domingo, 23 de novembro de 2014

A BANDA DE PÍFIOS DE CARUARU E A LENDA VIVA OSCAR SCHMIDT

Oscar Schmidt é, simplesmente, o melhor jogador do basquete mundial em todos os tempos, o recordista absoluto de pontuação (49.703 pontos), o jogador de bola-ao-cesto que mais participou de Olimpíadas (5) e o que nelas mais pontos marcou (1.093). 

E mais: o atleta que lavou a alma de todos nós, brasileiros, nos Jogos Panamericanos de Indianápolis, EUA, em 1987. 

Os estadunidenses se julgavam senhores absolutos do basquete e não levavam a sério o adversário da finalíssima: nós. Tanto que uma jogadora da equipe feminina, depois de sagrar-se campeã no jogo inicial, pendurou sua medalha no pescoço do namorado, integrante da seleção masculina. Sem maldade; é que a vitória era dada como favas contadas, a ponto de ela nem sequer perceber quão arrogante e anti-esportivo havia sido seu gesto.

No primeiro tempo, eles chegaram a colocar 20 pontos na nossa frente, mas foram para o intervalo com uma vantagem um pouco menor: 14.

Oscar voltou do vestiário com incrível disposição, empolgando os companheiros. E passou a ter um aproveitamento fantástico nos arremessos de fora do garrafão. Fez jus ao apelido de mão santa.

Os estadunidenses, até então, não davam muita importância à novidade de os arremates de longe terem passado a valer três pontos, ao invés de dois. Estavam acostumados a articular tão bem suas jogadas que acabavam quase sempre finalizando de perto -e convertendo. Para que arriscar de longe, com risco bem maior de errar?

A incrível derrota diante do Brasil, por 120 x 115, os fez reconsiderar este conceito. Por obra e graça do Oscar, o brasileiro que deu uma aula de basquete na terra dos Harlem Globetrotters.

Como extraordinário esportista e como homem exemplar, ele fez por merecer nosso irrestrito respeito e a nossa mais humilde gratidão. 

Assim não pensaram, no entanto, alguns alunos de uma faculdade particular do Agreste de Pernambuco, que abriram o maior berreiro virtual por causa dos maus modos do jogador ao ministrar uma palestra. Como se seus egos chamuscados fossem tudo que importasse e uma trajetória grandiosa tivesse passado a significar nada.

Sentirão vergonha de sua pequenez, ao saberem agora o verdadeiro motivo do comportamento de Oscar? Duvido. A única imagem que importa para os mimadinhos da vida é aquela que eles veem no espelho.

Eis o outro lado da história, apresentado pelo jornalista esportivo Milton Neves:

"Sim, ele foi mal em Caruaru, decepcionando os pernambucanos.

Mas não foi de caso pensado.

Quem não sabe, graças a Deus, o que é ter um tumor maligno no cérebro, que atire tantas pedras neste bom homem, hoje atormentado e talvez condenado.

Meu saudoso avô materno, Luis Carlos Fernandes, ferroviário da Mogiana em Muzambinho-MG, morreu no Rio não resistindo a uma operação para retirada de tumor no cérebro.

Era um homem doce, mas se transformava com terríveis dores de cabeça.

Tanto que atirou um paralelepípedo em um galo do Sítio Invernada só porque o dono do terreiro cantou bem alto perto dele, um homem doente, com o fatal tumor na cabeça.

Calma com o Oscar, gente, o gigante nasceu no Rio Grande do Norte para ajudar o Brasil inteiro.

E como nos deu alegrias, hein?

Mas, hoje, ele não é mais dono de si ou de seus desatinos.

E nem de seu destino".

Obs.: o nome do ótimo conjunto de música instrumental da cidade é, claro, Banda de Pífanos de Caruaru. Mas, foram mesmo pífios os que se mostraram tão alheios e indiferentes à via crucis do Oscar.

UM RETROCESSO CHAMADO KÁTIA ABREU

Jânio de Freitas é um jornalista veterano (82 anos) que, após passar pela revista Manchete e pelo Jornal do Brasil (RJ), integrou uma equipe de redação lendária do Correio da Manhã (RJ) nos anos 60. 

Passou depois pela Última Hora (RJ) e pelo Jornal dos Sports, ingressando na Folha de S. Paulo em 1980. Sua coluna política, lançada em 1983, subsiste até hoje.

