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quinta-feira, 28 de maio de 2026

HOMENAGEANDO O FLÁVIO BOLSONARO E TODOS OS BONS VASSALOS DO BRASIL

CORINGA
Ser bom vassalo o que é?
Me responda quem souber.

CORO
Ser bom vassalo é esquecer
aquilo que a gente quer,
aquilo pelo que um dia lutamos,
aquilo em nome do qual  
companheiros estimados 
morreram e sofreram.

CORINGA
Só quer ser um bom vassalo,
quem vive seu bom viver,
quem explora e não é explorado,
quem tem tudo pra perder!
(trecho da peça Arena conta Tiradentes    

quarta-feira, 13 de maio de 2026

HOJE É DIA DE RELEMBRAR O 'TEATRO DO OPRIMIDO' E A PEÇA 'ARENA CONTA ZUMBI'

Se eu tivesse de escolher a melhor peça teatral brasileira de todos os tempos, cravaria sem pestanejar Arena conta Zumbi, que estreou no dia do trabalhador de 1975, mas serve também, até melhor, para marcar o dia da libertação dos escravos (hoje).

Afora o verdadeiro achado que foi, para compensar a parcimônia de recursos do teatro do oprimido, a criação do sistema do curinga (os mesmos atores alternam-se na representação de vários personagens, só mudando um ou outro item da indumentária), tratou-se de uma peça brilhante e indignada: expressou a frustração e a raiva pela rendição sem luta de 1964, uma das páginas mais vergonhosas da esquerda brasileira ao longo da História. 

Quando a censura forçava os artistas a recorrerem a subterfúgios para conseguirem levar sua mensagem ao público, a saga dos quilombos foi utilizada para simbolizar o ascenso dos movimentos de massa e seu esmagamento pelo golpe militar. 

Os paralelos, ironias e insinuações perpassam todo o espetáculo. Há, inclusive, uma velada conclamação à luta armada, que dali em diante se tornaria cada vez mais explícita no teatro, no cinema e na MPB. 

E o elenco era um arraso, com o próprio Guarnieri, Lima Duarte, David José, Dina Sfat, Marília Medalha, Carlos Castilho, etc.

Para os jovens conhecerem e os menos jovens matarem as saudades, eis o disco da peça, com 45 minutos de músicas (do Edu Lobo, algumas das quais se tornaram clássicos da MPB), diálogos e até o discurso de posse de um mandatário linha dura, cuja retórica é uma paródia hilária dos zurros dos golpistas de 1964. 

Para finalizar, uma curiosidade: foi a primeira peça de teatro adulto a que assisti, em temporada popular no Theatro Artur Azevedo. Tinha 14 anos e a epopeia dos quilombolas me impactou fortemente. (por Celso Lungaretti)
Para acessar o áudio completo da peça, copie
e cole no navegador este endereço:
 
https://youtu.be/RWzgOam2J8o?list=RDRWzgOam2J8o

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

10 ANOS APÓS A MORTE DE SARACENI, UM NOVO DESAFIO ESTÁ NAS RUAS

Paulo César Saraceni morreu em 2012.

Tinha 78 anos e fazia cinema desde 1959.

Em mais de meio século de atividades, dirigiu 13 filmes, nove dos quais também roteirizou.

Foi um dos fundadores do  cinema novo, mas nem de longe fez obras de importância equiparável às dos dois outros parceiros de empreitada: Glauber Rocha (indiscutivelmente, o maior cineasta brasileiro de todos os tempos) e Nelson Pereira dos Santos (bem mais prolífico e realizador de clássicos como Rio 40 Graus e Vidas Secas).

No entanto, Saraceni constituiu-se numa referência muito forte para minha geração, por um único motivo.

Seu O Desafio, lançado em 1965, foi provavelmente a primeira resposta cinematográfica à quartelada.

Enfoca os sentimentos de culpa, impotência e prostração subsequentes à vergonhosa derrota sem luta.

Foi o mal-estar que acometeu toda aquela esquerda: supunha-se a um passo do poder, iludida pelo triunfalismo inconsequente do Partido Comunista Brasileiro e seu principal dirigente (Luiz Carlos Prestes), mas acordou ouvindo marchas militares no famigerado 1º de abril de 1964.

