quarta-feira, 13 de maio de 2026
HOJE É DIA DE RELEMBRAR O 'TEATRO DO OPRIMIDO' E A PEÇA 'ARENA CONTA ZUMBI'
LEGADO DE UM REVOLUCIONÁRIO/11
Meu patrão era então o produtor do primeiro programa televisivo de debates que a ditadura permitia desde o AI-5, o Diálogo Nacional.
Num fim de uma tarde, Franklin Machado, jornalista da Tribuna de Santos, chegou bem adiantado para participar do programa e fui incumbido de ficar fazendo sala para ele.
Constatamos que pensávamos igual sobre muitos assuntos, então ele me convidou para falar com o Mozart Menezes, líder do grupo Cacimba, que começara prestando assistência aos nordestinos que chegavam para trabalhar em São Paulo, depois mudou o foco para um ponto de encontro e convivência dos esquerdistas que precisavam manter o ânimo e a serenidade em meio à ditadura militar. Fazia edições alternativas de livros e de jornais, organizava espetáculos de poesia, festas, etc.
Depois o Mozart me contou que os dirigentes do partido a que ele pertencia fizeram pressão para que não comparecesse ao encontro marcado comigo, mas ele respondeu que jamais julgaria uma pessoa na base do disse-me-disse.
Quatro foram presos e muito hostilizados na prisão, afora existirem boatos de que os explosivos roubados de uma pedreira serviriam para causarem uma rebelião no presídio e, aproveitando a confusão. assassinarem os quatro de Salvador (como eles haviam sido apelidados pela imprensa).
Em desespero de causa eles resolveram fazer uma greve de fome, que começaria dentro de dois dias. Mas, não havia esquema nenhum para fazer tal protesto repercutir na imprensa.
Eu era o único com know-how para desempenhar tal papel, então me voluntariei. E passei dias horríveis batendo em portas fechadas e temendo por danos que viessem a sofrer porque eu não estava sabendo direito como os socorrer.
O problema principal era que eles pertenciam ao PT como fachada e ao PCBR por baixo do pano. Já então se distanciando da esquerda combativa, o PT não só expulsou os quatro como fez tudo que pôde para que a esquerda os ignorasse.
A preocupação petista era de que o partido perdesse meia-dúzia de votos na eleição que se aproximava. Negavam-lhes a solidariedade revolucionária por já então estarem abdicando da prática anticapitalista, embora não tão descaradamente como hoje em dia.
Então, a direita era contra eles e a esquerda os abandonava. Fiz uma infinidade de tentativas até que uma resultou, meio por acaso mas premiando meus esforços.
No dia seguinte ele escreveu que o ministro pedira ao governador baiano que desse um jeito para a greve de fome terminar sem que ocorresse uma desgraça. Os quatro receberam garantia de que sua segurança seria preservada e foram autorizados a trabalhar durante o dia e apenas pernoitarem no presídio.
Vitória sofrida, mas gratificante: quando já se havia esgotado a munição que eu tinha para salvar os companheiros, um acaso jogou a vitória no meu colo!
Eu continuava petista, mas numa reunião em que se discutia política para justificar a presença dos filiados que deveriam concordar com uma medida administrativa, um dirigente do PT aproveitou o intervalo para conversar com uns cinco vaquinhas de presépio lá presentes.
Recomeçados os trabalhos, os cinco passaram a me atacar de forma raivosa e o tal dirigente afirmou que os quatro de Salvador e eu éramos todos cachorros loucos.
Foi quando desliguei-me do PT, não sem antes lançar um artigo intitulado Os cachorros loucos e os lulus de madame.
* * *
| Melhor livro sobre o cerco a Registro |
Como prêmio seria recebido no PCdoB para reatar minha militância, começando por baixo (aliado ou simpatizante, não me recordo mais). Tive vontade de aceitar, tamanha era minha vontade de pertencer de novo a um círculo da esquerda militante.
Mas percebi que o pomo da discórdia era o de que, se relatasse fielmente como havia sido injustiçado pela VPR, estaria comprometendo a imagem de mártires da luta contra a ditadura.
