muita disposição para enfrentar o frio).

Os mesmos jovens com roupas coloridas e brilho no olhar, convencidos de que estão fazendo História, embora alguns ainda sejam imberbes.
Aqui foi travada a batalha da Maria Antônia

Os mesmos mosaicos de textos e imagens compondo um visual agradavelmente anárquico. [O pôster mais hilário é o do governador José Serra fazendo mira com um fuzil e os dizeres José Serra, nada mais nos UNE. Que ingenuidade, deixar-se fotografar em pose tão incompatível com sua aura e seu passado!]

Sou capaz de apostar que, se fizesse uma excursão como a que estou fazendo, a reitorazinha teria chiliques, pois, à anarquia criativa, deve preferir os ambientes burocratizados, assépticos e sem vida, a julgar pelo que revela nas entrevistas: faz musculação, esteira e escova nos cabelos, usa terninhos de estilo clássico, quer corrigir pálpebras e bochechas com cirurgia plástica.

Deuses, o que faz uma farmacêutica numa posição dessas? Serão esses os temas que uma reitora deve tratar na imprensa, quando sua universidade vive a maior crise das últimas décadas? 

[De quebra, é uma ingênua que, a mando ou com autorização do governador, pede reintegração de posse e depois paga o mico de ver o mandado judicial descumprido, já que os estudantes não engoliram o blefe e Serra teme as consequências desse presumível confronto sobre suas ambições políticas.]
Apesar de toda a grita demagógica dos direitistas empedernidos e dos cristãos-novos do reacionarismo, não há sinais visíveis de depredação ou vandalismo. Aliás, os estudantes criaram um sem-número de comissões, para cuidar de cada detalhe administrativo da ocupação, zelando pelo patrimônio público. 

Até permitem que os faxineiros continuassem cumprindo sua função de manter limpas as várias dependências, indiferentes ao perigo de que o inimigo possa infiltrar-se camuflado com macacões.

O que não funciona mesmo são os caixas eletrônicos de bancos, nos quais foram colados avisos de sem dinheiro. Uma fração infinitesimal da usura consentida pela Justiça e abençoada pelo sistema foi detida. Vem-me à lembrança uma música de Sérgio Ricardo, ídolo dos universitários responsáveis pelas ocupações de quatro décadas atrás: Os bancos e caixas-fortes/ que eram rocha, se quebraram/ e um rio de dinheiro correu.

À saída, lanço um último olhar a esses jovens belos, brilhantes e idealistas, aparentemente tão frágeis, mas dispostos a enfrentar a tropa de choque da PM, se isso for necessário. Espero, torço para que não venha a ser.

Volto para o mundo real da desigualdade, da competição e da ganância, depois de um breve reencontro com o faz-de-conta revolucionário.
José Serra, ex-presidente da UNE. Pode?

Ciente de que há um longo caminho a percorrer até que os voluntários da utopia voltem a ser em número suficiente para tentarem ir além do faz-de-conta.

E, mesmo assim, esperançoso, pois um passo importante está sendo dado, com esse renascer do movimento estudantil que ora se delineia. É tudo de que precisamos, a renovação e oxigenação da esquerda, depois de tantas desilusões e defecções.

As pedras voltam a rolar. (por Celso Lungaretti)

quinta-feira, 7 de maio de 2026

MAIO É UM BOM MÊS PARA LEMBRARMOS O LIBERTÁRIO 1968 FRANCÊS

Não existe unanimidade quanto ao dia em que começou a chamada Primavera de Parismas um certo consenso quanto às manifestações unicamente estudantis terem se iniciado em 2 de maio de 1968; se avolumado com a entrada de outros segmentos na semana seguinte; e erguido barricadas no dia 10.

São acontecimentos de 58 anos atrás, mas nossa história começa ainda mais longe, em 1871, ano da Comuna de Paris.

O avanço crescente das lutas do proletariado parecia indicar que a profecia de Karl Marx se concretizaria, com uma onda revolucionária varrendo o mundo de forma quase espontânea, como resultado do esgotamento do capitalismo e da necessidade de sua substituição por uma forma mais avançada de organização da sociedade.

ancién régime, no entanto, contou com o braço forte da Alemanha para retomar o controle da situação e massacrar os communards, com as baixas refletindo bem a desigualdade que marcou o enfrentamento entre as tropas da reação (100 mil soldados) e os defensores da primeira república proletária da História (menos de 15 mil milicianos): foram mil os mortos do lado vencedor e 80 mil dentre os perdedores. Ai dos vencidos!
A liberdade guiando o povo (versão 68)
Marx concluiu que os inexperientes revolucionários haviam sido tímidos demais, deixando, p. ex., de 
quebrar a máquina burocrática e militar do Estado enquanto podiam. 

