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sábado, 1 de março de 2025

UMA CONSTATAÇÃO DO RUI MARTINS: OS GRUPOS EVANGÉLICOS REPETEM A FORMA COMO O 'PARTIDÃO' MOBILIZAVA O POVO.

Nostalgia 1: exposição sobre o legado
comunista realizada há 3,5 anos em Berlim.
rui martins
AS CÉLULAS COMUNISTAS
E AS IGREJAS EVANGÉLICAS
Seria possível fazer observações paralelas entre realidades distantes, como o comportamento dos eleitores da antiga República Democrática Alemã (a Alemanha Oriental, comunista), atraídos pela extrema-direita, com o crescente alinhamento das camadas populares de antigas áreas urbanas e industriais brasileiras às propostas da extrema-direita, calcadas numa linguagem fundamentalista de fundo religioso?

O que nos atrai nessa ´possível comparação são certas semelhanças entre a população da então Alemanha Oriental com o imaginário político do proletariado das regiões urbanas brasileiras.

De acordo com uma sondagem feita na antiga RDA e publicada em 2009, um quinto da população era nostálgico dos tempos do Muro de Berlim com seu regime stalinista. Para eles, a região tinha sido uma espécie de paraíso social, onde havia emprego e moradia para todos.

Vivendo em crise econômica, os alemães do Leste esqueciam as privações de liberdade, os pequenos salários, as dificuldades de viajar para fora do país, a censura, a polícia Stasi e outras tantas.
Nostalgia 2: o pesadelo nazista ressurgindo na Alemaha. 

N
outra pesquisa desse mesmo ano, publicada pelo jornal Der Spiegel, 57% dos alemães do Leste não hesitavam em defender o antigo regime de partido único.

Mas, 16 anos depois, conforme o resultado das recentes eleições legislativas demonstrou, as boas lembranças se esvaíram  os alemães orientais não aceitam as desvantagens ainda existentes numa comparação com a Alemanha Ocidental.

E já reencontraram, como no passado, os responsáveis: são os imigrantes. E o partido ultradireitista Alternativa Para a Alemanha, que dobrou o número de votos e ultrapassou os 30% na antiga RDA, tem a solução: a remigração, ou a expulsão de todos os imigrantes.

Alice Weibel, a dirigente do AfD, partido também qualificado como neonazista, rejeita qualquer sanção contra a Rússia, nega a mudança climática, quer a saída da zona do euro e da União Europeia, defende a família tradicional e os sexos masculino e feminino como modelos. 

Seu slogan, populista e nacionalista, Tudo pela Alemanha, vai na linha dos adotados pela pelos neonazistas nos EUA e no Brasil. Elon Musk, próximo do presidente Donald Trump, fez campanha eleitoral para Alice Weibel e utilizou também a plataforma X para isso.
A ditadura militar impôs a perda da autonomia da
rebelde cidade de Santos, só restituída em 1984
.

Qual a semelhança com a evolução da política nacional?

Talvez a nova geração não saiba e os mais idosos tenham esquecido, mas as ideias marxistas fizeram seu caminho no fim dos anos 1930 e, nas primeiras eleições depois da ditadura de Vargas. Em 1945, o velho partidão teve candidato próprio para presidente, Iedo Fiúza, que recebeu 10% dos votos. 

O candidato mais votado para o Senado foi Luiz Carlos Prestes e o PCB elegeu 14 deputados federais. Com o partido na legalidade, concorreram nas eleições intelectuais e artistas de prestígio como Jorge Amado, Graciliano Ramos, Caio Prado Júnior, Candido Portinari, Mario Schemberg e Di Cavalcanti. Em 1947, o PCB foi declarado ilegal e os eleitos tiveram seus mandatos cassados.

O mais grave foi a repressão policial, fechando as células do partido em todo país. O PCB era forte na portuária Santos (chamada de Cidade Vermelha), com maioria eleita na Câmara; e nos municípios do ABC e na capital paulista, em fase de industrialização e com expressiva população operária.

Embora mantendo influência nos meios universitários, entre intelectuais e artistas, a proibição e perseguição do partido impediu uma popularização e influência política, embora despontassem alguns líderes carismáticos de esquerda.
Lula com o ex-presidente português Mário Soares: o PT
nasceu sob forte influência da Social-Democracia europeia

Até o surgimento do Partido dos Trabalhadores com Lula como figura de proa, criando um populismo ou militantismo reformista, na linha da Social-Democracia europeia, pugnando pelas conquistas sociais atingíveis dentro do capitalismo, na sequência das criadas por Vargas.

Em 1947, o movimento social e político comunista era extremamente ativo e crescia nas camadas populares com as células que promoviam cursos e reuniões políticas, e também festejos em espaços abertos com participação de jovens e crianças, numa espécie de grandes reuniões populares de famílias. 

Eu me lembro dessas festas no Morro de São Bento, na cidade de Santos, para onde me levava meu pai. Esses tipos de encontros populares desapareceram. Nem o PT conseguiu refazê-los com a mesma constância, criando vínculos entre as pessoas e as famílias.

Até chegarem os evangélicos com suas congregações e igrejas, seus cultos, reuniões de jovens, mulheres, escolas dominicais, uniões de mocidade e festas preparadas por seus pastores e fiéis. Na verdade, revivem as células do partido comunista, que permitiam sociabilidade, fortaleciam as amizades e se multiplicavam.
Heresia: evangélicos sorridentes, condescendendo com
a exaltação das armas na Marcha para Jesus de 2019.
 
