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segunda-feira, 19 de maio de 2025

MALCOLM X, ÍCONE DO MOVIMENTO NEGRO NOS ANOS 60, HOJE FARIA 100 ANOS.

H
oje (19/05) se comemora o centenário de nascimento de um dos personagens mais emblemáticos dos turbulentos anos 60 nos EUA, o ativista negro Malcolm X, grande amigo de outra lenda do período, o pugilista Muhammad Ali.

Com seis anos de idade ele perdeu o pai, pregador batista e membro da Associação Universal para o Progresso Negro, que foi massacrado por uma horda da Black Legion, organização terrorista de supremacistas brancos, e largado nos trilhos de um bonde. Embora tivesse seu corpo quase dividido ao meio, o pastor agonizou durante horas antes de expirar.

Sua mãe, fustigada pela miséria e abandonada pelo homem com quem pretendia casar, enlouqueceu. Malcolm e seus sete irmãos foram distribuídos por lares de acolhimento.

Mesmo assim ia bem nos estudos, até que, no oitavo ano, um professor do qual gostava desencorajou-o de seguir a profissão que escolhera: "Um advogado? Isto não é um objetivo realista para um negro. Por que não tenta carpintaria?".

Tornou-se um adolescente problemático, foi expulso da escola, passou a beber, a fumar marijuana, a usar roupas extravagantes, a frequentar salões de dança. Trocou uma digna namorada negra por uma mulher branca, causando-lhe tal desencanto que ela acabou entregando-se às drogas e à prostituição.

Malcolm também se viciou em cocaína e andou praticando assaltos para bancar os aproximados 20 dólares por dia que gastava com a droga. 

Preso e condenado a 11 anos de detenção, foi regenerado por outro prisioneiro, que o inspirou a converter-se ao Islã e conduziu-o para as fileiras do guru picareta Elijah Muhammad e seus muçulmanos negros.  

Após sair da prisão com 27 anos, destacou-se como fervoroso ministro dessa seita separatista, que se diferenciava de outras vertentes do movimento negro por sua maior combatividade e uma disciplina próxima à militar.

Ativista convicto, grande orador e personagem carismático, acabou fazendo sombra ao líder da seita, que sentiu-se cada vez mais ameaçado por Malcolm levar a sério aquilo que para ele não passava de retórica conveniente. 

Algo que incomodou muito Elijah foi Malcolm ter se aproximando dos movimentos pelos direitos civis. 

Malcolm, por sua vez, desencantou-se com a satiríase do guru, que mantinha relações adulteras com as discípulas e engravidara várias delas.

Tendo rompido com a Nação do Islã, feito uma peregrinação a Meca e se tornado cada vez mais um missionário que assumia a pauta política do movimento negro até as últimas consequências, Malcolm virou alvo de atentados e acabou assassinado em fevereiro de 1965, a mando de Elihan Muhammad. 

Sua cinebiografia, Malcolm X (1992), disponibilizada abaixo, é o melhor filme da carreira do diretor Spike Lee e tem uma atuação de gala do Delzel Washington. Os 202 minutos passam num piscar de olhos. (por Celso Lungaretti)  

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

COM TRUMP, EUA VOLTAM AO PASSADO EM QUE DEIXAVAM ASSASSINOS SOLTOS PARA EXECUTAREM ANARQUISTAS NO SEU LUGAR

Um contraste marcante: Sacco mal falava, enquanto Vanzetti era eloquente em sua indignação. 
Foi um verdadeiro achado, o filme certo no momento exato: acabo de encontrar novamente disponibilizado no Youtube, agora com legendas em espanhol, a obra-prima de Giuliano Montaldo, seguramente uma das melhores reconstituições cinematográficas de um assassinato de inocentes pela via judicial em todos os tempos: Sacco e Vanzetti

Qualquer semelhança com o tratamento hediondo que acaba de ser imposto a imigrantes brasileiros não é mera coincidência, mas sim a confirmação de que o país que mais produz filmecos de tribunal é também o que piores injustiças comete, por conta do fanatismo puritano que o impregna desde suas origens. 

Os estadunidenses jamais deixaram de queimar bruxas, apenas foram substituindo-as por outras vítimas, como os negros chacinados pela Ku Klux Klan!

