sexta-feira, 24 de outubro de 2014

A veja TUMULTUA A ELEIÇÃO COM O FANTASMA DO IMPEACHMENT DE DILMA

O risco contra o qual venho há tempos alertando acaba de se materializar: a veja antecipou em um dia a distribuição da edição 2.397, de forma a colocar a eleição presidencial sob a lâmina de uma guilhotina: a do impeachment da presidenta Dilma Rousseff. 

É manipulação às escâncaras, um óbvio crime eleitoral. 

A revista normalmente entra em bancas no sábado e tem sua capa e resumo das principais matérias divulgada na noite de 6ª feira. Todo o cronograma foi adiantado em 24 horas, só cabendo uma explicação: o objetivo foi permitir que Aécio Neves aproveitasse a munição nova no debate final da Globo, além de aumentar estrategicamente o prazo para a bomba repercutir, produzindo consequências nas urnas. 

E qual é esta bomba, afinal? Trata-se da atribuição, ao delator premiado Alberto Youssef, da seguinte afirmação, ao ser interrogado por um delegado da Polícia Federal:
— O Planalto sabia de tudo!
O delegado teria perguntado a quem no [Palácio do] Planalto o doleiro aludia, recebendo como resposta: "Lula e Dilma".

Reinaldo Azevedo, o blogueiro mais reacionário da revista mais reaça do Brasil, duas semanas atrás já antecipara que a direita poderia partir para o impeachment, neste parágrafo de sua coluna semanal na Folha de S. Paulo:
Reinaldo Azevedo é o principal arauto do impeachment
"Prestem atenção! Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef mal começaram a falar. A depender do rumo que as coisas tomem e do resultado das urnas, o país voltará a flertar, no próximo quadriênio, com o impeachment, somando, então, a crise política a uma economia combalida".
Só perfeitos ingênuos acreditarão que ele já não soubesse qual seria a derradeira cartada da veja

Agora, ao trombetear a nova denúncia no seu blogue, ele é mais explícito ainda:
"Se as acusações de Youssef se confirmarem, é claro que Dilma Rousseff tem de ser impedida de governar caso venha a ser reeleita, mas em razão de um processo de impeachment, regulado pela Lei 1.079..."
E, para martelar bem a ideia, ele a repetiu no final do seu post, grifando a ameaça para torná-la ainda mais ribombante:
"Se Dilma for reeleita e se for verdade o que diz o doleiro, DEVEMOS RECORRER ÀS LEIS DA DEMOCRACIA — não a revoluções e a golpes — para impedir que governe".
Evidentemente, os grãos petistas falarão em terrorismo eleitoral, minimizando a possibilidade de os acontecimentos se encaminharem em tal direção.

Mas, se precedentes valem alguma coisa, a permanência de Getúlio Vargas no poder foi duas vezes interrompida por manobras semelhantes:
  • em 1945, os Estados Unidos jogaram todo seu peso de bastidores para forçá-lo (da mesma forma que o argentino Juan Domingo Perón) a deixar o poder; 
  • e, como o ciclo varguista persistiu, com a eleição do poste que ele apadrinhou (Eurico Gaspar Dutra) seguida por sua volta ao Palácio do Catete em 1951, a direita militar exigiu que renunciasse para não ser deposto, tendo ele preferido uma outra opção, o suicídio.
Outro precedente agourento é o de 1964: o PCB subestimou o risco de golpe de estado, não montando nenhum dispositivo militar próprio para defender o mandato legítimo de João Goulart, daí os golpistas terem derrubado o governo com a facilidade de quem tira doce da boca de uma criança.

Se as agora coisas chegarem a tal extremo, a História certamente se repetirá, pois inexiste dispositivo militar autônomo ou contingentes populares preparados para reagirem à altura. O PT não fez a lição de casa.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE FILMES ERÓTICOS

Histoire d'O (1975) é um dos melhores filmes já realizados na linha do erotismo soft e sofisticado, com enredo tão estranho que tudo chega a parecer um sonho (ou uma Alice no país das maravilhas vista pelo Marquês de Sade...), visual deslumbrante e uma protagonista belíssima, Corinne Cléry. 

