quinta-feira, 21 de junho de 2018

TRUMP E O CHEIRO DE NAZISMO NO AR

Por Clóvis Rossi
A última coisa que poderia imaginar na vida é que, algum dia, um dirigente americano pudesse ser associado ao nazismo. Afinal, os Estados Unidos foram essenciais para a derrota do nazismo no século passado e gozavam de um certo status de campeões da liberdade.

É verdade que esse rótulo já foi arranhado um punhado de vezes, por terem apoiado ou até financiado a instalação de ditaduras nefandas, em especial na América Latina.

Mas, agora, Donald Trump atropelou todos os limites com a sua insistência em deportar imigrantes e, ainda por cima, separar crianças de seus pais. Voltar atrás agora, como anuncia, não apaga o já ocorrido.

Basta citar a avaliação de David Leonhardt, editor da newsletter de Opinião de The New York Times: ele menciona o fato de que Trump usou a palavra infestação para se referir à chegada em massa de imigrantes aos Estados Unidos.

E emenda que infestação "é uma palavra particularmente dura porque sugere que imigrantes são equivalentes a insetos ou ratos —uma analogia que os nazistas frequentemente usavam para descrever os judeus".

É bom esclarecer que Leonhardt não acha que Trump seja nazista, ainda que o ache bastante confortável com "muitas ideias de supremacia branca". Uma maneira sutil de dizer que o presidente é racista.
Aviya Kushner não é a única a pôr o nazismo na avaliação dos episódios que estão chocando o planeta.

Hadley Freeman, colunista de The Guardian, escreveu nesta 4ª feira (20): "Analogias com o nazismo podem não ajudar, mas é impossível para aqueles de nós que somos descendentes de sobreviventes do Holocausto ouvir as gravações de crianças chorando por seus pais e não pensarmos nas crianças judias de nossa família que foram forçadas a se separar de seus pais".

Sempre haverá quem diga que todo país tem o direito de impedir a entrada de imigrantes ilegais. É verdade, mas adotar uma política aberrante como a que está em curso nos Estados Unidos contraria até mesmo a pregação de Mike Pompeo, o secretário de Estado de Trump.

Em pronunciamento sobre o Dia Mundial do Refugiado, Pompeo escreveu:
"Quando deslocamentos globais alcançam níveis recordes, torna-se vital que novos atores —incluindo aí governos, instituições financeiras internacionais e o setor privado— venham à mesa a fim de colaborar na resposta global para enfrentá-los".
E acrescenta com uma frase que só pode ser tomada como cínica: "Os Estados Unidos continuarão a ser um líder mundial na provisão de assistência humanitária e no trabalho para forjar soluções políticas para os conflitos subjacentes que levam aos deslocamentos".

Se ser líder em assistência humanitária é separar crianças dos pais e prendê-las em jaulas, o conceito de humanidade está em seu nível mais baixo desde a Idade da Pedra.

Recordo o escritor argentino Ernesto Sábato, que disse no ato de lançamento das Avós da Praça de Maio, as que buscavam seus netos desaparecidos: "Nós, adultos, de algo sempre somos culpados. Mas as crianças, de que podem ser culpadas as crianças?".

Sorte sua, Sábato, que morreu antes de ver um presidente americano criminalizar também as crianças. Arrepender-se agora é confissão de culpa.

A DISTOPIA MUNDIAL E A VOLTA DAS PRÁTICAS NAZIFASCISTAS – 2

(continuação deste post)
Gueto de Varsóvia, 1943: modelo para Trump?
AFUNDANDO NUM OCEANO DE INIQUIDADES – Diante da distopia atual o capitalismo tira a sua máscara de respeito aos direitos humanos pelo chamado Estado democrático de direito. Tal como na Alemanha nazista, utiliza-se agora a própria lei e os argumentos de defesa da economia nacional como argumentos falaciosos para a repulsa aos não nacionais, como se fossem seres humanos diferentes dos demais.

Não são poucos os exemplos que podem ser citados, tudo praticado democraticamente por governantes eleitos em eleições nas quais vontade popular é manipulada pela via de um discurso xenófobo segundo o qual nós não podemos pagar pelos erros dos outros e precisamos de quem defenda os nossos interesses

Não se compreende que o mundo economicamente globalizado é uma grande nau que faz água por muitos dos seus lados e que nos levará a todos para o fundo de um mesmo oceano de iniquidades.