E dá-lhe más ressacas! E dá-lhe lavagens de roupa suja! E dá-lhe lutas internas no partidão! E dá-lhe rachas!

Em 1965, a esquerda lambia as feridas e se reconfigurava, voltada para dentro de si mesma. Não reagia.

Aí, foi lançado
O Desafio. E juro! o título apareceu pichado nos muros de São Paulo. Só o título, com a tinta escorrendo. Eu tinha 14 anos, via aquilo e nada entendia. Ignorava que fosse uma mensagem vinda das catabumbas: não estamos mortos!

Só em 1967, dando os primeiros passos no movimento estudantil, fui assistir ao filme e compreender o motivo das pichações.

E, francamente, não gostei daquele imenso desencanto que ele flagra, o atoleiro no qual se move Marcelo, o personagem politizado (interpretado pelo Vianninha, de saudosa memória), durante quase todo o tempo.

Mas vibrei com o final, quando ele enfim levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima, decidido a voltar ao bom combate.

Isto ficou apenas sugerido, como se fazia necessário sob o tacão da censura. Depois de um porre com um repulsivo colega de trabalho, vão ao apartamento deste, cuja esposa se despe e se-lhe oferece. Antes que ele tenha qualquer reação, o marido acorda e fita ambos, em meio à sua névoa alcoolica. 

Marcelo empurra a mulher e vai embora, enojado. Desce uma escadaria com expressão resoluta, afaga a cabeça de um menino pobre e se distancia, marchando ao encontro do seu destino.

Tudo isto ao som de um tema da peça Arena conta ZumbiÉ um tempo de guerra,  canção que Augusto Boal, Gianfrancesco Guarnieri e Edu Lobo haviam derivado da poesia antológica de Bertolt Brecht, para usar o esmagamento do quilombo de Palmares como metáfora do golpe militar.
Na peça, era a lição que um guerreiro às portas da morte legava aos que viriam depois. Uma sugestão velada também, claro ("Eu sei que é preciso vencer/ Eu sei que é preciso lutar/ Eu sei que é preciso morrer/ Eu sei que é preciso matar"). 

Só que parecia algo meio distante, lá pra frente, pois o momento era de derrocada.

No filme, ficou mais fácil perceber que se tratava do passo seguinte, imediato: um recado de que não só a luta tinha de ser retomada, como assumiria doravante características de guerra.

Foi profético. Houve mesmo a guerra, de consequências trágicas para a esquerda (quantos quadros insubstituíveis foram dizimados!), mas inevitável: ela só reconquistaria o respeito do povo caso se dispusesse a sangrar por seus ideais, como deixara de fazer em 1964.

Muitos dos que não pegaram em armas recriminaram nosso  vanguardismo, nosso imediatismo pequeno-burguês. Segundo eles, só servíramos para acirrar a repressão e fornecer pretextos para o endurecimento do regime.

Omitiram ter sido exatamente sua tibieza em 1964, quando deixaram de travar a luta em condições bem mais favoráveis, que nos obrigou a assumir adiante a missão quase kamikaze de lavar a honra da esquerda, virando a página da desmoralização e restituindo-lhe a credibilidade. 

Resolvi rememorar o desafio de 1965 porque um novo desafio será lançado às forças da intolerância e do retrocesso daqui a três, diante da Faculdade de Direito da USP,  no Largo São Francisco, com a leitura de dois manifestos antigolpe que têm tudo para detonarem as últimas esperanças do presidente delinquente. 

Aqueles que pensam por ele (pois se trata de uma faculdade da qual o Bozo é carente) temem que o ato da 5
ª feira consolide definitivamente a rejeição ao celerado, desencadeando a revoada dos apoiadores comprados por cargos e verbas públicas para a arca de Noé do Lula, na qual cabe tudo, até cobras e lagartos...

Nisto, pelo menos, eles estão certos: tal página, uma das mais vergonhosas da História do Brasil, deverá mesmo começar a ser virada nesta quinta.

Enquanto esperamos, que tal darmos uma olhadinha em O desafio, para irmos entrando no clima? (por Celso Lungaretti) 

sábado, 6 de julho de 2019

ESBULHO DOS DIREITOS PREVIDENCIÁRIOS É FÓRMULA PARA SALVAR-SE O CAPITALISMO SACRIFICANDO OS SERES HUMANOS – 1

dalton rosado
A RACIONALIDADE APARENTE E A IRRACIONALIDADE INTRÍNSECA DA REFORMA DA PREVIDÊNCIA
Quando um bandido coloca uma arma na cabeça de sua vítima e faz a pergunta clássica dos assaltantes (a bolsa ou a vida?), o racional é entregar o objeto do assalto, pois a vida é bem mais importante do que qualquer conteúdo econômico existente na bolsa. 

