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quinta-feira, 28 de maio de 2026

HOMENAGEANDO O FLÁVIO BOLSONARO E TODOS OS BONS VASSALOS DO BRASIL

CORINGA
Ser bom vassalo o que é?
Me responda quem souber.

CORO
Ser bom vassalo é esquecer
aquilo que a gente quer,
aquilo pelo que um dia lutamos,
aquilo em nome do qual  
companheiros estimados 
morreram e sofreram.

CORINGA
Só quer ser um bom vassalo,
quem vive seu bom viver,
quem explora e não é explorado,
quem tem tudo pra perder!
(trecho da peça Arena conta Tiradentes)     

quarta-feira, 13 de maio de 2026

HOJE É DIA DE RELEMBRAR O 'TEATRO DO OPRIMIDO' E A PEÇA 'ARENA CONTA ZUMBI'

Se eu tivesse de escolher a melhor peça teatral brasileira de todos os tempos, cravaria sem pestanejar Arena conta Zumbi, que estreou no dia do trabalhador de 1975, mas serve também, até melhor, para marcar o dia da libertação dos escravos (hoje).

Afora o verdadeiro achado que foi, para compensar a parcimônia de recursos do teatro do oprimido, a criação do sistema do curinga (os mesmos atores alternam-se na representação de vários personagens, só mudando um ou outro item da indumentária), tratou-se de uma peça brilhante e indignada: expressou a frustração e a raiva pela rendição sem luta de 1964, uma das páginas mais vergonhosas da esquerda brasileira ao longo da História. 

Quando a censura forçava os artistas a recorrerem a subterfúgios para conseguirem levar sua mensagem ao público, a saga dos quilombos foi utilizada para simbolizar o ascenso dos movimentos de massa e seu esmagamento pelo golpe militar. 

Os paralelos, ironias e insinuações perpassam todo o espetáculo. Há, inclusive, uma velada conclamação à luta armada, que dali em diante se tornaria cada vez mais explícita no teatro, no cinema e na MPB. 

E o elenco era um arraso, com o próprio Guarnieri, Lima Duarte, David José, Dina Sfat, Marília Medalha, Carlos Castilho, etc.

Para os jovens conhecerem e os menos jovens matarem as saudades, eis o disco da peça, com 45 minutos de músicas (do Edu Lobo, algumas das quais se tornaram clássicos da MPB), diálogos e até o discurso de posse de um mandatário linha dura, cuja retórica é uma paródia hilária dos zurros dos golpistas de 1964. 

Para finalizar, uma curiosidade: foi a primeira peça de teatro adulto a que assisti, em temporada popular no Theatro Artur Azevedo. Tinha 14 anos e a epopeia dos quilombolas me impactou fortemente. (por Celso Lungaretti)
Para acessar o áudio completo da peça, copie
e cole no navegador este endereço:
 
https://youtu.be/RWzgOam2J8o?list=RDRWzgOam2J8o

terça-feira, 21 de abril de 2026

O REVOLUCIONÁRIO TIRADENTES MERECIA UM POVO MUITO MELHOR DO QUE A PARVA GENTE BRASILEIRA

"Tiradentes foi um revolucionário no seu momento como o seria em outros momentos, inclusive no nosso. Pretendia, ainda que romanticamente, a derrubada de um regime de opressão e desejava substitui-lo por outro, mais capaz de promover a felicidade do seu povo. 

...No entanto, este comportamento essencial ao herói é esbatido e, em seu lugar, prioritariamente, surge o sofrimento na forca, a aceitação da culpa, a singeleza com que beijava o crucifixo na caminhada pelas ruas com baraço e pregação.... 

O mito está mistificado.

Brecht cantou: Feliz é o povo que não tem  heróis. Concordo. Porém nós não somos um povo feliz. Por isso precisamos de heróis. Precisamos de Tiradentes" (Augusto Boal, Quixotes e Heróis). 

Liberdade, ainda que tardia... Mas a
tardança precisava ser de 3 décadas?!
"
Os heróis são a personificação das virtudes de um povo que alcançou ou está buscando sua afirmação. Encarnam a vontade nacional.