Não se compreende que, sob o capitalismo, a vitória de uns poucos implica a derrota da maioria; e que, diferentemente desse nefasto contrato social, deveríamos viver sob a égide de um modo de mediação social diferenciado, no qual sejam a solidariedade humana e a apropriação da capacidade da natureza de prover a subsistência global nas suas variações climáticas e territoriais, os pontos fundamentais da nossa existência social.
Cena que se torna corriqueira: refugiados lançando-se ao mar

Ao contrário disso, o que se observa mais recentemente é que:

— o ministro italiano do Interior, Matteo Salvini, adepto do discurso xenófobo nacionalista, teve a insensibilidade de negar acolhida a 629 pessoas, dentre elas mulheres grávidas, crianças e velhos, que, em desespero, se lançaram ao mar;  

— o presidente dos Estados Unidos, maior país capitalista do mundo e que costuma ditar regras morais e éticas para as demais nações (como se o capitalismo fosse um modo de produção capaz de promover minimamente prosperidade geral e equilíbrio social!), é o primeiro a barrar os empobrecidos do planeta que tentam chegar à grande ilha de acumulação de riqueza capitalista. 

Que mundo é esse, que não nos cabe a todos?

Comparo a prisão de pessoas que imigram em desespero de sobrevivência e sua separação dos filhos, sob Trump, ao que fazia a Alemanha nazista: mandava as crianças judias para campos de concentração!    

Como se explicar a diáspora africana, americana central, asiática, árabe, e até mesmo dentro do continente europeu, sem que se coloque a culpa disso tudo num sistema que encontrou o seu limite interno absoluto de coexistência social graças à disfunção entre forma e conteúdo?
A lógica do capitalismo impõe a restrição dos direitos previdenciários 

Como aceitar que pessoas idosas sejam privadas de seu sustento após anos de trabalho em razão do déficit da previdência social, que ocorre até mesmo nos países economicamente desenvolvidos como a França (vale lembrar que o próximo presidente do Brasil e o parlamento a ser eleito em outubro herdarão a incumbência, imposta pela lógica capitalista, de restringirem direitos previdenciários)?

A concentração de valor (dinheiro e mercadorias) no organismo social capitalista sem capacidade de auto-reprodução está condenando ditos capitais a virarem pó; diante dessa iminência, os Estados cada vez mais recorrem à força militar para manutenção da ordem sistêmica capitalista decrépita e, assim, cada vez mais opressora (sob os auspícios da lei!).   

Entretanto, como tal problema de natureza econômica não se resolve pela força bruta, corremos o risco de assistirmos nas próximas décadas a lutas fratricidas, a guerras civis entre os que querem manter os seus privilégios por trás de muros e armas e aqueles que buscam a sobrevivência a qualquer custo.

Por Dalton Rosado
Sem que atentemos para as questões subjacentes à miséria social mundial que se amplia, nós corremos o risco de entrarmos definitivamente na barbárie, que nunca foi e nem será a solução para os problemas que nós mesmos criamos. 

Barbárie corporificada na eleição de Donald Trump e na sua política anti-imigratória que encarcera crianças.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

A DISTOPIA MUNDIAL E A VOLTA DAS PRÁTICAS NAZIFASCISTAS – 1

"Agora temos
uma orquestra,
só falta um maestro"
(guarda estadunidense face ao choro uníssono de crianças
separadas dos pais e
presas em jaulas
de arame) 
O mundo experimenta hoje um fenômeno migratório das populações dos países periféricos do capitalismo para os grandes centros do chamado 1º mundo como nunca antes ocorreu.

Isto se deve ao fato de as condições de produtividade de mercadorias e o caro financiamento dessa produção e da dívida pública estatal dos países periféricos, em relação aos países que controlam a economia mundial, serem substancialmente diferenciadas para pior. A concorrência é desigual.   

A barbárie em curso nas nações periféricas de um mundo no qual a economia se tornou globalizada, causada pelo descompasso cada vez mais acentuado das condições financeiras e de concorrência de mercado, dá azo ao surgimento de governos tirânicos e grupos paramilitares que dominam pela força das armas as populações pauperizadas e desesperadas.

As populações de tais países só veem uma saída: o aeroporto, para os que podem pagar uma passagem de avião e conquistar a tal cidadania graças a comprovação de riqueza, ou a aventura da emigração, seja pelo mar em embarcações precárias, seja por terra frequentemente atravessando áreas conflagradas. E para quê? Para, no seu destino, serem recebidos como párias da humanidade. 
Secretário-geral da ONU repudiou tratamento desumano às famílias de refugiados e migrantes nos EUA 
A conclusão é igualmente simples: o capitalismo encontrou o seu limite interno de expansão e aquilo que outrora proporcionou a riqueza dos países que conduziram as duas primeiras revoluções industriais logo após o período da colonização escravista direta, agora esbarra na terceira revolução industrial (a da microeletrônica), na qual o trabalho abstrato produtor de valor se tornou mero acessório da produção de mercadorias. 

