No início do ano letivo de 1968, sem que ninguém esperasse, a repressão da ditadura militar atacou com bestialidade extrema um restaurante para estudantes carentes no Rio de Janeiro, acabando por matar a tiros um secundarista de apenas 16 anos, Edson Souto.
O movimento estudantil brasileiro, que tinha sido praticamente extinto pela repressão em 1964, já tentara renascer nas chamadassetembradasde 1966, mas a violência dos usurpadores do poder novamente havia prevalecido. Em março de 1968, no entanto, os estudantes voltaram às ruas... para ficarem! Coma certeza na frente, tentando tomara História na mão[1], marcaram forte presença ao longo do ano.
Aprofundando um pouco a análise, podemos dizer que o final da década de 1960 marca a transição da sociedade rígida e patriarcal, característica da fase da industrialização, para o amoralismo da sociedade de consumo, em que tudo e todos devem estar disponíveis para omercado.
Então, de certa forma, a contestação à autoridade de autoridades, reitores, sacerdotes, doutores disso e daquilo, dos luminares da sociedade em geral, convinha ao próprio capitalismo, que estava passando da etapa das grandes individualidades para a da liderança participativa. O foco passaria a ser o consumidor, o cidadão comum, em lugar do grande homem, a personificação da elite.
Respirava-se antiautoritarismo. As artes passavam por um momento de ousadias e experimentalismo no mundo inteiro, a imprensa se modernizava a olhos vistos, a liberalização de costumes e a liberação sexual entravam com força total. O movimento estudantil, estimulado pelos ventos de mudança, foi fundo na tarefa dederrubar as prateleiras, as estátuas, as estantes, as vidraças, louças, livros, sim![2].
E, no hiato entre a etapa capitalista que terminava e a que ia começar, muitos jovens sonharam com algo maior: uma sociedade sem classes, em que não existisse a exploração do homem pelo homem e na qual a economia se voltasse para a satisfação das necessidades humanas em vez de ser regida pela ganância. Um ideal simbolizado por Che Guevara, o último revolucionário internacionalista de dimensões míticas, com seucorpo cheio de estrelase tendoel cielo como bandera[3].
Mas, a repressão brutal desencadeada pela ditadura, principalmente após a assinatura do AI-5, inviabilizou a mudança maior que muitos pretendiam. Então, sobre a terra arrasada, o que floresceu foi mesmo a sociedade de consumo.
A classe média, eufórica com o milagre brasileiro, tratou é de enriquecer. E a esquerda estava tão debilitada pela perda de seus melhores quadros que pouco pôde fazer contra a conjugação de boomeconômico e terrorismo de estado.
O movimento estudantil de 1968 foi, portanto, resultado de circunstâncias especiais e únicas. Daí não poder ser comparado com o de hoje (como muitos fazem, para depreciá-lo), quando os jovens, ademais, têm de esforçar-se no limite de suas forças para começarem bem uma carreira, o que acaba fazendo-os desinteressarem-se por quase todo o resto.
UMA COMPETIÇÃO EXTREMADA DE TODOS CONTRA TODOS-- A dificuldade insana que encontram para afirmar-se profissionalmente deveria levá-los a refletir sobre as distorções da sociedade atual.
A competição obsessiva que aborta talentos e condena tanta gente a não desenvolver seu potencial é um dos horrores do capitalismo globalizado. Então, é tempo de muitos estudantes mais começarem a se indagar sobre a validade de continuarem nesse funil perverso, passando por cima dos despojos dos que tombarem no caminho.
E isto com enorme possibilidade de, adiante, baterem com o nariz na porta, à medida em que a crise do capitalismo for aprofundando-se e o descompasso entre a oferta de empregos para profissionais com formação superior e o contingente de candidatos dela dotados a buscarem empregos se tornar cada vez maior, condenando a grande maioria à frustração e ao exercício de funções sem nada a ver com aquelas para as quais se capacitaram.
Desde a onda de ocupações iniciada em 2007 pela tomada da reitoria da USP, o movimento estudantil brasileiro vem tentando renascer. Mas, quase duas décadas depois, ainda está longe de atingir a amplitude e a consistência do de 1968, talvez por não haver tido como fermento a truculência e o obscurantismo de uma ditadura, contra a qual, necessariamente, os melhores seres humanos tomavam partido.