O formato se assemelha bastante, com ligeiras variações, mas o conteúdo é muito diferente, com a religião como fator agregador e a política como objetivo, servindo como propagador do credo fundamentalista, próximo da extrema-direita.

Nem as redes sociais conseguem o mesmo resultado porque essas células garantem o contato humano direto e se tornam imbatíveis.

Qualquer semelhança entre essas duas realidades, alemã e brasileira, pode  ser mera coincidência. (por Rui Martins)

domingo, 31 de março de 2024

60 ANOS DO GOLPE, A ESQUERDA PERDEU SEM LUTAR. REPETIREMOS A HISTÓRIA?

 

Dispenso-me de entrar nos detalhes sobre a inação generalizada. Nenhuma das lideranças operárias e nacionalistas mostrou audácia e iniciativa de luta. Todos ficaram à espera do comando do Presidente da República. Fracassaram não só os comunistas, mas também Brizola, Arraes, Julião e os generais nacionalistas. Jango não quis a luta, receoso de que a direção política lhe escapasse e se transferisse às correntes de esquerda. Colocou a ordem burguesa acima de sua condição política pessoal. Assim se deu a quarta e última queda da liderança populista. 

No dia 31 de março, a situação não era ainda favorável aos golpistas do ponto de vista estritamente militar. Teria sido possível paralisar o golpe se, ao menos, alguma ação viável de contra-ofensiva imediata fosse empreendida. Sabe-se que Lacerda só contava cm defesa muito precária no Palácio Guanabara. A tomada do Palácio pelos fuzileiros navais seria operação relativamente rápida e de enorme repercussão moral. O mesmo efeito de paralisia teria a dispersão dos recrutas, que desciam de Minas, por uma esquadrilha de aviões de bombardeio. A força-tarefa naval dos Estados Unidos, mobilizada no Caribe pela operação chamada Brother Sam, não alcançaria Santos antes do dia 11 de abril. Não trazia contingentes de desembarque e seu objetivo era o do efeito de demonstração e o de apoio aos insurretos com armas, munições e combustível, na previsão de guerra civil prolongada. Já envolvidos na escalada da guerra do Vietnã, não seria fácil aos Estados Unidos manter uma segunda frente no Brasil. Havia tempo para preparar condigna recepção de repúdio à força-tarefa norte-americana, tanto do ponto de vista militar como da mobilização das massas populares. 

Ao colocar suas fichas em Jango, a esquerda
apostou no cavalo errado e o fim foi trágico

Tornou-se corrente na literatura acadêmica a assertiva de que, no pré-64, inexistiu verdadeira ameaça à classe dominante brasileira e ao imperialismo. Os golpistas teriam usado a ameaça apenas aparente como pretexto a fim de implantar um governo forte e modernizador. 

A meu ver, trata-se de conclusão positivista superficial derivada de visão estática das coisas. Segundo penso, o período de 1960-1964 marca o ponto mais alto das lutas dos trabalhadores brasileiros neste século [20], até agora. O auge da luta de classes, em que se pôs em xeque a estabilidade institucional da ordem burguesa do direito de propriedade e da força coercitiva do Estado. Nos primeiros meses de 1964, esboçou-se uma situação pré-revolucionária e o golpe direitista se definiu, por isso mesmo, pelo caráter contra-revolucionário preventivo. A classe dominante e o imperialismo tinham sobradas razões para agir antes que o caldo entornasse. 

A hegemonia da liderança nacionalista burguesa, a falta de unidade entre as várias correntes, a competição entre chefias personalistas, as insuficiências organizativas, os erros desastrosos acumulados, as ilusões reboquistas e as incontinências retóricas - tudo isso em conjunto explica o fracasso da esquerda. Houve a possibilidade de vencer, mas foi perdida. 

Gorender
Mais grave é que foi perdida de maneira desmoralizante. Com a definição incontestável no dia 1º de abril, já no dia 3 a operação Brother Sam era desativada no Caribe. Os generais triunfantes proclamaram que o Ocidente ganhou no Brasil formidável vitória a baixíssimo custo. (Jacob Gorender, historiador e antigo membro do PCB)

A passagem acima consta do livro "Combate nas Trevas", escrita por Jacob Gorender e publicado em 1987, logo após o fim da ditadura, portanto. Trouxe a citação para lembrar de duas coisas que pouco se abordam quando se fala no golpe militar de 1964: as contradições de João Goulart e o equívoco da esquerda. 

Na realidade, as duas coisas estão juntas, pois o equívoco da esquerda, particularmente do PCB, a levou a colocar suas fichas em João Goulart, praticamente o transformando na liderança principal dos movimentos populares que pipocavam país afora à época. Jango, contudo, não tinha nenhum plano de levar adiante uma revolução, antes buscava consolidar seu poder pessoal, tendo passado praticamente todo o triênio 1961-64 tentando o apoio de forças conservadoras e balançando ora à esquerda, ora à direita, se decidindo por um aceno maior à esquerda apenas quando as portas à direita foram decisivamente fechadas. 

A crença da esquerda na institucionalidade, personalizada no presidente, fez com que ela fosse pega de surpresa quando os golpistas se colocaram em marcha. Mesmo com um poderio reduzido, o golpe pode avançar triunfante pois não houve resistência digna desse nome e o presidente preferiu a capitulação, soltando sua patética frase de que "não desejava uma guerra civil no Brasil". 

Os golpistas poderiam ter sido derrotados,
mas faltou organização para resistir

Na verdade, os acontecimentos do pré-64 e do golpe revelam não apenas o comportamento da esquerda brasileira no período, mas também uma constante em sua história: a acomodação com forças conservadoras visando soluções institucionais para as crises. Sempre quando as classes trabalhadoras avançam no possível caminho da ruptura, a esquerda entra em cena para restabelecer o velho pacto de conciliação.

