terça-feira, 14 de maio de 2013

ACORDA, REBELO! É HORA DE REMOVER O ENTULHO AUTORITÁRIO DA CBF!

Quem entende um mínimo que seja de futebol, está careca de saber que Ronaldinho Gaúcho é, atualmente, o melhor jogador brasileiro em atividade, aqui ou no exterior. 

Cérebro e maestro do Atlético Mineiro, faz dele um time que consegue, ao mesmo tempo, deslumbrar a torcida e ser extremamente competitivo; tanto que acaba de aplicar sonoras goleadas em adversários fortes como o São Paulo e Cruzeiro, além de criar um sem-número de oportunidades para ampliar o marcador. 

[Contra o tricolor paulista, p. ex., foram duas bolas no travessão e uma que o zagueiro Tolói tirou da linha de gol, de forma que caberia perfeitamente um 7x1]. 

Preterir o Gaúcho na convocação para a Copa das Confederações, é mais do que burrice ou teimosia; trata-se de um crime contra a arte futebolística. O técnico Felipão tenta repetir uma matreirice imunda que deu certo em  2002, excluindo o  grande craque  (Romário, daquela vez) e estimulando os demais atletas a unirem-se contra as críticas e desconfiança generalizada. Quer  fechar o grupo, sem perceber que o prazo de validade destas artimanhas imorais venceu faz muito tempo.

Menos mal que a seleçãozinha tem tudo para dar vexame na Copa das Confederações, livrando-nos do  pesadelo Felipão  antes da Copa do Mundo, aquela que realmente importa. 

O futebol brasileiro não é, nem de longe, o melhor do planeta na atualidade. Está muito atrás da Alemanha, da Espanha e (por causa do Messi) da Argentina.

Então, precisamos é de um técnico estrategista como o corinthiano Tite, que teve competência para dar um nó tático no afamado Rafael Benítez, tornando menos desequilibrada a partida contra o Chelsea no Mundial de Clubes. Mesmo assim, o único título importante do Brasil nos últimos tempos dependeu também --e muito!-- dos milagres do goleiro Cássio. 

Com o rústico, tacanho,  ultrapassado e  traíra  (*) Felipão, que vem perdendo sistematicamente das equipes e seleções que praticam o futebol moderno, a tendência é de, mais uma vez, não passarmos das quartas-de-final. Podem anotar.

ESPÍRITO DA ERA MÉDICI

Para finalizar: se (graças ao Romário, Juca Kfouri e Ivo Herzog) cair o presidente da CBF que foi lambe-botas de ditadores, cairá também o técnico autoritário que encara o futebol como uma guerra. 

O primeiro não tem mínimas condições éticas para ocupar cargo tão importante quando os olhos do mundo estarão voltados para o Brasil.

E o segundo, após ter sido o principal culpado pelo rebaixamento do Palmeiras no Brasileirão, estaria desempregado até hoje se o ladrão de medalhinhas não o tivesse  resgatado do ostracismo.

Para piorar, na hipótese improvável de  a moeda cair em pé, a vitória acabará beneficiando a turma do "ame-o ou deixe-o",  do "ninguém segura a juventude do Brasil".

Pois o espírito truculento e patrioteiro  da  era Médici  está entranhado até a medula em Felipão e Marin, embora só este último tenha se acumpliciado efetivamente com a ditadura dos generais. 

A última coisa de que precisamos é a exumação de conceitos fascistóides como o da "pátria em chuteiras", que levam água para o moinho da direita mais boçal e bestial.

Acorda, Rebelo! É hora de remover o entulho autoritário da CBF!

* no capítulo maucaratismo, vale lembrar que Scolari foi desleal com seu antecessor Mano Menezes, aceitando substitui-lo antes mesmo de ele ser demitido pela CBF; e com jogadores do Palmeiras, fazendo chegar às  maltas organizadas  os nomes de reais ou supostos baladeiros, para que fossem  colocados na linha. A segunda falseta vazou para o elenco palmeirense e causou tamanha revolta que Felipão não teve mais condições de dirigir o time, sendo obrigado a abandonar o barco quando já era concreta a possibilidade de queda para a série B.

IN MEMORIAN: LEONEL ITAUSSU ALMEIDA MELLO (1945-2013)

                                                             Por Osvaldo Coggiola,  historiador e economista

Leonel Itaussu Almeida Mello nasceu em Icém, interior de São Paulo. Tinha antepassados libaneses. Jovem, deslocou-se à capital para estudar, e se incorporou à (...) Aliança Libertadora Nacional. 

Foi preso pelo regime militar, torturado no Doi Codi, conheceu a chamada  cadeira do dragão. A tortura na boca com eletricidade lhe fez perder todas as obturações molares. Manteve sequelas físicas da tortura durante toda sua vida... 

Esteve na prisão durante dois anos, aproximadamente. Novamente livre, foi professor do cursinho da Equipe, a partir de 1974, e concluiu estudos de advocacia (e) de Ciências Sociais na (...) USP. 

Fez mestrado em Sociologia Política, e doutorado em Ciência Política. Era também pós-Doutor pela Universidade da Califórnia (Berkeley). Docente do Departamento de Ciência Política (FFLCH) da USP, eu o conheci nos debates sobre a unidade da FFLCH dos anos 1990, em que se destacou defendendo a unidade da faculdade, com a força intelectual e a fogosidade oratória que lhe eram características. Já era professor titular do Departamento de Ciência Política da USP, cargo obtido em concurso de concorrência acirrada.

