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terça-feira, 28 de abril de 2026

O ESTADÃO, VOLTANDO AOS MAUS TEMPOS, CONTESTA A DECISÃO DO STF PRÓ COTAS RACIAIS NA REACIONÁRIA SANTA CATARINA

A
Assembleia Legislativa do estado mais reacionário do Brasil, Santa Catarina, aprovou uma lei vedando cotas raciais para o ingresso de estudantes ou contratação de profissionais em universidades estaduais e instituições beneficiárias de verbas estaduais.

O STF, por unanimidade, a mandou para a lixeira, declarando-a inconstitucional. Afinal, hoje se trata de um assunto incontroverso no Brasil civilizado.

Parece que os estados do Sul continuam ansiosos por se tornarem independentes do resto do Brasil. Não percebem o quão odiosos se revelam.

Parece que o Estadão está voltando ao tempo em que era um dos mais importantes conspiradores civis do golpe militar: no seu espaço de Opinião contestou a decisão do Supremo com base numa intragável lengalenga jurídica. O tempo passou na janela e só o Estadão não viu...

Se a Assembleia Legislativa de SC decidir pela desobediência à Lei Áurea no território catarinense, é bem capaz de o Estadão apoiá-la também.  (CL)
Clique aqui para acessar o vídeo de Lero Lero

sábado, 22 de junho de 2019

SUBMETEM-SE DOCILMENTE À NOVA FORMA DE ESCRAVIDÃO DOS DIAS ATUAIS AQUELES QUE DESCONHECEM A PRÓPRIA FORÇA!

dalton rosado
SOBRE A SERVIDÃO
 VOLUNTÁRIA
Todos nós temos o hábito de nos acomodarmos aos hábitos e, desafortunadamente, aos maus hábitos. Esta é uma das causas da servidão voluntária continuada, que acarreta a abdicação ao direito à liberdade e o esquecimento das benesses e gozos desta, por desconhecimento. Afinal, não se sente falta de uma boa iguaria quando não se a conhece.

No filme Um sonho de Liberdade (de 1994, dirigido por Frank Darabont e estrelado por Morgan Freeman) temos uma exemplar demonstração de como o ser humano dominado pela privação continuada da liberdade, ao ver-se finalmente livre, não se adapta às novas circunstâncias e comete suicídio. Causas mortis: as condições adversas que encontra fora das grades, provocadas pela velhice e alheamento social, após décadas da rotina prisional a que já se habituara (*).

Existem relatos no Brasil de que negros escravizados por senhores feudais —os quais, apesar do regime escravista, conservavam algum resquício de humanidade—, continuaram servindo-os voluntariamente após a decretação da Lei Áurea.

E anti-abolicionistas chegavam a afirmar em seus discursos que os negros libertados sofreriam ainda mais do que na antiga condição, porque não seriam aceitos como trabalhadores assalariados.

Tratava-se de um discurso falsamente humanista que, a pretexto de preocupar-se com os problemas que os negros encontrariam adiante, tinha como objeto teleológico a manutenção da segregação social de então (embora o futuro, melancolicamente, lhes tenha dado alguma razão, posto que até hoje quem mais morre nas mãos da polícia e vive nos guetos são seus descendentes diretos, mas esta constatação não justifica a existência da escravidão sob nenhuma forma). 

Os anti-abolicionistas não compreendiam a natureza de uma nova escravização que tomava forma, proporcionada pela pretensa liberdade de escolha: o detentor da força de trabalho poderia vender aquela que era a sua única propriedade (e se transformara em mercadoria) a quem bem entendesse. 

E isto diante de um mercado no qual a oferta dessa mesma mercadoria (mão-de-obra semi-escrava) seria sempre maior do que a necessidade de sua compra, o que equivaleria a desemprego social sem culpados identificáveis; baixos salários; e custos menores de produção, já naquela época ditados pela concorrência de mercado.

