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terça-feira, 31 de março de 2026

LEMBRANDO O GOLPE DO DIA DA MENTIRA DE 1964: GOULART FOI DERRUBADO PELO PETELOCO DE UM 'MAD DOG' FARDADO

N
ão há muito o que se dizer sobre a nefasta e nefanda quartelada de 1964,  que amanhã (1º de abril) estará soprando 62 velinhas ensanguentadas, num Brasil que em passado recente andou flertando de novo com o abismo, mas tomou a saudável decisão de nele não atirar-se. 

Enfim, como a História ultimamente se tornou um campo de batalha entre os que pesquisam e analisam os acontecimentos para conseguir interpretá-los e os que distorcem os acontecimentos para encaixá-los dentro de suas convicções prévias de um primarismo atroz, tentemos alinhavar o que realmente importa. 

Começando pela obviedade de que a conspiração direitista vinha de longe e quase emplacara quando da destrambelhada renúncia de Jânio Quadros.  O dispositivo golpista, contudo, ainda não estava pronto e a tentativa de aproveitamento de uma oportunidade de ocasião se revelou precipitada. 

As principais mudanças ocorridas entre aquele agosto de 1961 e o dia da grande mentira em 1964 foram:
Mourão Filho atravessou o samba 
e os golpistas o escantearam
— após a firmeza do governador gaúcho Leonel Brizola e dos cabos e sargentos das Forças Armadas ter frustrado os golpistas e garantido sua posse, o bobalhão João Goulart tudo fez para apaziguar os inimigos.

Chegou ao cúmulo de permitir que os oficiais reacionários desencadeassem um amplo expurgo na caserna, transferindo os líderes dos subalternos para bem longe das respectivas bases. 

As associações dos legalistas ainda continuaram estridentes, como convinha aos planos dos reaças de usá-los como espantalhos, mas eles passaram a ser caciques com poucos índios e poder de fogo quase nenhum;

— a participação civil no golpe, inexistente em 1961, foi buscada mediante propaganda enganosa maciça e parcerias com  a direita católica, não porque tivesse verdadeira importância no script conspiratório, mas como azeitona na empada, a fim de tornar a virada de mesa mais palatável no Brasil e, principalmente, no exterior;

— o Governo João Goulart vagava à deriva, ora inclinando-se à esquerda, ora contemporizando com a direita, o que fez os dois campos o encararem com suspeitas e não priorizarem a defesa do mandato legítimo;

quando o atentado de Dallas atirou a presidência dos EUA no colo do caipirão Lyndon Johnson, os pratos feitos da CIA voltaram a ser engolidos na Casa Branca (dificilmente John Kennedy deixaria suas digitais impressas numa ruptura constitucional no Brasil, assim como evitou oficializar o envolvimento estadunidense na invasão da Baia dos Porcos, negando apoio aéreo aos mercenários recrutados pelos gusanos de Miami para a derrubada de Fidel Castro); e

Eu vou, eu vou, derrubar o governo agora
eu vou, pararatimbum, pararatimbum...
 
Mesmo com todos os ases e curingas nas mãos, os líderes golpistas hesitavam. Aí, o impasse foi quebrado por um ferrabrás que tinha papel secundário na conspiração: o general Olímpio Mourão Filho. 

Tratava-se de um fascistão com carteirinha assinada. Fora um dos líderes da Ação Integralista Brasileira e autor em 1937 do famoso Plano Cohen, falso rol de intenções da Internacional Comunista que os galinhas verdes colocaram em circulação para assustar milicos. 

Sedento de glória, em 1964 ele botou o bloco na rua, precipitando os acontecimentos: sem aval do Estado Maior golpista, marchou com suas tropas de Juiz de Fora para o Rio de Janeiro.  Foi duramente criticado pelo governador Magalhães Pinto (MG), para quem tal bravata poderia ter causado um banho de sangue.

Mas, a ameaça comunista na verdade inexistia, daí a marcha pela então BR-3 (hoje rodovia BR-040) acabar sendo um passeio (vide foto acima). Dois ou três caças da FAB teriam sido suficientes para a abortarem, pois os inexperientes recrutas, que mais pareciam patos de estandes de tiro, debandariam em pânico logo à primeira rajada de metralhadora disparada sobre suas cabeças à guisa de advertência. 

Já o poderoso Partido Comunista Brasileiro se embananava todo ao acreditar que os bons militares defenderiam Goulart.
Como consequência, o partidão semeava a confusão entre a esquerda (esta ficou sabendo tarde demais que não contaria com apoio fardado nenhum contra o golpe, só dependendo da resistência que ela própria conseguisse antepor).