Não esconde sua simpatia pelo Partido dos Trabalhadores, mas é um profissional honesto, à moda antiga: não deixa de bater pesado no PT, quando o partido faz opções incoerentes com seus valores e sua história, como a anunciada transformação do Ministério da Agricultura em Ministério da Promoção do Agronegócio Predatório (pois esta será, na prática, a consequência de ter a ruralista Kátia Abreu como à sua frente).

Eis o que Jânio disse --e eu assino embaixo-- em sua coluna dominical, cuja íntegra pode ser acessada aqui

"...a apontada indicação da senadora Kátia Abreu para a Agricultura sugere, ou confirma, uma disposição incomum de Dilma Rousseff para incrementar problemas com as correntes não conservadoras. A senadora exerce com muita competência a liderança do agronegócio e dos grandes proprietários de terra. Mas nem todos os interesses que defende coincidem com o que deveriam ser objetivos do governo, de todo governo.

Dilma Rousseff entra no segundo mandato devendo muito para reparar os desempenhos deploráveis do seu governo em três capítulos da desgraça nacional: 
  • o problema indígena, sem as demarcações territoriais devidas e com o genocídio em progressão; 
  • a questão fundiária em geral, com imensos territórios tomados e explorados; 
  • e, ainda e sempre, a reforma agrária, pendente de correções e de avanços. Três assuntos em que o responsável pela Agricultura tem deveres e poderes muito grandes. 
Três assuntos em que os interesses representados pela senadora Kátia Abreu conflitam, em todos os sentidos desta palavra, com as vítimas e com as obrigações e as dívidas administrativas e sociais do governo Dilma.
O primeiro movimento para o novo governo parece feito em marcha a ré".

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

VÃO SURGINDO OS NOMES DO MINISTÉRIO FIM DE FEIRA

Para atrair tico-ticos o fubá do Palácio do Planalto serve...
Segundo mandato presidencial no Brasil costuma ser fim de feira, mas Dilma Rousseff não precisava exagerar. Os nomes que vão sendo definidos para o seu novo Ministério parece que conseguirão o impossível: fazer-nos sentir saudades do anterior...

Para pilotar a economia em transe, dois subalternos de governos anteriores, os esforçados Joaquim Levy (Fazenda) e Nelson Barbosa (Planejamento). Igualzinho a time de futebol sem banco de reservas à altura: quando o titular é convocado para a Seleção, o técnico bota um garoto da base e fica rezando para dar certo. Deus dificilmente atende. 

Milagreiro dos milicos pode ser ministro de fato. De direito, não.
Fico surpreso por ela não ter recorrido ao Delfim Netto, eminência parda da política econômica nos dois primeiros governos do PT.  Pelo menos, já está acostumado a jogar no time principal.

Talvez seja apenas para não associar-se de forma tão explícita à nefanda ditadura militar. Por baixo do pano pode, conforme reza o evangelho segundo Lula: bastaria botar um Antonio Palocci qualquer fingindo dar as ordens, enquanto estivesse seguindo aplicadamente as diretrizes traçadas por quem é do ramo.

Mas, se o motivo for a péssima reputação do gordo signatário do AI-5, o que dizer da escolha da grande dama do agronegócio selvagem, Kátia Abreu, para o Ministério da Agricultura? Aí eu não entendo mais nada...

Por que não mudar o nome para Ministério do Agronegócio?
Finalmente, como Dilma é bem diferente de Marina Silva e Aécio Neves (a quem ela atribuía vassalagem ao grande capital), o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio será Armando Monteiro, a menina dos olhos da Confederação Nacional da Indústria. 

E o presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, só não ficou com a Pasta da Fazenda porque não quis. Entre o poderoso chefão Lázaro Brandão e a presidenta da República, ele preferiu obedecer ao primeiro. Entre o poder econômico e o poder político, ele sabe muito bem quem realmente manda no Brasil

Mais fim de feira, impossível.

PARA GABEIRA, DEPOIS DO JUÍZO FINAL VEM O APOCALIPSE...

Cada vez que aqui reproduzo textos alheios, recebo como troco as habituais espinafrações ad hominem, pois o debate de idéias e argumentos é estranho à maioria dos internautas. Estes preferem impugnar pessoas do que refletir sobre o que elas pensam. Seguem sempre a lei do menor esforço.

O diabo é que, assim, não sobra ninguém. Todo autor que escreve coisas minimamente interessantes pode ser acusado disto ou daquilo. A burrice, penhorada, agradece.