Tratar os negros como animais a serem alimentados e que necessitavam de moradia (por mais abjeta que fosse) já saía mais caro do que pagar-lhes um salário mínimo pelo quantitativo de valor produzido numa jornada diária de trabalho abstrato, o novo nome da escravidão. Ademais, o volume de dinheiro em circulação aumentaria com o pagamento de salários, motor da nefasta economia mercantil em ascensão.         
O processo de escravização humana, em termos de existência dos hominídeos sobre a face da Terra, é recente. Nas Américas os indígenas não escravizavam ninguém, como o faziam os civilizados quando chegaram no novo continente com suas cruzes, crucifixos e supostamente elevados padrões religiosos, ético-morais e jurídicos.

Tanto assim que, diante da insubordinação indígena ao regime de escravidão, foi preferível matá-los (como ocorreu da América do Norte aos confins da América do Sul), ocupar as suas terras, e trazer negros escravizados da África para a exploração colonial.

Posteriormente, abolida a escravidão direta, a solução foi atrair imigrantes europeus empobrecidos e dispostos a aceitar condições subumanas de trabalho abstrato.

A transição do regime feudal escravista direto (no qual a submissão se dava diante de um senhor feudal protegido por um regime político e jurídico monárquico-absolutista), para o regime de escravização indireta do trabalho abstrato (no qual a submissão se dá ao capital, uma lógica abstrata de mediação social, impessoal, que se tornou o Deus abstrato, sem carne e osso e, por isso mesmo, muito mais difícil de ser identificado como algoz e punido por isso) foi uma exigência evolutiva do modo de produção social. 

A possibilidade de um índio, negro ou imigrante europeu ficar rico a partir das regras do jogo estabelecidas pelo capital, sem restrições declaradas de natureza racial (embora elas existam concomitantemente às segregações de gênero), encantou e ainda encanta os indivíduos sociais assim transformados em cidadãos.

Afinal, sempre se conhece alguém que com arrojo, esperteza, habilidade, esforços inauditos, atividades criminosas, sonegações, sorte ou coisa que o valha, conseguiu sair da pobreza para uma nova realidade de consumo, posição e aceitação social. 

Então, creem os otimistas, com toda a ingenuidade do mundo, qualquer um pode almejar a mesma ventura. 

Contudo —o que preferem ignorar aqueles que jogam na loteria quando o prêmio está acumulado, fazendo planos de como gastar o dinheiro cuja chance de chegar-lhes às mãos são infinitesimais são raros e bem poucos os que conseguem romper a barreira da luta fratricida pela acumulação da riqueza abstrata, o capital.

Tornamo-nos assim, por imposição social ou por devaneios individualistas de enriquecimento improvável, servos voluntários de uma lógica de mediação social abstrata, irracional, destrutiva e autodestrutiva. 

E, por nos acomodarmos à sua ditatorial, fetichista, reificada (coisas inanimadas assumem identidades de coisas vivas e nos dão ordens) e segregacionista forma de ser, esquecemo-nos do doce gosto da liberdade. 
Aceitamos, assim, o discurso falacioso da democracia burguesa como se fosse o altar sagrado, imaculado e único a ser celebrado e protegido; e como se qualquer outra forma social de produção e organização jurídica lhe fosse inferior.

Este é o resultado do hábito de se viver sob a escravidão indireta do capital, síntese da forma-valor como mediação social, e se desconhecer a verdadeira liberdade, conformando-nos à servidão voluntária como forma de conduta imutável.

Mas para perplexidade dos que se assenhorearam do poder econômico (aquele que realmente manda sob o capital) e dos outros feitores auxiliares da nova escravização que gozam dos seus benefícios, como os funcionários públicos de altas categorias (magistrados, políticos, altos funcionários públicos dirigentes de órgãos e empresas estatais), o capital, esse tirano impessoal e fisicamente inatingível, destrói-se por seus próprios fundamentos. 

Todas as tentativas de mantê-lo saudável caem por terra, demonstrando quão imperativa é a implementação de um novo contrato social.

Estamos a constatar a necessidade e a premência de mudanças sociais, mesmo diante da recalcitrante oposição dos que tudo fazem para preservar esse sistema de produção social e organização que se tornou obsoleto.

