domingo, 4 de dezembro de 2016

NOSSOS JOVENS MERECEM TER UMA EDUCAÇÃO IGUAL À DE CUBA? ENTÃO, POR QUE OS PROFESSORES NÃO A MINISTRAM?

Participando das jornadas estudantis de 1968, constatei que estava certíssimo o Marcuse: o fervor revolucionário se transferia da classe operária, cada vez mais integrada na engrenagem de produção e consumo, para os outsiders, aqueles que escapavam das garras do capitalismo por nele não conseguirem viver ou não suportarem viver.

Daí a importância que passei a conferir à verdadeira educação: não a formação de mão-de-obra mais categorizada para apertar os parafusos do sistema, mas a de cidadãos capazes de pensar a sociedade e conceberem e/ou apoiarem alternativas ao pesadelo dominante.

Daí a minha enorme irritação ao perceber que entidades do professorado, embora se digam de esquerda, têm uma visão pequena e mesquinha do papel dos educadores, maximizando a importância da remuneração e mandando às favas a excelente oportunidade para estimular nos jovens a formação de uma consciência crítica e solidária. 

Neste domingo (4), o artigo semanal do economista Samuel Pessôa na Folha de S. Paulo, com o expressivo título de Professor brasileiro é contrário ao que deu certo em Cuba na educação, veio bem ao encontro da minha percepção:
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"Um professor em Cuba ganha um pouco menos do que um médico. Os melhores alunos do secundário escolhem ser professores.

O currículo é pouco extenso e é o mesmo para todas as escolas da ilha. 

A formação do professor é centrada em técnicas de transmissão de conhecimento ligadas ao currículo padronizado.

O professor é muito supervisionado pelo Estado, não pode faltar e, se o desempenho dos alunos não for bom, poderá perder a posição.

Há poucas interrupções na aula e na maior parte do tempo os alunos trabalham em grupo sob supervisão do professor resolvendo problemas e questões. Não se perde muito tempo copiando coisas do quadro.

Infelizmente, em geral os sindicatos de professores das redes públicas brasileiras apoiam aumentos de salários, mas são contrários a todas as demais iniciativas que deram certo em Cuba".
O FRACASSO DAS ESCOLAS-PADRÃO

Decepção idêntica tive ao acompanhar bem de perto a experiência das escolas-padrão, já que então trabalhava na Coordenadoria de Imprensa do governo paulista (era um tempo em que ainda se chegava a um cargo desses apenas por competência profissional, sem necessidade de pertencer, filiar-se ou prostrar-se ao partido no poder):
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Greves de professores são frequentes em São Paulo...
"Logo no início, foram convidados cem luminares para fazerem um diagnóstico em profundidade da educação, formulando um programa para sanar as grandes deficiências existentes.

O resultado foi o projeto da escola-padrão, que procurava fazer com que algumas escolas estaduais se tornassem ilhas de excelência, com equipamento adequado, autonomia para gerir seus gastos e incentivos aos professores.

As primeiras seriam os cartões de visita e o teste na prática. Todas as outras as seguiriam, com o passar do tempo.

Deu tudo errado.

Os professores não mostraram o mínimo interesse em participar da gestão dos recursos, no que seriam, digamos, associações de pais e mestres com poderes ampliados e recursos para investir. Isto foi visto por eles, apenas, como mais trabalho.

Também recusaram, indignados, a proposta de terem aumentos salariais desde que fizessem cursos de aprimoramento didático. Queriam receber aumentos salariais sem darem contrapartida nenhuma.

E fizeram uma interminável greve...
...e quase sempre por melhoras salariais.

Nossa redação tinha uns 20 jornalistas, distribuídos entre a manhã/tarde e a tarde/noite. Quase todos simpatizávamos com os professores e os assalariados em geral.

Mesmo assim, era impossível não notarmos que a greve, a partir de certo ponto, foi prolongada unicamente para criar constrangimentos políticos ao governo.

Chegou o momento em que foi colocada a proposta definitiva e última do governador. Mesmo assim, os líderes do magistério mantiveram a paralisação por mais duas ou três semanas, o que não fazia nenhum sentido em termos reivindicatórios. Os motivos eram outros.

Depois recuaram, aceitando integralmente a proposta que haviam rechaçado sem nem mesmo negociarem.

O governador amaldiçoou o dia em que pensou em fazer do ensino a vitrine do seu governo. Adotou outras prioridades e para elas canalizou os recursos que iria utilizar em educação.

Os professores perderam o poder de barganha e, portanto, a chance de obter melhor remuneração. Não se deram conta de que, jogando o jogo com mais sutileza, teriam alcançado patamares salariais bem mais condizentes com sua nobre função.

Os estudantes foram sensivelmente prejudicados, pela não concretização das melhoras e também pelas greves.

Eu mesmo, acreditando no sucesso das escolas-padrão, transferi minha filha para uma delas. No final de um ano praticamente perdido, tive de levá-la de volta, com o rabo entre as pernas, ao colégio de freiras". 

FERREIRA GULLAR (1930-2016): ERA ARTE, SIM. DAS MELHORES!

"Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?"
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DE 19ª CONSTRUTORA DO PAÍS, ODEBRECHT SE TORNOU A 1ª NA DITADURA E CAMPEÃ DA CORRUPÇÃO NOS GOVERNOS DO PT.

Por Bernardo Mello Franco
MARKETING DA CORRUPÇÃO

"Desculpe, a Odebrecht errou." Assim começa o anúncio de duas páginas que a maior empreiteira do país publicou nos jornais de sexta-feira (2). Na propaganda, a empresa "reconhece que participou de práticas impróprias".

"Não importa se cedemos a pressões externas", prossegue o texto, insinuando que os empresários corruptores foram forçados a financiar os políticos corruptos. "Foi um grande erro, uma violação dos nossos próprios princípios, uma agressão a valores consagrados de honestidade e ética", continua o comunicado.

O discurso pode sugerir arrependimento, mas é apenas marketing. Há um ano e meio, a mesma empresa manifestava "indignação com as ordens de prisão de cinco de seus executivos". "A Odebrecht nega ter participado de qualquer cartel", dizia a peça publicitária de junho de 2015.

Entre as duas propagandas, publicadas em formato idêntico, o que mudou foi o contexto. A construtora esperava se safar de bico calado, mas foi atropelada por um caminhão de provas e teve que negociar um acordo de delação com a Lava Jato.

As investigações revelaram que a empresa mantinha um departamento exclusivo para o pagamento de propina. Suas planilhas ligam valores milionários a mais de 300 políticos de todos os grandes partidos.

Um pedido de desculpas pode ser melhor do que nenhum, mas seria melhor se a Odebrecht, em vez de posar de Madalena arrependida, fosse direto ao ponto. Num comunicado objetivo, poderia dizer quem subornou, quanto pagou e que obras fraudou, embolsando dinheiro público.

O anúncio desta sexta ainda ilude os leitores ao sugerir que os malfeitos recentes destoaram do histórico de princípios da empresa. 
Velha freguesa do noticiário de corrupção, a Odebrecht deve sua força à ditadura militar.

Apoiada pelo regime, saltou do 19º lugar para o topo do ranking do setor. Numa curiosa coincidência, a escalada começou com a construção do edifício-sede da Petrobras.

A FOME MUNDIAL E OS SUPÉRFLUOS DO CAPITALISMO

"Cada dia a natureza produz o suficiente para nossa 
carência. Se cada um tomasse o que lhe fosse 
necessário, não haveria pobreza no mundo 
e ninguém morreria de fome." (Gandhi) 

AS TESES DE MALTHUS 
E A CRÍTICA DE MARX 
Há quem pense que a população mundial de mais de 7 bilhões de pessoas é grande para o tamanho do Planeta. Não é. O mundo tem capacidade de prover o sustento material de uma população muito maior do que a atual, e ainda preservando de modo ecologicamente sustentável a vida planetária. Para isto é necessário que se supere o modo de produção social, e é aí onde mora o problema. 

O economista burguês Thomas Robert Malthus afirmou em seu livro Definições em Economia Politica, de 1827, que os alimentos crescem em progressão aritmética (adição sob uma mesma razão matemática) enquanto a população cresce em progressão geométrica (multiplicação sob uma mesma razão matemática); tal desproporção seria a causa da fome mundial já naquela época, e com tendência de aumento em face do crescimento constante dos contingentes humanos. 

A afirmação malthusiana valeria, assim, para qualquer tido de sociedade e modo de produção, concluindo que deveria haver um controle de natalidade. 

Marx rechaçou tal tese como "inteiramente falsa e pueril” (Grundrisse, Editora Boitempo, 2011), demonstrando uma obviedade: os alimentos podem crescer em proporção diferenciada e a maior do que a natural reprodução humana, dependendo do modo de produção social e do avanço do conhecimento sobre as técnicas e a tecnologia aplicada à produção agrícola.

Lembramos esta velha polêmica para dizer que a escassez mundial de alimentos, que tem acarretado o aumento da fome (segundo relatório da Fundação para a Agricultura e Alimentação da ONU) decorre de hoje somente se produzirem os alimentos que o mercado pode absorver; e o mercado somente pode absorver produtos que tenham baixo custo de produção. 

Assim, a produção de alimentos em determinadas regiões de terras pouco férteis e sem recursos tecnológicos (domínio das técnicas agrícolas e inexistência de equipamentos como tratores, etc.), como em grande parte da África, se inviabiliza, eliminando a pequena produção e a produção de subsistência. 

Somente as grandes empresas agrícolas ou grupos de empresários familiares com terras férteis e capacidade de investimento podem produzir alimentos na economia de mercado. Sob o capital, tudo tem de passar pelo buraco estreito da viabilidade econômica (Robert Kurz).

O mundo sempre teve abundância de terras agricultáveis em relação à população e hoje detém conhecimento e capacidade tecnológica para a produção de alimentos para uma população muito maior do que a atual. O que o mundo não tem é um sistema de produção voltado para a satisfação das necessidades humanas, ao invés da ganância do mercado.   