Os resultados são as soluções conservadoras para as crises brasileiras, como exemplificado no processo do fim da ditadura, com as massivas greves, e os levantes de Junho de 2013. Na primeira, as mobilizações dos trabalhadores terminaram na farsesca Diretas Já, na eleição indireta e finalmente na Constituinte, dando a luz a uma democracia capenga e limitada. Junho de 2013, por sua vez, foi equacionada no Impeachment e na eleição de Lula 3 em aliança com as forças do atraso. 

O futuro vai repetir o passado?
A única exceção ao comportamento da esquerda parecem ter sido as guerrilhas que não aceitaram qualquer tipo de atitude conciliatória e colocaram o caminho revolucionário de forma inequívoca. Tragicamente, ficaram isoladas do conjunto da população no contexto do milagre econômico, induzido pela ditadura justamente para enfraquecer as oposições ao regime. 

Hoje assistimos de novo a esquerda acreditar nos dispositivos institucionais, na fé legalista das Forças Armadas e no presidente da república, enquanto Lula vai ampliando seu pacto conservador, fortalecendo as forças direitistas e esvaziando a esquerda. Tomara que dessa vez os erros não tenham o mesmo final trágico. (por David Emanuel Coelho) 




domingo, 31 de dezembro de 2023

O DILEMA QUE A ESQUERDA TERÁ DE ENFRENTAR EM 2024 É O MESMO DE 1965: O DERRETIMENTO DE SUA FORÇA HEGEMÔNICA.

Já foi tarde o ano de 2023. E não exatamente por causa do futebol, apesar de toda vergonha que a CBF nos fez passar. Na política o desempenho foi pior ainda. 

Depois do pesadelo imposto ao Brasil durante o quadriênio do genocida alucinado, era óbvio que o Lula 3 marcaria pontos fáceis desfazendo algumas das abominações cometidas pelo antecessor. Moleza.

No entanto, até mesmo para quem não esperava quase nada do reformista fantasiado de esquerdista, seu desempenho na volta ao poder foi constrangedor. 

Deus e o mundo sabiam que seria difícil para o Lula governar com um Congresso que tem maioria reacionária, mas o inaceitável é ele não haver pensado em maneira nenhuma de obter a aprovação de suas propostas que não a de render-se incondicionalmente ao centrão. 

Na verdade, nem se pode chamá-lo seriamente de presidente: está muito mais para uma rainha da Inglaterra, que entregou às mãos mais crapulosas do país as grandes decisões do seu governo. Até a Caixa Econômica Federal passou ao controle dos Irmãos Metralha...

Suas indicações para a PGR e para o STF foram um acinte, com Ricardo Zanin chegando ao ponto de tentar detonar a revisão da vida toda, por meio do qual a União tem de ressarcir TRABALHADORES pelo que foi deles usurpado em governos do século passado.  

E um ano inteiro se passou sem que o pior assassino de brasileiros da nossa História começasse a responder na Justiça pelo rosário de crimes que cometeu, o que parece vir ao encontro do já comentado nos bastidores dos podres Poderes antes mesmo da posse do novo governo: que os poderosos haviam acordado que o palhaço assassino tivesse como única punição a inelegibilidade. 

Já pensaram se o Hitler houvesse sobrevivido à derrota nazista e os aliados se abstivessem de julgá-lo e executá-lo? É o mesmo em miniatura, com a única diferença que o Bozo não poderia receber a pena de morte porque ela não existe no Brasil. 

Mas, no caso dele, qualquer punição inferior a umas dez penas máximas (30 anos de prisão) acumuladas será um atestado de falência das instituições. 

Podemos esperar justiça do Paulo Gonet? Ou continuará correndo para não chegar, a exemplo do Augusto Aras (que tudo fazia para que o problema desaparecesse com o apito final da prescrição)?  

E a sandice nostálgica de mais uma vez o PT tentar exumar o neodesenvolvimentismo de meados do século passado? Foi assim que a Dilma Rousseff teve o pior desempenho econômico de todos os presidentes brasileiros desde a proclamação da República, abrindo caminho para o próprio impeachment, a prisão de Lula e a eleição do fanfarrão amarelão.

E o ultrajante oba-oba com uma pequena elevação do PIB que apenas escancarou a estratosférica desigualdade brasileira, pois a agora nona economia mundial ocupa um vergonhoso 87º lugar no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano?  

E a ridícula pretensão de Lula, que insiste em mediar guerras e grandes problemas mundiais com o que William Waack apropriadamente qualificou de raciocínio de botequim?

Acima de tudo,  está a escancarada direitização do Lula no terceiro mandato, dando até a impressão de que ao longo do atual governo (se conseguir levá-lo até o fim, o que é no mínimo uma incógnita), descartará de vez o PT para abrigar-se sob algum guarda-chuva de direita...

Se a esquerda não quiser tornar-se irrelevante no Brasil, tem de começar em 2024 a dissociar-se de um presidente que visivelmente não a representa e emite contínuos sinais de que tem por ela verdadeira ojeriza. 

Em 1965, passada a estupefação com a facilidade encontrada pela direita para aplicar seu golpe de estado, a esquerda iniciou um profundo processo de crítica e autocrítica, ao cabo do qual o PCB tinha merecidamente sido desalojado de sua condição de força hegemônica. 

