quinta-feira, 24 de julho de 2014

PEGO NA MENTIRA, DUNGA TEM DE SER AFASTADO PELA CBF. JÁ!

Até onde ia esta viagem com Mohamadou Fofana?
No exato instante em que a CBF dava o pontapé inicial de mais uma Era Dunga, eu alertei que sua convocação para depor como testemunha no inquérito da máfia dos ingressos levava jeito de ser a ponta de um iceberg (veja texto integral aqui):  
"...a aterrorizante perspectiva de Dunga voltar a ser o técnico da nossa seleção (...) poderá ainda ser afastada caso se constate a prática de algum delito nos encontros que ele manteve recentemente com o franco-argelino Mohamadou Lamine Fofana, acusado pela Polícia Civil do RJ de chefiar a quadrilha internacional de venda ilegal de ingressos da Copa do Mundo.
...Falta ouvir parte do material de escuta telefônica e há a possibilidade de Fofana vir a colaborar com a Polícia em troca da delação premiada. Sabe-se lá o que ainda virá à tona".
Para Fofana, o fim da linha foi este.
Como cheguei a tal conclusão? Simples: se era só como testemunha que o delegado responsável pelo inquérito (Fábio Barucke) encarava Dunga, não fazia sentido ele acrescentar que o treinador estivera também em contato com outro investigado, o empresário de jogadores Luiz Vianna, por ele qualificado de "suspeito". 

Um recado estava sendo passado nas entrelinhas e a mim, jornalista veterano, não passou despercebido. Ou seja, mesmo não ousando acusar frontalmente Dunga neste estágio das investigações, Barucke insinuou que ele incorrera em ilegalidades.

Até então, tínhamos:
  • Gilmar Rinaldi, agente de jogadores, assume a coordenação-geral da CBF;
  • ele é o principal responsável pela exumação do técnico fracassado no selecionado brasileiro e fracassado no Internacional;
  • Dunga manteve contatos com o chefão da quadrilha de cambistas;
  • Dunga manteve contatos com um agente de jogadores suspeito de participação na mesma quadrilha e é amigo do também agente de jogadores, Gilmar Rinaldi.
ESPN comprova sua denúncia com farta documentação
O círculo se fecha agora com uma brilhante peça de jornalismo investigativo da ESPN: Documentos provam ação como agente que Dunga nega (acesse a íntegra aqui). 

O historiador e jornalista Lúcio de Castro, comentarista do Bate-Bola - 1ª edição, foi fundo na apuração de uma atividade que o técnico desenvolvia na surdina, tudo fazendo para a ocultar do distinto público:
"Dunga manteve por muitos anos um segredo bem guardado: a intermediação de transações em direitos econômicos de jogador de futebol. Quando foi questionado por esta reportagem sobre sua participação na venda do meia Ederson, em 2004, do RS Futebol Clube para o grupo Image Promotion Company (IPC), foi incisivo na negativa. Através da assessoria de imprensa da CBF, afirmou 'não ter participação alguma na venda dos direitos sobre o vínculo do referido jogador'.
Três documentos públicos, porém, mostram o contrário: uma nota fiscal da 'Dunga Empreendimentos, Promoções e Marketing ltda', com a comissão no valor de R$ 407.384,08; o recibo assinado pelo próprio Carlos Caetano Bledorn Verri, o Dunga; e o comprovante bancário de transferência do clube para a empresa do treinador, no valor discriminado na nota. Não é o único conflito de interesse com o cargo de comandante da seleção brasileira nessa história: as ligações com os agentes do IPC vão muito além do que um único negócio"".
Máfia dos ingressos: 'negócio' lucrativo, mas desastroso.
Está tudo na reportagem, preto no branco, inclusive as evidências de que Dunga mentiu à justiça gaúcha, ao negar que estivesse associado ao grupo IPC.

Então, foi como mais um beneficiário das milionárias e frequentemente escusas transações de jogadores que Dunga estreitou os laços com Gilmar Rinaldi e Luiz Vianna. E se o último, como o delegado Barucke suspeita, fazia parte da máfia dos ingressos, não há como descartarmos a hipótese de que Dunga esteja também encalacrado.