O DESEMPREGO ESTRUTURAL

O capitalismo se expande abrindo frentes de produção e consumo. Entretanto, como se formata a partir de uma contradição de seus próprios fundamentos (cavando a sua própria sepultura num tempo histórico que é cada vez mais célere) ao mesmo tempo em que se instala em novas fronteiras mercantis, ele cria nessas mesmas fronteiras um contingente de pessoas não absorvidas no processo de trabalho abstrato, impedindo-as de qualquer outra forma de produção. 

Ou seja, forma um exército de desempregados, que cresce sempre como o rabo do cavalo: para baixo. 

Como o trabalho vivo (assalariado, criador de riqueza abstrata) é uma mercadoria, sujeita à lei da oferta e da procura, há uma concorrência entre os próprios trabalhadores para a obtenção de empregos, com farta disponibilidade de mão-de-obra, o que força a queda dos salários. Assim, tanto se forma um contingente de desempregados como de subempregados.

No passado havia grandes centros produtores de mercadorias absorvendo contingentes expressivos de trabalhadores; agora, com a transferência da produção para zonas de oferta de mão-de-obra barata (globalização), estes enfrentam o desemprego massivo. O discurso populista, nacionalista, sem base científica, oportunista, falso, apresentando-se como suposta alternativa a tal regra capitalista perante um público que vê seus empregos fugirem, é que dá credibilidade ao capitalista-mor Donald Trump. 

O pleno emprego não pode ocorrer de modo equânime em todas as regiões; podemos constatar este desequilíbrio nos dados de oferta de empregos de modo global, ou seja, entre todas as sociedades mercantis presentes em todas as partes do planeta. O lençol capitalista é curto.

Mas, tal realidade trágica se complica ainda mais à medida que se substitui o trabalho vivo dos homens pelo trabalho morto das máquinas; no estágio atual do capitalismo, a dispensa do trabalho vivo já supera a abertura de novos postos de trabalho.  Esta, claro, é uma equação que não se sustenta em pé de jeito nenhum!

Trata-se do momento do desemprego estrutural e do limite interno absoluto da capacidade da expansão do capitalismo, sem a qual ele não sobrevive. É nele nos encontramos atualmente.

Como já dissemos noutros artigos, o capital se funda no trabalho necessário (que é pago ao trabalhador para a sua subsistência) e no trabalho excedente do qual se apropria indebitamente (executado pelo trabalhador numa faina diária, mas que não é remunerado pelo capital), como forma de viabilização de sua exigência autotélica: precisa de velocidade continua de aumento para sobreviver, o que impede qualquer tentativa de sua distribuição, incompreensão na qual caíram os marxistas tradicionais, que se trumbicaram). 

Segundo Marx, “a capacidade de trabalho só pode executar o seu trabalho necessário se o seu trabalho excedente tem valor para o capital, e for utilizável por ele” (Grundrisse). Ou seja, o trabalho só existe como forma de fornecer ganhos para o capital, sem nenhuma preocupação com qualquer função social. 

Ele se dissocia do interesse social para cumprir o seu desiderato tautológico de reprodução aumentada, vazia de sentido virtuoso; e quando isto não é possível, aumenta o contingente dos desesperados supérfluos do capitalismo, como agora ocorre de modo irreversível e socialmente patológico. O processo migratório mundial é resultante desta lógica capitalista insensível ao drama humano.
Mas, com o desenvolvimento da tecnologia aplicada à produção, o capitalismo mata a sua galinha dos ovos de ouro – os trabalhadores e o próprio trabalho abstrato. 

É o que se constata nos dias de hoje, ratificando a tese da contradição capitalista em processo que aponta para a destruição social e para a sua autodestruição como modo de produção.   

O capital é uma eterna tensão de morte, na qual ele é o potencial assassino. 

UMA NOTÍCIA DE JORNAL E
TRAGÉDIA DO DESEMPREGO

O pai da professora de biologia, Aline Alves, é parte dessa população desempregada. E, devido às dificuldades financeiras da família, Deysenaldo Nobre, de 54 anos, precisa urgentemente de um emprego.

Pensando nisto, Aline fez uma publicação pedindo às pessoas que comprassem sapatos numa loja de Fortaleza, na qual o seu pai está trabalhando como vendedor por tempo determinado, para que ele seja efetivado.

Explicou que Deysenaldo estava há quase dois anos sem trabalho e, no fim de novembro, conseguiu tal emprego temporário; contudo, só será efetivado no próximo ano, Deseynaldo se bater a meta da loja. 

Em entrevista ao jornal O Povo Online, a professora conta que a renda de sua família é constituída pela sua remuneração, que não chega ao valor do salário mínimo, e pelos bicos que o seu pai e a sua mãe conseguem ao longo do mês. Ademais, a família está precisando conseguir dinheiro para a cirurgia oftalmológica de um filho. (por Dalton Rosado)

sábado, 3 de dezembro de 2016

CRÔNICA DA INCOMPETÊNCIA DESASTROSA, DA GANÂNCIA ESPANTOSA E DA CORRUPÇÃO VERGONHOSA.