Com Luiz César Amad Costa, seu colega de trabalho, de estudo, e grande amigo, escreveu textos didáticos de história moderna e contemporânea, de grande difusão. 

Dentre outros livros, publicou: Argentina e Brasil: A Balança de Poder No Cone Sul (São Paulo: Hucitec, 2012, última edição); Quem tem medo de Geopolítica? (São Paulo: Hucitec, 2012, última edição); A Geopolítica do Brasil e a Bacia do Prata (São Paulo: Hucitec, 2012, última edição). 

Entre a esposa Dea Conti e Antônio Roberto Espinosa
Não fez “carreira política”, não almejou cargos governamentais e parlamentares, carreira para o qual lhe sobravam fibra e condições intelectuais e não lhe faltavam oportunidades de todo tipo; preferiu dedicar-se à pesquisa e à docência na universidade pública, e à luta junto aos trabalhadores e os movimentos sociais desde essa posição. 

Era orador excepcional, dispensava microfones quando enfrentava auditórios, graças ao volume da sua voz e à sua forte personalidade. Prendia a atenção o público pela erudição e pela lógica contundente de suas argumentações, e enfrentava com elegância todos os debates políticos, nos quais ouvia com atenção e educação os argumentos contrários ou divergentes. Foi, por isso, presença indispensável nos congressos e simpósios que organizamos no Departamento de História da USP... 

Sua generosidade pessoal era ímpar. Se preocupava permanentemente pelo estado de saúde e bem-estar de seus amigos e colegas. Vivia em condições modestas, se deslocava em um Monza da década de 80, e quando da demissão de funcionários da USP por “delito” de greve, doou, durante um ano, parte de seu salário para esses trabalhadores que se encontravam sem proventos (não deixou que ninguém soubesse, mas agora eu digo). Foi delegado pela Adusp a vários congressos do Andes- Sindicato Nacional. 

Era membro permanente, e permanente participante dos debates, na Congregação da FFLCH-USP. Em uma de suas últimas aparições públicas, no ato-debate “Contra a destruição da Palestina” que coordenamos no Departamento de História (USP) em finais de 2012 por ocasião dos bombardeios israelenses contra a população civil de Gaza, fez questão, em que pesem suas precárias condições de saúde, de falar em pé... em homenagem ao homo erectus.

Apresentou nesse ato um texto-moção sobre o conflito no Oriente Médio, que foi adotado pelo Foro Social Mundial – Palestina, que nesse mesmo momento se reunia em Porto Alegre. 

Há pouco mais de 15 dias, quando de uma visita judicial ao meu domicílio devido a um problema banal (...), fez questão de permanecer comigo como testemunha (e eventual advogado), como meu amigo, e insisto em que sua saúde já não estava boa. 

Assim era Leonel. Generoso ao máximo, e dono de um humor cáustico, ao mesmo tempo em que de uma capacidade crítica, permanentes. Ninguém se aborrecia, ou se entediava por um minuto sequer, estando ao seu lado. Ninguém perdia o tempo escutando suas críticas ou conselhos.

Se interessava por tudo, e seus alunos e orientandos lembram e lembrarão sempre sua dedicação, atenção e, novamente, generosidade. Lutava por eles quando lhes faltava um prazo para concluir suas dissertações ou teses. Como membro de bancas de concurso público, não aceitava pressões e se guiava por uma objetividade absoluta baseada no mérito.

Esteve política e intelectualmente ativo até poucos dias (talvez até poucas horas) antes de sua internação final, com problemas respiratórios em um organismo já muito debilitado devido a doenças diversas e a uma vida vivida sem medo nem cálculos egoístas.

...Leonel foi um marxista, um revolucionário, no verdadeiro e amplo sentido da palavra. Membro de uma geração cheia de contradições e de impasses, mas cujos melhores representantes não vacilaram em apostar a vida nas suas convicções. E Leonel esteve entre eles. 

Esse é o homem que se foi domingo (05/05) pela madrugada, aos 67 anos de idade. Uma vida encurtada pelas apostas que ele fez na política, no ensino, no conhecimento, na militância, nos homens, nas mulheres, na vida. 

Todos os que hoje o choram (...) têm sobrados motivos de orgulho por tê-lo conhecido.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

UMA PERDA SENTIDA: GLÓRIA KREINZ

Só agora tomei conhecimento da morte da estimada companheira Glória Kreinz, que fiquei conhecendo e respeitando como colaboradora do blogue Sarau para todos, do qual eu também participava.

Era gente finíssima e, ao mesmo tempo que resistia bravamente ao câncer, amargava injustiças que sofria numa USP submetida à escalada autoritária tucana. 

Fará muita falta num ambiente acadêmico em que os melhores são perseguidos e intimidados, enquanto os piores obtêm vantagens imerecidas capitulando a reitores retrógrados e obscurantistas.