Em 2024 terá de agir da mesmíssima maneira com o PT... ou há de avacalhar-se em definitivo. Não existe meio termo possível. (por Celso Lungaretti)

quarta-feira, 17 de maio de 2023

LIVRO DE JOSÉ CHASIN É RELANÇADO EM BELO HORIZONTE. RETOMAR O CAMINHO DA REVOLUÇÃO É HOJE MAIS FUNDAMENTAL DO QUE NUNCA.

 

Realizou-se nessa terça-feira, 16/05, na Faculdade de Direito da UFMG - Universidade Federal de Minas Gerais - o lançamento do livro O Futuro Ausente, do marxista José Chasin, que pode ser baixado gratuitamente nesse link. 

Na realidade, o texto foi escrito há trinta anos na esteira da falência da URSS e do fiasco da transição democrática no Brasil com a eleição de Collor e o naufrágio da dita nova esquerda, com o PT à frente. Contudo, quando se lê o texto revela-se mais atual que a maioria esmagadora do que é escrito hoje em dia em nome do marxismo ou da esquerda em geral. Suas análises e problemas continuam na ordem do dia e não é possível refletir sobre os problemas e desafios da esquerda sem necessariamente passar por essa obra. 

Chasin é formado em filosofia pela USP, tendo sido ativo no movimento estudantil no período pré-1964. Fez parte à época do PCB - Partido Comunista Brasileiro - dentro do qual fez forte oposição às perspectivas teóricas e práticas do partido, sobretudo em sua ideia de apoiar uma suposta revolução burguesa no Brasil, posição com fundamental responsabilidade, como se sabe, pelo fiasco da esquerda em se opor ao golpe militar. Após a instalação da ditadura, perseguido pelo regime, não encontrou oportunidades para lecionar, tendo de ir para empregos comuns no setor privado, assim ficando até meados da década de 1970, quando consegue posto de professor na Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fesp-SP).

Ali, bastante fora do radar da repressão - que se concentrava na USP- desenvolve forte movimento de debate intelectual das obras de Marx, questionando as leituras simplistas da esquerda dominante e introduzindo outros marxistas, notadamente Lukács. Logo, porém, o regime também se atenta à dinâmica que lá se passava graças à ação de Vicente Unzer de Almeida, então professor da Fesp, alto executivo da Mercedes-Benz e colaborador da ditadura, além do apoio de professores da esquerda descontentes com as críticas desenvolvidas por Chasin. Diante desse movimento, acaba sendo demitido em 1976 com base no Ato Institucional nº 5 e no Decreto-Lei 477.

Mesa de lançamento do livro. Da esquerda para a direita: Vitor Sartori,
Sabina Silva, Vânia Noeli e Ester Vaisman. 
Voltou assim à condição de aperto financeiro, vivendo de cursos livres e aulas particulares. Sem opções no país, embarca em 1978 para Moçambique, para estruturar o ensino universitário naquele país. Acaba voltando de lá em 1980, após a Lei da Anistia, para trabalhar na Paraíba, logo porém também sendo perseguido pelas forças mais reacionárias do estado. Por fim, se estabelece em Belo Horizonte, dando aula de filosofia na UFMG até seu falecimento em 1998.

Nesse meio tempo entre sua volta de Moçambique e seu falecimento, foi responsável pelo surgimento do movimento Ensaio, editora que publicou diversas traduções importantes do pensamento marxista e uma importante revista para o debate intelectual entre várias vertentes da esquerda nacional. Por lá escreveram e debateram Florestan Fernandes, Paulo Freire, Ricardo Antunes, Antônio Cândido, Sérgio Lessa, entre outros. 

Na realidade, eu nunca tive aulas com José Chasin, mesmo tendo estudado no mesmo departamento onde deu aulas, e isso porque minha entrada na universidade ocorreu 8 anos após sua morte. Fui apresentado ao filósofo através de sua viúva, Ester Vaisman, a quem devo muito de minha formação marxista. Antes de tomar contato com suas obras, eu já tinha uma posição revolucionária, mas de forma alguma uma formação marxista adequada, tendo sido apenas com a leitura de seus textos que consegui chegar a um nível de rigor teórico e prático adequado.

Chasin me apresentou um marxismo além do lugar comum ou dos chavões partidários e militantes, fazendo-me compreender o papel determinante da teoria e a necessidade imperiosa de articular essa teoria com o entendimento do mundo concreto, do desdobramento histórico. Também me ensinou a não ter ilusões com a política tradicional e os partidos da dita esquerda, estando a única alternativa possível na emancipação humana total e completa. 

Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG,
meu local de formação universitária e último espaço de
trabalho de José Chasin. 
Quando escreveu seu texto, há trinta anos, Chasin se desamparava diante de um cenário de terra arrasada. O fracasso histórico da União Soviética tornava acéfalo por completo os partidos e movimentos revolucionários ao redor do mundo, ao mesmo tempo que mantinha o chamado por ele de cadáveres insepultos, estalinistas saudosos desse mesmo regime falecido. Em paralelo, a nova esquerda rejeitava o marxismo e embarcava em análises do mundo capitalista sem qualquer rigor teórico, não tardando muito para nadarem na corrente neoliberal. Já à época ele dizia que o Império do Nada passava a presidir - se referindo a Collor - trazendo a primeiro plano todos os preconceitos e tendências conservadoras, com a morte da revolução. Mal sabia ele o quanto as coisas piorariam muito décadas após sua morte. 