Já os brasileiros, parafraseando o que Marx disse certa vez sobre os camponeses, constituem tanto um povo quanto as batatas reunidas num saco constituem um saco de batatas...

O traço mais característico da nossa formação é a subserviência face aos poderosos de plantão. 


Os episódios de resistência à tirania foram isolados e trágicos, já que nunca obtiveram adesões numericamente expressivas. 

Demoramos mais de três séculos para nos livrar do jugo de uma nação minúscula, como um Gulliver imobilizado por um único liliputiano.

E o fizemos da forma mais vexatória, recorrendo ao príncipe estrangeiro para que tirasse as castanhas do fogo em nosso lugar; e à nação economicamente mais poderosa da época, para nos proteger de reações dos antigos colonizadores.

Isto após assistirmos impassíveis à execução e esquartejamento de nosso maior libertário" (CL)
"Esse traidor [Joaquim Silvério dos Reis] foi correndo falar com o governador. Fez
uma tal cena que o Visconde de Barbacena soltou os milicos na rua, 
mandou sentar pua, pegar e bater e matar e prender"

segunda-feira, 21 de abril de 2025

TIRADENTES PODERIA TER SIDO O BOLIVAR BRASILEIRO, MAS NOSSO POVO PREFERIU RECEBER A LIBERTAÇÃO COMO DÁDIVA

 "Brecht cantou: ‘Feliz é o povo que não tem
 heróis’. Concordo. Porém nós não somos
um povo feliz. Por isso precisamos de
heróis. Precisamos de Tiradentes"

(Augusto Boal, Quixotes e Heróis)
Será que os brasileiros sentem mesmo necessidade de heróis, salvo como temas dos intermináveis e intragáveis sambas-enredo? É discutível.

Os heróis são a personificação das virtudes de um povo que alcançou ou está buscando sua afirmação. Encarnam a vontade nacional.

Já os brasileiros, parafraseando o que Marx disse certa vez sobre os camponeses, constituem tanto um povo quanto as batatas reunidas num saco constituem um saco de batatas...


O traço mais característico da nossa formação é a subserviência face aos poderosos de plantão. Os episódios de resistência à tirania foram isolados e trágicos, já que nunca obtiveram adesões numericamente expressivas.


Demoramos mais de três séculos para nos livrar do jugo de uma nação minúscula, como um Gulliver imobilizado por um único liliputiano.

E o fizemos da forma mais vexatória, recorrendo ao príncipe estrangeiro para que tirasse as castanhas do fogo em nosso lugar; e à nação economicamente mais poderosa da época, para nos proteger de reações dos antigos colonizadores.

Isto depois de assistirmos impassíveis à execução e esquartejamento de nosso maior libertário.
Da mesma forma, o fim da escravidão só se deu por graça palaciana e quando se tornara economicamente desvantajosa.

Antes, os valorosos guerreiros de Palmares haviam sucumbido à guerra de extermínio movida pelo bandeirante Domingos Jorge Velho, que merecidamente passou à História como um dos maiores assassinos do Brasil em todos os tempos.


E foi também pela porta dos fundos que nosso país entrou na era republicana e saiu das duas ditaduras do século passado (a de Vargas terminou por pressões estadunidenses e a dos militares, por esgotamento do modelo político-econômico).

Leitura da sentença de Tiradentes (pintura histórica)

Todas as grandes mudanças positivas acabaram se processando via pactos firmados no seio das elites, com a população excluída ou reduzida ao papel de coadjuvante que aplaude.
  • É verdade que houve fugazes despertares da cidadania: em 1961, quando a resistência encabeçada por Leonel Brizola conseguiu frustrar o golpe de estado tentado pelas mesmas forças que seriam bem-sucedidas três anos mais tarde;
  • em 1984, com a inesquecível campanha das diretas-já, infelizmente desmobilizada depois da rejeição da Emenda Dante de Oliveira, com o poder de decisão voltando para os gabinetes e colégios eleitorais; e
  • em 1992, quando os  caras-pintadas  foram à luta para forçar o afastamento do presidente Fernando Collor.
Inconfidentes e sua falação. Só Tiradentes era homem de ação
Nessas três ocasiões, a vontade das ruas alterou momentaneamente o rumo dos acontecimentos, mas os poderosos realizaram manobras hábeis para retomar o controle da situação. Rupturas abertas, entre nós, só vingaram as negativas.

