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terça-feira, 25 de julho de 2023

GERALDO VANDRÉ NO CANAL LIVRE (parte 2): VALEU A PENA VÊ-LO DE NOVO?

Bem que eles tentaram fazer-nos crer
que este senhor era o Geraldo Vandré...


A
TV Bandeirantes mentiu: prometeu um Canal Livre tendo o cantor e compositor Geraldo Vandré como entrevistado, mas nos apresentou um funcionário público aposentado cujo nome é Geraldo Pedrosa de Araújo Dias e que compareceu escondido atrás de uma barba cerrada, óculos escuros e boné cafona.

O pior foi que tal cidadão, próximo de completar 88 anos de idade, passou o tempo todo respondendo de forma lacônica e evasiva as perguntas que lhe faziam, como se quisesse dissociar-se do mito com o qual é erroneamente confundido.

Conseguiu.  A sensação que tive foi a do triste fim de um dos maiores expoentes da música brasileira em todos os tempos. Vandré está morto. E nem os esforços dos entrevistadores, empenhados em dele obterem um sopro de vida em benefício do programa, conseguiram reacender uma chama que virou cinzas.

O mais doloroso eram os vídeos incluídos de performances antigas do Vandré, às vezes com a tela dividida entre o intérprete que personificou a repulsa dos jovens idealistas à pior ditadura que o Brasil já conheceu e o visível constrangimento de um homem que, ao contrário do título alternativo da música Ventania (clique p/ acessar), não conseguiu continuar andando após ter perdido seu cavalo.  

Na verdade, o que ele perdeu foi a alma, depois de ser sequestrado por militares tão logo desembarcou em 1973 num aeroporto brasileiro, ao retornar de seu exílio por Chile, Uruguai e vários países europeus. 

Permaneceu internado durante 58 dias numa clínica carioca e de lá saiu mudado, ora fazendo-se de louco, ora desconversando sobre o que realmente sofrera nas mãos daqueles a quem outrora fustigara com versos como estes, da canção Terra Plana (1968):
...mas não nos deixamos iludir, pois sua verdadeira
imagem continua bem viva na nossa memória!


"...se um dia eu lhe enfrentar,/ não se assuste, capitão,/ só atiro pra matar e nunca maltrato, não./ Na frente da minha mira/ não há dor, nem solidão. 
"E não faço por castigo,/ que a Deus cabe castigar/ e se não castiga ele,/ não quero eu seu lugar./ Apenas atiro certo/ na vida que é dirigida/ pra minha vida tirar..."
Benito Di Paulo, em seu Tributo a um Rei Esquecido (1974), expressou seu espanto com o estado ao qual ficou reduzido aquele que "foi um rei e brincou com a sorte,/ hoje ele é nada e retrata a morte"

E, como tantos e tantos que o haviam conhecido quando ainda era Vandré, perguntou: "O que foi que fizeram com ele? Não sei./ Só sei que esse trapo, esse homem foi um rei".

Mas, não foi com um trapo que conversei longamente numa tarde de 1980, quando a censura liberara Caminhando e o hino revolucionário de 1968 (não apenas uma exaltação das passeatas, pois termina apontando para a guerrilha nos versos "somos todos soldados, armados ou não" e "a certeza na frente, a História na mão.../ aprendendo e ensinando uma nova lição") voltava a obter sucesso na voz de Simone.

Naquela ocasião ele não fez declarações de amor aos algozes, mas sim disse que não se apresentaria nos palcos brasileiros enquanto não fosse restabelecida a ordem institucional e admitiu temer retaliações caso tentasse voltar à tona juntamente com a canção que, acaba agora de dizer, determinou o fim de sua carreira.

Suas palavras foram então bem claras: a música emblemática poderia ter um novo apogeu, mas se ele embarcasse nessa onda, talvez virasse um alvo na mira de personagens sinistros.
Pausa na gravação do LP Das Terras de Benvirá

Ou seja, daqueles aloprados que incendiavam bancas de jornais e enviavam cartas-bomba a instituições como a OAB e a ABI para tentarem abortar a abertura lenta, gradual e segura do ditador Ernesto Geisel, a qual incluía a extinção dos DOI-Codi que haviam brotado como cogumelos na fase mais brutal do terrorismo de Estado.