Então, tomei a decisão de acolher neste espaço o que, na minha avaliação, for inteligente e/ou consistente e/ou criativo e/ou relevante, pouco me importando os pecados e pecadilhos outrora cometidos ou atribuídos ao autor.

P. ex., vêm de longe minhas discordâncias e dissonâncias em relação ao Fernando Gabeira, mas seu artigo desta 6ª feira, 21, em O Estado de S. Paulo -Apocalipse, agora (acesse a íntegra aqui)- pegou no breu em vários trechos, os quais  reproduzo em seguida. 

Não estou endossando tudo que ele já escreveu, nem todas as decisões que tomou na vida. Mas, como o bom jornalista e perspicaz analista que ele é, hoje acertou várias vezes na mosca. E é isto o que importa, hoje. Quem fica escarafunchando o passado é arqueólogo.

Eis os trechos em questão:

"Passada uma semana do juízo final, ainda me pergunto: cadê a Dilma? Ela disse que as contas públicas estavam sob controle e elas aparecem com imenso rombo. Como superar essa traição da aritmética? Uma lei que altere as regras. A partir de hoje, dois e dois são cinco, revogam-se as disposições em contrário.

...Cadê você, Dilma? Disse que o desmatamento na Amazônia estava sob controle e desaba sobre nós o aumento de 122% no mês de outubro. Por mais cética que possa ser, você vai acabar encontrando um elo entre o desmatamento na Amazônia e a seca no Sudeste.

Cadê você, Dilma? Atacou Marina porque sua colaboradora em educação era da família de banqueiros; atacou Aécio porque indicou um homem do mercado, dos mais talentosos, para ministro da Fazenda. E hoje você procura com uma lanterna alguém do mercado que assuma o ministério.

Podia parar por aqui. Mas sua declaração na Austrália sobre a prisão dos empreiteiros foi fantástica. O Brasil vai mudar, não é mais como no passado, quando se fazia vista grossa para a corrupção. Não se lembrou de que seu governo bombardeou a CPI. Nem que a Petrobrás fez um inquérito vazio sobre corrupção na compra de plataformas. A SBM holandesa confessou que gastou US$ 139 milhões em propina.

E Pasadena, companheira?

O PT está aí há 12 anos. Lula vez vista grossa para a corrupção? Se você quer definir uma diferença, não se esqueça de que o homem do PT na Petrobrás foi preso. Ele é amigo do tesoureiro do PT. A cunhada do tesoureiro do PT foi levada a depor porque recebeu grana em seu apartamento em São Paulo.

De que passado você fala, Dilma? Como acha que vai conseguir se desvencilhar dele? A grana de suas campanhas foi um maná que caiu dos céus?

Um dos traços do PT é sempre criar uma versão vitoriosa para suas trapalhadas. José Dirceu ergueu o punho cerrado, entrando na prisão, como se fosse o herói de uma nobre resistência. Se Dilma e Lula, por acaso, um dia forem presos, certamente, dirão: nunca antes neste país um presidente determinou que prendessem a si próprio.

...É muito aflitivo ver o País nessa situação, enquanto robôs pousam em cometas e EUA e China concordam em reduzir as emissões de gases de efeito estufa. O realismo precisa chegar rápido para a equação, pelo menos, de dois problemas urgentes: água e energia. Lobão é o ministro da energia e foi citado no escândalo. Com perdão da rima, paira sobre o Lobão a espada do petrolão. Como é que um homem desses pode enfrentar os desafios modernos da energia, sobretudo a autoprodução por fontes renováveis?

Grandes obras ainda são necessárias. Mas enquanto houver gente querendo abarcar o mundo a partir das estatais, empreiteiras pautando os projetos, como foi o caso da Petrobrás, vamos patinar. O mesmo vale para o saneamento, que pode ser feito também por pequenas iniciativas e técnicas, adequadas ao lugar.

Os homens das empreiteiras foram presos no dia do juízo final. Este pode ser um caminho não apenas para mudar a política no Brasil, mas mudar também o planejamento. A crise hídrica mostra como o mundo girou e a gente ficou no mesmo lugar. Existe planejamento, mas baseado em regularidades que estão indo água abaixo com as mudanças climáticas.

O dia do juízo final não foi o último dia da vida. É preciso que isso avance rápido porque um ano de dificuldades nos espera. Não adianta Dilma dizer que toda a sua política foi para manter o emprego. Em outubro, tenho 30.283 razões para desmentir sua fala de campanha: postos de trabalho perdidos no período.