Vai daí que, em vez de heróis altaneiros, os infantilizados brasileiros são carentes mesmo é de figuras protetoras, dos coronéis nordestinos aos padins Ciços da vida, passando por pais dos pobres tipo Getúlio Vargas e Lula.

Então, Zumbi dos Palmares, Tiradentes, Frei Caneca, Carlos Marighella, Carlos Lamarca e outros dessa estirpe jamais serão unanimidade nacional, como o são Giuseppe Garibaldi na Itália ou Simon Bolívar para os hermanos sul-americanos.
O 21 de abril é um dos menos festejados de nossos feriados. E o próprio conteúdo revolucionário de Tiradentes é escamoteado pela História Oficial, que o apresenta mais como um Cristo (começando pelas imagens falseadas de sua execução, já que não estava barbudo e cabeludo ao marchar para o cadafalso) do que como transformador da realidade.

Então, vale uma citação da epígrafe escrita por Boal quando do lançamento da antológica peça Arena Conta Tiradentes, em 1967:
"Dez vidas eu tivesse, dez vidas eu daria para salvar a deles"
"Tiradentes foi um revolucionário no seu momento como o seria em outros momentos, inclusive no nosso. Pretendia, ainda que romanticamente, a derrubada de um regime de opressão e desejava substitui-lo por outro, mais capaz de promover a felicidade do seu povo. 
...No entanto, este comportamento essencial ao herói é esbatido e, em seu lugar, prioritariamente, surge o sofrimento na forca, a aceitação da culpa, a singeleza com que beijava o crucifixo na caminhada pelas ruas com baraço e pregação ... 
O mito está mistificado".
Quando o povo brasileiro estiver suficientemente amadurecido para tomar em mãos seu destino, decerto encontrará no revolucionário Tiradentes uma de suas maiores inspirações. 
.
(por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

10 ANOS APÓS A MORTE DE SARACENI, UM NOVO DESAFIO ESTÁ NAS RUAS

Paulo César Saraceni morreu em 2012.

Tinha 78 anos e fazia cinema desde 1959.

Em mais de meio século de atividades, dirigiu 13 filmes, nove dos quais também roteirizou.

Foi um dos fundadores do  cinema novo, mas nem de longe fez obras de importância equiparável às dos dois outros parceiros de empreitada: Glauber Rocha (indiscutivelmente, o maior cineasta brasileiro de todos os tempos) e Nelson Pereira dos Santos (bem mais prolífico e realizador de clássicos como Rio 40 Graus e Vidas Secas).

No entanto, Saraceni constituiu-se numa referência muito forte para minha geração, por um único motivo.

Seu O Desafio, lançado em 1965, foi provavelmente a primeira resposta cinematográfica à quartelada.

Enfoca os sentimentos de culpa, impotência e prostração subsequentes à vergonhosa derrota sem luta.

Foi o mal-estar que acometeu toda aquela esquerda: supunha-se a um passo do poder, iludida pelo triunfalismo inconsequente do Partido Comunista Brasileiro e seu principal dirigente (Luiz Carlos Prestes), mas acordou ouvindo marchas militares no famigerado 1º de abril de 1964.

E dá-lhe más ressacas! E dá-lhe lavagens de roupa suja! E dá-lhe lutas internas no partidão! E dá-lhe rachas!

Em 1965, a esquerda lambia as feridas e se reconfigurava, voltada para dentro de si mesma. Não reagia.

Aí, foi lançado
O Desafio. E –juro!– o título apareceu pichado nos muros de São Paulo. Só o título, com a tinta escorrendo. Eu tinha 14 anos, via aquilo e nada entendia. Ignorava que fosse uma mensagem vinda das catabumbas: não estamos mortos!

Só em 1967, dando os primeiros passos no movimento estudantil, fui assistir ao filme e compreender o motivo das pichações.

