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sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O GRANDE IRMÃO TINHA UMA POLÍCIA DO PENSAMENTO; JÁ O GRANDE FANFARRÃO O CONTROLA COM RECURSOS CIBERNÉTICOS.

rui martins
GROKIPEDIA CONTRA WIKIPEDIA
O
alerta foi dado pelo governador democrata da Califórnia, Gavin Newsom, ao denunciar o TikTok, versão estadunidense, de praticar censura em favor de Donald Trump. 

Newsom recebeu denúncias de usuários do TikTok com dificuldades para postar vídeos sobre a morte do enfermeiro Alex Pretti pela polícia anti-imigração ICE.

O jornal suíço Le Temps publicou com destaque uma reportagem sobre acusações de censura e controle do TikTok, num estranho e perigoso conluio do Vale do Silício com a Casa Branca. 
 
1984 orwelliano vem chegando
Além disto, o próprio uso da inteligência artificial poderia ser manipulado politicamente, pois o ChatGPT passou a utilizar nos EUA, como fonte de informação, a enciclopédia Grokipedia, lançada por Elon Musk para concorrer com a Wikipedia.

O risco é o controle da informação pela IA segundo a versão dos seguidores de Trump, dispensando mesmo a necessidade de censura. Não será ainda o controle total previsto por George Orwell, mas um 1984 regional.

Outro perigo é o de uma enciclopédia desse tipo inventar e impor uma outra narrativa histórica, segundo a visão ideológica de Elon Musk.

Inicialmente serão os conservadores e fundamentalistas eleitores de Trump os utilizadores dessa enciclopédia, mas rapidamente suas interpretações serão difundidas em outros países (como o Brasil), e nas nações com movimentos ultradireitistas influentes e em expansão. 

Já existem mesmo previsões de um fim para a neutra Wikipedia, não se podendo excluir a potência financeira e tecnológica do grupo chefiado por Elon Musk. Os efeitos desses meios de doutrinação e controle se farão sentir nas novas gerações, a longo prazo. 

Estes autoritários são farinha do mesmo saco 
Trump, Musk e a extrema-direita fundamentalista, que deles já dispõem, poderão testá-los na preparação das eleições de novembro nos EUA.

Se já nas eleições brasileiras de 2918 as redes sociais da ultradireita despejavam fake news aos montes, pode-se imaginar o impacto do uso da IA nas de 2026. 

Vale lembrar que a propagação de mentiras e falsificações de notícias terão  o total apoio dos EUA, cujo presidente fanfarrão quer porque quer controlar os países sul-americanos. (por Rui Martins)

quinta-feira, 12 de junho de 2025

TRUMP DÁ A DICA PARA QUEM PRETENDE INGRESSAR NO REINO DOS BILIONÁRIOS: "DELATAI-VOS UNS AOS OUTROS".

A informação é do Jamil Chade e está no UOL Notícias:
"O governo de Donald Trump iniciou uma campanha para incentivar estadunidenses e estrangeiros que estejam vivendo de forma regular nos EUA a denunciar vizinhos, companheiros de trabalho ou qualquer imigrante que não esteja com seus documentos em dia.

Na página oficial da Casa Branca, um cartaz foi postado mostrando o personagem Tio Sam (...) pregando um anúncio sobre como delatar seu vizinho.

Ajude seu país e a si mesmo, diz o pôster. 'Delate todos os invasores estrangeiros', completa a mensagem, que traz ainda um telefone para onde a pessoa pode ligar com as informações".
Só faltou mesmo o valor da recompensa para quem dedar o imigrante ilegal. conforme aparecia nos cartazes com fotos de bandidos procurados do velho Oeste.

Nos tempos bíblicos, a recompensa não era lá grande coisa: 
"Então Judas Iscariotes, um dos doze discípulos, foi ter com os principais sacerdotes e perguntou: 'Quanto estão dispostos a pagar-me para vos entregar Jesus?' Deram-lhe trinta moedas de prata. A partir dali, Judas mantinha-se atento, à espera de ocasião para entregar Jesus" (Mateus, 26:14).

Suponho que o Trump pague mais do que o Caifás para quem for tão abjeto a ponto de degradar-se a esse ponto...

Às vezes até me causa estranheza a lembrança de que um dia minha foto e meu nome apareceram num dos cinco cartazes de procurados, cada um com oito militantes, que a ditadura militar fez afixarem em locais públicos.

