Tudo que você conhecia sobre a decadência do capitalismo e a podridão do mercado financeiro é superado com folga porO dia antes do fim(Margin Call, dir. J. C. Chandor, 2011).
Trata-se de um filme que, sem chamar o vilão pelo nome, mostra como o banco de investimentosLehman Brothersagiu em setembro de 2018, quando, movido pela ganância, maximizou umacrise anunciadaa tal ponto que ela quase acabou sendo o estopim de uma novaGrande Depressão(a qual, ao que tudo indica, foi apenas adiada e está cada vez mais próxima).
Não é um documentário, mas sim um drama, focado na reação dos dirigentes e corretores a partir da materialização do seu pior pesadelo.
Não demora muito para o espectador ficar sabendo que, entre o fim do expediente num dia e o início no outro, a empresa definiu sua linha de atuação e vai preparar-se para levá-la à prática, já que o mercado logo saberá que seus títulos são podrese o colapso, portanto, é questão de horas.
Depois da má notícia, os corretores recebem a proposta indecente: a companhia espera que eles vendam o máximo desses papéis antes que a notícia se espalhe.
Os que aceitaremqueimar-se-em definitivo na profissão, receberão uma vultosa gratificação para irem mantendo seu alto padrão de vida enquanto se reciclam e buscam novas oportunidades.
A reação deles é previsível: fazem das tripas coração para salvarem-se do naufrágio. O que mais se poderia esperar dos participantes conscientes daquele esquema de negociatas que lhes rendia magníficos bônus e comissões?
Depois, nos papos entre os mandachuvas, percebemos que estes têm a exata noção do tsunami que suas manobras (ilegais) causarão no mercado, mas não estão nem aí; querem é salvar o máximo de grana que puderem antes da decretação da falência.
A excelência do filme se deve, entre outros méritos, a não pretender dar uma aula sobre subprimes e como se transformaram numa arapuca para os investidores, mas sim confrontar as várias reações das pessoas que, vendo uma fase de sua existência chegar ao fim, agem da maneira mais egoísta possível, na linha do f...-se o mundo, eu não me chamo Raimundo. (por Celso Lungaretti)
Maria Luiza Bogo Lopes, uma jovem de Indaiaí (SC), com 18 anos de idade e grávida de sete meses, morreu após procurar atendimento médico em dois hospitais por quatro vezes, a primeira em 30 de março. O bebê também morreu.
O caso parece ser de negligência médica. Conheço um mais chocante ainda.
Visitando a minha mãe na Mooca, no final do século passado, li num jornal de bairro que uma mulher, após ter dado à luz duas vezes, estava tendo sérios problemas com a terceira gestação.
Procurou ajuda num hospital municipal da Vila Alpina, que atuava em parceria com uma associação de defensoras do parto natural. Graças à pressão delas, foi-lhe negada por quase um dia inteiro a cesárea que pedia aos berros por causa da dor que sofria. Finalmente, ela e o bebê morreram.
O caso ficou por isso mesmo, embora eu o tenha denunciado para toda a cidade de São Paulo. Quem se interessa pela morte de uma mãe de família pobre, que não conseguia sequer bancar uma cesárea? Quase ninguém.
Infelizmente, não sendo advogado, o que fiz foi pouco para que tais fanáticas fossem julgada por homicídio culposo. Meus textos não foram suficientes.
Também com a negligência médica tive uma má experiência.
Minha primeira timpanoplastia foi bem sucedida, mas uns 10 dias depois fui num hospital especializado por causa de um ataque de labirintite. O plantonista, médico de fim de semana, inexplicavelmente jogou pressão no ouvido operado e o enxerto estourou. Para sempre. Tentei restabelecê-lo duas vezes, em vão. Perdera a única chance de consertar o estrago da repressão.
Tentei conseguir o depoimento de algum otorrinolaringologista para processar o hospital. Não encontrei. Até o que havia me operado tirou o corpo fora. O corporativismo é uma merda. (por Celso Lungaretti)
Osociopata sanguinário que preside os Estados Unidos fez uma afirmação que o iguala aos nazistas:
Uma civilização inteira morrerá nesta noite, para nunca mais ser ressuscitada.
Pode ser um mero blefe, como quando Hitler ocupouno gritoa Renânia, a Áustria, os Sudetos (e depois o restante da Checoslováquia) e, por fim, anexou o Memel.