O de Sacco e Vanzetti foi, talvez, o pior dos homicídios legalizados cometidos pela Justiça estadunidense em todos os tempos: um sapateiro e um peixeiro italianos foram condenados à pena capital, sem provas, por um latrocínio ocorrido em abril de 1920.
A evidente tendenciosidade do tribunal de Massachussetts causou enorme indignação –manifestações de protesto reuniram multidões por todo o mundo, um sem-número de celebridades e grandes juristas deram declarações candentes e até o Papa tentou evitar que eles fossem executados. Tudo inútil.

O fato de serem ambos anarquistas havia sido o fator preponderante para sua condenação –os EUA viviam um período de histeria anticomunista após a revolução soviética de 1917– e a inevitável politização do caso acabou determinando a não aceitação, por parte do tribunal, de provas e de uma confissão que os inocentavam.

Ou seja, quando surgiram gritantes evidências de que os crimes haviam sido cometidos por bandidos comuns, as autoridades já tinham ido muito longe e preferiram perseverar no erro do que o admitir honestamente. Elas, sim, mereciam a cadeira elétrica!

Em agosto de 1927, após mais de sete anos de tensão e sofrimento, foram eletrocutados. Meio século depois, o governador do Massachussets reconheceu-lhes oficialmente a inocência.
Os personagens históricos cujo martírio comoveu o mundo

Esta saga foi levada às telas em 1971 pelo diretor e roteirista Giuliano Montaldo, um especialista em cinebiografias e dramas que têm acontecimentos históricos como pano de fundo (
Giordano BrunoDeus está conoscoL'Agnese va a morireL'addio a Enrico Berlinguer, a mini-série Marco Polo, etc.).

Ele foi feliz em apresentar uma síntese bem essencializada do caso, sem prejuízo da sua enorme carga emocional. E teve a felicidade de contar com uma dupla de atores magníficos, extremamente identificados com seus papéis (Gian-Maria Volonté e Riccardo Cucciola); e com mais uma trilha musical memorável do gênio Ennio Morricone, incluindo a felicíssima escolha de Joan Baez para interpretar as três partes da Balada de Sacco e Vanzetti e o tema final, Here's to You

Uma curiosidade: A tragédia de Sacco e Vanzetti, de Howard Fast, foi o primeiro livro de cunho político que li na vida, lá pelos meus 12 ou 13 anos, quando escolhia os que retiraria na biblioteca circulante da Mooca apenas pela capa e pela sinopse na orelha do exemplar. Ignorava totalmente o caso.

Impressionou-me tanto que até passei a procurar outras obras do Howard Fast. Aí, quando em 2008 o Comitê de Solidariedade a Cesare Battisti telefonou de Brasília pedindo a minha ajuda, aceitei de pronto. Para um revolucionário da minha geração, prestar solidariedade a companheiros perseguidos era um dever.

Nem lembrava mais do livro. Mas acabei me dando conta de que cair nas minhas mãos uma cruzada que lembrava tanto o episódio dos anarquistas italianos parecia obra do destino. 

Tive a chance de evitar que se repetisse a infame entrega de Olga Benário aos algozes italianos... e aproveitei-a bem, pois, ao lado de um punhado de veteranos devotados, consegui frustrar em 2011 toda a direita brasileira e os veículos da imprensa canalha que se rebaixaram ao papel de serviçais do neofascista Silvio Berlusconi.  

Isto não impediu que o STF voltasse atrás de sua decisão em 2018, acoelhado por causa da vitória eleitoral de Jair Bolsonaro, quando o ministro que concedera liminar contra os planos italo-brasileiros de sequestro do escritor sob nossas barbas cassou sua própria liminar, ele também parecendo temer que logo após a posse do Bozo haveria uma noite de São Bartolomeu por aqui. (por Celso Lungaretti)

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

UM DOS CLÁSSICOS DO CINEMA INDIANO, O JOGADOR DE XADREZ É O RETRATO FIEL DE QUANDO A ELITE SE TORNA ALHEIA À PRÓPRIA REALIDADE

 


Satyajit Ray não é muito conhecido entre o público brasileiro, mas produziu algumas das maiores obras cinematográficas do século XX. Este cineasta indiano conseguiu captar não apenas a alma de seu país, mas também tocar temas universais. 