E, francamente, não gostei daquele imenso desencanto que ele flagra, o atoleiro no qual se move Marcelo, o personagem politizado (interpretado pelo Vianninha, de saudosa memória), durante quase todo o tempo.

Mas vibrei com o final, quando ele enfim levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima, decidido a voltar ao bom combate.

Isto ficou apenas sugerido, como se fazia necessário sob o tacão da censura. Depois de um porre com um repulsivo colega de trabalho, vão ao apartamento deste, cuja esposa se despe e se-lhe oferece. Antes que ele tenha qualquer reação, o marido acorda e fita ambos, em meio à sua névoa alcoolica. 

Marcelo empurra a mulher e vai embora, enojado. Desce uma escadaria com expressão resoluta, afaga a cabeça de um menino pobre e se distancia, marchando ao encontro do seu destino.

Tudo isto ao som de um tema da peça Arena conta Zumbi: É um tempo de guerra,  canção que Augusto Boal, Gianfrancesco Guarnieri e Edu Lobo haviam derivado da poesia antológica de Bertolt Brecht, para usar o esmagamento do quilombo de Palmares como metáfora do golpe militar.
Na peça, era a lição que um guerreiro às portas da morte legava aos que viriam depois. Uma sugestão velada também, claro ("Eu sei que é preciso vencer/ Eu sei que é preciso lutar/ Eu sei que é preciso morrer/ Eu sei que é preciso matar"). 

Só que parecia algo meio distante, lá pra frente, pois o momento era de derrocada.

No filme, ficou mais fácil perceber que se tratava do passo seguinte, imediato: um recado de que não só a luta tinha de ser retomada, como assumiria doravante características de guerra.

Foi profético. Houve mesmo a guerra, de consequências trágicas para a esquerda (quantos quadros insubstituíveis foram dizimados!), mas inevitável: ela só reconquistaria o respeito do povo caso se dispusesse a sangrar por seus ideais, como deixara de fazer em 1964.

Muitos dos que não pegaram em armas recriminaram nosso  vanguardismo, nosso imediatismo pequeno-burguês. Segundo eles, só servíramos para acirrar a repressão e fornecer pretextos para o endurecimento do regime.

Omitiram ter sido exatamente sua tibieza em 1964, quando deixaram de travar a luta em condições bem mais favoráveis, que nos obrigou a assumir adiante a missão quase kamikaze de lavar a honra da esquerda, virando a página da desmoralização e restituindo-lhe a credibilidade. 

Resolvi rememorar o desafio de 1965 porque um novo desafio será lançado às forças da intolerância e do retrocesso daqui a três, diante da Faculdade de Direito da USP,  no Largo São Francisco, com a leitura de dois manifestos antigolpe que têm tudo para detonarem as últimas esperanças do presidente delinquente. 

Aqueles que pensam por ele (pois se trata de uma faculdade da qual o Bozo é carente) temem que o ato da 5
ª feira consolide definitivamente a rejeição ao celerado, desencadeando a revoada dos apoiadores comprados por cargos e verbas públicas para a arca de Noé do Lula, na qual cabe tudo, até cobras e lagartos...

Nisto, pelo menos, eles estão certos: tal página, uma das mais vergonhosas da História do Brasil, deverá mesmo começar a ser virada nesta quinta.

Enquanto esperamos, que tal darmos uma olhadinha em O desafio, para irmos entrando no clima? (por Celso Lungaretti) 

quarta-feira, 20 de abril de 2022

MÁRTIR? TIRADENTES FOI, ISTO SIM, UM HERÓI REVOLUCIONÁRIO!

 "Brecht cantou: ‘Feliz é o povo que não tem
 heróis’. Concordo. Porém nós não somos
um povo feliz. Por isso precisamos de
heróis. Precisamos de Tiradentes"

(Augusto Boal, Quixotes e Heróis)
Será que os brasileiros sentem mesmo necessidade de heróis, salvo como temas dos intermináveis e intragáveis sambas-enredo? É discutível.

Os heróis são a personificação das virtudes de um povo que alcançou ou está buscando sua afirmação. Encarnam a vontade nacional.

