terça-feira, 29 de julho de 2014

VEJA QUANTOS FUROS HÁ NAS INVENCIONES DO REINALDO AZEVEDO CONTRA A DILMA

Não adianta se desculpar, a pisada na bola foi feia.
O Reinaldo Azevedo está na carreira errada. Deveria partir para a literatura, criando enredos de ficção ligeiramente inspirados em acontecimentos reais. Tem talento para isso, mas o desperdiça como propagandista da extrema-direta, tentando fazer suas invencionices serem levadas a sério e quase sempre resvalando para o mais absoluto ridículo.

Escrevendo sobre a sabatina presidencial, ele cravou no título que houve "três momentos patéticos" (vide íntegra aqui). Eis o segundo deles, com meus comentários de testemunha ocular da História em maiúsculas vermelhas:
"Dilma, sob o codinome Estella, foi a mentora de um roubo milionário. Em julho de 1969, três carros com 11 guerrilheiros da VAR-Palmares estacionam em frente à casa no bairro carioca de Santa Teresa, onde morava um irmão de Ana Capriglioni, notória amante do ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros. Lá, executando uma operação minuciosamente planejada por 'Estella', que não tomou parte na ação, a VAR-Palmares roubou um cofre de chumbo pesando 300kg, recheado com uma bolada de US$ 2,16 milhões.
DILMA NÃO FOI "MENTORA" NEM "MINUCIOSA PLANEJADORA", POIS TAL PAPEL COUBE AO JUAREZ GUIMARÃES DE BRITO, O MAIOR PLANEJADOR DE OPERAÇÕES DESTE TIPO DURANTE A LUTA ARMADA. ELE TINHA SIDO O CÉREBRO DO GRUPO TÁTICO DO COLINA E CONTINUOU SENDO-O DEPOIS QUE O COLINA SE FUNDIU À VPR, DANDO ORIGEM À VAR-PALMARES. 
Eis o real "mentor"
DILMA NÃO PARTICIPOU DA AÇÃO SIMPLESMENTE PORQUE SUAS FUNÇÕES NA ORGANIZAÇÃO ERAM POLÍTICAS, NADA TENDO A VER COM AS OPERAÇÕES ARMADAS (DAS QUAIS, POR QUESTÕES DE SEGURANÇA E ESPECIALIZAÇÃO, DESINCUMBIAM-SE OUTROS MILITANTES, SEMPRE OS MESMOS), AO CONTRÁRIO DO QUE CONSTA NA FICHA POLICIAL FAJUTA QUE A EXTREMA-DIREITA DISSEMINOU NA INTERNET PARA A CARACTERIZAR COMO "TERRORISTA/ASSALTANTE DE BANCOS". 
AS FANTASIAS MIRABOLANTES DO REINALDO AZEVEDO SÃO IDÊNTICAS ÀS DO TERNUMA: UTILITÁRIAS, E NÃO HISTÓRICAS.
"Pouco tempo depois, a VAR-Palmares se desintegra, por desentendimentos entre 'Estella' e Carlos Lamarca. A maior parte do grupo seguiu a agora presidente — na época, Cláudio, seu primeiro marido, partira para Cuba a bordo de um avião sequestrado, e Dilma já se enamorava de Carlos, o gaúcho da VAR-Palmares — com quem veio a se casar e com quem teve Paula, a única filha, hoje juíza do Trabalho em Porto Alegre — de quem se separou já depois da redemocratização.