E ficou evidenciado que os governos de países capitalistas acudiam prontamente seus congêneres ameaçados por revoluções, enquanto a solidariedade do proletariado internacional demorava a se organizar.

Lênin foi além, priorizando a estruturação de um partido revolucionário duro, que funcionasse com uma disciplina quase militar, apto a assumir a liderança dos trabalhadores nos momentos agudos para direcionar corretamente sua ação. 

Sua concepção vanguardista levava em conta, também, o surgimento de opositores relevantes no campo da esquerda: os adepto do reformismo, para o qual tendia naturalmente a chamada aristocracia proletária (os operários com cargos superiores e salários mais elevados).  

Constatando que a perspectiva de melhorarem progressivamente de vida sob o capitalismo, sem revolução nenhuma, seduzia muitos trabalhadores, Lênin chegou à conclusão de que o proletariado não se compenetraria espontaneamente de que seu papel histórico era o de dar um fim à exploração capitalista.

Necessitava de uma vanguarda que, participando com ele das lutas por ganhos materiais, lhe fosse incutindo a compreensão de que as eventuais vitórias eram ilusórias e logo se dissipariam, daí a necessidade de uma profunda e definitiva transformação da sociedade para que as conquistas se eternizassem.

Lênin estava certo em termos de eficácia: só um partido como o Bolchevique conseguiria tomar o poder em novembro de 1917, apesar de contar com efetivos bem menores do que os de seus competidores do campo da esquerda. 

Em momentos críticos, poucos são os militantes que sabem o que querem, estão dispostos a irem até o fim e obedecem sem pestanejar a comandantes capazes. 
Esses poucos, contudo, pesam bem mais do que muita gente confusa, sem grande determinação nem líderes à altura dos acontecimentos.

Mas, a profecia de Trotsky sobre a maldição do vanguardismo, lançada no tempo em que ele ainda se opunha aos bolcheviques, também se revelou correta: Primeiramente, o partido substitui o proletariado. Depois, o Comitê Central substitui o partido. Finalmente, um tirano substitui o Comitê Central.

O certo é que a União Soviética foi se tornando um mero capitalismo de Estado totalitário: 
— seja porque a vanguarda bolchevique incubava mesmo uma nomenklatura ou seja, uma burocracia partidária quase equivalente a uma nova classe privilegiada;
— seja porque a Rússia não estava mesmo pronta para o socialismo e os vitoriosos de 1917 foram obrigados a cumprir, em seguida, muitas tarefas características de uma revolução burguesa, com a duplicidade de objetivos necessariamente causando desvirtuamentos;
— seja porque o proletariado russo, embora aguerrido e heroico, era numericamente muito reduzido, tendo boa parte dos seus melhores filhos tombado na defesa da revolução;
 Invasão da Tchecoslováquia desiludiu socialistas do mundo inteiro
— seja porque a consolidação do novo regime se deu em condições dramáticas, num terrível isolamento, com a URSS  tendo de, em 1918/1921, resistir sozinha à invasão de tropas de umas 20 nações capitalistas e aos contingentes dos reacionários internos, para depois desenvolver esforços hercúleos no sentido de saltar rapidamente de um país com desenvolvimento tardio para uma nação moderna).

De certa forma, a União Soviética, sob a tosca tirania de Stalin, serviu como espantalho para a propaganda capitalista dissuadir os operários das nações economicamente mais avançadas de seguirem na mesma direção. 

Contrariando a constatação de Marx, segundo quem eram os países mais pujantes que determinavam o destino da humanidade, com as demais sendo arrastados por sua dinâmica, as revoluções seguintes se deram em países pobres, desorganizados por guerras ou ainda emancipando-se da dominação colonial.

E o capitalismo foi aprendendo a lidar de forma cada vez mais eficiente com as várias tentativas vanguardistas que foram surgindo: seja vencer militarmente as guerrilhas urbanas e rurais, seja asfixiar economicamente ou derrubar governantes adversos por meio das Forças Armadas, do Judiciário ou do Legislativo de seus países.