Suas ostensivas bizarrices naquele momento não passariam, portanto, de um artifício para, fingindo-se de morto, driblar a morte. 

Então, mantenho a minha análise segundo a qual "o que fizeram com ele" naqueles 58 dias que ficou à mercê dos órgãos de segurança não foi propriamente uma lavagem cerebral, até porque em verdade não funcionou, tendo, contudo, o intimidado de tal forma que ele desperdiçou em 1980 sua última grande chance de voltar a ser Vandré.

O resto foi anticlimax, até por não haver passado pela prova de fogo o personagem que ele projetou em várias de suas canções (vale lembrar também Bonita, de 1968, quando ele se despede de uma namorada por estar partindo para a guerrilha e acreditar que não voltará, afora, claro, o tributo ao Che, que está na altura de 16'21" do vídeo atrás lincado). 

Foi torturado? É difícil chegarmos a uma conclusão. Mas, afinal, o que ele queria subentender com a canção gravada em 1970 em seu exílio europeu, na qual ergue, até no título, uma Bandeira Branca? Os versos "Se for preciso, morena,/ na frente ainda dá pra enfrentar", p. ex., aludem à situação em que vários torturadores agridem um prisioneiro por todos os lados ou é somente a primeira impressão que ocorre a quem passou por tal espancamento covarde?
Após esta matéria de capa Vandré
passou a ser visto como louco

O certo é que, como ele próprio antevia, Vandré perdeu seu cavalo e não sabia mais para que lado andar. A auto-estima de nordestino pode tê-lo impedido de admitir francamente que não resistiu de forma altaneira ao inimigo, como acreditava que conseguiria, daí haver enveredado por um tal emaranhado de contradições que talvez nem ele próprio soubesse mais como fazer para desatar os nós.

Ditaduras podem executar artistas como Garcia Lorca e Victor Jara, ou matá-los espiritualmente como foi feito com Vandré. 

Fiquei indignado ao ver o morto-vivo exposto pela TV Bandeirantes, ainda que não tenha sido esta a intenção dos realizadores do melancólico Canal Livre do último domingo, 23. 

Foi como se o sistema tripudiasse sobre aquele que destruiu de forma hedionda, transformando-o, como bem disse o Benito Di Paula, num traste. (por Celso Lungaretti, jornalista, escritor, blogueiro e ex-preso político) 
Também mencionada no Canal Livre de 23/07/2023, eis a peça de cunho
religioso-libertário que Vandré compôs em 1968 para a celebração da
Semana Santa na igreja paulistana de São Domingos das Perdizes.  

segunda-feira, 24 de julho de 2023

GERALDO VANDRÉ NO CANAL LIVRE (parte 1): VALEU A PENA VÊ-LO DE NOVO?

Tendo o compositor e cantor Geraldo Vandré sido o entrevistado deste domingo (23) no Canal Livre da TV Bandeirantes, busquei no arquivo do blog Náufrago da Utopia este post bem completo que publiquei em 2016 sobre ele, incluindo, no final, uma relação de 10 links de filmes, entrevistas, artigos e notícias a seu respeito.

O Vandré foi o primeiro compositor da MPB engajada pelo qual me entusiasmei, daí estar acompanhando sua carreira pelo menos desde 1966. E tive a oportunidade de conversar longamente com ele em dois momentos cruciais:
— em meados de 1968, quando ainda estava terminando a
Caminhando, mas mostrou a mim e a três companheiros secundaristas o rascunho da letra, ainda com palavras riscadas e substituídas por outras; e
— em 1980, quando a Caminhando foi liberada pela censura, depois de permanecer durante mais de 11 anos  proibida no Brasil, e voltou a fazer sucesso na voz da Simone (ele não quis dar-me entrevista, mas passamos a tarde inteira papeando em off e, vários anos mais tarde, escrevi sobre o que rolou então). 

