terça-feira, 5 de maio de 2015

A ÉPOCA DE OURO DA MPB/5: A INÚTIL E AGÔNICA BUSCA DO APOGEU PERDIDO

No 7º FIC (1972), o amargo fim: muitos artistas e pouco talento no palco.
N4º Festival da Música Popular Brasileira, que a Record realizou em outubro/novembro de 1968, a censura já dava as cartas, toda poderosa. Tom Zé, p. ex., teve de trocar "o empregador que condena/ um atentado por quinzena" (referência às ações armadas) por "o pregador que condena/ um festival por quinzena"!!!

Como novidade, houve duas relações de premiados.


júri especial (críticos e artistas ilustres) escolheu "São, São Paulo, meu amor", de Tom Zé, seguida de "Memórias de Marta Saré" (Edu Lobo/Gianfrancesco Guarnieri), "Divino Maravilhoso" (os autores Caetano e Gil, até em razão da má experiência com o FIC, cederam a música e o palco para a tímida Maria das Graças se metamorfosear na agressiva Gal, sob óbvia influência de Janis Joplin), "2001" (Tom Zé/Rita Lee) e "Dia da Graça" (Sérgio Ricardo).

"Marta Saré" também foi vice na votação popular, enquanto o tributo sarcástico de Tom Zé a São Paulo ficou apenas em 5º lugar.

O povo preferiu a xaroposa "Bem-vinda", outra canção convencional e atemporal que Chico Buarque compôs no ano de maior efervescência política e cultural em nossa história recente.

Em 3º, uma curiosa parceria entre Ary Toledo e Chico Anísio, para enaltecer o clã dos Kennedys: "A Família".

O 4º foi para "Bonita", estranha guarânia de um Geraldo Vandré que parecia pressentir a tragédia que se abateria sobre ele.


Inacreditavelmente, a magnífica "Sentinela", de Milton Nascimento, não entrou em nenhuma das listas. Talvez porque o júri especial soubesse tratar-se de (e temesse premiar) um tributo velado a Che Guevara, enquanto os cidadãos comuns o ignoravam...

No 4º FIC, em setembro de 1969, vitória de "Cantiga para Luciana", de Edmundo Souto e Paulinho Tapajós.

Nas colocações seguintes, outras musiquinhas rasteiras.

E pensar que concorriam "Gotham City" (Macalé/Capinan), "Ando Meio Desligado" (Mutantes) e a antológica "Charles Anjo 45" (Jorge Ben)!!! Os juris continuavam sendo simpáticos, mas incompetentes...

5º FIC, em outubro de 1970, lançou Ivan Lins (2º lugar, com "O amor é meu país", dele e Ronaldo Monteiro) e Gonzaguinha (4º, com "Um abraço terno em você, viu, mãe".

Sueli Costa ficou em 3º, com "Encouraçado", dela e Tite Lemos.


E quem venceu, acreditem, foi a intragável "BR-3", de Antônio Adolfo e Tibério Gaspar, projetando Tony Tornado -- cuja carreira principal logo se tornaria a de ator secundário em pornochanchadas.

No 6º FIC, setembro de 1971, os artistas mais renomados tramaram um protesto contra a censura quando o festival estivesse sendo transmitido ao vivo para o Brasil e outros países.

A TV Globo ficou sabendo (espalhou-se, com base em mera suposição, que o delator teria sido o Wilson Simonal) e, inviabilizada a surpresa, os grandes nomes retiraram em bloco suas composições.

Vitória de "Kyrie", de Paulinho Soares e Marcelo Silva.

A 3ª colocada, "Desacato", foi a única que emplacou em termos comerciais. Artisticamente, nenhuma.

Finalmente, no 7º FIC, setembro de 1972, a TV Globo teve que destituir o júri para premiar sua preferida, "Fio Maravilha", de Jorge Ben, com Maria Alcina.


Fim de feira apropriado para um ciclo que, na verdade, tinha terminado em dezembro de 1968, quando o Ato Institucional nº 5 impôs ao País a paz dos cemitérios, sufocando as energias criativas dos artistas, que não puderam mais cumprir seu papel de antenas da raça.

