Se eu tivesse de escolher a melhor peça teatral brasileira de todos os tempos, cravaria sem pestanejar Arena conta Zumbi, que estreou no dia do trabalhador de 1975, mas serve também, até melhor, para marcar o dia da libertação dos escravos (hoje).
Afora o verdadeiro achado que foi, para compensar a parcimônia de recursos do teatro do oprimido, a criação do sistema do curinga (os mesmos atores alternam-se na representação de vários personagens, só mudando um ou outro item da indumentária), tratou-se de uma peça brilhante e indignada: expressou a frustração e a raiva pela rendição sem luta de 1964, uma das páginas mais vergonhosas da esquerda brasileira ao longo da História.
Quando a censura forçava os artistas a recorrerem a subterfúgios para conseguirem levar sua mensagem ao público, a saga dos quilombos foi utilizada para simbolizar o ascenso dos movimentos de massa e seu esmagamento pelo golpe militar.
Os paralelos, ironias e insinuações perpassam todo o espetáculo. Há, inclusive, uma velada conclamação à luta armada, que dali em diante se tornaria cada vez mais explícita no teatro, no cinema e na MPB.
E o elenco era um arraso, com o próprio Guarnieri, Lima Duarte, David José, Dina Sfat, Marília Medalha, Carlos Castilho, etc.
Para os jovens conhecerem e os menos jovens matarem as saudades, eis o disco da peça, com 45 minutos de músicas (do Edu Lobo, algumas das quais se tornaram clássicos da MPB), diálogos e até o discurso de posse de um mandatário linha dura, cuja retórica é uma paródia hilária dos zurros dos golpistas de 1964.
Para finalizar, uma curiosidade: foi a primeira peça de teatro adulto a que assisti, em temporada popular no Theatro Artur Azevedo. Tinha 14 anos e a epopeia dos quilombolas me impactou fortemente. (por Celso Lungaretti)

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