O romance de Pauline Réage (Dominique Aury não passa de pseudônimo) incursiona pelo sado-masoquismo chique: jovem é convencida pelo amante a ingressar numa confraria S&M, estruturada por ricaços num ambiente medieval. As regras básicas são: as mulheres abrem mão até de sua identidade (daí ela ser chamada apenas de O) e têm de se submeterem a todos os desejos e caprichos masculinos.

Com o tempo, O aprende tão bem as regras do jogo que, de dominada durante o aprendizado, passa a dominadora nas suas relações amorosas, sociais e profissionais subsequentes.
A O de Crepax lembra a sua Valentina

Destaque para a brilhante adaptação para as telas, a cargo do também escritor Sébastian Japrisot, responsável pelos roteiros de algumas culminâncias do cinema policial francês: Adeus, amigo, O passageiro da chuva, O homem que surgiu de repente, Verão assassino.

O diretor Just Jaeckin teve um momento de grande notoriedade nos anos 70, a partir do sucesso do primeiro Emmanuelle, eclipsando-se na década seguinte. De certa forma, é um continuador de Roger Vadim, igualmente hábil na glamourização das imagens e na valorização dos corpos femininos.

Por último: 
  • o grande cartunista Guido Crepax fez uma graphic novel (que a LP&M lançou no Brasil) baseada na Histoire d'O; e
  • o cineasta Shûji Terayama, adaptando livremente o outro livro de Pauline Réage (Retorno a Roissy, uma continuação de Histoire d'O), realizou o primoroso Os frutos da paixão, 1981,  transferindo a saga de O para o Japão do início do século passado, sacudido por movimentos revolucionários. Espero ter a oportunidade de o postar aqui algum dia.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

UM FILME MARCANTE, QUE NOS LEVA A REFLETIRMOS SOBRE O UTILITARISMO.

Eis um filme que tem muito a ver com o deprimente momento pelo qual passamos no Brasil: Mississippi em chamas (1988). Mostra o assassinato de três ativistas dos direitos civis dos negros por parte da Ku Klux Klan, em 1964, numa pequena cidade do Mississippi, seguindo-se as investigações a cargo do FBI.

A política do governo estadunidense era a legada por John Kennedy, de fazer respeitar os direitos civis custasse o que custasse. Então, o desaparecimento dos três ativistas leva à cidade uma verdadeira tropa de ocupação do FBI, comandada por um agente idealista (Willem Dafoe), que segue fielmente a cartilha da legalidade. Um de seus auxiliares (Gene Hackman), antigo xerife de cidade sulista como aquela, tem uma visão pragmática e cínica da missão.

Com quase todos os moradores brancos participando da KKK, sendo solidários a ela ou temendo ficar na sua mira, o trabalho não avança. Até que o agente idealista, frustrado pelos fracassos e pelas sucessivas demonstrações de força dos encapuzados, dá carta branca para o auxiliar amoral conseguir resultados por meio de abusos policiais. Assim, é cometendo crimes menores que o FBI consegue desvendar o crime maior e entregar os culpados à Justiça.

A ótica do diretor Alan Parker (O expresso da meia-noite, Pink Floyd - The Wall, Coração satânico) é totalmente utilitária: ele vilifica as autoridades locais, pertencentes ou mancomunadas com a KKK, tornando simpáticos os policiais arbitrários e fazendo com que pareça justificado o uso de métodos não ortodoxos para arrancar a verdade dos envolvidos no assassinato. O espectador acaba vendo o auxiliar amoral como aquele que sabe das coisas, enquanto seu chefe legalista não passa de um ingênuo.

