quarta-feira, 1 de abril de 2015

PETIÇÃO EXIGE AFASTAMENTO DE JUÍZA POR "MANIFESTA TENDENCIOSIDADE CONTRA BATTISTI"

A juíza e sua vítima: "litigância de má fé".
Está no ar uma petição pública exigindo o afastamento da juíza Adverci de Abreu, da 20ª Vara da Justiça Federal, do processo por meio do qual se tenta deportar o escritor italiano Cesare Battisti, ao arrepio das decisões finais de um presidente da República e da mais alta corte brasileira. 

Como se trata de uma providência essencial para que Battisti não sofra novas injustiças e arbitrariedades, recomendo a todos os meus leitores que cliquem aqui e firmem o abaixo-assinado.

Eis os motivos que, segundo a petição, tornam imperativa a imediata substituição da juíza:
  • "manifesta parcialidade contra Battisti";
  • "notória politização das decisões jurídicas";
  • "sequestro camuflado de deportação";
  • "interpretação falaciosa da Lei de Estrangeiros",
  • "negação do direito de defesa";
  • "desconhecimento das decisões do STF"; e
  • "litigância de má fé".

DILMA VOLTOU AS COSTAS A SNOWDEN E CONTINUA SENDO ESPIONADA PELOS EUA

Ver concretizarem-se os meus maus augúrios nunca me serviu como compensação de coisa nenhuma. Quero mais é que meus alertas ajudem a evitar os desfechos decepcionantes para os quais os episódios se encaminham. Mas, como dizia o grande poeta Cacaso, "moda de viola não dá luz a cego".

Assim é que no final de 2013, quando Dilma reagiu pifiamente ao ultraje de estar sendo alvo da arapongagem do Grande Irmão do Norte, fui dos poucos a destoar do ufanismo chapa branca:
"...os EUA foram flagrados espionando a Petrobrás e até mesmo a nossa presidenta -a qual, para salvar sua imagem junto ao público interno, teve de ir à ONU posar de vítima indignada. 
Foi, falou, falou, falou e ninguém importante da parte criticada estava lá para ouvir e contestar, numa demonstração inequívoca de desprezo por Dilma e pelo Brasil.
O sapo não só foi engolido, como metamorfoseado em príncipe pela propaganda oficial. Ser olimpicamente ignorada pelo Império tinha de parecer um triunfo moral, para que a ninguém ocorresse cobrar-lhe uma resposta efetiva aos EUA, à altura dos insultos recebidos.
Mesmo assim, nova chance surgiu [quando Edward Snowden, em sua Carta aberta ao povo do Brasil, pela segunda vez pediu a nosso país que o acolhesse]. Em vão: a decisão está tomada e é a de não indispormo-nos com os donos do mundo por causa de um Snowden qualquer.
...Chocante é vermos a (...) postura de constrangedora vassalagem sendo adotada por quem um dia ousou pegar em armas contra a ditadura e o imperialismo!"
Assim, não me causou surpresa nenhuma a reportagem do The New York Times de dois meses atrás, segundo a qual os dirigentes do México e do Brasil continuam sob vigilância. Quem não se faz respeitar é mesmo tratado a pontapés.

Segundo fontes palacianas, Dilma ficou "fora de si" com a informação e voltou a exigir do Obama garantias de que será retirada da lista dos espionáveis. Valerão tanto quanto as anteriores...

Deveria é descarregar sua fúria sobre quem a aconselhou a voltar as costas a Snowden, que, ele sim, saberia protegê-la da bisbilhotagem de seus conterrâneos. Afora ter perdido uma ótima oportunidade para mostrar um mínimo de independência em relação aos EUA.

Se preferiu ir à ONU chover no molhado, azar dela.

DEPOIS DO BLACK POWER, O CORRUPT POWER?!

Este gesto é a saudação do Black Power e foi celebrizado por medalhistas negros estadunidenses na Olimpíada de 1968, no México. 

Pega bem para dignos VENCEDORES, não para o FRACASSADO presidente da Petrobrás em 2005/2012, quando um esquema criminoso saqueava implacavelmente a empresa, motivo de ela estar quase DESTRUÍDA nos dias de hoje.

Os negros tinham motivos de sobra para protestar, pois seus direitos civis e humanos eram estuprados o tempo todo pela elite branca, anglo-saxã e protestante. 

Já Sergio Gabrielli posar de vítima não passa de piada de mau gosto. Deveria estar é ajoelhado, pedindo perdão ao povo brasileiro por sua gestão desastrosa. No mínimo, foi guardião relapso do bem a ele confiado.

