quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

CURTA-METRAGEM BRASILEIRO RECEBE MENÇÃO HONROSA EM BERLIM


O curta-metragem brasileiro Lapso, da realizadora mineira Carolina Cavalcanti, selecionado para a mostra juvenil Geração, do 74° Festival Internacional de Cinema de Berlim, e competindo com outros 12 filmes, recebeu Menção Honrosa do júri, às vésperas do encerramento do Festival.

A realizadora tem deficiência auditiva, igual a atriz, e  seu filme se baseia também nessa experiência pessoal de surdez. Além do problema social da juventude que vive na periferia das cidades.

O filme conta a história de dois adolescentes da periferia de Belo Horizonte, cumprindo pena socioeducativa por terem praticado atos de vandalismo na cidade e são obrigados a conviver no regime socioeducativo. 

Lapso tem como atores Beatriz Oliveira e Juan Queiroz.

O júri explicou sua escolha num texto divulgado pelo Festival do seguinte modo: 

"Este filme é uma história de amor poderosa, mas única, de dois adolescentes. O que realmente brilha é a capacidade de inspirar o espectador a ter empatia por dois personagens que têm circunstâncias e desafios muito diferentes. Junto com eles, embarcamos numa jornada de aprendizagem que proporciona um vislumbre íntimo da vida de duas pessoas que o mundo não teve tempo de compreender. O filme é
verdadeiramente uma celebração de como a coragem de compreender pode ser imensamente poderosa e superar barreiras."
(por Rui Martins) 

terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

OS FANTASMAS DO SÉCULO 20 AINDA ARRASTAM CORRENTES, MAS JÁ SE TORNARAM INOFENSIVOS.

Quem comprará jornais e revistas obsoletos, acompanhará o mofino noticiário político pela internet, assistirá aos telejornais tediosos e escutará o mais do mesmo das rádios se lhe cair a ficha de que quase tudo que está em evidência não alterará em nada o rumo real dos acontecimentos?

Paulo Francis estava certo, a indústria cultural fez de nós patetas vivendo num inferno pamonha

Assim, as análises que tenho lido sobre a Micareta da Paúra do Xilindró se limitam a discutir:
— quantas reses atenderam ao berrante do Bolsonaro (quando a olho nu deu para concluirmos que foi uma manifestação igual a tantas outras ocorridas na avenida Paulista desde o #ForaDilma, nem insignificante, nem retumbante);
— se a influência do genocida maluco aumentou ou diminuiu (isto sob os critérios viciados da política institucional, ou seja, considerando ganho a volta de alguns governadores patéticos ao palanque ultradireitista);
— a possibilidade de o chororô repulsivo do fanfarrão acovardado lhe assegurar a impunidade que não merece nem obterá, etc.

Resumindo: mera espuma, sem nada de verdadeiramente relevante. Muita galinha e pouco ovo. Conversa pra boi dormir. 

Então, vamos ao que efetivamente importa.
A extrema-direita mostrou no último domingo (25) que já perdeu o discurso, as garras e o líder.

Depois do vexame que o Bolsonaro protagonizou ao pedir arrego publicamente, levantando a bandeira da paz porque já não tem como sustentar mais nenhuma guerra, nem mesmo como manter-se fora das grades, a tendência é que a direita civilizada recupere as rédeas.

Lula.3 está aí para comprovar que os donos do PIB podem manter sua dominação sem sobressaltos, por meio do avassalador poderio econômico de que dispõem e da lavagem cerebral efetuada dia e noite por sua indústria cultural. Por que eles haveriam de novamente bancar loucuras estridentes que só assustam o mercado e afugentam investidores? 

Então, a tendência é de a direita quadrúpede doravante ir saindo de cena e a bípede preencher  seus espaços, com o centrão continuando a governar e os presidentes da República sendo cada vez mais reduzidos a rainhas da Inglaterra.

É este o inimigo que devemos nos preparar para combater. Os fantasmas do século passado ainda arrastam correntes, mas já se tornaram inofensivos. 

E, como havia um vendilhão do templo no palanque dos golpistas derrotados e foi ele quem proferiu o mais raivoso discurso de ódio, vou encerrar com Gênesis 19:26-29
"Mas a mulher de Ló olhou para trás e foi transformada numa estátua de sal". (por Celso Lungaretti) 

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

FOI EM VÃO QUE BOLSONARO LAÇOU TANTOS FIGURANTES PARA FAZEREM CORO À SUA SÚPLICA PELA PRÓPRIA ANISTIA. NÃO A TERÁ!

É a camiseta da seleção principal que dá vexame nas
eliminatórias ou da que fracassou no Pré-Olímpico?
A montanha pariu um rato. A manifestação dominical na avenida Paulista convocada por Jair Bolsonaro não passou exatamente, como a batizei tão logo ele a anunciou, de uma Micareta da Paúra do Xilindró

Laçou algumas centenas de milhares de zumbificados para uma ridícula tentativa de convencer parlamentares e/ou o Supremo Tribunal de Federal de que merece ser anistiado da enxurrada de crimes que cometeu.

Chegou ao cúmulo de simular compaixão pelos inocentes inúteis que estão presos por tentarem dar um golpe de Estado em proveito dele! 