O filme é impactante, prende a atenção, evoca um momento histórico importante e tem Gene Hackman em grande forma. Merece ser visto.

Mas, a tese utilitária tem de ser rechaçada firmemente, em todas as circunstâncias! Porque quem age como criminoso se torna também criminoso, o fim nobre nunca permanece o mesmo depois de se utilizarem meios espúrios para o atingir. E a experiência histórica nos ensina que, depois da primeira violação de conduta, abrem-se as porteiras para muitas e muitas outras, com a exceção logo se tornando regra. É uma viagem sem volta.

Esta discussão vem a calhar quando o PT abdica de quaisquer escrúpulos na busca de vitória eleitoral, tendo tomado a iniciativa de deturpar e apequenar a batalha política, tornando-a uma campanha de satanização, de medo, do ódio, de uso indiscriminado da mentira e do apelo para irrelevâncias que beiram os fuxicos de comadres. 

Poderá até resultar, mas o partido sairá da eleição muito menor do que entrou; de depositário das esperanças populares se terá tornado um beneficiário da credulidade dos despolitizados, dos coitadezas que se deixam enganar pelos métodos nazistas/stalinistas de manipulação das massas. 

Vitórias de Pirro preparam o terreno para derrotas acachapantes (e eu temo que as consequências acabarão recaindo sobre todos nós, não apenas sobre os dirigentes do PT responsáveis pela descida ao esgoto). 

terça-feira, 21 de outubro de 2014

UMA OBRA-PRIMA DE ARREPIAR: "ADEUS, MENINOS"!

Adeus, meninos (1987) é uma obra-prima, de arrepiar! Une uma visão poética da meninice num colégio católico com a dura prova a que professores e alunos são submetidos a partir da ocupação nazista, quando solidarizar-se aos perseguidos tinha um preço altíssimo.

Louis Malle (1932-1995) foi um dos principais expoentes da nouvelle vague, a onda francesa que tornou mais inteligente a vida no cinema, ao colocar em primeiro plano o papel do autor (o diretor com licença para criar, enveredando por enredos com densidade bem maior e fazendo as mais diversas experiências formais, ou seja, imprimindo, bem nítida, sua marca pessoal no filme), em contraposição aos artesãos característicos de Hollywood (pistoleiros de aluguel cuja personalidade jamais deveria transparecer no filme). 

De certa forma, foi toda uma geração de brilhantes cineastas que trilhou o caminho aberto pelo genial Orson Welles com Cidadão Kane, tão inovador em 1941 que só no final da década seguinte suas premissas se cristalizaram num movimento --cinematograficamente o mais rico do século passado, por apontar para várias direções, enquanto o néo-realismo, p. ex., estava mais para samba de uma nota só.

Há dúvidas sobre se Malle teria sido precursor ou lançador da nouvelle vague, com seu Ascensor para o cadafalso (1957), mas ninguém discute a importância da contribuição de Os amantes (1958) e Trinta anos esta noite (1963) para o movimento.

Depois, faria filmes muito polêmicos, questionando valores sociais e/ou dissecando ambiguidades morais, como O ladrão aventureiro, de 1967 (que mostra sem nenhum moralismo a trajetória de um indivíduo até se tornar gatuno exímio); Lacombe Lucien, de 1974 (no qual lança um olhar compassivo para um jovem rústico que as circunstâncias transformam em colaborador da Gestapo); e Menina bonita, de 1978 (sobre menina criada em bordel, filha de prostituta, que só almeja tornar-se também meretriz, a despeito dos esforços de um admirador para salvá-la desse destino).

Adeus, meninos é seu apogeu e canto do cisne, um filme simplesmente perfeito, seja pela sensibilidade com que retrata o período em que os jovens vão formando sua personalidade, escolhendo as influências que incorporarão, conhecendo o que são e até onde poderão ir, sempre submetidos ao desafio dos outros jovens que também buscam sua afirmação; seja pelo final fortíssimo, em que se deparam com dilemas morais que nem mesmo para os adultos são fáceis de enfrentar.