O dinheiro dos contribuintes era dilapidado acusando-me de ser um dos "terroristas assassinos" que teriam "assassinado e roubado vários pais de família". Logo eu, que nunca tirei sangue de ser humano nenhum e na guerrilha atuava como comandante de Inteligência e não como participante de ações armadas!

[Faço questão, contudo, de deixar claro que sempre tive o maior respeito e admiração pelos companheiros que arriscavam a vida na luta contra a tirania. Se tivesse recebido tal atribuição, cumpriria meu dever de militante tão bem quanto pudesse. O que eu repudio é um governo ilegal e ilegítimo ter-me imputado crimes que não cometi, mesmo estando ciente de que minha função era outra.]

Eu saíra de casa alguns meses antes, quando tinha caído um companheiro que conhecia a escola onde eu estudava. Ele, contudo, resistiu bravamente durante muito tempo. 

Pensei até que estivesse a salvo, mas, depois do drama que havia sido, para meus pais, verem o filho único ir "correr mundo, correr perigo"(saudoso Torquato Neto!), resolvi assumir a clandestinidade, estivesse ou não sendo procurado.

E o meu temor inicial acabou mesmo se concretizando, ainda que com substancial atraso. Foram no colégio MMDC, encontraram a foto que utilizariam no cartaz e também o endereço dos meus pais, indo em seguida aporrinhá-los em plena madrugada.

E, numa manhã em meados de 1969,  ao passar pela banca de jornais a caminho da padaria, vi um jornal pendurado anunciando o lançamento daquela série de cartazes.

Meu nome e foto apareciam, assim como os do companheiro José Raimundo da Costa, outro membro do Comando Estadual de Sâo Paulo. Por medida de economia, alugáramos juntos um apê na Barra Funda e tinha sido com minha identidade real que eu fechara o contrato.

Ambos fizemos as malas rapidamente, deixando muita coisa para trás, e nos colocamos a salvo. Nunca soubemos se alguém alertou ou não a repressão. Enviamos uma carta ao proprietário do imóvel, pagando um aluguel extra e nos desculpando pelo abandono inesperado.

Os tais cartazes nos assustaram a princípio, mas ninguém da VPR acabou preso por causa deles, embora estivessem espalhados por estações rodoviárias e ferroviárias, repartições públicas, estabelecimentos comerciais, bancos, etc. Passamos a chamá-los zombeteiramente de "galeria dos imortais da Oban"(Operação Bandeirantes). 

Certa vez,  sentei-me à mesa num restaurante e, ao olhar para a parede ao lado, lá estava exatamente o cartaz no qual eu aparecia. Avaliei a situação e conclui que ninguém mais prestava atenção naquele lixo. Tinha se tornado parte da paisagem. Então, o melhor era eu manter a calma e só ir embora depois de fazer a minha refeição; caso contrário, aí sim alguém poderia estranhar.

Logo no início, contudo, eu ainda receava ser reconhecido e, obrigado a viajar para o Rio de Janeiro de ônibus, tendo como único documento um título eleitoral preenchido à mão (facílimo de falsificar, portanto), aceitei o oferecimento de uma aliada ligada ao teatro, que me deu um banho de loja, clareou e encaracolou meu cabelo, fez-me comprar um óculos com armação de tartaruga, mudou todo meu visual.
Viajei vestido como um jovem dândi, com gravata chique, blazer príncipe de Gales tendo emblema de grifo no bolso, óculos me fazendo parecer mais novinho ainda... Coerente com tal figura, eu me apresentava como um inofensivo professor catarinense.

Sobrevivi um ano na clandestinidade (o que não era para qualquer um no auge dos anos Médici) e acabei caindo por confiar demais num aliado de quem me separei lá pelas 23h00 de um dia para reencontrar às 6h45 da manhã seguinte. 

Subestimei a possibilidade de, nesse curto intervalo, ele chegar em casa, ser preso, levado ao DOI-Codi da Tijuca, tomado uns cascudos e estar pronto para me apontar aos agentes no ponto que tínhamos marcado.

Curioso é o fato de, mesmo tendo esses episódios no meu passado, a primeira coisa que sempre me vem à mente, ao ouvir algo sobre delações partidas de pessoas comuns, é o trecho do livro 1984 de George Orwell, no qual um menino da juventude stalinista entrega o pai que, dormindo, gritara "Abaixo o Grande Irmão!"... (por Celso Lungaretti)

sexta-feira, 9 de maio de 2025

CUIDADO COM AS HISTÓRIAS QUE VOCÊ IMAGINA, PODEM TORNAR-SE REALIDADE!

fórmula de mesclar enredos de ficção científica com os dramas reais das ditaduras e das guerras sujas do século passado tem um acréscimo significativo com a minissérie O Eternauta, lançada  em escala mundial no mês passado e que ora começa a ser aqui exibida no streaming da Netflix.  