Já os brasileiros, parafraseando o que Marx disse certa vez sobre os camponeses, constituem tanto um povo quanto as batatas reunidas num saco constituem um saco de batatas...


O traço mais característico da nossa formação é a subserviência face aos poderosos de plantão. Os episódios de resistência à tirania foram isolados e trágicos, já que nunca obtiveram adesões numericamente expressivas.


Demoramos mais de três séculos para nos livrar do jugo de uma nação minúscula, como um Gulliver imobilizado por um único liliputiano.


E o fizemos da forma mais vexatória, recorrendo ao príncipe estrangeiro para que tirasse as castanhas do fogo em nosso lugar; e à nação economicamente mais poderosa da época, para nos proteger de reações dos antigos colonizadores.

Isto depois de assistirmos impassíveis à execução e esquartejamento de nosso maior libertário.
Da mesma forma, o fim da escravidão só se deu por graça palaciana e quando se tornara economicamente desvantajosa.

Antes, os valorosos guerreiros de Palmares haviam sucumbido à guerra de extermínio movida pelo bandeirante Domingos Jorge Velho, que merecidamente passou à História como um dos maiores assassinos do Brasil em todos os tempos.


E foi também pela porta dos fundos que nosso país entrou na era republicana e saiu das duas ditaduras do século passado (a de Vargas terminou por pressões estadunidenses e a dos militares, por esgotamento do modelo político-econômico).

Leitura da sentença de Tiradentes (pintura histórica)

Todas as grandes mudanças positivas acabaram se processando via pactos firmados no seio das elites, com a população excluída ou reduzida ao papel de coadjuvante que aplaude.
  • É verdade que houve fugazes despertares da cidadania: em 1961, quando a resistência encabeçada por Leonel Brizola conseguiu frustrar o golpe de estado tentado pelas mesmas forças que seriam bem-sucedidas três anos mais tarde;
  • em 1984, com a inesquecível campanha das diretas-já, infelizmente desmobilizada depois da rejeição da Emenda Dante de Oliveira, com o poder de decisão voltando para os gabinetes e colégios eleitorais; e
  • em 1992, quando os  caras-pintadas  foram à luta para forçar o afastamento do presidente Fernando Collor.
Inconfidentes e sua falação. Só Tiradentes era homem de ação
Nessas três ocasiões, a vontade das ruas alterou momentaneamente o rumo dos acontecimentos, mas os poderosos realizaram manobras hábeis para retomar o controle da situação. Rupturas abertas, entre nós, só vingaram as negativas.

Vai daí que, em vez de heróis altaneiros, os infantilizados brasileiros são carentes mesmo é de figuras protetoras, dos coronéis nordestinos aos padins Ciços da vida, passando por pais dos pobres tipo Getúlio Vargas e Lula.

Então, Zumbi dos Palmares, Tiradentes, Frei Caneca, Carlos Marighella, Carlos Lamarca e outros dessa estirpe jamais serão unanimidade nacional, como o são Giuseppe Garibaldi na Itália ou Simon Bolívar para os hermanos sul-americanos.
O 21 de abril é um dos menos festejados de nossos feriados. E o próprio conteúdo revolucionário de Tiradentes é escamoteado pela História Oficial, que o apresenta mais como um Cristo (começando pelas imagens falseadas de sua execução, já que não estava barbudo e cabeludo ao marchar para o cadafalso) do que como transformador da realidade.

Então, vale mais uma citação da epígrafe escrita por Boal quando do lançamento da antológica peça Arena Conta Tiradentes, em 1967:
"Dez vidas eu tivesse, dez vidas eu daria para salvar a deles"
"Tiradentes foi um revolucionário no seu momento como o seria em outros momentos, inclusive no nosso. Pretendia, ainda que romanticamente, a derrubada de um regime de opressão e desejava substitui-lo por outro, mais capaz de promover a felicidade do seu povo. 
...No entanto, este comportamento essencial ao herói é esbatido e, em seu lugar, prioritariamente, surge o sofrimento na forca, a aceitação da culpa, a singeleza com que beijava o crucifixo na caminhada pelas ruas com baraço e pregação ... 
O mito está mistificado".
Quando o povo brasileiro estiver suficientemente amadurecido para tomar em mãos seu destino, decerto encontrará no revolucionário Tiradentes uma de suas maiores inspirações. 
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(por Celso Lungaretti)