Ou vir a ser o pior crime contra a humanidade dos muitos que Trump já cometeu, fazendo até lembrar o Holocausto.
Nos dois casos, ele segue fielmente as pegadas do exterminador alemão.
De resto, já houve muita especulação sobre se Hitler teria ou não sido um satanista. Não creio que o fosse, mas é bem possível que imaginasse ser.
Também nisto Trump se parece com ele. Afinal, quem promete liberar todo o infernocontra outra nação, pode muito bem estar acreditando que tem poder para tanto. (CL)
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OBSERVAÇÃO - era mesmo só um blefe. Trump não consgue sair-se bem com quem paga pra ver. É mesmo um palhaço.
Motoristas que trafegam pela avenida Tiradentes já estão acostumados a esta vista da sede da Rota
Aextremada insistência d'O Estado de S. Pauloem derrubar os ministros do STF Alexandre de Moraes e Dias Toffoli me fez lembrar de um episódio da minha carreira jornalística em que estive envolvido numa empreitada semelhante, só que em miniatura.
Estava cobrindo férias de um colega no mesmo Estadãoe, naquele momento, precisava muito ser efetivado.
Aí fui reportar uma manifestação de preservadores do patrimônio histórico no Jardim da Luz (o mais antigo desses espaços públicos na cidade de São Paulo, tendo sido aberto à população em 1825, inicialmente como jardim botânico).
É que o secretário municipal de Cultura, Jorge da Cunha Lima, tinha lançado um programa de revitalização da região, o Luz Cultural. E havia ordenado a demolição de uma torre que, durante uma das badernas militares da década de 1920, havia sido atingida por tiros de canhão e guardava as marcas de tais canhonaços.
Uma entidade de moradores da região fez uma barreira humana para impedir a continuidade dos trabalhos e eu, considerando válida sua argumentação, preparei uma notícia de rotina sobre a ocorrência. Mas ela repercutiu mais do que se esperava e o jornal me designou para fazer suítes(continuações) diárias.
Eis a torre da discórdia
Aí não só critiquei o trabalho de uma entidade municipal que deveria estar protegendo esses símbolos do passado (o que a levou a convocar imediatamente uma reunião que impugnou a demolição), como também passei a comentar outras iniciativas duvidosas do Cunha Lima.
Após uma meia dúzia do noticiário adverso que eu estava criando, ele me chamou para entregar os pontos. Disse que a demolição tinha sido um erro e ele, como homem de bem, o reconhecia. Mas pediu que parasse com a campanha contra outras realizações de sua pasta.
O experiente fotógrafo que me acompanhava pediu ao Cunha Lima que apontasse num mapa que estava no chão a região do Luz Cultural. Ele teve abaixar-se para fazer isto e foi clicado numa posição de quem está pedindo perdão.
Resultado: omea culpa ocupou toda a última página (anúncios publicitários à parte) do jornalão, com meu texto celebrando a vitória e a foto do secretário fazendo o que parecia ser uma penitência.
Mais tarde, fiquei em dúvida sobre se havia batido pesado demais no Cunha Lima. Quando, contudo, fiquei sabendo que ele era o diretor de redação da Última Hora em Pernambuco e debandou do jornal quando os militares deram o golpe de 1964, frustrando qualquer possibilidade de reação à quartelada, recordei-me da velha máximaDeus escreve certo por linhas tortas.
Mas, pelo menos eu encerrei minha campanha tão logo ele admitiu a lambança. Hoje em dia, contudo, o Estadão parece querer passar o ano inteiro com tal episódiosecundáriosendo destacado na capa.
Estardalhaço demais para um mero indício
Nunca foi tão justificada a frase do Paulo Francis, sobre o combate à corrupção dos políticos nada mais ser do que uma bandeira da direita.
Não passa de uma consequência do amoralismo intrínseco ao capitalismo e jamais será erradicada enquanto durar a exploração do homem pelo homem.
Infelizmente, a esquerda abandonou sua missão de educar o povo e prefere ficar travando uma batalha de tortas de lama com a direita.
O Dias Toffoli nada fez como ministro do Supremo que justificasse qualquer benevolência com ele. Que seja impichado o quanto antes.
Já a atuação do Alexandre de Moras na hora mais perigosa desta nação foi inestimável, evitando o golpe de 08.01 e conduzindo à prisão o pior genocida do seu próprio povo em todos os tempos no Brasil. Crucificá-lo por um grão de areia num oceano de iniquidade é, no mínimo, suspeito. (por Celso Lungaretti)
Está rindo do que? De ter encontrado otários que ignoravam sua decadência?
