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sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

A ESQUERDA QUE NÃO SE DEIXOU COOPTAR PELO CAPITALISMO: UM LEGADO (parte 7)

Museu da Capelinha, no Vale do Ribeira: podem 
destruir acervos, mas sua memória está bem viva.


Para deixar bem esclarecido o episódio da queda da área de treinamento ativa da VPR no Vale do Ribeira, precisarei servir-me de informações das quais eu não dispunha naquele momento, mas foram chegando às minhas mãos nas décadas seguintes.

Assim, tendo eu aberto no final da tarde de 16/04 a localização da área abandonada, mas omitindo que ela havia sido desocupada pelo menos um mês atrás, os analistas do DOI-Codi desconfiaram de que eu estaria lhes entregando calhau como se fosse ouro e apenas despacharam uma equipe para verificar discretamente o que havia por lá. 

Tal equipe  vasculhou, em 17/04, o sítio que nos servira de fachada e, ao voltar no dia seguinte para a capital, apenas comunicou que realmente houvera trabalho guerrilheiro no local, mas dele nada restava. Voltou de mãos abanando.

A nova prisão de militante, na manhã de 18/04, foi a que justificou o lançamento da Operação Registro, pois forneceu o pacote completo à repressão: a existência de uma segunda área e de alguns aliados da VPR morando naquela região.

Com as novas informações, o DOI-Codi começou a montar o cerco de Registro. Daí tantos oficiais superiores não pertencentes a seus quadros terem sido chamados às pressas para uma reunião em plena tarde de sábado. E, como pensaram em obter mais detalhes por meu intermédio, me conduziram à sala em que uns 50 deles esboçavam seus planos de ação. 

Descuidados, nem se incomodaram em evitar que eu cruzasse no corredor com a pessoa verdadeiramente responsável pela entrega da área ativa. 

Acabei sendo-lhes inútil por causa da minha pressão acelerada e do receio que tiveram de uma nova morte de jovem por problemas cardíacos que não deveria ter na sua idade. E não me escapou que haviam descoberto algo muito importante, e graças a quem.
Estátua comovente: Zequinha Barreto 
carregando Lamarca em fuga na Bahia
 

No domingo, 19/04, ambos fomos juntos transferidos, de carro, para a sede paulista do DOI-Codi, na rua Tutóia.  E na manhã do dia 20, embarcados num caça da FAB para o palco das ações. 

Aí me caiu a ficha de qual era a peça do quebra-cabeças que ainda estava faltando. Pois, quando Lamarca resolveu abandonar a área 1 e desenvolver a área 2, passou a sair de manhã cedinho com o motorista para ir comandar os preparativos. Voltavam no começo da noite se queixando de estarem com a bunda doendo de tantos quilômetros de rodovia que teriam percorrido sentados.

Era, percebi depois, uma encenação para eu e o Massafumi, que já havíamos decidido não continuar no trabalho de campo, ficarmos supondo que a nova área seria uma região rural em que pipocavam conflitos fundiários na Paraná. Na verdade, a área 2 distava apenas uns 30 quilômetros da área 1.

Mas, se moradores iam recolher palmito na mata e poderiam a qualquer momento desconfiar dos novos moradores (nós), além de estarmos demasiadamente próximos da rodovia BR-116, por que abandonarmos a área 1 e transferir o trabalho para outro ponto da mesma região?

Lamarca deve ter concluído que a existência de uma base de 4 ou 5 aliados locais da VPR seria valiosa, começando pelo fato de que assim ele logo saberia se a chegada de um contingente mais numeroso de companheiros a serem treinados levantasse suspeitas na região. 

Ou seja, tomou uma decisão pouco recomendável em termos de segurança exatamente por carecer de apoiadores noutras regiões. Optou por correr riscos com os que tinha.

Pior ainda foi ter utilizado os préstimos desses aliados para a aquisição dos dois sítios. Dependendo das suspeitas que a repressão viesse a ter, uma simples ida ao cartório lhe revelaria o endereço de ambos.

Nem sequer foi necessário, contudo. A pessoa presa no sábado já deu ao DOI-Codi todas as informações de que necessitava.
Reportagem da Agência Pública revelou que os militares 
chegaram a bombardear as matas da região com napalm
O relatório de operações do II Exército na Operação Registro, do qual só tomei conhecimento em 2004, historiou com exatidão o ocorrido: eu dera involuntariamente a primeira pista à repressão ao revelar a localização da área 1, mas isto não foi levado a sério até que, com a nova queda de militante dois dias depois, os militares tomaram conhecimento de que havia também uma área 2, a qual continuava ativa.

Tive um vislumbre dessa verdade quando, em algum dia da semana seguinte, fui levado às duas áreas de viatura, provavelmente como um teste para averiguarem se eu sabia mais do que revelava. Passamos primeiramente pela área 1 e demonstrei que a conhecia. Não havia informação nenhuma útil para eles lá. então minha sinceridade não faria mal nenhum.

Depois fomos para uma segunda área, que eu desconhecia, mas logo percebi do que se tratava. A área 2 ser tão próxima era a peça que me faltava para o quebra-cabeças inteiro fazer sentido.

Mas, claro, fingi nada ter percebido e os militares aparentemente acreditaram. Se soubessem quanta informação útil eu obtive deles porque me subestimavam...

