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segunda-feira, 3 de julho de 2023

A BURGUESIA BRASILEIRA E SEU COMPLEXO DE VIRA-LATAS

 

O magistral artigo de Celso da última quinta-feira sobre a primeira conquista brasileira da Copa do Mundo de Futebol me trouxe algumas reflexões sobre a condição psicossocial brasileira pois a dita conquista teria sido o primeiro grande evento de superação do chamado Complexo de Vira-latas que dominaria o povo brasileiro.

Sempre tive certa desconfiança sobre tal termo, pois minha impressão é de ele representar algo muito mais inoculado pela burguesia brasileira, ou seja, pela nossa elite, do que um processo orgânico do povo em geral. Não pretendo com isso atribuir ao povo a existência de um orgulho nacional, em oposição a um congênito sentimento de inferioridade presente entre as classes altas, mas é importante ressaltar que o imaginário de cada povo é de responsabilidade da burguesia nacional dominante e um país igual o Brasil sempre possuiu baixo índice de consciência nacionalista devido à formação subordinada e raquítica do próprio capitalismo por essas bandas. 

É interessante observar que quem criou a expressão Complexo de Vira-Latas foi um escritor reacionário, embora talentoso, umbilicalmente ligado à elite carioca, Nelson Rodrigues. Esse era famoso por sua antipatia para com o povo brasileiro, no que apenas expressava o desgosto geral de sua classe. A derrota do selecionado nacional contra o Uruguay em 1950, no Maracanã, teria catalisado na mente do cronista a ideia para essa expressão. 

Sinal de quão pouco nossa burguesia sempre almejou, pois precisava da vitória em um campeonato de futebol para impulsionar uma imagem de grandeza nacional frente a outros países, algo impossível de alcançar por meios econômicos e sociais. À época, os EUA comandavam o capitalismo, a URSS colocava o primeiro homem no espaço, a França havia dado os Direitos Humanos e até a Argentina era bem quista por seus filósofos e poetas, mas o Brasil seria campeão mundial de futebol. 

A derrota para o Uruguay em 1950
levou Rodrigues a criar o termo Complexo de
Vira-Latas
 
Mas como teria surgido esse sentimento de inferioridade da nossa elite? No período colonial não parece que ele existia, pois os colonizadores daqui se viam em nível de superioridade frente a seus irmãos europeus. Enquanto esses apodreciam em um continente onde apenas a alta aristocracia vivia bem, os colonizadores enriqueciam nas terras do Brasil. Um senhor de engenho, um bandeirante ou mesmo depois o mineiro não se achavam inferiores, muito pelo contrário. Quem se via assim eram os missionários que para cá vinham conviver com a ignorância e a escassez de luxo. 

Os primeiros vestígios do sentimento de inferioridade nacional começam a aparecer após a Independência e, sobretudo, nas décadas finais do reinado de Dom Pedro II. O próprio Imperador dava mostras desse sentimento em suas andanças pelo exterior, quando preferia acima de tudo se passar como simples indivíduo a soberano de um dos maiores países do mundo. 

Os filhos da elite nacional, em sua maioria do Rio de Janeiro, iam para a Europa estudar e voltavam sem um pingo de desejo de continuar por aqui. Muitos começavam a fazer um trânsito constante entre a capital brasileira e as principais cidades europeias, sempre indo perder dinheiro e voltando para recuperar os valores e logo voltarem lá para perder de novo. Isso era tão comum que uma Ópera do período criou o personagem o brasileiro, sujeito ignóbil e que perdia seu dinheiro nos salões de Paris ou Milão, voltando à sua terra natal para enriquecer e retornar para mais uma rodada de perdas.  

Na Europa e nos EUA, Dom Pedro II fazia
questão de esquecer que era soberano
de um país escravocrata.

Mas o que condicionava o sentimento de inferioridade da nossa burguesia não era ser troçada nos palcos europeus, mas a própria estrutura econômica e social do país, pois batia no coração do burguês brasileiro um aspecto dual de liberalismo e escravismo. Por um lado, ela pretendia ser moderna, antenada nas luzes parisienses, com instituições supostamente em nível com o melhor das monarquias constitucionais europeias. De outro, explorava o trabalho escravo e vivia essencialmente da renda da terra, mas com um nível produtivo muito inferior ao do passado, a ponto do século XIX por aqui ter sido um período praticamente de estagnação econômica.  

A dualidade entre a aspiração liberal e o escravismo concreto, com toda sua chaga de atraso e subdesenvolvimento, embutia na elite brasileira o sentimento de inferioridade diante de seus pares europeus. A situação, contudo, permanece após o fim da escravidão e o começo da República, pois o Brasil continuava sendo um país profundamente agrário e incapaz de ocupar qualquer posição de destaque em nível mundial. 