A VAR-PALMARES RACHOU NO CONGRESSO DE TERESÓPOLIS (OUTUBRO DE 1969) COMO CONSEQUÊNCIA DO DESCONTAMENTO DOS CHAMADOS MILITARISTAS COM O QUE ACREDITAVAM SER UM DESVIO MASSISTA DOS MILITANTES ORIGINÁRIOS DO COLINA: NÃO ESTARIAM PRIORIZANDO DEVIDAMENTE A MONTAGEM DA COLUNA MÓVEL ESTRATÉGICA NEM AS AÇÕES DE PROPAGANDA ARMADA NAS CIDADES, POR ENTENDEREM SER NECESSÁRIA A MANUTENÇÃO DE ALGUNS ELOS COM OS MOVIMENTOS OPERÁRIO E ESTUDANTIL. 
OU SEJA, OS PRIMEIROS TINHAM EM MENTE UMA VANGUARDA QUE CUMPRIRIA ESTRITAMENTE AS AÇÕES ARMADAS DA RESISTÊNCIA, DEIXANDO AS OUTRAS TAREFAS PARA OUTROS GRUPOS, ENQUANTO OS SEGUNDOS QUERIAM UMA ORGANIZAÇÃO QUE MANTIVESSE ALGUM ENRAIZAMENTO NAS MASSAS.  
 Falsificações pululam 
A IDEIA DE DESFAZER A FUSÃO E RECRIAR A VPR PARTIU DE DOIS COMANDANTES ESTADUAIS DE SÃO PAULO, O JOSÉ RAIMUNDO DA COSTA E EU, TENDO COMO PLATAFORMA TEÓRICA UM DOCUMENTO-PROPOSTA DO LADISLAU DOWBOR INTITULADO "TESES DO JAMIL". 
NO CONGRESSO DE TERESÓPOLIS, OS VERDADEIROS PROTAGONISTAS DA RUPTURA FORAM O LAMARCA, PELO LADO DOS MILITARISTAS; E O CARLOS FRANKLIN PAIXÃO DE ARAÚJO E O ANTÔNIO ROBERTO ESPINOSA, PELOS MASSISTAS. OS TRÊS ERAM COMANDANTES NACIONAIS. O CASAL JUAREZ GUIMARÃES E MARIA DO CARMO BRITO, IGUALMENTE DE PRIMEIRO ESCALÃO, TENTAVA APAZIGUAR OS ÂNIMOS E MANTER A ORGANIZAÇÃO UNIDA. DILMA SECUNDAVA OS LÍDERES MASSISTAS E FOI NESTA CONDIÇÃO QUE CONTESTOU EM ALGUNS MOMENTOS O LAMARCA. 
NO FINAL, A VPR RECRIADA TEVE A ADESÃO DE ALGUNS QUADROS DE ORIGEM COLINA (COMO O CASAL BRITO) E NA VAR-PALMARES PERMANECERAM MILITANTES DE ORIGEM VPR (COMO O ESPINOSA). FOI ENTÃO QUE SE ABRIRAM VAGAS NO COMANDO NACIONAL DA VAR E A DILMA A ELE ASCENDEU.
"Parte do dinheiro — US$ 1 milhão — teria sido doada aos rebeldes argelinos. O resto teria sido usado para financiar a guerrilha. Seja como for, uma das guardiãs da grana era… Dilma! Virá daí a sua fixação por dinheiro em moeda sonante?."
PURO SAMBA DO CRIOULO DOIDO. TUDO LEVA A CRER QUE REINALDO AZEVEDO TENHA SE LEMBRADO VAGAMENTE DESTA ENTREVISTA DE MARIA DO CARMO BRITO, PUBLICADA EM O ESTADO DE S. PAULO.
TÃO OBCECADO ESTAVA EM ATACAR DILMA QUE TROCOU AS BOLAS, ATRIBUINDO-LHE O PAPEL QUE MARIA DO CARMO BRITO AFIRMA TER DESEMPENHADO (HÁ QUEM FAÇA RESTRIÇÕES À SUA VERSÃO), RELATIVO À PARTE DO DINHEIRO QUE FICOU COM A VPR, NÃO À PARTE DA VAR. O REINALDO AZEVEDO OUVIU O GALO CANTAR, MAS NÃO SABE ONDE...
FINALMENTE, O US$ 1 MILHÃO NÃO FOI DOADO AOS REBELDES ARGELINOS, MAS SIM COLOCADO SOB A GUARDA DELES, PARA DEVOLUÇÃO QUANDO FOSSE NECESSÁRIA.
Resumo da opereta: creio ter escancarado a tendenciosidade e absoluta falta de rigor histórico do Reinaldo Azevedo. Que continue acreditando nele quem quiser... ser manipulado!