O vazio dos discursos midiáticos e institucionais de defesa da ordem vigente, bem como as medidas desesperadas que vêm sendo tomadas, não se coadunam com os resultados almejados. 
Assim, aprofunda-se o choque entre a anunciada eficácia dos conceitos emitidos e medidas adotadas, tido(as) como válidos(as). Isto se evidencia:
— na realidade do desemprego estrutural;
— no aprofundamento da pobreza social;
— na desassistência social;
— na crueldade bárbara da violência urbana;
— no ecocídio territorial, marítimo e atmosférico;
— na ostentação do consumo como valor e ser seguido e na aceitação e incenso da vulgarização comportamental;
— na beligerância de todos contra todos numa guerra fratricida pela busca do dinheiro cada vez mais exíguo e impossível de se obter num montante suficiente para um adequado provimento das necessidades sociais básicas de consumo;
— na opressão estatal;
— na renúncia ao direito como forma de manutenção do Direito (caso explícito das reformas de Previdência Social e trabalhista);
— na defesa do fundamentalismo religioso retrógrado como regra ético-moral (hipocritamente) tida como válida;
— na defesa da força das armas em detrimento da força da razão; e
— na defesa jurisdicional de princípios morais parciais e hipócritas como se fossem o oráculo da santidade, com métodos aéticos, amorais, e processualmente reprováveis para o combate a determinados tipos de criminalidade.

Vale acrescentar, quanto ao último item, que não se questionam os crimes oficialmente aceitos (extração de mais-valia, juros do cartão de crédito, sinecuras que atestam desigualdades sociais, etc.), sendo esta uma postura que nega a isonomia de direitos, denuncia um republicanismo tendencioso e se afasta da realização do ideal de justiça.

A verdade é que a servidão voluntária decorre do desconhecimento de sua própria força por parte dos servos.

Há duas maneiras de se apagar o fogo: uma é jogar água numa quantidade maior que a chama combatida; a outra, isolar a matéria que alimenta o fogo de tal modo que a chama se extinga por falta de combustível.

Aos cidadãos transformados em servos voluntários de uma lógica que os oprime e da institucionalidade dela decorrente e igualmente opressora, bastaria optarem pela segunda opção, cruzando os braços à servidão voluntária. 

Fariam assim voar pelos ares toda a aparente fortaleza do capital que os oprime, sem necessidade de dispararem um tiro sequer. 

Mas, para tanto, precisam adquirir consciência sobre a natureza da sua opressão e descobrir o que seja a verdadeira liberdade! (por Dalton Rosado
* "O pássaro na gaiola, já nascido em cativeiro / aprende a cantar e canta se permanece prisioneiro. / Mas, se lhe abrem a portinhola, / bem capaz é de morrer. / Com seu medo à liberdade, / já não sabe nem viver", versos que encaixam como uma luva neste contexto, fazem parte de um tema musical da antológica peça teatral Arena conta Tiradentes, de 1967 (nota do editor).  

terça-feira, 31 de julho de 2018

A LEI ÁUREA TEM 130 ANOS. BOLSONARO AINDA IGNORA SUA EXISTÊNCIA

"Acho que no campo a CLT tinha que ser diferente. 
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O homem do campo não pode parar no Carnaval, sábado, domingo e feriado. A planta vai estragar, ele tem que colher.
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E fica oneroso demais o homem do campo observar essas folgas nessas datas, como existe na área urbana" 
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(Jair Bolsonaro no programa Roda Viva, pregando a desigualdade de direitos entre trabalhadores da cidade e do campo)

"Nego tá moiado de suor/ As mãos do nego/ Tá que é calo só/ Ai, meu senhor/
Nego tá véio/ Não aguenta/ Esta terra tão dura/ Tão seca, poeirenta/
(Trabalha, trabalha, nego/ Trabalha, trabalha, nego)"

domingo, 5 de novembro de 2017

MAIOR EMIGRAÇÃO FORÇADA DA HISTÓRIA DA HUMANIDADE, A ESCRAVIDÃO NO BRASIL É TEMA DE UM DOCUMENTÁRIO EXEMPLAR.