Desde já, a CBF está obrigada a remover ele e Gilmar Rinaldi dos cargos que levianamente lhes ofereceu, por total falta de isenção para o desempenho das novas funções -no caso de Dunga, com o agravante de estar mentindo sobre sua real condição há pelo menos uma década, e de ter sido como mentiroso que comandou a seleção brasileira no Mundial de 2010. 

CHUTE NA VIRILHA DO BRASIL: PARA ISRAEL, A GENTE SOMOS IRRELEVANTE.

"A gente não sabemos
Nem escovar os dente
Tem gringo pensando
que nóis é indigente
Inútil
A gente somos inútil"
(Ultraje a Rigor)

O posicionamento digno que o governo brasileiro assumiu com relação à nova temporada de caça aos palestinos (civis, mulheres, velhos e crianças inclusos) foi respondido pela chancelaria israelense com um insulto: "Seu comportamento nesta questão ilustra a razão por que esse gigante econômico e cultural permanece politicamente irrelevante". 

Depois de apoiar, na reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU, a moção que determinou a investigação dos crimes e violações do direito internacional ora perpetrados por Israel em Gaza, o governo brasileiro manifestou seu inconformismo com os massacres, avaliando como "inaceitável" o "uso desproporcional da força". Além disto, convocou seu embaixador em Israel para consultas e chamou o seu congênere israelense para dar-lhe um pito.

Ou seja, foi firme mas se manteve nos limites diplomaticamente aceitáveis: reprovou ações momentâneas mas não emitiu juízos de valor sobre as características permanentes de um governo estrangeiro. Já Israel, como desordeiro de botequim, reagiu com um chute na virilha.

Parece que a proximidade das eleições está fazendo bem ao nosso governo e ao PT. Enquanto o primeiro não contemporizou com as retaliações sanguinárias de Israel, o partido se colocou ao lado das vítimas da escalada repressiva no RJ, repudiando "a grave violação de direitos e das liberdades democráticas" representada pelas prisões arbitrárias.

Faço votos de que este reencontro com as origens não seja fugaz e persista após o 26 de outubro.

Obs.: Depois que havia colocado este post no ar, recebi a notícia de que Israel bombardeou uma escola, matando 15 pessoas e ferindo 200. Também já havia atingido um hospital. Quando chegará a vez do asilo? 

AVES DE MAU AGOURO, OS TUCORVOS APOIAM A ESCALADA REPRESSIVA NO RJ.

Penas para todas as ocasiões: ora eles usam estas...
Nota do Partido da Social-Democradura Brasileira dá inteiro crédito às suspeitíssimas investigações da Polícia Civil do RJ e às fantasias mirabolantes com que a dita cuja tenta justificar a pior escalada repressiva deste País desde o fim do regime militar. 

Entre outras bobagens, afirma: "Não podemos compactuar com o crime e com grupos que usam a violência para tomar à força as ruas". 

Esquece de esclarecer se está se referindo aos mascarados ou aos fardados. Os últimos são muito mais violentos, com o agravante de que sua pancadaria desenfreada é custeada pelos impostos dos contribuintes.

Quanto aos autos de caça às bruxas que os tucanos erigem em verdade sagrada, a avaliação de um magistrado digno da sua toga foi bem diferente:  o desembargador Siro Darlan, da 7ª Camara Criminal do RJ, concedeu nesta 4ª feira (23) habeas corpus para os 23 perseguidos políticos do seu Estado, que poderão aguardar o julgamento em liberdade.
...ora estas.

Darlan considerou insuficiente a fundamentação do pedido de prisão preventiva, pois falta "contextualizar, em dados concretos, individuais e identificáveis nos autos do processo, a necessidade da segregação dos acusados, tendo em vista a existência de outras restrições menos onerosas".

E continuou ensinando o bê-a-bá aos alunos relapsos:
"Cabe considerar que a prisão cautelar é medida excepcional e deve ser decretada apenas quando devidamente amparada pelos requisitos legais, em observância ao princípio constitucional da presunção de inocência consagrado".
Ou seja, quando Aécio Neves estava quase conseguindo convencer os brasileiros de que representaria uma direita civilizada, eis que seu partido, muy amigo, desfez a ilusão. 