Este é o caso de O Jogador de Xadrez (Shatranj Ke Khilari), também traduzido por Os Jogadores do Fracasso, de 1977. A película aborda os acontecimentos anteriores à derrubada de Wajid Ali Shah, rei do território indiano de Nawab de Oudh, pelas forças inglesas ocupantes. 

A história possui três focos intrecruzados. Enquanto acompanhamos o cotidiano de dois membros da aristocracia local, Mirza Sajjad Ali e Mir Roshan Ali, vemos o desenrolar da trama britânica para depor o rei e tomar por completo o controle do governo local. Por sua vez, o rei, mais interessado em compor poesias e músicas, pouco tem a fazer diante da força avassaladora do Império

Satyajit Ray, um dos mais importantes
cineastas do século passado
Mirza e Mir seguem uma vida cômoda, graças ao fato de seus antepassados terem lutado em importantes guerras e conquistado, por graça real, terras e pensões. Contudo, ao contrário de seus ascendentes, os dois nobres não se interessam mais por lutas e combates reais, preferindo gastar toda sua energia em batalhas de Xadrez

Praticamente todo o tempo de seus dias é gasto em jogos intermináveis, a ponto de até mesmo negligenciarem o convívio com suas esposas. Sequer a notícia da possível ação inglesa para tomar o poder os afasta da concentração com as partidas. Quando finalmente é anunciado que as tropas invasoras ocuparão de fato o território, os nobres abandonam a cidade em busca de um lugar mais calmo para continuar as disputas, não por causa da invasão, mas para fugir do ambiente doméstico hostil. 

É nítido no filme a diferença entre a concretude política dos ingleses, posicionando-se no mundo real para derrubar o rei e controlar o governo, e a alienação dos nobres, perdidos em suas batalhas de tabuleiro e alheios à dinâmica histórica. No meio, o rei idealista sente vacilar os fundamentos de seu poder, e, diante do alheamento de sua aristocracia, não possui outra alternativa senão se render sem qualquer tipo de resistência. 

No avanço do capitalismo imperialista, momento registrado pelo filme, a elite indiana é indiferente quanto a quem vai governar. Tendo os ingleses já efetivamente dominado toda a economia do país, quem detém o poder político é algo de insignificante importância. Para esta aristocracia, é aceitável o novo papel subordinado dado para ela pela coroa britânica e seus encarregados. 

Por isso, O Jogador de Xadrez é um retrato fiel de quando uma elite se torna alheia ao destino de seu país e de seu povo e, vivendo da renda e da herança, preocupa-se mais com o imaginário que com o real. Algo não muito distante dos dias atuais. (por David Emanuel Coelho)




quarta-feira, 7 de setembro de 2022

JÁ QUE O BOZO FAZ TANTA QUESTÃO DE TROMBETEAR QUE É IMBROCHÁVEL...

 ...o blog lhe presta uma homenagem postando
este filme sobre um fulano igualmente
obcecado com tal questão. 
O belo Antônio é uma amarga comédia italiana de 1960, dirigida
por Mauro Bolognini e interpretada por Marcello Mastroianni
Claudia Cardinale, que provocou muito falatório à
época por abordar um tema melindroso.

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

10 ANOS APÓS A MORTE DE SARACENI, UM NOVO DESAFIO ESTÁ NAS RUAS

Paulo César Saraceni morreu em 2012.

Tinha 78 anos e fazia cinema desde 1959.

Em mais de meio século de atividades, dirigiu 13 filmes, nove dos quais também roteirizou.

Foi um dos fundadores do  cinema novo, mas nem de longe fez obras de importância equiparável às dos dois outros parceiros de empreitada: Glauber Rocha (indiscutivelmente, o maior cineasta brasileiro de todos os tempos) e Nelson Pereira dos Santos (bem mais prolífico e realizador de clássicos como Rio 40 Graus e Vidas Secas).

No entanto, Saraceni constituiu-se numa referência muito forte para minha geração, por um único motivo.