Talvez pela gravidade do que eu intui, foi uma ocasião em que perdi um pouco a serenidade. Um capitão enfastiado, quando os demais milicos estavam afastados, tentou convencer-me a tentar a fuga pelo mato, "aproveita agora que não tem ninguém olhando!".
Paulo Betti no papel de Lamarca, no filme de 1994: era
parecido, mas lhe faltava a aura de homem sofrido.
  

Respondi de bate-pronto, sem pensar, apontando o meu peito: "Se é para me matar, atira logo pela frente. Não vou correr para levar tiro nas costas".

O capitão não insistiu, apenas mandou me levarem de volta para o delegacia de Jacupiranga. onde me guardavam precariamente Se fosse mais profissional, perceberia que eu não era o jovenzinho assustado que me esforçava para aparentar. 

O que me tirou do sério? Foi haver percebido que  minha exclusão da lista de troca do embaixador alemão não deveria ter sido engano, mas sim uma providência necessária para que eu servisse de bode expiatório pela queda da área.

E por quê? Certamente porque preservar a pessoa presa no sábado era mais importante para a VPR  do que preservar a minha credibilidade revolucionária. 

Não tinha dúvida nenhuma de que Lamarca estava ciente da minha inocência; afinal, ele mesmo me havia contado que algum(ns) ex-colega(s) de farda o municiava com informações quentes sobre o que acontecia no DOI-Codi. Tanto que ele não mexera uma palha quando fui preso no dia 16, mas correu a levantar acampamento e iniciar sua fuga quando a outra pessoa foi presa no dia 18.

Ter chegado à conclusão de que provavelmente estaria sendo desacreditado pela organização quando me esforçava ao máximo para preservar os quadros da VPR foi talvez a gota d'água que extravasou o copo, pois se acrescentou: 
Por 40 anos prevaleceu a versão de que Lamarca morrera
em tiroteio, mas esta foto provou que ele fora executado
— a
o impacto das torturas (bem maior do que eu esperava); 
— à profunda decepção que me causara a briga de foice no escuro em que se constituíra o congresso da VAR-Palmares; e 
— ao remorso que sentia por não haver zelado melhor pelos companheiros cujo ingresso na VPR eu liderara.

Daí a prostração que tomou conta de mim no final de junho. O arrependimento forçado que me impuseram me parecia insignificante diante de tudo que eu já havia sofrido. 

E, no fundo, realmente era uma mera armação dos serviços de Guerra Psicológica das Forças Armadas. Quem acreditava naquilo engoliria qualquer coisa. Mesmo assim, feria demais o meu amor próprio lembrar-me daquela madrugada de pesadelo na sede da Rede Globo no Jardim Botânico. Quis até acreditar que nada daquilo acontecera, mas, no fundo, sabia que ficara muito aquém da imagem que eu tinha de mim mesmo.

Mas, dos tempos em que devorava os livros de Sartre e Camus, me restou a disposição de nunca buscar consolo fácil. Considerei definitivo aquele péssimo momento e assumi comigo mesmo o compromisso de superá-lo com o que fizesse doravante. Ao sair da prisão já recobrara o espírito de luta. A luta armada havia sido inviabilizada por décadas, mas resistir ao capitalismo, ainda que de outra forma, continuava sendo um imperativo para mim.

Quanto ao Lamarca, com o tempo fui compreendendo melhor seus motivos. Apostara tudo na sua visão de guerrilha rural e, quando teve a oportunidade de partir para a prova de fogo (já estava na selva, armado e conduzindo um grupo de guerrilheiros em potencial), percebeu que não tinha como sobreviver ao poder de fogo imensamente superior do Exército, só lhe restando, como opção para salvar a si próprio e a seus comandados, a volta para a cidade.

Num momento tão dramático, ele resolveu sacrificar a minha reputação para tentar salvar o seu sonho: a verdade nua e crua lançaria sérias dúvidas sobre a competência da VPR para ainda lançar sua guerrilha rural.

Ao ficar sabendo, depois de libertado, como tinha sido o final de vida do Lamarca, resolvi não questionar mais a decisão que tomara a meu respeito e quase me destruíra. Afinal, tendo entregado a vida em nome de suas convicções, ele fez por merecer a minha compreensão, pelo menos.

Aí, em 2007, quando a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça concedeu à seus entes queridos uma pensão equivalente à de um coronel de Exército e as viúvas da ditadura bateram pesado em tal decisão, com o apoio repulsivo da grande imprensa, não suportei ver a omissão de tantos sobreviventes da nossa luta, que tinham o dever moral de defender a Família Lamarca;

Ao ter certeza de que não o fariam, entrei na polêmica,  confrontando a Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e a Veja. Eu tinha a obrigação de ser maior do que aquela ralé que o atacava com tanta fúria, como se continuasse temendo o seu  desprendimento e coragem.  (por Celso Lungaretti
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quarta-feira, 13 de novembro de 2024

A ESQUERDA QUE NÃO SE DEIXOU COOPTAR PELO CAPITALISMO: UM LEGADO (parte 6)

Sítio que serviu como fachada para a segunda
área de treinamento da VPR em Registro

Passados dois meses, eu já antevia  o momento em que sairia da chamada fase operacional, passando a levar a vida enfadonha dos presos políticos que já não detinham informações  do interesse da repressão e, portanto, só voltariam a ser espremidos caso viessem à baila fatos novos ou se outras capturas fizessem os torturadores perceberem que suas vítimas anteriores não haviam contado tudo que sabiam.