Depois de os lançar ao arremedo de putsch de 08.01.2003 enquanto se mantinha a um oceano de distância preservando a pessoa no mundo por quem mais se preocupa (ele mesmo), agora os utiliza no sentido de angariar simpatias para uma anistia a... ele mesmo! 

Não percebe que os quatro anos do seu circo dos horrores permitiram aos brasileiros com um mínimo de raciocínio crítico conhecerem exatamente com quem estão lidando. Quanto aos que ainda ilude, não são sequer relevantes. Trata-se da poeira que o vento carrega na direção para a qual sopra, como o lumpemproletariado de que Hitler serviu-se para sua escalada ao poder. 
No 7 de setembro de 2021, após ter convocado o golpe e
refugado, Bolsonaro foi sentar no colo do Michel Temer
 

Só que hoje a situação é outra e a chance que Bolsonaro perdeu no início de seu governo, único momento no qual poderia mesmo ter desfechado um autogolpe vitorioso (mas sem condições para sustentar-se em médio prazo), não voltará jamais para os seus braços. 

Desmoralizou-se como um golpista amarelão, que três vezes agendou a virada de mesa e nas três vezes pipocou (refugou nos Dias da Pátria de 2021 e 2022, depois foi esconder-se na Dineylândia em 2023), o que é fatal para quem se aventura a liderar hordas de extrema-direita. 

Entre aqueles debiloides que idolatram o machismo mais truculento e exibicionista, bundões são descartados.

Mas, apostando sempre na imbecilidade de seus seguidores, ele os convocou para a montagem do cenário de sua súplica pela anistia. Mostrou novamente  de que matéria gelatinosa é feito. 

Engana os zumbificados, mas a extrema-direita já discute quem o sucederá à frente do movimento, com o Tarcísio de Freitas como o candidato mais provável ao trono. 
Anistia? Após deixar tantas digitais nas armas dos crimes?

No exato momento em que as portas da cela se fecharem com ele dentro, Bolsonaro se tornará carta fora do baralho, deixando apenas a lembrança de ter sido nosso pior presidente de todos os tempos e o que mais brasileiros exterminou (com sua sabotagem insana ao combate científico à covid 19).

De todos os envolvidos no putsch flopado, ele é o que menos merece escapar da devida punição. 

E, se sua impunidade depender da manifestação deste domingo (25), não a obterá, porque longe de demonstração de força, o que vimos foi uma constrangedora admissão de fraqueza. (por Celso Lungaretti)

domingo, 25 de fevereiro de 2024

DEFESA CIVIL EMITIU ALERTA DE RISCO DE ESTOURO DA BOIADA DURANTE O DOMINGO. EVITEM CIRCULAR NA AVENIDA PAULISTA!

"...enverguei mais uma vez o uniforme que sempre foi para mim o mais querido e sagrado. Só o porei de lado com a vitória – ou não viverei para ver o fim!

Como nacional-socialista e soldado alemão entro nesta luta com um coração forte! Toda a minha vida foi uma luta permanente pela minha nação..." (discurso do mito de lá, inspirador do mico de cá, em 1º de setembro de 1939) 
Êta, boiada, ôi! Êta, boiada, ôi!

sábado, 24 de fevereiro de 2024

AMANHÃ TEM 'MICARETA DA PAÚRA DO XILINDRÓ' NA PAULISTA. NÃO DESPERDICE SEU DOMINGO COM O GOLPISTA AMARELÃO!

Mussolini aparece nas fotos liderando a Marcha sobre Roma. Hitler estava na linha de frente do Putsch da Cervejaria. Bolsonaro fugiu para a Disneylândia e ficou torcendo para que seus seguidores lhe entregassem o poder numa bandeja.  

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

EM 1948, EINSTEIN JÁ CONDENAVA O FASCISMO SIONISTA

 

Em 2 de dezembro de 1948, Einstein e um grupo de professores, de origem judaica, enviaram uma carta ao jornal The New York Times - cujo original em inglês pode ser lido aqui em sua versão completa e aqui na versão impressa no jornal à época - se manifestando contra a visita aos EUA de Menachem Begin, então líder do partido israelense Partido da Liberdade, agremiação que décadas depois daria origem ao Likud, hoje comandado por Benjamin Netanyahu.

É expressiva a posição do grupo sobre tal movimento e a denúncia feita pelos autores a respeito das ligações ideológicas entre o tal Partido da Liberdade e o nazifascismo. Importante considerar que nessa época ainda se acreditava na factibilidade da existência de dois estados, algo logo desacreditado pelas ações de limpeza étnica do governo israelense.

Einstein nunca fizera questão de se marcar enquanto judeu e não era apoiador do movimento sionista, tendo, contudo, apoiado o surgimento do Estado de Israel sob o impacto dos crimes perpertrados pelos nazistas, embora logo tenha se distanciado disso. 

Quando se atacarem as comparações entre o que se é feito hoje contra os palestinos e as ações nazistas contra os judeus, lembrem-se que Einstein já tinha feito essa comparação muitas décadas atrás. (por David Coelho)

Entre os fenómenos políticos mais perturbadores dos nossos tempos está o surgimento, no recém-criado Estado de Israel, do "Partido da Liberdade" (Tnuat Haherut), um partido político estreitamente semelhante na sua organização, métodos, filosofia política e apelo social aos nazistas e Partidos fascistas. Foi formada a partir dos membros e seguidores do antigo Irgun Zvai Leumi (IZL), uma organização terrorista, de direita e chauvinista na Palestina.