Seu O Desafio, lançado em 1965, foi provavelmente a primeira resposta cinematográfica à quartelada.

Enfoca os sentimentos de culpa, impotência e prostração subsequentes à vergonhosa derrota sem luta.

Foi o mal-estar que acometeu toda aquela esquerda: supunha-se a um passo do poder, iludida pelo triunfalismo inconsequente do Partido Comunista Brasileiro e seu principal dirigente (Luiz Carlos Prestes), mas acordou ouvindo marchas militares no famigerado 1º de abril de 1964.

E dá-lhe más ressacas! E dá-lhe lavagens de roupa suja! E dá-lhe lutas internas no partidão! E dá-lhe rachas!

Em 1965, a esquerda lambia as feridas e se reconfigurava, voltada para dentro de si mesma. Não reagia.

Aí, foi lançado
O Desafio. E juro! o título apareceu pichado nos muros de São Paulo. Só o título, com a tinta escorrendo. Eu tinha 14 anos, via aquilo e nada entendia. Ignorava que fosse uma mensagem vinda das catabumbas: não estamos mortos!

Só em 1967, dando os primeiros passos no movimento estudantil, fui assistir ao filme e compreender o motivo das pichações.

E, francamente, não gostei daquele imenso desencanto que ele flagra, o atoleiro no qual se move Marcelo, o personagem politizado (interpretado pelo Vianninha, de saudosa memória), durante quase todo o tempo.

Mas vibrei com o final, quando ele enfim levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima, decidido a voltar ao bom combate.

Isto ficou apenas sugerido, como se fazia necessário sob o tacão da censura. Depois de um porre com um repulsivo colega de trabalho, vão ao apartamento deste, cuja esposa se despe e se-lhe oferece. Antes que ele tenha qualquer reação, o marido acorda e fita ambos, em meio à sua névoa alcoolica. 

Marcelo empurra a mulher e vai embora, enojado. Desce uma escadaria com expressão resoluta, afaga a cabeça de um menino pobre e se distancia, marchando ao encontro do seu destino.

Tudo isto ao som de um tema da peça Arena conta ZumbiÉ um tempo de guerra,  canção que Augusto Boal, Gianfrancesco Guarnieri e Edu Lobo haviam derivado da poesia antológica de Bertolt Brecht, para usar o esmagamento do quilombo de Palmares como metáfora do golpe militar.
Na peça, era a lição que um guerreiro às portas da morte legava aos que viriam depois. Uma sugestão velada também, claro ("Eu sei que é preciso vencer/ Eu sei que é preciso lutar/ Eu sei que é preciso morrer/ Eu sei que é preciso matar"). 

Só que parecia algo meio distante, lá pra frente, pois o momento era de derrocada.

No filme, ficou mais fácil perceber que se tratava do passo seguinte, imediato: um recado de que não só a luta tinha de ser retomada, como assumiria doravante características de guerra.

Foi profético. Houve mesmo a guerra, de consequências trágicas para a esquerda (quantos quadros insubstituíveis foram dizimados!), mas inevitável: ela só reconquistaria o respeito do povo caso se dispusesse a sangrar por seus ideais, como deixara de fazer em 1964.

Muitos dos que não pegaram em armas recriminaram nosso  vanguardismo, nosso imediatismo pequeno-burguês. Segundo eles, só servíramos para acirrar a repressão e fornecer pretextos para o endurecimento do regime.

Omitiram ter sido exatamente sua tibieza em 1964, quando deixaram de travar a luta em condições bem mais favoráveis, que nos obrigou a assumir adiante a missão quase kamikaze de lavar a honra da esquerda, virando a página da desmoralização e restituindo-lhe a credibilidade. 

Resolvi rememorar o desafio de 1965 porque um novo desafio será lançado às forças da intolerância e do retrocesso daqui a três, diante da Faculdade de Direito da USP,  no Largo São Francisco, com a leitura de dois manifestos antigolpe que têm tudo para detonarem as últimas esperanças do presidente delinquente. 

Aqueles que pensam por ele (pois se trata de uma faculdade da qual o Bozo é carente) temem que o ato da 5
ª feira consolide definitivamente a rejeição ao celerado, desencadeando a revoada dos apoiadores comprados por cargos e verbas públicas para a arca de Noé do Lula, na qual cabe tudo, até cobras e lagartos...