Zuenir Ventura, contudo, está certo: 1968 foi um ano que não terminou. A revolução ainda voltará a identificar-se com as flores e as primaveras, depois deste longo inverno da desesperança que nos está sendo imposto. Ainda veremos outras primaveras como as de Paris e de Praga, pois há uma lição que a História várias vezes nos ensinou: a humanidade não aguenta viver indefinidamente sem solidariedade e compaixão.
O mundo se tornou um lugar muito ruim para se habitar sob o neoliberalismo, ainda mais na versão selvagem que Donald Trump insiste em tentar nos enfiar goela abaixo. Algo tem de mudar – e esta mudança precisa começar o quanto antes, para deter a marcha da insensatez enquanto ainda existe algo para salvarmos.
E, depois dos terríveis fracassos a que a esquerda domesticada, populista e reformista nos tem conduzido ao longo deste século, a esperança devolta por cimasó pode provir das novas gerações, da juventude que ainda é capaz de sonhar com uma sociedade igualitária e justa, e de lutar com todas as suas forças para concretizar este sonho. Temos de aprender a lição que a História, ultimamente, não cansa de nos ensinar: os que se contentam com um mínimo, acabam ficando sem nada. É hora de voltarmos a mirar o prêmio máximo, aquele pelo qual vale realmente a pena lutarmos: o fim do capitalismo. E é a juventude que pode e deve encabeçar esta luta. Lembrando a grande música do Sérgio Ricardo:se você não vem, eu mesmo vou brigar[4].
Lembrando o Edu Lobo dos melhores momentos: vou ver o tempo mudado e um novo lugar pra cantar[5].
Lembrando o Raulzito, profeta dasociedade alternativaque nos serve de inspiração para transformarmos a sociedade como um todo:oh baby, a gente ainda nem começou[6].
[1] Geraldo Vandré, Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores
[2] Caetano Veloso, É Proibido Proibir
[3] Gil, Capinam e Torquato Neto, Soy Loco Por Ti, América
Nesta sexta-feira, 20/09, a tropa de choque da polícia militar do Rio de Janeiro cumpriu ordem de reintegração de posse da UERJ no Rio. A reintegração foi pedida pela reitoria da universidade, ligada ao PSOL, após quase dois meses de ocupação estudantil contra a chamada AEDA da Fome, uma medida draconiana baixada pela reitoria daquela instituição que suspende uma série de benefícios e auxílios vitais para milhares de alunos pobres.
Na quinta, a reitoria já havia enviado para o campus jagunços descaracterizados para tentar expulsar os estudantes, sem sucesso. Hoje, as forças repressivas vieram em peso e cercaram o prédio, lançando bombas de gás e de efeito. Os confrontos se espalharam pelas ruas do entorno e terminaram com quatro estudantes presos, além do deputado federal Glauber Braga.
Por trás da ação está a aliança entre o lulopetismo, o PSOL e amplos setores do bolsonarismo no Rio de Janeiro, que estão aliados em diversas eleições municipais e estão unidos na defesa dos interesses do financismo e do grande capital. Enquanto estudantes são condenados a abandonar os estudos, por contingência de gastos, bilhões são canalizados para banqueiros e para o agronegócio.
Deixamos aqui nossa solidariedade aos estudantes da UERJ, aos estudantes detidos e ao deputado Glauber Braga! (por David Coelho)
Estive na ocupação estudantil da UERJ - Universidade do Estado do Rio de Janeiro - nesta segunda-feira, 26/08, e pude testemunhar o renascimento do movimento estudantil brasileiro pós-pandemia. Certamente, é a principal mobilização dos estudantes de nosso país nos últimos anos e signo de movimentações maiores que virão no futuro.
A ocupação, que visa fazer cumprir a greve estudantil decretada desde o começo de agosto, ocorre após a reitoria da universidade baixar uma norma cancelando uma série de benefícios pagos aos estudantes carentes. A chamada AEDA da Fome compromete diretamente a permanência e a sobrevivência de milhares de alunos que precisam dos recursos para pagar alimentação, transporte e aluguel e que se viram, da noite para o dia, sem os benefícios.