Na realidade, quando se lê seus textos entre as décadas de 1980-90 é notável o quanto ele viu com clareza o desenvolvimento histórico mundial e particularmente do Brasil, antecipando em muito fenômenos que viriam a ocorrer apenas na época atual. Significativo, por exemplo foi seu prognóstico do fiasco de PT e PSDB - devemos recordar que, na década de 1990, os tucanos eram considerados de esquerda... - e sobretudo o quanto Lula, ou melhor, Luís Inácio, era um político medíocre  com profundo peso reacionário. 

Vinte e cinco anos após sua morte, é preciso reconhecer o quanto seu pensamento segue vivo e necessário. Se quisermos trabalhar por um futuro que não seja ausente, José Chasin é um dos autores fundamentais para esse processo. (por David Emanuel Coelho) 

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

ANTES SÓ CONSERVADOR, O LULOPETISMO AGORA É CONTRARREVOLUCIONÁRIO

david emanuel coelho
A IMPOTÊNCIA DA ESQUERDA BRASILEIRA
José Chasin, importante filósofo marxista brasileiro, dizia, pouco após a queda da URSS, que a esquerda estava "morta em sua teoria e em sua prática". 

Décadas se passaram desde então, sem que houvesse completa aceitação de tal  veredito. 

Há muito engano sobre vitórias eleitorais e crescimentos de bancada, que, ao fim, não representam absolutamente nada. No entanto, os rumos das ações da autoproclamada esquerda, suas concepções e sua inserção social, constantemente comprovam  a justeza da afirmação do célebre intelectual. 

No entanto, existe outro elemento importante a ser considerado na condição da esquerda brasileira, talvez associado à sua própria morte: a impotência. 

A esquerda não possui força própria para absolutamente nada, tanto que precisou se subordinar ao personalismo saudosista de Lula para poder sobrepujar Jair Bolsonaro. Pois o que derrotou o genocida eleitoralmente não foi nenhuma mobilização popular ou ações organizadas de conscientização, mas sim as reminiscências da belle époque do começo do século, contraposta, à vida dura e sofrida de sua segunda década. Não foi a política, foi a saudade.
Por isso, inclusive, a campanha eleitoral de 2022 foi a mais despolitizada da história, não tendo qualquer tipo de discussão relevante ou mobilização digna de nota. Foi a campanha dos baixos instintos, do irracionalismo, da ignorância e do vazio. Votou-se não para optar por alguém, mas para impedir que o poder acabasse nas mãos do adversário. 

Uma campanha negativa, portanto, na qual inexistiram proposições, até porque o essencial não estava em debate. Ganhasse quem fosse, a política econômica e o modelo de sociedade permaneceriam essencialmente os mesmos: o capitalismo periférico, subordinado, de matriz neoextrativista, permaneceria intocado, apenas mudando o chantilly que cobre a grande merda, se progressista ou fascistoide.  

E onde estava na esquerda nisto tudo? Basicamente, ela se dividiu em dois grupos, os que se curvaram desde o 1º turno e os que vieram a se curvar apenas no 2º, fingindo-se de autônomos na fase inicial. 

No primeiro grupo, o exemplo mais notório é do Psol. Como a história de rendição do psolismo já foi por mim narrada neste outro artigo, não preciso retomar o assunto aqui. O partido, no entanto, teve o mérito de não esconder o jogo, embarcando desde a largada no bonde lulista. 

O segundo grupo foi mais dissimulado. Fingiu independência no início, até mesmo criticando o lulismo, para no final render-se incondicionalmente. 
"O Psol teve o mérito de não esconder o jogo,
embarcando no bonde petista desde o início"
Neste estão inclusos PSTU, PCB e UP, além de uma miríade de outros grupelhos. Abandonando a autoproclamação, onde falam para si mesmos e parecem acreditar que estão na vanguarda de alguma coisa, foram para os braços do liberalismo vencedor.

Passada a eleição, pateticamente, grande parte desta esquerda passou a fazer as vezes de consciência crítica do PT, lançando alertas para os possíveis erros do lulopetismo, como se de fato Lula e sua gangue estivessem equivocando-se e não simplesmente seguindo o seu próprio projeto de poder, que jamais foi outro que não o de administrar o capitalismo e enriquecer-se sob ele. 

Parecem ainda acreditar que o PT e o futuro presidente insiram-se na esquerda e tenham algum compromisso com qualquer forma de transformação, quando, na realidade, o lulopetismo não é hoje sequer uma força conservadora, mas sim abertamente contrarrevolucionária. Marcha desde 2013 na contramão das massas insurrectas. 

A esquerda, inclusive, rejeita a ação destas massas pelo óbvio motivo de ser por elas rechaçada. Presa em concepções esquemáticas, fazendo uma interpretação oscilante entre o puro stalinismo e o impressionismo barato, se perde no curso da história, tendo de prostrar-se à hegemonia lulista para ter o mínimo de efetividade. 

A inoperância da esquerda abre livre curso de ação à extrema-direita que é a grande mobilizadoraatual  das ações das massas. Momentaneamente derrotada nas urnas, permanece com força social e com agitações nas ruas, fazendo uma crítica radical às atuais condições sociais e propondo uma transformação completa do país. 

A extrema-direita age apesar de Bolsonaro, pois sua relação com o futuro ex-presidente é de criador para criatura e não o contrário. O capitão foi elevado pelas massas reacionárias, mas ele jamais conseguiu as domar completamente, tendo inclusive havido uma pluralidade de lideranças entre elas – Aécio, Moro, Cunha, para citar alguns. Ao contrário da esquerda que foi liquidada por Lula e passou a ser completamente dependente deste. 

Este é inclusive um trunfo para as forças reacionárias, pois independem de um nome, agindo muito mais por ideias do que por personalidades. Força deles e fraqueza da esquerda, atrelada por demais ao destino de um indivíduo historicamente superado e sem qualquer tipo de compromisso com nada a não ser ele mesmo. 