Publicar neste blog as campanhas da seleção brasileira quando conquistou Copas do Mundo acabou sendo uma crueldade.
Ao rememorarmos ou tomarmos conhecimento do magistral futebol jogado pelos nossos escretes em 1958 e 1970, inevitavelmente o comparamos com aIncrível Seleção Brancaleoneda atualidade.
Desde 2023, segundo o Superscore, o Brasil disputou 35 partidas, entre jogos oficiais e amistosos. Embora enfrentasse principalmente os adversários fracos que a CBF escolhia para encher os cofres e não visando à preparação para competições realmente importantes, venceu 15, empatou 10 e perdeu 10.
Seu aproveitamento foi de míseros 52,4%, índice que o coloca na 39ª posição entre os 48 selecionados já classificados para o Mundial de 2026, atrás dos poderosos Marrocos, Senegal, Irã, Argélia, Uzbequistão, Costa do Marfim, Turquia, Congo, Iraque, Tunísia, Haiti, Panamá e Cabo Verde. Pior, impossível.
Sob o comando do técnico Tite (2016-2022), pelo menos ficamos em primeiro lugar nas duas eliminatórias sul-americanas disputadas e conquistamos a Copa América de 2919. Aproveitamento? 80,7%.
Seus sucessores foram o interino Ramon Menezes, o mediano Fernando Diniz, o técnico de clubes Dorival Júnior e o superado Carlo Ancelotti.
O italiano estava encerrando seu ciclo no Real Madrid e, nos clássicos contra o Barcelona, vinha de perder os últimos quatro, sendo dois por goleadas, além da humilhante média de quatro gols sofridos por partida. Competições vencidas: nenhuma.
Evidentemente, a equipe madrilenha só o liberou com tanta facilidade porque não o queria mais.
Com Ancelotti no banco, o Brasil disputou 10 partidas, venceu 5, empatou 2 e perdeu 3. Seu aproveitamento é de 56,6%. Pelos critérios do ranking da Superscore, ficaria em em 34ª lugar,
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Minha análise de maio/2025 continua em pé:
Temos formado ultimamente uma geração de jogadores mal resolvidos, que prometem muito e entregam pouco, com carências gritantes em várias posições da defesa e do meio de campo.
Com o revolucionário Jorge Jesus talvez acontecesse um milagre, (...) mas a escolha do convencional Ancelotti só reforça a impressão de que, tanto quanto Bolsonaro, está além de qualquer possibilidade de salvação.
Por último: o que mais falta ao nosso selecionado é um meio-campista do nível do Didi, Ademir da Guia ou Gerson, que faça a ligação defesa/ataque com inteligência e brilhantismo.
Messi, p. ex., foi o grande destaque da Argentina campeã do mundo de 2022 e escolhido como o melhor jogador do Mundial, apesar da idade avançada para um futebolista (35 anos).
Já o Neymar, quando era jogador, quebrava o galho. Mas hoje ele não passa de um embromador com canelas de vidro.
E os clubes brasileiros deixaram de formar tais meio-campistas porque querem, acima de tudo, vender seus craques para o exterior.
Então, que se danem os torcedores! Os preferidos do mercadosão os dribladores e a prioridade é sempre atender os compradores em potencial. (por Celso Lungaretti)
A tentativa golpista acabou sendo prejudicial ao próprio Eduardo, mas isso não desestimulou seu irmão Flávio, agora candidato à presidência, de continuar no mesmo caminho.
A atração exercida sobre os filhos de Bolsonaro pelo golpismo levou o próprio Estadão a elaborar a teoria de ser genética essa tendência.
Na verdade, seria mais que uma simples tendência natural, e sim uma estratégia empregada diante de resistência e obstáculos contrariando seus desejos e objetivos.
É importante assinalar essa posição do Estadão, uma espécie demea culpapor ter se aliado aos militares golpistas em 1964. Lembro-me bem do telegrama recebido do Júlio de Mesquita Filho, quando secretariava, ao lado de Mário Martins, a última grande reunião pública de crítica e protesto contra a ditadura, o Encontro com a Liberdade, em janeiro de 1967, no Teatro Paramount abarrotado, em São Paulo.