Mas, a revolta jovem de 1968 na França foi o primeiro indício de que a História não tem fim e, quando algumas portas se fecham, outras se abrem. O capitalismo não tem tudo dominado, nem jamais terá; pelo contrário, marcha em passos rápidos para a extinção, que só vai significar o fim da História profetizada por Francis Fukuyama se a própria espécie humana extinguir-se junto com ele.

A sociedade que desenvolveu ao máximo os meios de comunicação é também a sociedade em que uma simples centelha evolui rapidamente para incêndio, surpreendendo governos e suas polícias.

Já em 1968, uma onda de paralisações em escolas de Paris evoluiu rapidamente para uma formidável greve geral, fazendo o presidente De Gaulle balançar no cargo, que só conservou graças à boia que o Partido Comunista Francês lhe atirou, mais interessado em manter sua liderança nas entidades sindicais do que em fazer a revolução. 

Merecidamente, ao agir como fura-greves da nova Comuna de Paris (são muito significativas as semelhanças da pauta dos communards de 1871 com a dos congêneres de 1968, ambas inspiradíssimas!), o PCF se condenou à insignificância. Os franceses não são tão condescendentes com relação às atuações desastrosas de seus partidos quanto os esquerdistas brasileiros...

E, nas manifestações contra o capitalismo e suas mazelas que vêm marcando o século atual, incluindo as jornadas de junho de 2013 no Brasil, a pulverização da vanguarda é uma característica comum. 

Não há força majoritária da esquerda as convocando e conduzindo, mas uma imensidão de células independentes imantadas pelas redes sociais.Fazem lembrar as ondas revolucionárias que, segundo Marx, varreriam o mundo. 

Dá para imaginarmos que, com a agonia capitalista chegando ao ponto decisivo, uma crise do tipo da imobiliária de 2007/2008 possa não só evoluir para um clash como em 1929, mas também gerar uma reação da sociedade equivalente à Primavera de Paris.

Concordo com o Zuenir Ventura: 1968 não terminou. Os fios da História poderão até ser reatados mais de meio século depois, por que não? (por Celso Lungaretti)  

quarta-feira, 6 de maio de 2026

LEGADO DE UM REVOLUCIONÁRIO (parte 9)

Quando eu me encontrava preso
na cela de uma cadeia
foi que eu vi pela primeira vez
as tais fotografias
em que apareces inteira.
Porém lá não estavas nua
e sim coberta de nuvens
Caetano Veloso/Terra, música que
 compôs na solitária do DOI-Codi/RJ,
pela qual eu também logo passaria

Eu contava os dias transcorridos desde que eu havia sido preso. Não posso precisar exatamente quando quebraram a minha incomunicabilidade, mas tinham se passado dois meses e meio. 
.
Na Lei de Segurança Nacional que eles próprios  inventaram, os militares limitaram a fase operacional (sem visitas de parentes nem de advogados) a 30 dias. Ou seja, eles próprios desrespeitavam as regras do jogo que impunham pela força.

Meus pais puderam enfim me visitar. Ficaram estarrecidos com minha magreza; perdera uns 30 quilos. Mais tarde me disseram que eu estava parecendo os esqueléticos prisioneiros soltos dos campos de extermínio nazistas.

De lá até a libertação eu estaria salvo das torturas, a menos que algum companheiro recém preso lhes dissesse que eu conhecia uma informação importante. Não foi o caso.

O desafio para mim passou a ser o de suportar dias e mais dias sem nada para fazer. Procurava esticar as minhas lembranças o máximo que conseguia. Cada hora que passava era uma hora ganha contra a depressão que me assediava,

Hoje me recordo mais da fase operacional do que desse período intermediário, no qual as novidades eram apenas a de ser levado a São Paulo para comparecer às audiências nas auditorias militares e ser devolvido para o Rio de Janeiro.

Em São Paulo, eu permanecia até que os milicos tivessem outro companheiro para enviar ao Rio de Janeiro. Então, me mantinham ou na sede do DOI-Codi ou no quartel da Polícia do Exército.

Do quartel, uma das minhas principais lembranças é a de que, quando estava sendo transportado para alguma das duas auditorias da Avenida Brigadeiro Luís Antônio, o carro ficou preso num congestionamento exatamente diante de uma banca de jornais. 