Embora eu houvesse, nos piores momentos, duvidado de que sobreviveria, o saldo até então era positivo em meu favor, pois a minha culpa pelas quedas em cascata era quase nenhuma. 

Afinal, meu principal papel na organização era o de municiar os outros comandantes com informações e análises; e, como as prisões de alto escalão tiveram outras origens, a organização só poderia me recriminar a dissimulação a que eu recorria, sempre fingindo estar mais abalado pelas torturas do que realmente estava.   

Até que ponto eu conseguia enganar os torturadores e até que ponto eles às vezes não iam às últimas consequências comigo por temerem que eu morresse? Jamais saberei ao certo, mas, dois dias depois da minha prisão, um velho militar suspeitou que eu estivesse passando mal e chamou o médico. 

Minha pressão deveria estar assustadora, pois logo me encheram de calmantes e escalaram aquele oficial para conversar comigo e me tranquilizar um pouco. 

Como nunca fui ingênuo, avaliei que a morte recente do jovem companheiro Chael Charles Schereier repercutira mal mundo afora e eles temiam que uma ocorrência semelhante. tendo como vítima um militante mais jovem ainda, provocasse outra onda de denúncias e indignação contra a ditadura no exterior. 
A morte em novembro de 1969 de Chael Charles Schreier, com inconfundíveis marcas de
tortura, repercutiu mundialmente e até inspirou  matéria de capa famosa da revista Veja
Mas, o alívio durou pouco e em maio já voltavam a me torturar com mão pesada.  A diferença era que já não esperavam descobrir nada importante por meu intermédio, tanto que me transferiram da solitária ao lado da sala de torturas para uma cela para vários prisioneiros no andar de cima e a frequência com que me buscavam para interrogatórios diminuíra. 

Tudo me fazia crer que eu já estava prestes a ser transferido, para finalização de inquérito em algum dos quartéis da Vila Militar quando, no dia 11 de junho, a VPR e a Ação Libertadora Nacional sequestraram o embaixador alemão  Ehrenfried von Holleben.

Os analistas da repressão mandaram agentes do Deops me interrogarem para a finalização do que dizia respeito a mim nos inquéritos da VPR e da VAR-Palmares (ou seja, éramos obrigados a repetir sem torturas tudo que eles haviam arrancado de nós mediante torturas, sendo esta  versão indolor então encaminhada às auditorias militares. 

Se confirmássemos aquilo de que nos acusavam, tínhamos a incomunicabilidade  quebrada e ficávamos aguardando julgamento em unidades militares que não integravam a estrutura de terrorismo de estado criada para o combate à subversão e à luta armada. 
Este interrogatório na auditoria da Marinha, em processo da
VAR-Palmares, ocorreu um dia após o da foto famosa da Dilma
 

Se nos negássemos a admitir o que já tínhamos admitido anteriormente, nos mandavam de volta para o DOI-Codi e nos torturavam de novo até que nos conformássemos em jogar o jogo do jeito deles.

Geralmente a transferência para unidade não-torturadora antecedia a tomada de depoimentos para fins jurídicos, assim a farsa ficava completa. Os relatórios sangrentos produzidos pelo DOI-Codi permaneciam secretos e os depoimentos que embasavam nossas condenações não tinham manchas de sangue. 

Mas, com o sequestro do embaixador  von Holleben em curso, nem se preocuparam em me transferir para outra unidade; pegaram meu depoimento no DOI-Codi mesmo. A própria repressão dava como favas contadas que meu nome estaria entre os 40 da lista de troca.    

O avião partiu no dia 16 e eu fui deixado para trás, sendo alvo inclusive de zombarias dos torturadores ("Levaram até lastro no seu lugar"). Como eu atendia aos critérios para inclusão entre os libertados e não fora responsável por nenhuma queda de quadro importante, logo imaginei que a exclusão do meu nome tinha a ver com a queda da área de treinamento guerrilheiro.

A VPR estava me atribuindo tal delação embora eu nem sequer conhecesse a localização da dita área: tinha sido um dos cinco integrantes da equipe precursora da instalação de uma escola de guerrilha na região de Registro, SP; mas, como o local se revelou inadequado para nosso propósito, após três semanas abandonamos o sítio que havíamos adquirido e o trabalho foi transferido para outro lugar, já sem minha participação.  
Foram 40 os presos políticos trocados pelo embaixador Ehrenfried von Holleben
Então, por óbvia medida de segurança, os dois que decidimos não continuar no trabalho de campo fomos,  no dia da desativação da primeira área, levados de volta para a Capital: eu, para retomar a atividade de comandante de Inteligência noutro estado, o Rio de Janeiro; e o Massafumi Yoshinaga para desfiliar-se da organização. 

A localização da segunda área, a definitiva, por parte do DOI-Codi/RJ, se deu em 8 de abril de 1970, um sábado, dois dias após minha prisão. Durante aquela tarde, houve uma reunião com a participação de uns 40 altos oficiais visitantes  e eu fui conduzido até ela. Quando chegava na sala onde o encontro se realizava, cruzei com integrante da VPR que dela estava saindo. Sua prisão ocorrera naquele sábado.

De mim queriam saber detalhes sobre a primeira área, a abandonada. Mas, o inusitado daquela reunião e a má ideia que tiveram de atar-me eletrodos nos dedos, criando a ameaça de choques elétricos, produziu efeito contrário. Foi quando um dos oficiais visitantes suspeitou que eu estivesse passando mal e fez com que viesse o médico.