Só que desta vez a realidade invade não a vida fictícia  dos personagens, mas sim a existência verdadeira do próprio criador da clássica HQ de 1957. o escritor Héctor Germán Oesterheld.   

Mas, deixando o principal para o fim,  lembremos incialmente o exemplo de duas obras primas literárias  ancoradas na realidade e que renderam filmes interessantíssimos.

Refiro-me, primeiramente, à distopia por mim considerada a melhor de todos os tempos: 1984, escrita por George Orwell em 1948, a partir dos acontecimentos que ele vivenciou nos campos de batalha da guerra civil espanhola. 

Esquerdista ingênuo, Orwell foi participar das brigadas internacionais que lutavam contra as tropas golpistas de Francisco Franco e, por mera coincidência, acabou ingressando numa que era controlada pelo Partido Obrero de Unificación Marxista, seguidor de Leon Trotsky. 
Os Juan Salvos dos quadrinhos e das telas
Pôde então constatar ao vivo e em cores que a URSS, única aliada de peso dos valorosos espanhóis, cobrava muito caro pelos mantimentos e armamentos que lhes fornecia: obrigava os trotskistas e anarquistas a, em pleno calor da luta, expurgar seus dirigentes que estavam em desacordo com o desvirtuamento da revolução soviética por parte de um dos maiores carniceiros do século passado, o tirânico Joseph  Stalin.

Atingido por um disparo inimigo, Orwell volta para a Inglaterra e escreve dois livros contundentes, a partir de suas observações da tragédia espanhola: 
--Lutando na Espanha, no qual culpa os soviéticos por terem tirado do povo os motivos que o haviam levado a revoltar-se espontaneamente contra a investida fascista, partindo para a resistência heroica; e 

--1984, uma parábola fictícia mas transparente sobre o desvirtuamento da revolução soviética sob Stalin, responsável inclusive pelo massacre da velha guarda bolchevique nos infames julgamentos de Moscou.

O livro é um arraso, me deixou profundamente chocado quando o li. por volta dos meus 16 anos (até garimpei e encontrei um irmão menor, O zero e o infinito, de Arthur Koestler). 

O film
e, lançado exatamente em 1984, não ficou à sua altura, já que requeria um diretor peso pesado e não, apenas, Michael Radford; mas a força da trama (Orwell foi co-roteirista) e as impactantes atuações de John Hurt e Richard Burton o valorizam muito.

Já o diretor George Roy Hill foi uma escolha bem mais apropriada no caso de Matadouro Cinco (1972), filme no qual quem ficou devendo foi o elenco, encabeçado por Michael Sacks (quem?!). 

Lançado em 1969. o best-seller do Kurt Vonnegut Jr., por sua vez, foi o melhor fruto literário daquela voga contestatória na Europa e EUA; e também tem o autor como co-roteirista.

Começa como uma sci-fi rotineira sobre homem abduzido e suas peripécias com os extraterrestres, mas  a dramaticidade sobe aos píncaros quando a ação, surpreendendo os leitores, se desloca para a cidade alemã de Dresden, alvo de um bombardeio tão inútil quanto criminoso por parte dos aliados na segunda guerra mundial. Piores do que este, só mesmo os de Hiroshima e Nagasaki... 

Torçamos para que a minissérie argentina, ainda no início, acrescente mais uma pérola a esta relação. Nela, o onipresente Ricardo Darin interpreta Juan Salvo, homem comum que se torna viajante do tempo e do espaço ao buscar sua família desaparecida após uma nevasca tóxica.

A arte o conduz à participação num grupo de resistência, inicialmente para sobreviver, depois para o enfrentamento de uma ameaça extraterrestre e, afinal, para cair nas garras dos inimigos. 

Já o escritor Oesterheld foi arrastado pela vida em direção semelhante, pois ele aderiu à guerrilha esquerdista dos Montoneros e o fez juntamente com sua família, acabando por ser sequestrado  em 1977 pelos militares fascistas. 

O desfecho foi trágico: Oesterheld e suas quatro filhas  desapareceram para sempre. Será um milagre se algum dos cinco ainda reaparecer com vida, tanto tempo depois.

