sábado, 11 de julho de 2020

BOLSONARO DEFENDEU A LIBERDADE DE EXPRESSÃO, MAS A LIBERDADE BLOQUEADA PELO FACEBOOK FOI A DE EMPULHAÇÃO...

josias de souza
FACEBOOK DEIXA ENREDO DE BOLSONARO SEM NEXO
A Covid-19 não conseguiu tirar do ar a live semanal de Jair Bolsonaro. Mesmo tossindo, o presidente realizou sua tradicional transmissão das noites de 5ª feira. 

Falou sobre a decisão do Facebook de desligar da tomada a rede de desinformação vinculada ao Planalto, aos seus filhos e a parlamentares aliados. 

O discurso de Bolsonaro envelheceu. Soou desconexo. O presidente calou sobre o essencial. 

Não disse nada a respeito do seu assessor especial Tércio Arnaud Tomaz, a face do Planalto na rede tóxica do bolsonarismo. 

Desafiou a imprensa a apontar mensagens de ódio no seu Facebook ou nas páginas dos filhos. Elas até existem. A questão é que as contas desativadas não são as oficiais, mas as falsas, concebidas com o propósito deliberado de ludibriar. 
Bolsonaro defendeu a liberdade de expressão. Mas o que se bloqueou foi a liberdade de empulhação. 

O presidente declarou, de resto, estar sendo perseguido. O diabo é que a ação decorre de auditoria encomendada pelo Facebook, que alcançou 11 países. 

Para que a tese da perseguição ficasse em pé seria necessário incorporar ao rol de perseguidores de Bolsonaro os cerca de 400 grupos econômicos que ameaçaram cortar ou cortaram verbas publicitárias do Facebook, para forçar a plataforma a agir contra a desinformação e o ódio. 

A lista inclui Coca-cola, Unilever, Ford, Volkswagen, Starbucks, Adidas... 

Além de não haver comunistas na relação de hipotéticos perseguidores de Bolsonaro, o WhatsApp, aplicativo pertencente ao Facebook, desabilitou há 15 dias uma dezena de contas do PT. Alegou-se que operavam de maneira automatizada. 

Quer dizer: Bolsonaro precisa atualizar o seu enredo. O atual perdeu o prazo de validade. 

sexta-feira, 10 de julho de 2020

CURIOSIDADE: UM ARTIGO QUE ESCREVI PARA CIRCULAÇÃO INTERNA NA VPR VOLTA ÀS MINHAS MÃOS MEIO SÉCULO DEPOIS – 2

(continuação deste post)
Fiasco de Caparaó afastou remanescentes do MNR de Brizola
O que esse artigo esquecido e agora recuperado tem de mais significativo, nos dias de hoje, não está exatamente no texto, mas sim no que permite vislumbrar sobre o contexto. Mas, isto só poderá ser entendido a partir de uma introdução que tentaria fazer tão sucinta quanto possível.

A VPR  começou a nascer quando ex-militares que estavam em semi-clandestinidade desde os expurgos de 1964 e, embora sem estarem participando de projeto revolucionário nenhum, mantinham-se em contato por relações de companheirismo e de proteção mútua, viram-se de repente incapazes de se continuarem sustentando por meios legais. 

A maioria era remanescente do Movimento Nacionalista Revolucionário, de orientação brizolista. O próprio, contudo, os decepcionara ao organizar precariamente a guerrilha de Caparaó (1966-1967), segundo eles apenas para dar uma satisfação ao governo cubano quanto aos fundos que dele recebera para criar um foco guerrilheiro contíguo ao de Che Guevara na Bolívia. 

Suspeitava-se de que Brizola houvera usado a grana para outras finalidades e, para salvar as aparências, despachara um punhado de abnegados militantes para a divisa entre MG e ES, sem, contudo, dar-lhes a sustentação necessária.

O projeto, que era o de se criar um eixo guerrilheiro dividindo a América do Sul ao meio, terminou de forma trágica lá e miseravelmente aqui, onde os aspirantes a combatentes, praticamente abandonados, estavam combalidos demais para resistir quando a repressão chegou.
Presos trocados pelo embaixador dos EUA: o Augusto é o 4º, da esq. p/ a dir., na fileira de cima
Isto impactou da pior maneira possível naquela rede de ex-militares: eles deixaram de acreditar no Brizola e não encontraram ninguém para tomar-lhe o lugar. Então, no desespero de não terem mais dinheiro para a subsistência e para sustentar suas fachadas legais, resolveram expropriar um banco. Fizeram levantamento minucioso, hesitaram durante duas ou três semanas, indo perto da agência e refugando, mas, quando a penúria se abateu sobre eles de vez, foram pras cabeças.