Por minha vez, aceitando tal proposta eu passaria recibo de que as acusações que me faziam eram verdadeiras. Queria, sim, voltar, mas respeitado, não como um coitadinho. Não houve acordo.
Mas em 1979, quando voltei a estudar para completar o curso de jornalismo que me livraria de perseguições do sindicato da categoria por estar exercendo a profissão sem diploma de nível universitário, não passou nem um mês e eu era convidado a participar de uma reportagem da IstoÉ sobre os arrependimentos de esquerdistas. Eu concordei e fui o mais incisivo na crítica às sevícias.
Em seguida o jornal gaúcho Zero Hora fez uma série de reportagens sobre o mesmo assunto e novamente botei a boca no trombone,
Em 1994, contudo, algo que escrevi caiu mal para os petistas. Coincidência ou não, logo depois a Folha de S. Paulo publicou na Ilustrada uma reportagem do Marcelo Paiva que não tinha nada a ver comigo e nela ele encaixou um trecho me acusando gratuitamente de delator da área de treinamento da VPR.
Foi o momento em que comecei a obter mais manifestações de apoio de esquerdistas.
Tudo que eu semeara floresceu quando encontrei e divulguei um relatório de operações do II Exército, no qual constava que a localização da área ativa tinha sido revelada por uma pessoa presa no dia 18 de abril, indiretamente me inocentando, já que eu caíra no dia 16. Mas como fazer isso repercutir amplamente nos círculos de esquerda?
Tive a ideia de levar o tal relatório ao Jacob Gorender, o principal historiador da luta armada brasileira. Meio desconfiado, ele disse que tinha mais material sobre o assunto, iria consultá-lo e me daria retorno.
Bem mais cordial, dias depois ele me telefonou para informar que eu tinha razão e que comunicaria isto à Folha de S. Paulo e a O Estado de S. Paulo. A Folha publicou na íntegra uma carta do Gorender em meu favor; fui o único combatente da luta armada que conseguiu provar que fora acusado injustamente. Fim do pesadelo que durante 34 anos prejudicou minha imagem de revolucionário.
Mas, ainda havia lutas a ser travadas e, mesmo com a idade de 57 anos, sobrava-me disposição para travá-las. (por Celso Lungaretti)
terça-feira, 12 de maio de 2026
O DONO DA BOI GORDO ERA UM SELF SHIT MAN DO CAPITALISMO. O BOZO, UM SERIAL KILLER. OS POLÍTICOS, SONS OF BITCHES.
| Outra prova de que o Brasil não é um país sério |
Está certo o Rui quanto à necessidade de se punir quem aplica golpes no mercado, mas o Brasil está diminuindo a pena do ex-presidente Jair Bolsonaro, que, com sua sabotagem vacinal, acrescentou no mínimo três centenas de milhares de óbitos ao número de mortos pela covid.
O pilantra Andrade deveria passar alguns anos na prisão. O serial killer Bolsonaro merecia ficar o resto da vida a pão e água num cárcere medieval. País que quebra o galho de um exterminador desses decididamente não é um país sério, como Charles De Gaulle disse ou levou a fama de haver dito.
Tenho mais desprezo pelos políticos profissionais, que roubam sem correr riscos, do que pelos bandidos, cujo ofício embute o perigo de serem mortos. O golpe da amenização das penas da dosimetria, um absurdo gerado no Congresso, está aí para mostrar como a corja da politicagem age com o máximo de fisiologismo para proteger seus pares, ainda que de outros partidos.
GOLPE DO BANCO MASTER VAI ACABAR EM PIZZA COMO O DA BOI GORDO?
| Megafazenda da Boi Gordo no Mato Grosso: o princípio do fim. |
Ao seu lado, poderá estar gargalhando até do nosso Judiciário um de seus prováveis inspiradores, Paulo Roberto de Andrade, famoso por um golpe de mais de 2,5 bilhões, não em ministros, políticos e bancos, mas em 34 mil pequenos investidores da classe média.
Segundo o professor Marcos Assi, na revista Exame, o golpe do Banco Master tem uma diferença marcante: os maiores lesados não foram apenas pequenos e médios investidores, mas fundos de pensão, municípios, Estados e empresas de capital aberto, com envolvimento direto ou indireto de políticos e até de importantes juristas, num total astronômico calculado em 10 bilhões de dólares.