Nela estava exposto para os transeuntes um que destacava a morte de mais integrantes do Movimento Revolucionário Tiradentes que supostamente tinham reagido à prisão.

O oficial que comandava o destacamento disse que eu tinha sorte de haver sido preso no semestre anterior, caso contrário  dificilmente escaparia com vida. Era o que eu deduzira da sequência de óbitos dos militantes do MRT. Mas serviu como confirmação de que havia prisioneiros sendo executados já no segundo semestre de 1970. Depois a prática se generalizou.

Quando cheguei pela primeira vez na central de torturas paulista, quem a comandava era o coronel Audir Santos Maciel, antecessor do coronel Brilhante Ustra. O Santos Maciel me recebeu dizendo de imediato que eu poderia ficar tranquilo, pois era prisioneiro do DOI-Codi/RJ, que proibira torturas contra mim (provavelmente por ainda temer que eu infartasse).

Mas fez questão de me conduzir num tour por aquele local maldito. Percebi que ele queria era me mostrar o trono do dragão, uma cadeira metálica na qual os prisioneiros eram atados para receber choques.  Irônico, disse algo na linha de olha aí do que você escapou

Recriminou-me, brincalhão sem graça, por ter ido ser preso no Rio de Janeiro, depois de todo esforço que seu órgão fizera para me agarrar. Inclusive, sabendo que eu frequentava a Biblioteca Central, designou agentes para me esperarem lá. Terão aproveitado para ler algum livro? Duvido,

Mas, fiquei desolado ao saber exatamente quem dera tal informação para o inimigo, ajudando-o a me perseguir. Tratava-se de  um dos integrantes da minha base secundarista 

Outra recordação marcante foi a de que dois prisioneiros cuja libertação já estava decidida concordaram em levar mensagem para meus pais, que sabiam da minha saída da Vila Militar, mas foram mantidos na ignorância de para onde eu fora transferido.

Até duvidei de que eles, após passarem por aquele inferno, arriscassem sua liberdade para me fazerem tal favor. No entanto, meu pai contou que haviam cumprido o prometido, visivelmente assustados, mas com muita coragem.

Também lembro com enorme respeito dos recrutas que, mesmo escutando os urros dos companheiros torturados, ousavam trazer-me sobras das refeições quando eu mais precisava desses reforços para ir recuperando o peso perdido. Não o faziam por convicções revolucionárias, apenas por compaixão.

No DOI-Codi paulista era pouco o espaço livre, daí terem amiúde  me colocado na mesma cela de prisioneiros ainda submetidos à tortura. 

Era muito deprimente eu ouvir os gritos lancinantes de quando levavam choques, insuportáveis, apesar da distância que existia entre as celas no térreo e as torturas no primeiro andar. 

Certa vez o coronel Brilhante Ustra mentiu que nunca havia escutado os ruídos da pancadaria e os berros dos torturados. Respondi que isto só seria possível se ele fosse surdo, pois aquela barulhada se ouvia até na rua.  

Lá fiquei conhecendo a triste história do sargento Kogi Kondo, cuja cela ficava próxima da minha. Ouvia os oficiais indo até as celas para xingá-lo de covarde e vergonha da farda, então perguntei qual era o motivo desse tratamento.

O pobre coitado era da Intendência e levava víveres e munição para as tropas durante o cerco de Registro, quando o veículo foi dominado pelos companheiros fugitivos e os militares tiveram de ceder suas fardas. 
Eu estava só com  recos  [recrutas] inexperientes. Os terroristas nos renderam, obrigando-nos a transportá-los, no nosso caminhão, para fora do cerco. Disseram que nos matariam se não colaborássemos. Então, passamos as barreiras calados, sim. É graças a isso que estou vivo. Prefiro aguentar ofensas e zombarias do que morrer.
Acabou servindo, claro, como o principal bode expiatório do fiasco da operação que mobilizou inutilmente quase três milhares de militares. O sargento ficou preso por algum tempo e depois o libertaram, expulsando-o do Exército.
Já no DOI-Codi/RJ, nauseava-me  escutar o relato das indignidades a que eles haviam submetido Caetano Veloso e Gilberto Gil. Não lhes perdoavam a fragilidade, comparada ao comportamento mais firme dos militantes. E se orgulhavam, p. ex., de terem arrancado lágrimas de um deles ao tosar-lhe a cabeleira com máquina zero, por pura maldade.