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

ARTIGO DESPRETENSIOSO ENSEJA DEBATE IMPORTANTE: CONTINUAMOS HOJE EM DIA TÃO LIBERTÁRIOS QUANTO IGUALITÁRIOS?/2

celso lungaretti
HOJE A PASSAGEM DO REINO DA NECESSIDADE
AO REINO DA LIBERDADE SÓ DEPENDE DE NÓS  
Foi constrangedoramente simplista o filósofo Hélio Schwartsman ao pretender dar um xeque-mate na componente libertária da esquerda com este artigo.

Isto porque jamais bastariam três míseros parágrafos para dar como demonstrada uma tese tão discutível:
"A esquerda vem paulatinamente se afastando da ideia de liberdade porque esta é incompatível com a de igualdade, outro conceito que lhe é caro. 

Se a sociedade é livre, algumas pessoas, por esforço ou sorte, acumularão mais bens e os transmitirão a quem desejarem, tipicamente os filhos. 

Mas, neste caso, a sociedade deixa de ser igualitária, pois não só alguns terão mais do que outros como também herdarão riquezas pelas quais não trabalharam". 
  A essência selvagem do capitalismo em nada mudou até hoje, pois é impossível humanizá-lo...  
Primeiramente, os motivos principais de a esquerda vir "paulatinamente se afastando da ideia de liberdade" são outros, bem mais significativos:
1. o progressivo abandono da luta de classes (visando à transformação revolucionária da sociedade e consequente superação do capitalismo), trocada pela conciliação de classe (busca de um modus vivendi para os explorados dentro do regime de exploração do homem pelo homem); e
2. o total descarte da premissa marxista de que os países que mais desenvolverem suas forças produtivas serão sempre os que vão indicar o caminho que as demais nações cedo ou tarde seguirão (a partir daí, tornou-se possível para a esquerda descaracterizada fazer a oportunista defesa de tiranos embolorados que esmagam seus povos mas, alega ela, cumpririam também o papel de "confrontarem o imperialismo"). 

Ao se limitarem à participação nas eleições de cartas marcadas da democracia burguesa, nas quais estão em jogo apenas os postos de serviçais do poder econômico, as forças de esquerda abdicaram exatamente de contestar o citado direito de propriedade privada dos bens gerados pelo trabalho coletivo, o que permite a uns poucos acumularem riquezas imensas e as transmitirem à sua prole, enquanto crescente parcela da humanidade é tragada pela miséria.
Já sua aparência foi maquilada, para tranquilizar os que não suportam a realidade nua e crua 
Ao contrário do que os reformistas prometem desde o século retrasado, quando Eduard Bernstein já era reduzido a pó de traque por Rosa Luxemburgo e seu panfleto 
Reforma ou Revolução?
, a conivência da esquerda com o inimigo de classe não leva à impossível humanização do capitalismo, tanto que a desigualdade econômica só fez aumentar desde então, atingindo o paroxismo nas últimas décadas.  

E, obrigando-se a respeitar os valores republicanos (nunca esqueço de como a Dilma enchia a boca ao falar estas duas palavrinhas sagradas, antes de, em nome delas, receber um humilhante pé na bunda!), a esquerda institucional tem seguidamente permanecido em cima do muro quando sua obrigação moral seria a de alinhar-se com os que travassem o bom combate. 

Assim, p. ex., a mesma Dilma chegou a sancionar  em 2016 uma versão ligeiramente maquilada do entulho autoritário chamado Lei de Segurança Nacional, além de seu governo ter simplesmente mandado às urtigas os manifestantes de junho de 2013 quando eram barbarizados pelos efetivos policiais em vários estados e amargavam descalabros judiciais de todo o tipo. 
Se o fascismo tupiniquim vingasse, o cartunista Aroeira pagaria caro pela tibieza da Dilma
Já o endosso a personagens bestiais "para enfraquecer o imperialismo" tornou a esquerda cúmplice de todo tipo de retrocesso civilizatório, a ponto de defender Saddam Hussein, Osama Bin Laden,  o Sendero Luminoso, o Talibã e outros verdadeiros espantalhos aos olhos das pessoas civilizadas. 