A traquinagem do histérico Mourão Filho não o beneficiou: o poder acabou ficando com os conspiradores históricos, articulados em torno de Castello Branco. Eles é que estavam preparados para governar.

Pode-se dizer que João Goulart foi derrubado pelo peteleco de um mad dog fardado. (por Celso Lungaretti)

domingo, 1 de março de 2026

DEPUTADO VENDE SUA CANDIDATURA POR R$ 15 MILHÕES. OTÁRIOS QUE O ELEGERAM DEVERIAM PEDIR DEVOLUÇÃO DO VOTO...

Foto de um desavisado que elegeu o Marco Pollon 
C
erta vez o Lula disse que o Leonel Brizola pisaria no pescoço da própria mãe para conquistar a presidência do Brasil. Esqueceu de informar qual político profissional não o faria.

Sempre constatei que os ditos  sujos (ôps, quero dizer cujos), salvo raríssimas exceções, são os incorrigíveis praticantes de uma politicalha sórdida.

E que a democracia burguesa não passa de um jogo de cartas marcadas, que no curto, médio ou longo prazo, acaba sempre favorecendo o capital.

É exatamente isto que depreendemos de uma notícia publicada há alguns dias pelo Estadão.

De tão acostumado à impunidade do seu clã, o senador Flávio Bolsonaro se descuidou e cometeu sincericídio: anotações sobre a situação nos Estados, por ele esquecidas após uma reunião na sede do Partido Liberal, foram encaminhadas por algum muy amigo ao jornalão. 
Tomara que esta foto do Pollon vire presságio

Grafadas com sua própria mão, elas revelam que o deputado federal sul-mato-grossense Marcos Pollon está pedindo R$ 15 milhões como compensação para não ser candidato ao pleito desde ano.

A desculpa do Flávio Bolsonaro foi uma das mais esfarrapadas de que já tomei conhecimento: ele teria feito a anotação para não esquecer de avisar o deputado que essa falsa (!) acusação sobre ele estava circulando por aí.

Quem acreditar nessa patranha compra até terreno na lua

E, já que estamos falando de um rebento da Famiglia Bolsonarone, ele nem deveria poder participar da eleição presidencial depois de trombetear que, uma vez eleito, livrará a cara do homicida culposo chamado Jair e do traidor da pátria chamado Eduardo. Confessou a intenção de delinquir... (por Celso Lungaretti) 

terça-feira, 18 de novembro de 2025

A NOITE EM QUE O BRASIL SE F...

Em que momento o Peru tinha se f...? , pergunta Mario Vargas Llosa logo na abertura de Conversa na Catedral, que, lançado em 1969, continua sendo até hoje a culminância de sua extensa carreira literária.

Talvez a indagação seja mais fácil de responder no caso brasileiro: foi em 25 de abril de 1984.

Era uma noite úmida e estávamos na Praça da Sé, esperando o País renascer. A Câmara Federal apreciava a Emenda Dante de Oliveira e um gigantesco placar fora erguido para permitir o acompanhamento voto a voto.
Da esq. p/ a dir., Ulysses Guimarães, Brizola, Lula (o
único ainda ativo), Osmar Santos e Franco Montoro.


Antes, ouvimos discursos e mensagens augurando vitória. Depois, foi a derrota que se desenhou aos poucos, enquanto a garoa aumentava. Por fim, o longo caminho de volta para casa. Uns poucos exaltados e querendo briga, os outros cabisbaixos, sem ânimo para mais nada. 

Fazia 11 dias que minha primeira filha nascera. Não lhe legaria o Brasil de meus sonhos. 

As músicas, as passeatas, as concentrações-monstro na Sé e no Anhangabaú, o amarelo que usávamos nas roupas para simbolizar a adesão às diretas-já... tudo em vão. Algumas centenas de deputados haviam permanecido alheias à vontade nacional.

Sairíamos da ditadura pela porta dos fundos, como parece ser nossa sina. Do descobrimento do que já se sabia existir à independência para inglês ver, todos os momentos solenes da nossa História têm um quê de farsa e bufonaria. Mas, por Deus, daquela vez quase todos fizeram sua parte!

No rescaldo da derrota entraram em cena os   profissionais – conforme anunciou Tancredo Neves, aludindo a si próprio e a seus iguais. 

E, se poucos votos faltaram para o restabelecimento imediato das eleições diretas, muitos apareceram para ungir, por via indireta, o candidato da Aliança Democrática (um velho cacique da velha política, cuja morte precoce me fez lembrar as advertências da Vovó, Cuidado que Deus castiga!)Tanto tramou  para chegar à presidência apesar do seu carisma zero e não pôde exercê-la sequer por um dia... 