Como soa acontecer, a Reitoria, supostamente de esquerda, impôs a chamada AEDA (Ato Executivo de Decisão Administrativa, um tipo de decreto-lei dos reitores daquela instituição) sem qualquer diálogo com a comunidade acadêmica e sem consultar qualquer órgão deliberativo. Diante do protesto dos estudantes, agiu com truculência, enviando seguranças privados para reprimir os alunos que ocupavam a sede da reitoria. O efeito, já comprovado à exaustão pela história, foi o alastramento da mobilização estudantil, com o decreto da greve e a ocupação generalizada do prédio da UERJ.
A adesão à greve estudantil é imensa e enquanto estive em visita, mais uma faculdade havia aderido, dessa vez a de Enfermagem. Certamente, a partir de agora será um cabo de guerra com a reitoria aplicando a tática do cansaço e cozinhando os estudantes até esses se desgastarem e aceitarem algum acordo rebaixado, com a ajuda dos agrupamentos estudantis ligados ao PSOL e ao lulismo, que não possuem interesse em ampliar a mobilização dos estudantes.
Porém, longe de ser um ponto isolado, a atual mobilização dos estudantes da UERJ tende a ser um ponto de inflexão de outras mobilizações futuras diante da situação de agravamento da crise capitalista e da falta de respostas do lulopetismo em acelerada decadência. Estamos vendo apenas o começo de imensas batalhas futuras. (por David Coelho)
Estudantes e trabalhadores voltarão às ruas amanhã para protestar contra os cortes no orçamento da Educação e o projeto "Future-se", tentativa do governo atual de terceirizar o financiamento do ensino público. [Será que "F...-se" não estaria mais de acordo com a essência dessa iniciativa?]
A data é agourenta (13 de agosto), até porque o desespero da horda bolsonarista que sente o chão fugir sob seus pés inspira inquietação: os espasmos de agonizantes às vezes são violentos.
O guerreiro Ricardo Kotscho, que não perdeu a sensibilidade do grande repórter que era quando o regime dos generais começava a marchar para a lixeira da História, vê semelhanças com o "final de 1983, nos estertores da ditadura militar, quando líderes de diferentes partidos e de movimentos sociais começaram a discutir formas de mobilização pela redemocratização do país".
Então, confiarei no seu taco:
"Não são só os estudantes, professores e artistas.
A inédita União das Centrais Sindicais mobiliza trabalhadores de todas as áreas, assim como os movimentos sociais e populares, que andavam sumidos das ruas.
É a sociedade civil organizada que está voltando a se manifestar, num momento de sufoco extremo, em que ninguém aguenta mais os desmandos desse governo demente e entreguista, comandado por um capitão desvairado, que agora deu para desfilar de motocicleta e jet-sky por Brasília.
Por onde andei neste final de semana — não sei como ficaram sabendo dos protestos — muita gente já se programava para ir à avenida Paulista, local da manifestação aqui em São Paulo, a partir das 16 horas".
Embora eu não tenha captado tal clima pela cidade, faz todo sentido que a irreversível desmoralização de Sergio Moro e da Lava-Jato, somada às consecutivas e gritantes evidências de descontrole governamental, assim como à constatação da impotência com que nossas bizarras otoridades assistem ao agravamento da crise econômica, tenham feito a paciência dos brasileiros chegar ao limite.
Algo maior está para acontecer, só não se sabe quando. A gota d'água que entornará o copo da insatisfação do nosso povo sofrido pode muito bem fazer sua aparição amanhã!
E uma coisa é certa, a onda neofascista reflui em escala internacional:
— o Brexit está em vias de ser implantado pra valer no Reino Unido, com tal potencial devastador que poderá fazer os britânicos sentirem saudades de quando tinham de suportar só os bombardeios do Hitler;
— as mágicas bestas de Trump na economia caíram no vazio e, sem conseguir entregar o boom econômico prometido na última campanha presidencial, sua reeleição deve virar pó de traque; e
— até na Argentina se desenha uma macro-derrota do Macri, que equivalerá a uma hiper-derrota de Bolsonaro, aquele insensato que andou por lá buscando lã e tende a ter seu prestígio mais tosquiado ainda, se isto ainda for possível...