Acabei não os ajudando em nada, mas, ao me retirarem da sala, um dos oficiais comentou com o outro que, de qualquer forma, eles já sabiam o que precisavam saber.
Formatura do Lamarca: 10 anos depois,
venceria o Exército que o cercava em Registro
 

Ou seja:
eu nunca ignorei quem entregara a área definitiva. A pessoa estava pálida como fantasma quando cruzei com ela, então não tive duvida de que durante algumas horas ela sofrera as piores torturas. 

Depois, na segunda-feira, fomos ambos levados até Registro num jatinho da FAB, para ficarmos à disposição dos responsáveis pela caçada aos companheiros. Quando aterrissamos, nos separaram e nunca mais falei com tal pessoa.

Tinha quase certeza de que eu fora preterido na lista de troca do embaixador alemão por estar servindo de bode expiatório da delação da área enquanto quem tinha realmente fraquejado decolava com o prestígio intacto para a Argélia. Fiquei perplexo e desolado. 

Continuei acreditando firmemente (até hoje!) na necessidade de uma urgente revolução anticapitalista, mas perdi para sempre a confiança cega nos companheiros. 

Levei muito tempo para compreender que, num instante em que a VPR sofria a pior de suas crises de segurança e precisava repor com urgência os quadros que perdera, a verdade sobre quem entregara ao inimigo as joias da coroa teria um efeito acachapante, dificultando ainda mais seus esforços para dar a volta por cima. Compreendi adiante o porquê, mas aos 19 anos não se aceita facilmente uma injustiça dessas. Quase fui destruído   

Preso, não tinha como restabelecer a verdade. Solto, continuava tão indignado com os companheiros que haviam me condenado sem sequer procurarem conhecer a minha versão que decidi não denunciar quem estava me deixando carregar em seu lugar  culpa tão terrível. Resolvi reagir à indignidade sendo mais digno do que todos que me atacavam.   

Só vim a levantar essa lebre no final de 2004, por ter surgido uma oportunidade de provar a minha inocência sem necessidade de apontar a quem pertencia a culpa. 
As Forças Armadas mobilizaram 2.954 homens para NÃO
capturarem Lamarca e uns poucos aprendizes de guerrilheiros

 

E, em 1970, ainda houve outra consequência nefasta para mim: o fato de que parte da estrutura da VPR no RJ sobrevivera às quedas em cascata e conseguira sequestrar o embaixador alemão em parceria com a ALN fez os torturadores do DOI-Codi notarem que eu omitira a existência de uma unidade de combate que permanecera incólume: a que era comandada pelo falecido Juarez Guimarães de Brito.

Eles acreditavam ter liquidado completamente a VPR naquele estado e devem ter ouvido poucas e boas dos superiores, pois tinham inclusive descoberto o plano para sequestrarmos o von Holleben e não lhe providenciaram proteção, provavelmente supondo que não havia mais ninguém para efetuar a proeza. Só que houve.

Um deles descarregou a raiva em mim. O oficial responsável pelo inquérito da VAR-Palmares viera tomar meu depoimento e um raivoso do DOI-Codi, ao passar pelo corredor, viu-me e perdeu a cabeça. Entrou e esmurrou-me tão violentamente pelas costas que me derrubou da cadeira e jogou a mesinha em cima do oficial visitante.

Só que aquele oficial era superior a ele em termos hierárquicos e ficou furibundo por ter a patente duplamente desrespeitada (eu estava sob a guarda dele naquele instante e nenhum outro poderia intervir sem sua permissão).

Discutiram aos berros no corredor, quase chegando às vias de fato. Quando o visitante sentou-se de novo, disse-lhe que, se permanecesse no DOI-Codi, acabariam me matando. 
"Longe, longe, ouço essa voz que o tempo não vai levar"

Bingo. Logo no dia seguinte fui transferido. Eu avaliara bem que, oferecendo uma oportunidade de revanche para o ultrajado, este mobilizaria suas influências, se as tivesse, na direção que me convinha.  

Mas, foi sair do fogo para cair na frigideira. Enviaram-se para a pior unidade do RJ depois do próprio DOI-Codi: a PE da Vila Militar.  (por Celso Lungaretti)

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segunda-feira, 11 de novembro de 2024

A ESQUERDA QUE NÃO SE DEIXOU COOPTAR PELO CAPITALISMO: UM LEGADO (parte 5)

Era de manhã cedinho numa quinta-feira, 16 de abril de 1970. Ao me retirarem o capuz,  vi-me no setor de registro dos novos prisioneiros que chegavam àquele quartel que, soube depois, era o da Polícia do Exército no bairro carioca da Tijuca, onde operava o DOI-Codi, reunindo efetivos da repressão originários das três Armas.

Como silenciei, recusando-me inclusive a dizer quem eu era, fui logo encaminhado para a sala de torturas, no fundo do quartel. Durante dois meses e meio sofreria todo tipo de intimidação e sevícia, conforme relatei no meu livro Náufrago da Utopia   e também em vários artigos e entrevistas. 

Avalio como desnecessário e deprimente repetir os pormenores da minha descida ao inferno. Melhor falar nas lições que extraí, algumas no próprio momento, outras repassando os tormentos na memória, de volta à cela.

Os torturadores tudo faziam para me desnortearem, impossibilitando-me de pensar. Assim, a primeira sessão de torturas foi com a sala lotada de oficiais, agentes, motoristas de viaturas, etc. Agrediam-me de todo lado, faziam perguntas ao mesmo tempo e desferiam murros e pontapés por eu não conseguir responder a todos . Além disto, recebia sucessivos choques elétricos.