É claro que, no primeiro caso, os congressistas eram convidados a abrir mão de seu próprio cacife; e a segunda ocasião significava a hora das recompensas. Que foram prodigamente distribuídas.

Apesar da expressiva maioria em favor da emenda
Dante de Oliveira, ela não atingiu os 2/3 necessários
Não entrarei no mérito do Governo Sarney e da lenta agonia que consome até hoje a democracia brasileira, como se o nascimento espúrio tivesse lançado uma sombra sobre o seu futuro. Mas, quero deixar registrada – mesmo que tanto tempo depois – minha indignação com o aborto de uma esperança.

São raros os momentos em que há real interesse da população em influir nos destinos do País. E, cada vez que se ensaia um tímido despertar, surgem profissionais para conduzir os acontecimentos no sentido de um eterno retorno.

Nossa elite é sui generis: incapaz de formular um projeto nacional e de se unir em torno dele, alcança invejável coesão quando se trata de resistir às pressões que vêm de baixo. 

De empresários a políticos, passando por sindicalistas e acadêmicos, todos têm em comum a obstinação em não deixar a peteca escapar-lhes das mãos.

Daí o desencanto e o niilismo que grassam entre nosso povo. Quem ouve a voz das ruas sabe que o cidadão comum não confia verdadeiramente em nenhuma força do espectro político. Nenhuma.

E isto se deve, dentre outros motivos, ao balde de água fria sempre atirado no ânimo da multidão, como a garoa a nos castigar naquela noite em que acompanhamos mais uma traição à promessa de um futuro altaneiro, e voltei para casa sem palavras de amor para minha mulher nem paciência para ninar a criancinha, pois trazia a certeza, e os eventos posteriores só viriam confirmá-lo, de que naquele momento o Brasil tinha se f... (por Celso Lungaretti, no 10º aniversário da rejeição da emenda Dante Oliveira)

domingo, 6 de julho de 2025

PORTA-VOZ DO LULA NO SEU 1º MANDATO EXPLICA ATUAL CAMBALHOTA IDEOLÓGICA

"O vento virou novamente. Encurralado por um Congresso reacionário e fisiológico dominado pelo centrão bolsonarista, em que tem minoria absoluta (menos de cem deputados no colegiado de 513), esta semana Lula saiu das cordas para voltar às origens do PT, na luta por justiça social e na defesa do que resta do seu mandato em busca da reeleição.

Após a acachapante derrota na votação que derrubou a mudança no IOF na semana anterior, Lula despertou para a realidade: sem poder contar com a frágil base aliada e despencando nas pesquisas, se ficasse parado, não teria mais como governar. Foi ao ataque e recorreu ao STF contra a decisão do Congresso, uma iniciativa de alto risco.

O governo Lula acabou, já proclamavam os líderes da oposição e amplos setores da mídia e do mercado. Vivia-se no Palácio do Planalto o mesmo clima pesado de 2005, quando estourou o escândalo do mensalão e foi anunciada a primeira morte política do metalúrgico que virou presidente da República prometendo acabar com a fome." (por Ricardo Kotscho, jornalista e escritor, duas vezes agraciado com o então prestigioso Prêmio Esso e outras duas com o Prêmio Vladimir Herzog)
Está certo o Kotscho, secretário de Imprensa do Lula no biênio 2003/2004, ao reconhecer que o ex-sindicalista, desde o início empenhado em apenas minorar as terríveis mazelas do capitalismo mediante o desvio de algumas migalhas a mais do banquete dos bilionários para a mesa dos pobres, dá a atual cambalhota ideológica como um sapo que engolirá no desespero de tentar reerguer seu exaurido governo.

Omite, contudo, que o Lula só se salvou de ser impichado a partir do mensalão porque os realmente poderosos o viam como uma força auxiliar da dominação burguesa, que às vezes os incomodava  um pouco mas servia para evitar que os coitadezas se dessem conta de que mereciam uma parte bem maior do bolo que, vale dizer, há muito tempo o Delfim  Netto já negaceava em repartir.

Entre a desculpa esfarrapada do ministro que colheu os louros pelo fugaz milagre brasileiro (Temos de esperar o bolo crescer para depois dividirmos) e a incontinência verbal responsável pelos sucessivos sincericídios do histórico defensor da perpetuação da exploração do homem pelo homem desde que maquilada em social-democracia (Nunca antes nesse país os banqueiros lucraram tanto quanto no meu governo) jamais houve a incompatibilidade apregoada pela propaganda enganosa petista. 