Deu tudo certo, apesar da trapalhada de esquecerem um dos seus, obrigando-o a correr atrás do veículo da fuga para não ser deixado para trás. Lá pela terceira ou quarta expropriação, percebendo o risco de serem presos como ladrões comuns, decidiram, dali em diante, espalhar panfletos revolucionários nos bancos. 

A coisa evoluiu, com o leque de ações passando a incluir propaganda armada. 
Moisés, o último comandante

Caso do atentado contra um jornal O Estado de S. Paulo (uma bomba colocada de madrugada, para explodir, fazer barulho e chamuscar um mural de ladrilhos na fachada, sem ferir ninguém).

A receita foi repetida contra o consulado estadunidense em SP, mas houve um imprevisto nefasto: um civil que deixara o carro naquele lugar foi atingido e, como a repressão demorou uma eternidade até liberá-lo para cirurgia (suspeitava tratar-se de um terrorista ferido pela própria bomba), sua perna gangrenou e teve de ser amputada.

E o infortúnio foi maior ainda quando um general fanfarrão, comandante do II Exército, apareceu no noticiário desafiando os terroristas a atacarem-no no seu quartel. A VPR colocou um carro-bomba numa ladeira e soltou o freio, para que despencasse de encontro a um muro lateral do QG. Não contava com a ação irrefletida do sentinela, que, ignorando as ordens recebidas, saiu do seu posto e foi verificar o que ocorria.  

Dez meses depois, quando ingressei na VPR, sua morte ainda era lamentada pelos ex-militares da organização, que detestavam os oficiais das Forças Armadas mas mantinham sentimentos quase paternais com relação aos recrutas que estavam prestando serviço militar (até porque muitos deles haviam sido sargentos, incumbidos exatamente de adestrar tais jovens).

Também em 1968 uma ala da Polop (Política Operária) entrou na VPR. Tratava-se de uma das muitas dissidências do PCB surgidas após o chamado partidão fracassar bisonhamente em 1964. Formada por intelectuais, acadêmicos e estudantes, tinha influência no movimento universitário, com seu firme posicionamento quanto a ser o proletariado a vanguarda da revolução (a concorrência via o Brasil com resquícios feudais e carente ainda de uma etapa democrático-burguesa, de forma que a vanguarda seria o povo dos campos e das cidades). 
Elias: ferido e torturado 

As duas alas acabaram disputando o poder na VPR. Os militaristas, cujo principal expoente era Augusto (Onofre Pinto), exageraram em algumas ações armadas e forneceram trunfos propagandísticos ao inimigo, sendo criticados pelos massistas, sob a liderança de Manoel (João Quartim de Moraes).


Travaram luta interna que fragilizou a VPR no final de 1968, facilitando a ação da repressão, que pela primeira vez conseguiu efetuar muitas prisões e quase desbaratar a organização. Manoel e seus seguidores acabaram expulsos. Augusto foi preso em março de 1969.

Em abril a VPR tinha estancado a sangria mas precisava colocar ordem na casa, inclusive criando um novo comando, pois os dois principais dirigentes do período anterior estavam fora de cena. E César (Carlos Lamarca), que no final de janeiro havia deixado o Exército e se assumido como revolucionário, certamente seria o principal dirigente, mas isto precisava ser homologado pelos quadros.

Marcou-se o congresso para uma casa de praia em Mongaguá, no litoral sul paulista. Compareci como representante de um grupo de oito secundaristas que estávamos prestes a ingressar na VPR, só dependendo do aval do novo comando. Mas, sem burocratices, acabei participando em pé de igualdade com os 11 delegados oficializados, fazendo intervenções, votando e chegando a redigir o capítulo Internacional do novo programa da VPR.

Assim, aos 18 anos, não só saltava diretamente do movimento secundarista para a condição de militante de uma das duas principais organizações guerrilheiras da época, como era surpreendido pela designação, poucos dias depois da volta à capital, para estruturar um setor de Inteligência, participando do comando estadual paulista, ao lado dos responsáveis pelas ações armadas, o Elias (João Domingues da Silva); pelos vínculos com os movimentos de massas, o Moraes (Samuel Iavelberg); e pelo contato/assistência a outras organizações e grupúsculos da capital e do Interior, o Moisés (José Raimundo da Costa).     
Max: pomo da discórdia?

