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quinta-feira, 21 de agosto de 2025

ULTRADIREITISTAS REIVINDICAM O DIREITO À PERNADA E QUEREM AS SUAS MULHERES USANDO CINTOS DE CASTIDADE

rui martins
MULHERES NÃO DEVEM VOTAR
Abusadas as mulheres eram, mas é discutível que 
amos desfrutassem suas súditas na noite de bodas
  
D
ois anos atrás, quando li a distopia do escritor Douglas Kennedy sobre uma secessão nos Estados Unidos em 2045, graças à vitória dos retrógrados numa nova guerra civil, achei um tanto excessivo. 

A história começa com uma atriz de teatro nova-iorquina, trans e judia, sendo queimada viva por haver proferido em cena reflexões consideradas blasfemas sobre Jesus, que estaria morrendo de medo antes de ser crucificado.

Donald Trump já era um possível pesadelo, porém ninguém poderia então imaginar nem um terço do que vem sendo por ele praticado nestes primeiros meses de governo.

Com a eternidade que ainda lhe resta, nada parece impossível em termos de rompimento com a tradição democrática estadunidense. 

Ninguém pode se considerar seguro num país sem garantia por tempo de serviço nem garantia de função, onde ministros, professores, reitores, altos funcionários públicos são demitidos e onde Trump parece empenhado em limpar da história os lados negros da escravidão com uma triagem nas bibliotecas. 

Em breve haverá uma revisão nos programas escolares e já se pode prever censura política nos cenários de filmes e na edição de livros.

Estarei também sendo excessivo como critiquei o escritor Douglas Kennedy? Talvez não, infelizmente.
Os chaveiros torcem para esta moda
voltar: ela os tornaria riquíssimos!
A Idade Média chegou ao fim, entre outros fatores, com a invenção da prensa de Gutenberg, facilitando o acesso ao conhecimento pelos livros e principalmente à livre interpretação dos textos sagrados. Uma importante consequência foi a Reforma acabando com a primazia da Igreja Católica e permitindo a prática independente do culto cristão, sem submissão aos dogmas papais.

Pouco a pouco, o poder religioso de Roma foi se esvaecendo, enquanto o fim do feudalismo, transformações sociais, revoluções e crises econômicas impulsionaram na direção de formas democráticas de governo, até sobrevirem as atuais grandes concentrações econômicas, oligarquias,  convivendo com ditaduras políticas e teocracias.

Isto sem esquecermos das novas tecnologias de comunicação, das high tech geradoras das redes sociais e de novos tipos de comunicações humanas imediatas, tudo conectado à inteligência artificial.

Serão  os albores de um novo mundo e de novas conquistas sociais? Aparentemente não. Ao contrário, esses albores parecem anunciar o advento de tempos piores ainda do que estes que já vividos.
 
Sucessos de livraria na Europa, os livros do escritor italiano Giuliano da Empoli A Hora dos Predadores e Os Engenheiros do Caos também não são obras de premonição, mas tratam da nossa realidade.

Um mundo de populistas da laia do Trump e do Bolsonaro, cuja incompetência e erros se transformam em qualidades para seus eleitores, é o que nos espera, segundo as apresentações desses dois livros.

Porém, eles teriam sido  incapazes de ir mais longe se não fossem apoiados pelos especialistas do Big Data. Pessoas desconhecidas do grande público estão mudando as regras da política que, paradoxalmente, parecem provocar ou ameaçam provocar uma enorme marcha-a-ré nas relações internacionais e sociais do nosso mundo. 
O lar de um homem é mesmo o seu castelo?

Por que essa forte dose de descrença? Vale atentarmos, p. ex., para mais um dos projetos retrôs do governo Trump, anunciados pela imprensa-- o de retirar das mulheres o direito ao voto.  

Num comunicado trocado com pastores evangélicos dos EUA, o ministro da defesa Pete Hegseth mostrou-se favorável ao fim do voto feminino e à sujeição das esposas ao seu marido, ao republicar no X um trecho das entrevistas de pastores evangélicos contra o voto feminino.

Isso no contexto de declarações do pastor Dough Wilson, das Igrejas Reformadas Evangélicas, sobre os EUA existindo num mundo cristão sem mulheres participando das Forças Armadas. 

Para reforçar essas tomadas de posição contra a liberdade e igualdade das mulheres com os homens, outro pastor declarou à CNN que, numa sociedade cristã ideal, o voto seria por família representada pelo marido. 