Nisto, pelo menos, eles estão certos: tal página, uma das mais vergonhosas da História do Brasil, deverá mesmo começar a ser virada nesta quinta.

Enquanto esperamos, que tal darmos uma olhadinha em O desafio, para irmos entrando no clima? (por Celso Lungaretti) 

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

NASCEU BURRO, NÃO APRENDEU NADA E ESQUECEU A METADE

josias de souza
BOLSONARO
 VIROU DEFENSOR INVOLUNTÁRIO
 DO VOTO ÚTIL
(trechos finais)
"...Bolsonaro se mantém acorrentado à retórica do caos. Prepara nova confusão para 7 de setembro, Nesta terça (02/08), numa entrevista à Rádio Guaíba, voltou a questionar o sistema eleitoral. 

Atacou ministros do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral:
— disse que Luiz Fux, presidente da Suprema Corte, deveria ser investigado no inquérito sobre fake news por defender as urnas eletrônicas;
— tachou Luís Roberto Barroso de criminoso por ter participado, a convite do Congresso, dos debates que resultaram na rejeição do projeto que instituía o voto impress;
— acusou Alexandre de Moraes de persegui-lo com investigações imorais e ilegais.

A pregação de Bolsonaro leva água para o moinho do movimento que prepara o lançamento, em 11 de agosto, de um par de manifestos em defesa da democracia –um organizado por docentes da USP, já com 700 mil assinaturas; outro encabeçado pela Fiesp, em parceria com a Febraban. 

Na mesma entrevista, o presidente chamou os signatários dos manifestos de pessoal cara de pau e sem caráter.

Os próprios aliados avaliam que a obsessão de Bolsonaro por uma agenda enferrujada faz dele um defensor involuntário do voto útil, aquele que vai para qualquer lugar, inclusive para a candidatura de Lula, desde que o projeto da reeleição seja sepultado. O presidente demora a perceber que conspira contra si mesmo." (por Josias de Souza)
Nutt: nasceu burro, não aprendeu nada e esqueceu a metade
(d. Adam Rifkin, 1992) é uma comédia escrachada que só 
entrou aqui como elemento ilustrativo

terça-feira, 12 de julho de 2022

O FILME DESTA SEMANA SÓ PODERIA SER "OS VIOLENTOS VÃO PARA O INFERNO"

Não, este não é um post sobre o faroeste caboclo que virou tema político, mas com jeitão de futebol: todo mundo torce para um ou outro time, enquanto o principal se distorce. 

Os que estão com a visão distorcida pela maldita polarização na qual tanto investem os dois vilãos (o louco e o anacrônico) não se dão conta de que o rumo atual só nos conduz à entropia. 

Ou detemos a escalada do ódio ou a violência irracional continuará destruindo o pouco que ainda nos resta de civilização, além de desviar o foco do que realmente importa neste momento: evitar que o nosso povo continue sendo dizimado pela miséria e pela fome desembestadas.

Os coitadezas deste país estão sofrendo como nunca porque os safadezas direitistas impingiram um psicopata como presidente da República, embora não tivesse as mínimas condições intelectuais, mentais e morais  para o exercício do cargo. 

E os safadezas reformistas tudo fizeram para sabotar o impeachment do celerado, enquanto ele cometia o maior genocídio já perpetrado neste país, condenando centenas de milhares de brasileiros à morte com suas maluquices no combate à pandemia.

Torcendo para que haja mesmo um inferno para receber tanto os boçais ignaros quanto os moluscos maquiavélicos, passemos ao filme para ver no blog desta terça, um western italiano de boa safra (1968), que pode servir, no mínimo, como um agradável passatempo: Os violentos vão para o inferno.

O diretor é Sergio Corbucci, que fazia o gênero artesão, entregando filmes geralmente razoáveis e às vezes muito bons.