Inicialmente tudo marchou a contento e o Bento (Antonio Roberto Espinoza) fazia bem a ponte entre nós quatro e o Comando Nacional, do qual ele era um dos cinco integrantes. Mas, tudo mudou a partir de julho, quando os dirigentes máximos da VPR e do Colina decidiram fundir ambas as organizações, criando a VAR-Palmares.

Outro comandante se juntou ao Bento na assistência aos braços da organização, que passou a atuar em MG, RJ, RS e SP: Max (Carlos Franklin Paixão de Araújo), de origem Colina. E o relacionamento com o comando paulista se deteriorou, com sucessivos atritos que geraram um clima de desconfiança mútua.

No final de setembro foi assassinado o Elias, vítima de hemorragia por ter sido barbaramente torturado pela Oban quando ainda não se recuperara dos ferimentos sofridos ao ser baleado e preso. 

Isto criou grande confusão na rede paulista, pois ele, demasiado centralizador, não deixara com ninguém os endereços dos depósitos de armas e equipamentos, bem como de aparelhos de reserva. Perdemos tudo e, quando outros aparelhos caíram, o jeito foi amontoar militantes nos que restavam, com enormes riscos de segurança.

Neste período, o Moisés e eu nos convencemos de que, influenciado pelo Max, o Bento aderira às antigas posições massistas do grupo do Manoel e ambos estariam não só nos intrigando com os outros quatro membros do Comando Nacional (incumbidos dos preparativos para a guerrilha rural), como sabotando aos ditos cujos também, pois os trabalhos no campo se arrastavam enquanto aumentava o inchaço da VAR-Palmares nas cidades.  
Sem dar um tiro, a VAR se apossou de US$ 2 milhões da corrupção  
Então, em setembro nós dois resolvemos que, no congresso da VAR-Palmares para confirmação daquilo que os comandos da VPR e do Colina haviam decidido sem consulta específica à militância, levaríamos a proposta de anulação da fusão e restabelecimento da VPR.

Mas, faltava-nos uma proposta de programa revolucionário, cuja formulação excedia nossas respectivas capacidades: a praia do Moisés era outra e eu ainda estava verde para um trabalho tão complexo (quanto muito conseguiria redigir um ou outro capítulo).

O acaso nos forneceu a peça que faltava no quebra-cabeças: li o documento escrito por um militante que voltara da Europa depois de fazer cursos acadêmicos por lá e estava mais ou menos encostado, sem designação. Ninguém dera bola, os massistas por não concordarem com ele e os militaristas por mal compreendê-lo.

Era, no entanto, exatamente aquilo de que o Moisés e eu carecíamos, então lancei um documento explicando direito aquela proposta e a defendendo entusiasticamente. 

Com isto, chamei a atenção para um texto pelo qual quase todos estavam passando batidos (embora eu não tivesse prestígio nem tradição na VPR, pertencia ao segundo escalão da organização, abaixo apenas do Comando Nacional, então não se tratava mais de uma proposta que pudesse ser ignorada como vinha sendo).

Esse documento eram as famosas Teses do Jamil. Elas mudariam os destinos da VAR-Palmares e da VPR. (por Celso Lungaretti)    
(continua)

quinta-feira, 9 de julho de 2020

A MESMA ESGOTOSFERA QUE O ELEGEU PODE DERRUBAR BOLSONARO

Nas voltas que a vida dá, o mesmo esquema criminoso montado pelos Bolsonaros nos subterrâneos da internet, desde a campanha eleitoral, e levado para o Palácio do Planalto, que foi escrachado pelo Facebook na 4ª feira (8), agora pode levar à derrocada final do governo. 

Foi o maior golpe sofrido pelo presidente e seus filhos desde a prisão de Queiroz, que pode ser solto a qualquer momento pelo STJ. 
Mas nem vai dar tempo para comemorar. 

As graves revelações feitas pelo Facebook sobre a armação e o funcionamento da fábrica de fake news, dando nomes aos bois, todos eles ligados à rede montada pelo filho Carluxo, o 02, no gabinete do ódio instalado no 3º andar do Planalto, ao lado do gabinete presidencial, devem imediatamente ser requisitadas pelo STF e pelo TSE para subsidiar os processos em andamento. 

Também a CPMI das Fake News, onde Carlos e Eduardo Bolsonaro já são investigados, poderá se abastecer das provas contidas nas 73 contas ligadas ao clã presidencial e aliados, já removidas pelo Facebook, por manipular o uso da plataforma, antes e durante o mandato do capitão. O grande problema é o antes, que pode levar à cassação da chapa Bolsonaro-Mourão pelo TSE. 