Não será derrubando a aritmética, driblando os fatos que o governo conseguirá sair do seu labirinto. 

...O ministro da Justiça vê o incômodo de um terceiro turno. Não haverá terceiro turno, e, sim, terceiro ato. E ato final de uma peça de teatro é, quase sempre, aquele em que os personagens se revelam. Por que esses olhos tão grandes? Por que esse nariz tão grande, as mãos tão grandes, vovozinha?"

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

JUÍZO FINAL: RIU MELHOR QUEM RIU POR ÚLTIMO!

"[Quando se constatou que] havia alguma coisa de podre no reino da Petrobras, meu primeiro pensamento foi o calvário de um jornalista, meu amigo Paulo Francis. No programa que então fazia, gravado em Nova York, ele acusou os sobas que mandavam na maior estatal do Brasil.

Não chegou a citar nomes, falou que o estado maior da Petrobras, engenheiros, diretores e seus respectivos patronos formavam uma quadrilha de bandidos que roubavam descaradamente a empresa, justamente em sua cúpula administrativa e técnica.
Evidente que a 'suspeita' do Francis foi desmoralizada pela própria Petrobras, que usando e abusando do dinheiro da fraude, processou o jornalista por calúnia, no foro de um país que tem a fama de ser o mais severo na matéria. A multa chegaria a US$ 100 milhões, mais custas e honorários.

...A Petrobras, com o dinheiro dos outros, venceu a questão.

Paulo Francis entrou em depressão, tal e tanta, que meses depois morreu subitamente..." (Carlos Heitor Cony)

domingo, 16 de novembro de 2014

JUÍZO FINAL: O QUE VEM DEPOIS?

Dois dos expoentes mais conhecidos da nova direita se indignaram com a participação de pregadores de um golpe militar nos protestos deste sábado, 15: Reinaldo Azevedo garantiu que, na capital paulista, a grande maioria dos participantes estava lá só para pedir o impeachment de Dilma, e não uma reditadurização do País; e Lobão foi embora quando notou a existência de faixas das vivandeiras de quartéis.

Sinceridade ou conveniência tática? Sei lá. Não serei eu a apresentar como verdades absolutas as minhas conjeturas -ainda mais quando estas se referem a personagens com os quais antipatizo. Vejo o ad hominem e as campanhas de satanização como duas das maiores pragas da internet, então tento ser justo com todos, até mesmo com os Azevedos e Lobões.

O certo é que o ingrediente verde-oliva só entra nas receitas golpistas no momento de levar a porcaria ao forno. Trata-se do toque final do chef. Então, quem fala nisso precocemente está sendo tão desastrado quanto quem vandaliza portas de editoras.

É gratificante perceber que as quarteladas se tornaram tão impopulares no Brasil que a própria direita tenta delas se dissociar.

Mesmo assim, não devemos baixar de todo a guarda. Salta aos olhos que a cartada do impeachment será tentada e tem chance de resultar. As hipóteses, então, serão três:
  • o governo conseguir evitar que o impedimento seja votado pelo Congresso, o que manteria  intacto o potencial nocivo desta bandeira e, pior ainda, levaria água para o moinho dos que defendem uma solução inconstitucional;
  • o impeachment tramitar, ser votado e rejeitado, o que provavelmente desarmaria a bomba-relógio, garantindo a incolumidade do Governo Dilma;
  • o impeachment ser aprovado, o que levaria ao poder Michel Temer, o qual dificilmente terá deixado sua digital impressa numa ilegalidade que justificasse também sua impugnação (é matreiro demais para isto e não responde pelos pecados alheios, como a presidenta). 
Numa análise fria, as perspectivas são estas.

E eu insisto que a pior possibilidade possível é a do golpe de estado. No século passado, nossa primeira ditadura durou 15 anos e a segunda, 21. Depois de instaladas, é muito difícil as removermos. E o preço que por elas pagamos, do ponto de vista da civilização, é altíssimo. Equivale a retrocedermos um milênio, voltando ao absolutismo medieval.

Acredito que, como consequência da Operação Lava-Jato da Polícia Federal e de seu novo desdobramento (Juízo Final), bem como do que ainda está por vir, o Governo Dilma terá pouquíssima credibilidade se simplesmente driblar o desafio. Vai se tornar um morto-vivo, a exemplo de Guido Mantega, que está ministro da Fazenda mas há bom tempo deixou de ser visto, acatado e respeitado como tal.