Quando trabalhava na redação d'O Estado de S. Paulo, uma embarcação de turismo naufragou na Baía de Guanabara, matando 55 passageiros. Como eu era da editoria de Geral e pouca coisa de interessante acontecia no comecinho do ano, passei os primeiros dias de 1989 ocupando-me durante o expediente inteiro de um único assunto: preparar para publicação uma tonelada de notícias sobre a tragédia do Bateau Mouche. Foi dose cavalar, não aguentava mais. Peguei ojeriza eterna a tais acidentes.

Mas, por ter-me compadecido dos jogadores da Chapecoense e de um jornalista morto na queda do avião da Cucaracha Airlines, desta vez, excepcionalmente, andei passando os olhos pelo noticiário. Pelo que captei:
1) quem pilotava era um dos donos da companhia, o que dá uma boa ideia do gabarito da empresa; 
2) tinha o combustível estritamente necessário, sem uma reserva para imprevistos; 
3) um dos dirigentes do órgão que fiscaliza e autoriza voos na Bolívia é filho do falecido piloto; 
4) uma funcionária boliviana estranhou o plano de voo não especificar um aeroporto para pouso de emergência, que é menção obrigatória, mas algum superior autorizou a viagem, jogando o regulamento no lixo; 
LaMia é de Merida?! Tem letra sobrando..
5) o avião partiu de uma cidade diferente da especificada no plano de voo, isto foi percebido por autoridade colombiana, mas mesmo assim se permitiu sua entrada no país (e se fossem terroristas islâmicos com a missão de bombardearem o palácio presidencial?); e  
6) o piloto, que já deixara de fazer uma parada para reabastecimento no aeroporto de Bogotá a fim de evitar uma despesa adicional de aproximadamente R$ 10 mil, refugou uma eternidade antes de comunicar à torre de controle que o combustível era insuficiente, por temer a multa pesada que lhe aplicariam e a suspensão de voos da empresa para a Colômbia até o caso ser analisado por uma comissão. Foi este o provável motivo de outro avião com problemas (existirá algum que não os tenha por lá?) haver ficado com a prioridade para pouso, retardando sua aterrissagem até que sofreu a pane seca.
Não sei por que, mas tenho a ligeira suspeita de que voos pague para entrar, reze para sair (como os da MamaMia!) ocorram amiúde nestes tristes trópicos; e de que controladores de voo iguais aos da Bolívia e Colômbia existam aos montes.

Enfim, aqueles tarados por adrenalina que praticam até roleta-russa, têm agora uma nova opção para satisfazer seu vício: embarcarem num avião-esquife desses.

Se eu tivesse de escolher entre um e outra, preferiria a roleta-russa. A chance de sobrevivência é maior.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

O BRASIL É UM BARCO À DERIVA

O Brasil hoje é um barco à deriva com mais de 200 milhões de pessoas a bordo.

Temos um sistema econômico com prazo de validade vencido, mas do qual não conseguiremos escapar sozinhos: o capitalismo.  [Depois do malogro grego, a possibilidade maior é a de um colapso global, o qual, aliás, pode estar bem mais próximo do que a maioria imagina...] 

Grandes empresários que se associaram aos mãos-sujas da política na montagem da maior e mais acintosa rede de corrupção já vista no País.

Uma Câmara Federal totalmente desmoralizada, que manda seu decoro às favas, agindo na calada da noite para salvar o mandato dos seus membros e mantê-los fora das grades.

Um Senado que nem sequer é capaz de expelir um presidente campeão de processos na Justiça.

Um Judiciário que cada vez mais se politiza, ocupando espaços  deixados vagos pelo Legislativo e Executivo.

Um presidente meia-boca, que talvez desse conta do recado numa situação rotineira, mas nunca no olho do furacão, quando mais se faz necessário um estadista.

Um povo tradicionalmente conformado, quase abúlico, mas que a penúria acabará levando ao desespero e a reações extremadas.

E, como em casa onde falta pão, todos brigam e ninguém tem razão (provérbio português), os pesos-pesados da economia e da política se mostram incapazes de unir-se num projeto de salvação nacional, colocando seus interesses egoístas acima de tudo e de todos.

O maior risco que corremos neste momento é o de que o confronto cada vez mais acirrado entre o Legislativo e o Judiciário, sem que o Executivo ouse ou saiba como restabelecer o equilíbrio entre os Poderes, dê pretexto a uma intervenção militar (hipótese que ganha força com os EUA prestes a ser presididos por Donald Trump).

Enfim, a situação é tão explosiva que me parece até ocioso detalhar tudo de ruim que pode acontecer. 

As forças majoritárias do que restou da esquerda se dedicam insensatamente a desgastar um presidente fraco por natureza, sem se darem conta de que estão apenas levantando a bola para algum inimigo marcar o ponto (seja a extrema-direita que sonha com o retrocesso histórico, sejam os tucanos que tudo fazem para que a Presidência da República lhes caia no ninho).