A nota repulsiva comprova que nada mudou. O PSDB continua representando aquela direita troglodita que presume sempre a culpa de quem estiver nas ruas manifestando suas opiniões, coloca tropas de choque nos campi universitários e barbariza os Pinheirinhos da vida.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

AS PRISÕES DE ATIVISTAS SÃO "AUTORITÁRIAS, ARBITRÁRIAS E SEM RESPALDO LEGAL".

Considerei tão relevante esta entrevista que pedi autorização ao site Viomundo e à sua autora, a colega Conceição Lemes (que está na foto ao lado e é uma das melhores jornalistas da nova geração), para publicá-la na integra. Agradeço-lhes, claro, a cortesia.


MARIANO: "FESTEJAR PRISÕES 
'ANTECIPADAS' DE ATIVISTAS É UM 'VIVA A MORTE!'"

Por Conceição Lemes

O slogan dos fascistas espanhóis traduzia bem sua barbárie
Em 11 de julho, o juiz Flávio Itabaiana, da 27ª Vara Criminal da cidade do Rio de Janeiro, determinou a prisão temporária de 26 ativistas e a busca e apreensão de dois menores.

O delegado Fernando Veloso, chefe de Polícia Civil, alegou: “Estamos monitorando a ação desse grupo de pessoas desde setembro do ano passado. A prisão delas vai impedir que outros atos de violência ocorram neste domingo [final da Copa do Mundo]”.

Ou seja,  as prisões foram para “garantir a ordem pública”.

“O uso do conceito de garantia da ordem pública  é um cheque assinado em branco para o exercício do poder punitivo”, alerta o advogado Patrick Mariano, da Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares (Renap).  “Baseia-se na presunção, sobretudo. É completamente subjetivo.”

Foi com base nesse conceito que, no Brasil, muitos comunistas foram presos, torturados e mortos entre 1936 e 1975. É também com essa  “justificativa” que,  de 1990 para cá, vários militantes de movimentos sociais  foram presos. E, agora, as  secretarias de Segurança Pública do Rio e a de São Paulo, com o aval de parte do judiciário local, prendem ativistas.

“As  secretarias de Segurança Pública do Rio e a de São Paulo têm desenvolvido uma política caça as bruxas que faria inveja ao macartismo”, afirma Mariano. “De novo, o conceito de ordem pública cai como uma luva. Essas prisões são autoritárias, arbitrárias e sem respaldo legal. Foram baseadas em ilações e conjecturas. A motivação é política.”

“Se alguém festeja a violência e a dor alheia, definitivamente, não é de esquerda”, observa. “Festejar o encarceramento de pessoas antes mesmo da culpa formada é dar um “viva a morte” e um brinde ao falecimento da inteligência. No caso, a inteligência democrática”.

Além de integrar a Renap, o advogado Patrick Mariano é doutorando em Direito, Justiça e Cidadania na Universidade de Coimbra, em Portugal. Segue a íntegra da nossa entrevista.

Mariano sustenta que a motivação das prisões é política.
Viomundo –  O que significa prisão para garantia da ordem? 
Patrick Mariano — Para responder, é necessário um breve histórico sobre conceito de “garantia da ordem”. Ele tem origem na Alemanha. Lá, a reforma legislativa nacional-socialista de 1935 fez com que o processo penal alemão incorporasse a permissão para se determinar o encarceramento provisório, com fundamento na excitação da opinião pública provocada pelo delito.

Antes disso, o artigo 48 da Constituição de Weimar [primeira Constituição da Alemanha, vigorou a partir de 1919] conferia ao presidente o poder para suspender total ou parcialmente os direitos fundamentais no caso de constado ameaça grava à ordem pública.

Para Giorgio Agamben [no livro Estado de  exceção, Boitempo Editorial, 2004, págs 28 e 29] “não é possível compreender a ascensão de Hitler ao poder sem uma análise preliminar dos usos e abusos desse artigo nos anos que vão de 1919 a 1933”.

Essa matriz ideológica e jurídica influenciou o Código Rocco no fascismo italiano e, depois, o nosso Código de Processo Penal de 1941.

Trocando em miúdos: o uso desse conceito é um cheque assinado em branco para o exercício do poder punitivo.