Certos da impunidade, os Bolsonaros e aliados deram um verdadeiro passeio pelo Código Penal.

A chamada ala ideológica, que costumava tomar café da manhã com o presidente no Alvorada e agora quer indicar um novo ministro da Educação, cuidava de orientar e alimentar a extensa rede da milícia digital, que operava com robôs, nomes falsos e codinomes, que podem inclusive ser encontrados na área de comentários do meu blog. . 

Sob a liderança de um certo Tércio Arnaud Tomaz, de 31 anos, que Bolsonaro pai descobriu na Paraíba e levou para Brasília, depois de abrigá-lo no gabinete do filho Carluxo, na Câmara Municipal do Rio, os integrantes dessa organização criminosa estavam na folha de pagamentos do Palácio do Planalto ou dos gabinetes de parlamentares aliados, todos com crachá, carro oficial e motorista. 

Ou seja, todos eram pagos com dinheiro público para atacar, no horário de trabalho, adversários políticos, instituições e veículos de mídia. 

Os disparos em massa feitos por essa rede atingiam cerca de 2 milhões de pessoas, os bolsonaristas de raiz, que por sua vez compartilhavam o conteúdo por outros tantos voluntários arrebanhados durante a campanha eleitoral. 
Numa entrevista coletiva global, Nathaniel Gleicher, diretor de cibersegurança do Facebook, diz que "em cada um dos casos, as pessoas por trás da atividade coordenaram entre si e utilizaram contas falsas como parte central de suas operações para se ocultar e é com base nessa violação de política que estamos agindo". 

As milícias de fake news, importadas da campanha de Donald Trump, podem eleger, mas também derrubar presidentes. 

O Facebook, que não pode ser chamado de comunista, nos fez esse favor: escancarou as entranhas da esgotosfera que elegeu Bolsonaro, com seus kits gay e mamadeiras de piroca. 

Confinado no Alvorada, depois de contrair o coronavírus, o presidente Bolsonaro ainda não havia se manifestado sobre essa denúncia até o momento em que comecei a escrever esta coluna. 

Vida que segue. (por Ricardo Kotscho)

CURIOSIDADE: UM ARTIGO QUE ESCREVI PARA CIRCULAÇÃO INTERNA NA VPR VOLTA ÀS MINHAS MÃOS MEIO SÉCULO DEPOIS – 1

Foi pitoresco receber, chegando aos 70 anos, um artigo que escrevi quando tinha 19 e era militante clandestino da Vanguarda Popular Revolucionária, enfrentando a ditadura bem no auge dos famigerados anos Médici. Mal me lembrava dele e das circunstâncias que o geraram.

Mas, quando a historiadora Carla Luciana Silva, professora da Unioeste, me achou no Facebook e remeteu os arquivos da relíquia que garimpara, fui aos poucos relembrando o que tinha sido essa primeira série que escrevi na vida (tantas outras viriam depois!), ainda sem o know-how jornalístico que adquiriria mais tarde, tanto que a intitulei, simploriamente, Nossas perspectivas revolucionárias

Sendo péssima a qualidade das fotos, consegui, a muito custo, reconstituir apenas o terceiro e último capítulo, que reproduzo abaixo. Seu valor como contribuição à teoria revolucionária é nenhum, mas presumo que as novas gerações tenham interesse no que, a partir dele, se pode depreender sobre a hoje lendária VPR. 

Aguardem a complementação deste post nos próximos dias, quando farei a contextualização e comentarei o que essa série representou para mim e para a VPR. 
Os imortais da Oban (sou o 7º)




Adianto apenas que pouco tempo se passara desde o racha dos sete (encabeçado pelo comandante Carlos Lamarca e do qual participei) no Congresso de Teresópolis da VAR-Palmares, em outubro de 1969, daí eu estar então flagrantemente empenhado em justificar a decisão que havíamos tomado, de reassumirmo-nos como VPR.  

Por enquanto, vamos ao artigo, com todos os erros que cometi ao redigi-lo, pois não cedi à tentação de fazer correções (por Celso Lungaretti)
.
UMA VIRAGEM RUMO AO CAMPO
Como vimos procurando destacar, nossa esquerda vem marchando, através dos tempos, ao sabor de duas forças contraditórias e que corporificam, uma delas, nossa colonização cultural e a importação de esquemas e instruções teóricas estranhas à nossa realidade; e a outra, nossa tentativa de atuar politicamente e pensar nossa realidade segundo ela mesma.