Melancólico, o derradeiro FIC deixou, pelo menos, uma semente: "Cabeça", de Walter Franco, lançou o experimentalismo pós-tropicalista que vicejaria nos anos seguintes, com ele próprio, Jards Macalé, Jorge Mautner, Hermeto Paschoal, Naná Vasconcellos, Wagner Tiso, Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção, entre outros.

EPÍLOGO - Em termos artísticos a era dos festivais se encerrara no final de 1968, com a assinatura do AI-5; e, em 1972, teve fim a sequência de eventos anuais que se iniciara em 1965. Daí em diante, pipocariam esporadicamente tentativas de retomada, mas estas serviram apenas para confirmar que aquela página tinha sido mesmo virada.

Uns poucos resquícios da época de ouro da MPB ainda se notariam no Festival Abertura da TV Globo (fevereiro/1975), cuja vitória coube à esquecível e esquecida "Como um ladrão", de Carlinhos Vergueiro. Marcantes foram, isto sim, a partida de dados que Walter Franco e o maestro Júlio Medaglia fingiram estar jogando, enquanto o público vaiava histericamente "Muito tudo"; e Alceu Valença despontando para o estrelato com "Vou danado pra Catende".



E também no Festival 79 da Música Popular, que a TV Tupi promoveu quatro anos mais tarde --até porque Walter Franco, com sua blueseira e contundente "Canalha", recebeu nova vaia digna de Sérgio bom de bola Ricardo e de Caetano Cohn-Bendit Veloso.

O júri igualmente bisou a crassa incompetência dos congêneres de outrora, dando a vitória à banal "Quem me levará sou eu" (Dominguinhos/Manduka), quando imensamente melhores eram a própria "Canalha", "Bandolins" (Oswaldo Montenegro") e "Sabor de veneno" (Arrigo Barnabé).

Depois, nem isto. Os MPB Shell de 1980, 1981 e 1982, bem como o Festival dos festivais de 1985, foram meras irrelevâncias. Nada sobrara do boi para a TV Globo faturar mais uma graninha, nem mesmo o berro...

Obs.: trabalhando numa editora de publicações musicais entre 1979 e 1984, 
fiz aprofundadas pesquisas sobre os grandes festivais de MPB e o programa 
"O Fino da Bossa", para redigir os textos de edições dedicadas a cada um desses 
temas. Depois, em 1983, reuni o que havia de mais significativo nesse material 
todo no nº 54 da revista "Especial". Exatamente por dar uma visão ao mesmo 
tempo sintética e abrangente do período mais fértil e criativo de toda a história da 
música brasileira, foi a versão de 1983 que decidi digitar e atualizar para o blogue.
Os artigos anteriores desta série podem ser acessados  aqui, aqui, aqui e aqui.

domingo, 3 de maio de 2015

BLOGUEIROS AMESTRADOS DEFENDEM O QUE HÁ DE PIOR: DESDE OS DONOS DE EMPREITEIRAS ATÉ O TOFFOLI!!!


É total a minha decepção com os blogueiros chapa branca, que em todos os assuntos se posicionam levando em conta unicamente conveniências palacianas. 

P. ex., acompanhando de cabo a rabo todas as sessões do STF referentes ao Caso Battisti, constatei que Ricardo Lewandowski era reacionário até a medula e José Dias Toffoli, o exato oposto do que se espera de um membro da mais alta corte do País.

[Nunca esquecerei de quando fomos entregar pessoalmente um memorial em favor de Cesare Battisti aos ministros do STF: os senadores Eduardo Suplicy e José Nery, o professor Carlos Lungarzo e eu, ex-preso político.

Quatro homens respeitáveis, veteranos defensores das boas causas, fomos atendidos de forma cortês e civilizada por quase todos os ministros, mesmo os que mais divergiam de nossa posição, como Gilmar Mendes e Cezar Peluso.  

A única exceção foi, claro, Toffoli, que não escondeu o desprezo por quem ainda é movido por ideais e mostrou lamentar cada segundo desperdiçado...]

No entanto, Lewandowski virou ídolo da rede virtual petista ao mostrar evidente simpatia pelos réus do mensalão e Toffoli, por colocar na rua empresários corruptores.

[É de um ridículo atroz supostos esquerdistas se porem, impudicamente, a defender patrões e a exultar com sua libertação, quando deveriam é estar, agora e sempre, exigindo sua prisão, pois motivos jamais faltaram!!!]

