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sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

BRASÍLIA É TERRITÓRIO INIMIGO: NELA NUNCA HÁ DE CHEGAR NOSSO CARNAVAL!

Quando o Carnaval Chegar é a canção mais emblemática do período que vai da derrota da luta armada até a redemocratização do Brasil.

Depois que a imensa superioridade de forças do inimigo condenou ao fracasso a heroica tentativa de sairmos da ditadura pela porta da frente, só nos restou mesmo a longa espera de que ela ruísse em decorrência de suas próprias contradições. 

Houve, claro, momentos fulgurantes como o repúdio ao bárbaro assassinato de Vladimir Herzog em 1975 e as diretas-já em 1983/84, mas todos desconfiávamos que não seria tão fácil expelir os militares do poder que exerciam como usurpadores e déspotas.

E existia a resistência cotidiana aos abusos e atrocidades, cujo símbolo mais marcante foram D. Paulo Evaristo Arns e sua abnegada equipe, o embrião do Tortura Nunca Mais.

Mas, não estava em nossas mãos darmos um fim à ditadura. Sentíamo-nos exatamente como Chico Buarque descreveu: "Quem me vê sempre parado, distante, garante que eu não sei sambar/ Tô me guardando pra quando o carnaval chegar".

Lá por meados da década de 1970, quando terminou o último dos quatro julgamentos a que fui submetido em auditorias militares, eu tive de fazer minha opção: permanecer ou não no Brasil? 

Ao sair dos calabouços verde-oliva, ainda sob o impacto de tudo que sofrera nos porões verde-oliva, decidi embarcar para qualquer país civilizado tão logo pudesse fazê-lo legalmente, já que não tinha como montar um esquema de fuga minimamente confiável.

Aos poucos, contudo, foram-me voltando os sonhos, as elucubrações sobre o que faríamos quando, findo o pesadelo, pudéssemos finalmente reconstruir este país. "Eu vejo a barra do dia surgindo, pedindo pra gente cantar / Tô me guardando pra quando o carnaval chegar".

Mais do que quando militava na VPR, eu tinha a noção exata do que precisava ser feito para o Brasil voltar a ser, pelo menos, uma nação civilizada. Nos bares, nosso refúgio, eu e os amigos discutíamos ponto por ponto as medidas a serem tomadas no glorioso day after.

Era nosso lenitivo para continuarmos engolindo os sapos de cada dia. "E quem me ofende, humilhando, pisando, pensando que eu vou aturar / Tô me guardando pra quando o carnaval chegar"

Mas, a classe política frustrou nossas esperanças e destruiu nossos sonhos. Com a ditadura já agonizante, manobrou para que fosse rejeitada a Emenda Dante de Oliveira, que restituiria o poder a quem de direito, os cidadãos eleitores deste país. 

E o maquiavélico Tancredo Neves pôde, triunfalmente, anunciar que chegara "a hora dos profissionais".

O candidato da ditadura, Paulo Maluf, não seria detonado pelo povo nas urnas, mas sim por umas poucas centenas de parlamentares no Colégio Eleitoral, o que se constituía num símbolo gritante da exclusão do povo na tomada das grandes decisões nacionais.

Pior: Maluf deixou de ser eleito graças a seus iguais, os congressistas que, como ratos, abandonaram o navio da ditadura que já fazia água, para assegurarem a manutenção dos seus privilégios na Nova República.

A indústria cultural, com a Rede Globo à frente, conseguiu vender a ilusão de que tanto dava a diretas-já quanto a vitória no espúrio Colégio Eleitoral. A longa agonia pública de Tancredo Neves era a peça que faltava no quebra-cabeças. A pieguice obnubilou as consciências. Os maus venceram, como quase sempre.

E tocada, entre outros, pelos que haviam sido sustentáculos da ditadura, a redemocratização ficou pela metade, como convinha à burguesia, que antes exercia o poder por meio dos fardados, depois passou a exercê-lo por meio de civis safados.

Nem sequer foram punidos os assassinos seriais da ditadura. Nem sequer foram devolvidos os corpos de companheiros martirizados. "Eu tenho tanta alegria, adiada, abafada, quem dera gritar". E não adiantou esperar o carnaval, pois ele não chegou.

Assista ao filme...
Gato escaldado, nunca mais acreditei que a redenção dos males brasileiros pudesse provir das tempestades em copo d'água da política oficial. Sabia/sei que a chegada do nosso carnaval não depende da desgraça momentânea dos Tarcísios, das Michelles, dos Flávios e dos Jaíres (embora seja inconcebível que este último escape de uma punição exemplar como golpista e como homicida culposo, pois seria a avacalhação suprema do Brasil!).

Esses senhores nunca determinaram os acontecimentos, apenas cumprem/cumpriram determinadas funções dentro do sistema de exercício e sustentação do poder burguês. Então, enquanto tais funções não forem extintas, suas agruras só servirão para jogar poeira colorida nos olhos do povo.