Visões minoritárias, também de esquerda, avaliam corretamente que se trata de uma crise sistêmica, mas não levam em conta o óbvio ululante de absolutamente não nos convir neste momento que o derretimento dos podres Poderes vá às últimas consequências: a maré crescente é de direita fascistoide e em tal direção acabaremos também marchando se, de alguma forma, não corrigirmos o rumo enquanto é tempo.

Last but not least, é importante atentarmos para que, embora sejam absolutamente desprezíveis os ratos que tentam escapar das garras da Operação Lava-Jato por meio dos artifícios próprios de sua espécie, existe mesmo a possibilidade de o fervor justiceiro ir longe demais, gerando uma espécie de jacobinismo tropical. Robespierre era um esteio da Revolução Francesa, mas acabou fazendo com que ela devorasse os próprios filhos. Temos de ficar atentos.

Se eu tivesse um bom caminho a indicar, o faria. Mas, a correlação de forças nos é de tal forma desfavorável que nenhum deles me parece exequível. Então, só me resta antecipar o desenrolar provável dos acontecimentos.

Afora as tendências autoritárias que não podemos de forma nenhuma deixar prevalecerem, há uma forte possibilidade de o Tribunal Superior Eleitoral, presidido pela figurinha carimbada Gilmar Mendes, aguardar a virada do ano para, então, impugnar o mandato de Michel Temer, provocando uma eleição indireta, na qual caberá aos parlamentares escolherem um(a) novo(a) presidente-tampão. Nesta circunstância, o favorito seria o candidato do PSDB, provavelmente FHC.

Quanta à Operação Lava-Jato, em algum momento terá de ser encerrada, pois é fonte de instabilidade permanente, com a qual o Brasil, percebe-se muito bem,  não está conseguindo mais conviver. 

Mas, a cidadania tem de mobilizar-se para garantir que os encalacrados não escapem impunes, caso contrário seria melhor trocar o nome do nosso país para Bananal.

O mínimo que se espera é termos todos os culpados impedidos por um bom tempo de reincidirem nas mesmas práticas: os políticos afastados compulsoriamente da política e de governos; e os empresários, da diretoria de grandes empresas.

AS CONTRADIÇÕES SE EXPLICITAM; A CRISE POLITICO-ECONÔMICA SE APROFUNDA.

"O nome disso é loucura. Haja arte e criatividade para curá-la."
(jornalista Arnaldo Bloch,  traçando um paralelo entre a cura da 
loucura política e as terapias alternativas da dra. Nise da Silveira)
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Não é só aqui. Atualmente, no mundo todo, ocorrem mudanças políticas de gestores e choques de opiniões sobre conceitos político-econômico-institucionais, sem que se ataque o cerne do problema. 

Fatos inusitados começam a ocorrer. No Brasil podemos citar os da última 4ª feira (30/11):
  • um quebra-quebra praticado por cerca de 10 mil pessoas na Esplanada dos Ministérios em Brasília, sem que a polícia em número bem inferior pudesse conter a avalanche de insatisfação;
  • políticos aprovam leis na calada da noite em causa própria e se cria uma explícita contradição entre o exercício dos poderes do Estado. 
Enquanto isto, o povo sofre com o desemprego, o empresariado sofre com a estagnação dos seus negócios e o Estado definha com a queda da arrecadação de impostos.

Serão tais acontecimentos apenas localizados, fruto da iniciativa pessoal de um magistrado federal de 1ª instância que tomou para si, juntamente com outros órgãos (Ministério Público e Polícia Federal), a iniciativa de puxar o fio do novelo da corrupção crônica? Ou se trata do resultado de uma decomposição sistêmica?
Até onde irá Sérgio Moro?

O fato é que as contradições inerentes à ilogia de um sistema fundado em bases incoerentes por sua própria essência constitutiva, mais cedo ou mais tarde tende a tornar explícitas tais contradições, como agora ocorre. As pessoas tendem a acreditar, ingenuamente, que é possível se combater a corrupção num sistema corrupto na sua essência constitutiva. Não é. A corrupção é da natureza funcional do sistema. 

A prova disto é que a explicitação feita pelas investigações da Operação Lava-Jato (no dizer de um membro do Ministério Público, "para cada pena que se extrai, aparece uma galinha inteira") já começa a entrar em choque com o Legislativo, um dos poderes do mesmo Estado a que pertencem a Polícia Federal, o Ministério Público e o próprio Poder Judiciário. Não é uma questão de algumas pessoas, mas da quase totalidade de uma instituição e do seu espírito e modus operandi funcional.    

No mundo todo o jogo político eleitoral encobre verdades inconfessáveis de manipulação econômica e da informação que molda a opinião pública. Nada é o que parece ser. Nem os democratas estadunidenses são tão humanistas quanto querem aparentar, nem os dirigentes e políticos republicanos acreditam nas benesses públicas que o propalado desenvolvimento econômico deveria proporcionar. A retórica que todos eles utilizam em discursos, pronunciamentos e entrevistas não passa de blablablá da boca pra fora. 