E este bem era, simplesmente, a maior empresa nacional! Que agora dá a impressão de haver sido devastada por uma praga de gafanhotos...

terça-feira, 31 de março de 2015

NO DIA QUE A LIBERDADE FOI-SE EMBORA

Eu tinha 13 anos em 31 de março de 1964.

Puxando pela memória, só consigo me lembrar de que a TV vendia o golpe de estado em grande estilo, insuflando tamanha euforia patrioteira que os cordeirinhos faziam fila para atender ao apelo "dê ouro para o bem do Brasil!".

Matronas iam orgulhosamente tirar suas alianças e oferecê-las aos salvadores da Pátria, torcendo para que as câmeras as estivessem focalizando naquele momento solene.

Desde muito cedo eu peguei bronca dessas situações em que a multidão se move segundo uma coreografia traçada por alguém acima dela, com cada pessoa tanto esforçando-se para representar bem seu papel... que acaba parecendo, isto sim, artificial e canhestra.

De paradas de 7 de setembro a procissões, eu não suportava a falsa uniformidade. Gostava de ver cada indivíduo sendo ele próprio, igual a todos e diferente de todos ao mesmo tempo.

E, na preparação do clima para a quartelada, houvera a Marcha da Família, com Deus, pela Liberdade. Aquelas senhoras embonecadas e aqueles senhores engravatados me pareceram sumamente ridículos.

Aqui cabe uma explicação: duas fortes influências me indispunham contra o patético desfile daquela classe média abasta(rda)da, que detestava tanto o comunismo quanto o samba, talvez porque fosse ruim da cabeça e doente do pé.

Minha família era kardecista e, quando eu tinha oito, nove anos, me levava num centro espírita cujo orador falava muito bem... e era exacerbadamente anticatólico.

A cada semana recriminava a riqueza e a falta de caridade da Igreja, contrastando-a com a miséria do seu rebanho. Cansava de repetir que Cristo expulsara os vendilhões do tempo, mas estes estavam todos encastelados no Vaticano.

Vai daí que, cabeça feita por esse devoto tardio do cristianismo das catacumbas, eu jamais poderia aplaudir um movimento de católicos opulentos.

E devorara a obra infantil de Monteiro Lobato inteira. Com ele aprendera a prezar a simplicidade, desprezando a ostentação e o luxo; a respeitar os sábios e artistas, de preferência aos ganhadores de dinheiro.

Mas, afora essa rejeição, digamos,  estética, eu não tinha opinião sobre a tal da  Redentora.

Escutava meu avô dizendo que, se viesse o comunismo, ele teria de dividir sua casa com uma família de baianos (o termo pejorativo com que os paulistas designavam os excluídos da época, predominantemente nordestinos).

Registrava a informação, que me parecia um tanto fantasiosa, mas não tinha certeza de que Vovô estivesse errado.

O certo é que os grandes acontecimentos nacionais me interessavam muito pouco, pois pertenciam à realidade ainda distante do mundo adulto.

Na canção em que Caetano descreveu sua partida de Santo Amaro da Purificação para tentar a sorte na cidade grande, ele disse que "no dia que eu vim-me embora/ não teve nada de mais", afora um detalhe prosaico: "senti apenas que a mala/ de couro que eu carregava/ embora estando forrada/ fedia, cheirava mal".

Da mesma forma, o dia que mudou todo meu futuro -- seja o 31 de março do calendário dos tiranos, seja o 1º de abril em que a mentira tomou conta da Nação -- não teve nada de mais.

Gostaria de poder afirmar que, logo no primeiro momento, percebi a tragédia que se abatera sobre nós: estávamos começando a carregar uma fedorenta mala sem alça, da qual não nos livraríamos por 21 longos anos.

Mas, seria abusar da licença poética e eu não minto, nem para tornar mais charmosas as minhas crônicas.

Os mentirosos eram os outros. Os fardados, as embonecadas e os engravatados.

COMO A COMISSÃO DA VERDADE DESMONTOU A FARSA DE QUE ZUZU ANGEL TERIA MORRIDO NUM ACIDENTE

Zuleika Angel Jones morreu no dia 14 de abril de 1976, às 3 horas, em acidente automobilístico na saída do túnel Dois Irmãos, na estrada da Gávea, no Rio de Janeiro. Tendo em vista as várias ameaças anônimas recebidas pela estilista, devido a sua insistente luta por informações do paradeiro de seu filho Stuart, logo surgiu a desconfiança de que o acidente teria sido provocado por agentes dos órgãos repressivos.

A versão divulgada à época foi a de que o carro de Zuleika Angel Jones, um Karman Ghia, teria saído da pista, colidido com a proteção do viaduto Mestre Manuel e capotado várias vezes em um barranco. A certidão de óbito, assinada pelo médico Higino de Carvalho Hércules, confirmou a versão do acidente e atestou como causa da morte uma 'fratura do crânio com hemorragia subdural e laceração cervical'.