Daí a classe dominante ter decidido poupar Lula em 2005, quando poderia tê-lo derrubado com um peteleco. Lampedusa, pela boca de seu personagem Tancredi Falconeri em
O leopardo, explica exemplarmente tal lógica: É preciso que algo mude para que continue tudo como está.

E a minha avaliação é de que ambas as partes estão blefando, cada uma querendo obter mais vantagens do que a outra nas negociações que farão. Nem Lula vai virar Brizola, nem o Tarcísio, se eleito, sucumbirá ao extremismo brochado do Bolsonaro.

É óbvio que a nova postura petista é preferível à anterior. Tão óbvio quanto que Lula, até por estar desde os anos 80 desideologizando e endireitando o PT, não a levará às últimas consequências. 

Se, para minha enorme surpresa, a classe dominante decidir descartá-lo de imediato ao invés de deixá-lo sangrando até a próxima eleição, duvido que ele saia atirando como Vargas e Allende. O estilo dele é mais de sair com o rabo entre as pernas, como o Jango e a Dilma.  (por Celso Lungaretti) 
"Não guardo mágoa, não blasfemo, não pondero/
Não tolero lero-lero, devo nada pra ninguém"

segunda-feira, 21 de abril de 2025

TIRADENTES PODERIA TER SIDO O BOLIVAR BRASILEIRO, MAS NOSSO POVO PREFERIU RECEBER A LIBERTAÇÃO COMO DÁDIVA

 "Brecht cantou: ‘Feliz é o povo que não tem
 heróis’. Concordo. Porém nós não somos
um povo feliz. Por isso precisamos de
heróis. Precisamos de Tiradentes"

(Augusto Boal, Quixotes e Heróis)
Será que os brasileiros sentem mesmo necessidade de heróis, salvo como temas dos intermináveis e intragáveis sambas-enredo? É discutível.

Os heróis são a personificação das virtudes de um povo que alcançou ou está buscando sua afirmação. Encarnam a vontade nacional.

Já os brasileiros, parafraseando o que Marx disse certa vez sobre os camponeses, constituem tanto um povo quanto as batatas reunidas num saco constituem um saco de batatas...


O traço mais característico da nossa formação é a subserviência face aos poderosos de plantão. Os episódios de resistência à tirania foram isolados e trágicos, já que nunca obtiveram adesões numericamente expressivas.


Demoramos mais de três séculos para nos livrar do jugo de uma nação minúscula, como um Gulliver imobilizado por um único liliputiano.

E o fizemos da forma mais vexatória, recorrendo ao príncipe estrangeiro para que tirasse as castanhas do fogo em nosso lugar; e à nação economicamente mais poderosa da época, para nos proteger de reações dos antigos colonizadores.

Isto depois de assistirmos impassíveis à execução e esquartejamento de nosso maior libertário.
Da mesma forma, o fim da escravidão só se deu por graça palaciana e quando se tornara economicamente desvantajosa.

Antes, os valorosos guerreiros de Palmares haviam sucumbido à guerra de extermínio movida pelo bandeirante Domingos Jorge Velho, que merecidamente passou à História como um dos maiores assassinos do Brasil em todos os tempos.


E foi também pela porta dos fundos que nosso país entrou na era republicana e saiu das duas ditaduras do século passado (a de Vargas terminou por pressões estadunidenses e a dos militares, por esgotamento do modelo político-econômico).

Leitura da sentença de Tiradentes (pintura histórica)

Todas as grandes mudanças positivas acabaram se processando via pactos firmados no seio das elites, com a população excluída ou reduzida ao papel de coadjuvante que aplaude.
  • É verdade que houve fugazes despertares da cidadania: em 1961, quando a resistência encabeçada por Leonel Brizola conseguiu frustrar o golpe de estado tentado pelas mesmas forças que seriam bem-sucedidas três anos mais tarde;
  • em 1984, com a inesquecível campanha das diretas-já, infelizmente desmobilizada depois da rejeição da Emenda Dante de Oliveira, com o poder de decisão voltando para os gabinetes e colégios eleitorais; e
  • em 1992, quando os  caras-pintadas  foram à luta para forçar o afastamento do presidente Fernando Collor.
Inconfidentes e sua falação. Só Tiradentes era homem de ação
Nessas três ocasiões, a vontade das ruas alterou momentaneamente o rumo dos acontecimentos, mas os poderosos realizaram manobras hábeis para retomar o controle da situação. Rupturas abertas, entre nós, só vingaram as negativas.