segunda-feira, 28 de julho de 2014

SAIBA COMO É A VIDA NOS TERRITÓRIOS OCUPADOS POR ISRAEL...

...assistindo a este ótimo documentário de longa-metragem, co-produzido por palestinos, franceses, holandeses e israelenses: Cinco câmeras quebradas (d. Emad Burnat e Guy Davidi, 2011).  É legendado em português.

Além de haver concorrido ao Oscar de melhor documentário em 2013, teve participação marcante em outros festivais, sendo premiado inclusive pela Academia de Artes Cinematográficas de Israel (pois lá existem, sim, os que contestam as práticas arbitrárias e truculentas do governo direitista). Sua nota no site do IMDB é bem elevada: 7,9.

Morador de uma pequena aldeia da Cisjordânia (Emad Burnat, que interpreta a si mesmo no filme) compra uma câmara quando do nascimento do seu primeiro filho e vai registrando também imagens do que acontece com sua comunidade quando as terras começam a ser-lhe usurpadas à força para que nelas se instalem colonos israelenses.

Uma preciosidade que me teria passado despercebida se não fosse uma dica da companheira Lídia Maria de Melo, a quem agradeço. Recomendo enfaticamente.

A TRAGÉDIA DO ORIENTE MÉDIO

Era uma vez o Oeste: mocinho de branco e bandido de preto.
Os folhetins, o cinema e a TV nos acostumaram a observar os complexos dramas das pessoas, povos e nações a partir de uma ótica simplista: heróis-vilões-vítimas.

Ou, simplificando mais ainda, a acreditarmos que quem causa sofrimento às vítimas são os bandidos e quem as defende, os mocinhos.

No fundo, trata-se do velho e obtuso maniqueísmo, a que os pensadores marxistas contrapuseram a dialética: Bem e Mal não existem como instâncias metafísicas que, desde os píncaros do paraíso celestial ou das profundezas do inferno, teleguiam a práxis humana, mas sim como resultado das decisões e ações adotadas pelos homens em cada situação.

No primeiro caso, alguns encarnam o Bem absoluto e o Mal absoluto, sem nuances: os mocinhos são sempre mocinhos e os bandidos, eternamente bandidos.

Na análise marxista, os papéis vão sendo assumidos a cada instante, de forma que o mocinho de ontem poderá ser o bandido de hoje, e vice-versa.

A esquerda mundial até hoje não se recuperou do pesadelo stalinista, que, como Isaac Deutscher bem assinalou, foi um amálgama do pensamento sofisticado dos revolucionários europeus com a religiosidade primitiva da Santa Mãe Rússia.

A esquerda retrocedeu ao maniqueísmo
E a História, infelizmente, favoreceu essa perda de densidade crítica por parte da esquerda. O nazifascismo parecia mesmo encarnar o Mal absoluto, colocando os que o combatiam na condição de cruzados do Bem absoluto.

Veio a guerra fria e a estreiteza de visão se consolidou definitivamente, de ambos os lados. A política mundial se tornou um mero western daqueles tempos em que os mocinhos se vestiam sempre de branco e os bandidos só usavam trajes negros.

Então, desde a década de 1950, quando os EUA se colocaram como protetores de Israel e os soviéticos se compuseram com o líder egípcio Gamal Abdel Nasser, ficou estabelecido que a única forma progressista de encararmos os conflitos do Oriente Médio era beatificando os árabes e satanizando os judeus.

A questão no Oriente Médio é muito mais complexa.

Em primeiro lugar, temos um povo (o judeu) milenarmente perseguido, não só devido à maldade intrínseca dos poderosos de todos os tempos, mas também a uma certa vocação para o martírio: nunca quis misturar-se aos outros povos e conviver harmoniosamente com eles, fazendo, pelo contrário, questão de preservar sua identidade cultural/religiosa e de ostentá-la aos olhos de todos.

Então, mais do que a outros povos, fazia-lhe imensa falta um território próprio. Constituindo uma colônia minoritária em outros países e segregando-se rigidamente dos naturais desses países, neles despertava previsível hostilidade.

Ademais, os judeus eram invejados pelos gênios da cultura e da ciência que produziam (Marx, Freud, Einstein e tantos outros) e por seu êxito nas finanças, além de despertarem a hostilidade dos governos pela participação marcante que tinham em movimentos libertários/revolucionários.

É sintomático, aliás, que a esquerda hoje esqueça ou omita a importantíssima contribuição do Bund (União Judaica Trabalhista da Lituânia, Polônia e Rússia) para a gestação do movimento revolucionário russo, no início do século passado.

Gueto de Varsóvia: vítimas ontem, algozes hoje em Gaza. 
HOLOCAUSTO – Ao buscar um inimigo comum contra o qual unir a nação alemã, Hitler não precisou pensar muito: os judeus eram a opção óbvia.

Finda a II Guerra Mundial, a indignação que o Holocausto provocou na consciência civilizada fez com que a ideia de um lar para os judeus passasse a ser vista com simpatia generalizada.

Foi quando estes cometeram seu maior erro de todos os tempos: aceitando a liderança espúria de fundamentalistas religiosos/terroristas sanguinários, implantaram seu estado nacional numa região em que se chocariam necessariamente com outros fundamentalistas religiosos/terroristas sanguinários.

A Inglaterra, império decadente, bem que tentou impedir este desvario, em vão. E as pombas desnorteadas, judeus imbuídos dos melhores ideais, acabaram aderindo em massa ao projeto sinistro dos falcões.