Como tributo à inesquecível Glória, reproduzo trechos de um belo e abrangente necrológio da Associação Brasileira de Divulgação Científica (chamando a atenção para a passagem que destaquei em vermelho, referente à grande mágoa que ela carregou para o túmulo):
"A divulgação científica está de luto. Após cinco anos de luta contra o câncer, faleceu na madrugada do dia 4 de maio de 2013, aos 69 anos, Glória Kreinz.
Secretária-geral da Abradic e coordenadora de pesquisa do Núcleo José Reis de Divulgação Científica da USP, Glória se graduou em Letras Neolatinas pela PUC de Campinas (da qual era professora titular) e em Jornalismo pela Faculdade Casper Líbero (em que também lecionou), com mestrado em Literatura Brasileira e doutorado em Ciências da Comunicação pela USP.
Foi a idealizadora da Coleção Divulgação Científica, série de livros iniciada em 1998 com A Espiral em Busca do Infinito, da qual foi a organizadora em todos os seus números (13 até o momento), doze dos quais ao lado do inesquecível Crodowaldo Pavan, grande cientista de nosso país, presidente da Abradic até falecer em 2009.
...Ao lado de Pavan e de Osmir Nunes, seu dileto esposo e colaborador, nas funções diretivas (...) foi a verdadeira líder do Núcleo José Reis – até que, em 2010, um golpe perpetrado por quem lhe era (apenas) hierarquicamente superior interrompeu as atividades de um dos mais importantes centros de incentivo à divulgação científica no Brasil.
Cumpriu, talvez como nenhum outro, o preceito de José Reis segundo o qual, tanto quanto a ciência em si, a própria divulgação científica deve ser divulgada. Quando assumiu a coordenação de pesquisa (e a real liderança) do NJR, nos anos 1990, poucos tinham noção do que seria divulgação científica. Hoje, o noticiário sobre ciência cresceu, atividades diversas de popularização do saber científico se tornaram mais frequentes e o termo “divulgação científica” é mais conhecido e propalado, inclusive nas redes sociais.
Sem iniciativas como as coleções de livros Divulgação Científica e Temas da Ciência Contemporânea (esta pela Abradic), as revistas eletrônicas Espiral e Vox Scientiae, os boletins impressos e eletrônicos do Núcleo José Reis e da Abradic, o Curso de Especialização em Divulgação Científica e o Congresso Internacional de Divulgação Científica de 2002 – todas ou idealizadas ou com grande participação de Glória Kreinz –, certamente a divulgação da ciência estaria ao menos um passo atrás do que se encontra atualmente.
Enxergava a divulgação científica de modo amplo e dinâmico, com interações perenes com outros campos do conhecimento, em especial a filosofia (tinha forte admiração por Sartre e dominava, como poucos, conceitos de autores como Derrida e Deleuze ou de escolas como a fenomenologia), e transitando com fluidez pelos diferentes meios de informação, dos mais tradicionais aos mais recentes e de mobilidade por vezes caótica.
Não se furtava à polêmica e ao enfrentamento, mas também era fervorosa amante da poesia, tanto escrevendo (é autora de Fogos na Noite, publicado em 1975 pela Casa do Autor) como admirando – nos últimos anos especialmente os poemas do enigmático Marcelo Roque, com quem mantinha grande amizade e foi coautora de dois livros.
Deixará saudades, mas sem dúvida permanecerá sempre como fonte de grande inspiração por seu espírito jovial e perenemente atuante, bem como por tudo que ensinou aos que com ela conviveram".

sexta-feira, 10 de maio de 2013

TORTURADOR À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS

Reduzir a pó de  traque a racionália falaciosa e performance colérica do torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra é tão fácil que, no meu caso, equivale a bater em bêbado. 

Então, não perderei muito tempo escrevendo uma  crônica do piti anunciado, que só serviria para dar destaque imerecido ao mafuá armado na Comissão da Verdade. 