Vai daí que, em vez de heróis altaneiros, os infantilizados brasileiros são carentes mesmo é de figuras protetoras, dos coronéis nordestinos aos padins Ciços da vida, passando por pais dos pobres tipo Getúlio Vargas e Lula.

Então, Zumbi dos Palmares, Tiradentes, Frei Caneca, Carlos Marighella, Carlos Lamarca e outros dessa estirpe jamais serão unanimidade nacional, como o são Giuseppe Garibaldi na Itália ou Simon Bolívar para os hermanos sul-americanos.
O 21 de abril é um dos menos festejados de nossos feriados. E o próprio conteúdo revolucionário de Tiradentes é escamoteado pela História Oficial, que o apresenta mais como um Cristo (começando pelas imagens falseadas de sua execução, já que não estava barbudo e cabeludo ao marchar para o cadafalso) do que como transformador da realidade.

Então, vale uma citação da epígrafe escrita por Boal quando do lançamento da antológica peça Arena Conta Tiradentes, em 1967:
"Dez vidas eu tivesse, dez vidas eu daria para salvar a deles"
"Tiradentes foi um revolucionário no seu momento como o seria em outros momentos, inclusive no nosso. Pretendia, ainda que romanticamente, a derrubada de um regime de opressão e desejava substitui-lo por outro, mais capaz de promover a felicidade do seu povo. 
...No entanto, este comportamento essencial ao herói é esbatido e, em seu lugar, prioritariamente, surge o sofrimento na forca, a aceitação da culpa, a singeleza com que beijava o crucifixo na caminhada pelas ruas com baraço e pregação ... 
O mito está mistificado".
Quando o povo brasileiro estiver suficientemente amadurecido para tomar em mãos seu destino, decerto encontrará no revolucionário Tiradentes uma de suas maiores inspirações. 
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(por Celso Lungaretti)

sábado, 29 de março de 2025

GOLPISTAS DE 1964 ERAM PROFISSIONAIS. OS DE 2023 NÃO PASSAVAM DE VIRA-LATAS.

Chegou a ser chocante a incompetência com que os aprendizes de golpistas do 08.01.2023 tentaram seguir os passos dos seus antecessores de 1964, tropeçando nas próprias pernas e deixando um mundo de provas para trás, como se jamais lhes tivesse passado pelas cabeças ocas que seu putsch poderia fracassar, sujeitando os envolvidos na quartelada a severas punições.

É verdade que os castellistas aprenderam com o fracasso de 1961 a evitarem os principais erros cometidos, enquanto os bolsonaristas, depois de muito refugarem, tiveram de partir para o tudo ou nada, sem margem para uma segunda tentativa.

Afora que, como militar de carreira, Jair Bolsonaro jamais chegou aos pés do Castello Branco, tanto que o primeiro era respeitadíssimo por seus pares e o segundo acabou expulso da caserna, obrigado a aposentar a farda da forma mais desonrosa possível.

O esquema dos golpistas de 1964 vinha sendo montado desde a década anterior, mas ainda não estava pronto quando da renúncia do presidente Jânio Quadros em 25 de agosto de 1961. 

Os conspiradores nela viram, contudo, uma oportunidade de queimar etapas, daí terem decidido precipitar as coisas: convenceram os comandantes das três Armas a tentarem impedir a posse do vice-presidente legal (João Goulart), que estava ausente, visitando a China em missão oficial.

Como o afobado come cru, eles foram derrotados:
1961: governador valente e general legalista barram o golpe
— pela resistência do governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, que passou a conclamar o Brasil inteiro a não permitir a usurpação de poder, utilizando para tanto uma rede de emissoras de rádio que se formou espontaneamente  (a Rede da Legalidade);
— pela decisão do comandante do III Exército (RS), o general legalista Machado Lopes, de colocar-se ao lado de Brizola, passando, portanto, a existir a ameaça de militares combaterem uns aos outros, hipótese que sempre horrorizou nossas Forças Armadas; e
— pela firme oposição de cabos e sargentos do Exército e Marinha ao golpe, criando outra divisão entre os fardados.

A crise acabou com a solução conciliatória de se dar posse a Goulart mas instituir-se o parlamentarismo, de forma que os poderes presidenciais foram momentaneamente reduzidos (o plebiscito de janeiro de 1963, contudo, restabeleceu o status quo ante).

Os conspiradores, face ao fracasso inicial, tiveram de repensar todo seu planejamento. Desfecharam perseguições nos quartéis, isolando e transferindo para unidades distantes os líderes dos subalternos que haviam se colocado contra o golpe, enquanto o pusilânime Goulart nada fazia para proteger quem lhe havia sido leal.