Então, uma das experiências socialistas mais avançadas que a humanidade conheceu, a dos kibbutzim (comunidades coletivas voluntárias israelenses), acabou sendo tentada num país que logo viraria campo minado – e, melancolicamente, foi definhando, até quase nada diferir hoje em dia das cooperativas dos países capitalistas.

As nações árabes só não exterminaram até agora o estado judeu porque jamais o enfrentaram juntas e disciplinadas, sob um verdadeiro comando militar. Mesmo quando vários exércitos combateram Israel, como na guerra dos seis dias, atuaram praticamente como unidades independentes, em função das querelas e disputas de poder entre os reis, sheiks, sultões, califas, emires, etc., de países cuja organização política e social ainda é feudal.

Kibbutzim: os belos ideais se foram, o militarismo ficou.
Os israelenses, por enquanto, têm compensado sua inferioridade numérica com a superioridade de seus quadros e equipamentos militares, bem como com a repulsiva prática de promover massacres intimidatórios, reagindo de forma desproporcional e freqüentemente genocida aos ataques que sofre.

Os movimentos fundamentalistas/terroristas árabes agem como provocadores: sabem que jamais conseguirão enfrentar de igual para igual Israel, mas atraem retaliações contra seus povos, na esperança de que isto acabe trazendo as nações para o campo de batalha. Querem ser o estopim de uma guerra santa e não hesitam em sacrificar os seus em nome dos desígnios de Alá.

Os governantes feudais árabes, entretanto, têm mais medo de serem desalojados dos seus palácios do que ódio por Israel. Sabem que, da mobilização contra o inimigo externo, as massas podem evoluir para o questionamento da desigualdade gritante e dos privilégios odiosos dos tiranetes de seus países. Preferem preservar o status quo, ao preço de fecharem os olhos a atrocidades como as cometidas contra os palestinos em Gaza.

Não se trata de nenhum filme de mocinho-e-bandido, pois só há vilões entre os atores políticos; ninguém que mereça nossa simpatia e aplauso.

Hoje, é esta a 'contribuição' de Israel à humanidade...
Quanto às vítimas, estas sim são indiscutíveis: os civis que, desde 1948, têm sido abatidos como moscas, devido à cegueira e (sejamos francos) imoralidade monstruosa desses atores políticos.

No fundo, a solução sensata seria o estabelecimento dos judeus noutro território qualquer – quantos países paupérrimos não lhes cederiam terras e autonomia administrativa, em troca de recursos e cooperação para seu desenvolvimento?

Mas não é a sensatez que rege o mundo e sim, como Edgar Allan Poe notou, o horror e a fatalidade.

Então, os Hamas da vida seguirão semeando ventos e os israelenses desencadeando tempestades. E os civis que não estão em guerra com ninguém, inclusive velhos, mulheres e crianças, deverão continuar sendo os mais atingidos, para horror do mundo civilizado, até que surja um novo T. E. Lawrence e consiga levar à vitória a guerra santa sonhada pelos fundamentalistas/terroristas árabes.

Em sua arrogância míope, cada vez mais desumanizados, os israelenses esquecem a frase lapidar de Napoleão Bonaparte: "Com as baionetas pode-se fazer tudo, menos uma coisa: sentar-se sobre elas". Ao tornarem o estado judeu um bunker, predispuseram-no ao destino habitual dos bunkers. Mais dia, menos dia, acabam sendo tomados pelos inimigos. Quantos morrerão até lá?

O que temos no Oriente Médio é, portanto, uma tragédia: os acontecimentos marcham insensivelmente para o pior desfecho e nada podemos fazer, exceto atenuar, tanto quanto possível, os banhos de sangue.

QUEM MATA UM IRMÃO...
"Quem mata um irmão é jogado no fundo do mar. Vai 
embora, Antonio, e cruza os caminhos de fogo do 
mundo pedindo perdão pelos crimes que você cometeu!"

domingo, 27 de julho de 2014

FEDERAÇÃO ISRAELITA POSTA ANIMAÇÃO NO YOUTUBE PARA JUSTIFICAR MASSACRES

A Federação Israelita de São Paulo postou no Youtube um vídeo repulsivo (vocês podem assisti-lo na janelinha abaixo e/ou repassá-lo utilizando este link), no qual compara o estado judeu a um menino mais forte que um espertinho mais fraco provoca sem parar.

Aí, quando o forte dá um murro no fraco, este abre o maior berreiro e todos ficam indignados com o agressor. 

Tem lá sua graça, até porque atirar aviõezinhos de papel é mais ou menos o que o Hamas faz.