Prefiro liquidar o assunto sucintamente:
  • Que a convocação do Ustra não lançaria luz nenhuma sobre assunto nenhum eram favas contadas. Como a presidente Dilma Rousseff, há alguns meses, cobrou da Comissão iniciativas que repercutissem mais na mídia, certamente o que se viu nesta 6ª feira (10/05) não passou de uma óbvia tentativa de atender a tal exigência de espetacularização --tanto que se tratou da primeira sessão do colegiado aberta ao público. Só que os crimes perpetrados por Ustra e seus cúmplices foram hediondos demais para que uma  tempestade de som e fúria significando nada  alivie minimamente nossa dor. Se não nos deram justiça, ao menos poupem-nos de farsas. 
  • Em meio à enxurrada de mentiras e asneiras, Ustra disse algo aproveitável: o Exército brasileiro e os generais ditadores foram mesmo os maiores culpados pelo festival de horrores para o qual ele concorreu como vil e servil instrumento. Considerada a correlação de forças do poder de então, um Delfim Netto, ao dar carta branca para o aparato repressivo (como signatário que foi do AI-5), teve responsabilidade muito maior nas carnificinas e atrocidades do que paus mandados como o Ustra, o Fleury e o Curió.
  • Foi pitoresco o Ustra negar a prática de torturas e, ao mesmo tempo, esquivar-se de responder se no DOI-Codi paulista, por ele comandado, existiam a  cadeira do dragão  e o  pau-de-arara. É claro que existiam! Ambos, aliás, me foram apresentados pelo tenente-coronel Waldyr Coelho, seu antecessor, quando por lá passei em abril de 1970. Como eu estivera muito próximo de um enfarte no dia anterior, cheguei do RJ com a recomendação de que não me torturassem em SP. Então, o frustrado comandante se limitou a me conduzir numa  turnê educativa  pelas dependências de sua filial do inferno, mostrando-me aquilo de que eu me safara por ser prisioneiro dos co-irmãos cariocas. Depois, sempre que pernoitava no DOI-Codi/SP após uma audiência nas auditorias do Exército, os gritos dos supliciados não me deixavam pregar o olho. Daí eu já ter comentado que só seria crível  a afirmação do Ustra, de desconhecer as torturas praticadas sob seu nariz, se ele apresentasse um atestado de surdez...
  • Há várias testemunhas, como o companheiro Ivan Seixas, de que o Ustra punha, sim, a mão na massa, participando pessoalmente das sevícias. Mas, no fundo, isto é secundário, em se tratando do comandante de um órgão sobre o qual pesam (durante sua gestão) mais de 500 denúncias de torturas e no qual pelo menos 50 prisioneiros indefesos foram covardemente executados. Os comandantes de Auschwitz e Buchenwald, tendo ou não assassinado eles próprios os presos, foram responsáveis por cada um dos exterminados nos respectivos campos de concentração. Eram bestas-feras; e o Ustra também.
  • A mais acachapante avaliação que alguém já fez de Ustra é a do ex-ministro da Justiça José Carlos Dias: "emporcalhou com o sangue de suas vítimas a farda que devera honrar". Ambos estiveram frente a frente na audiência da Comissão da Verdade e, como sempre, o  torturador símbolo do Brasil  foi incapaz de dar uma  resposta à altura, apesar das bravatas que vomita em livros e sites. Ele berra "lutei, lutei e lutei", mas vale muito pouco quando se trata de confrontar um homem em igualdade de condições.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

OS 12 TORCEDORES SEQUESTRADOS NA BOLÍVIA E A TIBIEZA BRASILEIRA

Eis uma informação da Folha de S. Paulo desta 4ª feira (08/05): 
"O grupo de deputados que trata da prisão dos 12 corintianos na Bolívia se reuniu ontem com representantes de três ministérios e com a OAB para discutir os avanços no caso. 'Os próximos 15 dias serão decisivos', diz Nelson Pellegrino (PT- -BA). O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, viaja à Bolívia na próxima semana para conversar sobre o tema com autoridades locais"
Eis o que escrevi há quase dois meses, no dia 11/03:
"...sendo um cidadão dotado de espírito de Justiça, considero ARBITRÁRIOINCONCEBÍVEL e INACEITÁVEL que, por conta do homicídio culposo cometido por UM torcedor, DOZE estejam presos há 20 DIAS... 
...Estão servindo de BODES EXPIATÓRIOS para as autoridades de lá, PRINCIPAIS CULPADAS PELO OCORRIDO, já que aquele apetrecho naval jamais poderia ter entrado na Bolívia nem no estádio. 
É melhor para elas que a ira popular esteja sendo direcionada contra os detidos e ninguém se lembre de perguntar por que não houve revista policial na fronteira e, sequer, na catraca.
Desde quando se admite o ingresso com ARMA numa competição esportiva?! Granadas também podem? E metralhadoras?
As autoridades de cá estão agindo com tibieza vergonhosa, ao não defenderem da forma mais enérgica BRASILEIROS FLAGRANTEMENTE INJUSTIÇADOS NOUTRO PAÍS.
Já passou da hora de mostrarem algum serviço, pois suas frouxas gestões não tiveram resultado prático nenhum e vêm sendo olimpicamente ignoradas pelos bolivianos".
Demorou demais para a ficha cair, se é que realmente caiu.

Vamos ver se, a partir de hoje, nossas autoridades deixam de agir com a TIBIEZA VERGONHOSA que vem caracterizando sua atuação no episódio.

Por enquanto mantenho tal avaliação, pois ela é mais do que merecida. Tenho certeza de que, se os injustiçados pertencessem à classe média ou à elite, as gestões brasileiras teriam sido incisivas e imediatas.

A Justiça boliviana está agindo de forma tão aberrante que já se justifica uma queixa à OEA.  É o caminho inescapável para o Brasil, caso o sequestro não cesse nos próximos "decisivos" 15 dias.  

quarta-feira, 1 de maio de 2013

PROLETÁRIOS DE TODOS OS PAÍSES...

Chicago, 1886: as jornadas de protesto que deram origem ao Dia do Trabalho.
O  Dia do Trabalho passou a ser data importante no calendário político brasileiro durante o getulismo. 

Era no 1º de maio que o ditador Vargas, seguindo as pegadas do fascista Mussolini, anunciava as medidas benéficas aos trabalhadores, que tinham o efeito colateral de satelizar o sindicalismo ao governo, reduzindo a  influência comunista nas fábricas.

Medidas como a instituição do salário-mínimo, seu reajuste anual, a redução da jornada de trabalho para oito horas, a promulgação das leis garantiram direito de férias e aposentadoria, etc.