Levando uma rotina tediosa, velhos sargentos adoravam ter os subalternos e nós presos como ouvintes compulsórios de seus  causos  e bravatas.

Um deles contou que a PE/RJ estava incumbida do policiamento do bairro em que se localizava a Vila Militar. Então, ao prender um estuprador de menores, o matou batendo nas solas dos seus pés com uma palmatória e obrigando-o a correr. 

Após tal procedimento ser repetido várias vezes, ele teria expirado. Eu nunca consegui confirmar se uma pessoa poderia ou não ser executada dessa maneira,

Por último, um episódio pitoresco. Cumprindo sua missão de policiar a área de Deodoro, na véspera de uma data festiva qualquer os bravos soldados aprisionaram perigosas... prostitutas. Duas ou três dezenas delas foram trazidas para onde estavam nossas celas. 

Então ouvi uma boa alma propondo que alguma delas fosse colocada na minha cela e o sargento respondendo que seria arriscado. Caso eu contraísse uma doença venérea, como iriam explicar isso para os oficiais? (por Celso Lungaretti)

terça-feira, 5 de maio de 2026

PIPAS E BALÕES SE TORNARAM LETAIS

U
ma menina de 12 anos, no município de Álvares Machado (interior paulista), teve no domingo passado a péssima ideia de, através da janela, esticar a cabeça para fora do carro. 

Sofreu um corte profundo no pescoço, causado pela linha com cerol  (mistura de cola com vidro moído ou pó de ferro, aplicada em linhas de pipa para cortar outras pipas). Morreu.

No fim do século passado, eu atravessava um viaduto a uns 60 quilômetros por hora e, de repente. o motoqueiro que estava logo à frente parou por completo.

Não dá para explicar qual o motivo de eu ter dado uma freada brusca, cantando os pneus, em vez de ultrapassar a moto pela pista ao lado, como costumava fazer nessas situações.

Fábrica de plásticos incendiada por queda de balão
Ele havia parado porque percebeu uma linha de pipa no seu caminho. Se eu não tivesse conseguido brecar, atiraria a moto para a frente e ele morreria decapitado. Ademais, talvez meu carro se desgovernasse e me causasse um grave acidente.

Eu havia feito matérias sobre funcionários da Duratex cujo hobby era confeccionar pipas e balões. Simpatizei com ambos, pois havia muito de arte em seus passatempos. 

Depois, aprendi que pipas poderiam matar gente e balões incendiar construções (houve inclusive uma fábrica de fotos de artifício que foi pelos ares).

Tudo era menos perigoso na minha meninice. Nosso mundo ficou muito sem graça quando brotaram proibições como cogumelos. Lamentei por minhas filhas, que tiveram de crescer convivendo com  esses terrenos minados. Mas... (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 4 de maio de 2026

LEGADO DE UM REVOLUCIONÁRIO (parte 8)

O Capitão Guimarães virou
bandido. Seguiu sua vocação

Apesar dos espancamentos, o que realmente me abalava nas torturas eram os choques elétricos. Também pudera: desde a juventude eu tinha tal sensibilidade aos choques que, em dias de chuva, os sentia quando fazia uma ligação nos telefones de ferro espalhados pela cidade e quando viajava em ônibus elétrico. 

Pior ainda era quando recebia choques pendurado no pau-de-arara. O sentimento de impotência era detestável. Certa vez um capitão me mostrou um cabo de vassoura e disse que ia me penetrar com ele. Acabou ficando só na ameaça, mas o fato é que, se ele a cumprisse, eu não poderia fazer nada. Estava completamente  indefeso.

A falta de informações também me angustiava. Pensava que o choque passando pelo pênis e escoto poderia me tornar impotente; e quando os fios eram pendurados nas duas orelhas, que talvez ficasse com problemas mentais. Bobagem.    

Meu arrependimento forçado se deu no final de junho, porque a equipe de torturadores da PE da Vila Militar tinha sido privada da tarefa de caçar revolucionários e se ressentia muito da perda de tudo que roubava de nós ao sermos presos e dos generosos prêmios em dinheiro concedidos por empresários ultradireitistas. Parecia o velho Oeste.