Neste momento em que as aberrações vindas à tona com a onda ultradireitista começam a afundar de novo nas profundezas de onde jamais deveriam ter saído, estarei na avenida Paulista e espero que todos os leitores deste blog participem das manifestações marcadas para pelo menos 80 cidades brasileiras, na esperança de que venhamos mesmo a contribuir para um momento decisivo nossa da História.
Afinal, tanto quanto no caso do Jânio Quadros, não há período mais emblemático para a queda do Bolsonaro que o mês do cachorro louco. (por Celso Lungaretti)
O gigante adormecido está acordando, após o corte de 30% nas verbas da Educação, em meio à corrida armamentista desencadeada por Bolsonaro.
Desde a manhã de 2ª feira, quando centenas de estudantes cariocas protestaram contra o presidente em frente ao Colégio Militar (vide foto acima), onde ele participava de uma cerimônia, manifestações de professores e alunos se alastram pelo país.
Embora desta vez os meios de comunicação escondam os protestos, ao contrário do que aconteceu em 2013, alunos, estudantes e funcionários já saíram às ruas em São Paulo, Curitiba, Salvador, Niterói e em Passos, no sul de Minas.
“A gente vai lutar com todas as nossas forças pelo direito de estudar numa instituição de ensino de qualidade e manter nosso campus aberto”, diz Giovana Assis, aluna do Instituto Federal de Passos, onde o MEC cortou R$ 16 milhões, o que corresponde a 40% da verba deste ano.
O Sindicato Nacional dos Servidores da Educação Básica, Profissional e Tecnológica convocou para o próximo dia 15, 4ª feira, o Dia Nacional de Luta em Defesa da Educação, que também já está mobilizando as entidades estudantis de todo o país.
Segundo o Sinasafe, este dia servirá como esquenta para a greve geral do dia 14 de junho convocada pelas centrais sindicais.
Com a oposição partidária e parlamentar ainda na tela de repouso, limitada a alguns deputados como Ivan Valente, Alessandro Molon e Paulo Teixeira e outra meia dúzia de quixotes, mais uma vez são os estudantes e professores que saem à frente na defesa dos seus direitos e da democracia.
Na mesmo dia dos protestos no Rio, milhares de manifestantes foram às ruas em Salvador contra o corte de R$ 3,7 milhões na Universidade Federal da Bahia.
Na quarta-feira, estudantes e professores promoveram a Marcha da Ciência contra os cortes de verbas da Educação, na avenida Paulista, em São Paulo, ao mesmo tempo em que o movimento Lutar e Educar, ligado à Universidade Federal do Paraná, protestou em Curitiba, assim como aconteceu na Universidade Federal Fluminense, em Niterói.
Bolsonaro abriu várias frentes de batalha ao mesmo tempo. Talvez sem se dar conta, além de confrontar o alto pijamato dos generais para defender o guru Olavo de Carvalho, o presidente jogou o povo das universidades contra o governo, com a entrada em cena de Abraham Weintraub, o alucinado novo ministro da Educação que resolveu declarar guerra ao marxismo cultural.
Ao decretar o liberou geral de armas e munições, o capitão reformado arrumou confusão também com a bancada evangélica, uma das bases de sustentação do seu governo, que já se declarou contrária às medidas.
Aonde ele quer chegar?
Eleito por 57 milhões de brasileiros num colégio eleitoral de 147 milhões (ou seja, 89 milhões não votaram nele), o presidente se dirige cada vez mais aos chamados bolsonaristas de raiz das redes sociais, liderados por seus filhos, e esquece de governar o país.
Em pouco mais de quatro meses de mandato, corre de um lado para outro para apagar incêndios, provocados por ele mesmo, sem conseguir apresentar um programa de governo.
A crise muda de patamar quando sai dos gabinetes e da internet para as ruas, como já começa a acontecer.
Com o desemprego crescente, a economia paralisada e sem perspectivas de melhorar, uma base parlamentar fragmentada comandada por amadores e o PIB em queda, a unica iniciativa do governo até agora foi cortar verbas, fechar conselhos e destruir programas sociais.