Agora, a revista veja divulga suspeitas sobre Toffoli e os blogueiros amestrados correm a defendê-lo, como se ademais não fosse, disparado, o pior de todos os atuais ministros do STF.

Eis, na íntegra, algo que escrevi em agosto de 2013: minha desolada mea culpa por ter apoiado a indicação de Toffoli para o Supremo, um dos piores erros que cometi em toda a minha vida. 

A lição que tirei foi a de nunca mais posicionar-me, em nenhuma questão por critérios utilitários. Esses mesmos que norteiam cada frase escrita pelos papagaios do Planalto.

AS MUITAS LIGAÇÕES PERIGOSAS DO MINISTRO TOFFOLI

Qual é a cara do deslumbramento com o poder? Esta.
Quem acompanha meu trabalho sabe que eu tenho uma razoável taxa de acertos em posicionamentos e previsões. 

Mas, evidentemente, infalível não sou. E meu maior erro, de um bom tempo para cá, foi ter apoiado José Antonio Dias Toffoli para ministro do Supremo Tribunal Federal.

Naquele segundo semestre de 2009, os ministros Gilmar Mendes e Cezar Pelluso agiam de maneira gritantemente parcial em todos os trâmites referentes a Cesare Battisti. As perspectivas para o julgamento do pedido de extradição italiano eram as piores possíveis. Então, quando o presidente Lula indicou para o STF um advogado inexpressivo, sem currículo à altura e até suspeito de más práticas, cometi um erro que costumo recriminar nos outros: posicionei-me utilitariamente. Mea maxima culpa.

Pensava com meus botões que ele jamais conseguiria ser pior do que Mendes e Peluzo, a aliança do reacionário por conveniência com o reacionário por carolice.

Só que Mendes contra-atacou, dando entrevistas nas quais pôs em xeque a qualificação de Toffoli.  Foi o bastante para boa parte da grande imprensa, que obedecia à sua batuta, fazer coro indignado. Até em editoriais. 

Toffoli é o papagaio de pirata, não o beijoqueiro
Aí Toffoli e Mendes conversaram a sós... e o segundo mudou diametralmente de posição. Passou a endossar o novo colega; e o PIG, obediente, se calou. 

Não foi surpresa nenhuma para nós quando Toffoli,  já empossado, se declarou impedido para julgar o Caso Battisti. Sabíamos que alguma contrapartida haveria. E até adivinhávamos qual seria. Esta mesma. 

Agora, O Estado de S. Paulo revela que Toffoli NÃO se declarou impedido para relatar processos que envolvem o Banco Mercantil do Brasil, instituição para a qual deve até as calças. E que as prestações dos seus dois empréstimos (totalizando R$ 1,4 milhão) foram, magnanimamente, reduzidas de 1,35% para 1%. Como diria um humorista, isto é que é bondade da boa...

Toffoli também NÃO se declarou impedido para atuar nos processos do advogado Roberto Podval, aquele criminalista que o convidou para assistir a um casório na ilha italiana de Capri, com as (nababescas)  despesas de hospedagem todas pagas. 

NEM para relatar no STF uma ação envolvendo um adversário político do seu irmão José Ticiano Dias Toffoli.

Vamos ver se o STF, que tanto critica o corporativismo no Congresso Nacional, será agora capaz de cortar a própria carne. Caso contrário, concluiremos que toda aquela retórica empolada não passava de conversa pra boi dormir.

sábado, 2 de maio de 2015

O VÍDEO MAIS PORNOGRÁFICO QUE PODE SER VISTO NA INTERNET...

...É ESTE AQUI:


POIS É TOTALMENTE OBSCENA A TENTATIVA DE FAZER OS TRABALHADORES PAGAREM DE BOM GRADO A CONTA DOS ERROS DA POLÍTICA ECONÔMICA DOS ÚLTIMOS GOVERNOS, OMITINDO QUE BASTARIA AUMENTAR-SE A TAXAÇÃO DOS BANCOS E DAS GRANDES EMPRESAS EM GERAL, BEM COMO DOS PARASITAS QUE HERDAM FORTUNAS BILIARDÁRIAS, PARA SE PODER REDUZIR EM MAIS DA METADE A QUOTA DE SACRIFÍCIOS EXIGIDA DOS EXPLORADOS.