Chegou-se a cogitar que a estilista tivesse ingerido bebida alcoólica e, por isso, perdido o controle do veículo. Essa possibilidade foi logo descartada após o exame toxicológico que atestou a ausência de álcool em seu sangue. Noticiavam, também, a fadiga da motorista, que poderia ter adormecido no volante, e problemas mecânicos, que poderiam ser a causa do acidente. Fatos que não se comprovaram.

Em 1996, com o intuito de apresentar um pedido de indenização à Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, a família de Zuleika Angel Jones solicitou o trabalho de Luís Fondebrider, da Equipe Argentina de Antropologia Forense, para analisar os restos mortais da estilista. O perito argentino apontou inconsistências na versão divulgada à época do acidente. Da mesma forma, a família apresentou declarações de Lourdes Lemos de Moraes, esposa do empresário Wilson Lemos de Moraes, que garantiu que o carro de Zuleika Angel Jones havia sido levado por seu marido, Wilson, para uma revisão completa, uma semana antes do acidente.

Também foi apresentado o depoimento de Marcos Pires, que teria visto o acidente da janela de seu apartamento, situação em que descreveu que dois carros estavam emparelhados na saída do túnel Dois Irmãos quando um dos automóveis chocou-se com outro, que seria o de Zuleika Angel Jones, provocando a colisão contra a proteção do viaduto e, logo em seguida, o carro despencou do barranco. 

A mesma testemunha também declarou que, surpreendentemente, em menos de cinco minutos do acidente, cinco carros da polícia já estariam presentes no local. A partir dessas informações, a CEMDP decidiu solicitar um parecer técnico dos peritos criminais do Instituto de Criminalística de São Paulo. Os profissionais contribuíram para desmontar a versão falsa da morte de Zuleika Angel Jones, da qual, inicialmente, descartaram a possibilidade de Zuzu ter dormido ao volante, já que 'a fratura do perônio (osso da perna) encontrada é típica de compressão transmitida pelo pedal de freio no momento do impacto'.

Com relação ao primeiro exame do local de acidente, afirmam que a versão apresentada para a dinâmica dos eventos é absolutamente inverossímil, pelas seguintes razões:

Primeiro porque um veículo jamais mudaria de direção abruptamente única e tão somente por conta do impacto de qualquer de suas rodagens contra o meio-fio, qual seria galgado facilmente, projetando-se o veículo pelo talude antes de chegar ao guarda-corpo do viaduto. 

Segundo porque, sendo o meio-fio direito da autoestrada perfeita e justamente alinhado como guarda-corpo do viaduto, mesmo que o veículo se desviasse à esquerda, tal como o sugerido pelo laudo, desviar-se-ia do guarda-corpo, podendo, se muito, chocar o extremo direito da dianteira. 

Terceiro porque, mesmo que se admitisse a trajetória retilínea final, nos nove metros consignados pelo laudo, tendo-se em conta que o veículo chocou a dianteira esquerda e que não havia mais nada à direita, a não ser a rampa inclinada da superfície do talude, teríamos que aceitar que as rodas do lado direito ficariam no ar e o veículo perfeitamente em nível até que batesse no guarda-corpo, o que, evidentemente, seria impossível.

As pesquisas realizadas no âmbito da Comissão Nacional da Verdade no acervo histórico do Arquivo Nacional revelaram inúmeros documentos sobre o intenso monitoramento de Zuzu Angel e de suas atividades, por parte dos órgãos de informações e repressão. Documento do Estado-Maior do Exército, no qual o adido militar brasileiro nos Estados Unidos recomenda que as viagens de Zuleika fossem monitoradas, para que 'elementos amigos pudessem acompanhar mais de perto os seus passos'.

Contudo, uma das principais informações recolhidas pela Comissão Nacional da Verdade sobre o caso de Zuzu Angel está no depoimento do ex-delegado do Departamento de Ordem Política e Social do Espírito Santo (Dops-ES), Cláudio Guerra, no qual o agente identificou a presença, em uma fotografia feita logo após o acidente, do coronel do Exército Freddie Perdigão Pereira, e afirmou ter ouvido do próprio Perdigão que ele havia participado do atentado que vitimou Zuleika Angel Jones. 