Um 1º de maio  raivoso  foi o de 1968, quando os opositores moderados da ditadura (encabeçados pelo velho  partidão) convenceram o governador paulista Abreu Sodré de que ele seria bem recebido na manifestação dos trabalhadores na Praça da Sé. 

Os sindicalistas do ABC e de Osasco não concordaram e, quando Sua Excelência começou a discursar, uma nuvem de pedras voou em sua direção.

Com um filete de sangue escorrendo pela testa, Sodré escafedeu-se para a Catedral da Sé, sem o mínimo respeito pela dignidade do cargo (o presidente francês Charles De Gaulle, quando caçado pelos terríveis terroristas da OAS, mantinha-se imperturbável enquanto os disparos zuniam a seu lado, deixando a tarefa de salvá-lo inteiramente a cargo dos seguranças).

Veio o AI-5 e o terrorismo de estado inviabilizou as manifestações de protesto de trabalhadores até 1978, quando mais de 3 mil metalúrgicos de São Bernardo do Campo (SP) fizeram do 1º de maio uma comemoração do renascimento do movimento sindical independente.

Dois anos depois, já eram 100 mil os trabalhadores que se reuniam no estádio da Vila Euclides, para manifestar apoio aos diretores do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo que haviam sido presos por organizarem uma greve. Um deles se chamava Luiz Inácio da Silva.

Chocante é a perda de conteúdo e simbolismo do Dia do Trabalho, desde aquele longínquo 1º de maio de 1886, quando oito líderes trabalhistas de Chicago (EUA) organizaram manifestações de protesto contra os baixos salários e condições aviltantes, que incluíam jornadas de trabalho de até 17 horas diárias.

Eles foram presos, submetidos a julgamento sumário e enforcados, o que gerou enorme indignação no mundo inteiro e acabou consagrando essa data como o dia de luta dos trabalhadores.

O que mudou?

Primeiramente, claro, as características do processo produtivo. As enormes fábricas em que trabalhavam milhares de operários deixaram de existir, a mecanização atingiu um grau tal que muitas máquinas são operadas por pouquíssimos homens, o desemprego crônico se tornou uma guilhotina suspensa sobre a cabeça de quem ainda tem vaga (e, quiçá, carteira assinada), a terceirização se alastrou como uma praga que dissolve direitos e mina a solidariedade entre os iguais (pois eles passam a ver-se como competidores), as categorias enfraqueceram-se, os sindicatos passaram a ser quase irrelevantes.

O 1º de maio nasceu com o operariado industrial e esteve sempre tão identificado com ele que o esvaziamento de ambos se deu simultaneamente. É lamentável, entretanto, que os  dias de luto e de luta  não hajam deixado de existir por terem se tornado desnecessários.

Pelo contrário, “nunca antes neste país” (como costuma dizer o Lula) os trabalhadores viveram tão mal e com tanta insegurança.

A distância entre o lar respeitável e o colchão embaixo da ponte hoje é mínima, tanto em tempos normaiscomo quando as traquinagens dos grandes capitalistas colocam o mundo inteiro em recessão. Boa parte das garantias trabalhistas foi pro espaço e a  grande maioria da mão-de-obra está relegada à terceirização e à informalidade.

Quem quer manter-se à tona no nosso abominável mundo novo, é obrigado a longas jornadas de trabalho (cujas horas extras, no caso de quem ainda tem carteira assinada, dificilmente são pagas) e à reciclagem constante, obsessiva. Acaba mais vivendo para trabalhar do que trabalhando para viver.

O 1º de maio institucionalizou-se e definhou. As centrais sindicais só conseguem público para suas festas contratando artistas famosos e sorteando carros ou casas.

Mas, ainda há uma função a ser preenchida pelos dias de luto e de luta – na verdade, importantíssima, face ao caráter cada vez mais predatório e perverso assumido pelo capitalismo. Os trabalhadores das nações levadas à ruína pela  irracionalidade globalizada estão aprendendo isto na carne.

A História não terá fim enquanto o homem não levar a bom termo sua busca da felicidade. Então, para cada bandeira que tombar, outra deverá ser erguida.

É um desafio colocado para todos nós, neste século 21 que, em termos de lutas sociais e políticas, ainda engatinha...

...UNI-VOS!


De pé, ó vitimas da fome!
De pé, famélicos da terra!
Da idéia a chama já consome
A crosta bruta que a soterra.
Cortai o mal bem pelo fundo!
De pé, de pé, não mais senhores!
Se nada somos neste mundo,
Sejamos tudo, oh produtores!


Bem unidos façamos,
Nesta luta final,
Uma terra sem amos
A Internacional

Senhores, patrões, chefes supremos,
Nada esperamos de nenhum!
Sejamos nós que conquistemos
A terra mãe livre e comum!
Para não ter protestos vãos,
Para sair desse antro estreito,
Façamos nós por nossas mãos
Tudo o que a nós diz respeito!
Bem unidos façamos,
Nesta luta final,
Uma terra sem amos
A Internacional

Crime de rico a lei cobre,
O Estado esmaga o oprimido.
Não há direitos para o pobre,
Ao rico tudo é permitido.
À opressão não mais sujeitos!
Somos iguais todos os seres.
Não mais deveres sem direitos,
Não mais direitos sem deveres!