Com esse tipo de regressão, as estadunidenses evangélicas acabarão perdendo seus direitos e se tornarão como as mulheres iranianas e islâmicas (que podem votar), cidadãs de segunda classe. (por Rui Martins)

segunda-feira, 16 de junho de 2025

SOB FOGO CRUZADO DA EXTREMA-DIREITA E DO POLITICAMENTE CORRETO, O HUMOR DEFINHA E O BRASIL SE TORNA TACITURNO

"
Nunca vi o espetáculo de Leo Lins, mas não importa o que seja. Ninguém pode ser preso por fazer rir. Os canais brasileiros têm medo de ser processados, pagar multas e, agora, até de ter seus contratados presos.

A censura militar talvez tenha sido mais branda do que aquilo que acontece hoje, porque existia o foco no jornalismo, mas Chico Anysio, Jô Soares e Renato Aragão brilharam nessa época. 

Antes disso, no Estado Novo de Getúlio Vargas, havia programas no rádio, como o Lauro Borges & Castro Barbosa. Lauro ia trabalhar com uma malinha, porque já sabia que seria preso, mas ele dormia uma noite na cadeia e era solto no dia seguinte, porque não havia fundamento para manter a prisão —como não há hoje. Mas regredimos."
O depoimento acima é de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o
Boni, que foi diretor da Globo de 1967 a 1997. Ele ainda se lembra dos tempos em que perdia horas de trabalho para negociar com os censores e não vê muita diferença com o cenário atual. Pelo contrário, acredita que a condenação do comediante Leo Lins imporá ainda mais receio. 

Muitos outros profissionais destacados da área de artes, espetáculos e comunicação foram ouvidos por Pedro Martins, diretor-adjunto da Folha Ilustrada, que elaborou uma extensa reportagem sobre a terra arrasada a que foi reduzido o gênero do humor sob os ataques simultâneos da extrema-direita caçadora de bruxas e do politicamente correto cancelador e punitivista. 

Detalhe: esse verdadeiro terrorismo de fanáticos intimida tanto que o Boni foi o único que autorizou a citação do seu nome, os outros só falaram em off.

A reportagem intitula-se Entenda o apagão do humor na TV, com medo de irritar o público à esquerda e à direita e é leitura obrigatória para quem ainda mantém o salutar hábito do pensamento crítico nesta tenebrosa era da polarização ideológica.

O pior, para mim, é que os ultradireitistas sempre foram mesmo tacanhos, apenas se tornaram mais influentes agora. Já a esquerda era ou tentava ser exatamente o contrário e eu não me conformo em vê-la assim descaracterizada, tão beligerante no secundário quanto omissa no fundamental, travando as batalhas erradas e espantando os civilizados que antes atraía. (por Celso Lungaretti) 
"Eu quis cantar minha canção iluminada de sol/ Soltei os panos
sobre os mastros no ar/ Soltei os tigres e os leões nos quintais/
Mas as pessoas na sala de jantar/ São ocupadas em nascer e morrer"

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

NEONAZISMO NO SÉCULO 21?

"Trump quer tomar tudo na mão grande (roubar)"
ricardo kotscho
TRUMP E MUSK, A DUPLA QUE ASSUSTA 
O MUNDO
Apenas três semanas após a posse da dupla Trump e Musk nos Estados Unidos, crescem em todo o mundo comparações, por atos, gestos e palavras, com a ascensão do nazismo de Hitler e Goebbels na Europa nos anos 30 do século passado.

A blitzkrieg deflagrada pelos dois, desde o primeiro dia, contra países de diferentes continentes; o clima e o meio ambiente; a ordem econômica mundial; as instituições e o aparelho governamental estadunidense, revelam mesmo muitas semelhanças com a maior catástrofe humanitária da História moderna.

Por maior cuidado que se tenha com as palavras, elas foram feitas para explicar e não para esconder fatos. 
"O gesto nazista de Musk não deixa dúvida"

O gesto nazista de Musk, no próprio dia da posse, ato falho ou não, não deixa dúvidas sobre a intenção do homem mais rico do mundo, agora aboletado ao lado de Trump no comando do país 
que já tem o maior poderio militar e econômico do pós-guerra e  ora quer expandir seu lebensraum, o espaço vital de que falava o líder original da extrema direita.

Como Hitler e Goebbels, Trump e Musk parecem declarar guerra ao mundo, a todos os que ousam se colocar em seu caminho contra seus propósitos totalitários, a cada dia mais explícitos e assustadores.