Consequentemente, a primeira se justificando e pensando através, principalmente, do leninismo de 1920, corpo de teoria que visava, acima de tudo, justificar uma estratégia insurrecionista de penetração orgânica no seio da classe operária e propaganda desenvolvida pela vanguarda partidária, até que se criassem as condições de desagregação do estado burguês que permitissem sua derrubada pela revolução.
Lamarca, antes de passar à clandestinidade
A segunda, pelo contrário, construindo progressivamente sua própria teoria (vide Debray e – sem nenhuma contestação – o companheiro Jamil [Ladislau Dowbor] –, uma revolução autêntica em termos de teoria revolucionária latino-americana), temperada pela dura realidade vivida em que a formação das consciência das classes para a luta só pode se dar nos quadros da própria luta, sustentada de início por uma pequena e combativa vanguarda progressivamente abra o caminho para a ampla organização armada das massas para a luta.

Até 64, dominou tranquilamente a primeira tendência, então corporificada pelo PCB; no entanto, o rude golpe que a teoria importada sofreu com a quartelada de 1º de abriu deu ensejo, de um lado, ao surgimento dos primeiros grupos armados, que agiam acima de tudo intuitivamente, para responder a necessidades objetivas (as expropriações se iniciaram quando o número de quadros clandestinos era tal que não havia mais como sustentá-los a partir das finanças legais) e desafios evidentes (os primeiros atos propagandísticos através de bombas respondendo a bravatas oficiais, aos descalabros da imprensa burguesa, etc.).

E, de outro, começou a deslocar o "papel" de baluarte da subserviência teórica para uma direita de origem principalmente intelectual e estudantil que foi se formando no seio desses grupos armados (cujos primeiros componentes eram principalmente de origem militar) e que se agrupou e ganhou força em torno dos chamados setores de massa, em que tentou prosseguir a velha prática de penetração orgânica, propaganda formativa, etc., em evidente contradição com a atuação dos chamados setores de expropriação.
Ação que a VPR executou semanas após este artigo   

Deve-se frisar que essa direita começou a surgir nos grupos armados à medida que se dava o esvaziamento do PCB; e que, sofrendo o impacto da própria realidade, ela já não era mais "leninista pura", mas procurava conciliar o leninismo tradicional com algumas gritantes exigências do momento histórico, como a necessidade de levar a luta ao campo (que ela pretendia tutelar, colocando-o como braço armado da cidade), como o imperativo das ações armadas de expropriação, como a exigência de um maior centralismo e de uma organização mais rígida, etc.

Em termos teóricos, essa tendência também foi, progressivamente, se transformando: se antes de 64 ela sequer se preocupava com a questão de tomada do poder, que ficava como que uma consequência natural da luta política, agora ela já havia que colocar a tomada do poder na ordem-do-dia, o que a deslocou, aos poucos, de Lênin até Mao [Tsé-Tung] e Ho [Chi Minh], copiando a estes a estratégia, as etapas pelas quais "atravessaria" a guerra, etc., utilizando a guerra popular para justificar o prosseguimento das inúteis e catastróficas tentativas de penetração orgânica na classe operária nos velhos termos tradicionais, a conceituação ampla da "defensiva estratégia" para ignorar a existência de uma etapa presente em que todos os esforços devem se centrar no deslocamento da vanguarda rumo ao campo (etapa esta que ficou conhecida como de "preparação", e que eu qualifico neste trabalho de "viragem para o campo"), já que toda sua força está no trabalho urbano, onde se situa sua idolatrada "classe operária".
Jamil, o teórico da VPR, hoje leciona economia 

Por isso mesmo, o racha, a cisão e separação dessas duas tendências, a libertação da segunda, até então dominada pelos "importadores", se daria em relação ao campo e a prioridade que se deve dar, na prática, ao seu encaminhamento, que só será garantido através de uma série de medidas que contrabalançassem o peso político maior das cidades e a dependência do trabalho rural em relação ao meio urbano, tanto em termos de infra-estrutura material quanto humana.