A atual visita de Menachem Begin, líder deste partido, aos Estados Unidos é obviamente calculada para dar a impressão de apoio americano ao seu partido nas próximas eleições israelitas e para cimentar laços políticos com elementos sionistas conservadores nos Estados Unidos. Vários americanos de renome nacional emprestaram seus nomes para saudar sua visita. É inconcebível que aqueles que se opõem ao fascismo em todo o mundo, se corretamente informados sobre o histórico político e as perspectivas do Sr. Begin, possam acrescentar os seus nomes e apoio ao movimento que ele representa.

Antes que danos irreparáveis sejam causados por meio de contribuições financeiras, manifestações públicas em nome de Begin e a criação na Palestina da impressão de que um grande segmento da América apoia elementos fascistas em Israel, o público americano deve ser informado sobre o histórico e os objetivos de Sr. Begin e seu movimento.

Menachem Begin, que futuramente
ganharia o Nobel da Paz, o mesmo 
 ganho por Obama e Kissinger...

As confissões públicas do partido de Begin não servem de guia para o seu verdadeiro caráter. Hoje falam de liberdade, democracia e anti-imperialismo, enquanto até recentemente pregavam abertamente a doutrina do Estado Fascista. É nas suas ações que o partido terrorista trai o seu verdadeiro caráter: a partir de suas ações passadas, podemos julgar o que se espera que faça no futuro.

Ataque à Aldeia Árabe

Um exemplo chocante foi o seu comportamento na aldeia árabe de Deir Yassin. Esta aldeia, fora das estradas principais e rodeada por terras judaicas, não participou na guerra e até lutou contra bandos árabes que queriam usar a aldeia como base. Em 9 de abril ( de acordo com o THE NEW YORK TIMES), bandos terroristas atacaram esta pacífica aldeia, que não era um objetivo militar nos combates, mataram a maioria dos seus habitantes (240 homens, mulheres e crianças) e mantiveram alguns deles vivos para desfilarem como prisioneiros através das ruas de Jerusalém. A maior parte da comunidade judaica ficou horrorizada com o feito, e a Agência Judaica enviou um telegrama de desculpas ao rei Abdullah da Transjordânia. Mas os terroristas, longe de se envergonharem do seu ato, orgulharam-se deste massacre, divulgaram-no amplamente e convidaram todos os correspondentes estrangeiros presentes no país a verem os cadáveres amontoados e a destruição geral em Deir Yassin.

O incidente de Deir Yassin exemplifica o caráter e as ações do Partido da Liberdade.

Dentro da comunidade judaica, pregaram uma mistura de ultranacionalismo, misticismo religioso e superioridade racial. Tal como outros partidos fascistas, eles têm sido usados para quebrar greves e têm eles próprios pressionado para a destruição de sindicatos livres. Em seu lugar, propuseram sindicatos corporativos segundo o modelo fascista italiano.

Palestinos são expulsos de suas casas para
criar o Estado de Israel, em 1947.
Durante os últimos anos de violência anti-britânica esporádica, os grupos IZL e Stern inauguraram um reinado de terror na comunidade judaica palestina. Professores foram espancados por falarem contra eles, adultos foram baleados por não deixarem seus filhos se juntarem a eles. Através de métodos de gangster, espancamentos, quebra de janelas e roubos generalizados, os terroristas intimidaram a população e cobraram pesados tributos.

O povo do Partido da Liberdade não participou nas conquistas construtivas na Palestina. Eles não recuperaram terras, não construíram assentamentos e apenas prejudicaram a atividade de defesa judaica. Os seus tão divulgados esforços de imigração foram minuciosos e dedicados principalmente a trazer compatriotas fascistas.

Discrepâncias vistas

As discrepâncias entre as ousadas afirmações agora feitas por Begin e o seu partido e o seu registo de desempenho passado na Palestina não trazem a marca de um partido político comum. Esta é a marca inconfundível de um partido fascista para quem o terrorismo (contra judeus, árabes e britânicos) e a deturpação são meios, e um "Estado Supremo" é o objetivo.

À luz das considerações anteriores, é imperativo que a verdade sobre o Sr. Begin e o seu movimento seja divulgada neste país. É ainda mais trágico que a liderança superior do sionismo americano se tenha recusado a fazer campanha contra os esforços de Begin, ou mesmo a expor aos seus próprios eleitores os perigos para Israel decorrentes do apoio a Begin.

Os abaixo-assinados, portanto, utilizam este meio para apresentar publicamente alguns fatos importantes relativos a Begin e ao seu partido; e de exortar todos os envolvidos a não apoiarem esta última manifestação do fascismo. (Einstein e outros em carta ao jornal The New York Times)

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

EIS UMA MULHER TÃO DESUMANA QUANTO MUITOS DOS PIORES HOMENS

Esta mulher é feminista. Esta mulher é monstruosa.

Você ficou espantada(o) ao ler estas afirmações juntas? Não deveria. 

Os seres humanos, seja qual for sua ideologia, preenchem cada ponto da escala que vai de superlativamente bondosos a espantosamente horrorosos. 