Toque do editor
Recebi esta mensagem, acompanhada do link do vídeo abaixo, do companheiro José De Souza:
"Olá, Celso! Vai aqui mais uma pérola que achei no Youtube e gostaria de compartilhar com os amigos. Trata-se do documentário da BBC, Brasil, uma história inconveniente (totalmente legendado em português), sobre a barbárie de nossas elites de escravocratas e o impacto que isso vem tendo até hoje na nossa vida social. Eu acho que esse tipo de fonte para discussão jamais passaria na TV comercial. Espero que você goste e, se gostar, divulgar para outros".
Agradeço e já estou colocando no ar (juntamente com outro vídeo que vem bem a calhar, o da trilha sonora da obra máxima do teatro brasileiro sobre a escravidão, a peça Arena conta Zumbi). Para ganhar tempo, aproveitarei a apresentação do site Acutalatina, cuja equipe cumprimento pelo ótimo trabalho.

UMA HISTÓRIA INCONVENIENTE SOBRE A ESCRAVIDÃO

Portugal foi responsável pela maior emigração forçada da história da humanidade. De Angola chegou ao Brasil um número 10 vezes superior de escravos, comparado à America do Norte. Este documentário, sobre o passado colonial do Brasil, foi realizado em 2000 por Phil Grabsky, para a BBC History Channel. Ganhou um Gold Remi Award no Houston International Film Festival em 2001. Uma verdade inconveniente da história de Portugal.

Enquanto todo o mundo conhece a história da escravidão nos EUA, poucas pessoas percebem que o Brasil foi, na verdade, o maior participante do comércio de escravos. Quarenta por cento de todos os escravos que sobreviviam à travessia do Atlântico eram destinados ao Brasil, enquanto apenas 4% iam para os EUA. Chegou uma época em que a metade da população brasileira era de escravos. O Brasil foi o último país a abolir a escravidão, em 1888.

O documentário tem depoimentos dos historiadores João José Reis, Cya Teixeira, Marilene Rosa da Silva; do antropologista Peter Fry e outras pessoas que contam os efeitos de séculos de escravidão no Brasil de hoje. Este é um importante documentário sobre a história dos negros, história africana e estudos latino americanos.


TRECHOS MARCANTES DO DOCUMENTÁRIO

Os portugueses tratavam a Africa como uma fonte de recursos. Então, eles importavam, importavam, achando que os recursos jamais se esgotariam.

Quase todas as casas por aqui são enormes armazéns, onde os escravos são depositados e os clientes vêm comprá-los

Gradualmente, ao final do século 16, as plantações aumentaram suas riquezas e tornaram-se capazes de comprar escravos estrangeiros e substituíram a mão de obra nativa que estava sendo usada. Então, Brasil se torna uma grande colônia escravagista.

As vastas terras do Brasil ofereciam oportunidades enormes. Quantidades enormes de açúcar eram enviadas para portos como Antuérpia, Amsterdã e Veneza. 

Em 1598, um viajante na Inglaterra notou o quanto os dentes da rainha Elizabeth estavam escuros de tanto açúcar. A causa dos problemas dentários da rainha era a nova fonte de riqueza dos portugueses. O açúcar era o ouro brasileiro

Os escravos trabalhavam como carpinteiros, construtores e muitas outras ocupações. Enquanto a população negra aumentava nos EUA, no Brasil, apesar da importação maior, ela permanecia a mesma. A expectativa de vida dos que chegavam era de apenas seis ou sete anos e os escravos nascidos no Brasil viviam, em média, só até os 20 anos. 

E quem eram os colonizadores? Muitos eram jovens ou ambiciosos aventureiros que se viram entronizados num mundo de riqueza, liberdade e fornicação. Muitos eram criminosos que Portugal preferia manter longe do país. 
O cruel Domingos Jorge Velho

Se a natureza masculina da colonização portuguesa era um motivo da crueldade, o outro era econômico. Se os escravos morressem, não havia problemas para substituí-los

A necessidade de escravos aumentou vertiginosamente quando, por volta de 1690, o ouro foi descoberto no interior

A nova crescente prosperidade do Brasil foi canalizada para novas vilas e cidades. A integração biológica da mulher africana com homem europeu era natural. Não havia aquela exclusão étnica que era praticada nos EUA. (...) A expansão do relacionamento sexual entre senhor e escravas produziu milhares de crianças mestiças.