ELEGEMOS A DRA. JECKYLL, UMA REFORMISTA. QUEM NOS GOVERNA É A SRA. HYDE, UMA NEOLIBERAL.

Furo do blogue: com a leitura labial, descobri  que a Merkel lhe disse "eu sou você amanhã".
Está na Folha de S. Paulo deste sábado (2) e o autor é André Singer, um dos analistas mais simpáticos ao petismo no jornal da ditabranda:
"...os olhares se voltarão para a votação do ajuste fiscal, que aparecerá logo mais no plenário sob a forma das Medidas Provisórias 664 e 665. Dissolvida a inusual contenda direita-esquerda, que se verificou no tema da terceirização, voltará a prevalecer a luta entre a base de apoio governista e a oposição.
Para Dilma, a aprovação das MPs é fundamental. Goste-se ou não (e eu não gosto), a escolha de Sofia em favor do ajuste recessivo foi feita por inteiro. O cálculo parece ser de que, depois de um período agudo -que pode durar mais um semestre ou até o fim de 2016-, ocorrerá crescimento em 2017.
E para os esquerdistas que a salvaram da derrota em 2014...
Assim, haveria tempo para entrar no ano eleitoral de 2018 com a economia em alta. Trata-se, portanto, de aguentar o tranco agora, de maneira a terminar o mandato em condições ao menos razoáveis.
Dada a aposta acima, o PT será obrigado a cerrar fileiras em favor das MPs, de modo a garantir que os demais partidos da base, a começar pelo PMDB, sustentem a estratégia da presidente. O projeto da terceirização veio em boa hora, pois deu oportunidade ao PT de mostrar serviço à classe trabalhadora antes de sacramentar no Parlamento a opção neoliberal"
Ou seja, enquanto os blogueiros chapa branca alimentavam ilusões de que logo sairíamos da penúria atual, a Angela Merkel brazuca (eu poderia também chamá-la de Margaret Thatcher, mas deixemos as mortas em paz...) sabia muito bem que comeremos o pão que o diabo amassou por muito tempo ainda. E, agindo como a tecnoburocrata que vem sendo de coração nas últimas décadas (embora lhe convenha esconder que nada tem mais a ver com a saudosa Wanda), ela está prontinha para atirar o Brasil e os brasileiros no mesmo buraco sem fundo do qual a Grécia tenta desesperadamente escapar.

Ou seja, certo mesmo está o FMI, ao projetar queda do PIB brasileiro em 2015 (-1%) e insignificante melhora em 2016 (+0,9%), o que equivale a dois anos de recessão. No mínimo.
Se o Lula aprovou o cartaz, bravíssimo! Ele nos deve isto.

E certo mesmo também estava eu, ao dar um sacode nas ilusões falaciosas que tentam impingir ao nosso pobre povo: Por enquanto, estamos f... e mal pagos. Adiante, continuaremos f... e nos pagarão um tantinho mais.  

Quem se vê como pertencente à esquerda mas concorda com a aplicação à risca do receituário neoliberal no Brasil, acumpliciando-se com a sangria dos explorados, deveria procurar um analista especializado em dupla personalidade. Ou ir confessar seus pecados a um padre bem indulgente.

Face à opção que os golpistas lhe ofereceram, de abandonar o Chile juntamente com todos os companheiros que escolhesse e coubessem no avião, sem obrigação nenhuma de virar a casaca, o grande Salvador Allende preferiu a morte. A pequena Dilma Rousseff tomou a decisão diametralmente oposta, deixando-se cooptar escancaradamente pela burguesia; e não para salvar a vida, mas tão somente para preservar o mandato.

Não sou fã incondicional do Lula, mas ele é, atualmente, o único ator político que pode livrar o PT do total desvirtuamento e os brasileiros, do pior pesadelo neoliberal. É, aliás, sua obrigação moral, por nos ter imposto a dra. Jeckyll como presidenta; cabe-lhe agora, mais do que a qualquer um, conter a sra. Hyde.  

E, antes que me esqueça: delenda est Levy.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

CHILE, 1907: MILHARES DE TRABALHADORES FORAM ABATIDOS COMO MOSCAS!