Com a terceira revolução industrial as massas globais de extração de mais-valia e de valor global diminuíram substancialmente; assim como um organismo vivo desfalece quando falta sangue, o capitalismo mundial ora agoniza, com os países tidos como ricos sobrevivendo por aparelhos (refinanciando suas impagáveis dívidas públicas, emitindo títulos públicos insolváveis e moedas sem lastro, recorrendo, enfim, a expedientes que apenas postergam o inevitável). 

Por sua vez os países periféricos do capitalismo, por não terem as mesmas condições de sustentação artificial das nações ricas, são largados à própria sorte. 
Desertificação avança no Ceará

Tomemos como exemplos alguns fenômenos do Brasil, país que se situa a meio caminho entre as nações empobrecidas e as grandes produtores de mercadorias. 

As terras nordestinas, em grande parte, se tornaram improdutivas, seja por falta de níveis de produtividade que lhes permitam concorrer em condições de igualdade no mercado brasileiro, seja por causa das secas cíclicas, cada vez mais frequentes e intensas com o avanço do aquecimento global.  

Assim, as terras que antes eram dominadas pelos antigos coronéis do sertão, hoje estão simplesmente abandonadas, sendo comum vermos casas em ruínas onde antes moravam grandes contingentes de trabalhadores rurais. 

A reforma agrária no Nordeste se tornou factível porque a substancial redução do valor econômico das terras leva os grandes fazendeiros a almejarem a desapropriação barata pelo governo, para com isto poderem comprar uma casa nos centros urbanos.

Entretanto, tais terras, ocupadas pelos assentamentos rurais, em pouco tempo são também abandonadas, pelos mesmos motivos, ou seja, no capitalismo, ou se produz em grande escala, com equipamentos modernos e pouca mão de obra, ou não se inviabiliza a produção por falta de capacidade concorrencial de mercado.  

No sertão do Nordeste do Brasil até a economia de subsistência já não funciona, pois produzir um quilo de queijo com o leite de poucos animais, torna-se mais caro do que comprá-lo numa venda ou supermercado.   

Evidência recente da disfunção econômica é o que está ocorrendo com o sistema de transporte rodoviário. O custo do transporte de mercadorias está incompatível com o preço dos fretes, pois a elevação do valor deste último não pode ser repassada para o preço das mercadorias em razão da concorrência de mercado e da falta de poder aquisitivo de grande parte da população.
Setor de transporte de carga pressiona pelo aumento do frete

O resultado é a paralisia de todo o sistema de transporte, que pressiona pelo reajuste dos preços dos fretes mas esbarra na depressão de toda a economia. O quadro é de uma septicemia generalizada de todo o organismo econômico.

Outro sintoma é o atual estágio de violência urbana no Brasil, uma verdadeira escalada da barbárie social e da anomia. O problema não pode ser equacionado pelos sábios estudiosos da questão de segurança pública sem analisarem as questões estruturais que lhe são subjacentes, sob pena de ditas discussões se tornarem evasivas e/ou hipócritas. 

Muitos outros exemplos da famigerada inviabilidade econômica que incide sobre grande parte das atividades econômicas poderiam ser aqui citadas. Todas elas mais não são do que sintomas de fenômenos econômicos que denunciam um processo de falência, prenunciando um futuro colapso irremediável. Ai do povo, que será, como sempre, a principal vítima das agruras provocadas por tal processo! (por Dalton Rosado)
(continua neste post)

terça-feira, 19 de junho de 2018

DEPRIMENTE E LAMENTÁVEL: OS PRESIDENCIÁVEIS ESTÃO PEDINDO A BENÇÃO DO COMANDANTE DO EXÉRCITO

Deu no blog do Josias de Souza:
"O comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, reuniu-se nesta 2ª feira (18) com o presidenciável tucano Geraldo Alckmin. Foi o terceiro candidato ao Planalto a ser recepcionado pelo general, que já havia conversado com Jair Bolsonaro e Marina Silva.  

Nos encontros, Villas Bôas repassa as apreensões dos militares em relação a três temas: a política de defesa, a crise na segurança pública e a penúria orçamentária das Forças Armadas...

...Os convites de Villas Bôas pareciam seguir a ordem das pesquisas. O Exército excluiu o preso Lula, cuja candidatura não existe fora dos planos do PT. Depois de Bolsonaro e Marina, ocupantes das duas primeiras colocações no ranking do Datafolha, imaginou-se que o general receberia Ciro Gomes, que está numericamente à frente de Alckmin na pesquisa.