Finalmente, como tinha óbvio conhecimento de causa, várias vezes dei a minha interpretação sobre o que realmente acontecera com ele, tanto antes de exilar-se como quando voltou para o Brasil e foi sequestrado pelos militares logo na chegada. (por Celso Lungaretti) 
Aqui está a entrevista de ontem, na íntegra. A minha
análise sobre ela será publicada na parte 2 deste post.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

NOSTALGIA DO NATAL

Há determinadas épocas do ano nas quais afloram sentimentos especiais, como se a nos enquadrarem em comportamentos uniformes, nos quais se incorporam um espírito do tempo específico:
— há quem fique especialmente alegre no Natal e há quem fique nostálgico; 
 há quem fique triste por não poder corresponder à indução midiática para o consumo; 
 há uns poucos, em relação ao total da população, que podem dar azo ao consumismo desenfreado;
 há quem que se comova com o olhar triste do menino pobre diante do majestoso circo por não poder comprar o ingresso;
 há quem leva os seus filhos ou netos num carro de luxo e compra a entrada desse mesmo circo, sentando num camarote como se fosse um vitorioso nessa coisa insuportável e excludente que é o conceito de vencer na vida;
 há quem tenha a sensibilidade de saber que é efêmera a glória do acrobata do circo, ainda jovem a realizar proezas nos sofisticados e novos mecanismos de riscos circenses, e lamente que aquele corpo logo, logo, perderá as suas forças e deverá ser deslocado para uma função administrativa (venda de ingressos, montagem das lonas, consertos gerais, etc.), ficando então privado do glamour dos aplausos admirados do público;
 há quem sinta uma tristeza profunda ao lembrar-se de tantos amigos e familiares que outrora brindaram com um bom vinho ou champanhe a gostosa ceia de natais passados, pessoas que agora já não tem mais junto de si, com a ceia já resumindo, quando muito, a um hot dog na carrocinha da esquina;
 há quem, sofrendo de solidão nos caminhos que a vida lhe impôs, desejaria ter pelo menos um ombro amigo para tomar nem que fosse apenas um gole de cachaça barata, jogando conversa fora;
 há quem esteja eufórico por atravessar um momento especial da vida e cante a música de Tom Jobim e Chico Buarque que diz “parece dezembro, de um ano dourado...”; 
 há quem esteja decepcionado com as falácias dos políticos (como aqueles nos quais acreditou), que se diziam expoente de uma nova política, pois constata agora que a política é, de modo atemporal, sempre um vale-tudo do jogo de poder que iguala todos numa massa homogênea de submissão a uma ordem econômica de segregação e imposição de seus mecanismos funcionais;
 há quem esteja regozijado pelo motivo oposto, ou seja, por ver que se processa um adeus às ilusões no campo político, podendo isto descortinar não apenas um ano de novas perspectivas transformadoras, mais de uma era de afirmação das melhores virtudes humanas; 
 há quem conserve a esperança de que dias melhores virão;
 há quem tenha perdido as esperanças e se enquadre no jargão da música popular que diz “deixa a vida me levar, vida leva eu”, sem nada questionar;
 há quem tome todas, simplesmente porque a incitação natalina é para ser feliz e bonachão como o bom velhinho gordo e vestido com roupa do frio siberiano nestes trópicos de tempos de aquecimento global;
 há quem durma mais cedo que de costume para evitar que os “guizos falsos da alegria” agridam a sua tristeza interior;
 há quem, no exato dia de Natal, conheça um novo amor e acredite na eternidade do mesmo, pelo menos enquanto dure;
 há quem, enfastiado com as aparências de uma amor falido, resolva romper definitivamente com as ditas cujas, induzido pela busca de felicidade que o espírito do tempo natalino quer sugerir;
 há quem reflita sobre tudo de errado que fez e prometa que não vai repetir tai erros, mesmo sabendo da impossibilidade da perfeição nos acertos;
 há quem avalie que os acertos foram maiores do que os erros e tenha a esperança de diminuir ainda mais tal proporção;
 há quem se disponha a não aceitar a opressão sistêmica e prometa a si mesmo ir para as ruas reforçar o coro dos excluídos e/ou conscientes, mesmo sabendo que os democratas que estão no poder ungidos pelo voto sonham com um novo AI-5;
 há quem se endivide acima de suas possibilidades somente para ostentar poder de compra, o qual, no capitalismo, é critério de aceitação social, entrando assim na roda viva dos juros extorsivos que lhe são impostos;
 há quem não dê bola para esse consumismo natalino e espera as festas passarem para, aí sim, comprar num verdadeiro black friday decorrente da lei da oferta e procura, ou seja, da queda nas vendas;
 há um frenesi nos shoppings centers que apenas uns 30% ou menos da população podem frequentar, universo que, ainda assim, representa muita gente, dando-nos a falsa impressão de que tudo vai bem;
 há uma tristeza que invade as mentes dos milhões de trabalhadores desempregados ao verem seus filhos esperançosos de que o Papai Noel vá lhes dar o presente desejado, pois jamais poderão corresponder a tais expectativas naquele momento (afinal, o Papai Noel somente existe para quem pode pagar);
 há uma alegria das crianças que puderam se beneficiaram da iniciativa de alguém da favela que foi angariar presentes para alegrar-lhes o Natal;
 há algo de bom na condição humana, que independe de datas para ser transformado em alegria...