Para o Brasil, o melhor será se a rejeição do impeachment colocar uma pedra em cima do assunto da conivência ou não de Dilma com a corrupção na Petrobrás; ou se a aprovação do impeachment desobstruir os trilhos para sairmos do limbo atual. 

sábado, 15 de novembro de 2014

TEMPESTADE À VISTA!

O post do início da tarde desta 6ª feira (14), Amanhã é dia do PT segurar seus radicais (clique p/ abrir), foi a forma que encontrei para ir fazendo os companheiros petistas se compenetrarem de uma perspectiva desagradável: Dilma Rousseff dificilmente chegará ao final de 2015 como presidenta da República.

E a crise se agravou ainda mais com o lançamento, por parte da Polícia Federal, de uma nova e estridente fase da Operação Lava-Jato --a qual, somada às investigações estrangeiras, praticamente obriga outros órgãos e Poderes a saírem de sua letargia, começando a cumprirem verdadeiramente seu papel. 

Para os petistas ainda lembrados da velha dialética que aprendíamos no comecinho da nossa trajetória na esquerda, explico didaticamente: a quantidade de evidências insofismáveis de corrupção governamental já é suficiente para gerar um salto de qualidade, qual seja o questionamento do governo como um todo. O escândalo tem proporção muito maior que o do mensalão e deixa o Collorgate no chinelo.

Dilma, pateticamente, reluta em descartar Graças Foster, quando deveria é estar se ocupando das próprias chances de permanência no poder, cada vez menores.

Então, só me resta reforçar o recado dado nas entrelinhas do texto anterior: é o pior momento possível para radicalismos na defesa do mandato de Dilma, pois existe enorme risco de novamente inaugurarmos a temporada de golpes de direita na América do Sul, como aconteceu em 1964.

Caso as consequências políticas da petrotempestade sejam decididas pelo Congresso, aprovando ou negando o impeachment de Dilma, permaneceremos no terreno da civilização. Com as regras do jogo democrático mantidas, o PT poderia até dar a volta por cima na eleição presidencial de 2018, por que não? Foi o que Getúlio Vargas fez em 1950.

Se, contudo, os petistas conseguirem fechar esta porta, evitando que o impeachment seja objeto de deliberação do Legislativo, todos deveremos precavermo-nos contra a repetição dos cenários de 1954 e 1964, que passará a ser uma possibilidade bem concreta. 

Quem conhece a direita brasileira sabe que, em tais situações, a porta seguinte na qual ela bate é sempre a mesma: a dos quartéis.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

AMANHÃ É DIA DO PT SEGURAR SEUS RADICAIS

Os radicais de 1975 foram contidos e a redemocratização avançou.
Um episódio emblemático da redemocratização do Brasil, verdadeiro divisor de águas, foi a missa de sétimo dia de Vladimir Herzog, oficiada por religiosos de três confissões na Catedral da Sé, em 31 de outubro de 1975.

Geisel, que via fortemente ameaçada sua distensão política lenta, gradual e progressiva, prometeu que o ato ecumênico não seria reprimido, desde que houvesse comedimento por parte dos participantes: "Segurem seus radicais, que eu segurarei os meus!"

Isto não significava apenas colocar focinheiras nos agentes da repressão que obedeciam estritamente à cadeia de comando; ele assumiu, na prática, o compromisso de evitar as provocações daqueles que, nas sombras, tentavam criar ou propiciar incidentes capazes de frustrar a redemocratização do País (há quem afirme que a própria prisão de Herzog teve este objetivo, pois poderia ensejar manifestações estudantis em solidariedade a um dos professores mais queridos da ECA/USP). 

Os aloprados de 2014 só deram munição para o inimigo
Ele cumpriu a palavra. Então, afora o enorme congestionamento de trânsito que as autoridades causaram para atrapalhar a chegada da multidão à cerimônia, nada houve para empanar o brilho daquela altaneira manifestação de repúdio ao arbítrio. E a abertura não só continuou avançando, como ganhou impulso.

Segurar os radicais é a postura que as autoridades governamentais e os movimentos sociais afinados com o petismo deveriam adotar neste 15 de novembro, quando descontentes com a reeleição de Dilma Rousseff e com os escândalos de corrupção prometem sair às ruas em várias cidades brasileiras. 

Dificilmente tais atos de inconformismo reunirão mais de alguns milhares de manifestantes e, não havendo conflitos, sua repercussão política tende a ser pouca.