Destaque também para a irrepreensível atuação de um elenco sem grandes nomes, mas que compõe personagens extremamente marcantes. Presumo que graças ao toque de Midas do diretor. 

domingo, 19 de outubro de 2014

BRASILEIRO. VOCAÇÃO: INSPETOR DE QUARTEIRÃO.

Leio no Estadão que as "áreas mais pobres da cidade (...) foram tomadas por uma aflição geral", temendo que a água termine de vez em São Paulo. E, como sempre, os moradores correram a policiarem uns aos outros:
"Em lugares como o Parque Cocaia, no extremo da zona sul, moradores, com auxílio de comerciantes e lideranças comunitárias, criaram até um 'código moral' para o uso do recurso. Eles avaliam que agora ninguém mais tem direito a desperdiçar 'nenhuma gota'.
Jovens passam o dia circulando de motos pelas vielas estreitas do bairro, chamando a atenção de quem é flagrado lavando calçada ou veículo"
Assim é o brasileiro: um inspetor de quarteirão em potencial, doidinho para ter uma chance de exercer sua otoridade sobre os iguais.

Nunca lhe ocorre que tais paliativos podem, no máximo, atenuar um tiquinho o problema.

Como São Paulo não é nenhum território independente, cabe ao Brasil encontrar uma solução real, obviamente desviando água de Estados dela menos carentes para socorrer os paulistas.

Mas, a terrível obtusidade e pequenez dos governantes faz com que o elástico seja esticado ao máximo, com risco de arrebentar na cara das criancinhas, dos idosos e dos inválidos. A racionalidade só virá depois da eleição. Até lá, os brasileiros de São Paulo estarão sendo tratados como reféns, pois seu desespero serve aos objetivos da mais ignóbil politicalha.

Os patrulhadores de vizinhos nunca voltarão o olhar para o alto. Sempre vão preferir aporrinhar e fustigar outros coitadezas, pois assim sentem-se menos coitadezas.

E, tão valentes quando se trata de baterem boca ou partirem para arranca-rabos com idênticos zé-manés, borram-se de paúra ante a perspectiva de confrontarem os poderosos e os governantes, sempre os maiores culpados pelos infortúnios que se abatem sobre estes tristes trópicos.

P.S. - há poucos dias, comentei que já não tenho acesso às fontes de bastidores com as quais contava ao atuar na grande imprensa, só me restando confiar nas avaliações que faço e no que depreendo do acompanhamento atento do noticiário.  Assim, neste texto escrito na tarde de domingo, critiquei a não destinação para São Paulo de água de outros Estados que estão em situação mais confortável. Era uma conclusão óbvia a se tirar do quadro atual. Para minha surpresa, o candidato Aécio Neves tocou neste assunto hoje, 2ª feira, criticando o aparelhamento da Agência Nacional de Águas. Como não creio que ele me leia, deve ter sido mera coincidência. 

sábado, 18 de outubro de 2014

DILMA SEGUE O CONSELHO DO BLOGUE: ADMITE CORRUPÇÃO NA PETROBRÁS E PROMETE "RESSARCIR TUDO E TODOS".


No post Propinoduto: Dilma deve fazer o jogo da verdade ou continuar tapando o sol com a peneira? (acesse aqui), eu reproduzi uma notícia da Folha de S. Paulo sobre os bastidores do PT, dando conta de que alguns grãos petistas aconselhavam a presidenta a admitir a ocorrência de práticas condenáveis na Petrobrás e outros, a manter a desconversa.

Apontei-lhe o bom caminho: "...agirá bem a presidenta Dilma se preferir fazer o jogo da verdade, deixando de tapar o sol com a peneira".

E conclui com um bordão de minha autoria (por que não?): a transparência é revolucionária!