Viomundo –  Em que a Justiça se baseia para prender pessoas  a fim de garantir a ordem pública?
Patrick Mariano — Em uma presunção, sobretudo. O juiz presume que o acusado seja um perigo à ordem estabelecida ou que sua liberdade ofereça risco à ordem pública; por isso, deve ser encarcerado e, portanto, extirpado do convívio social.  A ideia de ordem aqui utilizada é a do autoritarismo.

Viomundo –  Então, é um conceito subjetivo?
Patrick Mariano — É completamente subjetivo. Em 2013, sob a orientação da professora doutora Ela Wiecko, fiz uma pesquisa na Universidade de Brasília sobre o tema. Analisei 76 anos de jurisprudência do Supremo Tribunal Federal. Foram 460 acórdãos estudados. Concluí exatamente que as decisões não se afastam da subjetividade.

Viomundo –  É legal a prisão preventiva com vistas à garantia da ordem?
Patrick Mariano — A Constituição da República veda, em meu entendimento, o uso desse conceito para determinar a prisão preventiva de qualquer acusado.

Viomundo –  Em São Paulo, os ativistas Flávio Hideki Harano e Rafael  Rafael Lusvarghi estão presos há 29 dias. No Rio, em 11 de julho a Justiça determinou a prisão preventiva de 26 ativistas; vários continuam encarcerados. Essas prisões estariam fora da lei?
Patrick Mariano – São prisões arbitrárias e sem respaldo legal. A motivação é política. Ao que consta são jovens que, embora se possa discordar dos seus métodos de atuação política,  acreditam em um país melhor. Além disso, a prisão foi baseada em ilações e conjecturas. Para isso, a ideia de “ordem pública” cai como uma luva para o arbítrio estatal.

Viomundo –  Qual a influência dos secretários de Segurança de São Paulo e Rio de Janeiro nessas prisões?
Patrick Mariano – Muita influência. A decisão política tomada é a do uso da violência e do autoritarismo para resolução dos conflitos sociais. Em São Paulo, não podemos esquecer do que aconteceu na ocupação do Pinheirinho. No Rio, os exemplos são corriqueiros também. Cabe aqui uma questão: será que após 25 anos de democracia nossos gestores públicos ainda não foram capazes de assimilar a cultura democrática? A impressão que se tem é a de que a ideologia que sustentou o regime militar ainda está muito viva, infelizmente.

Viomundo –  Qual o peso do Judiciário nessas prisões?
Patrick Mariano – O Judiciário não deveria se influenciar por manchetes sensacionalistas de grandes jornais afinados com a cultura autoritária. E os discursos de Lei e Ordem, proferidos por alguns gestores públicos, deveriam passar ao longe das decisões judiciais.

No entanto, não é o que se vê. Uma exceção que é preciso ser feita é com relação ao desembargador do Rio que não aceitou esse caldo autoritário e concedeu a liberdade aos ativistas.

Viomundo – Quatro parlamentares denunciaram o juiz Flávio Itabaiana ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ). O juiz atacou-os. O comportamento do ministro Joaquim Barbosa durante todo julgamento da Ação Penal 470 estaria já influenciando juízes?
Patrick Mariano – Sem dúvida. A ação penal 470 estabeleceu um padrão de violação de direitos fundamentais e reforçou a imagem do juiz justiceiro. Cenas deploráveis como a expulsão de advogado do tribunal, o desrespeito à opinião contrária até mesmo de outros pares e a não aceitação da própria jurisprudência da Corte.

Vou parar de citar exemplos porque a entrevista precisa ter um fim, mas todos esses fatos lamentáveis irradiam para o resto do sistema de justiça. Esse comportamento autoritário do magistrado foi, de certa forma, estimulado ao vivo pela principal corte do país.

Viomundo –  Em que medida?
Patrick Mariano — Os juristas portugueses Figueiredo Dias e Manuel da Costa Andrade falam em sociologia da ação jurisdicional. O que é isso? Nada mais do que essa importância das decisões e práticas dos tribunais para o resto do sistema. Seria como aquele efeito concêntrico da pedra jogada na água produzindo ondas.  O que se assistiu foi a irradiação de uma prática autoritária de se julgar e se relacionar com a sociedade.