Alguém que se proclamava revolucionário pôde ter liderado o extermínio de cerca de 2 milhões de conterrâneos, como o carrasco cambojano Pol Pot (1925-1928) fez.

Alguém que se proclama feminista pode proferir frases tão hediondas como as  da ministra da Igualdade Social e Empoderamento Feminino de Israel, May Golan, que acaba de afirmar no seu parlamento:
"Estou pessoalmente orgulhosa das ruínas em Gaza. Que daqui a 80 anos todos os bebês possam contar aos seus netos o que os judeus fizeram quando [àqueles que] assassinaram suas famílias, os estupraram e sequestraram seus cidadãos!"
E o que, afinal, os judeus fizeram em resposta a tais crimes abomináveis? Exatamente o mesmo, só que várias vezes multiplicado. Quase quatro milênios depois do enunciado da Lei do Talião aparecer no Código de Hamurabi, é por ela que se guiam! Sua terra prometida nada mais é do que uma nova Babilônia? 
Kassif, o judeu que não compactuou com a carnificina... 

Os agressores iniciais não passavam de um movimento, ainda que desvairado e covarde ao extremo (não se conscientiza o próprio povo atraindo desgraças sobre ele). 

Os retaliadores são uma nação armada até os dentes, também desvairada (porque considera ter o direito de sempre reagir à bestialidade com bestialidade muitas vezes maior) e também covarde (porque considera aceitável utilizar sua enorme superioridade de forças para abrir as portas do inferno e deixar atrás de si terras arrasadas). 

Ambos têm o mesmíssimo espírito, o de encarar civis como vermes a serem exterminados, pouco importando se são homens, mulheres, pessoas idosas, crianças, estudantes na escola, doentes no hospital, loucos no hospício, etc. 

Ambos são a escória da humanidade, não podendo receber a aprovação de quem quer que se pretenda civilizado.  Das ações deles só podemos esperar a paz dos cemitérios.

Quanto à ministra sinistra, não foi apenas um mau momento. Em dezembro ela já havia dito este assombro:
"Não ligo para Gaza. Por mim, eles podem ir nadar no mar. Quero ver corpos de terroristas mortos em Gaza. É isso que eu quero ver!"
...ora cometida contra os civis palestinos.
Agora a bela fera rugiu também que "escolheram fugir como porcos" os parlamentares israelenses que abandonaram o plenário para não "fazerem parte de uma causa política, democrática e, acima de tudo, sionista" (qual seja a de empilhar cadáveres para defender a usurpação a mão armada, passada e presente, de terras pertencentes aos palestinos).

Tais abominações repulsivas foram proferidas a respeito da expulsão do único parlamentar judeu que teve a coragem de manifestar solidariedade aos palestinos massacrados, Oler Kassif. 

Como se vê, alguns de seus colegas também discordaram da medida, mas preferiram apenas não coonestá-la com seus votos, evitando o risco de serem também expulsos mas perdendo a chance de igualarem a dignidade de Kassif. Alguém deveria explicar-lhes que, como diziam os antigos, não existe meia virgem...

Quanto à alfinetada que dei nas feministas, foi apenas para alertá-las do excesso no qual incidem ao sustentarem que as mulheres são sempre as vítimas e os homens são invariavelmente os vilãos, seja qual for o episódio. A vida não é assim e tal cegueira acaba prejudicando-lhes a causa.

Mas, suponho que, desta vez, não haverá nenhuma tão fanática a ponto de defender a indefensável May Golan. (por Celso Lungaretti)

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

EXIGIMOS QUE O BRASIL ROMPA RELAÇÕES DIPLOMÁTICAS COM ISRAEL!

 

O recente escalonamento da crise diplomática entre Brasil e Israel, devido às falas do presidente Lula sobre o massacre israelense ao povo palestino, levou o governo brasileiro a retirar seu embaixador de Tel Aviv - não nos esqueçamos, Jerusalém não é reconhecida como capital israelense pelo direito internacional. Em termos diplomáticos, sempre pautados pela hipocrisia e pelas mesuras em excesso, esse é um gesto expressivo, sinal de profundo descontentamento por parte de Brasília. 

Conforme já dito em post do domingo, o motivo de fundo para a ação inusual de Lula contra Israel não é tanto sua preocupação humanitária, mas o descontentamento com a ingerência de Israel na política interna brasileira através de seu embaixador, Daniel Zohar Zonshine, que abertamente vem se encontrando com Bolsonaro e sua família. Não é segredo as relações de Netanyahu com a extrema-direita mundial, sendo seu próprio governo qualificável nessa categoria. 

A reação brasileira não poderia ser outra após a patética ação de Netanyahu em declarar Lula persona non grata em Israel. Novamente, em termos diplomáticos, isso é quase o equivalente a uma declaração de guerra, visto que se está declarando que um chefe de Estado de um país estrangeiro não é bem-vindo. Se o governo brasileiro agisse de outra forma, seria aceitar a humilhação.

Contudo, é importante destacar que, para além da recente disputa, é preciso ter clareza da necessidade em se romper todas as relações diplomáticas com Israel, não por suas ofensas a Lula, mas em protesto contra o massacre perpetrado contra o povo palestino. É uma ação urgente e absolutamente essencial. 