Resta saber se o  imaginário Salvo será salvo na minissérie ou vai evaporar também... (por Celso Lungaretti)

sábado, 22 de março de 2025

ESTADOS UNIDOS, TERRA DOS LIVRES E LAR DOS VALENTES? ACREDITE QUEM QUISER...

rui martins
EUA: o perigo do totalitarismo.
Qual o verdadeiro objetivo dos cortes nas pesquisas e instituições científicas dos Estados Unidos, pelo presidente e seu auxiliar direto Elon Musk? O que se pretende com a suspensão das ajudas do governo às universidades e com os controles de professores e alunos, antes não existentes?

A imprensa europeia ainda parece atônita diante das notícias trazidas por professores desejosos de vir ensinar na Europa, contrários ao governo Trump ou prestes a serem demitidos pelas chamadas medidas econômicas.

Difícil de responder, mesmo porque o plano comercial de taxar pesadamente as importações equivale a provocar reações capazes de provocar um aumento da inflação nos EUA. 

A desativação ou diminuição das atividades de setores de ministérios, de ajudas mesmo se interessadas a países estrangeiros como as da Usaid, é feita dentro de um plano bem programado ou com o objetivo de desativar as principais atividades sociais do Estado?

Alguma coisa parecida com aquilo posto em execução na Argentina pelo presidente Milei, elogiado pelos grandes grupos econômicos e bem recebido por economistas e patrões no Fórum Econômico de Davos?

Ou já se trata de se colocar em prática ou estar testando as medidas destinadas a se criar um mundo totalmente diferente, controlado com a utilização de plataformas sociais e inteligência artificial (uma versão atual e mais sofisticada do 1984 de George Orwell: um totalitarismo utilizando câmeras). 

O sistema de controle e vigilância de toda população, imaginado pelo escritor, não é mais ficção e já pode ser instalado em todas as residências, ruas e locais coletivos para funcionar o dia inteiro.

Nos nossos dias, existem diversos países com vontade de controlar a formação de pensamento do seu povo. Reeditando um procedimento mais comum na Idade Média, algumas nações utilizam a censura, felizmente sem fogueiras. 

E, embora possa parecer surpreendente, os Estados Unidos, um dos países nos quais mais se fala atualmente em exercício da liberdade de expressão, é um dos maiores utilizadores da censura.

O jornal suíço Le Temps dedicou duas páginas da sua edição de fim-de-semana para destacar a existência de mais de 4 mil livros censurados nas bibliotecas e escolas estadunidenses, perguntando qual seria a sequência dessa vaga liberticida.
Entre os livros censurados estão O diário de Anne Frank, o próprio 1984 e Fahrenheit 451, de Ray Bradbury.

Essa realidade foi mostrada no documentário Os Bibliotecários, de Kim A. Snyder, exibido em janeiro no Festival do cinema independente de Sundance, em janeiro. Isso nunca se viu, nem na época do macartismo, se diz no documentário. Vale lembrar que a Constituição estadunidense garante a liberdade de expressão e a liberdade acadêmica.

Mas não é tudo e não vem só de Trump, mas também dos fundamentalistas que o apoiam desde o primeiro mandato. Nos dois últimos anos, houve mais 10 mil pedidos processuais de censura de livros, bem como de álbuns e manuais escolares tratando do período da escravidão e da luta pela liberdade e direitos cívicos dos afroamericanos.

Basta uma frase ou uma imagem para o livro ser catalogado como obsceno ou pornográfico pelas associações e grupos de pressão de fundo religioso nacionalista cristão.

O jornalista Jean-Jacques Roth afirma não serem só livros mas haver palavras e expressões proibidas pelo mundo trumpista numa ofensiva lançada contra a cultura, contra a ciência e contra a espinha dorsal do racionalismo moderno. 

Desde o primeiro mandato de Trump eram proscritos nos Centers for Disease Control os termos e expressões feto, diversidade, transgênero, baseados na ciência e apoiados por provas

Existe na era Trump uma enorme profusão de proibições, tais como as que incidem sobre designado homem ao nascer, identidade de gênero, LGBT, pessoas grávidas

Devem, ainda, ser evitados os termos ou expressões diversidade, justiça social, raça, etnia, discriminação, racismo

Trata-se de uma guerra de purificação léxica, destinada a desqualificar tudo quanto se relacione com valores progressistas e com os conceitos das ciências políticas e sociais. 