Da mesma forma, nenhum dos parlamentares ou membros do Poder Executivo (ou ainda, todo o universo dos detentores do capital) ousa afirmar que a reforma da previdência não seja necessária. 

Tal reforma consiste, essencialmente, na imposição do esbulho de direitos previdenciários, a serem sacrificados no altar da manutenção da lógica capitalista neste momento de implosão interna por força de suas contradições funcionais, que atingiram o estágio de disfunção social plena. 

Antes tal debacle era mascarada pela possibilidade de manutenção da escravidão indireta do trabalho abstrato. Agora, no entanto, já não é mais possível a humanidade conviver com um contrato social que se tornou anacrônico e escancara a a sua irracionalidade e espírito segregacionista. Como diz o sábio adágio popular, o mal por si destrói.

O esbulho se dará com o aumento do tempo exigido de contribuições previdenciárias e descontos salariais, bem como com a redução das aposentadorias a patamares irrisórios. 

Trata-se de enfiar goela dos brasileiros adentro os sacrifícios necessários para a manutenção de uma lógica de produção social cujo prazo de validade expirou.

Ora, quando se raciocina com uma arma apontada para a cabeça, o racional é ceder às exigências de quem detém a arma.  No caso da exigência e consequente aceitação do esbulho, a arma apontada para a nossa cabeça é a lógica funcional do capital em fim de feira, desesperado, mas ainda detentor do poderio bélico militar e da institucionalidade opressora. 

Na atualidade mundial, o desemprego estrutural causado pelo uso da tecnologia de ponta na produção mercantil tornou evidente a irracionalidade da produção social de valor a partir do trabalho abstrato (assalariado). 

Sacrifícios inauditos são o preço que os seres humanos pagam para a manutenção de uma relação social irracional. Já do ponto de vista dos defensores da sobrevida do capital, o irracional é racional. 

A vida social da humanidade poderia ser substancialmente facilitada graças ao estágio atingido:
— pela capacidade de produção industrial e pelos serviços proporcionados pela disseminação dos recursos tecnológicos da microeletrônica, que viabilizou a comunicação via satélite; 
 pela computação, que racionaliza procedimentos e faz cálculos infinitesimais em segundos, além de proporcionar a memória armazenada de trilhões de informações; e 
 por outros tantos elementos antes inimagináveis, aliados à apreensão do saber sobre tantas áreas do conhecimento (agricultura, medicina, engenharia genética, etc.).

Mas, sob a égide do capital, tais benefícios se tornaram um entrave à existência da relação social sob o capital e, assim, ao invés de trazerem felicidade, todos os avanços tecnológicos se constituíram como malefícios sociais relativos (em alguns casos) e absolutos (noutros casos).

Ao invés de reduzirmos o tempo de atividade laboral de todos mediante um esforço coletivo de produção social, o que se observa na reforma da Previdência é justamente o contrário: exige-se de cada um que dedique mais tempo do seu cotidiano à dura labuta, e isto no exato momento em que temos 13 milhões de desempregados buscando o que fazer. 

Poderíamos usar o esforço proporcional de todos na produção social dos bens indispensáveis ao consumo, e no sentido de que sobrasse mais tempo para se dedicarem às atividades afetivas, de lazer, esportivas, da arte em todos os seus múltiplos segmentos, do cuidado com a saúde, etc., que seriam tornadas possíveis a partir de uma subsistência mais cômoda sob outros critérios de produção. 

Exige-se, entretanto, que trabalhemos por mais anos e que contribuamos com mais dinheiro para o gozo da aposentadoria, ao mesmo tempo que diminuirá o intervalo entre a concessão do benefício e a morte. 

A longevidade humana proporcionada pelos avanços da medicina, antes de se tornar um bem para a humanidade, torna-se um estorvo para as contas previdenciárias. Tudo sob o capital é negativamente contraditório.  