Diante deste cenário tenebroso, a sociedade civil está começando a se reorganizar e dar sinais de vida como aconteceu em 1984, já no fim da ditadura militar. A diferença é que agora o governo está só começando.
"DE UM LADO, CASSETETES E CHUTES DE COTURNO. DO OUTRO, BOLINHAS DE GUDE DERRUBANDO CAVALOS"– O vendaval parisiense chegou ao Brasil principalmente por via de influência da contracultura, mas, segundo o historiador e ex-militante estudantil Daniel Aarão Reis, não teve impacto no que se viu nas ruas do Rio de Janeiro em junho. “O alvo principal do movimento estudantil em 1968 era a política educacional do governo e a reivindicação por mais verbas era algo bem distante do que acontecia em Paris”, diz Aarão Reis.
6ª feira sangrenta:manifestantes enfrentando a repressão com paus e pedras.
Contudo, como Ventura lembra em seu livro, se as mobilizações francesas não foram determinantes para o ano brasileiro, “Costa e Silva, patético, prometia: ‘Enquanto eu estiver aqui, não permitirei que o Rio se transforme em uma nova Paris”. A declaração do presidente militar é de 12 de junho e, passada apenas uma semana, no dia 19, 4ª feira, foi dado início aos acontecimentos que levaram até a 6ª feira sangrenta, 21.
Tudo começou com um grupo de estudantes que foi ao Ministério da Educação, então no Rio de Janeiro, para expor as pautas do movimento estudantil. A iniciativa terminou em repressão policial, que, pela primeira vez, foi respondida também com violência e não apenas com dispersão.
Palmeira: "Batemos na polícia pela primeira vez"
“Quando a polícia veio, naquele passo terrível, largo, aqueles passos de ganso, resolvemos resistir. Batemos na polícia pela primeira vez”, lembra Vladimir Palmeira, então presidente da União Metropolitana dos Estudantes, no mesmo Memória do Movimento Estudantil. O que se seguiu foram horas de perseguição e enfrentamento. De um lado, cassetetes e chutes de coturno. Do outro, bolinhas de gude derrubando cavalos.
Já no dia 20, 5ª feira, cerca de 400 estudantes foram presos após uma assembleia geral no Teatro de Arena da Faculdade de Economia. No campo do Botafogo, eles foram enfileirados e humilhados. “A descrição de soldados urinando sobre corpos indefesos ou passeando o cassetete entre as pernas das moças, junto às imagens de jovens de mãos na cabeça, ajoelhados ou deitados de bruços com o rosto na grama, eram uma alegoria da profanação”, escreve Ventura. O que começou com a morte de Edson Luís, quando uma questão universitária relativa ao restaurante Calabouço cresceu para além das assembleias estudantis, ficou ainda mais intenso após os dias 19 e 20.
Aí, então, veio a 6ª feira sangrenta. “Nesse dia, o Rio não ficou nada a dever à Paris das barricadas – e não por mimetismo, como temiam as autoridades militares. A motivação estava aqui mesmo”, escreve Ventura. Tudo teve início com um pequeno protesto, às oito da manhã, na praça Tiradentes, centro da capital carioca, contra os eventos de 4ª e 5ª feira; e acabou se transformando numa batalha de cerca de 12 horas, em plena avenida Rio Branco.
Quando a repressão policial chegou, já depois do horário do almoço, a população tomou partido e começou a jogar objetos das janelas contra os policiais. Tudo começou com alguns gelos arremessados, até que passaram a cair máquinas de escrever, garrafas, cinzeiros, cadeiras e vasos de flores. “Participei como cidadão comum naquele dia, em que foi possível ver de tudo: de carros da polícia virados até garotos montando cavalos, com capacetes de policiais militares caídos, galopando pelas ruas centrais da cidade” relembra Aarão Reis. Para ele, aquele momento, em que a população apoiou os estudantes espontaneamente, é uma marca da insatisfação que parte da classe média vinha mostrando com os rumos econômicos e autoritários da ditadura. “Eram setores que acreditavam que 1964 seria apenas uma operação cirúrgica destinada a varrer os comunistas e trabalhistas”, diz.