E, percebendo que careciam de algum respaldo na coletividade, partiram para a conquista do apoio da classe média conservadora, contando para tanto com o apoio do clero reacionário e de entidades anticomunistas como a TFP e a TFM. Só se considerariam prontos para nova tentativa 20 meses depois.
Arcebispo de SP convenceu seu rebanho a ajudar os lobos
O passo final foi a conquista da caserna, empreitada facilitada pelo apoio crescente que passaram a ter da classe média (afinal, os oficiais eram majoritariamente dela oriundos) e pelos préstimos de provocadores como o cabo Anselmo, que radicalizaram ao máximo a insubordinação dos cabos e sargentos das Forças Armadas contra o oficialato. 

[Meu saudoso companheiro na VPR, o José Raimundo da Costa, o Moisés, era um dos líderes dos marinheiros e nunca quis acreditar que Anselmo fosse um infiltrado, embora já existissem suspeitas. 

O Moisés me contou como ele e os marujos atiraram no mar um capitão que veio prendê-lo. O oficial, furibundo com a humilhação que sofrera, ingressou no Cenimar após o golpe e o que mais fez foi perseguir o Moisés, com o propósito obsessivo de capturá-lo para o torturar até a morte.]

O que os oficiais mais prezam é sua autoridade. E, dias antes do golpe, a viram estridentemente ultrapassada por Jango. 

Com o mandato cada vez mais ameaçado, Goulart havia finalmente descido do muro; daí ter ousado proibir a prisão de marinheiros e fuzileiros navais responsáveis por uma comemoração levada a efeito depois de vetada pelos escalões superiores. Foi a gota d'água: o oficialato alinhou-se em massa com o golpe. 
Johnson gostava de ser clicado como Texas ranger

A ruptura da ordem legal àquela altura já estava sendo amplamente requerida pelos capitalistas e latifundiários, além de endossada pelo presidente Lyndon Johnson.

A CIA favorecia e financiava os conspiradores há muito tempo, mas John Kennedy, caso tivesse sobrevivido ao atentado de Dallas, dificilmente lhe daria sinal verde, assim como não autorizou a disponibilização de cobertura aérea para a invasão da Baía dos Porcos, crucial para o sucesso da empreitada, mas que deixaria as digitais dos EUA impressas numa flagrante interferência na política interna de um país soberano (Cuba). 

A posse em 22 de novembro de 1963 de Johnson, um texano anticomunista que comeria na mão da CIA, significou a remoção de um importante obstáculo para o golpe, tanto que, a partir daí, só transcorreriam quatro meses e uma semana até Olympio Mourão Filho começar a descer a BR-3 (hoje rodovia BR-040) com suas tropas.

Enfim, com idênticas intenções. os golpistas de 1964 foram profissionais ao planejarem e executarem a tomada ilegal do poder, enquanto os de 2023 pavimentaram o caminho do fracasso com uma sucessão interminável de erros e lambanças.

Se, por um milagre, gente tão despreparada como os bolsonaristas lograsse êxito, teríamos obtusos irascíveis no poder. Seus principais quadros eram vira-latas mesmo para os pouco exigentes padrões da direita brasileira. 
            
                                  (por Celso Lungaretti)

sábado, 7 de dezembro de 2024

NO QUE ANDRÉ MALRAUX, GUILHERME BOULOS E LEONEL BRIZOLA CONCORDAM

Os intelectuais e políticos passam a vida fazendo longos discursos e redigindo textos intermináveis, mas o grande público acaba guardando apenas uma ou duas frases simbólicas, negadas por eles ou das quais não se lembram. 

Frases geralmente fora de contexto, mas imortalizadas por terem sido consideradas como previsões, vaticínios ou profecias. E para quem sabe antecipar o futuro existe um enorme público de curiosos.

É o caso do francês André Malraux, escritor, combatente contra o nazismo alemão durante a ocupação da França e político francês, conhecido pelo seu livro A Condição Humana; por ter lançado as bases da política cultural francesa, logo depois da 2a. Guerra Mundial; e como ministro da Cultura.

Muitos atuais universitários não tiveram tempo para ler A Condição Humana, A Esperança ou Os Conquistadores, mas conhecem ou já ouviram falar da frase "O século XXI será religioso ou não será". Existe um grande debate sobre esta afirmação, que o próprio Malraux nega ter feito, embora muitos seus contemporâneos, garantam tê-la ouvido. Alguns imaginam ter sido uma versão paralela como "O grande problema do século 21 será religioso".

Em todo caso, embora a religião em si não seja o centro dos problemas mundiais atuais, ela está presente nas guerras no Oriente Médio e, nas Américas, ela tem  força para decidir o resultado das eleições.