A impotência da esquerda é, portanto, a força da extrema-direita e prenuncia um futuro terrível, do qual muitos sequer conseguem ter clareza, neste momento de deslumbramento com a vitória eleitoral. (por David Emanuel Coelho)

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

OS COMPANHEIROS DOS ANOS SOMBRIOS

O dia começa com notícias previsíveis, bem ao estilo da canção Domingou do Gilberto Gil: "O jornal de manhã chega cedo, / mas não traz o que eu quero saber. / As notícias que leio, conheço, / já sabia antes mesmo de ler".  

Ocorreu-me, então, disponibilizar novamente no blog um filme que mostra bem como eram os militantes marxistas emblemáticos do passado.
 
Trata-se de Os companheiros (1963), de Mario Monicelli, com Marcello Mastroianni no papel de um revolucionário profissional, professor por formação, que chega para ajudar os operários de uma tecelagem de Turim a realizarem sua primeira greve contra a exploração extrema que sofriam no final do século retrasado. 

Afora pelo tema em si, identifiquei-me muito com ele porque, na década de 1960, conheci bem a fábrica no qual meu pai trabalhou durante a vida inteira (o Cotonifício Crespi, um dos primeiros marcos da industrialização de São Paulo, no bairro paulistano da Mooca) e era praticamente idêntico ao mostrado no filme: enorme, mal iluminado, mal ventilado, com uma poeira sufocante que me fazia tossir instantaneamente. 
Cheguei até a fazer um
bico no Crespi, indo todo final de mês somar, com uma calculadora tão primitiva que nem elétrica era, as horas extras dos trabalhadores, para o fechamento das folhas de pagamento.

Ao assistir a Os companheiros, logo me ocorreu que era enorme o atraso brasileiro, a ponto de nossas indústrias se parecerem tanto com as da Europa de quase sete décadas antes.

Outra lembrança marcante é a de que, quando nossa Frente Estudantil Secundarista começou a pegar no breu em 1968, negociei com o cinema de arte Bijou (na praça Roosevelt, centro de São Paulo) a realização de sessões de Os companheiros nas manhãs de domingo. Exibíamos o filme para os jovens recrutas e promovíamos rápidos debates no final, como parte do programa de conscientização política.

Vendo tantas vezes o filme naquele tempo em que dava os primeiros passos na trajetória revolucionária, o professor Siniglaia ficou sendo para mim, como para muitos jovens militantes de então, o exemplo no qual nos espelhávamos.
E, como diz aquele velho lugar comum (cuidado com o que você deseja, pode se tornar realidade), acabaria mesmo andando incógnito daqui pra lá na perseguição do meu sonho, sendo abrigado pela companheirada de cada lugar, passando sustos e privações, olhando do lado de fora de estabelecimentos chiques as iguarias que não tinha como pagar, até chegar no fim da linha, as prisões (que, nos nossos anos de chumbo, eram bem piores do que aquelas que esperavam o Siniglaia). 

Hoje percebo quanta falta fazem aqueles ativistas da velha guarda, para quem a militância significava a disposição para sujeitarem-se a todos os sacrifícios e não a promessa de empregos muito bem remunerados e outras boquinhas no setor público.

Por mais que se queira pensar o contrário, forças políticas que profissionalizam seus quadros à custa das posições por elas conquistadas no executivo e no legislativo acabam necessitando de vitórias eleitorais para sustentar e aumentar suas esferas de influência. 

Tornam-se dependentes das eleições, tanto quanto os viciados não passam sem suas drogas. E, sem querer, perdem de vista o objetivo maior de substituirmos a institucionalidade burguesa por outra que não implique a perpetuação da exploração do homem pelo homem.

Os dois partidos que por mais tempo se mantiveram como forças dominantes na esquerda brasileira, o PCB e o PT, caíram nessa armadilha. 

Carecemos hoje (e muito!) de uma vanguarda formada por Siniglaias e não por gente que perde o emprego se o seu partido perder a eleição seguinte. 

Pois tal situação implica, mesmo que imperceptivelmente, a perda da independência política. (por Celso Lungaretti)

terça-feira, 20 de setembro de 2022

SOBRE ELEIÇÕES, DECEPÇÕES, MICOS E VOLTAS POR CIMA

Ao lutarmos com grande inferioridade de força... 
O
companheiro Dalton Rosado não é de lançar indiretas e, conhecendo-o como eu o conheço, sei que  realmente o constrange a lembrança de haver disputado uma eleição para prefeito de Fortaleza em 1988.

Então, a decisão de comentar agora a minha participação na eleição para vereador paulistano em 2012 não se deveu, de forma nenhuma, a porventura ter-me sentido atingido pela afirmação do Dalton, de que considera aquele episódio uma mancha no seu currículo. Longe disto. Percebi claramente que ele estava aludindo apenas a si próprio.  

Contudo, ao levantar o assunto, o Dalton deu-me o que nós, jornalistas, chamamos de gancho para passar a limpo o episódio que me diz respeito.

O fato é que eu me deixei empolgar pela receptividade e pelos resultados do meu trabalho como principal defensor nas redes sociais do companheiro Cesare Battisti. Era um jornalista experiente vocalizando as versões do comitê de solidariedade e, como tal, conseguia responder rapidamente aos ataques da imprensa burguesa e travar batalhas contra vários jornalões e revistonas ao mesmo tempo.