Casos de Romulo e Remo (1961), Dança macabra (clássico do terror italiano que ele co-dirigiu com Anthony Dawon em 1964, sem que sua participação lhe fosse creditada), o primeiro Django (1966), o Vingador silencioso (1968) e o interessantíssimo O especialista (1968), no qual transpôs para o Oeste selvagem sua visão sobre os jovens contestadores que sacudiam a Europa.

Os violentos vão para o inferno, cujo título mais apropriado teria sido O mercenário (como nos cinemas da Itália), tangencia a Revolução Mexicana, mas sem ir fundo como Damiano Damiani em Gringo e Sergio Leone em Quando explode a vingança

Mostra um peão (Tony Musante) que, após reagir a uma humilhação dos poderosos, torna-se um revolucionário de ocasião e, por não entender do ofício, aceita pagar a um mercenário (Franco Nero) para ensinar-lhe o caminho das pedras.

Como vilão reencontramos uma figurinha carimbada dos filmes B estadunidenses, Jack Palance. E a trilha sonora de Ennio Morricone é diferenciada como sempre, com a canção principal trazendo em destaque... assobios!

Uma curiosidade é que o bom retorno nas bilheterias resultou numa espécie de remake quase imediato (Companheiros, 1970), com enredo semelhante e novamente sob a direção de Sergio Corbucci. 

Franco Nero, mercenário polonês no filme anterior, virou um aventureiro e vendedor de armas sueco. Jack Palance continuou sendo o vilão. Entraram Thomas Milian (um cubano no papel de um rebelde mexicano) e Fernando Rey como professor revolucionário.  

O enlace com a Revolução Mexicana foi acentuado. A caliente canção Vamos a matar, compañeros! acabou sendo uma das mais populares do mestre Morricone. E o desempenho nas bilheterias foi ainda melhor, mas não devem ter encontrado nenhum roteirista com imaginação suficiente para vender o mesmo peixe pela terceira vez... (por Celso Lungaretti)

sábado, 15 de janeiro de 2022

SEM AS PALHAÇADAS DE TERENCE HILL, "MEU NOME É NINGUÉM" TERIA SIDO UM IRMÃO MENOR DE "ERA UMA VEZ NO OESTE"

Foi como se o Trinity estivesse invadindo o set de Era uma vez no Oeste...
M
eu nome é ninguém (1973) é o filme de encerramento do Festival do Western Italiano que este blog realiza há exato um mês, ao longo do qual apresentou aos leitores 12 dos títulos mais expressivos dessa variante alternativa aos bangue-bangues estadunidenses – a qual superou tão acentuadamente a matriz original que Hollywood foi obrigada a curvar-se à Cinecittà, trocando o maniqueísmo rançoso de seus faroestes por uma visão mais realista e amarga do tempo das diligências...

Foi idealizado, produzido e dirigido pelo grande Sergio Leone, que preferiu, contudo, transferir a seu assistente Tonino Valerii o crédito de diretor.

Por quê? Tenho cá pra mim que ele não quis quebrar a sequência evolutiva de sua obra. Começara dirigindo épicos da Antiguidade (Os últimos dias de Pompéia –também não creditado–, 1959; e O colosso de Rodes, 1961), inventara o bangue-bangue à italiana ao transferir para o velho Oeste uma saga de samurais (Por um punhado de dólares, 1964) e foi realizando filmes cada vez mais ambiciosos:
...e desviando as atenções do lendário
Henry Fonda, já no ocaso da carreira 
Por uns dólares a mais (1965), em que uma busca de vingança assume contornos grandiosos;
— Três homens em conflito (1966), perfeito como filme de ação e extraordinário como líbelo contra a guerra;
— Era uma vez o Oeste (1968), um bangue-bangue nostálgico e filosófico, que contrapõe lendas e realidade, desmistificando fábulas românticas consagradas, ao mesmo tempo em que presta tributo a essas belas fantasias; e
— Quando explode a vingança (1971), tudo que ele queria dizer sobre as revoluções, sem prejuízo da ação propriamente dita, magnífica!

O passo seguinte seria Era uma vez a América (1984), monumento cinematográfico que mereceria ser reconhecido como uma das maiores obras-primas da sétima arte em todos os tempos.