É a vitória do irracional sobre o racional como se tudo fosse muito racional e inquestionavelmente certo; é a irracionalidade racional. (por Dalton Rosado)
"Quem esquece a própria vontade, quem aceita não ter seu desejo, é tido
por todos um sábio. É isso que eu sempre vejo. É a isso que
eu digo NÃO!" (Arena conta Zumbi)
(continua)

domingo, 5 de maio de 2019

O JOGO DA VIDA ÀS VEZES É CRUEL DEMAIS CONOSCO: MAIS UM COMPANHEIRO IMPRESCINDÍVEL NOS DEIXOU!

Bacanaço (Maurício do Valle) e Perus (Guarnieri)
O filme para ver no blog de hoje é  muito especial: trata-se de uma homenagem a um companheiro e amigo querido, falecido no final da tarde deste sábado. 

De família abastada sergipana, José Mozart Pinho de Meneses (ou, simplesmente, Mozart Meneses) botou na cabeça que tinha de vencer às próprias custas em São Paulo. Cursou Direito no Mackenzie em meio a grandes apuros financeiros, aceitando todos os empregos que lhe apareceram pela frente, inclusive o de leão-de-chácara de casas noturnas e de um famoso salão de sinuca na avenida Ipiranga, quase esquina com a avenida São João.

O escritor João Antônio era frequentador assíduo deste último e lá presenciou um episódio marcante sucedido com o Mozart. Ficou tão impressionado  que o incorporou no conto Malagueta, Perus e Bacanaço (o principal de seu livro de estréia, a premiada antologia homônima). 

Seria exatamente deste conto de 1963 que o cineasta Maurice Capovilla derivaria seu ótimo filme de 1977, O jogo da vida, abaixo disponibilizado.

Uma das pérolas do cinema sério que também se fazia na boca do lixo de São Paulo (embora esta seja mais lembrada pelas pornochanchadas), mostra as peripécias de três perdedores contumazes nas batalhas da vida que saem pela noite paulistana depenando jogadores piores nos salões de sinuca, até que encontram um jogador muito melhor do que eles.
A exibição de Joaquinzinho: uma aula!

Um filmaço, com atuações inesquecíveis de Gianfrancesco Guarnieri, Lima Duarte e Maurício do Valle, ótimo tema musical de Chico Buarque e participação de um lendário campeão de snooker do passado, Carne Frita

A performance de Joaquinzinho, na partida final, também é de arrepiar: foi filmada em plano-sequência (ou seja, sem truques nem artifícios de montagem) e ele simplesmente encaçapa de verdade todas as bolas, uma após outra.

Quanto ao Mozart, formou-se advogado e foi razoavelmente bem sucedido na profissão, conseguindo suas vitórias mais à custa de psicologia intuitiva, retórica dramática e blefes aplicados na hora certa que da pesquisa dos tediosos textos legais. Era um improvisador nato, capaz de tirar os mais inesperados coelhos da cartola.

Igualmente original foi seu desempenho no palco da vida. Começou formando a chamada Cacimba, um grupo de ajuda mútua dos nordestinos que vinham ganhar a vida em São Paulo; depois, quando mais a ditadura militar separava e intimidava as pessoas, mais ele se empenhou em aproximá-las por meio de atividades artísticas, espetáculos de poesia, edições independentes de livros, além de festas, muitas festas! [O nome de Grupo Cacimba foi mantido, embora sua tônica não fosse mais nordestina.] 
O escritor João Antônio com os atores

O papel do Mozart, que hoje qualificaríamos como sendo o de um animador cultural, foi inestimável para que conseguíssemos manter o equilíbrio e a serenidade naquele período em que éramos tanto e tão rudemente golpeados pelo inimigo, além de bombardeados por notícias terríveis o tempo todo. 

Nem que fosse só declamando nossos  versos para meia centena de pessoas na platéia, sentíamo-nos fazendo algo útil; e era importante que assim nos sentíssemos, para não cedermos à tentação de agir de forma temerária quando nada havia para ganharmos e a vida para perdermos.