Tenho sangue latino e, "por força deste destino, um tango argentino me vai bem melhor que 
um blues". Então, sem menosprezo nenhum 
às vítimas de 1886 em Chicago e às de 1891 
na cidade francesa de Fourmies, escolhi 
para reverenciar as lutas dos trabalhadores 
o movimento dos desempregados pela 
indústria do salitre nos pampas 
chilenos, que culminou no terrível 
massacre de Iquique, em 1907.


A cantata Santa Maria de Iquique foi uma das culminâncias da Nueva Canción Chilena -movimento musical inspirado por Violeta Parra, que aglutinou artistas como Víctor Jara, Patricio Manns, Isabel Parra, Ángel Parra, Osvaldo Gitano Rodríguez, Tito Fernández e os grupos Quilapayún, Inti-Illimani, Illapu e Cuncumén.

Lançado na segunda metade da década de 1960, durou até o pinochetazo de setembro de 1973. Tinha como características básicas a opção pelas raízes musicais chilenas e o engajamento político. 

Composta em 1969 pelo músico Luis Advis, esta cantata popular (que reconstitui o bestial massacre de 3,6 mil trabalhadores por parte do exército chileno, em 1907) correu mundo, na primorosa interpretação do conjunto Quilapayún.

Lembro-me da emoção com que a ouvi pela primeira vez, em meados dos '70, na rádio Cultura FM. Não parei mais de tocar a gravação meio tosca que fiz, ligeiro no gatilho, ao perceber do que se tratava pela introdução do locutor. 

No início dos '80, quando a nossa ditadura entrava na fase de despotismo esclarecido, a gravadora Copacabana pôde, finalmente, lançar as principais obras dessa corrente, inclusive a cantata. Foi um prato cheio para mim, que simpatizara muito com o governo de Allende, horrorizara-me com o golpe sanguinário de Pinochet e tinha (tenho) um bom amigo chileno, que me contava mil detalhes sobre os artistas e a política do seu país.

Victor Jara sempre me pareceu o Geraldo Vandré chileno, seja pelo estilo das composições, pela empostação de voz que nos deixava uma impressão de total sinceridade, e também pelo fim trágico de ambos (um morto fisicamente, o outro espiritualmente).

Já o Angel Parra me decepcionou, mas não por culpa dele. Como só tomei conhecimento do seu dilacerante disco de 1976, Angel Parra de Chile, (ouça-o aqui) quando a Copacabana o lançou (uns cinco anos depois), fiquei com a imagem dele como um homem sofredor e amargurado.

Aí ele veio ao Brasil e eu o conheci numa festa. Brincalhão, pândego, dava em cima de todas as meninas. Perguntei-lhe sobre seu disco do exílio e ele respondeu que eram águas passadas, não adiantava ficar remoendo aqueles dramas para sempre.  No momento, fiquei chocado. Depois, refletindo melhor, dei-lhe razão.

É enorme a minha satisfação em disponibilizar este vídeo e a belíssima letra integral da Cantata Santa Maria de Iquique.


1. Pregão: Señoras y señores
Señoras y señores,
venimos a contar,
aquello que la historia
no quiere recordar.

Paso en el norte grande,
fue Iquique la ciudad,
1907 marco fatalidad,
aya al pampino pobre
mataron por matar,
aya al pampino pobre
mataron por matar.

Seremos los hablantes,
diremos la verdad,
verdad que es muerte amarga
de obreros del salar.

Recuerden nuestra historia
de duelo sin perdón,
por mas que el tiempo pase
no hay nunca que olvidar.

Ahora les pedimos que pongan atención,
ahora les pedimos que pongan atención.