Bem unidos façamos,
Nesta luta final,
Uma terra sem amos
A Internacional

Abomináveis na grandeza,
Os reis da mina e da fornalha
Edificaram a riqueza
Sobre o suor de quem trabalha!
Todo o produto de quem sua
A corja rica o recolheu.
Querendo que ela o restitua,
O povo só quer o que é seu!
Bem unidos façamos,
Nesta luta final,
Uma terra sem amos
A Internacional

Nós fomos de fumo embriagados,
Paz entre nós, guerra aos senhores!
Façamos greve de soldados!
Somos irmãos, trabalhadores!
Se a raça vil, cheia de galas,
Nos quer à força canibais,
Logo verrá que as nossas balas
São para os nossos generais!

Bem unidos façamos,
Nesta luta final,
Uma terra sem amos
A Internacional

Pois somos do povo os ativos
Trabalhador forte e fecundo.
Pertence a Terra aos produtivos;
Ó parasitas deixai o mundo
Ó parasitas que te nutres
Do nosso sangue a gotejar,
Se nos faltarem os abutres
Não deixa o sol de fulgurar!
 


Bem unidos façamos,
Nesta luta final,
Uma terra sem amos
A Internacional

segunda-feira, 29 de abril de 2013

INESQUECÍVEL VANZOLINI!!!

Jô Soares já foi grande humorista, mas, como apresentador de  talk show, não chega nem aos pés do  Silveira Sampaio de meio século atrás. 

Não sei se isto advém de falta de competência ou do Jô se direcionar para um público intelectualmente muito inferior ao que SS atingia; ou seja, se ele é superficial por opção ou para satisfazer aos videotas. 

Mas, não suporto que jamais lhe ocorra a pergunta mais interessante e inteligente que teria para fazer ao entrevistado. Deixa-nos com aquela sensação  de que faltou tempero na comida...

Foi no SS Show que fiquei conhecendo o grande Paulo Vanzolini (1924-2013), mais uma perda doída de abril, mês que invariavelmente me evoca o pior  dia da mentira  da nossa História, quando perdemos a liberdade...

A entrevista ocorreu lá pelos meados dos anos 60 e foi ótima, como sempre. 

Fiquei surpreso ao saber que um eminente homem de ciências era autor de verdadeiras pérolas da MPB. Eu gostava, principalmente, de "Volta por cima", que chegara a tocar muito nas rádios (logo adiante, ela se completaria às mil maravilhas com a obra-prima de Glauber Rocha, O dragão da maldade contra o santo guerreiro, destacando um dos trechos culminantes do filme). 

Foi também adiante que fiquei conhecendo e gostando de outros clássicos de Vanzolini, como "Ronda", "Chorava no meio da rua", "Napoleão" e "Praça Clóvis". Além, claro, do "Samba erudito", que poderia até servir-lhe como cartão de visita musical: nenhum erudito conseguiu, jamais, soar tão espontâneo como sambista!

Mas, voltemos  àquele longínquo SS Show. Lá pelas tantas, Vanzolini contou a história da "Capoeira do Arnaldo". Ele costumava terminar suas noites na boate Jogral, do amigo e também compositor Luís Carlos Paraná. E foi desafiado por outro amigo, chamado Arnaldo, a criar uma música com utilização perfeita de jargão regional. De estalo, Vanzolini compôs sua inspiradíssima capoeira. 

Foi interpretada no programa do Silveira Sampaio por Luís Carlos Paraná, que estava acompanhando Vanzolini. Este, entretanto, ressalvou que, como a fizera para presentear  um amigo, não a disponibilizaria para lançamento em disco. Amei a música e detestei saber que nunca mais a escutaria de novo. 

Lá por 1973, contudo, ao passar por um  sebo  do centro da cidade, percebi, maravilhado, que a música tocada na vitrola era a "Capoeira do Arnaldo"! 

Ignorava que, certamente atendendo aos apelos gerais, Vanzolini acabara permitindo sua gravação. Comprei e toquei até o compacto ficar riscado.