Junho de 1968, depois da 6ª feira sangrenta, ficaria definitivamente marcado como o mês das grandes mobilizações de rua. Cinco dias depois, em 26 de junho, aconteceu a famosa passeata dos 100 mil, que reuniu estudantes, artistas, intelectuais, religiosos e população em geral para protestar contra as violências da ditadura. As fotografias desse dia, muitas feitas também por Evandro Teixeira, que registrou a 6ª feira sangrenta, são simbólicas. Numa imagem, aparecem Caetano Veloso, Gilberto Gil, Vinícius de Moraes, Paulo Autran, José Celso Martinez… Noutra um estudante, numa das foto mais conhecidas do período, picha: Abaixo a ditadura nos muros do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Dessa vez, a resposta do regime militar não viria nas ruas, mas em um processo de recrudescimento cada vez maior que acontecia nos corredores de Brasília.
“Já no segundo semestre, sem forças, os movimentos começaram a declinar. O estouro do 30º Congresso da UNE, em outubro, só fez consolidar a curto prazo, este declínio”, diz Aarão Reis. Junho de 1968 foi o ápice do movimento, a 6ª feira sangrenta o momento mais próximo de uma insurreição popular e a passeata dos 100 mil uma amostra irrefutável do descontentamento geral contra a ditadura. A partir de junho, contudo, as coisas esfriaram. O movimento estudantil debatia próximos passos internamente e a repressão avançava. Em outubro, como relembra Aarão, um congresso da UNE, em Ibiúna, interior de São Paulo, foi invadido pela repressão e os principais líderes estudantis presos. Alguns falam em até 900 presos. Todos seriam fichados no Dops, a polícia política do regime.
As mobilizações do Rio de Janeiro não foram um caso isolado naquele ano. P. ex., no próprio segundo semestre, em outubro também, houve a conhecida batalha da rua Maria Antonia, em São Paulo, quando estudantes da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP entraram em confronto com os do Mackenzie, apoiados pelo Comando de Caça aos Comunistas.
Na verdadeira guerra campal que se abriu na rua, que abrigava as duas universidades, um estudante morreu. Em Brasília e Belo Horizonte, as universidades federais também foram palco de movimentações estudantis e invasões militares, em diferentes meses do ano. E o movimento sindical, embora enfraquecido na época, também se mobilizou, tendo ocupado fábricas na cidade mineira Contagem, em abril, e na paulista Osasco, em julho.
“Tudo tinha uma marca forte de improvisação, era um processo muito embrionário de mobilizações. A rigor, todos estes movimentos, embora apresentando aspectos novos, devem ser vistos, quando a gente pensa neles em conjunto, como um último sopro dos processos sociais mais densos que se verificaram antes de 1964”, diz Aarão Reis. O AI-5 colocaria todos na ilegalidade, a UNE continuaria seu trabalho sempre na clandestinidade e a luta armada surgiria como opção contra um regime que, como visto em junho, sofria de impopularidade em diferentes setores da sociedade.
Este blog jamais poderia deixar os 50 anos da passeata dos 100 mil passarem em branco. Num primeiro momento, pensei até em publicar o trecho do meu livro Náufrago da Utopia a ela dedicado.
Mas, avaliando melhor tal possibilidade, conclui que seria pouco, um relato de quem acompanhou a passeata à distância, mais focado no que rolava no movimento estudantil de São Paulo, meu campo de atuação (daí, no livro, tê-la descrito com base em reportagens jornalísticas e livros).
O que eu não soube por leituras, mas testemunhei e me impressionou, foi a meteórica notoriedade que o Vladimir Palmeira adquiriu entre nós; até então, era uma referência distante.
Também me ficou na lembrança o que o valoroso companheiro José Raimundo da Costa, o Moisés, último comandante da VPR (dissolvida após sua morte), me contou.
O saudosoMoisés
Àquela altura, perseguido intensamente pela repressão (um desafeto dele se tornara figurão do Cenimar), trabalhava sob identidade falsa como gerente de uma empresa de transportes. E, percebendo que algo muito importante estava para acontecer, não teve dúvidas: foi para o aeroporto, com o terno que estava usando no serviço.