Entre o final de 2008 (quando o caso esquentou com a decisão do Conare de não conceder-lhe o status de refugiado político) e o primeiro semestre de 2011  (em cujo dia 9 de junho o libertaram), foram cerca de 250 textos diferentes que eu produzi em favor do Cesare, rebatendo as falácias dos partidários de sua extradição, exigida com toda a arrogância do mundo pela Itália.
...não podemos abrir mão de
todas oportunidades táticas...
 

Afora a profusão de páginas virtuais que reproduziam parcial ou totalmente meus artigos, entusiasmou-me a atitude de jornalistas da grande imprensa que me confiavam informações de bastidores valiosíssimas para o direcionamento da atuação do comitê de solidariedade. Naquelas condições de extrema inferioridade de forças, só poderíamos vencer se os inimigos errassem muito e nós acertássemos o tempo todo. E foi o que aconteceu.

Quando o Psol, logo depois, me convidou para ingressar nas suas fileiras e concorrer à vereança em São Paulo, vislumbrei uma possibilidade de repetir quase o mesmo tipo de atuação: se eleito, incumbiria os dez funcionários (que cada vereador tem o direito de contratar às expensas da Câmara) de uma única missão: investigar escândalos dos governos municipal e estadual. 

Os jornalistas apoiadores talvez continuassem me passando dicas importantes. E outros colegas da imprensa poderiam noticiar e aprofundar as denúncias que eu fosse apresentando na tribuna da Câmara. Ou seja, o mandato seria para mim uma nova frente de batalha e eu passaria longe dos esforços dos vereadores por profissão, no sentido de agradarem eleitores e eternizarem-se no cargo.

O que deu errado? A minha ingenuidade em supor que a esquerda da década passada ainda fosse a mesma que antes elegia não os candidatos que mais atraíssem votos, mas sim os que pudessem fazer mais pelo partido no combate incessante à direita e ao capitalismo. Esta era a tradição do velho PCB, por exemplo.

Antes da desmoralização por não oferecer resistência digna deste nome ao golpe de 1964, a postura adotada no partidão era a de os militantes, aliados e simpatizantes votarem em quem o partido determinava, pois sua prioridade era ter como representantes no executivo ou legislativo quadros à altura do papel que lhes caberia desempenhar, tanto em termos de formação política quanto de combatividade. 
...desde que tenhamos clareza quanto a quem realmente
somos e quais são nossos inimigos inconciliáveis...
  

Mas, não havia tal despojamento e espírito de sacrifício no Psol, tanto que uma tendência de âmbito federal e sua adversária municipal travavam uma verdadeira briga de foice no escuro para que fosse um dos seus quadros o único vereador que o partido conseguiria eleger. Quanto apego aos nacos de poder!

Eu, que sempre detestei as disputas por  poder entre companheiros do mesmo partido e que só me sentia verdadeiramente revolucionário quando enfrentava o inimigo de classe,  fiquei como peixe fora d'água, amaldiçoando-me por não ter previsto que promessas seriam descumpridas e decisões inaceitáveis tomadas em função do emocionalismo despertado pela rinha entre tendências. 

Contara ser apoiado e acabei é sendo boicotado, assim como outros companheiros que tinham chances de obter votações expressivas, pois convinha à minha tendência concentrar o máximo de votos naquele candidato no qual resolvera apostar suas fichas, a fim de que superasse o favorecido pela direção nacional.

Mas, não me senti envergonhado de receber apenas 355 votos, nem por, já sexagenário, haver tido um acesso de voluntarismo. Afinal, todas as lutas que travei na vida foram desiguais, os inimigos de classe sempre dispuseram de mais gente e mais recursos, e mesmo assim algumas terminaram em vitórias simplesmente porque eu e companheiros abnegados não desistimos e fomos procurar brechas nas imponentes muralhas contra nós erguidas.  

Esta é a realidade de quem combate o capitalismo nestes tristes tempos presentes. Para compensar a falta de tantos outros trunfos, precisamos improvisar o tempo todo e aproveitar da melhor maneira possível os espaços que a democracia burguesa é obrigada a nos conceder para manter sua imagem de neutralidade. 
...pois com os serviçais históricos da
burguesia não há acordo possível! 
Temos como desafio trilhar os atalhos que vislumbramos, mas sem nos perdermos na floresta, para que assim possamos retomar adiante o caminho que conduz às nossas principais metas. No caso da participação no executivo ou no legislativo, utilizá-las para acumulação de forças e maior difusão de nossos valores é aceitável, desde que em nenhum momento as consideremos um fim em si. 

Para um verdadeiro revolucionário, não passam de opções táticas como tantas outras. O objetivo estratégico é a tomada de poder para damos fim à exploração do homem pelo homem e à priorização do lucro em detrimento das necessidades e das melhores aspirações humanas. 

Ser presidente da república, no desenho institucional da democracia burguesa, significa ser tão somente o serviçal número um do poder econômico. Pode ter alguma utilidade, mas nem de longe é nosso ponto de chegada.  

A virtude está no meio, dizia Aristóteles. Eu acrescento que a obsessão pela conquista de uma posição de poder na verdade subalterna, que em si não garante a transição para uma sociedade regida pelo bem comum e pela liberdade plena, está é na beirada do grande sonho acalentado pela humanidade através dos tempos.  

Por último. Num país como o nosso, tão acostumado a refugar na hora de lutar e a chegar entre os últimos da fila aos grandes momentos de afirmação nacional (independência, abolição da escravatura, proclamação da república, fim das ditaduras fascistas do século passado, etc.), talvez seja de maior proveito, ao invés do aristotélico, um lema bem mais em falta. 