Só os muito ingênuos acreditam nas mensagens de campanhas eleitorais, que os marqueteiros preparam e os candidatos repetem como papagaios. Quando no governo, esquerda e direita tendem a ter comportamentos praticamente idênticos, vez que, tais quais surfistas, apenas se equilibram na onda da lógica econômica que lhes serve de conceito e de bússola. 
Legislativo se avacalha, Judiciário  ocupa espaços vazios

O que se observa agora, com a tentativa de eliminação pelo Legislativo das franquias constitucionais do Judiciário (inamovibilidade, vitaliciedade, irredutibilidade de vencimentos, imunidade de formação de juízo de valor) é a explicitação da inconciliável oposição entre o melhor senso de aplicação da justiça e um sistema que faz da injustiça a sua razão de ser, via funcionamento da lógica das relações sociais mercantis, subtrativa da riqueza coletiva produzida. Vejamos três pontos:
1) o processo eleitoral, determinado pelo poder econômico e midiático (empresas jornalísticas que pertencem ao mundo econômico), é viciado por tal condição e, portanto, os seus membros, majoritariamente, pertencem a este universo de relações e são por ele sustentados. É contrário ao interesse popular. Assim, como querer que defendam a elaboração de leis justas e de realização da justiça?
2) o poder Judiciário trabalha com leis formatadas por esse poder Legislativo e dentro da lógica do capital: trata-se de um direito legiferado, que é a negação do direito natural. Depois de muitas filigranas de interpretação jurídica e aculturação secular positivando tais cânones jurídicos é que a legislação de cada país capitalista se constitui em diplomas jurídicos que proclamam e buscam a realização do ideal de justiça. Como tudo nas relações mercantis, a verdade é o momento do falso (Guy Debord); 
3) a guerra da concorrência mercantil, na qual as grandes empresas nacionais e internacionais disputam fatias de mercado cada vez mais exíguas, exige comportamentos inconfessados, que a legislação vigente não pode ratificar explicitamente. Mas, os ditos cujos são praticados à farta nas tenebrosas transações que têm lugar no submundo dos gabinetes dos importantes dirigentes empresariais e governamentais. 
O poder Judiciário, quando resolve coibir tais transações, entra em choque com a natureza funcional do sistema, provocando um efeito contrário ao pretendido; ou seja, ao invés de estimular os negócios, provoca maior estagnação econômica localizada, num cenário de estagnação global, daí as tentativas de de coibir sua atuação, como ocorre agora.       
É NA BASE DA CRISE POLITICO-INSTITUCIONAL QUE
 ESTÁ A CRISE ECONÔMICA, E NÃO O CONTRÁRIO. 

Nos tempos de ascensão capitalista, ainda que o quadro geral seja sempre de pobreza, acredita-se, equivocadamente, que as coisas estejam melhorando e seguindo um curso de prosperidade futura geral. Aceitam-se os sofrimentos como dores do parto das benesses vindouras (como agora se crê na cantilena da austeridade para a retomada do desenvolvimento). 

Nestes momentos, o poder Executivo, fortalecido e convivendo com a sensação de satisfação geral, inibe qualquer iniciativa de contestação às instituições, sendo tudo abafado como pecadilho pontual em nome do interesse sistêmico maior.

Quando chega a debacle econômica, procuram-se culpados pontuais sobre os quais se possa jogar a culpa da crise. 
O capitalismo, hoje: um cobertor curto.
A alternância de cenários econômicos está por trás da eterna alternância de governantes no poder, cada um com seu discurso de salvação e competência, sem que nenhum chegue à raiz de problema, que é a necessidade imperiosa de superação do próprio sistema, pois se tornou impossível o seu aperfeiçoamento. 

A vez agora é do discurso do nacionalismo xenófobo que contraria as últimas bolhas de oxigênio do capitalismo. As contradições se tornam cada vez mais explícitas. 

A crise, ademais, fortalece na opinião pública a crença de que é suficiente a meritória (mas ingênua) cruzada de alguns integrantes do poder Judiciário que tentam consertar o inconsertável. A corrupção com o dinheiro público, contudo, está longe de ser a causa de todos os males; é apenas um deles.
  
Passamos pela mais grave e demorada crise econômica desde a depressão iniciada em 1929 e que se prolongou pela década de 1930 adentro, pois agora, diferentemente dos mecanismos de controle estatal econômico ainda existentes naquele momento, as contradições atuais são insuperáveis, porque generalizadamente decorrentes da crise profunda dos fundamentos econômicos no estágio do limite de expansão interna do capital; e têm proporções gigantescas, com as labaredas do incêndio se propagando sem que haja bombeiros em número suficiente para as debelarem. 

Por que não se pensa em formas alternativas de superação de crise, insistindo-se na busca de soluções que são imanentes à causa dos problemas? 

Porque os mecanismos de controle sistêmico, guiados por uma lógica funcional preexistente (não é uma questão de pessoas pensando, mas de pessoas que agem sem pensar, obedientes a tal lógica da qual se tornaram dependentes), não consegue se desapear de sua programação, tal qual os bonecos de teatros de marionetes, cujos movimentos são manipulados de fora.