O final da animação, contudo, peca pela falta de verossimilhança: o simbolismo mais apropriado seria o forte não somente esmurrar o fraco, mas também o matar, esquartejar o cadáver, jogar gasolina, botar fogo e espalhar as cinzas. Aí, sim, se daria uma boa ideia do quanto a reação é desproporcional à ação.

E a mensagem dos patrocinadores, invocando o direito de defesa, esquece os números, que não mentem jamais: na atual temporada genocida, os óbitos palestinos já passam de mil, civis em sua grande maioria, enquanto Israel admite que 40 de seus soldados e dois civis foram mortos. A proporção macabra, desde o início da carnificina, gira em torno de 25 palestinos para cada israelense. Uma escola e um hospital já sofreram bombardeios de Israel.

Nem em comédias de humor negro os assassinos seriais alegam estarem se defendendo de suas vítimas.

BANCOS FAZEM TERRORISMO PARA NÃO DEVOLVEREM O QUE FOI SURRUPIADO DAS POUPANÇAS.

Sempre tive a humildade de reconhecer que não me é possível ser experto em todos os assuntos. Ainda mais agora que, impedido de atuar profissionalmente por preconceitos em relação a minhas idade e convicções, não tenho mais acesso às fontes de alto nível que tanto facilitam o trabalho da imprensa.

Então, para informar bem os meus leitores, só me resta recorrer, em alguns casos, a textos alheios --quando são daqueles que pegam no breu.

P. ex., o assunto principal da coluna do Elio Gaspari (foto acima) neste domingo, 27: o terrorismo praticado pelos bancos, por meio dos economistas e escribas que gravitam em sua órbita, com o deplorável apoio do BC, para evitar que os trabalhadores recebam o que lhes foi surrupiado no passado.

VEXAME, A BANCA NÃO SABE CONTAR

No final do ano passado, o Supremo Tribunal Federal esteve prestes a julgar o litígio dos poupadores das cadernetas de poupança que se sentiram lesados com a correção monetária de seus depósitos durante os planos econômicos fracassados do fim do século passado.

Com o apoio do Banco Central, a banca desencadeou uma operação de terrorismo político-financeiro, argumentando que se os depositantes prevalecessem, provocariam um desastre bíblico na economia nacional. Seriam R$ 150 bilhões, talvez R$ 180 bilhões, quem sabe, R$ 441 bilhões. Uma empresa de consultoria falou em R$ 600 bilhões.

Um manifesto assinado por Guido Mantega e cinco ex-ministros da Fazenda, inclusive aqueles que ajudaram a produzir a ruína da hiperinflação, foram na mesma linha. 

Um dos advogados da banca chegou a mandar uma carta ao ministro Ricardo Lewandowski prevendo que uma decisão a favor dos poupadores "lançará o país numa coorte de horrores que, sem exagero, irão do desemprego em massa à fome da população mergulhada nos sortilégios de uma crise econômica que afetará toda a nação." Os ilustres causídicos da banca, que já haviam tentado tenebrosas tentativas no escurinho de dois recessos do STF, conseguiram adiar para este ano o julgamento do caso.
Está difícil de ler? Clique no quadro para ampliar.

O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor sustentava que isso era um exagero e argumentava que esses mesmos bancos haviam provisionado apenas R$ 11 bilhões. Na conta do Credit Suisse o litígio custaria R$ 26,5 bilhões.

A Procuradoria-Geral da República informou que as contas catastrofistas estavam erradas. A cifra certa, para a PGR, está em R$ 21,9 bilhões. Em vez de aterrorizar o país com uma conta doida para não pagar coisa alguma, os bancos poderiam ter feito a conta certa, como fez o Credit Suisse. Afinal, eles a conheciam.

Ficará na história da banca brasileira o fato de terem inventado um apocalipse para ganhar um dinheirinho à custa da boa-fé do público e da sua capacidade de atemorizar os ministros do Supremo.

Tudo indica que o Supremo decide a questão ainda neste ano. (por Elio Gaspari, em artigo para a Folha de S. Paulo, O Globo e outros jornais)

sábado, 26 de julho de 2014

O QUE O FICHA SUJA DO FUTEBOL TEM, QUE O FICHA SUJA DA POLÍTICA NÃO TEM?

A Procuradoria Regional Eleitoral de SP impugnou a candidatura à releição do deputado federal Paulo Maluf por ele ser um ficha suja: as obras do túnel Ayrton Senna foram superfaturadas durante sua gestão como prefeito de Sampa (1993/1997).