Mas a morte do jovem Chael Charles Schreier naquela unidade, que repercutiu pessimamente no Brasil e em vários outros países, levou a repressão a unificar suas forças para evitar novos descontroles. No Rio de Janeiro só a  PE da rua Barão de Mesquita manteve o privilégio, enquanto os torturadores da Vila Militar ficaram chupando o dedo.

Aí o tenente Ailton Joaquim, que comandava os torturadores, teve a má ideia de arrancar informações inéditas  de mim e de outros presos da Inteligência da VPR, desrespeitando as ordens recebidas. Lá deveríamos apenas dar os depoimentos finais para a remessa do inquérito a alguma auditoria militar.

Resultado: o gigantesco Marcio Antônio Povorelli (que pesava 140 quilos e praticava judô), num dia em que era o cabo da guarda, ao invés de me levar para a solitária, após uma sessão de torturas, no meio do caminho me deu um tapa de mão aberta no meio do caminho  estourando o tímpano do meu ouvido direito; e uma aliada do meu setor cortou os pulsos, mas foi socorrida em tempo.
O Presídio Tiradentes, de triste memória.
O tenente Ailton decerto seria punido, então dobrou a aposta: inspirado no arrependimento voluntário de quatro presos políticos do Presídio Tiradentes e no arrependimento televisado do companheiro Massafumi Yoshinaga, exigiu que eu escrevesse uma carta aconselhando os jovens a não morrerem naquela luta perdida. 

Eu a redigi com a aliada recebendo choques e gritando na sala ao lado. Torturadores entravam e saíam o tempo todo, esmurrando-me de passagem.    

Pensei que seria apenas uma besteirinha pouco influente do setor de Guerra Psicológica do Exército, para ser distribuída impressa. Afinal, com as marcas de soco que eu tinha na cara, supunha que não fariam nada presencial comigo. 

Estava errado. Acordaram-me de madrugada dizendo para me vestir porque ia ser fuzilado. No trajeto o capitão Ailton Guimarães Jorge (futuro bicheiro e bingueiro) disse que eu estava sendo levado a uma tevê e teria de repetir fielmente o que constava na minha carta aos jovens, caso contrário nem voltaria para o quartel: seria executado no caminho e jogado embaixo da ponte. 

A TV era a Globo, no Jardim Botânico. E uma competente maquiladora conseguiu fazer desaparecerem quase  que por completo as manchas roxas no rosto. 
Na fase das torturas

Não fiz acordo nenhum com a repressão nem fui libertado logo em seguida, como meus cinco antecessores. 

Fiquei confuso durante alguns meses, mas o hábito da leitura me devolveu a racionalidade: o companheiro Wellington Moreira Diniz, que também estava preso na PE da Vila Militar, passou a ler os livros da biblioteca do quartel para desanuviar, já que era doente cardíaco.

Consegui pegar carona nesse esquema e os dois lemos principalmente a coleção completa do Julio Verne, várias vezes cada volume, pois a alternativa eram os intragáveis livros militares,

Quando minha última prisão preventiva foi finalmente revogada, eu estava tão normal quanto possível, irritadiço como nunca e sem saber o que faria do resto da vida, já que meus melhores sonhos haviam se dissolvido no ar. (por  Celso Lungaretti)

domingo, 3 de maio de 2026

CANARINHO OU CARANGUEJO? O BRASIL NÃO VOA, ANDA CADA VEZ MAIS PARA TRÁS

Na avalanche promocional da Copa do Mundo, os filhos de Goebbels (como os denominava o saudoso Zé Celso) insistem em adotar o canarinho como símbolo do Brasil. Os publicitários estão errados: o bicho mais apropriado é o caranguejo, que anda para trás.

O Fundo Monetário Internacional informa que, entre 1980 e 2025, o PIB per capita global subiu de US$ 3.380,47 para US$ 26.188,94 (aumentou 675%), enquanto o do Brasil cresceu de US$ 4.427,94 para US$ 23.380,98 (aumentou 428%).

Ou seja, o mundo avança e o Brasil não consegue acompanhar seu crescimento econômico. Pelo contrário, estava à frente da média e agora passou para trás da média.

Desses 45 anos, 16 anos e meio tiveram governos do PT, o que serve para provar que, sob o capitalismo, estamos e estaremos sempre condenados ao fracasso.

E que a aposta petista na democracia burguesa, com o consequente abandono das lutas para dar um fim à exploração do homem pelo homem, foram um tremendo tiro no pé. (por Celso Lungaretti
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