De acordo com Jean-Jacques Roth, o objetivo é o de se criar um mundo onde o real não se relacione com a razão mas sim com a vontade do poder dominante,
um mundo no qual não se procura a verdade mas no qual se decreta o que deve ser verdade. Isso tem um nome: totalitarismo
(por Rui Martins)

sexta-feira, 14 de março de 2025

DOIS DESAFIOS: O DO VELHO BLOGUEIRO E O DO PISTOLEIRO DESILUDIDO.

Depois de passar um constrangedor período de oito dias sem postagem nova, o blog Náufrago da Utopia levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima. 

Não foi ainda desta vez que os ex-querdistas, ansiosos pelo esvaziamento do pensamento crítico e pelo abandono do combate intransigente ao capitalismo, livraram-se desta pedra no sapato deles. 

Mas, como não sou nem pretendo ser um homem de ferro, será aos poucos que atualizarei minhas análises sobre o estágio atual da agonia do capitalismo. 

O regime da exploração do homem pelo homem agora parece retornar aos contornos da distopia célebre de George Orwell, 1984, sobre três grandes blocos de poder disputando a hegemonia, mas priorizando, acima de tudo, usar os rivais como espantalhos para manter abúlicas as massas que exploram, intimidam e humilham.  

O retrocesso civilizatório se torna cada vez mais profundo e chocante, nos fazendo suspeitar de que chegaremos finalmente ao ponto de não-retorno. Mas disto trataremos em posts vindouros.

Por enquanto, vou me conceder a satisfação que sempre tenho em revelar aos leitores uma ou outra exceção no esgotamento do bang-bang como gênero cinematográfico. 

Isso me emociona desde que fui um dos poucos críticos a saudar no ato o surgimento do western italiano como um fenômeno importante na sétima arte. Isto eu fiz muito antes de Quentin Tarantino deslumbrar-se com a genialidade de Sergio Leone e Ennio Morricone, inclusive reverenciando em Kill Bill o clássico duelo na arena redonda...

O filme subestimado da vez é Desafio de um pistoleiro, que passou despercebido pelos cinemas mundiais em 1995 e só veio a ser notado a partir de sua inclusão nos pacotes das novas mídias.

Tal qual Keoma, de Enzo G. Castellari (1976), ora alçado a cultDesafio de um pistoleiro, de Larry Ferguson (1995) parece ser o desabafo de um diretor obrigado a entregar um montão de tralha cinematográfica até que, num afortunado momento, conseguiu  boas condições para realizar o filme com o qual sonhava. 

Algo tipo "vejam só o que eu poderia ter feito sempre se a indústria cinematográfica me bancasse".  

Também roteirista e ator, Ferguson não só soube criar uma história diferente do ramerrão dos westerns outonais que pululavam em fins do século passado, como descobriu seu intérprete ideal num eterno coadjuvante que aproveitou bem a chance de ombrear-se ao Clint Eastwood ou ao Franco Nero. 

Lance Henriksen tem um desempenho tão marcante que nos leva a indagar por que nenhum outro diretor pensara nele como anti-herói de faroeste.

Não se trata, evidentemente, de um novo Três homens em conflito, mas quem esperava muito pouco desse filme desconhecido teve uma grata surpresa. Foi o meu caso.

Duelista famoso do velho Oeste decepcionou-se com a vida que levava e procura manter-se incógnito num povoado mexicano para não ter de continuar matando os tolos que o provocavam, ansiosos por herdarem sua lenda.

Quando recebe um pedido de ajuda da única mulher que amara, faz longa viagem para ir atendê-la, com a esperança de reatar o antigo romance. Mas, como uma amarga ironia, ela não estava necessitada do homem cuja vida perigosa não quisera compartilhar, mas sim do atirador que pudesse salvar o marido marcado para morrer. 

E que, ao ficar conhecendo a filha que nem sequer vira nascer, é obrigado a escolher entre a retaliação (omitir-se) que até se justificaria num caso desses e o dever paterno de zelar pela segurança e felicidade da moça que outro homem estava criando no seu lugar. (por Celso Lungaretti)

 

sábado, 21 de setembro de 2024

BEM QUE GEORGE ORWELL NOS ALERTOU CONTRA A POLÍCIA DO PENSAMENTO: HOJE, OS PATRULHEIROS CRICRIS GERAM PÂNICO

Q
uase vomitei ao ver exposta na vitrine do UOL a seguinte chamada:
Narrador usa termo racista durante jogo do Cruzeiro; canal pede desculpas.