Havia voo disponível, chegou na Cidade Maravilhosa em tempo e deu tudo certo, menos um certo desconforto por alguns manifestantes olharem para ele de esguelha, suspeitando que fosse policial à paisana.
Enfim, dando uma peneirada em tudo que encontrei sobre a passeata na busca virtual, acabei chegando a um artigo impecável, o de André de Oliveira, repórter do jornal El País. A ele, pois!
MAIO DE 1968 NÃO FOI UM MÊS
NO BRASIL, MAS UM ANO INTEIRO
Por André de Oliveira
Maio de 1968 foi diferente para os estudantes brasileiros. A começar pelo fato de não ter sido um mês, mas um ano intenso de muito mais perdas do que ganhos.
Lá fora, a panela de pressão misturava movimentos de contracultura, palavras de ordem anti-sistema, reivindicações de cunho identitário e protestos contra a Guerra do Vietnã; aqui, o inimigo era mais palpável: a ditadura militar.
“Por isso, a nossa geração de 68 foi a que mais caro pagou por sua rebeldia, através de prisões, tortura, exílio e até morte”, escreve Zuenir Ventura em seu clássico 1968 — o ano que não terminou. Se durante o ano houve dezenas de mobilizações estudantis, tudo acabou em 13 de dezembro, com o Ato Institucional nº 5, que inaugurou o período de maior repressão da ditadura.
Uma foto dessas mobilizações é conhecidíssima. Dois militares, cassetetes na mão, perseguem de perto um homem que, caindo, joelhos dobrados, óculos voando alguns centímetros à frente, um pé já tocando o chão e braços abertos em cruz, está prestes a se esborrachar.
Um policial, o da esquerda, corre com os lábios presos, talvez, pronto para desferir uma cacetada. O outro, com uma das mãos espalmada, parece querer agarrar pela camisa o homem barbudo, que dificilmente conseguirá escapar das pancadas que certamente levará.
Ao longe, no meio da rua, um careca vara pau observa a cena calmamente. Mais para trás, vê-se um aglomerado difuso de gente, que sugere corre-corre.
A imagem de Evandro Teixeira, no centro do Rio de Janeiro, é de 21 de junho, a data que ficou conhecida como a sexta-feira sangrenta, um dos pontos culminantes daquele 1968. Contudo, para se chegar a esse dia, quando os estudantes, com participação espontânea de um bom número de civis, travaram uma batalha de horas contra os militares no centro carioca – deixando um saldo, em uma das versões, de ao menos cinco pessoas mortas, entre estudantes e policia – é preciso falar de acontecimentos anteriores (e também posteriores) que sumarizam todo o ano de mobilizações estudantis.
Um ponto de partida possível é Edson Luís. Secundarista, Edson Luís foi morto em 28 de março, aos 18 anos, durante a invasão militar do restaurante estudantil Calabouço – que era alvo de reivindicações pois teve o preço das refeições aumentado.
A morte do estudante, que sequer participava de algum movimento organizado e estava no local porque, filho de uma família pobre do Pará, vivia ali de favor para poder cursar o 2º grau na capital carioca, gerou grande indignação.
No documentário Memória do Movimento Estudantil, o então presidente da União Nacional dos Estudantes, Jean Marc Van Der Weid, lembra que o assassinato de Edson Luís foi o gatilho para uma série de eventos que atraiu, inclusive, a simpatia de setores da classe média que, até então, mantinham-se alheios à repressão da ditadura.
À pauta do movimento estudantil, que pedia mais verbas para a educação, além de travar uma luta pelos excedentes –quem havia passado no vestibular, mas não encontrava vaga na Universidade– somava-se à denúncia contra a violência militar sob as palavras: “E se fosse um filho seu?”.
Um dia depois da morte do secundarista, o cortejo de seu enterro reuniu 50 mil pessoas, que caminharam da Assembleia Legislativa, no centro do Rio de Janeiro, até o cemitério São João Batista, no bairro de Botafogo, zona sul.
Houve, entre estudantes e figuras conhecidas, quem passasse a noite inteira velando o corpo do secundarista, como fez o intelectual Otto Maria Carpeaux, que na época não era nenhum menino, tinha 68 anos.