A inversão da ordem deve ter ocorrido por algum contratempo de agenda. O general decerto não deixará de recepcionar no Forte Apache o candidato do PDT. [E realmente não deixou: horas depois, foi a vez de Ciro Gomes ir bater-lhe continência...]" 

É oportuno reforçar o alerta do Vladimir Safatle (vide aqui), de que está se dando uma transferência do poder político real para as Forças Armadas, o que seria uma saída muito menos onerosa que um golpe militar clássico.

Vou repetir, pois parece que ninguém se tocou da gravidade da sua  advertência:

"...seria importante lembrar que, numa democracia, quem tem as mãos no fuzil cala a boca. Nenhum oficial fala em democracia porque falar, quando você tem o monopólio das armas, equivale a quebrar o espaço de fala livre.

Pois é claro que o monopólio das armas não é um atributo político, mas é o que quebra simplesmente a existência do político. Daí vem a sabedoria da democracia: tirar a palavra de quem tem as armas......seria importante lembrar que, numa democracia, que tem as mãos no fuzil cala a boca.

...Agora, criaremos uma democracia de farsa assumida na qual o verdadeiro poder não estará nem no Poder Executivo, nem no Legislativo, nem no Judiciário...

...o destino do poder em nossa sociedade está a ser decidido em outra esfera, de uma forma que nada tem a ver sequer com noções elementares de democracia formal".

Há muito decidi não coonestar com meu voto eleição nenhuma da democracia burguesa (embora considere Bolsonaro de tal forma inaceitável que abrirei uma exceção para votar contra ele no 2º turno do próximo pleito, se necessário).

Mas, se estivesse escolhendo candidato, veria com péssimos olhos aqueles que vão lamber coturno no tal Forte Apache...

Por último: Villas Bôas postou no twitter as fotos dos três estranhos no ninho, mas não a do Bolsonaro. Será porque ele, naquele local, já está na categoria de móveis e utensílios?

segunda-feira, 18 de junho de 2018

A VÍDEO-ARBITRAGEM FALHOU? OU FOI A VÍDEO-GATUNAGEM QUE FUNCIONOU?

Por Celso Lungaretti
O veterano jornalista Marcelo Damato criou um blog para abordar a paixão, o dinheiro e o poder que envolvem a Copa, e um pouquinho de bola… Ele aponta um ângulo interessante para tentarmos entender como se validou um gol tão inequivocamente irregular como o da Suíça contra o Brasil. Recomendo a leitura.

Antes, quero apenas dar alguns rápidos pitacos:
  • a foto que mostra oito brasileiros mais o goleiro Alisson rodeando Zuber quando o suíço mandou a bola às redes é eloquente para comprovar a falha de marcação, mesmo tendo existido uma falta clamorosa;
  • o árbitro de vídeo é infalível apenas quando se trata de checar possíveis impedimentos e verificar se uma bola ultrapassou a linha de gol, a linha de fundo e as das laterais dos gramados. A marcação de pênaltis e faltas ainda depende, em última análise, de interpretação humana;
  • para quem duvidar de que o poder político influa em decisões de arbitragem, vale lembrar o Mundial de 1966, quando Brasil, Argentina e Uruguai foram simultaneamente prejudicados de forma igualmente claríssima, evidenciando que daquela vez não seria permitido a nenhum selecionado sul-americano atravessar o samba dos europeus.  
GOL DA SUÍÇA EXPÕE QUEDA DO PODER DA CBF DENTRO DA FIFA
A polêmica surgida em relação ao lance que gerou o gol da Suíça deixou claro um ponto: o Brasil nunca esteve tão órfão dentro da Fifa, ao menos nos últimos 60 anos.

Desde que Ricardo Teixeira deixou a presidência da CBF, em 2012, o poder brasileiro dentro da entidade-mãe começou a cair. Depois da operação do FBI, em 27 de maio de 2015, que prendeu o ex-presidente José Maria Marin e deixou o então presidente Marco Polo Del Nero acorrentado ao Brasil, a queda se acentuou.

O recente episódio envolvendo o atual presidente, o coronel PM Antonio Nunes, na escolha da sede da Copa de 2026, rebaixou a CBF a uma entidade da periferia da bola na hierarquia política de Zurique. Para alguns virou quase um pária.

E quando acontece um problema como deste domingo, o que fazer? Como pode reclamar a pessoa que quebrou um acordo e na última hora votou não só contra os interesses dos seus pares americanos, mas como os da própria direção da Fifa? 

Como pode ser levada a sério uma pessoa que, ao justificar seu voto, parecia uma criança acuada? Como um dirigente que está sendo escondido por seus próprios subordinados na Rússia pode encaminhar uma reclamação?