Diante disso, a CNV solicitou ao Ministério da Defesa e ao Comando do Exército uma fotografia do referido coronel, à época, para fins de comparação e perícia, mas o Comando do Exército alegou que nos acervos do Exército não existe qualquer tipo de registro fotográfico dos seus agentes. 
(transcrição literal e completa do tópico dedicado às circunstâncias 
da morte de Zuleika Angel Jones no relatório final 
da Comissão Nacional da Verdade)

APOLLO NATALI: "A ANGÉLICA DA PRAÇA DE MARÇO"

“Quem é essa mulher 
que canta sempre esse estribilho?
Só queria embalar meu filho 
que mora na escuridão do mar” 
(Chico Buarque)
Mais um março chegou e todo o março que chega reaviva o de 1964, de opressivas lembranças.

Até Chico Buarque lançar a canção “Angélica”, poucos conheciam a história que a memória deste março traz à tona, da mãe brasileira que teve seu filho torturado e morto pela ditadura de 64 e seu corpo jogado no mar.

Em 1971, em plena ditadura, o filho da estilista Zuzu Angel, Stuart Angel, militante do MR-8, já muito debilitado pelas torturas, foi amarrado à traseira de um jipe da Aeronáutica e arrastado com a boca colada ao cano de descarga do veículo. O corpo foi atirado no mar.

Zuzu Angel denunciou incansavelmente o assassinato e a ocultação do cadáver de Stuart. Invadiu tribunal militar e lá gritou valentemente sua revolta de mãe. Foi vítima fatal de um acidente automobilístico suspeito, em 1976.

Chico Buarque, amigo a quem ela escrevera carta levantando a possibilidade de ser também assassinada pelos militares, homenageou-a com “Angélica”, lançada em 1981, quando o Brasil começava a desmontar a engrenagem repressiva dos chamados anos de chumbo.

Quantas mães não puderam embalar seus filhos torturados e mortos pelos EUA e seus acumpliciados planeta afora? Tantas mães e filhos, tidos como obstáculos à marcha dos legionários americanos e seus cúmplices a varrer democracias do mapa e barrar tentativas de reformas sociais em favor dos oprimidos. Em troca do quê? Unicamente de deixar suas empresas firmemente no comando pelo mundo e garantir lucros e remessas para o exterior.

Foi num março, o de 1964, que começou a fascistização implacável do Brasil. Fascismo, teu nome é autismo social, indiferença aos clamores e direitos populares, enfermidade a se espalhar ainda hoje no sangue da nação. Passado meio século, este março de 2015 nos adverte que nossa democracia se chama restos mortais da ditadura.

A sensível homenagem de Chico Buarque à estilista...

A par da indignação e espanto com as torturas e mortes que todo março nos traz à memória, há uma lição a ser revista em todos os marços vindouros: entender que, em sua semeadura universal de ditaduras brutais e corruptas –em troca tão somente do lucro das empresas estadunidenses–, assassinos e torturadores com seus métodos não muito agradáveis eram sempre bem-vindos pelos EUA, como o foram, entre outros, no Brasil. Encontraram aqui terra fértil ao plantio do fascismo e aplicados aprendizes da tortura.

Quantos marços passarão até se aprender que terroristas são eles e não alguns poucos milhares de combatentes da liberdade, que lutaram contra o arbítrio por um ideal de justiça e por solidariedade para com os explorados e oprimidos –entre os quais Stuart Angel?
Autor: Apollo Natali 

Todo março é mês de se lembrar que em El Salvador e na Guatemala, não houve apenas matança comum. O principal componente lá foi a tortura brutal e sádica, batendo bebês contra pedras, pendurando mulheres pelos pés com os seios cortados e pele do rosto escalpelada, para sangrarem até a morte, ou cortando cabeças e colocando-as em estacas.

Quantos marços vão chegar até se aprender que o objetivo dos EUA, com suas carnificinas, foi sempre o de esmagar qualquer verdadeira democracia e sufocar o mais leve suspiro de liberdade, em troca de alguns trocados que nem chegam a beneficiar a sua própria população pobre e oprimida?

Mães brasileiras não fizeram panelaços nas praças de Março por seus filhos assassinados, como fizeram as mães argentinas na Plaza de Mayo. Na ditadura brasileira houve torturas e mortes mais estripadoras do que no caso de Stuart Angel.

Mas nenhuma outra mãe Zuzu gritou como ela, onde e por quê. As Zuzus do mundo queriam apenas embalar seus filhos e tirá-los da escuridão do mar. Como as próprias mães estadunidenses, que tiveram seus filhos mortos em guerras longínquas por pão e banana.

...e o filme dirigido por  Sérgio Rezende, completo.

segunda-feira, 30 de março de 2015

DEPORTAÇÃO DE BATTISTI: A ENTREVISTA DO PROCURADOR ARAS É OU NÃO A PONTA DE UM ICEBERG?