No telegrama, o velho Mesquita se solidarizava com o Encontro contra a Lei de Imprensa. Enquanto eu lia o telegrama, esperava uma reação positiva daquele grande público formado, na grande maioria, de jovens. Mas veio, para minha surpresa, uma enorme vaia contra o Estadão e contra os Mesquitas.
No dia seguinte, o jornal deu algumas linhas ao Encontro sem mencionar as vaias. Sempre me ficou a impressão de se ter perdido ali uma grande oportunidade de união contra a ditadura, mas os ânimos estavam excitados e a moçada universitária de esquerda não perdoava o apoio do Estadão ao golpe.
Tantos anos depois, o candidato da dinastia Bolsonaro à presidência, Flávio, não aceitou a derrota golpista do pai e foi aos EUA, como já fizera seu irmão, pedir apoio da extrema-direita, direita, evangélicos dos EUA, para uma nova tentativa golpista, desta vez com o apoio do Trump.
Indiretamente, Flávio sugere que Trump poderia repetir a extração do presidente Lula do Palácio do Planalto em Brasília, como fizera com Maduro em Caracas.
O argumento é o mesmo já empregado por Trump e por Bolsonaro: se Flávio Bolsonaro ganhar em outubro, as eleições terão sido livres e corretas, mas se Flávio perder, terá havido fraude nas eleições e os EUA deverão intervir! E como reagem os patriotas vestidos com a bandeira ou com as cores da nossa bandeira?
Isso é grave, não se trata de uma hipótese de pressão contra o Brasil, mas sim de um pedido quase direto de intervenção de um candidato à presidência, considerado pelas primeiras sondagens em situação de empate com Lula.
Ou seja, se perder poderá provocar um novo 8 de janeiro para justificar uma intervenção estadunidense. Se ganhar, vai governar como um vassalo de Trump, um lacaio, um vendido, um entreguista de nossas riquezas e um traidor.
por Rui Martins
O próprio Estadão não deixa por menos no seu editorial com o título Tal pai, tal filho. O jornal se reporta ao discurso de Flávio Bolsonaro no recente encontro da extrema-direita em Dallas, onde não pronunciam só discursos mas se tramam golpes.
E continua o Estadão: Flávio defendeu o monitoramento das eleições brasileiras pelos EUA e sugeriu pressões diplomáticas externas para "garantir um pleito livre e justo", alegando que se perder terá havido fraude e manipulação nas eleições. Isso deveria ser suficiente para um processo de tentativa pré-golpista!
Os que vêm acompanhando esta série hão de estranhar que a música citada acima não seja aquela que mais marcou a conquista do Mundial Fifade 1970,Pra frente Brasil. Depois de A taça do mundo é nossa(1958) eFrevo do Bi(1962), seria a escolha óbvia.
Mas, vivia-se o pior momento da ditadura brasileira e nem mesmo o maravilhoso futebol que exibíamos em gramados do México nos tornavanoventa milhões em ação, todos ligados na mesma emoção. Atravessei a Copa como preso político no DOI-Codi/RJ (só assistiria às partidas completas no aniversário do tri), tomando conhecimento dos golscanarinhospela gritaria no quartel e recompondo as forças durante a pausa para respirar que as partidas da Seleção nos proporcionavam – pois os torturadores preferiam assistir às belas proezas nos estádios do que protagonizar a bestialidade nos porões. Nada impedia que, poucas horas depois, estivéssemos recebendo choques elétricos e pancadas, pendurados no pau-de-arara. A gritaria de júbilo cedia lugar aos urros desesperados.
Não, naqueles dias podia até parecer que todo o Brasil deu a mão, mas havia um abismo intransponível entre as mãos que golpeavam e as mãos que acudiam.
Os que nos diziam comemorem!eram os mesmos que berravamcale-se!, ame-o ou deixe-o!ecomunista bom é comunista morto. O vinho desse cálice era fel.
E, para os que estranharem esta intromissão da detestável política num espaço dedicado ao encantamento do futebol, vale lembrarmos quão determinante ela foi no momento dos acontecimentos.
JOÃO SEM MEDO, AS FERAS E O OGRO– Depois do acachapante fiasco no Mundial da Inglaterra (quando a convocação de um número excessivo de jogadores e o tortuoso ritual dos cortes minaram a união do elenco), o Brasil decidiu definir desde o início um time-base.
Foi como agiu João Saldanha, jornalista e técnico com notórias afinidades com oPartido Comunista Brasileiro, um homem carismático e de personalidade fortíssima (o apelido deJoão Sem Medoera dos mais merecidos).