E não há como pensar que isso não tem importância. Numa entidade com forte caráter político como a Fifa, todo naco de poder é importante. Como em qualquer atividade humana, a política tem peso no esporte.

Não é só por vaidade, diárias e passagens que as federações nacionais disputam todos os cargos em todas as comissões. Ricardo Teixeira nunca gostou muito de futebol, mas sempre ocupou um posto na comissão de arbitragem e por algum tempo foi seu vice-presidente.

O futebol é obviamente jogado e decidido pelos times e pelos jogadores. Menosprezar o papel de craques como Pelé, Garrincha, Romário e Ronaldo –só para falar de alguns brasileiros– é impossível. Quando não há situações-limite, só isso importa. Mas, com alguma frequência, há decisões difíceis. Os árbitros, em geral, tentam acertar sempre, mas não ignoram quais são as equipes politicamente mais fortes.

Não foi por coincidência que o Brasil ganhou as três primeiras Copas após a chegada à CBD (hoje CBF) de João Havelange, que em seguida viraria presidente da Fifa por 24 anos. Havelange não fez gol, mas não desgrudava dos poderosos, até se tornar o maior de todos –de todos os tempos.

De 1958 a 2014, foram muitos os episódios em que o Brasil foi beneficiado nos jogos e fora dele –Garrincha, o craque da Copa de 1962, só disputou a final graças a uma manobra na comissão disciplinar; em 1970, o local de uma semifinal foi mudado para atender a pedido do Brasil. Em sentido contrário, foram bem menos comuns.

A partir de 1989, esse poder se reforçou. Teixeira, que chegou à CBF como um ET, logo mostrou-se um disciplinado pupilo de Havelange. Colocava a si mesmo e a aliados brasileiros em todas as comissões que conseguia. Em 2002, em pelo menos dois jogos, os erros do árbitro beneficiaram a seleção. E não se está atribuindo as conquistas a isso, claro.

Depois de Teixeira, porém, a história mudou. É verdade que a ação do FBI, 41 dias após a posse de Marco Polo Del Nero, cortou a cadeia de passagem de poder do Brasil dentro da Fifa. De uma tacada só, Teixeira, Marin e Del Nero ficaram afastados da entidade.

Mas não há como negar que o comportamento de Marin e Del Nero foi a maior causa dessa queda. Na presidência de Marin, era Del Nero que tinha cargos na Fifa. Era mais conhecido pela idade e curvas das namoradas que levava do que pelo trabalho na entidade. O posterior sumiço dele, pelo medo de ser preso no exterior, prejudicou a CBF ainda mais.
Final de 1966: gol que não houve decidiu prorrogação.   

E, para coroar, Del Nero inventou Nunes como seu sucessor temporário, apenas para impedir que um vice rebelde tomasse posse em caso de seu afastamento. E Nunes logo se revelou uma fonte quase infinita de constrangimento. E só tem piorado.

Agora, surge mais uma consequência previsível dessas decisões desastradas.

No código de honra dos jogadores, está não esperar por ajuda da arbitragem, mas ter a confiança de não serem prejudicados. Para que os brasileiros se preocupem apenas em jogar bola, eles precisam acreditar que suas costas estão protegidas.

Pela primeira vez em muitas Copas, isso pode não estar acontecendo. (por Marcelo Damato)

domingo, 17 de junho de 2018

SELEÇÃO BRASILEIRA: NEM BELA DE ADMIRAR, NEM FEIA DE ESPANTAR.

Gol de Zuber, com falta sobre (e ingenuidade de) Miranda
A má notícia é que a seleção brasileira empatou (1x1) uma partida que deveria ter ganhado, ainda mais depois de ter saído à frente da Suíça com o golaço de Philippe Coutinho.

A boa notícia é que nenhuma das outras favoritas convenceu.

A Alemanha, dominada no 1º tempo, foi com tudo pra cima do México na etapa final, expondo-se a contra-ataques que só não ampliaram o placar por questão de detalhes. Os campeões do mundo nada têm a queixar-se da derrota por 1x0, pois saiu barata.

A Espanha ficou duas vezes injustamente em desvantagem: sofreu 1x0 num pênalti inexistente e 2x1 num frangaço do De Gea. Amassou Portugal até obter uma virada eletrizante, depois resolveu administrar a vitória e acabou sofrendo o empate: 3x3. Do meio de campo para a frente, o escrete espanhol lembra a velha Fúria; mas a defesa está insegura e o goleiro não só falhou bisonhamente no 2º gol como poderia ter ao menos tentado evitar o 3º.