Registro, com satisfação, que desta vez a Dilma ficou com os mocinhos, botando os bandidos pra correr. Eis sua declaração deste sábado, 18:
"Eu farei todo o meu possível para ressarcir o País. Se houve desvio de dinheiro público, nós queremos ele de volta. Se houve, não; houve! Eu tomarei todas as medidas para ressarcir tudo e todos".
Bravíssimo! 

UM ESPECTRO RONDA O BRASIL

Este blogue tem, para mim, dupla função: 
  • há textos que publico aqui e também em vários outros espaços cativos de que disponho, além de difundir por e-mails, pois quero que tenham repercussão mais ampla; e
  • há textos que publico apenas aqui, como um tipo de conversa íntima com meu público mais constante.
No segundo caso está este post, na esperança de que permaneça no círculo de meus amigos e leitores de longa data. Os demais poderiam interpretar como terrorismo eleitoral, o que não é.

Quero apenas deixar registrado que me inquietam muito os rumos da sucessão presidencial. Pode vir coisa ruim demais por aí.

Na edição da veja que chegou às bancas neste sábado, a matéria de capa é exatamente a que previ. Desde que os delatores premiados começaram a abrir o bico, eu não tinha nenhuma dúvida de que, no penúltimo sábado antes do 2º turno, a revista faria estardalhaço com sua denúncia mais contundente.

O doleiro Alberto Yousself, diz a revista, acaba de entregar à Polícia Federal provas de que a campanha de 2010 de Dilma foi em parte financiada com dinheiro desviado da Petrobras.

Então, podemos ter a certeza de que, caso Dilma seja reeleita:

  • a oposição entrará em 2015 com um pedido de impeachment, pois o apurado na Operação Lava Jato é suficiente para o respaldar;
  • no ano que vem necessariamente começará um ajuste recessivo na economia, cuja intensidade e duração não é possível prevermos, mas fará, claro, aumentar a insatisfação popular.
A simultaneidade destes dois acontecimentos criará um caldo de cultura propício para golpe de estado. 

Convido os companheiros a refletirem sobre meu alerta, não com antolhos eleitoreiros, mas pensando mais longe. O perigo que nos ronda vai muito além desse duelo de baixarias que passa por ser eleição. E, repito, não podemos ser pegos desprevenidos como o fomos em 1964. 

VEJA AQUI DOIS VÍDEOS RARÍSSIMOS DO VANDRÉ NO EXÍLIO

A dica foi do companheiro Vinícius de Barros, a quem agradeço: eis duas gravações muito raras do Geraldo Vandré, em 1970, apresentando-se numa TV alemã.

A "Caminhando" está belíssima, a "Modinha" (da trilha musical de A hora e vez de Augusto Matraga) nem tanto. Mas ambas nos dão o mesmo aperto no coração, pois é cruel a comparação do Vandré ainda não destruído com o zumbi que hoje carrega seu nome.



VEJA O VÍDEO DA CANÇÃO "CHE", INTERPRETADA POR GERALDO VANDRÉ.

E já postara esta autêntica preciosidade no início de 2012: tratava-se de um link para baixar a música, mas acabou sumindo. Agora, alguma boa alma a disponibilizou no Youtube e eu pude trazê-la de volta para cá.

Trata-se de uma canção dedicada a Che Guevara, na intepretação do Geraldo Vandré e Trio Maraya. 

O companheiro Vitor  Nuzzi gentilmente dissipou minhas dúvidas sobre esta Che, enviando-me trechos de sua biografia ainda inédita do  Vandré:
"...na verdade, eram duas músicas, conforme lembra Lúcia, mulher de Marconi [integrante do Trio Maraya]. 'O Marconi fez ela instrumental. Quando perguntavam, ele dizia que era homenagem aos gaúchos, para não se complicar', lembra, rindo. (...) E a música de Marconi –sem sequer ter letra– foi censurada.