Viomundo –  A justificativa da garantia da ordem é usada habitualmente no Brasil?
Patrick Mariano — Infelizmente, muito. O país apresenta taxas monstruosas de encarceramento provisório (cerca de 40% da população carcerária) em razão da existência, em nosso ordenamento jurídico, do conceito de ordem pública para justificativa da prisão preventiva.

No início do século passado, foi muito utilizado para a expulsão dos estrangeiros que aqui vieram trabalhar. Em razão das greves por melhorias das condições de trabalho, foram taxados de anarquistas e subversivos.

O “medo” das revoltas trabalhistas populares fez com que milhares de estrangeiros fossem expulsos, sem justifica concreta, somente porque seus ideais representariam risco à ordem pública (Lei Adolfo Gordo).

Mas foi com o Código de Processo Penal feito por Francisco Campos em 1941, que o conceito passou a servir como “justificativa” para a prisão preventiva. O objetivo era o de arrefecer os ideais comunistas.

Com isso, muitos comunistas foram presos, torturados e mortos entre 1936 até 1975. O Decreto-Lei n. 640, de 22 de agosto de 1938, estabeleceu a criação de Colônia Agrícola no arquipélago de Fernando de Noronha, “destinada à concentração e trabalho de indivíduos reputados perigosos à ordem pública”.  Por lá estiveram Marighela e Gregório Bezerra.

De 1990 para cá, muitos militantes de movimentos sociais foram presos com essa “justificativa”. Agora, a Secretaria de Segurança Pública do Rio e a de São Paulo, com o aval de parte do judiciário local, têm desenvolvido uma política caça as bruxas que não faria inveja ao macartismo. De novo, o conceito de ordem pública cai como uma luva para essas prisões autoritárias.

Viomundo –  Essa prática viola o Estado democrático de direito?
Patrick Mariano — Sim, sem dúvida. Entre 1945 e 1950 se procedeu a uma reforma nas leis alemãs e essa permissão para se prender quem colocasse em risco à ordem pública foi retirada do sistema jurídico.

Ou seja, a base que formou a “racionalidade” jurídica desse instituto soçobrou há 64 anos e ainda, por aqui, continuamos a utilizá-la. Claro, estamos aqui a falar de exercício de poder sem limitações, por isso a tentação autoritária ainda reside entre nós, infelizmente.

Viomundo –  Quem se beneficia dessa medida?
Patrick Mariano — Juízes, políticos, secretários de segurança, representantes do ministério público e delegados que não se sentem constrangidos no uso do poder punitivo sem controle. Ao contrário. Sentem verdadeira pulsão punitiva, mesmo que para tanto seja preciso desrespeitar a Constituição da República.

Nos dias de hoje, temos alguns arautos dessa onda autoritária em que se busca inimigo imaginário, para justificar ações violentas e o achincalhe aos direitos fundamentais. Essa ideia de inimigo, colada à construção do medo, sempre justificou ações violentas e arbitrárias por parte do poder político.

Os novos “inimigos” da ordem são jovens que, embora se possa discordar de seus métodos políticos, querem um país melhor. Assim como o “medo” dos traficantes é usado como justificativa para ações estatais criminosas nos bairros mais pobres.

Se o nosso regime é uma democracia, quem coloca em risco a ordem democrática são os arautos do autoritarismo e não esses pobres jovens idealistas.

Viomundo –  Qual o risco dessa prática para a democracia?
Patrick Mariano — O risco é de não conseguimos alcançá-la com plenitude enquanto for possível prender alguém com base no conceito de ordem pública.

Viomundo –  Tem gente, inclusive de esquerda, festejando essas prisões. O que acha disso?
Patrick Mariano — Se alguém festeja a violência e a dor alheia, definitivamente, não é de esquerda.

Lembro de um clássico diálogo relatado por Paul Preston em “Las tres Españas del 36″, em que José Millán-Astray y Terreros, militar da extrema direita espanhola foi trucidado moralmente por Miguel de Unamuno, na Universidade de Salamanca, em 1936.