2. Prelúdio instrumental

3. Relato: Si contemplan la pampa y sus rincones
Si contemplan la pampa y sus rincones verán las sequedades del silencio, el suelo sin milagro y oficinas vacías como el último desierto. Y si observan la pampa y la imaginan en tiempos de la industria del salitre, verán a la mujer y al figón mustio, al obrero sin cara, al niño triste. También verán la choza mortecina, la vela que alumbraba su carencia, algunas calaminas por paredes y por lecho los sacos y la tierra. También verán castigos humillantes, un cepo en que fijaban al obrero por días y por días contra el sol, no importa si al final se iba muriendo. La culpa del obrero muchas veces era el dolor ambiguo que mostraba rebelión impotente, una insolencia! La ley del patrón rico es ley sagrada. También verán el pago que les daban; dinero no veían, solo fichas, una por cada día trabajado y aquella era cambiada por comida. Cuidado con comprar en otras partes! De ninguna manera se podía, aunque las cosas fuesen mas baratas; lo había prohibido la oficina. El poder comprador de aquella ficha había ido cambiando con el tiempo, pero el mismo jornal seguían pagando. Ni por nada del mundo un aumento! Si contemplan la pampa y sus rincones, verán las sequedades del silencio. Y si observan la pampa como fuera, sentirán destrozados los lamentos.

4. Canção: El sol en desierto grande
El sol en desierto grande
y la sal que nos quemaba,
el frió en las soledades,
camanchaca y noche larga,
el hambre de piedra seca
y quejidos que escuchaban,
la vida de muerte lenta
y la lagrima soldada,
las casas desposeídas
y el obrero que esperaba,
al sueño que era el olvido,
solo espina postergaba,
el viento en la pampa inmensa
nunca mas se terminara,
dureza de sequedades,
para siempre sequedades,
salitre lluvia bendita,
se volvía la palpada,
la pampa pan de los días,
cementerio y tierra amarga.

Seguía pasando el tiempo
y seguía historia mala
de sequedades,
para siempre, sequedades,
El sol en desierto grande
y la sal que nos quemaba,
el frió en las soledades,
camanchaca y noche larga,
el hambre de piedra seca
y quejidos que escuchaban,
la vida de muerte lenta
y la lagrima soldada.

5. Interlúdio instrumental

6. Relato: Se había acumulado mucho daño
Se había acumulado mucho daño, mucha pobreza, muchas injusticias. Ya no podían mas y las palabras tuvieron que pedir lo que pedían. A fines de 1907 se gestaba la huelga en San Lorenzo y, al mismo tiempo, todos escuchaban un grito que volaba en el desierto. De una a otra oficina, como ráfagas, se oían las protestas del obrero. De una a ora oficina los señores, el rostro indiferente o el desprecio. Que les puede importar la rebeldía de los desposeídos, de los parias? Ya pronto volverán arrepentidos; el hambre los traerá, cabeza agacha. Que hacer entonces, si nadie escucha? Hermano con hermano preguntaban. Es justo lo pedido y es tan poco. Tendremos que perder las esperanzas? Así, con el amor y el sufrimiento, se fueron aunando voluntades. En un solo lugar comprenderían: habia que bajar al puerto grande.

7. Canción: Vamos mujer
Vamos mujer, partamos a la ciudad.
Todo será distinto, no hay que dudar.
No hay que dudar, ya vas a ver,
porque en Iquique todos van a entender.

Toma mujer, mi manta te abrigara,
ponte al niñito en brazos no llorara.
No llorara, confía, va a sonreír.
Le cantaras un canto, se va a dormir.

Que es lo que pasa? Dime, no calles mas.

Largo camino tienes que recorrer,
atravesando cerros, vamos mujer.
Vamos mujer, confía, que hay que llegar,
en la ciudad podremos ver todo el mar.

Dicen que Iquique es grande como un salar,
que hay muchas casas lindas, te gustaran.
Te gustaran, confía, como que hay Dios.
Haya en el puerto todo va a ser mejor.

Que es lo que pasa? Dime, no calles mas.

Vamos mujer, partamos a la ciudad.
Todo será distinto, no hay que dudar.
No hay que dudar, ya vas a ver,
porque en Iquique todos van a entender.

8. Interlúdio instrumental

9. Relato: Del quince al veintiuno
Del 15 al 21 mes de diciembre se hizo el largo viaje por las pendientes. 26.000 bajaron, o tal vez mas, silencios gastados en el salar. Iban bajando ansiosos. Iban llegando los miles de la pampa, los postergados. No mendigaban nada, solo querían respuesta a lo pedido, respuesta limpia. Algunos en Iquique los comprendieron y se unieron a ellos: eran los gremios. Y solidarizaron los carpinteros, los de la maestranza, los carreteros, los pintores y sastres, los jornaleros, lancheros y albañiles, los panaderos, gasfiteros y abasto los cargadores. Gremios de apoyo justo, de gente pobre. Los señores de Iquique tenían miedo. Era mucho pedir ver tanto obrero! El pampino no era hombre cabal, podía ser ladrón, asesinar. Mientras tanto las casas eran cerradas, miraban solamente tras las ventanas. El comercio cerro también sus puertas. Había que cuidarse de tanta bestia! Mejor que los juntaran en algún sitio, si andaban por las calles era un peligro.