Diante do escândalo do Banco Master, lembrei-me de um artigo sobre a falência da Boi Gordo que escrevi em 2009, com descrença e pessimismo na Justiça brasileira, bem evidente já no título: Dono da Boi Gordo rico, feliz e livre.
O empresário Paulo Roberto de Andrade tinha sido processado por crime falimentar e condenado a três anos de prisão pela 13ª Vara Criminal de São Paulo. Mas seu advogado entrou com um habeas corpus para Andrade aguardar em liberdade o fim do processo. E o ministro Og Fernandes, da 6ª Turma do STJ, concedeu a liminar alegando que o TJ paulista não podia determinar a prisão antes do trânsito em julgado da sentença.
É a pizza. Fazer o quê? Lamento a anulação de um caso emblemático como esse. Houve um golpe, milhares de pessoas foram lesadas e não haverá responsabilização penal
domingo, 10 de maio de 2026
HOJE É O DIA EM QUE AS MÃES SÃO USADAS PARA ALAVANCAR VENDAS E ENDINHEIRAR OS SALAFRÁRIOS DO CAPITALISMO
sábado, 9 de maio de 2026
LEGADO DE UM REVOLUCIONÁRIO/10
Mas eu me encontrava lá para sofrer e continuaria sofrendo até o momento de recuperar a minha liberdade. Estava no DOI-Codi/SP e, certo dia, me mandaram juntar a tralha que tinha, pouca coisa, e ir esperar a soltura na entrada daquela unidade.
Passei uma tarde inteira no que seria um estacionamento, vendo viaturas chegarem e partirem, à espera do fim do pesadelo. Em vão. No final da tarde me encaminharam de novo para a cela, porque faltava resolverem algum detalhe burocrático.
Dia seguinte, a mesma coisa. Mas, depois da algumas horas, fui finalmente libertado. Passara 11 meses e meio no inferno e sobrevivera, mas sem perspectiva nenhuma na mente, sem a mínima ideia do que faria dali em diante.
Depois de umas duas semanas o advogado conseguiu dobrar o juiz hostil e voltei para a rua. Curiosamente, entre a prisão e o repique, acabei totalizando um ano exato de encarceramento.
Retomei o cursinho, sendo aprovado na ECA-USP e, finalmente, tive um período mais afortunado. Comecei a namorar com A., que acabaria se tornando a minha primeira esposa. E reencontrei amigos que fizera no tempo do movimento secundarista.
Estavam prestes a formarem uma comunidade alternativa num casarão espaçoso do Jardim Bonfiglioli. Convidaram-me e fui morar com eles.
Após ter terminado meu relacionamento com a V., não por acaso, comecei a consumir mais as drogas. Outro amigo do tempo da Frente Estudantil Secundarista se tornara traficante e não cobrava nada de mim.
Também foi nessa fase que passei a contestar o líder da comunidade, por me parecer autoritário e stalinista. De certa forma, revivi o drama histórico do confronto entre Stálin e Trotsky, influenciado pelos livros da Isaac Deutscher sobre o desvirtuamento da revolução russa. Era uma espécie de psicodrama, que teve papel importante na minha volta à normalidade.
Finalmente, uma viagem estranha simbolizou o esgotamento dessa fase: vi-me caminhando na direção de uma ponte e sabia que, se a atravessasse, passaria o resto da vida na dimensão paralela da loucura.
A comunidade se esfacelou pouco tempo depois. Eu aluguei uma quitinete para morar com a minha primeira namorada, a A,, da qual me reaproximara.
Teria chegado ao fim de minha inquietação e combatividade? Não, ainda tinha muitas páginas a escrever no livro da vida. (por Celso Lungaretti)
sexta-feira, 8 de maio de 2026
O MOVIMENTO ESTUDANTIL ERGUE-SE CONTRA O SUCATEAMENTO DAS UNIVERSIDADES PÚBLICAS
| Aqui foi travada a batalha da Maria Antônia |