Battisti: interminável via crucis.
A rocambolesca ordem de detenção de Cesare Battisti (cumprida na tarde do último dia 12 e revogada sete horas depois), atropelou flagrantemente o rito legal, já que antes deveriam ser apreciadas as contestações judiciais já protocoladas e as muitas outras cabíveis contra a sentença de deportação proferida pela juíza de 1ª instância. A possibilidade de detenção só deveria entrar em pauta no final da batalha jurídica, depois de transpostas várias instâncias; ou seja, daqui a alguns anos.

Isto suscitou no advogado Igor Tamasauskas e nos apoiadores do escritor italiano, a partir de paralelos com episódios escabrosos de outros países, fortes suspeitas de que tivesse sido uma tentativa de sequestro relâmpago (como qualificou o professor universitário Carlos Lungarzo, que atua há décadas na defesa dos direitos humanos). 

O objetivo final seria o de criar-se um fato consumado: a entrega de Battisti à França, onde existe uma ordem de extradição pendente contra ele. Evidentemente, como o presidente da República e a mais alta corte brasileira proibiram a sua repatriação forçada, ficou automaticamente vedada qualquer triangulação para atingir-se o mesmo resultado por meio de tramoias e atalhos jurídicos.
Lungarzo: "sequestro relâmpago".

As suspeitas se robusteceram quando se soube de uma entrevista do procurador Vladimir Aras, publicadas neste site italiano

Eis como Lungarzo traduziu as declarações mais melindrosas de Arras:
"Existe uma longa história de colaboração entre a Itália e o Brasil. Em 1984, o Brasil extraditou Tomasso Buscetta e esta operação contribuiu muitíssimo para selar as relações entre os dois países. A ajuda do Brasil foi determinante para a Itália no processo de desmantelamento da Cosa Nostra [a Máfia siciliana].
[Indagado sobre o que deu errado no que pode ter sido uma tentativa de despacharem Cesare Battisti ilegalmente para a França] Acontece que não houve tempo. Foi só uma questão de tempo... 
...Um juiz federal [a juiza Adverci Rates Mendes de Abreu] decidiu que Battisti deveria ser expulso do Brasil porque, tendo sido condenado em última instância noutro país, não pode ter visto de residente permanente.
...o juiz [a juíza] ordenou a deportação de Battisti e, para dar execução imediata a esta decisão, o Ministério Público Federal requereu uma ordem cautelar para o fim de prender Battisti assim como, de fato, aconteceu, e escoltá-lo ao aeroporto para deportá-lo à França.
Procurador Aras: no mínimo, falou demais.

...enquanto eram feitos os procedimentos de documentação emergencial para a viagem, a defesa de Battisti decidiu recorrer ao Tribunal Regional Federal do Brasil, e o presidente do Tribunal suspendeu a decisão de primeiro grau da Justiça federal de Brasília [porque, justificou, 'a posição de Battisti não pode mais ser decidida num processo que trâmite na Justiça Federal, mas, apenas por uma decisão do presidente da República e do Supremo Tribunal Federal'].
Foi só um problema de tempo porque, se o Tribunal não houvesse suspendido a decisão, Battisti estaria hoje na França".
A informação foi passada para um veículo da grande imprensa, que está apurando o episódio.

Pesquisando no Google, encontrei o currículo do procurador: 
Vladimir Aras, soteropolitano, nascido em 1971, é mestre em Direito Público pela UFPE, professor assistente de Processo Penal na Universidade Federal da Bahia (Ufba), membro do Ministério Público Federal no cargo de procurador Regional da República, secretário de Cooperação Jurídica Internacional da PGR, membro do Grupo de Trabalho em Crime Organizado... 
Episódio nos trouxe más lembranças
Ele edita o Blog do Vlad e está no Twitter.

Não há post que aborde, especificamente, o episódio do último dia 12, mas, em vários outros, ele deixa transparecer muita hostilidade a Battisti. 

No mínimo, jamais deveria ter abordado com tamanha sem-cerimônia um assunto que, sendo ele o secretário de Cooperação Jurídica Internacional, tem algo a ver com suas incumbências na PGR. 

Mas, só mesmo uma investigação jornalística criteriosa esclarecerá se Aras esteve de alguma forma envolvido num complô ou, como muitos pavões que, diante de um microfone, tentam parecer mais importantes do que são, apenas elucubrou. 

O DIA DA MENTIRA MAIS ATROZ E A NOITE QUE DUROU 21 ANOS

"Morte vela, sentinela sou
do corpo desse meu irmão 
que já se foi.
Revejo nesta hora 
tudo que aprendi, 
memória não morrerá!

Longe, longe ouço essa voz
que o tempo não vai levar!"