A Confederação Brasileira de Futebol mantém Dunga como técnico do selecionado brasileiro apesar de ele ser um ficha suja: deu um chapéu de R$ 907 mil no Fisco e tentou safar-se alegando ter efetuado uma operação mirabolante que duas instâncias da Receita Federal já rechaçaram como fantasiosa. O Conselho Administrativo de Recursos Fiscais do Ministério da Fazenda, p. ex., rejeitou sua versão por considerar que existem indícios "veementes" de que Dunga está se valendo de operações financeiras inexistentes para pagar menos imposto (vide aqui).

Mas, ele não mentiu só ao leão. Também enganou a imprensa, ao jurar de pés juntos que não tinha atuado na intermediação da venda de um jogador em 2004; e a justiça gaúcha, ao jurar de pés juntos que não havia sido associado de um grupo internacional dedicado a este tipo de transação. Reportagem da ESPN (vide aqui) provou que, nas duas questões, o conto da carochinha mais afim dele não é o da Branca de Neve, mas sim o do boneco do Gepeto.

Finalmente, Dunga enganou o povo brasileiro, ao omitir o conflito de interesses que deveria tê-lo impedido de dirigir a Seleção Brasileira em 2006/2010. A mesma reportagem da ESPN sugere que fatores extracampo podem ter pesado na sua decisão de convocar Maicom para o Mundial 2010 da Fifa.

Last but not least, em agosto Dunga vai ser chamado para depor no inquérito da máfia dos ingressos (vide aqui), quando terá de explicar o porquê dos vários contatos por ele mantidos com o chefão e com um dos suspeitos de participar da quadrilha. 

Resumo da opereta: Maluf deverá ser impedido de disputar as eleições 2014, acertadamente; Dunga até agora não foi impedido de continuar à frente do selecionado brasileiro, aberrantemente. 

Que eu saiba, até agora só eu (vide aqui) e o Juca Kfouri (vide aqui) demos a devida importância ao fato de Dunga ter sido pego na mentira. Talvez porque ambos nos inspiremos em Brecht: "Não digam nunca 'isso é natural!' / Para que nada passe a ser imutável".

Afinal, o que o ficha suja do futebol tem, que o ficha suja da política não tem?

sexta-feira, 25 de julho de 2014

VEJA NO BLOGUE UMA DAS CULMINÂNCIAS DO CINEMA POLÍTICO MUNDIAL

Como o blogue do Mário Magalhães acaba de noticiar o lançamento em DVD de A batalha de Argel (d. Gillo Pontecorvo, 1966), resolvi dar uma verificada no Youtube, para ver se já o tinham disponibilizado com legendas. Bingo!

O filme rememora o movimento guerrilheiro que, embora sufocado a ferro e fogo pelos franceses (correram mundo as denúncias das brutais torturas ministradas pelos paraquedistas), acabou sendo o ponto de partida da independência argelina. 

Eis algumas considerações do mestre Pontecorvo (responsável por outras obras-primas, como Queimada! e Operação Ogro) sobre o filme para ver no blogue desta 6ª feira:
"Em A batalha de Argel trabalhei com o que chamo de  ditadura da verdade. Tudo que não parecia verdadeiro era imediatamente descartado. Os atores são gente do povo, argelinos interpretando os próprios papéis, com exceção do coronel francês, um ator profissional. Quando terminei o filme, sugeriram que eu deveria colocar um aviso dizendo que não havia utilizado uma única cena tirada de cinejornais. Foi o maior elogio que recebi. Filmamos muitas vezes imitando os cinejornais, com textura granulada. Sugeri ao meu fotógrafo o uso de um negativo que simulasse esse efeito. Queria cenas de cinejornal, granuladas, mas não medíocres como elas costumam ser".
Para os interessados em mais informações, recomendo a boa apresentação que o companheiro Magalhães fez do DVD (acesse aqui): 

quinta-feira, 24 de julho de 2014

PEGO NA MENTIRA, DUNGA TEM DE SER AFASTADO PELA CBF. JÁ!

Até onde ia esta viagem com Mohamadou Fofana?
No exato instante em que a CBF dava o pontapé inicial de mais uma Era Dunga, eu alertei que sua convocação para depor como testemunha no inquérito da máfia dos ingressos levava jeito de ser a ponta de um iceberg (veja texto integral aqui):  
"...a aterrorizante perspectiva de Dunga voltar a ser o técnico da nossa seleção (...) poderá ainda ser afastada caso se constate a prática de algum delito nos encontros que ele manteve recentemente com o franco-argelino Mohamadou Lamine Fofana, acusado pela Polícia Civil do RJ de chefiar a quadrilha internacional de venda ilegal de ingressos da Copa do Mundo.
...Falta ouvir parte do material de escuta telefônica e há a possibilidade de Fofana vir a colaborar com a Polícia em troca da delação premiada. Sabe-se lá o que ainda virá à tona".
Para Fofana, o fim da linha foi este.
Como cheguei a tal conclusão? Simples: se era só como testemunha que o delegado responsável pelo inquérito (Fábio Barucke) encarava Dunga, não fazia sentido ele acrescentar que o treinador estivera também em contato com outro investigado, o empresário de jogadores Luiz Vianna, por ele qualificado de "suspeito". 