E não foi por se tratar de uma besteirinha que nunca deveria ter recebido de tal portal tamanho destaque, mas sim por revelar que jornalistas brasileiros, mesmo os de um canal do YouTube setorista de time de futebol, estão pisando em ovos quando exercem seu ofício, intimidados por uma repulsiva Polícia do Pensamento que mantém estreitamente vigiadas as artes e comunicações.

Assim, o narrador perguntou ao repórter de campo como se chamava o jogador coloured que fazia aquecimento para entrar na equipe mineira, em jogo da Copa Sul-Americana. Como o repórter mostrasse não ter entendido direito a pergunta, o narrador especificou: aquele escurinho.

Ou seja, ambos se enrolavam com os eufemismos utilizados para não usarem as palavras negro ou preto, pois há sempre chance de uma ou outra estar no index do Santo Ofício do século 21, que atende pelo nome de redes sociais.

Aí o dono do canal correu a intervir, pedindo desculpas aos telespectadores pelo ocorrido: "Isso foi um ato que a gente não tem que praticar, que é o racismo".

Não, um ato pior ainda para um comunicador é não enfrentar os reais problemas, preferindo saídas fáceis como a escolha hipócrita das palavras.

Faz lembrar a distopia
1984, de George Orwell, que mostra um país inteiro obrigado a cultuar a personalidade do seu dirigente máximo, a ponto de uma criança delatar seu pai às autoridades por ouvi-lo falar, durante o sono, "abaixo o Grande Irmão!".

Torno a repetir: censurarmos os termos com os quais nos referimos às coisas do mundo só acrescenta artificialidade à nossa comunicação, pois é preciso muito mais para eliminarmos realidades deploráveis como o racismo, o machismo, a xenofobia, o etarismo, etc. 

Temos, isto sim, de transformar esta sociedade na qual os privilégios de uma pequena minoria são mantidos à custa da manipulação da consciência da grande maioria, inclusive com a lavagem cerebral que a indústria cultural realiza o tempo todo, exacerbando ao máximo a competição insana entre iguais, para que eles jamais consigam unir-se a fim de extinguirem todas as formas de exploração e desigualdade entre os seres humanos. 

O termo a ser banido é outro, muito mais nefasto: capitalismo. Este sim precisa desaparecer de nossas falas e de nossas escritas por obsolescência, pois é o grande obstáculo à felicidade das gentes nestes tristes tempos presentes.

O teatro da revolução não substitui nem jamais substituirá a revolução ela mesma. (por Celso Lungaretti)

O verso inicial deste tributo a Martin Luther King é "Sim, sou
um negro de cor". Hoje os patrulheiros cricris chiariam...

sexta-feira, 8 de setembro de 2023

NASCIDO DA REJEIÇÃO AO TOTALITARISMO ULTRADIREITISTA, O GOVERNO DO PT É UMA DECEPÇÃO: AUTORITÁRIO E RETRÓGRADO!

Em 2004/2005 consegui esclarecer o episódio da luta armada do qual decorrera minha estigmatização injusta. Levei quase 35 anos, mas resgatei a verdade. 

Pensava que, dali em diante, teria possibilidade de dar uma contribuição bem mais efetiva à causa revolucionária. Só que a sensação de alívio me deixou otimista demais. 

Antes mesmo de ser marxista, já sabia o quanto um Estado todo poderoso pode destruir qualquer indivíduo. Lera Kafka, que expressava seus pesadelos de forma artística, mas também George Orwell e Arthur Koestler, que partiam da história real dos julgamentos stalinistas.

Contudo, enfrentando uma ditadura assassina, esqueci um pouco esse lado, tentando crer que tudo se resolveria depois que nos livrássemos dos militares.

Até que experimentei na carne tudo que um Estado pode fazer tendo poder de vida e de morte sobre um cidadão. Concluí então que nada, absolutamente nada, justificava conceder aos Estados tal poder.

Ao voltar à liberdade, estava decidido a não transigir mais com os regimes esquerdistas autoritários, proponentes ou praticantes da ditadura do proletariado. E a esquerda brasileira, infelizmente, tem um acentuado vezo autoritário, a ponto de até partidos com tradição trotskista defenderem a estatização da economia.

Como se a experiência soviética já não tivesse sido uma comprovação cabal de que todos os Estados tendem a se tornar leviatânicos, dominados por nomenklaturas! Estatizar 100 empresas significa apenas dar a essas excrescências mais 100 opções para concederem a si próprias privilégios inacessíveis aos trabalhadores.