Segundo Lúcia, Vandré sempre quis pôr letra, mas Marconi nunca aceitou. E assim nasceria um segundo Che, quando o grupo todo foi para a Europa. Tempos difíceis, pré-AI-5, clima de vigilância no ar.  Os cartões enviados da Bulgária chegavam abertos. 'O Marconi acabou fazendo uma outra melodia, e o Geraldo fez a letra.'"
Cheguei a cogitar que se tratasse da música de Walter Franco que Vandré defendeu num Festival Universitário da Canção Popular. Mas, esta era outra, sobre a qual encontrei o seguinte depoimento do blogueiro Waldir Mengardo:
"No Festival Universitário da Tupi, em 1968, Geraldo Vandré, junto com o Trio Maraya, defendeu uma música de Walter Franco chamada Não se queima um sonho. Era uma alegoria a Che Guevara que foi classificada na sua eliminatória e depois sumiu na final do Festival sem nenhuma explicação. (...) Era mais ou menos assim: Seu sonho sem mortalha/ Cercado de solidão/ Eu trago bem guardado/ Na espera e no coração/ Vem oh! meu companheiro Che/ seu sonho quero lhe dar..."
Nuzzi, por sua vez, esclareceu ter o festival da Tupi ocorrido logo depois do alvoroço de 'Pra não dizer que não falei das flores' no Maracanãzinho. O maestro Rogério Duprat, na época, criticou a composição de Walter Franco: "Se Guevara estivesse aqui não ia gostar nem um pouco. É preciso acabar com toda essa choradeira em torno do guerrilheiro, não é assim que se faz uma revolução".

Quanto à canção que junta os versos do Vandré e a segunda melodia do Marconi, acima disponibilizada, eis a letra:

Perdoa minha canção
Se canta só minha boca
Se tem forma de oração
Se a minha voz fica rouca
Qual arma sem munição
Se ela é franca, mas é pouca
Enquanto fica canção

Sobe monte, desce rio
Sobe monte, desce rio
Sobe monte, desce rio
Vida e barbas por fazer
Sobe monte, desce rio
Sobe monte, desce rio
E um dia, de repente
Foi morto num amanhecer

Na frente de todo mundo
Pra todo mundo aprender
Quem afrouxa na saída
Ou se entrega na chegada
Não perde nenhuma guerra
Mas também não ganha nada

Sobe monte, desce rio
Sobe monte, desce rio
Sobe monte desce rio
Vida e barbas por fazer
Sobe monte, desce rio
Sobe monte, desce rio
E um dia, de repente
Fez da morte mais viver

Quem seguia teu caminho
Não podia te prender
E mesmo por traição
Pensando que te matava
No meu corpo americano
Fincou mais teu coração
No meu corpo americano
Fincou mais teu coração

Perdoa minha canção...

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

OUTRA GRAVÍSSIMA ACUSAÇÃO DO LULA: O AÉCIO NÃO LEVAVA MAÇÃ PRA PROFESSORA!

Os leitores podem até supor que eu esteja sempre procurando motivos para criticar o PT, mas os milhares de textos armazenados no meu blogue estão aí para provarem o contrário. São os petistas que, invariavelmente, dizem e fazem coisas com as quais não concordo, nem jamais concordei.

P. ex., transformar uma campanha presidencial numa competição para ver quem sataniza mais o adversário é o oposto de tudo que defendo. Trata-se da política degradada a arranca-rabo de cortiço.

A CPMF, que Dilma Rousseff tenta fazer-nos crer que era fundamental para a Saúde, nunca passou de um engana-trouxa a mais para tungarem os cidadãos. 

Nos tempos em que trabalhei nas editorias de economia, percebi claramente que, pior ainda do que Bancos Centrais dóceis ao grande capital, são os BC's subservientes aos governos. Por que? Porque estes últimos querem mesmo é colocar a economia a serviço dos interesses e conveniências da politicalha. Fazem-no de forma tão grosseira que criam o pior dos mundos possíveis

E que dizer do teste do bafômetro, que Lula resolveu utilizar como arma contra Aécio Neves? Pelas ninharias que anda colocando em circulação, daqui a pouco ele vai acusar o tucano de nunca ter levado maçãs para sua professora do pré-primário...