Um recado estava sendo passado nas entrelinhas e a mim, jornalista veterano, não passou despercebido. Ou seja, mesmo não ousando acusar frontalmente Dunga neste estágio das investigações, Barucke insinuou que ele incorrera em ilegalidades.

Até então, tínhamos:
  • Gilmar Rinaldi, agente de jogadores, assume a coordenação-geral da CBF;
  • ele é o principal responsável pela exumação do técnico fracassado no selecionado brasileiro e fracassado no Internacional;
  • Dunga manteve contatos com o chefão da quadrilha de cambistas;
  • Dunga manteve contatos com um agente de jogadores suspeito de participação na mesma quadrilha e é amigo do também agente de jogadores, Gilmar Rinaldi.
ESPN comprova sua denúncia com farta documentação
O círculo se fecha agora com uma brilhante peça de jornalismo investigativo da ESPN: Documentos provam ação como agente que Dunga nega (acesse a íntegra aqui). 

O historiador e jornalista Lúcio de Castro, comentarista do Bate-Bola - 1ª edição, foi fundo na apuração de uma atividade que o técnico desenvolvia na surdina, tudo fazendo para a ocultar do distinto público:
"Dunga manteve por muitos anos um segredo bem guardado: a intermediação de transações em direitos econômicos de jogador de futebol. Quando foi questionado por esta reportagem sobre sua participação na venda do meia Ederson, em 2004, do RS Futebol Clube para o grupo Image Promotion Company (IPC), foi incisivo na negativa. Através da assessoria de imprensa da CBF, afirmou 'não ter participação alguma na venda dos direitos sobre o vínculo do referido jogador'.
Três documentos públicos, porém, mostram o contrário: uma nota fiscal da 'Dunga Empreendimentos, Promoções e Marketing ltda', com a comissão no valor de R$ 407.384,08; o recibo assinado pelo próprio Carlos Caetano Bledorn Verri, o Dunga; e o comprovante bancário de transferência do clube para a empresa do treinador, no valor discriminado na nota. Não é o único conflito de interesse com o cargo de comandante da seleção brasileira nessa história: as ligações com os agentes do IPC vão muito além do que um único negócio"".
Máfia dos ingressos: 'negócio' lucrativo, mas desastroso.
Está tudo na reportagem, preto no branco, inclusive as evidências de que Dunga mentiu à justiça gaúcha, ao negar que estivesse associado ao grupo IPC.

Nestes parágrafos da citada reportagem se percebe o quanto ele se envolveu com essa gente:
"Por trás do endereço do IPC, em Mônaco, estão mais revelações sobre as teias de relacionamento de Dunga. O investidor, para quem o treinador da seleção intermediou o atleta do RS Futebol Clube, encontra-se no mesmo endereço da World Champions Club (WCC), na Avenue Princesse Alice. A WCC é uma conhecida empresa de agenciamento no futebol. E entre os gestores está Antônio Caliendo, que representou o IPC na compra dos 75% de Ederson, onde Dunga ganhou comissão por intermediação...
...[No] site da WCC, [Dunga] é uma das estrelas e identificado como 'um dos nossos últimos clientes', ao lado de Ederson e Maicon, convocado por Dunga para a Copa do Mundo de 2010. Não apenas isso: onde consta a relação e fotos dos futebolistas pelos quais respondem pela gestão, Dunga aparece em foto recente e não de quando era jogador.
O inglês Queens Park Rangers também estrela o site. A WCC assumiu a gestão do QPR em 2004. Mesmo sem [alegadamente] 'ter vínculo com a empresa em questão', Dunga assumiu cargo no conselho de gestão do clube, formado por cinco membros. Por ser agente Fifa, Antonio Caliendo não podia figurar oficialmente entre tais conselheiros, e o técnico da seleção era seu rosto".
Enfim, foi como mais um feliz beneficiário das milionárias e frequentemente escusas transações de jogadores que Dunga estreitou os laços com Gilmar Rinaldi e Luiz Vianna. E se o último, como o delegado Barucke suspeita, fazia parte da máfia dos ingressos, não há como descartarmos a hipótese de que Dunga esteja também encalacrado.