Unamuno era reitor da universidade e, em certa solenidade, foi interrompido por Millán e sua legião aos gritos de “Viva a morte!” e, depois “morra a inteligência!”. Ao que Unamuno responde:
"Venceredes, pero non convenceredes. Venceredes porque tedes sobrada forza bruta; pero non convenceredes, porque convencer significa persuadir. E para persuador necesitades algo que non tedes: razón e dereito na loita. Paréceme inútil pedirvos que pensedes en España". 
Festejar o atual estado das coisas no Brasil, em que se encarcera antes mesmo da culpa formada, é dar um “viva à morte” e um brinde ao falecimento da inteligência.  No caso, a inteligência democrática. (entrevista publicada às 19h08 do dia 22/07/2014 no site Viomundo

AS BATALHAS DE TORTAS DE LAMA DOS FEIOS, SUJOS E MALVADOS.

A informação é do site Brasil247:
"O Partido dos Trabalhadores acaba de entrar com representação criminal contra o senador Aécio Neves (PSDB-MG), em razão do aeroporto construído em terras que já pertenceram à sua família, no município mineiro de Cláudio; petição ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pede também que se investigue por que o governo mineiro optou pela fazenda de Múcio Tolentino, tio de Aécio; coordenador jurídico da campanha da presidente Dilma, Flávio Caetano diz que denúncia é 'gravíssima', porque 'além de mostrar que há um beneficiamento privado de algo que seja público, também há relação da empresa que fez o aeroporto com doações de campanha ao senador Aécio'."
É óbvio que algo assim precisa mesmo ser investigado e, se for constatada alguma irregularidade, levado à Justiça.

Mas, o tal aeroporto foi entregue em 2010 e o questionamento só ocorre agora, em plena campanha presidencial de 2014, na qual Aécio Neves parece ser a principal ameaça à reeleição da presidenta Dilma Rousseff.

Fica a impressão de que tais práticas só provocam tamanho alvoroço quando servem como munição nas escaramuças eleitoreiras dos políticos. Fora da temporada de caça ao voto, uns não estão nem aí para as (reais ou supostas) maracutaias dos outros.

Pior: logo vem o troco e a campanha se transforma numa batalha de tortas de lama, como se o povo devesse optar não por quem lhe oferece perspectivas mais alvissareiras, mas sim pelo menos sujo dentre os sujos.

Não seria mais apropriado estarmos indagando se o candidato vai ou não colocar o País em recessão aguda, como exigem os grandes capitalistas?

Havia otimismo e alegria em 1985, quando saímos da ditadura. Agora, não há mais. 

Votávamos com orgulho e defendíamos apaixonadamente os candidatos por nós escolhidos. Hoje nosso voto é geralmente uma opção envergonhada pelo que reputamos ser o mal menor.

A militância marcava presença idealista e empolgante nas ruas. Hoje os folhetos são distribuídos por biscateiros tão desanimados quanto aqueles que seguram placas apontando a direção de imóveis.

Não é só no futebol que atualmente perdemos por 7x1. No jogo da democracia a goleada talvez seja ainda pior.

E a culpa é toda nossa, da esquerda, pois somos nós que precisamos convencer o povo de que a sociedade pode ser transformada e vale a pena lutarmos por um mundo melhor.

Para a direita, é lucro avacalhar as eleições e matar as esperanças, fazendo com que todos os candidatos de todas as tendências acabem sendo igualmente vistos pelo cidadão comum como feios, sujos e malvados.

terça-feira, 22 de julho de 2014

"O 7 A 1 TAMBÉM PODE SER MORAL"

Mário Magalhães, brilhante jornalista  e autor de Marighella - o guerrilheiro que incendiou o mundo, praticamente esgotou no seu blogue o assunto das desastrosas escolhas de Gilmar Rinaldi e Dunga por parte da desmoralizadíssima CBF. Recomendando a leitura da íntegra do seu artigo (acesse-o aqui), reproduzo os parágrafos finais, com os quais concordo em gênero, número e grau.

"...seguem alguns pitacos sobre o novo técnico da seleção brasileira e o novo coordenador de seleções da CBF.

Começando por Gilmar.

Quando um magistrado se declara impedido de exercer sua função em determinado processo,  por se considerar suspeito, ele não se classifica como um salafrário que decidiria com parcialidade ou interesses escusos, e não com base na lei.