(Fernando Brant e Milton 
Nascimento, "Sentinela")

Nesta 4ª feira, ao se completar mais um ano da pior mentira já socada goela dos brasileiros adentro -a quebra da normalidade institucional sob justificativas falaciosas, mergulhando o País nas trevas e barbárie durante mais de duas décadas-, é oportuno lembrarmos o que realmente foi a nada branda ditadura de 1964/85, ainda louvada por seus carrascos impunes, reverenciada por suas repulsivas viúvas e defendida pelos cuervos  que o totalitarismo criou.

Como frisou a bela canção de Milton Nascimento e Fernando Brant, cabe a nós, sobreviventes do pesadelo, o papel de sentinelas do corpo e do sacrifício dos nossos irmãos que já se foram, assegurando-nos de que a memória não morra – mas, pelo contrário, sirva de vacina contra novos surtos da infestação virulenta do despotismo.

Nessa efeméride negativa, o primeiro ponto a se destacar é que a quartelada de 1964 foi o coroamento de uma longa série de articulações e tentativas golpistas, nada tendo de espontânea nem sendo decorrente de situações conjunturais; estas foram apenas pretextos, não causa.


Há controvérsias sobre se a articulação da UDN com setores das Forças Armadas para derrubar o presidente Getúlio em 1954 desembocaria numa ditadura, caso o suicídio e a carta de Vargas não tivessem virado o jogo. Mas, é incontestável que a ultra-direita vinha há muito tempo tentando usurpar o poder.


Em novembro/1955, uma conspiração de políticos udenistas e militares extremistas tentou contestar o triunfo eleitoral de Juscelino Kubitscheck, mas foi derrotada graças, principalmente, à posição legalista que Teixeira Lott, o ministro da Guerra, assumiu. Um dos golpistas presos: o então tenente-coronel Golbery do Couto e Silva, que viria a ser o formulador da doutrina de Segurança Nacional e eminência parda do ditador Geisel.

Em fevereiro de 1956, duas semanas após a posse de JK, os militares já se insubordinavam contra o governo constitucional, na revolta de Jacareacanga.

Os oficiais da FAB repetiram a dose em outubro de 1959, com a também fracassada revolta de Aragarças.

E, em agosto de 1961, quando da renúncia de Jânio Quadros, as Forças Armadas vetaram a posse do vice-presidente João Goulart e iniciaram, juntamente com os conspiradores civis, a constituição de um governo ilegítimo, só voltando atrás diante da resistência do governador Leonel Brizola (RS) e do apoio por ele recebido do comandante do III Exército, gerando a ameaça de uma guerra civil.

Apesar das bravatas de Luiz Carlos Prestes e dos chamados grupos dos 11 brizolistas, inexistia em 1964 uma possibilidade real de revolução socialista. Não houve o alegado "contragolpe preventivo", mas, pura e simplesmente, um golpe para usurpação do poder, meticulosamente tramado e executado com apoio dos EUA, como hoje está mais do que comprovado. Derrubou-se um governo democraticamente constituído, fechou-se o Congresso Nacional, cassaram-se mandatos legítimos, extinguiram-se entidades da sociedade civil, prenderam-se e barbarizaram-se cidadãos.

A esquerda só voltou para valer às ruas em 1968, mas as manifestações de massa foram respondidas com o uso cada vez mais brutal da força, por parte de instâncias da ditadura e dos efetivos paramilitares que atuavam sem freios de nenhuma espécie, promovendo atentados e intimidações.

Até que, com a edição do dantesco AI-5 (que fez do Legislativo e o Judiciário Poderes-fantoches do Executivo, suprimindo os mais elementares direitos dos cidadãos), em dezembro de 1968, a resistência pacífica se tornou inviável. Foi quando a vanguarda armada, insignificante até então, ascendeu ao primeiro plano, acolhendo os militantes que antes se dedicavam aos movimentos de massa.

As organizações guerrilheiras conseguiram surpreender a ditadura no 1º semestre de 1969, mas já no 2º semestre as Forças Armadas começaram a levar vantagem no plano militar, introduzindo novos métodos repressivos e maximizando a prática da tortura, a partir de lições recebidas de oficiais estadunidenses.

Em 1970 os militares assumiram a dianteira também no plano político, aproveitando o boom econômico e a euforia da conquista do tricampeonato mundial de futebol, que lhes trouxeram o apoio da classe média.

Nos anos seguintes, com a guerrilha nos estertores, as Forças Armadas partiram para o extermínio premeditado dos militantes, que, mesmo quando capturados com vida, eram friamente executados.