De que outra forma se pode qualificar o inacreditável plano de Trump para Israel evacuar a Faixa de Gaza, com o aliado Netanyahu mandando seus 2 milhões de habitantes para o espaço e, ao fim e ao cabo, entregar o território aos Estados Unidos, com o objetivo de ali plantar resorts de luxo numa imaginária Riviera do Oriente Médio?

Nem Hitler chegou a tanto. Ele invadiu muitos países, mas não apagou do mapa nem da História nenhum deles. 
"Nem Hitler chegou a tanto"
Em lugar dos judeus, Trump escolheu os imigrantes como inimigos da pátria e já começou a mandá-los esta semana de volta aos seus países e para o campo de concentração de Guantánamo, a ilha caribenha transformada em centro de torturas fora do alcance da Justiça estadunidense, após os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001.

A grande diferença é que agora o poder midiático do novo Führer está montado nas big techs lideradas por Elon Musk, enquanto Goebbels tinha apenas as ondas de rádio e os jornais amigos para ameaçar o seu povo e os outros países.

As modernas milícias digitais planetárias, armadas com algoritmos, que ajudaram a levar Trump ao poder, podem ser mais destruidoras do que tanques, aviões e canhões, e influir nas eleições de outros países, até na Alemanha, onde tudo começou, quase um século atrás. Não por acaso, Musk está patrocinando a campanha da AfD, a sigla dos neonazistas alemães, que está em segundo lugar nas eleições marcadas para fevereiro.

É tal a força da metralhadora giratória de anúncios e ameaças feitas diariamente por Trump nas redes sociais a seu serviço, que a mídia já não consegue acompanhar os desatinos, um após o outro, destes primeiros dias de Trump 2. 
Musk é o Goebbels do Trump

Com isso, o imperador mundial autoproclamado rouba todas as manchetes e seu desvario acaba sendo naturalizado.

O objetivo é esse mesmo, segundo o guru Steve Bannon: espalhar bosta para todo lado e confundir os inimigos, que derrapam, enquanto Trump e Musk distraem seus devotos com ações contra funcionários públicos, pessoas trans e organismos nacionais e multilaterais, taxados genericamente como comunistas. Sobre o drama da inflação de alimentos, que o levou à vitória, Trump nem fala mais.

Canadá, México, Panamá e Groenlândia são apenas as primeiras vítimas da megalomania trumpiana, que quer tomar tudo na mão grande, com medo do avanço da rota da seda chinesa, o novo poder que, silenciosamente, vai ocupando o espaço geopolítico que era dos estadunidenses desde a Segunda Guerra.

Trump fez campanha e assumiu prometendo paz na América e no mundo, mas desde então não fez outra coisa a não ser perseguir adversários internos e mandar mais mísseis para Israel poder completar o serviço na cobiçada Palestina, governando por decretos e ordens executivas aos borbotões, sem dar a menor bola ao Congresso e ao Judiciário, que ele controla. No início da sua escalada, nem Hitler teve tanto poder para fazer o mal.
Bannon definiu o objetivo: espalhar bosta pra todo lado
Para quem achava que ele estava blefando com seus planos mirabolantes, as primeiras semanas foram assustadoras, e nada indica que essa ofensiva totalitária e desumana possa ter um final feliz. 

Até agora, pelo menos, não surgiu ninguém capaz de deter esta insanidade ambulante que voltou ao poder para se vingar de Deus e o diabo na terra do sol. A Europa e o resto do mundo também demoraram para descobrir o poder destrutivo de Hitler e Goebbels.

Como diz um velho amigo meu, ainda bem que já estou de saída...

Vida que segue (por Ricardo Kotscho)

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

O JOE BIDEN ESTÁ GAGÁ? ACONTECE. NEM TODO POLÍTICO IDOSO CONSEGUE MANTER-SE EM PERFEITA FORMA COMO O LULA ...