Enquanto acumulava forças e reunia recursos para seu projeto mais caro e ousado, que tal ganhar um dinheirinho surfando na onda do sucesso de Terence Hill em clave cômica? [Este ator começara seguindo as pegadas de Franco Nero como mocinho sinistro, mas não convencia e acabou descobrindo sua real vocação ao estrelar o acomediado Chamam-me Trinity (d. Enzo Barboni, 1970).]

Ou, talvez, Leone simplesmente não tenha querido colocar sua assinatura num filme que tem grandes momentos mas, também, evidentes concessões comerciais. 

Isto porque Meu nome é ninguém combina o melhor do Leone (novamente a discussão sobre como se engendravam as lendas, a belíssima trilha musical –desta vez com inspiração wagneriana de Ennio Morricone e a dignidade que Henry Fonda confere ao seu personagem) com o pior do Terence Hill (as sequências típicas de comédia de pastelão, cuja ausência seus fãs jamais perdoariam...

A história é a de um jovem desconhecido mas muito hábil no gatilho (Hill), que importuna uma lenda viva do Oeste (Fonda), tentando por todos os meios forçá-lo a, antes de aposentar-se, inscrever seu nome definitivamente na História: quer que ele enfrente sozinho um verdadeiro exército de malfeitores.
Em termos qualitativos, o desperdício de tempo com as canastrices  de Hill coloca o filme mais ou menos no patamar de 
Por um punhado de dólares; sem elas, seria uma espécie de irmão menor de Era uma vez o Oeste

Mesmo assim, por seu ótimo ponto de partida e por algumas sequências inesquecíveis, merece ser visto.

Leone repetiria a dose com Trinity e seus companheiros (1975), usando Damiano Damiani como testa-de-ferro. 

Só que exagerou na dose, pois se trata de um filme vazio e indefensável, pior do que qualquer western dirigido por Leone ou pelo próprio Damiani (cujo Uma bala para o general, de 1966,  fora outra das inspiradas incursões da Cinecittà pela revolução mexicana). 

Felizmente, não houve uma terceira associação com Terence Hill, um ator simpático e carismático, mas que se projetou num contexto de decadência e descaracterização do gênero, acabando por as simbolizar. (por Celso Lungaretti)

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

DEPOIS DE INVENTAR O WESTERN ITALIANO, SERGIO LEONE PRECISAVA DEMONSTRAR SEU TALENTO PARA VOOS MAIORES. CONSEGUIU!

P
or uns dólares a mais (1965) foi o primeiro grande filme do mestre Sergio Leone.  Ele inventara o faroeste italiano no ano anterior com Por um punhado de dólares,  transpondo para o velho Oeste uma história de samurais. Muitos cineastas vieram atrás. 

Então, seu novo filme era uma espécie de desafio, a hora de separar o homem dos meninos: tinha de provar que seu estrondoso sucesso inicial não fora apenas um golpe de sorte.

Em Por um punhado de dólares ele introduzira:
— a figura do anti-herói no centro da trama;
— a amoralidade básica dos tipos e das situações;
— a apresentação criativa dos letreiros iniciais, valorizada com vários recursos, inclusive o uso de animação;
— a nova concepção musical que Morricone trouxe para os westerns; e
— um dos personagens mais emblemáticos do bangue-bangue à italiana, o pistoleiro oportunista interpretado por Clint Eastwood.
Depois, em 
Por uns dólares a mais, todas essas características foram desenvolvidas e aprimoradas. É um filme muito melhor do que o anterior, mas, paradoxalmente, não apresentou novidades significativas.

A única que vale a pena citar é a colocação de dois personagens em destaque, no lugar de um. A partir daí, os filmes de Leone trariam sempre essa dupla de anti-heróis ocupando o espaço do antigo mocinho.

Para encarnar o segundo anti-herói (o primeiro continuou sendo Clint Eastwood, novamente na pele do Estranho Sem Nome), ele escolheu outro ator estadunidense que caiu como uma luva no papel: Lee Van Cleef.