Desde já, a CBF está obrigada a remover ele e Gilmar Rinaldi dos cargos que levianamente lhes ofereceu, por total falta de isenção para o desempenho das novas funções -no caso de Dunga, com o agravante de estar mentindo sobre sua real condição há pelo menos uma década, e de ter sido como mentiroso que comandou a seleção brasileira no Mundial de 2010. 

CHUTE NA VIRILHA DO BRASIL: PARA ISRAEL, A GENTE SOMOS IRRELEVANTE.

"A gente não sabemos
Nem escovar os dente
Tem gringo pensando
que nóis é indigente
Inútil
A gente somos inútil"
(Ultraje a Rigor)

O posicionamento digno que o governo brasileiro assumiu com relação à nova temporada de caça aos palestinos (civis, mulheres, velhos e crianças inclusos) foi respondido pela chancelaria israelense com um insulto: "Seu comportamento nesta questão ilustra a razão por que esse gigante econômico e cultural permanece politicamente irrelevante". 

Depois de apoiar, na reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU, a moção que determinou a investigação dos crimes e violações do direito internacional ora perpetrados por Israel em Gaza, o governo brasileiro manifestou seu inconformismo com os massacres, avaliando como "inaceitável" o "uso desproporcional da força". Além disto, convocou seu embaixador em Israel para consultas e chamou o seu congênere israelense para dar-lhe um pito.

Ou seja, foi firme mas se manteve nos limites diplomaticamente aceitáveis: reprovou ações momentâneas mas não emitiu juízos de valor sobre as características permanentes de um governo estrangeiro. Já Israel, como desordeiro de botequim, reagiu com um chute na virilha.

Parece que a proximidade das eleições está fazendo bem ao nosso governo e ao PT. Enquanto o primeiro não contemporizou com as retaliações sanguinárias de Israel, o partido se colocou ao lado das vítimas da escalada repressiva no RJ, repudiando "a grave violação de direitos e das liberdades democráticas" representada pelas prisões arbitrárias.

Faço votos de que este reencontro com as origens não seja fugaz e persista após o 26 de outubro.

Obs.: Depois que havia colocado este post no ar, recebi a notícia de que Israel bombardeou uma escola, matando 15 pessoas e ferindo 200. Também já havia atingido um hospital. Quando chegará a vez do asilo? 

AVES DE MAU AGOURO, OS TUCORVOS APOIAM A ESCALADA REPRESSIVA NO RJ.

Penas para todas as ocasiões: ora eles usam estas...
Nota do Partido da Social-Democradura Brasileira dá inteiro crédito às suspeitíssimas investigações da Polícia Civil do RJ e às fantasias mirabolantes com que a dita cuja tenta justificar a pior escalada repressiva deste País desde o fim do regime militar. 

Entre outras bobagens, afirma: "Não podemos compactuar com o crime e com grupos que usam a violência para tomar à força as ruas". 

Esquece de esclarecer se está se referindo aos mascarados ou aos fardados. Os últimos são muito mais violentos, com o agravante de que sua pancadaria desenfreada é custeada pelos impostos dos contribuintes.

Quanto aos autos de caça às bruxas que os tucanos erigem em verdade sagrada, a avaliação de um magistrado digno da sua toga foi bem diferente:  o desembargador Siro Darlan, da 7ª Camara Criminal do RJ, concedeu nesta 4ª feira (23) habeas corpus para os 23 perseguidos políticos do seu Estado, que poderão aguardar o julgamento em liberdade.
...ora estas.

Darlan considerou insuficiente a fundamentação do pedido de prisão preventiva, pois falta "contextualizar, em dados concretos, individuais e identificáveis nos autos do processo, a necessidade da segregação dos acusados, tendo em vista a existência de outras restrições menos onerosas".

E continuou ensinando o bê-a-bá aos alunos relapsos:
"Cabe considerar que a prisão cautelar é medida excepcional e deve ser decretada apenas quando devidamente amparada pelos requisitos legais, em observância ao princípio constitucional da presunção de inocência consagrado".
Ou seja, quando Aécio Neves estava quase conseguindo convencer os brasileiros de que representaria uma direita civilizada, eis que seu partido, muy amigo, desfez a ilusão. 

A nota repulsiva comprova que nada mudou. O PSDB continua representando aquela direita troglodita que presume sempre a culpa de quem estiver nas ruas manifestando suas opiniões, coloca tropas de choque nos campi universitários e barbariza os Pinheirinhos da vida.
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