Depois, já dependurado no pau-de-arara, começava a ser realmente interrogado. E aí se iniciava a verdadeira batalha. Como a intensidade das torturas era demasiada, tinha de ir buscar nas minhas convicções mais profundas a força para nada dizer a esmo. 

Logo percebi que, ao contrário das fantasiosas bravatas a posteriori de muitos dos companheiros que haviam passado por tais horrores, era quase impossível um ser humano confrontar arrogantemente aquelas bestas-feras, nada respondendo do que queriam saber. Aí a tortura se prolongaria indefinidamente, até o ponto em que o torturado já não teria mais nenhum controle sobre o que revelava.

Felizmente não me perguntaram logo nas primeiras sessões de tortura o que eu mais temia deixar escapar. 

Ou, talvez, tenha sido mero acaso: os companheiros que haviam participado da reunião com o Lamarca na área de treinamento não marcaram pontos comigo logo para o dia em que retornassem, pois tinham problemas mais urgentes para resolverem com outros quadros. A Inteligência podia esperar dois ou três dias.

Sou sincero: não consegui depois reconstituir boa parte  do que ocorreu comigo naqueles primeiros dias de sofrimentos dilacerantes. 

Seja por ter conseguido trancar na minha mente os dados dos pontos que teria com os comandantes superiores organicamente a mim e com os que eram do mesmo escalão, seja porque não tinha nada para discutir de imediato com eles, o certo é que aqueles que, ao caírem, causaram mais danos à VPR, o fizeram antes de quando eu os encontraria. O certo é que, por mérito ou por acaso, não foi graças a mim que a repressão ficou sabendo o suficiente para nos impor as quedas em cascata.

Mas não fui nem poderia ter sido capaz de convencer a repressão de que nada sabia. Para desviar a atenção dos inquisidores de nossos tesouros, fui obrigado a entregar-lhes algum calhau. O que me pareceu justificado naqueles  momentos terríveis (e só neles!). 

Passei o resto da vida lamentando a escolha que acabei fazendo, entre a prisão de algum comandante que poderiam causar dezenas de quedas e a prisão de um aliado cujo único contato com a organização era exatamente comigo. 

Só que o aliado Roberto Macarini (foto ao lado) morreu, seja como consequência das torturas, seja escapando da escolta e atirando-se do Viaduto do Chá por não estar mais conseguindo suportá-las. Nunca soube ao certo. 

Que direito tinha eu de definir, por critérios utilitários, quem seria barbaramente torturado e talvez até morresse, expondo-o para preservar os líderes da nossa organização? Nenhum. Amaldiçoei-me por perceber isto tão tardiamente.

Após minha libertação, nunca mais cogitei voltar a assumir as mesmas responsabilidades como militante. Sabia que, se o fizesse, ficaria novamente conflitado face à questão de quais companheiros eram descartáveis e quais não. Uma vez já tinha sido demais.

Quanto à injusta estigmatização que sofri por atribuírem-me uma responsabilidade que jamais tive na queda da área 2 de treinamento guerrilheiro, às vezes fico pensando que poderia ter provado a minha inocência muito antes se não carregasse tamanho remorso por, numa circunstância extrema, haver agido como o soldado que coloca o patamar hierárquico acima de tudo e não como o homem justo que sempre procurei ser.  (por Celso Lungaretti)

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terça-feira, 24 de setembro de 2024

A ESQUERDA QUE NÃO SE DEIXOU COOPTAR PELO CAPITALISMO: UM LEGADO (parte 4)

Entrei no ano de 1970 atuando novamente como comandante de Inteligência, só que no Rio de Janeiro e finalmente adaptado a tal função (que nunca sonhara vir a exercer). 

Assim, eu me reportava diretamente aos dois integrantes do Comando Nacional (o Jamil/Ladislau Dowbor e a Lia/Maria do Carmo Brito, esta de origem Colina)  que faziam a ponte entre a cidade e o campo, onde o terceiro comandante nacional (o Cid/Carlos Lamarca) tratava de implantar a escola de treinamento guerrilheiro. 

E mantinha-me em contato diário com os outros comandantes baseados no RJ, o Juvenal/Juarez Guimarães de Brito e o Roberto Gordo/José Ronaldo Tavares de Lira e Silva, responsáveis pelas nossas duas unidades de combate lá atuantes.

Já não era tratado como neófito inexperiente, mas aceito como igual pelos veteranos, naquela fase da luta em que sobreviver quase um ano aos perigos diários se tornara um marco inalcançável para muitos. 

E passara a ser colocado a par dos encaminhamentos mais importantes e consultado sobre as decisões a serem tomadas. Assim, quando o Mário Japa/Chizuo Ozava acidentou-se ao volante e a repressão encontrou no porta-malas do seu carro armas e documentos da Organização, estive próximo de todos os trâmites para resgatá-lo antes que a Oban percebesse que se tratava de um dirigente e intensificasse as torturas. O receio era que revelasse a localização da área ativa de treinamento, pois ele participava do trabalho de campo.
Como cantou Milton Nascimento, memória não morrerá!


Assim, sequestrado o cônsul japonês Nobuo Okuchi para servir-nos como moeda de troca, coube a mim a decisão de quantos prisioneiros exigiríamos por sua libertação. Era uma conta delicada, pois repercutira muito mal na esquerda armada a ingenuidade da ALN ao pedir tão somente 15 militantes pela devolução do embaixador estadunidense (por ele os militares dariam muitos mais!).