De tanto ouvir, decorei a (longa) letra inteirinha. E em sentido figurado, não literal, sempre encarei a última estrofe  como um resumo da minha trajetória:
"Eu sai da minha terra
Por ter sina viageira
Cum dois meses de viagem
Eu vivi uma vida inteira
Sai bravo, cheguei manso
Macho da mesma maneira
Estrada foi boa mestra
Me deu lição verdadeira
Coragem num 'tá no grito
Nem riqueza na algibeira
E os pecado de domingo
Quem paga é segunda-feira" 
"Na boca da noite", parceria com Toquinho, é outra canção de beleza cristalina, que me tocou profundamente. Tinha tudo a ver com aquela época em que nossos amores eram necessariamente fugazes, mesmo porque não sabíamos que horrores poderiam nos atingir nas próximas horas. Embora não fosse esta a intenção de Vanzolini, foi o que então significou para mim esta pungente estrofe: 
"Gente da nossa estampa 
não pede juras nem faz, 
Ama e passa e não demonstra 
sua guerra, sua paz 
Quando o galo me chamou, 
eu parti sem olhar pra trás 
Porque, morena, eu sabia, 
se olhasse, não conseguia 
Sair dali nunca mais" 
Por último, quero deixar um registro sobre a importância de Vanzolini como zoólogo. Mas, como não é nem nunca será minha praia, pegarei uma carona num excelente artigo de Marcelo Leite, editor de Opinião da Folha de S. Paulo:
"A especialidade de Paulo Emílio Vanzolini, na sua identidade menos conhecida de pesquisador, eram cobras e lagartos. O afiado zoólogo foi um dos maiores herpetologistas do Brasil e teve participação direta em momentos cruciais da ciência nacional.
A pesquisa biológica, como um lagarto, caminha pela natureza impulsionada sobre dois pés por vez: teóricos e sistematizadores, de um lado, naturalistas e taxonomistas, de outro. Vanzolini serpenteava com destreza entre os dois campos, aliando como poucos as faculdades de observador detalhista e de generalizador arguto.
Na descrição de espécies de répteis e seus hábitos ecológicos, avançou sobre terreno quase virgem, aplicando com afinco a formação obtida na Faculdade de Medicina da USP e no doutorado na Universidade Harvard (EUA). Foi fundamental para o Museu de Zoologia da USP, que amou e dirigiu por muitos anos.
(...) Numa de suas incursões pelo rio Paraná, compôs com Antônio Xandó uma estrofe complementar para "Cuitelinho" (espécie de beija-flor), entoada por um pescador. Estão ali talvez os versos mais formosos de uma das mais bonitas melodias do cancioneiro nacional: "A tua saudade corta como aço de navalha / O coração fica aflito, bate uma, a outra falha / E os olhos se enchem d'água, que até a vista se atrapalha"".

segunda-feira, 15 de abril de 2013

SOU UM ANACRONISMO NA GELÉIA GERAL BRASILEIRA: UM HOMEM DE PRINCÍPIOS

Estive alguns dias fora do ar, suportando os transtornos de uma mudança de residência indesejável. 

Jamais perdoarei os responsáveis pelas aflições a que eu não deveria estar mais sujeito aos 62 anos, depois de uma vida inteira de lutas.

Vamos aos fatos.

Em outubro de 2001, com a companheira grávida e péssimas perspectivas financeiras pela frente, ingressei no programa de anistia federal, depois de resistir durante muito tempo à idéia de pleitear compensação pelo que fizera em nome de meus mais sagrados ideais.  Concluí, no entanto, que eu tinha o direito de sofrer por minhas convicções, mas não de, em nome delas, impor sofrimento aos meus entes queridos.

Tive de lutar muito e superar antigos preconceitos, inclusive esclarecendo qual havia sido o meu verdadeiro papel histórico, até começar a receber uma pensão vitalícia de vítima da ditadura com lesão permanente adquirida nas câmaras de tortura militares.

Além do pagamento mensal iniciado em janeiro/2006, a portaria do ministro da Justiça estabeleceu que eu fazia jus ao mesmo valor multiplicado pelo número de meses transcorridos entre a violação extrema dos meus direitos humanos e o primeiro ressarcimento por parte da União.

Trata-se da chamada indenização retroativa, cujo pagamento as normas da Comissão de Anistia estabelecem que seja efetuado num prazo de 60 dias.

O governo simplesmente ignorou tal obrigação, no meu caso e nos de todos os outros beneficiados, ao longo de 2006. Então, necessitando dessa quantia para pagar as dívidas acumuladas em dois anos de desemprego, reconstruir minha vida e arcar com as despesas acarretadas pelos muitos dependentes que possuo, resolvi buscar meu direito na Justiça.

Mal eu acabava de dar entrada no mandado de segurança nº 0022638-94-2007.3.00.0000, a União finalmente anunciou um plano para pagamento dos retroativos, só que em parcelas mensais a perderem-se de vista (teoricamente, o débito deverá ser zerado em 2014, mas quem garante que não vá haver nova prorrogação?).

Não querendo, por motivos políticos, alterar as normas do programa, o governo convidou os anistiados a abdicarem  voluntariamente  do seu direito ao recebimento total do retroativo em dois meses.

Quem, contudo, não se vergou à vontade do rei, passou a ser retaliado com o retardamento artificial dos trâmites, o recurso às mais ridículas manobras protelatórias por parte da Advocacia Geral da União e, talvez, articulações de bastidores (impossíveis de serem provadas, mas o primeiro ministro incumbido do meu processo no STJ foi o Luiz Fux, cuja rapidez em conceder liminar, seguida de um incompreensível recuo, me causaram estranheza, maior ainda depois de tomar conhecimento das acusações que o Zé Dirceu lhe faz...). 

O certo é que o julgamento do mérito da questão só se deu quatro anos depois que eu ingressei com a ação! E venci por 9x0, em fevereiro/2011.

Mesmo assim, novas filigranas jurídicas estão sendo utilizadas para retardar indefinidamente o cumprimento da decisão unânime e incontestável. A  vendetta  dos que têm muito poder, mas nenhuma razão, atinge duramente a mim e ricocheteia sobre meus dependentes.

Acabo de me mudar compulsoriamente para outro apartamento alugado, embora há muito devesse estar de posse dos recursos que me permitiriam adquirir minha morada definitiva.

E tive de fazer a mudança a toque de caixa, sob ameaça de iminente mandado de despejo, pois não pude negociar com o proprietário o reajuste por ele pretendido, sob uma Lei do Inquilinato que coloca o  direito  à ganância acima do Estatuto do Idoso e do Estatuto da Criança e do Adolescente.