Com a generalidade vazia da "defensiva estratégica", os "importadores" procurar mascarar a necessidade de uma série de medidas práticas para garantir a prioridade do campo; por isso, o racha que fizemos afirmaria, acima de tudo, nossa realidade presente, que é, em suma, a da viragem rumo ao campo ou da preparação para a luta no campo. (Lourenço, 29/01/1970) 
(continua neste post)

O CORONAVÍRUS CHEGOU, TRUMP SE ESTRUMBICOU E A REELEIÇÃO EVAPOROU

ines pohl
O DELÍRIO MORTAL DE TRUMP
O mundo do presidente dos EUA é tão pequeno quanto óbvio: ele aceita só o que lhe convém. Pessoas com opiniões que não lhe agradam, ele remove de seu convívio. Críticas são punidas com expulsão. Fatos que perturbam seus cálculos políticos, ele ignora – se necessário, até a morte. 

Sua agenda política também é bastante previsível: dar àqueles que já têm muito para que se tornem ainda mais ricos. E mantém satisfeitos os grupos religiosos extremos, para que seus votos estejam definitivamente seguros.

Essa tática funcionou até o início da crise do coronavírus. A economia estava funcionando, os números embelezados do desemprego estavam se tornando cada vez mais belos, e seu núcleo duro de apoiadores estava gostando de ver um homem forte na Casa Branca que realmente mostra ao mundo o quão grande são os Estados Unidos quando o país cuida sobretudo de si mesmo.

Mas aí veio o vírus mortal. Invisível e imprevisível. E de repente fez balançar todo o castelo dourado de cartas do 45º Presidente dos EUA. Enquanto o mundo inteiro discutia quão duras as medidas de proteção deveriam ser, Trump se recusava a aceitar a realidade desde o início. Como se ele ainda estivesse apresentando seu reality show na TV  em que ele escreve o roteiro sozinho.

Numa estratégia brutal e cínica, desde o primeiro dia da pandemia ele esteve disposto, junto com alguns de seus assessores, a sacrificar idosos e doentes a fim de não comprometer sua reeleição por causa de dados econômicos ruins. Tudo deveria continuar como antes, sem comércio fechado, sem queda de vendas. 

Mas então veio o inferno de Nova York. Era quando, no mais tardar, ele deveria ter assumido a responsabilidade e colocado a saúde dos cidadãos estadunidenses em primeiro lugar. Ele deveria ter promovido o uso de máscaras e o distanciamento, para impedir que coisas piorassem ainda mais.

Nada disso. Um homem forte não mostra vulnerabilidade. Nos anos Trump, até mesmo o uso da máscara é politizado. De tudo se faz uma declaração político-partidária. Essa também é uma das razões pelas quais muitos republicanos inicialmente pensaram que máscaras eram algo para os fracos democratas. O vírus conseguiu se espalhar especialmente nos estados governados pelos republicanos.

O que deveria proteger a economia teve efeito exatamente oposto. Os estados mais particularmente afetados são os que tiveram as regras mais relaxadas: as partes dos EUA onde os responsáveis políticos não viam chance de restringir a chamada ânsia individual por liberdade sem perder maciçamente em popularidade. 
Também porque muitos tinham o apoio de seu presidente, que ainda tenta interpretar a coisa toda como um ataque de seus inimigos.

Nos últimos dias, no entanto, este edifício de mentiras começou a apresentar rachaduras profundas. As condições são catastróficas exatamente nas regiões de que Trump necessita urgentemente para sua reeleição. Os hospitais já atingiram seus limites de capacidade e deve-se esperar que os números continuem a subir após o último final de semana.

Prefeitos e governadores agora estão ordenando o uso de máscaras, mesmo em estados como o Texas. Os comícios de Trump são assistidos por menos pessoas, e suas declarações racistas, com as quais ele tenta distrair a população da gravidade da situação, têm o efeito oposto para muitos.

Cada vez mais republicanos o criticam abertamente e alertam contra sua reeleição. Diferentemente do próprio mandatário, muitos cidadãos agora parecem estar acordando. 

O medo de ficar gravemente doente, talvez até de morrer ou de perder membros da família como consequência da Covid-19 está se tornando mais perceptível no país que elegeu Donald Trump para a Casa Branca há quase quatro anos. (por Ines Pohl, correspondente da Deutsche Welle em Washington)

quarta-feira, 8 de julho de 2020

O BRASIL NÃO ESTÁ CONDENADO AO FUNDO DO POÇO MAS TEM DE, O QUANTO ANTES, REDEFINIR AS SUAS PRIORIDADES – 2

(continuação deste post)
Para isto teríamos de aproveitar as nossas potencialidades de país-continente, com baixa densidade demográfica relativa; e, tão logo se evidencie a impossibilidade de aumento do déficit público em razão de uma sustentação financeira patrocinada por emissão de moeda sem lastro e endividamento estatal diante da paralisia econômica, desencadearmos um movimento que aproprie as nossas riquezas materiais em favor do povo brasileiro. 