Adorei quando li O Estado e a revolução (1917), do Lênin, no qual ele teorizou que a função do Estado, num regime revolucionário, seria a de criar as condições para sua extinção por se ter tornado supérfluo. 
O filme Leviatã mostrou o Estado russo tão monstruoso
sob o comunismo quanto na atual volta ao capitalismo
Pena que isto nunca aconteceu. Todas as nomenklaturas só fizeram aumentar cada vez mais o poderio estatal que as beneficiava, até serem desalojadas pela força.

Eu quase vomito quando vejo esquerdistas vibrando com o pré-sal e defendendo com unhas e dentes a Petrobrás, pois deveriam é estar defendendo com unhas e dentes a substituição dos combustíveis fósseis por energia limpa, para salvar a humanidade!

Enfim, desde 1973 sou totalmente contrário a todas e quaisquer ditaduras, inclusive a do proletariado, e coloco como metas revolucionárias primordiais a justiça social e a liberdade, em pé de igualdade. Não aceito de forma nenhuma que se sacrifique a liberdade em nome da justiça social, pois sei que isto sempre acaba mal.

Mais: a defesa dos direitos humanos se tornou uma das linhas-mestras da minha atuação. Como não sou caçador de holofotes, evito oferecer minha colaboração a todas as lutas travadas, mas nunca deixei de fazer o máximo que podia quando companheiros vieram me pedir ajuda para o bom combate. 

Consegui levar a bom termo algumas batalhas, noutras a vitória era impossível, mas tentar, sempre tentei. Revolucionário de minha geração jamais recusa pedidos formulados em nome da solidariedade revolucionária.

Com relação ao desenho de um regime revolucionário, eu penso na organização das atividades produtivas de forma a atender as necessidades coletivas e viabilizar o bem comum. Já existem condições tecnológicas para todos disporem de tudo que necessitam para uma existência gratificante e digna, e isto trabalhando bem menos do que na atualidade. A autogestão se disseminaria, tirando do Estado o poder de impor gestores a seu bel prazer.

Quanto ao que cada indivíduo quisesse fazer com seu tempo livre, considero que não seria problema do Estado, desde que não explorasse outras pessoas para enriquecer cada vez mais, colocando em xeque a base igualitária do regime. Que cada um empreendesse, criasse, inventasse, mas essa esfera secundária nunca poderia adquirir poder suficiente para competir com a principal.

Se a vida deixasse de ser uma batalha de todos contra todos, quem sabe as pessoas espontaneamente preferissem desfrutá-la em comunhão com as outras pessoas ao invés de moverem céus e terras para se colocarem em patamar superior a elas. (por Celso Lungaretti) 
Observações: o texto acima é de 08/10/2022 e não foi então publicado na forma de post, mas sim como resposta a um comentarista. 

Hoje, contudo, resolvi transformá-lo em post, para traçar um paralelo com o novo governo do PT, que se vendeu como uma alternativa ao totalitarismo bolsonarista e agora arranca a máscara, mostrando-se não só autoritário como, inclusive, retrógrado, embora nunca vá chegar ao cúmulo de sabotar o combate científico a uma pandemia ou iniciar golpes de Estado.   

Achei mais útil dar o recado da forma como estou dando agora (o link do post original. que o ensejou, é este), colocando em destaque meu desenho de uma sociedade pós-capitalista e como cheguei a ele. No mínimo, isto pode motivar os leitores a refletirem sobre o assunto.

De resto, faço uma ressalva: mais importante do que detalharmos aonde queremos chegar é, neste momento, discutirmos como poderemos lá chegar. 
Sendo a correlação de forças muito desfavorável a nós em escala mundial, nosso grande desafio é fazermos crescer acentuadamente as fileiras revolucionárias, pois enquanto o embate principal for entre o capitalismo (tendo a esquerda reformista como força auxiliar) e o fascismo, não chegaremos a lugar nenhum.

Já passou da hora de a esquerda deixar de submeter-se à chantagem que a desfigura: a de ter de alinhar-se com os capitalistas civilizados para evitar a prevalência do capitalismo bestializado.

A opção pelo mal menor se eternizará enquanto não recolocarmos a luta na ótica correta: a civilização (encarnada na superação do capitalismo, sem a qual a humanidade tem os dias contados) contra a barbárie (encarnada tanto no capitalismo civilizado quanto no capitalismo bestializado).