Já se ocorrer truculência policial ou enfrentamento com aloprados do petismo (como aqueles que foram dar tiros no pé diante da Editora Abril), poderá ser o estopim de uma nova temporada de protestos, do tipo da iniciada em junho/2013.

Com a diferença de que os focos, daquela vez, foram bem menos perigoso para as instituições: inicialmente as tarifas do transporte coletivo, depois as maracutaias da Copa. 

Agora o que se pretende, em última análise, é colocar em xeque a permanência de Dilma Rousseff na Presidência da República.

Por ora, são marchas de gatos pingados. Que fiquem assim.
Então, todo cuidado é pouco. Se isto virar campanha de rua, poderá crescer como bola de neve e começaremos a flertar com o pior retrocesso possível e imaginável: um novo 1964.

Olhando o quadro pragmaticamente, parece-me inevitável que as forças de direita façam alguma tentativa nesta direção. Ao governo caberá a escolha do terreno em que travará a batalha: 
  • se tudo fizer para evitar que o impeachment seja votado no Congresso Nacional, correrá o risco de ver seu eventual sucesso transferir a decisão para as ruas, na forma de golpe de Estado;
  • se preferir encarar essa luta no parlamento, ou perderá o anel  mas conservaremos os dedos, ou vai obter uma categórica confirmação do mandato de Dilma, que servirá como forte dissuasivo contra eventuais tentativas golpistas.
Aliás, vale esclarecer, a retórica petista é falaciosa ao confundir pedido de impeachment com golpismo. Trata-se, isto sim, da via constitucional para os cidadãos se livrarem de governantes que estejam descumprindo gravemente sua missão. Têm todo direito de o tentarem, desde que cumpram os requisitos legais para tanto, e o Brasil não acabará por causa disto, como não acabou quando Fernando Collor foi expelido.

Já os golpes de estado desencadeiam horrores e atrocidades em cascata, além de tornarem o país um pária entre as nações, com os enormes danos econômicos, políticos e sociais decorrentes.

BIGODES CONVERGENTES

"Lá estava eu, trabalhando duro, procurando fazer meu dever, sem saber que tivesse algo de mau na cabeça. E daí comecei a falar dormindo. Sabes o que me ouviram dizendo? (...) 'Abaixo o Grande Irmão!'. Sim, foi o que eu disse. E disse muitas vezes, ao que parece...

- Quem te denunciou? - perguntou Winston.

- Minha filhinha - respondeu Parsons, com uma espécie de melancólico orgulho. - Escutou pelo buraco da fechadura. Ouviu o que eu disse e contou às patrulhas no dia seguinte." (1984, George Orwell)

Esta reminiscência do stalinismo veio-me à mente ao ler que o Partido Socialista Unido da Venezuela lançou uma repulsiva campanha para incentivar seus membros a delatarem supostos inimigos infiltrados. Questão de ordem, companheiro: acabei de te denunciar como espião...

Nem precisarão dedurá-los pessoalmente à Polícia do Pensamento versão 2014; vão poder fazê-lo por e-mail ou SMS.

Não se trata da vida imitando a arte, porque Orwell se baseou em situações reais: crianças caguetavam mesmo seus pais na pátria da revolução traída.

O bigodudo Maduro parece ser bom discípulo do bigodudo georgiano...

"O GENTLEMAN JOGOU, MAS NÃO DESTRUIU"

Nesta 5ª feira (13), o maior tenista de todos os tempos comprovou novamente que, além de extraordinário esportista, é um grande homem.

No torneio final da temporada da ATP, reunindo os oito melhores do ano, ele reduzia a pó Andy Murray: venceu o 1º set por 6x0 (o chamado pneu), vencia o 2º por 5x0 e, já estando com 0-30, poderia facilmente impor ao escocês uma bicicleta, suprema humilhação para o adversário. Bastaria marcar outros dois pontos.

De repente, seu jogo perdeu contundência e precisão por alguns instantes, o suficiente para Murray recuperar-se e salvar o game. Depois, claro, Federer voltou ao normal, liquidando a fatura em 6x1.

Fernando Meligeni, o bom Fininho, disse tudo:
"...tenho certeza de que ele viu o tamanho do buraco em que o adversário, mas não inimigo, iria entrar. O gentleman jogou, mas não destruiu".
Atitude idêntica à dos jogadores alemães que não se esforçaram para impedir o gol de honra brasileiro, quando massacravam nossa Seleção por 7x0 no último Mundial da Fifa.
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