O juiz pensa que, se o réu foi seu sócio em escritório ou colega de escola, as relações comerciais e pessoais podem interferir subjetivamente no julgamento, por mais que o magistrado busque aplicar com escrúpulos a legislação. Sob suspeição, passa o processo a outro.
Como seu agente, Gilmar poderia ter salvado a carreira de Adriano?

Gilmar dedicou-se por por mais uma década, até dias atrás, ao trabalho como agente de jogadores. É lógico que se cria suspeição sobre ele, no novo cargo, quando ser convocado ou não para a equipe nacional pode representar ganhos e perdas milionárias ao jogador e seus empresários. No mínimo, Gilmar deveria ter cumprido quarentena.

A desconfiança não decorre do caráter de Gilmar, reitero. Mas do conflito de interesses. O problema não se apresenta apenas a observadores e torcedores, mas sobretudo aos jogadores.

Como sabe quem acompanhou o cotidiano de clubes e seleções, é comum os boleiros desconfiarem de que são favorecidos ou prejudicados em virtude não do desempenho esportivo, mas dos vínculos do empresário de cada um com os cartolas. Não é esse o ambiente recomendável para reconstruir a seleção.

Outra deficiência de Gilmar é que ele exercerá uma função para a qual não ostenta lastro profissional que ampare tamanha responsabilidade.

Ele é o homem errado no lugar errado e na hora errada.

Sobre Dunga.

A escolha de Marin e Del Nero, capi da CBF, premia a performance ruim.

O treinador perdeu com a seleção na Copa de 2010. Depois, ficou anos parado e só trabalhou em um clube, o Inter, no qual ganhou o que valia menos e fracassou quando os desafios aumentaram.

Isso mesmo, de 2010 a 2014, Dunga só foi técnico num clube, no qual não sobreviveu por um ano.

O noticiário informa que ele estava acertando contrato com a seleção venezuelana. Seria um bom recomeço, para evoluir até encarar objetivos mais parrudos. De certo modo, este ainda é o tamanho de Dunga como técnico: comandar a Venezuela.

O recado dos chefões do futebol nacional é que ninguém precisa montar times bons, brilhar ou vencer, como tantos treinadores brasileiros e estrangeiros fizeram nos últimos anos. Às favas com o mérito!, parecem dizer.

O escolhido tem um currículo modestíssimo, apesar de já ter comandado a seleção em um Mundial.

Gilmar é o nosso 7 a 1 moral no sentido de não ser boa conduta nomear um coordenador de seleções quem até anteontem tratava com jogadores no papel de empresário.

Dunga é o 7 a 1 moral como adjetivo: o estado de espírito' gerado por sua sua contratação pelo antigo deputado da ditadura e seu iminente sucessor na CBF é o de manutenção da cultura que, depois da goleada alemã, seria necessário mudar.

Por mais que as palavras de Dunga e Gilmar possam sugerir inflexões, eles representam a continuidade futebolística da seleção de 2014, ainda que venham a conquistar resultados melhores.

Na entrevista, afora cutucadas em Felipão e Parreira e uma ou outra frase que se presta a títulos jornalísticos, não houve sinal de virada na seleção. O eixo continua a pregação pelo comprometimento -igualzinho a Scolari.

Pelo visto, pouco aprendemos -ou aprenderam- com a debacle no Mineirão.

O 7 a 1 também pode ser moral." 

VEJAM OS ÚLTIMOS NÚMEROS DA CARNIFICINA EM GAZA

As retaliações israelenses contra os palestinos, a pretexto de destruírem túneis que podem ser reconstruídos em questão de meses, já causaram 605 vítimas fatais, um terço das quais eram crianças. Os feridos estão na casa de 3.700.

A opinião pública mundial está totalmente contra, ainda mais depois que um ataque de artilharia israelense atingiu um hospital em Deir al-Balah, matando quatro pessoas e deixando mais de 50 feridos. 

As baixas dos agressores por enquanto somam 27 -um israelense para cada 22 palestinos-, mas, mesmo assim, as mais elevadas desde a Guerra do Líbano de 2006. Da última vez, na virada de 2008 para 2009, foram apenas 13; e a proporção, 1x107!!! 

Vale lembrar que os israelenses alegam ter deflagrado os massacres por causa da morte de um único cidadão, atingido por foguete lançado pelo Hamas. 