Centenas de igrejas foram construídas, para serem usadas pelos brancos e negros recém-convertidos. Essas igrejas eram construídas e decoradas pelos escravos.

*    *    *

"Irmãos negros, a escravidão que vocês sofrem por mais dolorosa que seja, ou que pareça ser, é apenas uma meia escravidão. Vocês são escravos apenas na parte exterior, que é o corpo. Contudo, na outra e mais nobre metade, que é a alma, vocês não são escravos, mas livres! Quando vocês servem aos seus senhores, não o fazem como se fosse a um homem, mas sim, como se estivessem servindo a Deus!"
*    *    *

Muitos escravos não seguiam à risca o catolicismo. Eles se esforçavam para manter suas crenças tradicionais, venerar seus próprios santos. Música e dança tornaram-se inseparáveis na identidade brasileira em desenvolvimento.

No início dos anos 1800, ocorreram algumas revoltas ocasionais. (...) Alguns escravos quebravam máquinas, outros ateavam fogo às plantações. Outros simplesmente entravam em greve.
*    *    *

Zumbi e os guerreiros do quilombo de Palmares, símbolos da resistência dos negros à escravidão.
Outros escravos expressavam seu descontentamento fugindo. Escravos que fugiam uniam-se a comunidades de fugitivos chamadas de quilombos. (...) Eram quase independentes. Eles eram sempre alvo da polícia, que tentava eliminá-los.

Uma das tradições que os escravos fizeram questão de manter, era uma arte marcial chamada capoeira. Gangues de capoeiristas dominavam as ruas, usando suas habilidades para atacar o brancos e a polícia. A tensão subiu e então uma nova legislação foi criada (1833). Manter o controle da população de escravos estava se tornando mais difícil. 

Nos anos de 1800, tabaco e café juntam-se ao ouro e ao açúcar para serem a chave de economia.

*    *    *

Em 1822, o Brasil declarou independência de Portugal

Aumentou a pressão internacional para abolir a escravidão. A influência exercida pela Inglaterra na economia brasileira acabou perpetuando-se e ela colaborou com a continuação da escravidão no Brasil. Importava açúcar e café, produzidos por escravos, até o final do século 19

Oferecer liberdade condicional aparentava ser um último suspiro contra a abolição. Durante o século 19, 1 milhão de novos escravos chegou do oeste africano ao Brasil. O continuo confisco britânico de navios escravos e sua restrição ao comércio significava que o transporte de africanos teria de acabarCada vez mais escravos estavam abandonando as plantações.

Em 13 de Maio de 1888, a princesa Isabel proclamou a chamada Lei Áurea. O Brasil foi o ultimo grande país a oficialmente abolir a escravidão.

Embora fossem legalmente livres, ainda estavam economicamente ligados às terras, minas ou outras ocupações.Os negros continuam aprisionados, vivendo nas favelas, não têm empregos. Eles são escravos do sistema.

domingo, 29 de outubro de 2017

O FESTIVAL DE HIPÉRBOLES DEFORMA O DEBATE POLÍTICO. O DE MORALISMO RANÇOSO TENTA RESTAURAR A CENSURA.

TEMPOS DE HISTERIA
Vivemos tempos histéricos. Não que isso seja o fim dos tempos. A democracia liberal permite aos cidadãos serem tão hiperbólicos quanto desejarem.

Apesar de o exagero ser permitido, não creio que seja bom conselheiro. Ao contrário, penso que uma análise equilibrada dos fatos é o ponto de partida necessário para decisões sábias. Assim, hesito entre a frustração e o divertimento (não podemos perder o bom humor) ao ver gente protestando contra a pedofilia em museus, a ração humana para pobres ou a revogação da Lei Áurea.

O Congresso andou endurecendo as leis de crimes sexuais, mas, até onde sei, levar filhos a uma exposição que mostre nus ainda é uma atitude legal, assegurada pelo princípio da liberdade de expressão e pelas normas que dão à família o direito de educar rebentos segundo seus próprios valores, não os do MBL.
Se museu de arte moderna não comporta isto, para que serve?!