Nunca nos foi tão urgente adquirirmos consciência do que deve e pode ser feito. (por Dalton Rosado)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

DE TEIMOSO QUE SOU, VOU SUGERIR UMA SOLUÇÃO PARA A ATUAL CRISE BRASILEIRA.

John Kennedy, o presidente dos Estados Unidos que chegou a dar sinal verde para a invasão de Cuba por contrarrevolucionários e mercenários por eles contratados, foi também capaz de perceber quão desastroso seria o envolvimento explícito e de recibo passado dos EUA em tal aventura, daí ter vetado o apoio aéreo e de artilharia, fundamentais para o êxito da empreitada. 

Não comia simploriamente na mão da CIA, o que tem muito a ver com o vasto complô que culminou no seu assassinato em 22 de novembro de 1963 (negado até hoje pela história oficial estadunidense, numa ofensa à inteligência de qualquer cidadão que não tenha QI de ameba!).

Com Kennedy fora do caminho, a CIA convenceu o caipirão texano Lyndon Johnson de que era necessário depor o presidente brasileiro João Goulart para evitar a tomada do poder pelos comunistas. 

Um espantalho que se esfarelou durante a própria execução do golpe: antecipando-se ao calendário do comando golpista, um fascista histórico e histérico saiu com seus recrutas de um quartelzinho mineiro e conduziu tranquilamente tal incrível exército Brancaleone num passeio pela Via Dutra, sem ser incomodado por efetivo nenhum do governo constituído (bastaria um caça da FAB ter disparado duas ou três rajadas de metralhadora por cima de suas cabeças para aqueles recos bisonhos estarem correndo esbaforidos até hoje...).
Eu vou eu vou/ derrubar governo agora eu vou/ parara-tim-bum

Mas, menos anedótico é o fato, inteiramente comprovado pela abertura de arquivos sigilosos dos EUA,  de que navios militares daquele país foram deslocados para a costa brasileira, colocando-se em posição para prestar ajuda aos golpistas, caso fosse necessária. 

Não foi: de resistência tão pífia como a que houve no momento do golpe, até cadetes dos colégios militares teriam dado conta.

Enfim, estou lembrando estes infaustos acontecimentos porque Donald Trump começará a mostrar a que veio no próximo dia 20 de janeiro. Como presidente em exercício não faz necessariamente o que sua retórica de campanha levava a crer (está aí a Dilma, que não me deixa mentir...), seria um erro darmos como favas contadas que, qual Lyndon Johnson e George Bush, Trump será mais um pateta comendo na mão da CIA.

Mas, também seria temerário descartar tal hipótese. Daquela vez, quatro meses e uma semana após a posse de um presidente sem noção nos EUA, a democracia brasileira foi para o ralo. É um precedente ruim demais para corrermos o risco de que se repita.

Os maus augúrios também advêm do derretimento dos nossos Poderes, a gerar um caldo de cultura muito perigoso, propício a viradas de mesa da extrema-direita (que hoje poderiam ter como pretexto o envolvimento e cumplicidade de parlamentares com a corrupção, explicitada nas sucessivas tentativas de enquadrarem e esvaziarem a Operação Lava Jato).

De antemão sabendo que a sensatez nunca deu muito ibope na tragicomédia brasileira, vou sugerir, de teimoso que sou, uma saída para, entre mortos e feridos, salvarem-se todos:
  • que se crie uma comissão mais ou menos como a de Verdade e Reconciliação da África do Sul sob Nelson Mandela, dando aos corruptos a oportunidade de se livrarem das grades ou permanecerem fora delas, desde que confessem seus delitos, paguem indenizações por eles e nunca mais os cometam, sob pena de os processos serem retomados do ponto em que pararam ou as condenações cumpridas até o fim;
  • que os empresários não possam participar da diretoria de grande empresa nenhuma (muito menos de entes do Governo e do Estado) por período a ser fixado;
  • que os políticos não mantenham seus mandatos nem possam disputar eleição nenhuma ou atuarem em entes do Governo e do Estado  por período a ser fixado;
  • que uns e outros não possam exercer atividades explicita ou implicitamente lobistas por período a ser fixado.
Isto, claro, deixaria frustrados os que há tanto tempo sonham com um dia verem a Justiça sendo feita. Mas, seria bem melhor do que deixarmos a instabilidade atual prolongar ainda mais nossa agonia econômica ou, pior ainda, criar condições para o retrocesso histórico, com a volta às trevas ditatoriais.

CÂMARA QUER LEGALIZAR E DESCRIMINALIZAR A CORRUPÇÃO

Por Rui Martins
Enfim, eles, os nossos honestos deputados, tiveram a coragem de, no silêncio da madrugada, enfrentar a opinião pública. E pudemos ver coxinhas e mortadelas abraçados, juntos, todos unidos para defender a continuação do festival de corrupção que assola o país contra os procuradores, juízes e Polícia Federal. 