Quem o conheceu, jamais o esquecerá. E os que vieram depois, tomara que nunca passem pelas situações que tornavam os Mozarts tão necessários naqueles tempos nefandos (que, aliás, pessoas nefandas  tentam trazer de volta, sendo fundamental nos empenharmos com todas as nossas forças para que elas fracassem!).

quarta-feira, 18 de abril de 2018

SEMANA TIRADENTES/5 = CANCIONEIRO DA LIBERDADE

Previsivelmente, algumas de nossas melhores criações musicais libertárias giram em torno da figura exemplar de Tiradentes. Vale a pena lembrar aqui seis delas,
mesmo porque a indústria cultural, também de forma previsível, as
relega ao mais injusto esquecimento. Quatro são para
ser ouvidas e duas apenas lidas, pois
jamais foram gravadas.

1. Tema de Os inconfidentes (Cecília Meirelles/Chico Buarque)
"Toda vez que um justo grita/ um carrasco o vem calar/
quem não presta, fica vivo/ quem é bom, mandam matar"

2. Tiradentes (Chico de Assis/Ary Toledo)
"Esse feio traidor foi correndo falar com o governador/ contou tudo, fez uma tal
cena que o visconde de Barbacena/ soltou os milico na rua, mandou
sentar pua, pegar e bater e matar e prender!"

3. Dedicatória de Arena Conta Tiradentes (Augusto Boal/Gianfrancesco Guarnieri)
Dez vidas eu tivesse,
dez vidas eu daria.
Dez vidas prisioneiras,
ansioso eu trocaria
pelo bem da liberdade,
nem que fosse por um dia.
Se assim fizessem todos,
aqui não existiria
tão negra sujeição,
que dá feição de vida
ao que é mais feia morte:
morrer de quem aceita
viver em escravidão.
Mais vale erguer a espada,
desafiando a morte,
do que sofrer a sorte
de sua terra alugada.
Mais vale erguer a espada,
desafiando a morte.
Dez vidas eu tivesse,
dez vidas eu daria...

4. Espanto (Theo de Barros/Augusto Boal/Gianfrancesco Guarnieri)
"Não só contra os de fora foi o povo justiceiro/ contra a fome e a miséria levantou-se
o garimpeiro/ Contra os fortes desta terra levantou-se o Conselheiro/ De pé,
contra toda tirania!/ Sempre de pé está o povo brasileiro!"

5. Exaltação a Tiradentes (Penteado/Mano Décio da Viola)
"Joaquim José da Silva Xavier/ morreu a 21 de abril/ pela Independência do
Brasil/ Foi traído e não traiu jamais/ a Inconfidência de Minas Gerais"

6. Tema para coro de Arena conta Tiradentes (Augusto Boal/Gianfrancesco Guarnieri)
Eu sou brasileiro mas não tenho meu lugar,
pois lá sou estrangeiro, estrangeiro no meu lar.
A quem nasceu lá fora tudo seu a terra dá:
essa pátria não é minha, é de quem não vive lá.

O pássaro na gaiola, já nascido em cativeiro,
Aprende a cantar e canta se permanece prisioneiro.
Mas, se lhe abrem a portinhola, bem capaz é de morrer:
com seu medo à liberdade, já não sabe nem viver.

Quem aceita a tirania
Bem merece a condição
Não basta viver somente,
é preciso dizer não!
Não basta viver somente,
é preciso dizer não!

segunda-feira, 16 de abril de 2018

SEMANA TIRADENTES/3 = "SE EXISTISSEM MAIS BRASILEIROS COMO EU..."

"...à vista das fortíssimas instâncias com que me vejo atacado e já sabendo os juízes tudo quanto sabem, até meus pensamentos mais íntimos, não posso continuar negando, pois, se o fizesse, seria faltando clara e conhecidamente à verdade. Por isso, resolvo dizê-la, ingênua e livremente, como ela é.

É verdade que se premeditava o levante.

É verdade que me encontrei com Maciel no Rio e lhe disse que o Brasil não necessitava de domínio estrangeiro.

É verdade que a todos falava de um motim e sedição contra a Coroa portuguesa.

É verdade que o povo sofre e que induzi muita gente a combater em Vila Rica.

É verdade que o povo ignora que se pode libertar a si mesmo e que induzi muita gente a que armasse o povo para que se libertasse.

É verdade que eu queria para mim a ação de maior risco e é verdade que se existissem mais brasileiros como eu, o Brasil seria uma nação florente.

É verdade que eu desejava meu país livre, independente, republicano.

É verdade que eu confiei demais, e é verdade que abandonei aqueles para quem outros diziam querer a liberdade.