Que doravante todos os dias, e não apenas o Natal, sejam permeados pelo espírito da solidariedade e generosidade para com o nosso semelhante! (por Dalton Rosado)

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

JESUS CRISTO FOI CONSIDERADO FRACO EM ALAVANCAR COMPRAS E VENDAS, ENTÃO O SUBSTITUÍRAM PELO PAPAI NOEL

apollo natali
O BELO NATAL
O que essa gente não faz para disparar as vendas. 

Numa inspirada jogatina de marketing, homens de negócios dotados de imensa aptidão lançaram fora  a comemoração do dia do nascimento do personagem mais celebrado do universo, o nome dele é Jesus, e no lugar dele estamparam no calendário o nome de um novato conhecido como Papai Noel.

Nesta reviravolta, Jesus deve ter sido considerado fraco em alavancar compras e vendas, então o substituíram pelo Papai Noel, figura modelada por exímios empreendedores, nada contra eles, como um alegre velhinho de barbas brancas e, valha-nos Deus,  detentor de milagrosa façanha mercadológica: numa só noite, chova ou faça neve, compra e distribui presentes para milhões e milhões de crianças e adultos do mundo inteiro. 

Um só velhinho de voz rouca, entoando hô,hô,hô,  põe para funcionar todas as atividades econômicas ao mesmo tempo, de tecidos a bancos, de alimentos à indústria do petróleo, porque de petróleo são feitas as roupas,  os presentes de plásticos, calçados, cintos, veículos, tudo.  A dinheirama para o Papai Noel sai do bolso dos papais e das mamães.   

Monumental o faturamento. Nada contra. Gerar empregos é bom. Pois não é o emprego a salvação dos pais de família e seus rebentos?
De Jesus fala-se há mais de 2 mil anos. Mais, muito mais. Compêndios sagrados perdidos na lembrança,  templos misteriosos desaparecidos nas noites do passado, a própria  Bíblia, sopram, de longe em longe,  milenários murmúrios de sua vinda à terra. Mesmo no Corão ele e sua mãe são louvados. 

De Papai Noel fala-se há bem menos tempo. Era um frade turco quatrocentos anos depois de Cristo. Fazia o bem. Canonizado como São Nicolau novecentos anos depois de Cristo.