É fundamental voltarmos a desenvolver uma atuação autônoma, acumulando forças para, tão cedo quanto possível, representarmos uma alternativa de poder, ao invés de nos avassalarmos vergonhosamente ao médico capitalista por paúra do monstro capitalista, esquecendo-nos de que o dr. Jekyll e Mr. Hyde são a mesma pessoa. (CL)  

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

ORWELLIANO PLANO DE FLAVIO DINO É MAIS UMA AÇÃO INÚTIL DE QUEM NÃO QUER ENFRENTAR O CAPITALISMO DE FRENTE


 Orwellianamente chamado de Pacote da Democracia, as propostas de Flávio Dino para responder aos atos bolsonaristas de 8 de janeiro são absolutamente mais do mesmo e nem de longe tocam no essencial. 

Em certo sentido, pioram o que já é ruim, ao criar uma esdrúxula Guarda Nacional para patrulhar a Praça dos Três Poderes, ampliar penas, instituir censura de conteúdo das redes sociais e mesmo inventar tipos penais, como a de uma espécie de regicídio, ampliando punições contra quem atentar contra a vida dos chefes dos (podres) poderes. 

A patetice de uma Guarda Nacional é índice do quanto no Brasil existe uma verdadeira tara por forças de segurança, pois somos campões em polícias, existindo polícia até para quem já está preso, a Polícia Penal, afinal o crime não descansa mesmo dentro de nossos presídios... 

A ideia baldia de ampliar punições mostra ter o lulopetismo não apenas uma tara com a polícia, mas também um desejo recôndito de ser também um policial. Vigiar e Punir. Talvez não apenas ser um policial, mas também reis, por isso qualificar a morte dos chefes dos Poderes, pois a vida deles vale mais que a vida do comum dos cidadãos. 

Mas o auge é a implementação de censura nas redes sociais, obrigando por lei plataformas a retirar conteúdos considerados nocivos contra a democracia. O que é ser nocivo? Obviamente, a resposta desta pergunta depende de a quem você pergunta. 

O pior destas medidas não são elas próprias, mas o fato de serem inócuas. A lei antidrogas, por exemplo, endurecida pelo próprio Lula em sua primeira passagem no governo, só serve para ampliar a repressão, matar milhares de pessoas e jogar outras milhares em masmorras, nunca tendo impedido ninguém de fumar um baseado ou cheirar uma cocaína. 

Repressão jurídica e mais polícia nunca é o caminho para lidar com fenômenos sociais e políticos complexos. A ascensão da extrema direita ao redor do mundo não ocorre por falta de censura, polícias ou punições, mas porque existe uma dinâmica socioeconômica a alimentando e tal dinâmica é o capitalismo em sua fase agonizante. 

A reorganização neoliberal do capitalismo produziu um panorama social de oligopólios, criando super bilionários ao mesmo tempo em que arruinava milhões de pequenos proprietários, destroçava parques industriais, proletarizava a classe média e jogava na miséria bilhões. Quando a era neoliberal colapsou em 2008, abriu-se uma perspectiva revolucionária expressa do Ocuppy Wall Street às Primaveras Árabes, passando pelas Jornadas de Junho de 2013. O fiasco destes movimentos abriu passagem a movimentos reacionários, bancados pela plutocracia capitalista, mas capturando o sentimento popular de indignação contra o dito sistema

Se punitivismo derrotasse a extrema-direita,
Hitler, que amargou anos de cadeia, não teria
virado ditador da Alemanha. 
De modo muito resumido, esta é a raiz do movimento de extrema direita espalhado pelo planeta na última década e cuja encarnação, no Brasil, se deu através da figura de Jair Bolsonaro. Combater isto pelo plano meramente institucional é ilusório, até porque, ao contrário de movimentos de esquerda, o reacionarismo conta com apoio maciço das elites econômicas e seus braços militares, jurídicos e policiais. 

Na realidade, conforme provado pela experiência da Social-Democracia Alemã na década de 1920, o fortalecimento das estruturas repressivas acaba fortalecendo a própria extrema-direita, seja ampliando os poderes de seus agentes nos órgãos repressivos, seja criando mecanismos posteriormente usados quando ela chega ao poder. 

O caminho certo para combater as forças reacionárias é mediante ações políticas, de mobilização popular e de desmonte das bases econômicas que as sustentam. Mas, para isso, seria necessário enfrentar minimante a estrutura capitalista, coisa muito longe dos tímidos planos de Lula e de seu ministro Dino. (por David Emanuel Coelho)

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