Pior, pois os EUA já se mostravam à época como uma potência emergente, mesmo tendo um passado colonial semelhante ao brasileiro. Esse fato é constatado nas palavras de Monteiro Lobato que, após uma viagem à terra do tio Sam, voltou afirmando o inexorável subdesenvolvimento brasileiro e que aqui mais se parecia com a África. Embora alguns apressados vejam nessa frase uma conotação racista, na verdade o escritor queria se referir à condição de subdesenvolvimento econômico daquele continente, à época dominado pelas potências imperialistas da Europa. 

Mesmo o início da industrialização, puxada pelos militares e por setores políticos de inspiração positivista, não mudou o sentimento de nossa burguesia. Isso porque o processo industrial não foi comandado por ela, mas aconteceu apesar dela, com o Estado e o capital estrangeiro na liderança. Por isso, inclusive, ao contrário de outros processos industriais em que as burguesias nacionais impuseram ao conjunto da população um ideário positivo, por aqui a burguesia continuou se portando negativamente frente ao país, cabendo antes ao Estado buscar conduzir as massas. 

Para Lobato, o Brasil, comparado aos EUA, 
era uma "África". 

Daí a inelutável contradição do Estado entrando em todos os poros da economia e a burguesia clamando contra o intervencionismo estatal, pois ela não se via no progresso prometido pela propaganda do Brasil, país do futuro, aspirando antes a explorar agora as vantagens econômicas abertas no ciclo pós-Guerra. Dito de outra forma, a burguesia brasileira nunca encampou um ideal de elevar o Brasil a potência capitalista, ficando tranquilamente em sua condição subordinada e se contentando a fazer a ponte aérea com a Europa e os EUA para gastar sua fortuna. 

Inferior e subordinada, vivendo em um país de parco desenvolvimento social e econômico, mas aspirando a ser vista de igual para igual pelas potências mundiais, a elite brasileira introjetou em si o complexo de vira-latas e tratou de irradiar isso para o conjunto do povo. Daí um cronista reacionário igual Nelson Rodrigues conseguir convencer de que a derrota na final de um campeonato era expressão de quanto o brasileiro se sentia desimportante. (por David Emanuel Coelho)  


domingo, 22 de janeiro de 2023

POLÊMICA DA FOTO NA FOLHA PROVA QUE LULOPETISMO SÓ BUSCA O INESSENCIAL

A última polêmica nas hostes lulistas foi uma fotografia estilizada que saiu em edição da Folha de São Paulo da quinta-feira, 19 de Janeiro, de autoria de Gabriela Biló. Houve quem defendesse até mesmo intimação policial da fotógrafa e uma nota foi publicada pela Secretaria de Comunicação da Presidência criticando a publicação. 

Coincidentemente, a grita petista lembra os arroubos bolsonaristas contra publicações da imprensa, shows de rock, mesmo peças de humor e, claro, montagens fotográficas. Ambos partem da velha confusão de identificar o cargo de Presidente da República com o de Soberano Monárquico. Caso soubessem um pouco de história, teriam consciência dos cartuns terríveis que circulavam à época do Império retratando Dom Pedro II de forma nem um pouco decorosa. 

Contudo, o ponto nefrálgico aqui não é a discussão a respeito da fotografia em si ou do possível autoritarismo nas reações, mas na completa falta de noção entre as fileiras lulopetisas a respeito do que é essencial, pois a foto em um jornal é um elemento semiótico, do terreno simbólico, ocupando as últimas posições na fila das coisas importantes. 

Sérgio Moro não gostou da facada fest e mandou
abrir investigação contra o festival, quando era ministro
Pois, muito mais grave é o fato de Lula insistir em conciliar com bolsonaristas possivelmente incrustados nos altos escalões do governo, sobretudo nas Forças Armadas. Mais grave é seu ministro da Fazenda, Fernando Haddad, bajular bilionários em Davos com um discurso cujo conteúdo não seria levado à sério nem na mais condescendente banca de TCC. 

Muito mais grave, é não existir, até o momento, a mais remota notícia governamental sobre o que seria feito quanto à roubalheira das Lojas Americanas. E, por fim, infinitamente mais grave é a total falta de plano do governo para retirar o país do buraco em que está metido, para além de repetir o que já não deu certo.  

Tudo isso é muito mais grave, mas não conta com a mesma energia para ser enfrentado por parte dos lulistas. Tigrões com fotógrafas, viram tchutchucas com a turma do governo, mostrando bem o quanto estão pautados pelo inessencial.

De fato, condicionados a fazer política cosmética, sempre lidando com o superficial e nunca descendo à raiz dos problemas, passaram a acreditar ser a atividade militante circunscrita ao reino do simbólico, da representação. Daí se insurgirem contra fotografias, piadas, reportagens, etc. Compartilham nisso algo em comum com o bolsonarismo, também ele governado pelo simbolismo. Ambos estruturados pelo consenso neoliberal, onde o essencial não pode ser tocado. 

Cabe à esquerda ir além de fantasmas, imagens, e tocar a nervura do real, em toda sua concretude. (por David Emanuel Coelho)

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