A Casa da Morte de Petrópolis (RJ) e o assassinato sistemático dos combatentes do Araguaia estão entre as páginas mais vergonhosas da História brasileira – daí a obstinação dos carrascos envergonhados em darem sumiço nos restos mortais de suas vítimas, acrescentando ao genocídio a ocultação de cadáveres.

milagre brasileiro, fruto da reorganização econômica empreendida pelos ministros Roberto Campos e Octávio Gouveia de Bulhões, bem como de uma enxurrada de investimentos estadunidenses em 1970 (quando aqui entraram tantos dólares quanto nos 10 anos anteriores somados), teve vida curta e em 1974 a maré já virou, ficando muitas contas para as gerações seguintes pagarem.

As ciências, as artes e o pensamento eram cerceados por meio de censura, perseguições policiais e administrativas, pressões políticas e econômicas, bem como dos atentados e espancamentos praticados pelos grupos paramilitares consentidos pela ditadura.

Corrupção, havia tanta quanto agora, mas a imprensa era impedida de noticiar o que acontecia, p. ex., nos projetos faraônicos como a Transamazônica, Ferrovia do Aço, Itaipu e Paulipetro (muitos dos quais malograram).

A arrogância e impunidade com que agiam as forças de segurança causou muitas vítimas inocentes, como o motorista baleado em 1969 apenas por estar passando em alta velocidade diante de um quartel, na madrugada paulistana (o comandante da unidade ainda elogiou o recruta assassino, por ter cumprido fielmente as ordens recebidas!).

Longe de garantirem a segurança da população, os integrantes dos efetivos policiais chegavam até a acumpliciar-se com traficantes, executando seus rivais a pretexto de justiçar bandidos (Esquadrões da Morte).
O aparato repressivo criado para combater a guerrilha propiciava a seus integrantes uma situação privilegiadíssima. Não só recebiam de empresários direitistas vultosas recompensas por cada "subversivo" preso ou morto, como se apossavam de tudo que encontravam de valor com os resistentes. Acostumaram-se a um padrão de vida muito superior ao que sua remuneração normal lhes proporcionaria.

Daí terem resistido encarniçadamente à disposição do ditador Geisel, de desmontar essa engrenagem de terrorismo de estado, no momento em que ela se tornou desnecessária. Mataram pessoas inofensivas como Vladimir Herzog, promoveram atentados contra pessoas e instituições (inclusive o do Riocentro, que, se não tivesse falhado, provocaria um morticínio em larga escala) e chegaram a conspirar contra o próprio Geisel, que foi obrigado a destituir sucessivamente o comandante do II Exército e o ministro do Exército.

A ditadura terminou melancolicamente em 1985, com a economia marcando passo e os cidadãos fartos do autoritarismo sufocante. Seu último espasmo foi frustrar a vontade popular, negando aos brasileiros o direito de elegerem livremente o presidente da República, ao conseguir evitar a aprovação da emenda das diretas-já.

Foi responsável pela morte de 827 opositores assumidos (os 457 que a Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos listou, mais os 370 posteriormente identificados num estudo sobre a repressão política no campo), por um sem-número de genocídios indígenas, pela prisão arbitrária de uns 50 mil brasileiros e pela tortura de, no mínimo, 20 mil cidadãos.

Balanço que pulveriza de vez a falácia de uma quimérica brandura...

sábado, 28 de março de 2015

A MÁ NOTÍCIA É QUE O PIB ESTAGNOU EM 2014. A PIOR NOTÍCIA É QUE 2015 COMEÇA COM "FORTE DESACELERADA".

Pouco importa se o PIB brasileiro cresceu 0,1% em 2014, como sustenta o IBGE, ou recuou isto ou mais, como percebem as ruas. 

O certo é que, no caso de um país pobre como o nosso, não crescer no mínimo 4% já equivale a encolher, à medida que novos contingentes chegam ao mercado de trabalho e não encontram empregos à sua espera.

As pressões sociais aumentam em progressão geométrica e, se o quadro negativo perdura por alguns anos, as ruas explodem. É simples assim.

Admissão oficial e manipulação de dados à parte, a verdade nua e crua é que o Brasil está em recessão desde o ano passado. E a coisa, infelizmente, vai piorar.

Não porque o derrotista que vos escreve esteja sempre torcendo pelo pior, mas porque o próprio Chicago boy incumbido da gestão da economia no governo de Dilma Thatcher (ou será Margaret Rousseff?) admite explicitamente que estamos passando por uma "forte desacelerada" neste começo de ano. 

Cara de uma...
No burocratês típico dos que não querem ser bem compreendidos pelo cidadão comum, Joaquim Levy atribui o agravamento da recessão ora à existência de "uma série de questões" pendentes no final de 2014, ora à "incerteza que havia na virada do ano". Os dois eufemismos apontam na mesma direção: estava pendente a substituição do morto-vivo Guido Mantega e a incerteza do mercado era quanto ao perfil do seu substituto. 