...QUE, AOS 79 ANOS, CONSEGUE TRAVAR ANIMADAS GUERRAS DE BONÉ EM BRASÍLIA!
.
(o Grande Circo Brasil, QUE TINHA um palhaço assassino como atração principal, o substituiu por um ilusionista CUJOS números SÃO TODOS do século passado)

domingo, 26 de janeiro de 2025

FÜHRER ADOLF TRUMP ANULA DERROTA DO SUL NA GUERRA DA SECESSÃO E LIBERA CASTIGOS FÍSICOS ÀS RAÇAS INFERIORES

O governo federal vai queixar-se às autoridades estadunidenses do tratamento degradante 
a que foram submetidos os imigrantes
brasileiros ao serem deportados
por ordem executiva do
führer Adolf Trump
"Porque gado a gente marca,/ tange, ferra,
engorda e mata,/ mas com gente é diferente"

sábado, 7 de dezembro de 2024

NO QUE ANDRÉ MALRAUX, GUILHERME BOULOS E LEONEL BRIZOLA CONCORDAM

Os intelectuais e políticos passam a vida fazendo longos discursos e redigindo textos intermináveis, mas o grande público acaba guardando apenas uma ou duas frases simbólicas, negadas por eles ou das quais não se lembram. 

Frases geralmente fora de contexto, mas imortalizadas por terem sido consideradas como previsões, vaticínios ou profecias. E para quem sabe antecipar o futuro existe um enorme público de curiosos.

É o caso do francês André Malraux, escritor, combatente contra o nazismo alemão durante a ocupação da França e político francês, conhecido pelo seu livro A Condição Humana; por ter lançado as bases da política cultural francesa, logo depois da 2a. Guerra Mundial; e como ministro da Cultura.

Muitos atuais universitários não tiveram tempo para ler A Condição Humana, A Esperança ou Os Conquistadores, mas conhecem ou já ouviram falar da frase "O século XXI será religioso ou não será". Existe um grande debate sobre esta afirmação, que o próprio Malraux nega ter feito, embora muitos seus contemporâneos, garantam tê-la ouvido. Alguns imaginam ter sido uma versão paralela como "O grande problema do século 21 será religioso".

Em todo caso, embora a religião em si não seja o centro dos problemas mundiais atuais, ela está presente nas guerras no Oriente Médio e, nas Américas, ela tem  força para decidir o resultado das eleições.

Me lembrei dessa frase apócrifa ou não de Mauraux ao ouvir uma entrevista de Guilherme Boulos à
Folha de São Paulo, logo depois de sua derrota para a prefeitura de São Paulo. 

Nela, ele dizia textualmente:
"O risco é o Brasil se tornar um Irã no sentido cultural e social, com o domínio do fundamentalismo monolítico, e virar politicamente um México pelos crimes, cartéis da política e assassinatos de gente da política".
É interessante notar ter havido só essa frase sobre o fundamentalismo monolítico cultural e social iraniano, numa entrevista de quase uma hora. Boulos procurava explicar o porquê da derrota frente a uma ultradireita em expansão:
"A extrema-direita está construindo uma hegemonia de pensamento nos setores populares, conquistando setores que já foram da esquerda. Deixando uma sociedade de conquista de direitos por uma sociedade de cada um por si”.
Ou seja, Boulos apontou o fundamentalismo monolítico cultural e social, entrando nos setores populares da esquerda, sem nomeá-lo abertamente. Esse crescimento da extrema direita faz o povo ignorar minha casa minha vida, mais empregos, crescimento econômico do país com redução das diferenças sociais, etc.

Preferiu fazer referência ao Irã por estar num terreno minado, motivo pelo qual uma referência clara e direta poderia ser negativa e contraproducente. E acentuou ser necessário reagir nas redes sociais e nas ruas, para evitar o avanço da extrema-direita.

Mas afinal o que é esse fundamentalismo monolítico cultural e social, cujo nome não foi pronunciado? Os evangélicos, aos quais Lula acaba de fazer um aceno com a criação do Dia Nacional da Música Gospel (9 de julho). 

Os partidos de esquerda ainda não conseguiram encontrar o equivalente para contrabalançar a influência e penetração das igrejas e congregações evangélicas nas camadas pobres da população substituindo o discurso das conquistas sociais pelas promessas bíblicas de melhor vida depois da morte.
E aí surge outro visionário como Malraux, que teria previsto o retorno em força do islamismo e sua influência sobre a própria esquerda. Trata-se do ex-governador do Rio de Janeiro e ex-candidato à Presidência, Leonel Brizola.

Brizola também teve sua frase, hoje atual e profética na época: “Se os evangélicos entrarem na política, o Brasil irá para o fundo do poço, o país retrocederá vergonhosamente”

Como no caso de Malraux, existem dúvidas quanto à origem da frase, mas Brizola, embora não praticante, era de origem metodista.

Vale lembrarmos uma reportagem do Jornal do Brasil em 1990, quando Brizola rompeu com Garotinho (evangélico presbiteriano governador do RJ) e criticou a participação de pastores evangélicos no seu governo e na equipe da vice-governadora Benedita da Silva, evangélica da Assembleia de Deus.