E é verdade que só os abandonados arriscam, que só os abandonados assumem, e que só com eles eu deveria tratar.

É verdade que eu tenho culpa e só eu tenho culpa."

(confissão de Tiradentes, conforme  Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal a sintetizaram na magnífica peça Arena Conta Tiradentes, juntando fragmentos de suas declarações nos
Autos de Devassa da Inconfidência Mineira com trechos
dos depoimentos de outros inconfidentes sobre ele)

domingo, 15 de abril de 2018

SEMANA TIRADENTES/2 = O TEATRO E A VIDA

"...cada conjurado ficou
sozinho: longe do povo que

não desejava, longe do poder
que pretendia derrubar. (...)
Menos Tiradentes: este queria estar junto — mas escolheu mal com quem" (Boal/Guarnieri)
A peça Arena Conta Tiradentes, que divide com o Romanceiro da Inconfidência (de Cecília Meireles) os lauréis de obra-prima sobre o herói da Inconfidência, foi também pivô de muitas discussões e polêmicas entre os esquerdistas da época.

Veio na esteira de Arena Conta Zumbi (1965), peça em que Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal já haviam utilizado um acontecimento histórico (a saga dos quilombos) como parábola sobre o golpe militar.

Desde a introdução, esse propósito ficava claro, pois a proposta era contar uma "história da gente negra, da luta pela razão/ que se parece ao presente pela verdade em questão/ pois se trata de uma luta muito linda, na verdade/ é luta que vence os tempos, luta pela liberdade".

Ou seja, as restrições daquele momento o impossibilitavam de fazer uma peça declaradamente sobre a quartelada, mas o Arena utilizou o artifício de comparar, o tempo todo, o episódio passado com o presente.

P. ex., quando D. Aires, ao assumir a condução da campanha contra Palmares, faz um discurso recheado de paralelos com o golpe de 1964, tipo "a independência é necessária na teoria, na prática vigora a interdependência", óbvia alusão às  fronteiras ideológicas  (formação de um compacto bloco anticomunista) que os EUA pregavam, em substituição às fronteiras físicas.

E, como a censura era pra lá de tacanha, não percebeu sequer a quem o Arena se referia, ao colocar na boca de D. Aires esta fala: "Já não precisamos de Exército. Precisamos de uma força repressiva, policial. Unamo-nos todos a serviço do rei de fora, contra o inimigo de dentro!".
Como a usurpação do poder ainda era muito recente, a peça serviu como catarse, destacando a grandeza dos combatentes pela liberdade e a sordidez dos repressores. Era a mensagem adequada a um momento de perplexidade e medo.

Em 1967, entretanto, o foco era outro: a esquerda já se recompusera do susto, passando a discutir de quem, afinal, havia sido a culpa por fracasso tão retumbante.

A responsabilidade do Partido Comunista Brasileiro pela derrota saltava aos olhos: ao invés de organizar as massas para resistirem às previsíveis investidas reacionárias, acreditara que as Forças Armadas cumpririam fielmente seu papel constitucional de guardiãs da democracia.

O Governo João Goulart chegara ao cúmulo de não interferir quando a oficialidade promovia expurgos nas fileiras militares, enfraquecendo a rede de sargentos e cabos que evitara a tentativa anterior de golpe, em 1961. 

A esquerda estava, então, numa temporada de críticas, autocríticas e rachas, tentando reencontrar o norte após o colapso de sua força quase hegemônica, o PCB.
Augusto Boal, o inesquecível
criador do Teatro do Oprimido

Arena Conta Tiradentes refletiu tal momento, ao retratar a Inconfidência Mineira como uma conspiração palaciana, que é desarticulada com facilidade exatamente por não ter o respaldo das massas.