Me lembrei dessa frase apócrifa ou não de Mauraux ao ouvir uma entrevista de Guilherme Boulos à
Folha de São Paulo, logo depois de sua derrota para a prefeitura de São Paulo. 

Nela, ele dizia textualmente:
"O risco é o Brasil se tornar um Irã no sentido cultural e social, com o domínio do fundamentalismo monolítico, e virar politicamente um México pelos crimes, cartéis da política e assassinatos de gente da política".
É interessante notar ter havido só essa frase sobre o fundamentalismo monolítico cultural e social iraniano, numa entrevista de quase uma hora. Boulos procurava explicar o porquê da derrota frente a uma ultradireita em expansão:
"A extrema-direita está construindo uma hegemonia de pensamento nos setores populares, conquistando setores que já foram da esquerda. Deixando uma sociedade de conquista de direitos por uma sociedade de cada um por si”.
Ou seja, Boulos apontou o fundamentalismo monolítico cultural e social, entrando nos setores populares da esquerda, sem nomeá-lo abertamente. Esse crescimento da extrema direita faz o povo ignorar minha casa minha vida, mais empregos, crescimento econômico do país com redução das diferenças sociais, etc.

Preferiu fazer referência ao Irã por estar num terreno minado, motivo pelo qual uma referência clara e direta poderia ser negativa e contraproducente. E acentuou ser necessário reagir nas redes sociais e nas ruas, para evitar o avanço da extrema-direita.

Mas afinal o que é esse fundamentalismo monolítico cultural e social, cujo nome não foi pronunciado? Os evangélicos, aos quais Lula acaba de fazer um aceno com a criação do Dia Nacional da Música Gospel (9 de julho). 

Os partidos de esquerda ainda não conseguiram encontrar o equivalente para contrabalançar a influência e penetração das igrejas e congregações evangélicas nas camadas pobres da população substituindo o discurso das conquistas sociais pelas promessas bíblicas de melhor vida depois da morte.
E aí surge outro visionário como Malraux, que teria previsto o retorno em força do islamismo e sua influência sobre a própria esquerda. Trata-se do ex-governador do Rio de Janeiro e ex-candidato à Presidência, Leonel Brizola.

Brizola também teve sua frase, hoje atual e profética na época: “Se os evangélicos entrarem na política, o Brasil irá para o fundo do poço, o país retrocederá vergonhosamente”

Como no caso de Malraux, existem dúvidas quanto à origem da frase, mas Brizola, embora não praticante, era de origem metodista.

Vale lembrarmos uma reportagem do Jornal do Brasil em 1990, quando Brizola rompeu com Garotinho (evangélico presbiteriano governador do RJ) e criticou a participação de pastores evangélicos no seu governo e na equipe da vice-governadora Benedita da Silva, evangélica da Assembleia de Deus.

O crescimento em número e em influência dos evangélicos conteve o deputado federal do Psol Guilherme Boulos na sua análise de sua derrota à Prefeitura e da perda de força da esquerda. Por enquanto, ao que se saiba, nem o PT e nem a esquerda em geral encontraram um antídoto para deter o crescimento da extrema-direita apoiada nos evangélicos. (por Rui Martins)

sexta-feira, 7 de junho de 2024

SEBASTIANISMO FOI UMA ROUBADA: NEM A VELHA GUARDA PETISTA ACREDITA EM LULA 4

D. Sebastião, monarca de Portugal, desapareceu em 1578 na Batalha de Alcácer-Quibir e, como tudo começou a dar errado no reino, os lusitanos acalentaram a esperança infundada de que ele reapareceria para restabelecer a governança. Ficaram a ver caravelas. 

Da mesma forma, Lula, reizinho do Brasil, desapareceu na batalha sucessória de 2010 e, como tudo começou a dar errado nesta Pindorama, os mesmerizados pelo populismo acalentaram a esperança infundada de que ele reapareceria para restabelecer a governança. 

Como este continua sendo o país do eterno retorno, Lula até conseguiu recuperar o cargo. Mas nem de longe está sendo capaz de restabelecer a governança, muito pelo contrário. 

Errou lá atrás ao escolher como sucessora uma gerentona trapalhona, que, para piorar, era devota de outro D. Sebastião, um bravo guerreiro no enfrentamento dos inimigos (tanto que até abortou uma conspiração contra a Coroa em 1961), mas cuja visão de mundo era pra lá de ultrapassada.