Ótimo especial do Canal 100 sobre a trajetória brasileira nas eliminatórias,
Montou o escrete para as eliminatórias com maioria de jogadores do Santos e Botafogo, as duas melhores equipes da época. E, para reerguer o combalido moral brasileiro, nada como o rótulo inspirado que o escritor e colunista Nelson Rodrigues criou: asferas do Saldanha.
A ideia era que nossos jogadores não deveriam temer nem respeitar ninguém, entrando em campo para atropelar os adversários.
E foi o que aconteceu nas eliminatórias: o Brasil passou como um trator sobre Colômbia, Paraguai e Venezuela, vencendo os seis jogos, com direito a goleadas. Foram 23 gols marcados e apenas dois sofridos.
Aí, uma conspiração esportivo-militar derrubou o técnico heroico; pesaram fatores como a independência que Saldanha assumia em relação aos repulsivoscartolase sua relutância em colaborar com o marketing do ditador de plantão.
O homão era, isto sim, um amarelão
Emilio Garrastazu Médici, o sanguinário, era dado à demagogia futebolística. Ia, p. ex., assistir aos clássicos no Maracanã com um rádio de pilha colado ao ouvido... e batalhões de seguranças ao redor!
Tentando suavizar sua imagem de ogro, Médici sugeriu a entrega de uma camisa de titular ao folclórico atacanteDadá Maravilha, ao que Saldanha respondeu:Quem escala a seleção sou eu, quando o presidente escalou o seu ministério ele não pediu a minha opinião.
Ficou, claro, com a cabeça a prêmio. Os cartolas açularam então contra ele um técnico grosseiro e metido a valentão, que estava vivendo boa fase à frente do Flamengo: Dorival Knipel, oYustrich.
. Com a promessa de que sucederia Saldanha se o derrubasse, Yustrich desandou a atacá-lo de todas as formas, sem sucesso. Até que levou a coisa para o lado pessoal, atingindo a honra do João, que provou ser mesmo sem medo: apanhou um revólver e foi atrás do difamador em pleno estádio do Flamengo. Yustrich, o falso ferrabrás, fugiu pulando desajeitadamente a cerca.
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QUADRADO MÁGICO, AFORTUNADO ACASO!– E os cartolas, a pretexto de descontrole emocional, demitiram Saldanha, substituindo-o pelo dócil Zagallo.
Rivellino, a patada atômica
Tão despersonalizado que os líderes do elenco lhe impuseram a escalação de Rivellino, o reizinhodo Corinthians. Zagallo preferia Edu, do Santos, numa armação convencional de 4-2-4.
Assim, porque ninguém estava realmente aprovando na ponta-esquerda, surgiu, meio por acaso, a grande inovação tática da Copa de 1970: o quadrado mágico.,
Era formado por Gerson, Pelé, Tostão e Rivellino, que não guardavam posições fixas, deslocando-se de acordo com o desenrolar de cada ataque.
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[Na Copa seguinte, o carrossel holandêsampliaria tal rotação, estendendo-a para os demais compartimentos do time.
Para completar, ficava mais à frente Jairzinho, goleador hábil e oportunista, aproveitando muito bem as assistências dos craques.
Na estreia, contra a Checoslováquia, os brasileiros viram pela primeira vez uma partida de Copa do Mundo sendo transmitida ao vivo pela TV. A grande maioria ainda em preto-e-branco, pois poucos tinham poder aquisitivo para adquirir os recém-lançados televisores coloridos.
Uma bombade Rivellino, cobrando falta da meia-lua, restabeleceu a ordem natural das coisas. E o primeiro tempo ainda teve a tentativa de Pelé de encobrir o goleiro com um chute do meio de campo – um dos grandes gols que não aconteceramda história do futebol.
No segundo, só deu Brasil. Belos tentos de Pelé e Jairzinho (2) garantiram a goleada por 4x1, destacando-se os perfeitos lançamentos de longa distância que alcançavam atacantes com pouca marcação. A partida seguinte foi a batalha dos mais recentes campeões: Brasil (1958 e 1962) contra Inglaterra (1966).