Isto, inclusive torna hipócrita o repúdio a Jair Bolsonaro quando procede daqueles que nada viam de errado em tais recaídas na barbárie e nos valores medievais. 

Então, mais do que nunca, a esquerda que se mantém marxista ou anarquista tem de reassumir seu compromisso com a condução da humanidade a um estágio superior de civilização, no qual seja priorizado o bem comum e oferecidas a cada habitante do planeta  condições plenas para levarem uma existência compatível com a dignidade humana.

Finalmente, para não estender demais este artigo de padrão jornalístico,  assinalo sucintamente que Schwartsman dá como definitivo o que pode muito bem ser transitório, como a compulsão que faz algumas pessoas, por esforço ou sorte, acumularem mais bens. 

Não podem ser desconsiderados pensadores como Hebert Marcuse e Norman O. Brown, segundo os quais foi a insuficiência de bens para suprirem-se as necessidades de todos os cidadãos, anteriormente à era moderna, que forçou a competição canibalesca entre os homens, servindo, portanto, para motivá-los nos seus esforços em busca do progresso. 

No entanto, hoje se percebe claramente que já existem condições científicas e tecnológicas para se produzir o suficiente para todos disporem do realmente necessário, desde que a sociedade adote as prioridades certas.

Mais:
— isto poderia tranquilamente ser feito sem a destruição predatória de recursos essenciais à sobrevivência da nossa espécie; e
— a redução de jornada para todos os trabalhadores da Terra é perfeitamente possível, liberando tempo para passarmos a desenvolver nossas melhores qualidades e desfrutarmos de uma convivência realmente gratificante entre nós.

De minha parte, recuso enfaticamente a crença pessimista de que o ser humano seja egoísta e competitivo por natureza, incapaz de, criado noutras condições de vida e educado com outros valores, preferir o ódio ao amor.

Será difícil mesmo chegarmos a "essa terra da amizade, onde o homem ajuda o homem" (Arena Conta Zumbi), mesmo porque a desigualdade econômica e social, persistindo mesmo depois de transposta a barreira da necessidade que era a única justificativa de sua existência, deu aos que dela se beneficiavam:
— 
um imenso poder de manipulação, para introjetarem nos explorados uma falsa consciência; e
— um avassalador poder de fogo para os destruírem, sem melindres democráticos, quando os meios mais suaves fracassam.

Mas, se dermos o
inferno pamonha (Paulo Francis) do capitalismo como definitivo, conformando-nos à eternização da exploração do homem pelo homem, estaremos não só abdicando da possibilidade de tornarmos nossa existência muito mais gratificante para nós e benéfica para aqueles com os quais interagimos, como legando aos pósteros, nossos filhos, netos e descendentes inclusos, uma terra arrasada. 
(por Celso Lungaretti)  

terça-feira, 21 de abril de 2020

TIRADENTES, O HERÓI DE UM POVO QUE SE IDENTIFICA MAIS COM FIGURAS PROTETORAS

"Brecht cantou: ‘Feliz é o povo que não tem
 heróis’. Concordo. Porém nós não somos
um povo feliz. Por isso precisamos de
heróis. Precisamos de Tiradentes"

(Augusto Boal, Quixotes e Heróis)
Será que os brasileiros sentem mesmo necessidade de heróis, salvo como temas dos intermináveis e intragáveis sambas-enredo? É discutível.

Os heróis são a personificação das virtudes de um povo que alcançou ou está buscando sua afirmação. Encarnam a vontade nacional.

Já os brasileiros, parafraseando o que Marx disse certa vez sobre os camponeses, constituem tanto um povo quanto as batatas reunidas num saco constituem um saco de batatas...


O traço mais característico da nossa formação é a subserviência face aos poderosos de plantão. Os episódios de resistência à tirania foram isolados e trágicos, já que nunca obtiveram adesões numericamente expressivas.