Se administrassem seus negócios como administram os da guerra, teriam ido à falência há muito tempo...

BOMBA! DUNGA É ARROLADO NO INQUÉRITO DA MÁFIA DOS INGRESSOS.

Fofana, com Dunga numa foto antiga...
Segundo notícia da Folha de S. Paulo, Deus pode ser mesmo brasileiro: a aterrorizante perspectiva de Dunga voltar a ser o técnico da nossa seleção --certeza de perpetuação do atraso em relação aos grandes centros futebolísticos mundiais-- poderá ainda ser afastada caso se constate a prática de algum delito nos encontros que ele manteve recentemente com o franco-argelino Mohamadou Lamine Fofana, acusado pela Polícia Civil do RJ de chefiar a quadrilha internacional de venda ilegal de ingressos da Copa do Mundo.

Dunga, que foi visto pelo menos três vezes com Fofana, deporá como testemunha no inquérito.
...e hoje.

Segundo o delegado Fábio Barucke, Dunga esteve, ainda, em contato com o empresário de jogadores Luís Vianna, "que também está sendo investigado" --este, na condição de suspeito.

Falta ouvir parte do material de escuta telefônica e há a possibilidade de Fofana vir a colaborar com a Polícia em troca da delação premiada.

Sabe-se lá o que ainda virá à tona. Mas, depois da humilhante participação no último Mundial, tudo de que nosso selecionado não precisa é ter um técnico em evidência no noticiário... policial!

"AO ESTADO NÃO É PERMITIDO VIOLENTAR O DIREITO DE EXPRESSAR OPINIÕES PESSOAIS OU COLETIVAS"

Cony protesta contra os atos e fatos da escalada autoritária
"Está em discussão, em nível de habeas corpus, a prisão (ou a libertação) dos ativistas que promoveram manifestações contra a situação de descalabro em vários setores da nossa vida pública, corrupção de autoridades, falência de serviços urbanos e até a Copa do Mundo.

Algumas dessas manifestações começaram ou terminaram em atos de vandalismo, depredação de prédios públicos e particulares, ônibus incendiados e até a morte de um cinegrafista da TV Bandeirantes.

Evidente que ao Estado não é permitido violentar o direito de expressar opiniões pessoais ou coletivas. Quando o povo protesta contra um regime ou uma rotina de poder, cabe ao povo o recurso de um protesto e até mesmo de uma revolução. 

O caso mais notório foi a queda da Bastilha, em 14 de julho de 1789, que deu início à Revolução Francesa. Após muita confusão, a monarquia quase toda foi parar na guilhotina.

Outro exemplo da manifestação popular contra determinado regime foi a invasão do palácio do czar, em São Petersburgo, que foi reprimida com a chacina que, por sinal, serviu de começo para o romance e para o filme 'Doutor Jivago'. 

Isso sem falar na revolta da tripulação do couraçado Potemkin, aparentemente por causa de uma carne estragada. Foi o início de outra revolução."

(Por Carlos Heitor Cony que, ao contrário de tantos, honra o seu 
passado de resistente. O artigo completo pode ser acessado aqui.)

VEJA O DEPOIMENTO DE UMA PERSEGUIDA POLÍTICA BRASILEIRA

A advogada Eloísa Samy, uma das vítimas da atual escalada repressiva contra o direito de manifestação, tentou obter asilo no consulado uruguaio, que lhe foi negado sob a alegação o Brasil seria um estado democrático de direito. Deveria mesmo ser... mas não está sendo! 

É aberrante que, quase três décadas após a ditadura militar ter sido atirada na lixeira da História, otoridades dela saudosas estejam reincidindo em algumas de suas práticas.

É desalentador que muitos dos perseguidos de outrora estejam alinhados com os perseguidores de hoje, no fiel cumprimento de seu mandato para gerenciarem o capitalismo em consonância com os objetivos capitalistas. Como disse o grande Plínio de Arruda Sampaio, se era para ISTO, teria sido melhor deixar o governo nas mãos deles.

Este blogue está inteiramente solidário à Eloísa Samy e a todos os perseguidos políticos deste país que há muito deveria deixado de os ter.  

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