Aécio se recusou a fazer o teste em 2011? Palmas para ele! Pois eu também JAMAIS me submeteria a tal constrangimento, típico de regimes totalitários. Por sorte, minha idade e aparência me colocam na leva dos que os policiais mandam passarem direto.  

Tendo detestado cada segundo que vivi sob ditadura, subo nas paredes quando tentam me impor o mesmo tratamento em plena democracia; não dou satisfações a quem não está legalmente autorizado a exigi-las, sempre preferi correr o risco de perder bons empregos do que permitir que censurassem meus textos, etc.

Quanto aos testes impostos aos motoristas, eis o que escrevi sobre eles, em março de 2012, no artigo STJ fulmina a Lei Seca. Bravíssimo!:

"Finalmente, uma decisão memorável do STJ, ao esvaziar, na prática, a famigerada  Lei Seca.

Tão patética quanto a que fez a fortuna dos gangstêres de Chicago, a Lei Seca  do volante parte de um princípio inaceitável numa democracia: o de que o cidadão é culpado até que prove sua inocência.

Qualquer motorista era laçado a esmo (na contramão do princípio da igualdade de todos perante a lei) e constrangido à humilhação do bafômetro.

Se, exercendo suas prerrogativas constitucionais, não aceitasse produzir provas contra si mesmo, ainda assim poderia ser processado, condenado, preso, com base nos depoimentos imprecisos de: 
  • testemunhas (nas situações normais sempre há poucas: por comodismo ou por principio, a grande maioria prefere viver e deixar viver);
  • guardas de trânsito (otoridades  que, quando desobedecidas, ficam furibundas e tudo fazem para retaliar os autores do crime  de lesa majestade, donde o STJ agiu certíssimo ao cortar-lhes as asas); e
  • médicos (cujo  exame visual  nada mais é do que um palpite, além de tenderem a, quando a serviço da Polícia, vestirem a camisa de repressores com o ardor de um Harry Shibata).
Crianças são tuteladas.

Adultos são donos do seu nariz".
A Lei Seca original (1920-1933) foi um total fracasso 

Infelizmente, nas marchas e contra-marchas da nossa Justiça, o mostrengo por ora voltou a viger. Torço para que a Ação Direta de Inconstitucionalidade interposta cumpra o seu papel, garantindo os direitos individuais contra a imposição de arbitrariedades a pretexto de proteção da coletividade. 

Por este caminho, dá para se justificarem todas e quaisquer medidas autoritárias. Trata-se da mesmíssima racionália aplicada pelos EUA e países europeus após o atentado ao WTC: cidadãos com traços físicos e/ou sobrenomes assemelhados aos árabes eram revistados, detidos, interrogados, maltratados, confinados, em função do mero palpite de que pudessem ser terroristas.

De resto, até agora, não havia nada no Aécio que me entusiasmasse. Nem lembrava do episódio em questão, mas a atitude dele é daquelas que, partindo de quem partir, sempre aprovarei (só desaprovo o seu recuo tático no debate do SBT, mas nenhum candidato ousa ser politicamente incorreto no meio de uma eleição). Os brasileiros são caninamente submissos ao autoritarismo, precisamos de quem lhes dê exemplo de postura cidadã altaneira.

Obs. Não li nenhuma referência ao branco que deu em Dilma durante o debate da Band, mas é provável que alguém mais tenha percebido. O certo é que eu notei, registrei (vide aqui) e, em seguida, abordei exatamente o problema da exaustão física e mental dos candidatos, pois ficou evidente para mim que ela, ou havia travado, ou tonteado. Logo após o debate do SBT aconteceu de novo e a presidenta teve de ser amparada para não cair. 
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