O coringa (narrador), ao explicar o fracasso dos inconfidentes, é taxativo: a maioria deles, pertencente à elite mineira, "estava em cima do muro, pronta pra pular pra qualquer lado, conforme o balanço". E conclui:
"E, se é verdade que muitas revoluções burguesas foram feitas pelo povo, também é verdade que, nesta, o povo estava ausente; e, mais do que ausente, foi afastado. 
Por isso, cada conjurado ficou sozinho: longe do povo que não desejava, longe do poder que pretendia derrubar. Sozinho, cada um pensava na sua prosperidade individual; sozinho, cada um pensou depois na sua salvação. Menos Tiradentes: este queria estar junto — mas escolheu mal com quem".
O alferes era, na verdade, o único vínculo entre os conspiradores palacianos e o povo. E eu não encontro motivos para discordar da avaliação de Boal e Guarnieri:
"Quando pensamos em escrever a história de Tiradentes, tínhamos a impressão de que Silvério não era tão safado como todo mundo dizia, nem o alferes tão herói como constava. 
Depois, estudando, chegamos à conclusão de que Tiradentes foi mais herói ainda do que se diz e Silvério tão safado quanto consta".
Silvério, vale dizer, não foi o único safado: outros também delataram a Inconfidência, mas só ele carrega o estigma histórico, sabe-se lá por quê.

Quanto a Tiradentes, teve comportamento idealista na conspiração e digno no cárcere. Foi, como Lamarca e Prestes, um militar que recusou o papel de cão de guarda do arbítrio e das injustiças, abraçando a causa do povo.

Merece ser reconhecido como o herói maior deste país tão carente de heróis e tão ingrato com os poucos que produz. 

domingo, 5 de novembro de 2017

MAIOR EMIGRAÇÃO FORÇADA DA HISTÓRIA DA HUMANIDADE, A ESCRAVIDÃO NO BRASIL É TEMA DE UM DOCUMENTÁRIO EXEMPLAR.

Toque do editor
Recebi esta mensagem, acompanhada do link do vídeo abaixo, do companheiro José De Souza:
"Olá, Celso! Vai aqui mais uma pérola que achei no Youtube e gostaria de compartilhar com os amigos. Trata-se do documentário da BBC, Brasil, uma história inconveniente (totalmente legendado em português), sobre a barbárie de nossas elites de escravocratas e o impacto que isso vem tendo até hoje na nossa vida social. Eu acho que esse tipo de fonte para discussão jamais passaria na TV comercial. Espero que você goste e, se gostar, divulgar para outros".
Agradeço e já estou colocando no ar (juntamente com outro vídeo que vem bem a calhar, o da trilha sonora da obra máxima do teatro brasileiro sobre a escravidão, a peça Arena conta Zumbi). Para ganhar tempo, aproveitarei a apresentação do site Acutalatina, cuja equipe cumprimento pelo ótimo trabalho.

UMA HISTÓRIA INCONVENIENTE SOBRE A ESCRAVIDÃO

Portugal foi responsável pela maior emigração forçada da história da humanidade. De Angola chegou ao Brasil um número 10 vezes superior de escravos, comparado à America do Norte. Este documentário, sobre o passado colonial do Brasil, foi realizado em 2000 por Phil Grabsky, para a BBC History Channel. Ganhou um Gold Remi Award no Houston International Film Festival em 2001. Uma verdade inconveniente da história de Portugal.

Enquanto todo o mundo conhece a história da escravidão nos EUA, poucas pessoas percebem que o Brasil foi, na verdade, o maior participante do comércio de escravos. Quarenta por cento de todos os escravos que sobreviviam à travessia do Atlântico eram destinados ao Brasil, enquanto apenas 4% iam para os EUA. Chegou uma época em que a metade da população brasileira era de escravos. O Brasil foi o último país a abolir a escravidão, em 1888.

O documentário tem depoimentos dos historiadores João José Reis, Cya Teixeira, Marilene Rosa da Silva; do antropologista Peter Fry e outras pessoas que contam os efeitos de séculos de escravidão no Brasil de hoje. Este é um importante documentário sobre a história dos negros, história africana e estudos latino americanos.


TRECHOS MARCANTES DO DOCUMENTÁRIO

Os portugueses tratavam a Africa como uma fonte de recursos. Então, eles importavam, importavam, achando que os recursos jamais se esgotariam.

Quase todas as casas por aqui são enormes armazéns, onde os escravos são depositados e os clientes vêm comprá-los

Gradualmente, ao final do século 16, as plantações aumentaram suas riquezas e tornaram-se capazes de comprar escravos estrangeiros e substituíram a mão de obra nativa que estava sendo usada. Então, Brasil se torna uma grande colônia escravagista.

As vastas terras do Brasil ofereciam oportunidades enormes. Quantidades enormes de açúcar eram enviadas para portos como Antuérpia, Amsterdã e Veneza. 