O prefeito João Doria, mais uma vez, pisou na bola ao privilegiar factoides em detrimento de planos consistentes, mas, até onde sei, não há nada de intrinsecamente errado ou imoral em liofilizar alimentos prestes a vencer. É tudo uma questão de mostrar que a farinha resultante é segura e útil –o que o prefeito não fez.

Já a portaria que muda a definição de trabalho análogo à escravidão tem problemas morais, legais e políticos, mas, daí a afirmar que equivale à revogação da Lei Áurea, vai enorme distância. Por mais graves que sejam os abusos hoje cometidos por empregadores, não dá para compará-los com a escravidão de verdade, que incluía chibatadas, admitia a venda de pessoas, a separação de famílias e ainda mobilizava o Estado para recapturar os negros fujões.

Aliás, não entendo como o movimento negro, que protesta até contra o uso da expressão black is beautiful num comercial, nunca se insurgiu contra o uso do termo escravo no contexto trabalhista. Essa sim me parece uma imagem que avilta a memória da chaga que foi a escravidão.

De volta aos velhos e maus tempos: meio século depois,
somos obrigados a gritar de novo É PROIBIDO PROIBIR!

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

APOLLO NATALI: "DESABAFOS CONTRA O RACISMO".

Não vou me intimidar, tampouco abaixar a cabeça. Sigo o que sei fazer de melhor: trabalhar. Se a minha imagem ou a imagem da minha família o incomoda, o problema é exclusivamente seu. Palavras da atriz brasileira negra, Taís Araújo, que sofreu ofensas raciais numa rede social.

Querida Thaís de todo o Brasil, esse seu desabafo contra o racismo, que faz entristecer o coração brasileiro, é apenas mais um entre os milhares deles, semelhantes, sofridos, diários, esparramados pelo mundo, desde que mundo é mundo. Entre eles estão os marcantes, históricos, grandiosos desabafos contra a discriminação de um Nelson Mandela, um Martin Luther King, de um Joaquim Nabuco, chamado O Abolicionista.

Nabuco, com seu persistente desabafo jurídico abolicionista abalou a mais longa escravidão de negros do mundo, que desconsoladamente aconteceu neste nosso querido Brasil durante sufocantes 358 anos.
Os mais inconformados dizem que a escravidão no Brasil vigorou arrastados 388 anos, desde o seu descobrimento, em 22 de abril de 1500, até a assinatura da Lei Áurea, em 1888. Não. A mais longa escravidão, a mais demorada  trevosa inclinação do ser humano, a de escravizar seu semelhante, foi a dos hebreus, no Egito: 700 anos.

Sem resposta à pergunta que não cala --por que racismo?-- resta-nos o conforto de festejar as iniciativas de parte da humanidade não racista em marcar, com datas comemorativas, a ação, a luta, o esforço, a memória de personalidades, brancas e negras, para erguer o estandarte da dignidade das pessoas negras e de outras colorações não brancas.

A batalha de Nelson Mandela contra o apartheid na África do Sul foi apoiada por organizações de mulheres brancas, ativistas, a combater o odioso racismo institucionalizado contra os negros por parte de uma minoria branca. Não é confortador? Disse Mandela: estamos lutando por uma sociedade em que as pessoas parem de pensar em termos de cor. Não é uma questão de raça, é uma questão de ideias.           

Sobra-nos no Brasil a aflição de constatar discriminação até por parte de negros e índios: Helda de Sá, uma mestiça cabocla amazonense, só depois de dobrar sistemática oposição de militantes do movimento negro e indígena, conseguiu cadastrar-se como a única delegada mestiça a participar da 1ª Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, em 2005, em Brasília. Discriminação por quê?
Um ano depois, quando se comemorava o Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial, o governador Eduardo Braga, movido pela Nação Mestiça-Movimento Pardo-Mestiço, sancionou lei tornando o Dia do Mestiço, 21 de março, uma data oficial do Estado do Amazonas, em homenagem a todos aqueles que possuem mais de uma origem racial no Brasil, mulatos, caboclos, cafuzos, ainocos, entre outros, e seu papel na formação da identidade nacional.  Em seguida, comemora-se o Dia do Caboclo, 24 de junho, que foi o primeiro mestiço brasileiro.