Economicamente, o Brasil em nada perderia. Israel é um anão mundial e não fossem as ajudas bilionárias que fluem dos EUA, jamais se sustentaria enquanto Estado ou mesmo enquanto país. De acordo com dados de 2023, Israel representa apenas 0,37% de toda as transações comerciais brasileiras com o exterior. Um verdadeiro nada! 

Em termos geopolíticos e humanitários, o rompimento brasileiro com o Estado de Israel enviaria uma mensagem poderosa em defesa dos direitos humanos, das leis internacionais e do humanismo. Seria o primeiro país de peso relativo no mundo a tomar tal medida e encorajaria outros a seguirem o exemplo. 

Assim, urge conclamar ao governo Lula que tenha coragem e rompa todas as relações com um país que apenas existe para ser um veículo dos interesses colonialistas dos EUA e de seus aliados europeus e que há mais de 75 anos trucida populações inteiras, sendo hoje é um dos maiores inimigos da paz! Mesmo tendo pouca confiança na coragem de Lula e de seu governo, faço esse pedido e conclamo a todos e todas a apoia-lo e reivindicarem o mesmo. (por David Coelho)

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

CINCO SÉCULOS DE SERVIDÃO NO BRASIL

 

Corria o ano de 1500 e no leste do continente sul-americano, numa praia do Oceano Atlântico, na altura de onde hoje fica a Bahia, havia um sol radioso naquela manhã. Os meninos corriam livremente pela praia brincando de pega-pega ou de arremesso de lança, enquanto suas mães catavam pequenos moluscos que brotavam da terra após a maré baixa. A Aldeia era o local onde todos os autóctones moravam, comiam e bebiam livremente, e sem dinheiro; tudo era partilhado.  

De repente, uma inusitada visão apareceu no horizonte da linha do mar e, após alguns minutos de observação, aquelas mulheres, esbeltas e nuas, com adereços de flores nos cabelos lisos e pretos como a asa da graúna, que José de Alencar tão poeticamente descreveu, e alguns cipós finos amarrados aos braços e cinturas, corpo pintado em listras de urucum, perceberam que a cada instante a imagem ficava maior e mais próxima da praia. 

As crianças pararam de correr e espantadas fixavam o olhar naquele objeto que cada vez mais crescia de tamanho; Irapuan, uma menina de 16 anos, resolveu correr para a oca mais próxima e chamou os homens para que observassem o que estava a acontecer.   

Em alguns minutos, um grupo de cerca de 100 pessoas já se aglomerava para ver aquele objeto enorme, vindo do mar, e que jamais havia sido visto.  Algum tempo depois, o objeto flutuante, a que chamaram de canoa grande, parou a uma distância de cerca de muitos passos, e dele desceram algumas canoas menores.  

Nelas estavam homens que chegaram à praia com vestimentas estranhas, barbudos e fracos - alguns eram vítimas do escorbuto, por estarem há meses no mar sem comer alimentos ricos em vitamina C, somente encontradas em alimentos cítricos -, portando uns objetos desconhecidos nas mãos - viriam a saber posteriormente, e dolorosamente, que aqueles objetos cuspiam fogo e matavam à distância. 

As crianças, sempre destemidas, correram para perto dos visitantes a observar espantados aqueles seres e suas roupas que de certa forma pareciam com gente, apesar das diferenças evidentes.


  
Como não houvesse possibilidade de comunicação pela fala, os gestos supriram a necessidade de comunicação. A bondade natural dos homens de pele morena e olhos puxados, fortes e esbeltos, com ligeira semelhança com os asiáticos, fez que oferecessem, num gesto de amistosidade, frutas, o que agradou os visitantes temerosos de uma má acolhida.  

Ao verem um dos homens a se olhar num espelho, ficaram encantados com aquele objeto que reproduzia a imagem deles mesmos como somente viam nas águas dos lagos mais limpos após as chuvas.  

Cedo um deles deu demonstração de força a dar um tiro numa ave que pousara e que esta caiu morta ao chão. Espantados, deram ao atirador o nome de Caramuru, que em língua patxohã dos pataxós baianos - significava Deus do Trovão.  

Pronto!, estava estabelecida uma relação amistosa dos autóctones para com os europeus, sem que os primeiros soubessem o que estava por vir.  

Como sabemos, justamente aí começou um processo de dominação que iria esbarrar quando os autóctones percebessem na prática a maldade que estava subjacente àquele encontro inusitado.    

A primeira imposição aos homens do continente, a quem chamaram de índios, foi lhes demonstrar a sua crença religiosa com a celebração de uma missa cristã, na qual os visitantes se ajoelharam diante da imagem de um homem crucificado, a quem explicaram que eram a encarnação de Deus na terra e que morrera para salvar a todos.  

Ensinaram que os índios deveriam também se ajoelhar diante daquele rito sagrado, se quisessem obter a salvação numa vida eterna, e que compensaria todas as agruras da vida terrena.  

Era uma forma sublinear de demonstrar que o sofrimento terreno podia ser compensado, e tudo como uma preparação para a tentativa de subjugação daqueles seres que os europeus recém-chegados consideravam apenas como semi-humanos, e que deveriam se purificar com a nova civilização que aportava por aquelas terras.   

Mais interessados em pedras preciosas para levar para a Europa do que numa colonização de longo prazo, primeiro se interessaram por umas pedras amareladas que nunca enferrujavam, a que chamavam de ouro, e que tinha pouca utilidade em relação aos espelhos que lhes eram ofertados em troca.   