Ponderei que era arriscado exagerarmos, já que para a ditadura um embaixador dos EUA tinha peso muito maior do que um cônsul nipônico. Também não poderíamos trocá-lo apenas pelo Mário Japa, caso contrário cairia para o inimigo a ficha de que tinha nas mãos um quadro que valorizávamos muito. 

Então, precisávamos botar outros companheiros na lista, mas não a ponto de os fardados ficarem em dúvida sobre o atendimento ou não da nossa exigência. Propus o número de cinco, cinco pedimos e cinco obtivemos. 

Enviado o Japa para a Argélia, restava a dúvida sobre se ele teria dado alguma pista sobre a área ou os trabalhos  nela poderiam prosseguir normalmente. 

E foi uma aliada do meu setor que cumpriu a arriscada missão de contatar o Japa em Argel, apesar de provavelmente estar muito vigiado por espiões de outros países. A nossa enviada, uma aeromoça, conseguiu viajar até lá, falar rapidamente com ele e voltar com o sinal verde pelo qual ansiávamos. 
Albuquerque Lima (esq.) queria reproduzir no Brasil o 
nacionalismo do ditador peruano Juan Velasco Alvarado
Também coube a mim orientar a aliada jornalista que, namorando um colega envolvido com a ala nacionalista do Exército, dele extraía informações sobre a luta interna pelo poder supremo entre os altos oficiais. 

Se prevalecesse a tendência encabeçada pelo ministro do Interior  Afonso Albuquerque Lima, a repressão se radicalizaria ainda mais, daí a necessidade de estarmos sempre atentos sobre a correlação de forças na caserna.

Enfim, no RJ eu estava atuando verdadeiramente como um quadro de Inteligência, ao contrário do que acontecera em SP, onde a minha contribuição era maior como integrante do Comando estadual do que na minha função específica. 

Mais: desenvolveu-se uma grande  afinidade entre o Juvenal e eu, pois ambos éramos egressos do movimento estudantil (ele fora professor e se tornou o comandante militar do Colina, com um notável talento para planejar ações astutas como a expropriação do cofre do Ademar). 

Tínhamos formação humanista: acreditávamos na luta armada, mas travada com critério, sem bravatas nem desnecessário derramamento de sangue.  Nossa visão da organização era bem profissional, ao estilo dos tupamaros uruguaios. E sabíamos que, se porventura vencêssemos (hipótese que sabíamos ser remota), deveríamos evitar a todo custo as armadilhas do autoritarismo que desfigurara outras revoluções. 

Apesar de amargurado com as quedas e mortes de companheiros intensificando-se cada vez mais e possuindo informações suficientes para concluir que a luta se tornava adversa ao extremo para nós, ainda assim continuei firmemente decidido a marchar até o mais amargo fim. 
Depondo na Auditoria da Marinha um dia após a Dilma

Tanto quisera ser necessário para a revolução, então quando o estava sendo não poderia jamais optar pela autopreservação. Afora conservar alguma esperança de que, se conseguíssemos ativar a coluna guerrilheira, a luta ainda poderia ter uma reviravolta em nosso favor. 

Não se é verdadeiramente revolucionário sem esse desejo ardente de transformar a sociedade que nos leva a assumir os piores riscos que surjam pelo caminho. Mas, nem meus piores augúrios igualavam o pesadelo que veio a seguir. 

Se valho alguma coisa, foi por não ter-me deixado quebrar pelas adversidades que despencaram  sobre mim a partir daquela funesta quinta-feira, 16 de abril de 1970.

Antes, aconteceu o que se repetiria muitas vezes na minha militância: tive uma forte suspeita de que algo muito ruim estava a caminho, mas não consegui convencer quem poderia evitá-lo.

Foi num ponto meu com a Lia e o Jamil, na segunda ou terça-feira. Disseram que o Lamarca exigira a presença dos demais comandantes nacionais e dos comandantes de unidades de combate na área de treinamento guerrilheiro, pois temia que a Organização novamente não estivesse priorizando a tarefa principal (lançamento da coluna guerrilheira) como deveria. 

Afora esta notícia, os dois me trouxeram outra: a de que o Wellington Moreira Diniz (se bem me lembro, seu nome-de-guerra era Hélio) não comparecera ao ponto semanal com a VPR na manhã de sábado, nem na alternativa no início da noite. 
Wellington Moreira Diniz em
2013, ao ser julgada sua anistia

Ele tivera participação marcante nas ações armadas do Colina, praticamente como braço direito do comandante Juvenal. Mas, meses antes, foi diagnosticado que ele era portador de um problema cardíaco e a VPR retirou-o das ações armadas, permitindo que passasse a morar com uma namorada que não pertencia aos nossos quadros, tendo como única missão dar treinamento a grupos de esquerda inexperientes que se aproximavam da VPR.

Eu o conhecia do congresso de outubro da VAR-Palmares e não acreditava que faltaria a dois compromissos com a Organização por motivo fútil. Pensei logo que ele deveria ter sido morto ou preso.

E me ocorreu que, se ele houvesse mesmo caído no sábado, seria uma temeridade os comandantes estarem reunidos no campo e não a postos para lidar com uma possível emergência. A VPR, por causa das quedas que se sucediam implacavelmente, resolvera adotar um modelo vertical, com cada unidade de combate, bem como a minha de Inteligência, conhecendo apenas seu comandante. 