Digam-me, eu não sei, dia, ano e mês exatos em que Papai Noel foi alçado a promotor de vendas de sucesso global pelo sistema capitalista. Cada país dá um nome a ele. Em nome da deusa Economia,  todos se curvam diante desse inventado deus. Por enquanto é assim. Quem quer realidade melhor, que aguarde novas profecias.
Um empurrãozinho a mais na ciência da riqueza foi apostar numa fantasia colorida de  trenós e renas cruzando os céus. Jogada de mestre.

Faz  80 anos. De autoria dos publicitários estadunidenses. É o delírio das crianças e de muito adulto por aí. Faz o consumidor salivar e correr para as compras. E como Tio Sam, também não é nada, nada fraco em negócios,  deu até nome para cada uma das nove renas. Perfeito.

A quem não é ligado a religião organizada nenhuma, como muitos, e mantém um pezinho atrás da religiosidade, melhor dizer solenidades monásticas, é confortador considerar Jesus como o maior psicoterapeuta que já surgiu neste planeta.

Detida análise  comprova: os dois, o texto de Jesus e o da psicologia, convergem no comportamento. Proceder bem é bom, agir mal é mau, rezam ambos.  Quanto aos maus, a  natureza deles se vinga,  dizia-me o padre Antonio, do Colégio Dom Bosco, na minha paulistana infância querida, na Mooca.  Bem feito.

A variante aqui, mesmo no entender dos terráqueos não religiosos, é o universalmente  proclamado e desmedido amor pela humanidade ofertado pelo judeu de Nazaré, perfeito psicoterapeuta, tudo o que é perfeito é divino, e como em amor ele não é nada,nada fraco, desvenda todos os enigmas existenciais da espécie humana. Eia, vamos, tentemos emparelhar a semelhança entre sua linguagem religiosa e a da psicologia.
A imagem definitiva do Papai Noel, criada pelos publicitários

Detalhe religioso: mesmo aqueles todos não ligados a religião organizada nenhuma, são  testemunhas de que a religiosidade não sucumbiu ao socialismo, a  teoria da evolução não a asfixiou, a era digital não a silenciou. Palavras do psicanalista Augusto Cury.

A determinante é que Jesus anunciou uma nova era, um novo relacionamento, um inédito notável comportamento, com base na afeição profunda, fortalecedora forma de ver e reagir à vida. Do mesmo Augusto Cury, em seu livro O homem mais inteligente do mundo

Quanto a mim, a vós também, correndo vou, braços amigos, desde que sem qualquer artifício dogmático.

Sim,  sim, o  mundo seria um paraíso se existisse uma gotinha de bem-querer  um pelo outro, como quer Jesus. Sem cerimônias, por favor.  Tal modo de vida é a síntese da mensagem comportamental do homem mais inteligente do mundo: querer bem. O contrário de falar a língua dos anjos e nem sequer cumprimentar o porteiro do prédio.
Trocado em miúdos, passou da hora de os integrantes da espécie humana frequentarem uma escolinha risonha e franca para aprender as primeiras letras do respeito ao próximo. Tão fácil. 

De resto, quão celestial é a festa de se comemorar a mensagem de bem-querer, no Natal de Jesus,  com permuta de carinho, abraços, docinhos e salgadinhos e tudo,  em meio  ao repicar dos sinos, do coral dos anjos, do tilintar das caixinhas de música. Que festa bonita!

De resto, quão terreno é o festim de se comemorar o Natal de Papai Noel, o simpático velhinho gorducho dinheirento garbosamente coberto de vermelho, tamanha ruidosa solenidade de distribuição de bens materiais e de geração de empregos. Que divertimento proveitoso!Sempre em mente: não só de pão vive o homem e todos sabemos quem disse isso.

Não existe nenhuma foto de Jesus. Nem pintura ou escultura dele. Artistas tiram do nada a inspiração para criar obras de arte representando de diferentes feições o chamado Messias. Multidões comemoram  o seu Natal  sem  saber como ele realmente era.