Tudo é sempre muito difícil para mim, mas morrerei dando o exemplo de que devemos resistir com todas as nossas forças ao arbítrio (assumido ou maquilado), sem trocarmos as convicções por conveniências.

Sou um anacronismo na geléia geral brasileira: um homem de princípios. E muito padeço como consequência disto.

Atualmente, p. ex., esforço-me ao máximo para obter uma solução para minhas agruras sem fazer denúncias mais categóricas pela imprensa nem recorrer à rede mundial de defesa dos direitos humanos. Há muito poderia ter ido nessas direções, mas venho até agora evitando fornecer trunfos para os reacionários desqualificarem um programa digno, justo e necessário (apesar das distorções na sua implementação).

Há, no entanto, um limite para as atribulações que eu aceitarei impor aos meus dependentes. Repito: eles não merecem ser retaliados juntos comigo.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

O STRIP-TEASE MORAL DE JOSÉ MARIA MARIN

Ivo Herzog e Romário falem em nome da dignidade nacional, ao alertarem...
A  Folha de S. Paulo publica nesta 4ª feira o debate entre Ivo Herzog, filho do saudoso Vlado, e José Maria Marin, o mau-caráter que secundou um ataque feito na Assembléia Legislativa contra a "infiltração comunista" na TV Cultura. Os dois artigos podem ser acessados, na íntegra, aqui

Marin está certo ao dizer que a repressão ditatorial não precisava de tais estímulos para agir como agia.

É o que sempre afirmei: a operação contra os inofensivos e manjadíssimos esquerdistas da emissora estatal de São Paulo não passou de uma PROVOCAÇÃO

Em 1975, quando a paz dos cemitérios já fora imposta ao País, o ditador Geisel pretendia desativar o DOI-Codi que, além de haver-se tornado desnecessário, era um dos responsáveis pela péssima imagem do Brasil no exterior. Seus integrantes, no entanto, tudo faziam para não perderem as benesses de que desfrutavam --principalmente a divisão entre si do que apreendiam com os militantes e as gratificações recebidas de empresários canalhas.

...para o pesadelo de sermos representados
no Mundial por um filhote da ditadura...
Então, prendendo Vladimir Herzog e outros jornalistas com os quais até então não se haviam importado, os torturadores tencionavam produzir um dramalhão mexicano sobre o  imenso risco  que os paulistas estariam correndo ao ficarem expostos às  deletérias transmissões subversivas  da TV Cultura e sua  enorme  audiência... de, em média, 1%!

De quebra, acreditavam que, sendo o Vlado muito querido na USP, o movimento estudantil sairia às ruas para protestar, dando-lhes um argumento a mais para alegarem que seu infame trabalho ainda era imprescindível para a ditadura.

Quando o tiro saiu pela culatra e a morte de Herzog (um óbvio  acidente de trabalho: todos que éramos torturados com descargas elétricas estávamos sujeitos a enfartar, caso tivéssemos o menor problema cardíaco) provocou imensa indignação, um que apanhou as sobras foi o jornalista Cláudio Marques: no igualmente desimportante Diário Comércio & Indústria, ele fizera campanha contra "os comunistas" da TV Cultura. Execrado pelos colegas, desceu a ladeira tão rapidamente quanto subira.

O   Cláudio Marques 2  é José Maria Marin, em função do aparte que deu em apoio à diátribe anticomunista de outro puxa-saco dos militares, o deputado Wadih Helu; e também por haver, em discurso próprio, rasgado seda para uma das figuras mais infames dos  anos de chumbo, o delegado Sérgio Fleury, tocaieiro do Marighella.

Eu não considero Marques e Marin RESPONSÁVEIS FACTUAIS pelo assassinato do Vlado; mas, RESPONSÁVEIS MORAIS, INDISCUTIVELMENTE, AMBOS SÃO.

...que coonestava e aplaudia horrores
como o assassinato de Marighella.
Seria o mesmo que um jornalista e um parlamentar do III Reich virem a público pedir medidas contra os judeus. O fato de que Hitler já estava determinado a exterminá-los não eximiria tais personagens de terem se portado da forma mais abjeta possível.

Marin argui a própria insignificância como atenuante: "É sabido por todos que atuavam naqueles tempos que os deputados não tinham o menor poder sobre os órgãos de Estado".

Então, se não tinha poder real nenhum, por que ele se empenhou tanto em ser visto... como um vil dedoduro?! Ao invés de uma defesa, esta é uma agravante. Diz muito sobre o caráter dos cúmplices menores da ditadura, aqueles que surfavam na onda do totalitarismo apenas para colherem benefícios pessoais, indiferentes aos horrores que coonestavam.

Está certíssimo o Ivo Herzog: alguém com tal pequenez moral não pode, jamais, representar-nos no evento máximo do futebol mundial.

Portanto, subscrevo o parágrafo final do seu artigo e assino embaixo:
"Pensar em recompensar um desses personagens com a glória de ser o responsável por receber o mundo em nome do povo brasileiro na ocasião da Copa do Mundo é inaceitável. Intolerável. A Copa do Mundo é nossa. Não do Marin".
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