O crescimento em número e em influência dos evangélicos conteve o deputado federal do Psol Guilherme Boulos na sua análise de sua derrota à Prefeitura e da perda de força da esquerda. Por enquanto, ao que se saiba, nem o PT e nem a esquerda em geral encontraram um antídoto para deter o crescimento da extrema-direita apoiada nos evangélicos. (por Rui Martins)

quinta-feira, 4 de julho de 2024

60 ANOS APÓS A OBRA-PRIMA DO GLAUBER, AINDA NÃO APRENDEMOS QUE A TERRA É DO HOMEM, NÃO É DE DEUS NEM DO DIABO.

P
roduzido em 1963 e lançado no ano seguinte, Deus e o diabo na terra do sol foi o primeiro filme nacional a atingir o patamar de obra-prima da sétima arte em termos mundiais.  

Estava anos-luz à frente de O Cangaceiro e de O pagador de promessas, cuja (pouca) repercussão internacional se devera à condescendência dos gringos para com os exotismos de países subdesenvolvidos.

Agora que voltamos ao universo sufocante da polarização maniqueísta, num retrocesso civilizatório que nem mesmo no ano maldito de 1964 acreditávamos ser possível, bem que a comemoração do seu 60º aniversário poderia ser aproveitado para despertar o interesse das novas gerações. 

Não só para um debate consistente sobre como pudemos regredir tanto, praticamente nos deixando subjugar novas formas de coronelismo político e fanatismo religioso, como até em termos estéticos. Os jovens precisam saber quão consistente e criativo o cinema brasileiro foi, antes de se subjugar à medíocre estética televisiva.
nordestern épico de Glauber Rocha, influenciado por John Ford, Sergei Eisenstein e os mestres do neo-realismo italiano, acompanha a jornada do vaqueiro Manuel (Geraldo Del Rey) em busca de um novo destino, pois saíra do trilho normal de sua existência ao matar o coronel da região numa desavença a respeito da partilha do gado.

Engaja-se nos efetivos messiânicos de Deus (o santo Sebastião, interpretado por Lídio Silva e evidentemente baseado em Antônio Conselheiro) e do diabo (o cangaceiro Corisco, personagem que deu oportunidade a um incrível tour de force de Othon Bastos, disparado o melhor ator do elenco).

As autoridades, os latifundiários e a Igreja recorrem ao jagunço Antônio das Mortes (Maurício do Valle) para exterminar os beatos do Monte Santo (Canudos, claro!) e os cangaceiros remanescentes após a morte de Lampião. 
Gigantesco, com capa de boiadeiro e barba cerrada, ele aluga sua papo amarelo calibre .44 para os poderosos, mas acredita estar cumprindo um papel mais nobre: o de desimpedir os caminhos para a guerra que um dia o povo haverá de travar
"sem a cegueira de Deus e do diabo".

Manuel sobrevive a ambos os massacres e sai com a convicção de que a libertação do sofrido povo nordestino não passa por cangaceiros e fanáticos, como enfatiza a magnífica canção final de Sérgio Ricardo: "Tá contada a minha história/ na verdade, imaginação,/ espero que o sinhô tenha tirado uma lição:/ que assim, mal dividido, este mundo anda errado,/ que a terra é do homem, não é de Deus nem do diabo". (por Celso Lungaretti)

sábado, 22 de junho de 2024

AINDA SOBRE AS CRIANÇAS, A PUTARIA, O FUNDAMENTALISMO RELIGIOSO E AS DEMAGOGIAS ELEITOREIRAS

Paulo Francis, que foi um guru do pensamento crítico nas fileiras da esquerda até a fase do
Pasquim mas depois se desencantou e descaracterizou de forma melancólica, dizia que o espaço das cartas de leitores na grande imprensa era qualificado pelos jornalistas profissionais de muro das lamentações, pois nenhum deles o levava a sério.

Eu, pelo menos, sempre respeitei os comentaristas, até porque devo já ter transformado em artigos pelo menos uma centena das respostas que dei a eles. 

Meus melhores textos e melhores falas costumam ser os que me vêm à mente no meio de uma argumentação, às vezes até contrariando a linha de pensamento que eu vinha seguindo. E nunca fui preguiçoso a ponto de desperdiçar o rumo que o artigo tomou sozinho só para não mexer um pouco no que já estava escrito.