Cedo descobriram que os autóctones dividiam entre si tudo que lhes era necessário como alimento, desde frutas, caças e peixes, que eram abundantes, até uma massa branca e fibrosa que extraiam de uns tubérculos denominados de mandioca que cozinhavam na água fervente ao fogo obtido pelo atrito da madeira mais apropriada para a sua obtenção, e ficava deliciosa.  

Os visitantes europeus, principalmente os degredados que vieram na esquadra como punição e mão-de-obra útil, em face do risco que tal viagem representava, nunca se sentiram tão livres e fartos, além, obviamente do sexo livre que podiam ter com mulheres tão lindas e esbeltas com suas vergonhas de fora, como contou Pero Vaz de Caminha em sua carta-relatório ao El Rei Dom Manuel

Os europeus se sentiam, então, como novos donos daquelas terras a serem colonizadas, ainda que fossem recém-chegados; sabiam do poderio bélico que poderiam usar nelas como forma de dominação escravista dos índios no processo de exploração colonizadora que viria a seguir.   

O sentimento não era de convivência harmoniosa e contributiva; mas de dominação escravista própria às sociedades europeias monárquicas, eclesiásticas e feudais, na qual a terra, nas mãos do reino e da aristocracia nobiliárquica, era a grande riqueza, ainda que aos poucos tudo estivesse em processo de transformação capitalista mercantil, cuja expansão marítima de comércio com as Índias orientais já era sintoma da intenção de acumulação da riqueza abstrata a partir da comercialização de mercadorias.  

Mas o processo de dominação dos chamados índios terminou por se frustrar diante da unidade e resistência que estes autóctones impuseram aos exploradores europeus ao perceberem que eles apenas queriam roubar suas terras, seus minerais, e colocá-los a produzir como escravos mercadorias por eles apropriadas e enviadas para a Europa em seus navios, sem que se partilhasse equitativamente aquilo que fora produzido.  

A resistência não se deu apenas pelas armas, vez que as máquinas de fogo da morte eram bem mais eficazes nesse mister do que os arcos e flechas; muito mais os indígenas decidiram entre si de que não mais iriam trabalhar, e que se necessário fosse, morreriam antes de produzir qualquer coisa que beneficiasse os escravizadores. 

Como os índios não aceitaram o trabalho escravo, os escravizadores resolveram reprimi-los colocando-os numa reserva territorial menos produtiva que as terras destinadas aos dominadores; assim a vida social se tornou cindida e cada um para o seu lado. 

 A alternativa adotada de segregá-los em áreas distantes deu resultado, e como o país tinha pouca densidade demográfica, os índios ocuparam terras que agora eram do governo instituído pelos escravizadores, com concessão de uso, vez que não quiseram participar das atividades econômicas então vigentes.  

Com a vigência do trabalho feudal na Europa, de onde os escravizadores eram originários, eles resolveram trazer da África seres humanos acorrentados em navios e que eram mais obedientes à escravização. 

Foi assim que começou o processo de colonização no qual os civilizados se tornam proprietários de terras e escravos, com tudo devidamente registrado em cartório, até que um dia se considerou que era melhor libertar os escravos e escravizá-los pelo salário, sem as obrigações de moradia e alimentação.  

As novas práticas, além de proporcionar a redução dos custos de produção em relação ao uso dos escravos diretos, permitia que aqueles escravos alforriados pudessem comprar nos armazéns da casa grande dos senhorios fazendeiros os mantimentos que necessitassem, pelos preços que os empregadores quisessem, e ainda teriam que pagar o aluguel pelas moradias.  

Foi assim que o senhor escravista se transformou em civilizado capitalista, antiescravista e abolicionista, de modo a que os antigos ocupantes da terra, os índios, ficassem distantes da civilização, e os trabalhadores passassem a ser detentores do direito de serem escravizados indiretamente pelo salário cujo valor produzido era-lhes subtraído pela extração de mais-valia que promove a acumulação da riqueza por aqueles que muito “generosamente” lhes dão os empregos sem os quais, entendem presunçosamente, os escravizados morreriam de fome.  

Criou-se à altura, a lei da vadiagem, ou seja, quem estivesse apto ao trabalho abstrato produtor de valor e não se dispusesse a trabalhar seria preso. Faziam batidas nos morros para ver se algum negro tinha calos nas pontas dos dedos, e não nas mãos, como prova de tocar violão e samba; símbolos da vadiagem.  

Não é por menos que a Lei da vadiagem - Decreto Lei nº 3.688, de 1941 -, ainda vigora no Brasil, apesar do desemprego estrutural causado pelo uso das máquinas que prescinde do trabalho abstrato em maior escala promover a contradição entre a forma capitalista atual e seu conteúdo escravista. 

Não é por menos que aquele senhor da Havan, o empresário Luciano Hang, todo paramentado de verde e amarelo, bolsonarista raiz que ora foi condenado por constranger funcionários ao voto na eleição de 2022, em ação proposta pelo Ministério Público do Trabalho, posa em depoimento no Congresso Nacional de benfeitor por promover, segundo ele, 100.000 empregos nas suas empresas comerciais.  