Os franceses quase ficaram no empate com os cangurus (ganharam por 2x1), salvando-se graças a terem marcado um gol espírita em bola dividida que subiu, bateu no travessão e quicou dentro da meta australiana por diferença de centímetros.
Neymar: pouco inspirado e sofrendo muitas faltas

Ou seja, nenhum desses três selecionados é o bicho papão que se temia. Provavelmente, sem a absurda troca de técnico na enésima hora  (Fernando Hierro, o substituto de Julen Lopetegui, já na estréia substituiu mal quando tinha a partida sob controle), a Espanha seria a grande favorita. Agora, as chances dos quatro parecem-me equivalentes.

O Brasil deve melhorar, pois Neymar, Marcelo e Gabriel Jesus jogaram muito menos do que podem e a entrada de Renato Augusto, recuperado de contusão, tornará mais inteligente a armação dos ataques. Mas, nossa peça ofensiva deverá continuar capenga, pois tem muito mais qualidade pela esquerda do que pela direita. Talvez substituindo o burocrático Danilo por Fagner, muito mais vibrante, o futebol de William crescesse. 

Há grande risco de um indesejado Brasil x Alemanha já nas oitavas de final. Basta que uma das seleções termine no 2º lugar do seu grupo (após a derrota deste domingo, a Alemanha corre tal perigo) e a outra em 1º (o Brasil precisaria esforçar-se muito para conseguir não ganhar da Costa Rica e da Sérvia).

Dos demais selecionados com alguma chance (lembrando que a Inglaterra ainda não jogou), 
Será que a Rússia estava escondendo o jogo?
  • a Argentina (1x1 com a Islândia) não está morta, até porque Messi tende a disputar as próximas partidas com a faca nos dentes e é o maior craque presente neste Mundial, mas o goleiro Caballero tem de deixar de ser tão cavalheiro com os adversários (não pode bater roupa daquele jeito!);
  • a Rússia esbanja vitalidade e foi capaz de marcar dois  golaços, então os 5x0 podem não ter sido consequência exclusiva da fragilidade dos sauditas;
  • o Uruguai (1x0 sobre o Egito) tem o Cavani inspirado e o Suarez deverá crescer nos próximos jogos, então pode surpreender;
  • Portugal decerto chegará às oitavas, mas é bem provável que fique por aí, pois a Rússia e o Uruguai têm melhores conjuntos e não dariam tanta liberdade a Cristiano Ronaldo;
  • desta vez o México não estreou jogando como nunca e perdendo como sempre. Será que desmentirá outra escrita, a de não passar de fogo de palha? Seus maiores trunfos são o técnico Osório e o melhor goleiro do Mundial até agora, Guillermo Uchoa. ¡Que viva Mexico!

"O PAÍS DISFUNCIONAL VOLTOU AO SEU ESTADO DE ESPÍRITO COSTUMEIRO, QUE É O CULTO DA INDIGNAÇÃO", AVALIA ESCRITOR.

cristovão tezza
BRASIL: AME-O OU DEIXE-O?
Nos anos 1970, em plena ditadura, o adesivo com o slogan Brasil – ame-o ou deixe-o era popular. Durante o curto período em que a economia brasileira crescia em índices chineses, com falta de liberdade, censura prévia, corrupção discretamente à solta e pau batendo nos inimigos do rei fardado, a boçalidade triunfante encontrava o seu mantra: os incomodados que se retirem.

O país é um espaço privado, e é tão nosso quanto o petróleo. Ao mesmo tempo em que a ditadura estatizava empresas e cabeças, a pujante classe média, em boa parte amparada nos inesgotáveis proventos da máquina pública, privatizava-se, aproveitando-se da sobra de caixa.

Com a crise do petróleo, o estouro da bolha, a quebra do Brasil e a interminável agonia da hiperinflação, o país disfuncional voltou ao seu estado de espírito costumeiro, que é o culto da indignação. De tempos em tempos, em ondas incontroláveis, a indignação nos move furiosamente.

A indignação é o nosso paracetamol emocional-ideológico. O Brasil inteiro é um país indignado. Fora, Temer! Lamentamos o horror dos nossos políticos, insidiosamente eleitos por marcianos e venusianos desembarcados, que provavelmente se aproveitaram da nossa distração cívica para colocar esses corruptos e incompetentes no poder.