Em 1598, um viajante na Inglaterra notou o quanto os dentes da rainha Elizabeth estavam escuros de tanto açúcar. A causa dos problemas dentários da rainha era a nova fonte de riqueza dos portugueses. O açúcar era o ouro brasileiro

Os escravos trabalhavam como carpinteiros, construtores e muitas outras ocupações. Enquanto a população negra aumentava nos EUA, no Brasil, apesar da importação maior, ela permanecia a mesma. A expectativa de vida dos que chegavam era de apenas seis ou sete anos e os escravos nascidos no Brasil viviam, em média, só até os 20 anos. 

E quem eram os colonizadores? Muitos eram jovens ou ambiciosos aventureiros que se viram entronizados num mundo de riqueza, liberdade e fornicação. Muitos eram criminosos que Portugal preferia manter longe do país. 
O cruel Domingos Jorge Velho

Se a natureza masculina da colonização portuguesa era um motivo da crueldade, o outro era econômico. Se os escravos morressem, não havia problemas para substituí-los

A necessidade de escravos aumentou vertiginosamente quando, por volta de 1690, o ouro foi descoberto no interior

A nova crescente prosperidade do Brasil foi canalizada para novas vilas e cidades. A integração biológica da mulher africana com homem europeu era natural. Não havia aquela exclusão étnica que era praticada nos EUA. (...) A expansão do relacionamento sexual entre senhor e escravas produziu milhares de crianças mestiças.

Centenas de igrejas foram construídas, para serem usadas pelos brancos e negros recém-convertidos. Essas igrejas eram construídas e decoradas pelos escravos.

*    *    *

"Irmãos negros, a escravidão que vocês sofrem por mais dolorosa que seja, ou que pareça ser, é apenas uma meia escravidão. Vocês são escravos apenas na parte exterior, que é o corpo. Contudo, na outra e mais nobre metade, que é a alma, vocês não são escravos, mas livres! Quando vocês servem aos seus senhores, não o fazem como se fosse a um homem, mas sim, como se estivessem servindo a Deus!"
*    *    *

Muitos escravos não seguiam à risca o catolicismo. Eles se esforçavam para manter suas crenças tradicionais, venerar seus próprios santos. Música e dança tornaram-se inseparáveis na identidade brasileira em desenvolvimento.

No início dos anos 1800, ocorreram algumas revoltas ocasionais. (...) Alguns escravos quebravam máquinas, outros ateavam fogo às plantações. Outros simplesmente entravam em greve.
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Zumbi e os guerreiros do quilombo de Palmares, símbolos da resistência dos negros à escravidão.
Outros escravos expressavam seu descontentamento fugindo. Escravos que fugiam uniam-se a comunidades de fugitivos chamadas de quilombos. (...) Eram quase independentes. Eles eram sempre alvo da polícia, que tentava eliminá-los.

Uma das tradições que os escravos fizeram questão de manter, era uma arte marcial chamada capoeira. Gangues de capoeiristas dominavam as ruas, usando suas habilidades para atacar o brancos e a polícia. A tensão subiu e então uma nova legislação foi criada (1833). Manter o controle da população de escravos estava se tornando mais difícil. 

Nos anos de 1800, tabaco e café juntam-se ao ouro e ao açúcar para serem a chave de economia.

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Em 1822, o Brasil declarou independência de Portugal

Aumentou a pressão internacional para abolir a escravidão. A influência exercida pela Inglaterra na economia brasileira acabou perpetuando-se e ela colaborou com a continuação da escravidão no Brasil. Importava açúcar e café, produzidos por escravos, até o final do século 19

Oferecer liberdade condicional aparentava ser um último suspiro contra a abolição. Durante o século 19, 1 milhão de novos escravos chegou do oeste africano ao Brasil. O continuo confisco britânico de navios escravos e sua restrição ao comércio significava que o transporte de africanos teria de acabarCada vez mais escravos estavam abandonando as plantações.

Em 13 de Maio de 1888, a princesa Isabel proclamou a chamada Lei Áurea. O Brasil foi o ultimo grande país a oficialmente abolir a escravidão.

Embora fossem legalmente livres, ainda estavam economicamente ligados às terras, minas ou outras ocupações.Os negros continuam aprisionados, vivendo nas favelas, não têm empregos. Eles são escravos do sistema.

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