Tal medida irá diretamente contra a ideia ministerial de vender tudo que pudermos para sanar o desequilíbrio fiscal. 

Já, já, prolongando-se a crise sanitária e correspondente distanciamento social, restará inviabilizada a continuidade dos míseros benefícios concedidos pelo Estado à população brasileira carente, desempregada ou subempregada. 

Mas, há males que vêm para o bem, se soubermos aproveitar as potencialidades que a dialética do movimento pode nos proporcionar no sentido da superação das crises. 

O Brasil é um dos raros países com autossuficiência de recursos materiais, de vez que possuímos em abundância os três requisitos básicos para a autossustentação populacional: energia, alimentos e água.

No quesito energia, temos capacidade de produção de energia elétrica a partir dos nossos recursos hidráulicos, eólicos e fotovoltaicos, como também pela combustão fóssil (em razão das nossas reservas petrolíferas). Mas, devemos abandonar paulatinamente esta última, porque polui atmosfera, rios, mares e subsolo.

No quesito alimentos, hoje, somos um dos celeiros do mundo, graças à nossa produção de soja, milho, feijão, algodão, carne bovina, suína e avícola, que exportamos para o mundo com valor bem diferenciado dos insumos tecnológicos e medicinais (os quais compramos por preços superdimensionados).

No quesito água, problema mundial em razão do aquecimento global e do mau uso ecológico que provoca a sequidão e a contaminação aquífera (vide caso recente do Rio de Janeiro), somos campeões de reservatórios da dita cuja, seja na superfície amazônica, no pantanal, nos muitos rios que cortam o Brasil de leste a oeste, ou, ainda, no subsolo. 

Fomos privilegiados pela natureza com esse elemento químico que representa a vida e sem o qual inexiste opção de sobrevivência humana, animal ou vegetal. 
Assim, ainda que venhamos a sofrer as consequências de uma ordem econômica mundial segregacionista que impõe à periferia dos países capitalistas condições draconianas de sobrevivência, e que vejamos a penúria instalar-se nos lares brasileiros, nada estará perdido: tal condição poderá ser o gatilho para a nossa verdadeira independência e pujança vital.

Dando, em nome do povo brasileiro, um fim à apropriação dos nossos recursos materiais e abandonando o critério de mensuração econômica e direito de propriedade segregacionista, poderemos instalar o reino da prosperidade, resolvendo problemas seculares como o habitacional, o da alfabetização e o da subnutrição (Boçalnaro, o ignaro, diz que a fome não que não existe, mas basta irmos à casa de um trabalhador desempregado para ver que se trata de mais uma lorota de um mentiroso contumaz).

E, ao invés de sermos vistos como arrogantes e indiferentes ás agruras de outros povos, passaremos a servir-lhes de exemplo comprovatório da viabilidade de trocas não quantificadas pela forma-valor, mas baseadas nas necessidades de cada país e nos seus excedentes de produção (em razão das potencialidade naturais de cada um); a nossa carência de trigo, p. ex., poderá ser superada com uma produção fora dos padrões de custos de produção, ou por meio das trocas não quantificadas pelo dinheiro.

É o que o gatilho do coronavírus está a provocar e que tanto tem atormentado os donos do capital e seus representantes políticos: a explicitação de que a lógica do capital é genocida e escravista, e de que podemos substituí-la por modos de produções sociais coadunados com a realidade humanista que deve prevalecer no século 21.

O Brasil tem jeito, mas é de outro jeito. (por Dalton Rosado)

A EDUCAÇÃO VIROU UM MICO DISPUTADO POR IDEÓLOGOS SEM IDEIAS, EVANGÉLICOS SEM PUDOR E O CENTRÃO SEM ESCRÚPULOS

josias de souza
BOLSONARO NÃO NOTOU, MAS TERÁ DE DEMITIR SALLES
A Esplanada dos Ministérios virou uma espécie de centro terapêutico para tratar as neuroses do presidente da República. 

Na Saúde, a aversão de Bolsonaro à ciência sustenta a interinidade do general Eduardo Pazuello. Assombro! 

Na Educação, o transtorno ideológico leva o presidente a cogitar a nomeação do major Vitor Hugo depois da carbonização de dois ex-quase-futuros ministros. Pasmo!! 

Carlos Decotelli queimou-se na gordura do próprio currículo. Renato Feder pulou da frigideira, já bem passado, após três dias de fogo alto nas redes sociais. 