O do comandante Lamarca: ousar lutar, ousar vencer. A forma de luta mudou, mas o espírito combativo continua sendo necessário... e muito! (por Celso Lungaretti) 

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

10 ANOS APÓS A MORTE DE SARACENI, UM NOVO DESAFIO ESTÁ NAS RUAS

Paulo César Saraceni morreu em 2012.

Tinha 78 anos e fazia cinema desde 1959.

Em mais de meio século de atividades, dirigiu 13 filmes, nove dos quais também roteirizou.

Foi um dos fundadores do  cinema novo, mas nem de longe fez obras de importância equiparável às dos dois outros parceiros de empreitada: Glauber Rocha (indiscutivelmente, o maior cineasta brasileiro de todos os tempos) e Nelson Pereira dos Santos (bem mais prolífico e realizador de clássicos como Rio 40 Graus e Vidas Secas).

No entanto, Saraceni constituiu-se numa referência muito forte para minha geração, por um único motivo.

Seu O Desafio, lançado em 1965, foi provavelmente a primeira resposta cinematográfica à quartelada.

Enfoca os sentimentos de culpa, impotência e prostração subsequentes à vergonhosa derrota sem luta.

Foi o mal-estar que acometeu toda aquela esquerda: supunha-se a um passo do poder, iludida pelo triunfalismo inconsequente do Partido Comunista Brasileiro e seu principal dirigente (Luiz Carlos Prestes), mas acordou ouvindo marchas militares no famigerado 1º de abril de 1964.

E dá-lhe más ressacas! E dá-lhe lavagens de roupa suja! E dá-lhe lutas internas no partidão! E dá-lhe rachas!

Em 1965, a esquerda lambia as feridas e se reconfigurava, voltada para dentro de si mesma. Não reagia.

Aí, foi lançado
O Desafio. E –juro!– o título apareceu pichado nos muros de São Paulo. Só o título, com a tinta escorrendo. Eu tinha 14 anos, via aquilo e nada entendia. Ignorava que fosse uma mensagem vinda das catabumbas: não estamos mortos!

Só em 1967, dando os primeiros passos no movimento estudantil, fui assistir ao filme e compreender o motivo das pichações.

E, francamente, não gostei daquele imenso desencanto que ele flagra, o atoleiro no qual se move Marcelo, o personagem politizado (interpretado pelo Vianninha, de saudosa memória), durante quase todo o tempo.

Mas vibrei com o final, quando ele enfim levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima, decidido a voltar ao bom combate.

Isto ficou apenas sugerido, como se fazia necessário sob o tacão da censura. Depois de um porre com um repulsivo colega de trabalho, vão ao apartamento deste, cuja esposa se despe e se-lhe oferece. Antes que ele tenha qualquer reação, o marido acorda e fita ambos, em meio à sua névoa alcoolica. 

Marcelo empurra a mulher e vai embora, enojado. Desce uma escadaria com expressão resoluta, afaga a cabeça de um menino pobre e se distancia, marchando ao encontro do seu destino.

Tudo isto ao som de um tema da peça Arena conta Zumbi: É um tempo de guerra,  canção que Augusto Boal, Gianfrancesco Guarnieri e Edu Lobo haviam derivado da poesia antológica de Bertolt Brecht, para usar o esmagamento do quilombo de Palmares como metáfora do golpe militar.
Na peça, era a lição que um guerreiro às portas da morte legava aos que viriam depois. Uma sugestão velada também, claro ("Eu sei que é preciso vencer/ Eu sei que é preciso lutar/ Eu sei que é preciso morrer/ Eu sei que é preciso matar"). 

Só que parecia algo meio distante, lá pra frente, pois o momento era de derrocada.

No filme, ficou mais fácil perceber que se tratava do passo seguinte, imediato: um recado de que não só a luta tinha de ser retomada, como assumiria doravante características de guerra.

Foi profético. Houve mesmo a guerra, de consequências trágicas para a esquerda (quantos quadros insubstituíveis foram dizimados!), mas inevitável: ela só reconquistaria o respeito do povo caso se dispusesse a sangrar por seus ideais, como deixara de fazer em 1964.

Muitos dos que não pegaram em armas recriminaram nosso  vanguardismo, nosso imediatismo pequeno-burguês. Segundo eles, só servíramos para acirrar a repressão e fornecer pretextos para o endurecimento do regime.

Omitiram ter sido exatamente sua tibieza em 1964, quando deixaram de travar a luta em condições bem mais favoráveis, que nos obrigou a assumir adiante a missão quase kamikaze de lavar a honra da esquerda, virando a página da desmoralização e restituindo-lhe a credibilidade. 

Resolvi rememorar o desafio de 1965 porque um novo desafio será lançado às forças da intolerância e do retrocesso daqui a três, diante da Faculdade de Direito da USP,  no Largo São Francisco, com a leitura de dois manifestos antigolpe que têm tudo para detonarem as últimas esperanças do presidente delinquente. 

Aqueles que pensam por ele (pois se trata de uma faculdade da qual o Bozo é carente) temem que o ato da 5
ª feira consolide definitivamente a rejeição ao celerado, desencadeando a revoada dos apoiadores comprados por cargos e verbas públicas para a arca de Noé do Lula, na qual cabe tudo, até cobras e lagartos...

Nisto, pelo menos, eles estão certos: tal página, uma das mais vergonhosas da História do Brasil, deverá mesmo começar a ser virada nesta quinta.

Enquanto esperamos, que tal darmos uma olhadinha em O desafio, para irmos entrando no clima? (por Celso Lungaretti) 

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