Trata-se apenas de um sacrifício ritual para servir como catarse aos "de fora". Cada vez que um desses espantalhos tomba, a indústria cultural cria a ilusão de que a justiça foi feita e as instituições funcionam. 

Mas, saem uns, entram imediatamente outros da mesma laia; a desigualdade e a podridão continuam as mesmas.

Há ingênuos que pensam ser fundamental garantir a vitória do Lula (força auxiliar da dominação burguesa) contra os candidatos da direita escrachada. Parecem ignorar que desde a década de 1980 o Lula tudo tem feito para domesticar a esquerda, trocando a luta de classes pelo jogo de cartas marcadas das eleições. Infelizmente, com êxito.

E, ao que tudo indica, nem neste 2026 haverá uma esquerda combativa preparando o carnaval, que só chegará quando os cidadãos assumirem a iniciativa de, eles próprios, colocarem-no nas ruas, sem se deixarem iludir pelas pantomimas brasilienses. (por Celso Lungaretti)

...e curta a canção.

sábado, 30 de março de 2024

MILITARISMO E PATRIOTISMO, DOGMAS SUPREMOS DO CAPITALISMO

 


A doutrina social consiste num conjunto de ideias que devem exprimir um sentido do viver social orientado por determinados princípios que lhe servem de base estrutural e aspecto teleológico. 

Não raro, as doutrinas são transformadas em dogmas, que nada mais são do que verdades absolutas, inquestionáveis, imutáveis, que em assim sendo tentam tornar, muitas vezes, a própria doutrina como algo antagônico à dialética do movimento social em seu sentido mais dinâmico, amplo e abrangente. 

O pensamento dogmático não admite a síntese, que é a saudável depuração discursiva da tese e da antítese, justamente por estabelecer verdades repressivamente absolutistas e imutáveis que sempre são nocivas ao bom desenvolvimento da vida social e suas mutabilidades decorrentes do processo evolutivo das relações sociais graças ao acúmulo do saber e consequente qualificação científica do ser humano em sociedade.  

Começo este artigo tratando desse tema filosófico para dizer que há sempre uma doutrina, mesmo que implícita, por trás de qualquer regra de convivência social estabelecida.  

O capitalismo se caracteriza como doutrina social histórica e, portanto, com começo, meio e fim, como tudo que é histórico, e nele estão inseridos preceitos de natureza orgânica que dão suporte à sua existência doutrinária. 

Foi a doutrina iluminista, que parecia trazer luzes às trevas do feudalismo, aquilo que embasou filosoficamente o processo de implantação do republicanismo burguês e seu escravismo indireto capitalista.  

Dissequemos um dos aspectos da sustentação institucional doutrinária do capital, qual seja o seu conceito de pátria e a sua correspondente defesa do militarismo.   

O conceito de pátria decorre do dogma de que a dita cuja consiste num conjunto de pessoas vivendo num determinado território sob uma ordem de relação social estabelecida por suas crenças, costumes e idioma(s), que devem ser preservados. São conceitos pretensamente consensuais de vida social, tanto no seu aspecto de produção social como na sua ordem jurídico constitucional.  

Entretanto, tal ideia, de pátria, é uma invenção criada - e imposta pela força das armas de fogo - como forma de institucionalização de uma ordem opressora e escravista da maioria dos cidadãos, e de tal forma sublinear de convencimento que o oprimido se sente culpado pela própria situação a que é submetido.  

A questão que se coloca diante do conceito de pátria, que se confunde com o conceito de nacionalidade, que por sua vez decorre do conceito de nação, que é instituto jurídico recente entre as sociedades humanas, é que nele está inserido um sentimento de exclusividade xenófobo, nacionalista, e como se fosse algo virtuoso. 

Não se percebe a relação entre pátria e opressão patriótica” do Estado.

Fidel era nacionalista, patriótico - pátria o muerte, era o dístico dos outdoors cubanos -; Brizola, Hitler, Bolsonaro, Castelo Branco e todos os generais presidentes da ditadura militar brasileira de 1964 a 1985; Simon Bolivar, José Marti, Sandino, Nicolás Maduro, Emiliano Zapata, e cada um com suas boas ou más intenções, mas igualmente equivocados nesse particular.  

A pátria espolia o cidadão, mas o trata como nacional detentor de determinados direitos e, principalmente, sobre os demais membros não nacionais, ainda que diga o contrário e afirme defender a sua pretensa natureza pacífica em relação aos seus vizinhos 

O capitalismo é belicista, e essa sua natureza é a razão das guerras modernas cada vez mais frequentes. Essa é a razão pela qual, em defesa da pátria, admite-se durante a deflagração política de uma guerra, que os nacionais de uma determinada pátria matem os nacionais de outra, que sequer conhecem.      