O contato entre elas era unicamente o contato entre os comandantes. Com estes ausentes, ficaria muito mais difícil cientificarmos uns aos outros e tomamos providências para evitar uma sucessão de quedas em cascata.

Insisti longamente com o Jamil e a Lia no sentido de que adiassem a reunião com o Lamarca, mas ambos não ousaram discrepar dele. Representavam dois terços do Comando Nacional, portanto poderiam fazê-lo, mas refugaram. Foi fatal.

O Wellington tinha mesmo sido preso no sábado e desde então sofria as piores torturas, mas aguentou bravamente  até a quarta-feira, quando acabou abrindo o fotógrafo ao qual conduzira o Lamarca para tirar fotos após a sua operação plástica. O fotógrafo, por sua vez, entregou um médico que era nossa principal fonte de aliados e, ao mesmo tempo, a maior vulnerabilidade que tínhamos no RJ. 

Esse médico abriu o ponto que tinha comigo. Outros companheiros também caíram, não sei exatamente como. E os comandantes que haviam se reunido no campo, foram sendo presos logo ao voltarem. A pior sequência de quedas da VPR varreu a organização em todos os estados nos quais estava estabelecida.
 Comissão Nacional da Verdade falhou em entregar
às famílias os restos mortais dos desaparecidos
  

Ao ser conduzido para a sede do DOI-Codi, no quartel da Polícia do Exército na Tijuca, eu quase sufocava por causa do capuz que me colocaram e de me forçarem a cabeça para baixo a fim de não ser visto da rua ou dos carros que passavam ao lado. 

Sabia que, mesmo se sobrevivesse, nunca mais seria o mesmo. E não tinha certeza de que valeria a pena sobreviver. 

Se funcionasse a capsula de cianureto produzida por estudantes de química aliados da VPR, eu a teria usado, mas aqueles aprendizes de feiticeiro haviam falhado em algum detalhe, de forma que poucos dias antes o Juvenal me informara do fracasso colhido por quem a utilizara. Então, só restava preparar-me para o pior. (por Celso Lungaretti)

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quinta-feira, 29 de agosto de 2024

A ESQUERDA QUE NÃO SE DEIXOU COOPTAR PELO CAPITALISMO: UM LEGADO (parte 3)

Enquanto era realizado o congresso do racha dos sete, transcorriam
as negociações do sequestro do embaixador estadunidense Charles Elbrick.
Até o racha dos sete, as circunstâncias vinham me propiciando uma escalada relâmpago nas fileiras da esquerda. 

Era, contudo, algo que eu não cogitava, nem sequer pretendia. Nunca tive obsessão pelo poder e. aos 18/19 anos, já possuía suficiente senso de autocrítica para perceber que não estava pronto para voos tão altos.  

Mas, eu mentiria se não admitisse que o novo status me deslumbrou um pouquinho que fosse, principalmente após passar 1968 inteiro ressentido com o tratamento entre paternal e ligeiramente desdenhoso que os militantes universitários dedicavam a nós, secundaristas, colocando-nos ora no papel de tarefeiros, ora no de bois de piranha

[Caso, p. ex., de quando nos escolheram para panfletar Osasco ocupada pela PM em junho de 1968, sob a alegação de que, presos, iríamos para o Juizado de Menores e não para o Deops. Mas isto não passava de papo furado: a ditadura não tinha tais melindres.]  

Quando a minha sorte de principiante acabou e a realidade crua da luta armada começou a desabar sobre mim, isso me abalou mais do que deveria. Primeira foi a morte de um companheiro da VPR a quem não conhecia, Carlos Zanirato, em junho. Preso, ele resolveu dar um fim às torturas pela via do suicídio. conduzindo a repressão a um ponto falso e atirando-se sob um veículo pesado. 
Fernando Ruivo, vítima de um acaso.

No mês seguinte vieram o
Elias e um  ex-dirigente da Dissidência Estudantil de São Paulo, de quem eu muito ouvia falar quando fazia movimento secundarista na órbita dessa organização universitária em 1968: o Fernando Ruivo (Fernando Borges de Paula Ferreira). 

Um caso chocante porque ambos tiveram o azar de estarem num carro que empacou logo quando passava por uma boca quente paulistana. Havia policiais emboscados esperando surpreender traficantes, então os dois, sabendo que uma revista revelaria a existência de armas e munição no porta-malas, abriram fogo. 

O Ruivo morreu na hora e o Elias foi salvo pelos médicos mas expirou quando submetido a torturas prematuras.

Em outubro veio o pior baque para mim: a morte do meu colega de escola, amigo, companheiro de militância secundarista e um dos sete quadros que conduzi para as fileiras da VPR, Eremias Delizoicov. 

Eu estava longe, participando da equipe precursora do treinamento guerrilheiro na região de Registro (SP), mas me senti culpado mesmo assim: tornara-me comandante estadual graças aos que, como ele, me haviam escolhido como líder de nossa base e delegado ao congresso de 1969 da VPR. 

Mas, não zelara por nenhum dos sete, absorvido que estava pelas minhas novas funções. A morte do Eremias, que preferira trocar tiros do que entregar-se vivo, embora pouca participação tivesse até então na VPR e não fosse depositário de segredos valiosos para a Operação Bandeirantes (precursora do DOI-Codi) pesava sobre meus ombros. Apesar das normas de segurança em contrário, eu teria como contatar alguns dos sete, mas não o fizera. E o despreparo do Eremias terminara em tragédia.