Ao contrário de Eastwood, que não fora muito longe em Hollywood como astro (salvo num seriado de TV), Van Cleef já tinha longa e bem-sucedida carreira... como coadjuvante. Atuara em westerns memoráveis como Matar ou morrerHonra a um homem mauSem lei e sem almaO homem dos olhos friosEstigma da crueldade e O homem que matou o facínora.
Como no caso de Eastwood (e, mais tarde, de James Coburn e Eli Wallach), o olho clínico de Leone detetou em Van Cleef o potencial para voos maiores; e, com seu 
toque de Midas, elevou a carreira do dito cujo a um patamar bem mais alto, a partir de seus inesquecíveis desempenhos em Por uns dólares a mais e Três homens em conflito

[Van Cleef teve muita sorte ao trocar temporariamente Hollywood pela Cinecittà, pois também Sergio Sollima e Tonino Valerii levantaram a bola para ele marcar belos pontos, respectivamente em O dia da desforra e O dia da ira.]

E, se Por um punhado de dólares fora um filme-de-astro-único (Eastwood), Por uns dólares a mais teria, além dele e de Van Cleef, outra grande atração, o vilão genial, psicótico e drogado interpretado por Gian-Maria Volonté. É difícil dizer quem defendeu melhor seu personagem; mas, justiça seja feita a Volonté, coube a ele a composição mais difícil.

Klaus Kinski também está no elenco, só que sem todo o carisma que logo se vislumbraria em 
Gringo (d. Damiano Damiani, 1966), para irromper com força total em Aguirre, a cólera dos deuses (d. Werner Herzog, 1972).

A história é a de dois caça-prêmios (Eastwood e Van Cleef) que unem forças para uma empreitada complicada, mas muito rentável: capturar/eliminar a quadrilha do Índio (Volonté). 

Só que a motivação de um deles não é apenas mercenária: há uma vingança no final da linha. (por Celso Lungaretti)

domingo, 19 de setembro de 2021

USO DE COBAIAS HUMANAS POR PARTE DOS NAZISTAS FOI ABORDADO POR INGMAR BERGMAN EM "O OVO DA SERPENTE"

A monstruosidade do Governo Bolsonaro em evidência no presente momento (logo surgirá outra, o estoque não acaba nunca...) é a parceria criminosa com o plano de saúde Prevent Senior para a realização de pesquisas 
de alto risco sem o conhecimento nem o consentimento dos conveniados, reduzindo-os, na prática, a cobaias humanas, enfocada no post anterior

Trata-se, portanto, de um bom momento para revermos um filme de 1977 em que tal prática abominável, da qual eram vítimas compulsórias os prisioneiros de campos de concentração, é importante para o desfecho da trama. 

Trata-se de O ovo da serpente, que traz a prestigiosa assinatura de Ingmar Bergman como diretor, mas, na minha opinião, começou com tudo e depois não manteve o pique. 

O impacto inicial se deve a ser o filme que melhor reconstituiu, até hoje, o impacto de um colapso econômico na vida dos cidadãos comuns (uma situação muito afim com o soturno momento pelo qual passamos).
Falo, é claro, da hiperinflação alemã de 1923, quando o dinheiro não valia mais nada  e as pessoas haviam perdido toda perspectiva de futuro; ou estavam prostradas, sem forças para reagirem aos infortúnios que as esmagavam, ou sofregamente perseguindo prazeres como se o mundo fosse acabar logo em seguida.

Fica muito claro que, não suportando a falta de uma âncora para suas existências, os alemães tenham se deixado mesmerizar pelos discursos raivosos daquele salvador da pátria com bigodinho engraçado, inspirador do mito micado brasileiro.

Mas, após uma primorosa primeira metade, o filme saiu dos trilhos. Bergman quis detalhar o ovo da serpente e não o soube fazer. A trama se torna policialesca a partir do momento em que seu foco se direciona para as primeiras experiências nazistas com cobaias humanas, e aí uma profusão de clichês invade a tela. Parece até filme hollywoodiano sobre o Holocausto.

De resto, os fãs sofisticados (ou seja, quase todos) do Bergman se escandalizaram com a escolha de David Kung Fu Carradine para o papel principal, ao invés do Max Von Sidow de sempre. Segundo a visão preconceituosa desses esnobes, Carradine não tinha pedigree suficiente para o cinema de arte. Eu, pelo contrário, o considerei um dos pontos altos do filme... (por Celso Lungaretti)
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