O capitalismo e suas necessidades mercantis forjou paulatinamente os conceitos exclusivistas de nação e de exércitos permanentes, profissionais, remunerados pelo dinheiro dos salários, que divergia do conceito do feudalismo no qual os exércitos eram menos numerosos, mercenários e eventuais, inconstantes, vez que não havia ainda desenvolvido a ambição da relação mercantil extramuros.

Alguém acha que Cristóvão Colombo e Pedro Alvares Cabral descobriram as Américas para promover a fraternidade humana? Ou aqui vieram sob um processo de necessidade de expansão da pilhagem de riquezas materiais que se transformavam em riquezas abstratas, ouro e prata, principalmente, que já serviam de lastro monetário em expansão pré-capitalista? 

O desenvolvimento dos burgos, de onde deriva o termo burguesia, locais onde se processavam as trocas de produtos transformados em mercadorias, muitos deles já manufaturados, com intercambio entre comunidades, constituiu-se em práticas sociais cada vez mais frequentes, que passaram a exigir uma ordem social consentânea com seus critérios de vida social baseada na produção de mercadorias destinadas à compra e venda. 

Ora, o feudalismo, no qual a monarquia e a igreja, de mãos dadas com a aristocracia rural, ditavam as ordens, teria que dar lugar a uma nova ordem na qual o capital em processo de desenvolvimento pudesse se expandir sem as amarras das castas sociais que eram avessas a tal desenvolvimento.  

 O capital tem a característica de ser uma abstração impessoal que comanda a sociedade acima dos homens a quem torna súditos de sua lógica tão ditatorial quanto aquela personalíssima, feudal, e que agora se apresentava sob o manto da “liberdade” de escolha, pelo trabalhador abstrato escravizado indiretamente pelo salário e extração de mais-valia, o “direito” de vender a sua única propriedade, o seu tempo-valor de trabalho abstrato.   

Assim, o conceito de pátria está umbilicalmente ligado a uma ordem de produção social e de organização jurídica determinada pelo capital, razão pela qual a força militar criada sob o soldo dos militares profissionais, bem como todo o aparato de guerra, com tudo financiado pelos impostos extraídos das atividades mercantis, pagos pelo povo, é fiel ao conceito de defesa dogmaticamente ensinado e absorvido nas academias militares. 

Quando se compreende que Bolsonaro não recebeu apoio militar para sua aventura golpista no Brasil, pode-se perfeitamente compreender que o comando miliar - à exceção de alguns poucos desavisados - entendeu que não havia clima para tal aventura, e o fez por vários motivos, quais sejam: 


a conjuntura capitalista depressiva ainda não atingiu o estágio de necessidade de intervenção militar;

- o Bolsonaro era um militar sem história de disciplina e carreira como deseja o dogma doutrinário militar; - a locomotiva do capitalismo nas Américas, os Estados Unidos, não tinham interesse, como tiveram em 1964, num golpe civil-militar encabeçado por um protagonista despreparado e sem currículo que o abonasse, igual Bolsonaro, até porque de um novo Hugo Chávez na América latina eles estão ressabiados; - o mercado confia no Lula, que se jacta de que os bancos nacionais e internacionais que aqui operam, tiveram os maiores lucros da história em seus governos; - apesar de Bolsonaro ter enchido seu governo com militares da reserva e até da ativa, os estudos geopolíticos da caserna, desde Golbery do Couto e Silva, estão atentos à conjuntura internacional do capitalismo que anuncia tempos sombrios de sua administração e que desaconselham uma interveniência direta de apoio à Bolsonaro e sua trupe, reservando-se a possibilidade de intervenção para o futuro; - os erros estratégicos de Bolsonaro, que ao não aderir a tempo de promover a vacinação no Brasil, e estimular o povo a continuar vivendo normalmente como se nada estivesse havendo em relação à pandemia de covid19 que assombrou o mundo, provocou a morte de 700 mil pessoas no Brasil, com dados que se supõe subestimados, cerca de 10% dos casos mundiais - um absurdo se considerarmos que o Brasil tem cerca de 3% da população mundial - e que vai se firmar como o maior genocida da história do Brasil. A doutrina militar moderna nasceu com o capitalismo e se tornou um dogma que está acima dos próprios militares comandantes - virou verdade doutrinária conceitual corporativa imutável a ser obedecida inquestionavelmente -, é essa é a sua orientação patriótica, razão pela qual para defendê-la a caserna vai às últimas consequências. Putin, por exemplo, militarista desde os tempos da KGB, que o diga com suas ameaças nucleares...

Quando se prenunciar o colapso capitalista, que deverá começar pelo crash do sistema bancário internacional em razão da dívida pública impossível de ter os juros renegociados para pagamento aos rentistas mundo afora, somente restará à ordem capitalista a tentativa de sustentação militar de seus postulados, ainda que insustentáveis. Esse será o início da hora da verdade dos tempos atuais. (por Dalton Rosado)

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