No entanto, existe um documento histórico precioso, até que bem conhecido, escrito por uma autoridade romana que conheceu Jesus pessoalmente e faz sua descrição física e moral. É uma carta,  escrita ao imperador Tibério Cesar pelo então governador da Galileia Publio Lentulus, encontrada  no arquivo de um mencionado Duque de Cesadini  em Roma e hoje entesourada no Vaticano.

A narrativa  nos privilegia ficar frente a frente,  neste exato momento, com o homem mais inteligente e mais amoroso de todos os tempos, contemplar seus olhos claros iluminados — Jesus tinha olhos claros! —, admirar seu semblante majestático, seu porte modesto, conhecer a cor de terra reluzente dos seus cabelos, divididos ao meio, caídos até as espáduas. E confirmar seus milagres.

A carta encerra prodigiosa  mensagem  de Natal  para religiosos e não religiosos:
Publio Lentulus... 

"Sabendo que desejas conhecer quanto vou narrar, existindo em nossos tempos um homem, o qual vive atualmente de grandes virtudes, chamado Jesus, que pelo povo é inculcado de Profeta da Verdade e pelos seus discípulos de Filho de Deus.

Em verdade, ó César, a cada dia se ouvem coisas maravilhosas desse Jesus. Ressuscita os mortos, cura os enfermos. É um homem de justa estatura e é muito belo no seu aspecto, e há tanta majestade em seu rosto que aqueles que o veem são forçados a amá-lo ou a temê-lo. Tem os cabelos da cor da amêndoa bem madura, são distendidos até as orelhas; e das orelhas até as espáduas; são da cor da terra, porém reluzentes. 

Tem o meio da sua fronte uma linha separando os cabelos, na forma em uso pelos nazarenos. Seu rosto é cheio, de aspecto muito sereno; nenhuma ruga ou mancha se vê em sua face; o nariz e a boca são irrepreensíveis. 

A barba é espessa, semelhante aos cabelos, não muito longa; seu olhar é muito afetuoso e grave; tem os olhos expressivos e claros, resplandecendo no seu rosto como os raios do Sol, porém ninguém pode olhar fixo seu semblante, pois se resplende, subjuga; e quando ameniza, comove até às lágrimas. Faz-se amar e é alegre, porém com gravidade. Diz-se que nunca alguém o viu rir, mas, antes, chorar.
...e o Cristo por ele descrito.

Tem os braços e as mãos muito belos. Na palestra contenta muito, mas quando dele se aproxima, verifica-se que é muito modesto na presença e na pessoa. É o mais belo homem que se possa imaginar, muito semelhante à sua mãe, a qual é de uma rara beleza, não se tendo jamais visto por estas partes uma mulher tão bela.

Porém, se a Majestade Tua, ó César, deseja vê-lo, como no aviso passado escreveste, dá-me ordens, que não faltarei de mandá-lo o mais depressa possível. 

Dizem que um tal homem nunca fora visto por estas partes. Em verdade, segundo dizem os hebreus, não se ouviram jamais tais conselhos de tão grande doutrina, como ensina este Jesus; muitos judeus o têm como divino e muitos me querelam, afirmando que é contra a lei da Tua Majestade. 

Diz-se que Jesus nunca fez mal a quem quer que seja, ao contrário, aqueles que o conhecem e com ele Têm praticado, afirmam ter dele recebido grandes benefícios e saúde, porém à Tua obediência estou prontíssimo; aquilo que Tua Majestade ordenar, será cumprido.

Vale, da Majestade Tua, fidelíssimo e obrigadíssimo, 
Publio Lentulus, presidente da Judeia".
(uma crônica do saudoso Apollo Natali)

"Já faz tempo que eu pedi / Mas o meu Papai Noel não vem / Com certeza
já morreu  / Ou então felicidade  / É brinquedo que não tem"

sábado, 22 de abril de 2017

OS 517 ANOS DO DESCOBRIMENTO DO BRASIL: 10 CANÇÕES QUE NOS AJUDAM A ENTENDER O SIGNIFICADO DA DATA.

"Então a caravela encalhou / e Cabral mandou descer pra empurrar"
.