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Jogo equilibrado, disputadíssimo, no qual o grande Banks fez defesa antológica, numa cabeçada fulminante de Pelé; em que até nosso mediano goleiro Felix, quem diria, andousalvando a pátria; no qual Astle perdeu chance incrível após falha de Everaldo. O único gol foi umapintura: Tostão recebe pela ponta-esquerda, enrola-se com três adversários e, já caindo, consegue passar para Pelé, que talvez marcasse mas, com muitos ingleses à frente, preferiu colocar Jairzinho cara a cara com Banks. Caixa.
Vaga garantida, a partida com a Romênia virou amistoso de luxo. 3x2, com falhas de nossa defesa e gols de Pelé (2) e Jairzinho.
Petras abriu o placar e surpreendeu o mundo ao fazer o sinal da cruz (ué, comunistas também são cristãos? Eles não comem criancinha viva?).
Nas quartas-de-final, a tradição prevaleceu. O Peru, treinado pelo nosso Didi, jogou como nunca e perdeu como sempre.
Até que surpreendeu no ataque, comprovando a fragilidade da zaga brasileira (o craque Carlos Alberto; o bom Piazza, sacrificado por estar fora de sua posição; e os limitados Brito e Everaldo). Em compensação, os zagueiros peruanos levaram o previsível o esperadobaile. 4x2, com gols de Tostão (2), Rivellino e Jairzinho.
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DUELO DE GIGANTES– O outro rival sul-americano foi bem mais difícil. O Uruguai, campeão de 1930 e 1950, vendeu caro a derrota na semifinal.
A partida ficou ainda mais complicada a partir de uma falha grotesca de Felix, que aparentemente fez golpe de vista numa bola que poderia ter agarrado com certa facilidade. 0x1. Quando o primeiro tempo já terminava, Clodoaldo surgiu como elemento-surpresa para fazer um gol providencial. 1x1.
Na segunda fase, o sofrimento durou 30 minutos, até Tostão servir Jairzinho num contra-ataque. Superando um adversário na corrida, o furacão da Copadesempatou.
Os uruguaios foram para cima e Felix se redimiu da bobeira do 1º tempo, fazendo defesas cruciais.
O Uruguai estava atravessado na garganta dos brasileiros desde 1950
Pelé novamente deixa o mundo extasiado com um gol que não aconteceu:aplicando desconcertante drible da vacano goleiraço Mazurkiewicz mas chuta raspando a trave.
No finzinho, apatada atômicade Rivellino funciona de novo, para dar números mais categóricos à vitória suada: 3x1.
Veio então o tira-teima entre duas seleções bicampeãs: Brasil e Itália (1934 e 1938). Quem vencesse, levaria a Taça Jules Rimet definitivamente para casa. O Brasil jogou completo: Félix; Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo e Gérson; Jairzinho, Tostão, Pelé e Rivellino. A superioridade brasileira foi marcante, contra uma Itália que, tecnicamente bem inferior, ainda se desgastara demais para despachar a Alemanha Ocidental na outra semifinal, decidida somente na prorrogação (4x3).
Centro perfeito de Rivellino para a cabeçada de Pelé. 1x0.
A Itália empata após saída atabalhoada de Felix, que foi disputar a bola na intermediária. 1x1..
Gerson, o canhotinha de ouro, recebe a bola num corta-luz e desfere chute perfeito da meia-esquerda, aos 21 minutos do 2º tempo. 2x1. A cansada Itália se entrega de vez quando, logo em seguida, Gerson lança a bola do meio-de-campo e Pelé, na área, apara de cabeça para Jairzinho marcar. 3x1. O resto foi festa, olée um gol apropriadamente qualificado deorgásticopelo Pasquim: Pelé encosta para Carlos Alberto, que vinha na corrida e fez exatamente o que já se desenhara na mente de todos os brasileiros, desferindo um potente chute cruzado que estufou as redes italianas.
O único Mundial conquistado pelo Brasil sob regime ditatorial seria o mais instrumentalizado politicamente de todos os cinco.
Ajudou a vender a ilusão de um deslanche econômico, logo desfeita pelos choques do petróleo; e a consolidar uma ditadura sanguinária, que escreveu página vergonhosa de nossa História. Mas, o que ficou mesmo na memória popular foi a magnífica campanha de nossos craques, que venceram todas as partidas, dando-se ao luxo de sobrepujar, de forma categórica, três das outras seleções campeãs mundiais.
Então, independentemente dos trastes que pegaram carona nos seus feitos esportivos, é dos jogadores e só dos jogadores que lembramos... com muito orgulho!(por Celso Lungaretti)