Bem, para dar fim à era da incerteza, Dilma procurou, procurou, procurou, até encontrar um sacerdote do culto neoliberal disposto a assumir o Ministério da Fazenda. Teve de se contentar com um do baixo clero. Antes, outro mais ilustre respondera ao convite dando a entender que mais valia ocupar uma posição de destaque no Bradesco (trata-se, aliás, de uma avaliação corrente nas altas rodas). 

Quando lhe caiu a ficha de que não conseguiria aliciar um discípulo de Milton Friedman mais categorizado, Dilma bateu o martelo: "Vai Levy mesmo!".   

...focinho da outra.
Agora temos um ministro no qual os exploradores confiam plenamente e do qual os explorados desconfiam totalmente. Então, é de supor-se que, doravante, os investimentos produtivos sejam retomados e a geração de empregos recomece a crescer, para em breve sairmos da recessão. É o que se depreende da mal disfarçada ode a si mesmo do Levy.

Se a pajelança ortodoxa não resultar, o tranco que tomaremos será muito maior do que tenta nos fazer crer a vã retórica do Joaquim.

Eu apostaria em que logo toparemos com filas quilométricas em locais de distribuição da sopa dos pobres, como acontecia durante a grande depressão dos anos 30.

sexta-feira, 27 de março de 2015

A GRAÇAS ESTAVA TÃO SEM GRAÇA NA CPI QUE DEU PENA...

"A Petrobrás merecia um gestor muito melhor do que eu"
Trabalhei com Antonio De Salvo, um dos pioneiros das Relações Públicas no Brasil. Ele aconselhava os seus clientes a, quando aparecesse na mídia uma acusação totalmente injusta contra eles, lutarem até o fim para o esclarecimento dos fatos. Mas, se a acusação tivesse um pingo de verdade, o melhor era admitirem-na rapida e sucintamente, pedirem desculpas, pagarem indenizações, tomarem medidas para reparar o malfeito, etc.

Porque, explicava ele, quando alguém está em posição falsa mas se recusa a admitir o erro, os repórteres ficam escarafunchando o caso até encontrarem motivos para colocar tal pessoa no pelourinho da opinião pública. O episódio repercutiria muito mais e o que se tentava esconder acabaria aparecendo e determinando um desfecho desastroso. 

Ainda que a mentira ou falha descoberta tivesse sido de pequena monta, seria suficiente para os leitores suspeitarem da existência de muito mais podres por baixo do pano, "cesteiro que faz um cesto, faz um cento".
"Mea culpa  desarma acusadores" 

mea culpa desarma os acusadores, que se retiram comemorando vitória e vão procurar outros alvos.

Foi melancólico o depoimento da ex-presidente da empresa, Maria das Graças Foster, à CPI da Petrobrás, confessando-se "envergonhada" da roubalheira que veio à tona nos últimos tempos. Eis algumas frases:
"Eu entrei aqui nas outras CPIs, em audiências, com muito mais coragem do que entro hoje aqui. [Porque] poderiam ter todas as suspeitas mas não tinha os fatos que estão aí, para serem apurados, evidentemente. Eu tenho realmente um constrangimento muito grande por tudo isso, de olhar pra vocês... 
"Gostaria que tudo isso fosse mentira e que não tivesse tido propina alguma...
"A Petrobrás merecia um gestor muito melhor do que eu, eu não tenho a menor dúvida disso".
Deixou a impressão de ser uma mulher digna, que desempenhou um mau papel para ser leal a outrem e hoje se arrepende amargamente disto. Foi ingenuidade dela supor que não acabaria sendo acuada pelas descobertas da Operação Lava Jato. Agora que foi para a rua da amargura e o castelo de cartas desabou, sua sensação deve ser a de quem sofreu perda total.
Coragem de fazer o certo

Assim como no caso de José Genoíno, eu botaria a mão no fogo quanto a Graças não haver tirado proveito pessoal do esquema de corrupção. Deu pena ver um preso e a outra com a reputação em frangalhos por preferirem errar junto com o grupo do que assumir individualmente uma posição correta.

Quem riu por último foi o Paulo de Tarso Venceslau, que, colocado na mesma situação (vide aqui), recusou-se a fechar os olhos às falcatruas. Foi expulso do PT, mas saiu com a dignidade intacta e o moral elevadíssimo. 

Agora, se quiser, poderá atirar na cara dos dirigentes petistas que os alertou da existência de um ovo de serpente sendo incubado pelo partido, em tempo hábil para evitarem que o mal crescesse. Os que optaram pelo acobertamento em 1988 são os culpados pelo atual infortúnio de Graças e Genoíno, pela destruição da Petrobrás e pela desmoralização do PT.
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