Em 2010 o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, descobriu, afinal,  que os brancos deixaram de ser maioria no País, se comparados ao total das outras classificações de cor e raça.

Agora, neste 20 de novembro, o Brasil comemora o Dia Nacional da Consciência Negra, data da morte do escravo Zumbi dos Palmares, em 1695, para  lembrar a resistência do negro contra a escravidão, desde o primeiro tráfico de africanos para o Brasil,  iniciado menos de meio século depois de sua descoberta.  Pouco mais de mil cidades brasileiras, entre os 5.570 municípios do país, celebram o Dia Nacional da Consciência Negra. Dependem da aprovação dos prefeitos. Há brancos que se empertigam contristados diante de altares e olvidam as lições de humanidade de suas religiões.

Entidades como o Movimento Negro, o maior do gênero no País, organizam palestres e eventos educativos, visando principalmente crianças negras. A instituição procura evitar o desenvolvimento do auto-preconceito, ou seja, da inferiorização perante a sociedade.

Mesmo nos Estados Unidos, onde a realidade é o secular massacre de negros nas cidades sulistas e o atual, televisionado, desrespeito aos seus direitos, existe o Dia de Martin Luther King, feriado nacional, oficializado em 1983, comemorado na terceira 2ª feira de janeiro, data próxima ao aniversário do líder morto em 1968.

O quadro nos Estados Unidos ainda hoje é de protestos de negros por todo o país e repressão dos brancos contra eles, como nos velhos tempos de Luther King.  Mas, não devemos perder a fé em nossos irmãos brancos, disse o próprio Luther King, no auge de sua luta. De algum modo, acrescentou, esperançoso, precisamos acreditar que os mais desnorteados dentre os brancos possam aprender a respeitar a dignidade e o valor de cada personalidade humana.

Obama se preocupava com o que acontecia na escola com suas filhas negras, com sua esposa, e sentia particularmente a humilhação comum sofrida pelo negro em seu pais. O senador, à saída de restaurantes, era tratado como um manobrista.

Desabafo do primeiro presidente negro dos Estados Unidos, Barack Obama, do tempo em que era senador: o índice de mortalidade infantil entre os americanos negros e pobres é semelhante ao da Malásia. Entre os negros é comum o desemprego e processos criminais que um em cada três deles vão sofrer. Brancos ganham em média 70% mais do que os negros. Há discriminação sistemática e prolongada por parte de grandes corporações, sindicatos ou áreas do governo municipal. Há bairros em que não se vendem imóveis a negros.
A miscigenação está tornando os Estados Unidos mais negro e moreno, mas em geral os membros de todas as minorias continuam a ser medidos pelo grau de assimilação da cultura branca, o quão próximo seus padrões de discurso, suas roupas ou seu comportamento estão da cultura branca dominante e quanto mais uma minoria se desvia desses padrões exteriores, mais sujeita fica aos preconceitos.

Meu próprio desabafo contra as sombrias manifestações de racismo que se perpetuam no planeta azul, e sem pretensões de qualquer exibicionismo humanitário, é oferecer à nossa magoada Thais Araújo, e a todos os demais magoados negros, e todos os brancos, e todos de todas as colorações, duas matérias minhas sobre opressão aos negros que estão flutuando no Google.

Uma, de título um pouco forte porque inevitável, Tio Sam, Tio Sam, que matas os teus negros, é uma paráfrase dos ditos de Jesus Cristo: Jerusalém, Jerusalém, que matas os teus profetas. São desabafos e lamentações de Martin Luther King sobre a opressão dos brancos contra os negros de seu país.

Outra, de título Escravidão!, é a resenha-de-uma-resenha do total de 50 que compõem um livro de História que pretende explicar o Brasil (escrevo História com maiúscula e ponto e basta). A obra, coordenada pelo jornalista Lourenço Dantas Motta, chama-se Introdução ao Brasil -- um banquete no Trópico, dois volumes, Editora Senac São Paulo.
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