No momento, a Educação virou um mico disputado por ideólogos sem ideias, evangélicos sem pudor e o centrão sem escrúpulos. 
No Meio Ambiente, a obsessão antiambiental de Bolsonaro faz do Brasil um país louco o bastante para rasgar dinheiro. Estupefação!!! 

Na semana passada, representantes dos maiores fundos de investimento do mundo enviaram às embaixadas brasileiras uma carta com aparência de bala perdida. 

Nesta semana, grandes empresários brasileiros endereçaram ao vice-presidente Hamilton Mourão uma correspondência com jeitão de morteiro. 

Nas duas cartas —a dos fundos estrangeiros e a dos empresários nacionais— pede-se a mesma coisa: proteção à floresta amazônica e aos índios. 

Vem aí um decreto proibindo queimadas por 120 dias. Mas isso é pouco para evitar a fuga de investimentos.

Bolsonaro ainda não percebeu. Mas logo terá de exonerar Ricardo Salles e as boiadas que o ministro usa para esmigalhar regras ambientais.

Sob Bolsonaro, os ministros já não são nomeados. Eles são internados. 

Não são exonerados. Eles recebem alta.

HÉLIO SCHWARTSMAN, PERDOA-LHES, PORQUE NÃO SABEM O QUE FAZEM...

O presidente da República cansou de defender e justificar a indiferença diante da morte de um número menor de infectados pelo coronavírus para que viva um número maior de pessoas ameaçadas de serem privadas, pela paradeira da economia, dos recursos necessários à própria sobrevivência e de suas famílias.

Ou seja, a questão era e é colocada por ele como uma mera comparação numérica: se a quarentena (por causar fome, miséria, outras doenças, etc.) vai indiretamente matar mais cidadãos do que a pandemia diretamente, então que se deixe a agricultura, comércio, indústria e serviços desenvolverem suas atividade à vontade e causarem quantas contaminações causarem. Depois, enterrem-se os mortos e os sobreviventes que sigam adiante.

Isto se chama consequencialismo: jogam-se no lixo a ética, a moral, a compaixão, etc., e se leva em conta apenas as resultantes objetivas dos atitudes (ou seja, o valor moral de um ato é determinado exclusivamente por suas consequências). 

No caso do consequencialismo tosco do Bolsonaro, podemos presumir que, se ele tiver de optar pela morte tranquila, durante o sono, de 101 pessoas ou a morte horrível, sob lancinantes torturas, de 100 pobres coitados,  salvará uma pessoa a mais e condenará uma centena a suplícios inenarráveis...
Hélio Schwartsman fez um artigo demonstrando a monstruosidade implícita nesse posicionamento de Jair Bolsonaro de uma forma inusitada: provou que, se ele morrer de Covid-19, o ganho quantitativo de vidas será imenso, já que seu negacionismo, disseminando a confusão e servindo como exemplo que cidadãos ignorantes e influenciáveis imitam, é causa de óbitos por atacado.

Então, com uma fina ironia pela qual os tacanhos e os simplórios passam batidos, ele escreveu que estava torcendo pela morte do presidente.

E os tacanhos e os simplórios reagiram: o ministro das Comunicações, como se estivéssemos mergulhados nas trevas da Santa Inquisição, tomou o paradoxo argumentativo ao pé da letra e zurrou que torcer pela morte do presidente é um ataque à instituição presidencial (!). Será que eu ainda posso escrever que torço contra o time do presidente (que em São Paulo é o Palmeiras) sem ser investigado pela PF? 

Ato contínuo, o ministro da Justiça zurrou à Polícia Federal que investigue... nada, pois nada existe para ser investigado. O crime, se crime fosse, corporifica-se no próprio texto. Interrogar o autor para que ele declare o que pretendia com tal artigo seria digno das velhas chanchadas da Atlântida.

O que o ministro André Mendonça tem realmente de fazer é: 
— ou reconhecer que viajou na maionese e que o artigo em questão não fere lei nenhuma, nem mesmo a ditatorial Lei de Segurança Nacional do regime militar, cujo demoníaco nome está sendo invocado em vão;  
— ou processar Schwartsman, passando recibo de que não entende bulhufas nem da nossa Constituição nem de qual seja a sua função numa democracia e voluntariando-se para receber uma completa aula do STF a respeito.

Até quando, oh Catilinas, vocês continuarão abusando da nossa paciência?! (por Celso Lungaretti) 
Related Posts with Thumbnails