10. Interlúdio cantado: se han unido com nosotros
Se han unido con nosotros 
compañeros de esperanza 
y los otros, los mas ricos, 
no nos quieren dar la cara. 

Hasta Iquique nos hemos venido, 
pero Iquique nos ve como extraños, 
nos comprenden algunos amigos 
y los otros nos quitan la mano. 

Se han unido con nosotros 
compañeros de esperanza 
y los otros, los mas ricos, 
no nos quieren dar la cara, 
no nos quieren dar la cara.

11. Relato: El sitio al que los llevaban
El sitio al que los llevaban era una escuela vacía y la escuela se llamaba Santa Maria. Dejaron a los obreros, les dijero con sonrisa que esperarán solo unos días. Los hombres se confiaron, no les faltaba paciencia, ya que habían esperado la vida entera. 7 días esperaron, pero que infierno se vuelven cuando el pan se esta jugando con la muerte! Obrero siempre es peligro, precaverse es necesario. Así, el estado de sitio fue declarado. El aire trajo un anuncio, se oía tambor ausente. Era el día 21 de diciembre.

12. Canção: Soy obrero pampino y soy
Soy obre, soy obrero pampino y soy
tan revie, tan reviejo como el que mas
y comien y comienza a cantar mi voz
con temo, con temores de algo fatal.

Lo que sien,lo que siento en esta ocasión,
lo tendré, lo tendré que comunicar,
algo tri, algo triste va a suceder,
algo horri, algo horrible nos pasara.

El desie, el desierto me ha sido infiel,
solo tie, solo tierra cascada y sal,
tierra amar, tierra amarga de mi dolor,
roca tris, roca triste de sequedad.

Ya no sien, ya no siento mas que mudez
y agoni y agonía de soledad,
solo rui, solo ruinas de ingratitud
y recue, y recuerdos que hacen llorar.

En la vi, en la vida no hay que temer,
lo aprendí, lo aprendido ya con la edad,
pero aden, pero adentro siento un clamor
y que aho, y que ahora me hacen temblar.

Es la mue, es la muerte que surgirá,
galopan, galopando en la oscuridad,
por el mar, por el mar aparecerá,
ya soy vie, ya soy viejo y se que vendrá.

13. Interlúdio instrumental

14. Relato: Nadie diga palabra que llegará
Nadie diga palabra, que llegara un noble militar, un general! El sabrá como hablarles, con el cuidado que trata el caballero a sus lacayos. El general ya llega con mucho boato y muy bien precavido con sus soldados. Las ametralladoras están dispuestas y estratégicamente rodean la escuela. Desde el balcón, les habla con dignidad. Esto es lo que les dice el general: que no sirve de nada tanta comedia; que dejen de inventar tanta miseria; que no entienden deberes, son ignorantes; que perturban el orden, son maleantes; que están contra el país, son traidores; que roban a la patria, son ladrones; que han violado a mujeres, son indignos; que han matado a soldados, son asesinos. Que es mejor que se vayan sin protestar, que aunque pidan y pidan, nada obtendrán. Vayan saliendo entonces de ese lugar, que, si no acatan ordenes, lo sentirán! Desde la escuela, el rucio, obrero ardiente, responde sin vacilar, con voz valiente: "Usted, señor general, no nos entiende. Seguiremos esperando, así nos cueste. Ya no somos animales, ya no rebaños. Levantaremos la mano, el puño en alto, vamos a dar nuevas fuerzas con nuestro ejemplo y el futuro lo sabrá, se lo prometo. Y si quiere amenazar, aquí estoy yo. Dispárele a este obrero al corazón!" El general, que lo escucha, no ha vacilado: con rabia y gesto altanero, le ha disparado. Y el primer disparo es orden para matanza y así comienza el infierno con las descargas.