O fato de chegar de jatinho particular em Brasília e se hospedar em hotel cinco estrelas, enquanto seus empregados enfrentam ônibus e trens lotados para ir e vir, com salário médio mensal de uma diária do mesmo hotel no qual seu patrão está hospedado, é considerada por ele apenas como a contrapartida justa por seu “gesto generoso de empregador empresarial magnânimo”.  

O seu ancestral europeu é aquele mesmo que por aqui aportou naquela manhã ensolarada de 22 de abril de 1.500, ensinando aos autóctones a se ajoelharem pretendendo que eles nunca mais pudessem se levantar.  (por Dalton Rosado) 

domingo, 18 de fevereiro de 2024

DILMA DESPREZOU A CHANCE DE VIABILIZAR A REVISÃO DA ANISTIA DE 1979. TOFFOLI DECIDE ASSUMIR ESTA BANDEIRA.

A justiça é seletiva e letárgica no Brasil: os piores criminosos, quando servem aos
 poderosos,  quase sempre morrem antes de serem condenados e cumprirem pena.  
Passados 39 anos desde que o Brasil se redemocratizou, só agora poderá ser removido um dos piores entulhos autoritários do ciclo dos generais: o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, deseja promover, ainda em 2024, uma audiência pública para rediscutir a Lei da Anistia.

Trata-se, evidentemente, apenas de um ponto de partida. Só havendo vontade política por parte dos três Poderes a iniciativa prosperará.  

Pelo menos ela vem num momento propício: após a fracassada tentativa golpista de Jair Bolsonaro haver revelado que continua existindo uma banda podre nas Forças Armadas, os fardados não estão em condições de proteger seus aloprados. Precisam é convencer os brasileiros de que deixaram de ser uma ameaça à democracia. 

Vale lembrar que a quase totalidade dos vilãos maiores já saiu de cena. Morreram:
Se Toffoli obtiver o que Dilma nem tentou,
que tal trocarmos esta imagem pela dele?
— todos os ditadores que em 1964/85 colocaram a faixa presidencial sobre a farda:
— todos os signatários do Ato Institucional nº 5 menos um (Delfim Netto, hoje com 95 anos); e
— os capangas mais famosos do regime de exceção, como o delegado Sérgio Fleury, o comandante de centro de torturas Brilhante Ustra e o responsável pelo retumbante fiasco do cerco a Carlos Lamarca em Registro, Erasmo Dias, que era um tigrão para barbarizar universitários mas virava tchutchuca diante de combatentes treinados, mesmo dispondo de 1.733 soldados para impedir a fuga de cinco guerrilheiros.

Ainda assim, é preciso darmos o desfecho correto a uma das páginas mais vergonhosas da nossa História, inclusive para não legarmos um precedente ignóbil aos que virão depois. 

O próprio Jair Bolsonaro poderá espernear contra as penas a que será condenado por genocídio, golpismo e uma infinidade de outros crimes, alegando merecer a mesma anistia dos responsáveis pelas atrocidades dos anos de chumbo. Portanto, mesmo que ela venha a ser pra lá de tardia, é importante que a justiça não falhe em definitivo.   

Neste sentido, pouco importa se o Toffoli não tem exatamente o perfil ideal para encabeçar tal cruzada. Afinal, aquela cujo dever moral era (até mesmo por haver sofrido a tortura na própria carne) usar toda a sua autoridade presidencial para tentar remover o obstáculo que impedia a condenação dos torturadores, falhou miseravelmente.

Refiro-me, claro, a Dilma Rousseff, que assumiu a presidência da República em 2011, cinco semanas depois de a Corte Interamericana de Direitos Humanos haver decidido que a anistia brasileira de 1979 era inválida por haver sido promulgada em plena ditadura, com parlamentares oposicionistas sendo inclusive chantageados a votarem a favor (só assim presos políticos seriam libertados e exilados políticos poderiam voltar para cá sem serem detidos no desembarque).
Henfil e os mortos e desaparecidos políticos: a alusão
é à propaganda "tomou doril, a dor sumiu"

Como a sentença da corte internacional vinculada à OEA prevalecia sobre as decisões do Judiciário nacional, Dilma teve nas mãos a oportunidade de finalmente tirar o gênio da garrafa, sem maiores riscos: bastaria ter cumprido o que a corte determinou.

Mas, preferiu ignorar esta parte da sentença, embora insistentemente cobrada por muitos juristas e entidades defensoras dos direitos humanos; e, quanto à outra parte, permitiu que os militares tornassem uma chanchada a busca dos restos mortais dos guerrilheiros exterminados no Araguaia, que deveriam ser entregues às respectivas famílias.

Finalmente, para tirar o assunto incômodo do noticiário, instituiu a Comissão Nacional da Verdade, sem, contudo, respaldar a sua atuação: sempre que o colegiado se chocou com os negaceios dos perpetuadores da mentira, não recebeu o apoio necessário para cumprir efetivamente a sua missão. 

Logo os integrantes da comissão perceberam que sua função era meramente propagandística e que deles nada se esperava além de um relatório reunindo e sistematizando as informações já levantadas em investigações passadas, como as dos defensores dos direitos humanos e as da imprensa. Nada acabou vindo à tona que se comparasse, p. ex., à Casa da Morte de Petrópolis e às ossadas de Perus.