Enquanto isso, tudo anda celeremente para trás. Com saudades da caça ao boi no pasto da era Sarney, o governo que jamais terminou, queremos tabela na bomba do diesel e tantas quantas tabelas houver que paguem separadamente as nossas contas exclusivas e prioritárias.
Em outra regressão espetacular, faz sucesso o mais grotesco ideário político jamais verbalizado abertamente no país. Todos os dias, assistimos à estupidez sem programa, o estado puro da indignação irracional, também ela sob o manto escarmento da boçalidade, com o qual (dizem eles, caninos à mostra) é bom já ir se acostumando, porque o pior ainda está por vir, o que é motivo de júbilo, porrete e milícias na mão (que já estão tomando o Estado pelas beiradas).

Ao mesmo tempo, energúmenos (perdão, leitores – há palavras mais precisas para defini-los, mas hoje é domingo) de todos os matizes pedem, aos gritos: Ditadura já!

Enquanto isso, sob as pulsões culturais do país irrevogavelmente mais miscigenado do mundo, uma cantora negra não pode representar o papel de outra cantora negra porque, por um defeito de cor, não é suficientemente negra.
O que faremos com o singular, o único, o irreplicável, o sem-lugar? Não sei.

Em outra ponta da Federação Corporativa, o partido da hegemonia absoluta que haveria de nos redimir a todos está quase inteiro na cadeia (ou já passou por ela ou está a caminho), com o seu séquito gritalhão de apoiadores de alto e baixo coturnos.

Outros partidos, em ritmo bem mais lento, parecem também seguir firmes a caminho do cadafalso, sob inesperadas e assustadoras canetadas jurídicas, carnavalescas aqui, a sério ali – o que é isso, companheiro? 

Mas, milagre dos milagres no país dos milagres, a esperança é a última que morre: Jesus Cristo romperá as grades de cárcere e, mão abençoada estendida, fará o país inteiro sorrir de novo. Oremos!

Na irresistível teologia política brasileira, a eleição da Dilma, da escolha do nome à consagração das urnas, foi apenas a necessária provação dos justos, antes da indiscutível redenção final: um gigantesco conto do vigário, mas não podemos reclamar em altos brados.

Como se sabe, no conto do vigário clássico, a vítima sempre imagina que é ela que levará vantagem. Infelizmente, deu chabu. Mas, como a história é uma ciência, camaradas, todo desvio do caminho redentor é uma conspiração!

Brasil: ame-o ou deixe-o?

Quando, nos anos 1970, a ditadura me fez esta pergunta tácita, passei 14 meses na Europa, lúmpen ideológico, vendo o país de longe. Projeto de escritor, senti uma falta angustiante da língua brasileira e voltei; depois de um tempo, até o sotaque lusitano me irritava.

Como diz o poeta, minha pátria é minha língua e, para o bem ou para o mal, línguas jamais existem sozinhas: são o aquário onde nos movemos.

Para quem escreve, a língua é a face mais inexorável do destino, desde o nascimento. Ordem e progresso? Pátria educadora? Nós, que nos matamos tanto, inventamos o ridículo dos dísticos para nos negar.
Nem amá-lo (seria preciso mentir muito), nem deixá-lo (eu sou apenas daqui). Há espaço para um mínimo de esperança, na eleição que se aproxima? Não sei.

(por Cristovão Tezza, escritor e crítico literário)

sábado, 16 de junho de 2018

UMA CRÔNICA ANTOLÓGICA DE NELSON RODRIGUES SOBRE A SEMIFINAL DE 1962

GARRINCHA, PASSARINHO APEDREJADO
Extraída do livro A Pátria de Chuteiras
Amigos, a vitória sobre o Chile fez nascer um penacho em cada cabeça e esporas em cada calcanhar. O brasileiro anda por aí com ares do dragão do Pedro Américo. É a epopeia ventando nas nossas caras. 

Invisíveis cornetas soam por todo o território nacional. Somos uma nação de 75 milhões de almas eretas como lanças. Mas, vamos e venhamos: — o triunfo de 4ª feira merece toda essa euforia nacional. O sujeito que, após os 4 x 2, não chorou lágrimas de esguicho é um mau-caráter. 

Mas eu dizia que foi uma vitória perfeita e irretocável. Os idiotas da objetividade querem colocar a partida em seus termos táticos e técnicos. O futebol, porém, foi um detalhe miserável, um frívolo pretexto. Pior era o que estava por trás. Amigos, o futebol do Chile não ameaçaria, normalmente, nem o Rosita Sofia (1).

O perigo estava no massacre emocional do nosso escrete. Eis o sonho do Chile: — já que perderia no futebol, quis ganhar pela intimidação, pelo sarcasmo, pelo medo e, também, pelo apito. Contra os onze gatos-pingados do nosso time, levantou-se toda uma população. Imaginem vocês a luta desigual: — milhões querendo ver a caveira da equipe brasileira, posta em desesperadora solidão. A guerra das manchetes contra os nossos foi simplesmente hedionda.