15. Canção-litânia: Murieron tres mil seiscientos
Murieron 3.600, uno tras otro.
3.600 mataron, uno tras otro.

La escuela Santa Maria vio sangre obrera,
la sangre que conocía solo miseria.
Serian 3.600 ensordecidos
y fueron 3.600 enmudecidos.

La escuela Santa Maria fue el exterminio
de vida que se moría solo alaridos,
3.600 miradas que se apagaron,
3.600 obreros ¡asesinados!

Un niño juega en la escuela Santa Maria,
si juega a buscar tesoros ¡que encontraría!

16. Canção: A los hombres de la pampa
A los hombres de la pampa, que quisieron protestar,
los mataron como perros, porque había que matar.
No hay que ser pobre, amigo, es peligroso.
Ser pobre amigo, es peligroso.
No hay ni que hablar, amigo, es peligroso.
No hay ni que hablar, amigo, es peligroso.

Las mujeres de la pampa se pusieron a llorar
y también las matarían, porque había que matar.
No hay que ser pobre, amiga, es peligroso.
Ser pobre amiga, es peligroso.
No hay que llorar, amiga, es peligroso.
No hay que llorar, amiga, es peligroso.

Y a los niños de la pampa, que miraban, nada mas.
También a ellos los mataron, porque había que matar.
No hay que ser pobre, hijito, es peligroso.
Ser pobre, hijito, es peligroso.
No hay ni que nacer, hijito, es peligroso.
No hay ni que nacer, hijito, es peligroso.

Donde están los asesinos, que mataron por matar?
Lo juramos por la tierra, los tendremos que encontrar!
Lo juramos por la vida, los tendremos que encontrar!
Lo juramos por la muerte, los tendremos que encontrar!
Lo juramos, compañeros, ese día llegara!

17. Pregão: Señoras y señores
Señoras y señores, aquí termina 
la historia de la escuela Santa Maria. 

E ahora, con respeto, les pediría 
que escuchen la canción de despedida.

18. Canção final: Ustedes que ya escucharon
Ustedes que ya escucharon 
la historia que se contó,
no sigan allí sentados, 
pensando que ya paso.

No basta solo el recuerdo, 
el canto no bastara.
No basta solo el lamento, 
miremos la realidad.

Quizás mañana o pasado 
o bien en un tiempo,
la historia que han escuchado
de nuevo sucederá.

Es chile un país tan largo, 
mil cosas pueden pasar
si es que no nos preparamos, 
resueltos para luchar.

Tenemos razones puras, 
tenemos porque pelear,
tenemos las manos duras, 
tenemos porque ganar.

Unámonos como hermanos, 
que nadie nos vencerá.
Si quieren esclavizarnos, 
jamás lo podrán lograr!

La tierra será de todos, 
también será nuestro el mar,
justicia habrá para todos 
y habrá también libertad.

Luchemos por los derechos 
que todos deben tener.
Luchemos por lo que es nuestro, 
que nadie vas a ceder.

No hay que ser pobre, amigo, es peligroso. 
Ser pobre, amigo, es peligroso. 
No hay ni que hablar, amigo, es peligroso.
Hablar, amigo, es peligroso.

Unámonos como hermanos, 
que nadie nos vencerá.
Si quieren esclavizarnos, 
jamás lo podrán lograr!

La tierra será de todos, 
también será nuestro el mar,
justicia habrá para todos 
y habrá también libertad.

Luchemos por los derechos 
que todos deben tener,
luchemos por lo que es nuestro,
que nadie vas a de ser.

Unámonos como hermanos, 
que nadie nos vencerá.
Si quieren esclavizarnos, 
jamás lo podrán lograr!

La tierra será de todos, 
también será nuestro el mar,
justicia habrá para todos 
y habrá también libertad.

Luchemos por los derechos 
que todos deben tener,
luchemos por lo que es nuestro,
que nadie vas a de ser.

Unámonos como hermanos, 
que nadie nos vencerá.
Si quieren esclavizarnos, 
jamás lo podrán lograr!

Si quieren esclavizarnos, 
jamás lo podrán lograr!
si quieren esclavizarnos, 
jamás lo podrán lograr!
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