"Mas um dia o gigante despertou / Deixou de ser gigante 
adormecido / E dele um anão se levantou"
.

"Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, 
trucidar / Meu coração fecha os olhos e, sinceramente, chora..."
.
"Viva a bossa, sa, sa / Viva a palhoça, ça, ça, ça, ça"
.
"Grande pátria / Desimportante / Em nenhum instante / Eu vou te trair"
.
"Pão seco de cada dia / Tropical melancolia / Negra solidão"
.
"Nas escolas, nas ruas / Campos, construções / 
Somos todos soldados / Armados ou não"
.
"Que país é esse? / É a porra do Brasil!"
.
"A gente não está / Com a bunda exposta na janela / Pra passar a mão nela..."
.

"Por mais um dia, agonia, pra suportar e assistir / Pelo rangido dos dentes, pela 
cidade a zunir / E pelo grito demente que nos ajuda a fugir / Deus lhe pague"

terça-feira, 31 de agosto de 2010

A LEITORA, O TÚNEL DO TEMPO E O SABÃO EM PÓ

Eulália Moreno, minha leitora nos longínquos tempos em que eu atuava em revistas de música, procurou-me pelo meu pseudônimo de então (André Mauro) e acabou chegando ao meu blogue.

Queria mais informações sobre uma edição dedicada à cantora Simone, em que o desfecho do texto principal (por mim redigido) foi, em sua opinião, "premonitório".

Quase trés décadas depois, ainda se lembrava dessas maltraçadas linhas e as queria reler. Com as indicações que forneci, acabou conseguindo um exemplar na editora.

Escaneou e me mandou tudo, capa, entrevista e considerações finais.

Foi com um misto de nostalgia e amargura que reli esse velho escrito, dando-me conta de que, já naquela época, tinha coisas diferentes para dizer, capazes de interessar às pessoas sensíveis.

Mas, tanto como agora, estavam bloqueados os caminhos que conduziam a públicos mais amplos, pois este tipo de reflexão crítica não convém ao sistema.

Eis a passagem que Eulália nunca esqueceu:
"Embriagada pelo sucesso, [Simone] chegou a prometer que se equipararia ao 'Rei', vendendo também 1 milhão de LP's. Com inteira razão, Caetano Veloso observou que se estava encarando um disco como uma caixa de sabão em pó. Simone não arredou pé de sua posição: 'Gente sou eu, o disco é um produto. Como o sabão em pó'.

"(...) Na verdade, essa simpática baiana é uma cantora razoável, ultimamente crescendo como intérprete, e que tem se beneficiado de um bom repertório, produções esmeradas e considerável estoque de truques promocionais. Acima de tudo, é uma pessoa comum, com a qual as pessoas comuns se identificam facilmente.

"Tem, portanto, as condições ideais para ser o médium em que o espírito da indústria cultural baixará por algumas temporadas. E, se não se acautelar, será usada e jogada fora, como tantos outros.

"Sua permanência depende da capacidade de imbuir-se do sentido maior da arte, instância intermediária entre o sonhado e o vivido, que carrega nossas paixões e esperanças, nossos gritos e êxtases, nossa dor e revolta.

"Artista é quem corre riscos, aventura-se pelos meandros do inconsciente, em busca de dávidas para repartir com seu público.

"Pode perder a lucidez, como Syd Barrett ou Arnaldo Dias Baptista. Pode perder a vida, como Janis Joplin [foto acima] ou Elis Regina. Mas deixa sua marca indelével no tempo, através de uma obra arrancada das profundezas do seu ser e que, por isso mesmo, abala, emociona e transforma as pessoas.

"Isso não é questão de técnica. E de nada adiantam os holofotes da indústria cultural, hoje apontados numa direção, amanhã noutra.

"É preciso, primeiro, se convencer de que a arte se constitui em finalidade última, vocação e sacerdócio, e não num meio para se conseguir acesso aos brinquedos da vida.

"E que o disco não é uma caixa de sabão em pó, pois deve conter o que de melhor o artista tem em si".
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