O certo é que, após estar a um passo da expulsão durante o Congresso de Teresópolis e ver-me salvo na enésima hora  pela decisão do Lamarca de desfechar o racha dos sete, não me senti vitorioso, muito pelo contrário. A beligerância com que se travara a luta interna, com os neo-massistas utilizando um verdadeiro arsenal de meias-verdades e mentiras descaradas para prevalecerem contra o Moisés e eu me lembrou os piores momentos do movimento estudantil.

Não conseguia engolir o episódio em que até a minha queda os adversários do nosso campo tramaram, como se fôssemos inimigos mortais. 



É que voltei de Teresópolis com a missão de apresentar aos militantes da VAR em SP  a visão dos refundadores da VPR, enquanto o Antônio Roberto Espinoza expressava a posição neo-massista. Isto só ocorreu, contudo, duas vezes.

Na primeira, apesar de o Espinosa ter sido sempre do Comando Nacional enquanto eu era comandante estadual, sai-me melhor do que o outro lado esperava. Aí, finda a segunda dessas reuniões, fui  a um ponto com antigos companheiros secundaristas que eu queria atrair para a VPR; em seguida, deveria ser apanhado por pessoal da VAR, pois nós havíamos ficado sem aparelhos em SP  e competia a eles me abrigarem.

Faltaram ao ponto e também faltaram na alternativa horas depois, deixando-me entregue à própria sorte, com meu rosto nos cartazes de procurados vistos em todo lugar, sem documentos capazes de enganar policial algum e com um .38 embaixo do braço. E deixara de ser seguro enfiar-me num hotelzinho barato, como fizera meses antes, ao sair de casa para entrar na clandestinidade.

Mas, uma moeda caiu em pé. Andando por ruas menos movimentadas do centro velho de SP, enquanto refletia sobre como escapar daquela enrascada, dei de cara com o Devanir de Carvalho, do Movimento Revolucionário Tiradentes, mais procurado ainda do que eu (travara tiroteio com agentes da repressão que vinham prendê-lo e aos irmãos, acabando por escapar ferido no braço).

Encontrá-lo caminhando pela rua, ainda com o braço na tipoia, foi um inacreditável golpe de sorte. Ele me abrigou como pôde e reatou meu contato com a VPR. Mas, a solidariedade impecável do Devanir não foi suficiente para eu esquecer que aqueles que nem duas semanas antes pertenciam à mesma organização, acabavam de tentar entregar-me às feras.

Amargurado, nem quis participar do rápido encontro no qual alguns dos principais quadros da VPR refundada aprovaram basicamente as teses do Jamil como plataforma doutrinária e elegeram um novo Comando Nacional. 

Em seguida, por estar muito queimado em SP (até na Biblioteca Central a Oban plantou agentes, na esperança de que eu aparecesse por lá, como fazia amiúde nos tempos de secundarista!), incumbiram-me de ajudar a preparar uma área de treinamento guerrilheiro para receber os primeiros aprendizes.
Livro raro, é o que melhor reconstitui
a queda das áreas guerrilheiras da VPR

Não fui tão mal no trabalho de campo como detratores exagerariam depois, mas o noticiário de cada dia me fazia tanta falta quanto o ar para respirar. 

Não suportava permanecer distante enquanto outros companheiros poderiam estar morrendo nas cidades. Quando chegava o motorista que trazia nossas provisões, mensagens e utensílios, eu simplesmente devorava os jornais recentes.

Então, quando o Lamarca decidiu que aquele sítio próximo a Jacupiranga tinha vários inconvenientes para nosso projeto e os trabalhos deveriam ser transferidos para outro município, supostamente longínquo, pedi para voltar ao trabalho urbano, pois avaliara que nele seria mais útil.

O Massafumi Yoshinaga, velho companheiro de militância secundarista (atuava na zona Sul e eu na Leste, mas ambos pertencíamos à mesma entidade), também aproveitou a ocasião para sair, não para outro tipo de trabalho, mas para desligar-se da VPR. Não suportava o isolamento das massas, "ficar ouvindo o dia inteiro papo sobre assuntos militares".

Iniciei 1970 no Rio de Janeiro, novamente designado para criar e comandar um serviço de Inteligência integrado por aliados e simpatizantes. Era um momento em que tinha até receio de abrir o jornal a cada manhã, pois eram cada vez mais frequentes as notícias de quedas e mortes de companheiros que eu conhecia pessoalmente.  

Organicamente ligado apenas a dois comandantes nacionais e a dois comandantes de unidades de combate. aos quais municiava com informações e análises, tinha uma visão bem clara de que nossa luta estava nos estertores: ou conseguiríamos virar o jogo com o lançamento da coluna móvel estratégica, ou definharíamos aos poucos. 

E chegou a mim uma mensagem familiar: um tio rico estava disposto a bancar a minha fuga para algum país da América do Sul ou Europa. 

Pensei um pouco no assunto e conclui que, ficando no Brasil, apostaria num fio de esperança e possibilidade muito maior seria a de acabar preso, torturado, morto. Não tinha ilusões quanto a isto.

Se partisse, minha utilidade para a revolução seria praticamente nenhuma. Como já queimara as pontes com a sociedade burguesa, eu alhures me tornaria um estranho numa terra estranha, perdendo inclusive a auto-estima.

Decidi ficar, até a improvável vitória ou até o mais amargo fim. (por Celso Lungaretti)    

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