Então, graças aos pertinentes comentários do SF ao meu artigo  sobre o antepenúltimo sincericídio desastroso do Lula, posso agora acrescentar um complemento àquele post que, espero, vá enriquecer a discussão que levantei. Tomara que os leitores concordem. (por Celso Lungaretti)
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JÁ NÃO DÁ MAIS PARA BOTARMOS CRIANÇAS SOB UMA REDOMA
Essa imagem do menor de idade como anjinho assexuado foi feita em cacos há 119 anos, quando Freud publicou seu Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Temos é de preservar as etapas de amadurecimento sexual pelas quais passam as crianças, impedindo que adultos maliciosos as acelerem para locupletarem-se, traumatizando os pimpolhos.
  
Já não dá mais para colocarmos crianças sob uma redoma, tentando vedar-lhe o contato com os conteúdos adultos. Não se deve nem se consegue censurar toda uma sociedade na era da internet.

Ainda no tempo das fitas VHS, uma amiga minha, voltando para casa numa tarde mais cedo do que o habitual, surpreendeu seus filhos e outros colegas de escola, todos numa faixa de 12 anos, assistindo a um filme de sadomasoquismo explícito que haviam retirado da videolocadora com a carteirinha paterna.

Quanto aos fundamentalistas religiosos, sua idealização da inocência infantil não passa de uma ilusão compensatória por eles saberem-se apodrecidos até a medula. 

Isso, aliás, me faz lembrar uma frase antológica do filme Exótica (1994), do Aton Egoyan, quando o comentarista de uma boate sofisticada pergunta à plateia, durante o número de uma stripper produzida como estudante: "Por que uma colegial nos parece tão fascinante, será porque ela tem a vida inteira pela frente enquanto nós já desperdiçamos as nossas?"

Levar essa gente a sério, nem que seja por demagogia eleitoreira como no caso do Lula, é absolutamente indesculpável para as pessoas civilizadas.

Retrocesso civilizatório só convém aos bárbaros. A frase do Lula me fez lembrar o Bolsonaro recomendando a cloroquina no auge da covid-19. (CL)

domingo, 16 de junho de 2024

AS BANCADAS DA BALA, DA BÍBLIA E DO BOI SÃO APENAS SINTOMAS. ARTHUR LIRA, IDEM. A DOENÇA É O CAPITALISMO TERMINAL

Não se iludam: a PL do aborto não passa de uma provocação ao Judiciário e de uma demonstração de força dos conservadores, reacionários e mercadores do templo, os quais querem deixar bem claro ao povo que podem fazer gato e sapato do fraquíssimo Governo Lula.

Mas, se não dermos um imediato basta! a tal retrocesso civilizatório, boiadas ainda piores passarão pelo infame Legislativo que saiu das urnas eletrônicas de 2022 (de cuja lisura a corja boçal e ignara fingia desconfiar tanto...).

Então, devemos, sim, lutar com todas as nossas forças contra a regressão fundamentalista, antes que sejam reintroduzidas também a venda de indulgências, a (nada) Santa Inquisição e o direito da pernada, entre outras odiosas práticas medievais.

Mas, sempre lembrando que cada uma dessas abominações deve ser combatida com duplo objetivo: não só em si, mas também como uma oportunidade de acumulação de forças para a luta principal, aquela que cortará todas as cabeças da hidra ao mesmo tempo, livrando-nos definitivamente dessas recaídas na insanidade coletiva. 

Refiro-me, claro, à mais do que nunca imperativa superação do capitalismo, antes que ele nos arraste consigo em seu processo de autodestruição. (por Celso Lungaretti) 
Até tu, CNBB, apoiando a nefanda equiparação de aborto a
homicídio, o que equivale a considerá-lo crime pior do que
estupro?! Daí estarmos te prestando esta homenagem! 

quinta-feira, 18 de abril de 2024

SENADO PROMOVE RETROCESSO GIGANTESCO NA QUESTÃO DAS DROGAS

 Esgoto do Brasil, o Congresso não cansa de promover barbaridades e retrocessos, tendo sido a última uma emenda à constituição que criminaliza o porte e a posse de drogas. Em uma mistura de guerra com o STF, canalhice, oportunismo e politicagem, os senadores, liderados por Rodrigo Pacheco (MG) colocaram na constituição, na parte referente aos direitos fundamentais (!!!) um artigo criminalizando o uso de drogas. 