Vale destacar, contudo, que a da Dilma Rousseff foi apenas a última de uma sequência de omissões, que passa:
É crível isso como presidente do Brasil redemocratizado?
— pela inapetência da
Nova República no que tange à remoção do entulho autoritário, com os parlamentares pisando em ovos por temerem uma recaída totalitária e com um presidente (José Sarney) que passou quase toda a ditadura lambendo os coturnos dos fardados como integrante e até presidente do partido situacionista, só abandonando o navio em 1984, quando o regime militar já agonizava: 
— pela falta de afinidade ideológica do Fernando Collor com a tarefa e a falta de grandeza do Itamar Franco, mais preocupado com os anacrônicos fuscas e os paralelepípedos de cidades históricas ;
— por Fernando Henrique Cardoso não ter ousado concluir a lição de casa, embora haja percorrido uma parte do caminho ao instituir a Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos e a Comissão de Anistia;
— pela amarelada de Lula no início de 2010, quando o Alto Comando do Exército lançou um verdadeiro ultimato contra o esboço da terceira versão do Programa Nacional de Direitos Humanos e ele, como presidente da República e comandante-em-chefe das Forças Armadas, simplesmente contemporizou e prometeu alterações, quando deveria é  ter respondido ao desafio com a exoneração imediata dos insubmissos (a partir daí os militares não pararam mais de dar murros na mesa sempre que contrariados);
— por, em diversas escaramuças no período 2007/2010, Lula invariavelmente haver tomado o partido de seus ministros conservadores quando, opostos a eles, Tarso Genro (Justiça) e Paulo Vannuchi (Direitos Humanos) tentavam engajar o governo federal em iniciativas voltadas para a revisão da Lei da Anistia. (vide este artigo);
O STF num de seus piores momentos: em 2010, quando garantiu a impunidade dos torturadores.
— pela decisão do STF em abril/2010, confirmando que a Lei da Anistia continuava impedindo que os torturadores e respectivos mandantes fossem condenados pelos seus crimes, por mais hediondos que fossem (execuções, torturas, estupros, espancamentos, afogamentos, ocultação de cadáveres, maus tratos a crianças filhas de presos políticos para intimidá-los e outros horrores). 

Concluindo: a Argentina saiu de uma ditadura em dezembro de 1983 e em 1985 já estava processando o ditador e o comandante do principal centro de torturas, que não escaparam de ver o sol nascer quadrado. 

Por aqui, o próprio hino nacional nos garante que somos um povo heroico e que um filho deste solo não foge à luta, mas isto não se sustenta face aos 39 anos de ultrajante impunidade das bestas-feras da ditadura e da hipocrisia de mandatários que foram a própria corporificação da banalidade do mal a que se referiu Hannah Arendt.

Vislumbram-se oportunidades para ainda mudarmos isto, acertando as contas tanto com o terrorismo de estado mais remoto quanto com o golpismo e o genocídio recentes. Se as deixarmos passar, será melhor nos assumirmos de vez como os bananas das Américas.
(por Celso Lungaretti

LULA TEM TODA RAZÃO SOBRE O MASSACRE ISRAELENSE A GAZA

 Netanyahu ficou furioso, dizem os jornais, com a declaração de Lula de que as ações do governo israelense na Faixa de Gaza se comparam às ações nazistas contra os judeus. Tal fala veio no meio de um discurso maior, e contundente, em que o brasileiro condenou a retirada do apoio humanitário por parte das nações ocidentais à agência da ONU para os refugiados palestinos - UNRWA - bem como a matança indiscriminada de civis. Não se trata de guerra, mas de massacre, enfatizou Lula. Em resposta, o abutre israelense convocou o embaixador brasileiro para uma reprimenda, naquilo que certamente será o início de uma longa e, cada vez mais profunda, crise diplomática. 

O discurso não foi improvisado, muito ao contrário, parecia bem decorado pelo presidente, e deve ter passado pela chancela de diversos assessores e mesmo do Itamaraty e, portanto, não é possível defender se tratar de um arroubo momentâneo, muito mais porque o petista não é dado a usar tais tipos de arroubos em questões tão sensíveis e, sobretudo, em aspectos de geopolítica. Além disso, está situado dentro de um processo de crescente tensão entre os governos brasileiro e israelense que se iniciou quando o embaixador de Israel no Brasil, Daniel Zonshine, se encontrou, em novembro, com Bolsonaro em um ato político na Câmara. Não é segredo as ligações do governo de Netanyahu com o bolsonarismo, seguindo seu alinhamento à extrema-direita mundial. 

Tudo a leva a crer que é tal apoio de Netanyahu ao bolsonarismo o principal motivo da crescente crítica de Lula às ações de Israel na Faixa de Gaza, ainda mais porque, à época do encontro entre o embaixador e o ex-presidente fujão, o governo prometeu uma resposta contundente assim que a situação dos brasileiros retidos na Palestina fosse resolvida. Pelo visto, tal resposta está chegando. 

Contudo, os motivos não importam muito. O importante é considerar que Lula, pela primeira vez em muito tempo, está dizendo algo verdadeiro e se posicionando de forma efetiva ao lado de uma causa absolutamente justa. Mesmo com todas as nossas críticas ao petista, não podemos deixar de registar nossa concordância e nosso apoio a ele por sua fala. (por David Emanuel Coelho) 


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