A gerentona, exumando a proposta de alavancar o desenvolvimento com investimentos estatais que esteve em alta na década de 1950,  acabou colocando o Brasil do século 21 no rumo de uma depressão econômica e sendo por ela tragada. Deu lugar a um regente inexpressivo e, depois, a uma versão piorada de D. Maria I, a rainha louca de Portugal. 

Aquela pelo menos teve uma fase boa antes de endoidar de vez, ao contrário do congênere brasileiro, que aos 33 anos já delirava, acalentando planos malucos como o de mandar pelos ares o reservatório de água da cidade.

Tantas fez tal ser boçal e ignaro, responsável indiscutível pelo maior extermínio de brasileiros em todos os tempos, que o Lula conseguiu um terceiro mandato presidencial surfando na rejeição a tal psicopata, mas sem conseguir recuperar as ferramentas essenciais ao exercício do poder, que ficaram nas mãos de dois altos cortesãos, o Lira Desafinada e o Urtigo Pacheco

Ele usa a faixa presidencial (a coroa está fora de moda), mas não passa de uma rainha da Inglaterra. E perdeu o respeito até dos cortesãos mais antigos, que já o veem como carta fora do baralho em 2026 e adiante. 

Será, aliás, lembrado pelo insólito detalhe de haver sido feito duplamente de rainha da Inglaterra, pois a isto foi reduzido também pela esposa, que se tornou uma espécie de tutora informal do pobre coitado.

Como acabará esta fábula cruel? Tudo leva a crer que com uma derrota acachapante do Lula e seu governo em outubro próximo e a perda do que lhe resta de poder no ano seguinte. Pois a majestade ele já perdeu há muito tempo...
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AGORA FALANDO SÉRIO – Tão medíocres são os personagens da política institucional brasileira no século 21 que escrever sobre eles em tom de galhofa é uma escapatória para não cairmos na mais profunda depressão. Eu a adoto sem contra-indicações. 

Farei contudo, desta vez, um breve resumo em benefício daqueles que Nelson Rodrigues qualificava de idiotas da objetividade

A obsessão narcisista de Lula por um terceiro mandato está sendo trágica para o Brasil. Pois a pulverização dos fundamentos da vida civilizada sob Bolsonaro exigia uma resposta muito mais contundente: seu  impeachment. Ervas daninhas têm de ser totalmente extirpadas  

Lula, com a cumplicidade bovina da esquerda institucional, tudo fez para que o palhaço do apocalipse sobrevivesse ao diluvio de crimes de responsabilidade com que inundou o Brasil.

Sabia que de uma nova diretas-já emergiria alguma liderança combativa como ele nunca verdadeiramente havia sido e jamais será, já que toda a sua trajetória foi a de um reformista empenhado em maquilar a monstruosidade intrínseca do capitalismo, ao invés de pôr fim à exploração do homem pelo homem,

Então, fez corpo mole com relação ao impeachment do sacripanta de forma tão descarada quanto o dito cujo sabotou a vacinação contra a covid. E o resultado foi uma vitória na bacia das almas e que acabou sendo tão somente pessoal: elegeu-se mas deixou Câmara e Senado entregues ao inimigo.
Agora se encontra emparedado pelos conservadores e extremistas de direita, assistindo impotente à aprovação dos maiores absurdos da pauta de costumes que é o xodó dos ansiosos por uma nova Idade das Trevas.

E, se Lula era a pior aposta possível para o que resta de uma verdadeira esquerda nesta fase terminal do capitalismo (quando, ainda por cima, as consequências do aquecimento global desabam uma após outra sobre nós), o artigo desta quinta-feira (6) do William Waack (Velha guarda petista está pessimista quanto às chances de Lula nas eleições de 2026) coloca o dedo na ferida: seu governo sem direção nem noção consegue agora maximizar o prejuízo.

Não há como desmentir Waack: Lula 3 é uma permanente confusão política, que aborta as chances de a economia voltar minimamente a crescer e ainda detona o profissionalismo dos mandatos anteriores, pois a elite de quadros profissionais e experimentados na política agora tem de conviver com os arroubos amadoristas da Janja, que parece imaginar-se uma Evita Perón mas não passa de uma Isabelita...

Waack é caridoso: Frente a um adversário inelegível tropeçando em si mesmo, neste momento o caminho para 2026 deveria surgir bem delineado. Ao contrário, o cenário nunca esteve tão aberto.

Cenário aberto? Nem a pau, Juvenal! 

Eu diria que, hoje, a única luz no fim do túnel que brilha para Lula não passa de um trem vindo em sentido contrário. (por Celso Lungaretti)
                    "Disse o velho, 'eis aqui o fim de tudo'. / Veio o moço e 
                      continuou" (Sergio Ricardo, canção Deus de Barro)
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