Bizarro por si mesmo, o fato de tal artigo repressivo e criminalizador ser acoplado à parte que trata das liberdades fundamentais mostra apenas o quanto o ímpeto repressivo e policialesco do Estado brasileiro tem se intensificando nos últimos anos. Não poderia ser diferente, pois diante da crise aguda do capitalismo, a resposta da burguesia sempre foi o da repressão, do endurecimento penal, do cerceamento às liberdades e mesmo da ditadura pura e simples. Trata-se de velha tática para frear possíveis levantes e revoluções por parte da classe trabalhadora e do povo em geral através da instauração de mecanismos policiais e de vigilância. 

A guerra às drogas é parte clássica desse mecanismo, tendo sido gestada nos EUA nas décadas de 1960-70 no contexto dos levantes promovidos pelos protestos estudantis, por direitos civis e contra a guerra no Vietnã. Não existindo justificativa para criminalizar tais movimentos apenas por existirem - pois, lembremos, os EUA se dizem uma democracia... - resolveram criminalizar um elemento comum a todos os movimentos: o uso da maconha e de outras drogas. Assim, a repressão à posse, porte e produção dessas substâncias passou a justificar ações repressivas do Estado, com custos cada vez maiores até chegarem a autênticas guerras, como as desencadeadas na fronteira entre EUA e México e na Colômbia. 

No Brasil, a guerra às drogas se instaura juntamente com a ditadura e se aprofunda na redemocratização. Por aqui serve de justificativa para o controle de populações pobres, trabalhadores das periferias, que colocam um risco vital à classe dominante caso se levantem. A ação truculenta da polícia, como vista rotineiramente no Rio em São Paulo, funciona como um meio preventivo de contenção, demovendo, pelo terror, possíveis ações populares. Na prática, tais setores da sociedade brasileira vivem à margem da legalidade constitucional, tendo seus direitos violados sistematicamente. Ao estabelecer a proibição constitucional, o Senado avança mais para rasgar os direitos fundamentais desses grupos, os colocando em segundo plano frente ao controle e à repressão estatais. 

A guerra às drogas também serve a inúmeros interesses econômicos e políticos, indo desde as forças policiais que recebem rios de dinheiro público para montar seus mastodônticos exércitos, passando pela corrupção, pelo interesse dos setores financeiros na lavagem dos valores, pelos grupos religiosos com suas comunidades terapêuticas, até as inúmeras bancadas que recebem torrentes de voto a partir do discurso policialesco. Nenhum desses interesses quer acabar com a fonte financeira, ela precisa continuar fluindo, mesmo que às custas do sangue do povo, sobretudo negro e pobre. 

Mais uma vez, portanto, vemos o quanto o parlamento, especificamente o brasileiro, não é nunca será saída para nada. De lá sempre teremos apenas retrocesso. (por David Coelho)

sexta-feira, 5 de abril de 2024

USP ADOTA CRITÉRIOS RACISTAS AO CHECAR A NEGRITUDE DE APROVADOS PELAS COTAS

Al Jolson, ator branco que fez o papel de
negro no filme O Cantor de Jazz (1927)
As cotas raciais no ensino público estão gerando consequências tão desagradáveis quanto constrangedoras, como a constituição de uma banca na USP para determinar quem é realmente negro (e, portanto merecedor do favorecimento) e quem é oportunista tentando se passar por negro. 

Um candidato aprovado em 10º lugar em Medicina pelo Provão Paulista foi à Justiça e reverteu a decisão que impugnava sua negritude por ele possuir "pele clara, boca e lábios finos e cabelos raspados". 

Provocou arrepios. Da última vez em que se procurou definir a raça das pessoas por critérios desse tipo, os reprovados não perdiam vagas no ensino superior, perdiam a vida em campos de extermínio. 

Lamentável a USP dar tal contribuição para a retrocesso civilizatório em curso; esperava-se que reagisse ao emburrecimento e embrutecimento dos brasileiros, mas está se prostrando a ele. 

Agora, só falta colocar na entrada da Cidade Universitária o letreiro Arbeit macht frei, aquele que conhecemos sobretudo pelas imagens do campo de Auschwitz, mas estava também presente em muitos congêneres... (CL)
As voltas que o mundo dá: o cabelo pixaim já foi visto como desvantagem,
mas hoje tê-lo facilita o acesso a faculdades cujas vagas são disputadíssimas

sábado, 28 de outubro de 2023

POLÍCIA MORAL DO IRÃ MATA OUTRA JOVEM POR RECUSAR O VÉU ISLÂMICO: A CEGUEIRA RELIGIOSA É O PIOR DE TODOS FANATISMOS!