Não faltou nem a ousada e combativa Jandira Feghali, acompanhada de dois terços de deputados do Psol. Só a Rede não entrou na bandalheira e os Verdes, mas um dos verdes não resistiu à tentação e ficou com a vergonhosa maioria.

Falsos, nossos deputados transformaram o projeto de lei da 10 Medidas anticorrupção numa água de rosas inócua, sem qualquer utilidade, em mais um instrumento de enganação em defesa dos corruptos.

Na verdade, esse projeto hediondo é inconstitucional porque a última emenda fere o princípio da separação entre os Três Poderes, interferindo no Judiciário e ameaçando mesmo punir promotores e juízes por abuso de autoridade. Entenda-se por abuso de autoridades qualquer abertura de processo ou condenação de político envolvido em propinas e corrupção.

Apesar da nossa revolta que é a revolta de todos os brasileiros, forçoso é se reconhecer a originalidade e singularidade da medida. Tenho a certeza de que em nenhum outro país, por mais corrupto que fosse, seus deputados tiveram essa brilhante ideia de inverter a ordem moral ou ética – em lugar da Justiça processar e julgar os corruptos, são os corruptos que assumem a função de colocar no banco dos réus os promotores e juízes, ameaçando-os até de prisão (!!!) caso se atrevam a enquadrar na lei qualquer membro do legislativo ou qualquer autoridade.

A indignidade é total, sobram até ameaças para a imprensa, proibida de dar publicidade a qualquer dos processos que algum juiz ousar abrir. Indignidade é pouco, há também muita indecência nessa tramoia feita em cima de uma petição de mais de dois milhões e meio de brasileiros em favor de um lei anticorrupção.

Não é de se estranhar a declaração da presidente do Supremo Tribunal Federal e do procurador geral da República. Todos sabem ser a Operação Lava Jato o alvo dessa mobilização das bancadas corruptas na Câmara. 

Será que o Senado irá aprovar igualmente essa lei digna de bandidos? Provavelmente, pois muitos senadores estão com o rabo preso por corrupção.

E o presidente não irá temer assinar e promulgar uma lei condenada pela população? Talvez não. Antes se poderia dizer – “no Brasil não há lei”, mas logo se poderá dizer “o Brasil é o único país com uma lei em defesa da corrupção!”. Maravilhoso Brasil, sempre com suas invenções inéditas e inesperadas.

Quando José Dirceu, nosso Maquiavel em recesso, assumiu o poder via Lula, logo percebeu a impossibilidade de governar sem maioria na Câmara e no Senado.  Porém, esperto, teve a brilhante ideia de utilizar a tendência corrupta dos nossos parlamentares, corrompendo-os mais um pouco com o mensalão. 

Em muitos países civilizados, como a França e a Alemanha, houve casos sérios de financiamento de partido, portanto até nesses países havia corrupção. Mas a genialidade de Dirceu foi a inovação de repartir propinas entre os parlamentares a troco de votos favoráveis ao governo Lula na Câmara e no Senado.
Outros que tentaram eternizar-se no poder
O problema não foi a revelação pública do mensalão, mostrando o que para os petistas era uma espécie de corrupção positiva, pois permitia a Lula governar. O problema se tornou grave quando Dirceu imaginou algo maior – fortalecer o PT com propinas das grandes empresas, para se tornar um partido rico, forte e capaz de se manter mais tempo no poder. 

Isso se tornou mais complicado porque institucionalizava a prática da corrupção como ideologia dentro da cúpula do partido, sem conhecimento das bases, alimentadas com a ilusão de um partido incorruptível.

E acabou se complicando porque, ao que parece, a corrupção, antes de provocar uma metástase fatal, se torna altamente infeciosa, podendo infectar os que a manuseiam. Foi o que acabou acontecendo com o próprio Dirceu e com o próprio aparelho do PT. Dizem que até com Lula, mas este continua alegando não haver provas.

Porém o pior de tudo foi a vulgarização infeciosa da corrupção dentro do governo e entre os parlamentares da oposição, levando a superdimensionar os valores subtraídos para o partido e para os próprios bolsos. Ou seja, do roubo de tostões passou-se aos milhões, gerando um afrouxamento generalizado da moralidade.

O Brasil vive a fase final da metástase do câncer da corrupção, que atingiu os órgãos importantes da República. A ideologia inicial da utilização da corrupção para governar não deu certo, acabou dando resultado mesmo contrário, porém tornou a corrupção aceitável, a ponto de quase todos os partidos terem votado, sem vergonha nenhuma, pela proteção dos corruptos e pela punição dos juízes e promotores bisbilhoteiros e incorruptíveis.

Qual será o fim dessa história? Sérgio Moro processado com o arquivamento dos processos da Lava Jato?

Provavelmente. E o Brasil se tornará, sem qualquer vergonha pois já se acostumou com a corrupção, o primeiro país a legalizar, proteger  e descriminalizar a dita cuja.

Então teremos  partidos e políticos corruptos de direita, partidos e políticos corruptos de esquerda, além de agrupamentos menores, todos corruptos assumidos e com carteira assinada.
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