Eis o que os jornais diziam, em letras garrafais, tomando todo o alto da página: — “Com Didi ou sem Didi, os brasileiros farão pipi.” A palavra pipi, transmitida num berro gráfico, era de arrepiar.
Expulso, Garrincha seria apedrejado a caminho do vestiário
Ora, o escrete brasileiro tem seus negros plásticos, folclóricos, divinos. Há, no citado Didi, por exemplo, toda a dignidade racial de um príncipe etíope de rancho. Pois bem: — esses negros líricos, ornamentais, eram xingados como se fossem da Mau-Mau (2).

Não havia ninguém, no Chile, disposto a aplaudir ou simplesmente reconhecer os nossos possíveis méritos. Ou, por outra: — fomos tratados a pires de leite até o momento em que os locais venceram os russos e os nossos, os ingleses. E como éramos os adversários, passamos a ser, automaticamente, os anticristos. 

Os piores ventos dos Andes, os ventos mais lívidos e mais pungentes, vinham queimar a nossa delegação. Dir-se-ia que a própria natureza se associava à guerra contra o pobre escrete brasileiro. Aqui, à distância, eu via a hora em que haveria, lá, um terremoto privativo dos brasileiros. Pois bem. E vencemos, amigos. Vencemos contra tudo e contra todos.

E reparem que o escrete do Brasil não podia apresentar a sua máxima potencialidade. Primeiro houve uma baixa medonha. No jogo da Tchecoslováquia, com efeito, contundiu-se o deus Pelé. A notícia de sua distensão parou todo um povo. E viu-se uma coisa inédita para a experiência humana: — uma distensão chorada e velada por toda uma pátria.
Melhores momentos de Brasil 4x2 Chile, no Mundial de 1962

Mas o povo brasileiro é tão formidável que, na vaga de um gênio, pôs outro gênio. Ou, por outras palavras, na vaga de Pelé, arranjou, improvisou outro Pelé: — Amarildo. E, no jogo seguinte, também Amarildo se machuca. Como se não bastasse, abriu-se, nas canelas de Didi, uma constelação de feridas. E que vimos nós? Levando nas pernas chagas deslumbrantes, Didi foi mais um príncipe etíope do que nunca. Contra o Chile, através dos noventa minutos, ele não perdeu, em instante nenhum, a sua ginga maravilhosa de gafieira.

Ferido na carne e na alma, o escrete do Brasil derrubou o Chile. É possível que até a natureza tivesse preparado algum terremoto contra nós. E ganhamos. Mesmo que atirassem contra o Brasil um furacão da Flórida, sairíamos invictos da batalha. E pior do que o terremoto, pior do que a torcida, pior do que as manchetes, pior do que o escárnio do rádio e da televisão: foi o juiz. Está provado que o árbitro entrou em campo para meter a mão no bolso do Brasil.
Garrincha, alegria do povo (1963), documentário de Joaquim Pedro de Andrade

O ladrão fez o diabo para impedir o triunfo brasileiro. Inventou um pênalti, ou seja, deu um gol de presente ao Chile. Perseguiu os nossos jogadores com um descaro gigantesco. Não se conhece, na história do futebol, um apito tão cínico e tão vil. O seu pecado mais horrendo, porém, foi a expulsão de Garrincha.

Não há no Brasil, não há no mundo, ninguém tão terno, ninguém tão passarinho como o Mané. O sujeito que se aproxima dele tem vontade de oferecer-lhe alpiste na mão. Os pombos aqui da Cinelândia, os pardais do Boulevard 28 de Setembro, diriam: — “Nosso irmão, o Mané.” E Garrincha foi expulso. Mas ganhamos assim mesmo. Pois vencemos o juiz, vencemos o escrete chileno, as manchetes, os terremotos, a cordilheira. Apedrejaram Garrincha, e vencemos. 
Garrincha: estrela solitária (2003), dirigido por Milton Alencar

Eis o mistério do escrete e do Brasil. O time ou o país que tem um Mané é imbatível. Hoje, sabemos que o problema de cada um de nós é ser ou não ser Garrincha. Deslumbrante país seria este, maior que a Rússia, maior que os Estados Unidos, se fôssemos 75 milhões de Garrinchas. (por Nelson Rodrigues)

1) O Sport Club Rosita Sofia foi fundado em 1941, no bairro de Cosmos, na cidade do Rio de Janeiro. O time era conhecido por perder para quase todos os adversários.

(2) A Mau-Mau foi um grupo paramilitar que lutou contra o domínio britânico no Quênia. Entre 1952 e 1960, liderou uma das principais revoltas da descolonização do continente africano
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