Esta adolescente de 16 anos foi impiedosamente assassinada pelo inadmissível, inaceitável, grotesco, repulsivo, abominável e aberrante governo que sustenta o fanatismo religioso no Irã.

Não há desculpa nem qualquer justificativa aceitável para se torturar mortalmente uma jovem só porque não quis enfear-se utilizando o hijab, aquele véu islâmico que esconde os cabelos e torna sua usuária um ser assexuado, sem espontaneidade, sem alegria, sem vida, sem nada: uma réplica de zumbi. 

Quanta paúra do diabo interior esses sacerdotes aiatolados nas trevas medievais têm da liberdade sexual!!! 

O crime pelo qual Armita Geravand recebeu a pena capital foi viajar de metrô sem o véu ridículo. Os primatas da polícia moral tanto a espancaram que já saiu em coma da estação. A morte cerebral chega após passar quatro semanas hospitalizada.

Vale lembrar que pelo mesmíssimo crime foi morta em setembro Mahsa Amini, de 22 anos, esta à maneira do DOI-Codi brasileiro: estava numa prisão quando sofreu os espancamentos. 

Uma grande luta de nossos tempos é entre a civilização e a barbárie.

Regimes hediondos como o do Irã ajudam a perpetuar a desumanidade igualmente extremada de Israel, porque ambos igualam-se no absoluto desprezo pelos que têm convicções diferentes, estando sempre prontos para exterminá-los sob quaisquer pretextos.

Então, não nos podemos alinhar com  um nem com o outro sem trairmos a essência do que somos: seres humanos empenhados em construir uma sociedade igualitária e livre. 

Cabe-nos, portanto, os devolvermos para o passado odioso ao qual pertencem, pois, quando finalmente livrarmos a humanidade da exploração do homem pelo homem, eles serão sempre um corpo estranho, destoante, em meio à civilização. (por Celso Lungaretti)

sexta-feira, 30 de setembro de 2022

CONTRA A BARBÁRIE, TEREI DE CEDER À CHANTAGEM IMPLÍCITA E VOTAR NO LULA

Coerente com a convicção de que as eleições de cartas marcadas da democracia burguesa só servem a nós, revolucionários, como oportunidade tática para acumularmos forças e expormos a públicos mais amplos nossos valores e nossa visão de mundo, sempre recomendei
 no 1º turno, o voto em candidatos da esquerda combativa, ainda que nanicos; e, 
— no 2º turno, se nenhum dos contendores personificar a ruptura no sentido do estabelecimento de uma sociedade igualitária e livre, o voto nulo.

Mas desta vez um valor mais alto se alevanta: o papel que há meio século me atribui, como sobrevivente de uma luta na qual tantos companheiros de valor inestimável entregaram a vida, de defender a memória e o legado dos resistentes dos anos de chumbo.

O filhote desfibrado do Brilhante Ustra, que se tornou responsável por centenas de milhares de óbitos evitáveis ao sabotar o combate científico à pandemia de covid, tem de ser exemplarmente batido e banido. É, indiscutivelmente, minha prioridade máxima desta vez.

Então, a contragosto, votarei e recomendo o voto no Lula neste domingo (2), até para evitar mais quatro semanas de mortes inúteis em conflitos de fanáticos, embora vá passar o resto da vida amaldiçoando o padrasto dos pobres por ter-me obrigado a ceder à sua chantagem.

É que, tudo fazendo para esvaziar o #ForaBolsonaro e a bandeira de impeachment do genocida, ele deu contribuição fundamental para a eleição desembocar numa escolha entre a barbárie da extrema-direita e a frouxidão do reformismo. No caso de alguém com o meu passado, passou a não haver escolha, mas sim uma obrigação moral.    

Para todos os outros postos em disputa, votarei nos candidatos do PSTU, por ser um partido totalmente engajado na proposta de união das forças e expoentes da esquerda anticapitalista no Polo Socialista Revolucionário

Trata-se da nossa única possibilidade visível de construirmos uma alternativa à forma civilizada de dominação burguesa que entrará em cartaz no primeiro dia de 2023, substituindo a insanidade belicosa e tosca dos últimos anos. (por Celso Lungaretti) 
Excelente filme noir dirigido por Robert Aldrich em 1955, com
Jack Palance, Rod Steiger e Ida Lupino esbanjando talento.

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