A missa de sétimo dia de Edson Luís foi outro acontecimento. Centenas de pessoas foram à Igreja da Candelária prestar homenagens e se despedir, mas na saída acabaram reprimidas pelos militares. Depois disso, vieram os ventos franceses de Maio de 1968. (continua neste post)
É sintomático o silêncio dominante atual a respeito de Maio de 68 no Brasil.
Em circunstâncias normais, poderíamos esperar uma reflexão articulada a respeito deste momento importante da história nacional, suas aspirações e impasses. No entanto, algo funciona atualmente sob a sombra da lógica do esquecimento, como se fosse questão de melhor não lembrar o que pode sempre retornar.
Lembremos como a ditadura militar brasileira havia se imposto como uma experiência transitória. Logo após o golpe, ainda se falava em eleições presidenciais em 1965. Foi aos poucos que a intervenção militar mostrou sua verdadeira face, a saber, aquela de um regime que nunca iria passar por completo, que mesmo depois de terminado saberia como continuar.
O sentimento social de sufocamento crescia com a promulgação de uma Constituição autoritária, com a consciência da impossibilidade da via eleitoral, como os casuísmos que apareciam diante dos resultados eleitorais desfavoráveis à ditadura.
29 de março de 1968: enterro do jovem Edson Luís de Lima Souto inflamou o movimento estudantil
Nesse contexto, as revoltas estudantis aparecem como o primeiro momento efetivo de resistência à ditadura. Elas colocavam em questão os modos de oposição reinantes, já que o Brasil desenvolvera uma ditadura com uma capacidade de amortização de tensões maior do que aquelas que conheceriam seus vizinhos.
Estamos a falar de uma ditadura que criou um partido de oposição para chamar de seu, não por acaso o conhecido MDB. Uma ditadura que aplicou não o princípio do assassinato em massa, mas do assassinato seletivo que tinha a força de paralisar todo o conjunto da vida social com um esforço menor.
Nesse horizonte, constituíram-se os primeiros grupos efetivos de luta armada no Brasil. Ou seja, a história de Maio de 68 no Brasil é indissociável dessa opção pela luta armada que levaria boa parte dos estudantes à clandestinidade.
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."Toda ação contra um Estado ilegal é uma ação legal. Mesmo segundo princípios liberais, a luta armada contra a tirania é um direito" (Vladimir Satatle)
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A violência contra eles seria ainda mais brutal do que aquela que ocorreria em outros países latino-americanos. Pois até hoje seus corpos continuam desaparecidos, seus nomes, apagados da memória nacional, suas ações, recusadas.
Mas seria importante lembrar como o contexto legitimava tal escolha. O Brasil se situava em meio a uma ditadura claramente tipificada enquanto tal.
Um princípio fundamental a ser aceito em qualquer democracia que queira fazer jus a tal nome, mesmo uma democracia liberal, é: toda ação contra um Estado ilegal é uma ação legal. Mesmo segundo princípios liberais, a luta armada contra a tirania é um direito.
Participantes do 30º congresso da UNE, em Ibiúna (SP), sendo levados presos em outubro de 1968
Note-se que vários líderes da luta armada, como Carlos Marighella, eram até então atores políticos bastante integrados ao que se chamaria de jogo democrático. Marighella opta por organizar a luta armada apenas após a implantação da ditadura militar, abandonando assim a diretriz hegemônica do PCB de então.
Ou seja, sua escolha é motivada por um fechamento do horizonte político nacional, ela responde a tal fechamento.
Impor a uma sociedade a brutalidade da ditadura, da censura e da exceção e ainda esperar que a integralidade de seus cidadãos não use de todos os meios para se rebelar é desconhecer as dinâmicas mais profundas da história dos povos.
Um dos jovens estudantes que foram à luta armada
Nesse sentido, Maio de 68 no Brasil mostrou claramente como emergia uma juventude que não estava disposta a continuar a ser sufocada.
Ela foi fundamental para que o Brasil conservasse uma dinâmica de transformações possíveis e de tensões. Ela deixou filhos e netos, de sangue e de espírito, que nunca estarão dispostos a esquecer o que eles fizeram e o que representaram.
Há um dever de memória a ser feito, ainda mais nos momentos sombrios da história nacional.