Demoramos mais de três séculos para nos livrar do jugo de uma nação minúscula, como um Gulliver imobilizado por um único liliputiano.


E o fizemos da forma mais vexatória, recorrendo ao príncipe estrangeiro para que tirasse as castanhas do fogo em nosso lugar; e à nação economicamente mais poderosa da época, para nos proteger de reações dos antigos colonizadores.

Isto depois de assistirmos impassíveis à execução e esquartejamento de nosso maior libertário.

Da mesma forma, o fim da escravidão só se deu por graça palaciana e quando se tornara economicamente desvantajosa.


Antes, os valorosos guerreiros de Palmares haviam sucumbido à guerra de extermínio movida pelo bandeirante Domingos Jorge Velho, que merecidamente passou à História como um dos maiores assassinos do Brasil em todos os tempos.


E foi também pela porta dos fundos que nosso país entrou na era republicana e saiu das duas ditaduras do século passado (a de Vargas terminou por pressões estadunidenses e a dos militares, por esgotamento do modelo político-econômico).

Leitura da sentença de Tiradentes (pintura histórica)

Todas as grandes mudanças positivas acabaram se processando via pactos firmados no seio das elites, com a população excluída ou reduzida ao papel de coadjuvante que aplaude. 

É verdade que houve fugazes despertares da cidadania: 
  • em 1961, quando a resistência encabeçada por Leonel Brizola conseguiu frustrar o golpe de estado tentado pelas mesmas forças que seriam bem-sucedidas três anos mais tarde;
  • em 1984, com a inesquecível campanha das diretas-já, infelizmente desmobilizada depois da rejeição da Emenda Dante de Oliveira, com o poder de decisão voltando para os gabinetes e colégios eleitorais; e
  • em 1992, quando os  caras-pintadas  foram à luta para forçar o afastamento do presidente Fernando Collor.
Inconfidentes: muita falação. Só Tiradentes era homem de ação
Nessas três ocasiões, a vontade das ruas alterou momentaneamente o rumo dos acontecimentos, mas os poderosos realizaram manobras hábeis para retomar o controle da situação. Rupturas abertas, entre nós, só vingaram as negativas.

Vai daí que, em vez de heróis altaneiros, os infantilizados brasileiros somos carentes mesmo é de figuras protetoras, dos coronéis nordestinos aos padins Ciços da vida, passando por pais dos pobres tipo Getúlio Vargas e Lula.

Então, Zumbi dos Palmares, Tiradentes, Frei Caneca, Carlos Marighella, Carlos Lamarca e outros dessa estirpe jamais serão unanimidade nacional, como o são Giuseppe Garibaldi na Itália ou Simon Bolívar para os hermanos sul-americanos.
O 21 de abril é um dos menos festejados de nossos feriados. E o próprio conteúdo revolucionário de Tiradentes é escamoteado pela História Oficial, que o apresenta mais como um Cristo (começando pelas imagens falseadas de sua execução, já que não estava barbudo e cabeludo ao marchar para o cadafalso) do que como transformador da realidade.

Então, vale mais uma citação do artigo do qual extraímos a epígrafe, escrito por Boal quando do lançamento da antológica peça Arena Conta Tiradentes, em 1967:
"Dez vidas eu tivesse, dez vidas eu daria para salvar a deles"
"Tiradentes foi um revolucionário no seu momento como o seria em outros momentos, inclusive no nosso. Pretendia, ainda que romanticamente, a derrubada de um regime de opressão e desejava substitui-lo por outro, mais capaz de promover a felicidade do seu povo. 
...No entanto, este comportamento essencial ao herói é esbatido e, em seu lugar, prioritariamente, surge o sofrimento na forca, a aceitação da culpa, a singeleza com que beijava o crucifixo na caminhada pelas ruas com baraço e pregação 
 ...O mito está mistificado".
Quando o povo brasileiro estiver suficientemente amadurecido para tomar em mãos seu destino, decerto encontrará no revolucionário Tiradentes uma das maiores inspirações. (por Celso Lungaretti)
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