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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

2 FILMES E 4 CANÇÕES SOBRE O HEROICO COMANDANTE GUEVARA, O 'CHE PUEBLO'

 
"El nombre del hombre muerto 
ya no se puede decirlo, quién sabe?
Antes que o dia arrebente, 
antes que o dia arrebente.
El nombre del hombre muerto, 
antes que a definitiva noite 
se espalhe em Latinoamérica,
el nombre del hombre es Pueblo, 
el nombre del hombre es Pueblo"
(Capinam, Gil e Torquato)
No final da década de 1960 eram muitos os jovens que, em todo o mundo, viam Che Guevara como o próprio símbolo da revolução.

Enquanto Marx, Lênin, Stalin, Trotsky, Mao e o próprio Fidel só significavam algo para os politizados, o Che tinha uma força simbólica indiscutivelmente maior -- e muito mais adeptos na faixa da adolescência e mocidade.

Quais serão os motivos de culto tão perene?

Há quem o atribua, depreciativamente, à semelhança visual entre o Che abatido e o Cristo crucificado, omitindo que as trajetórias também são semelhantes.

Ambos desdenharam os bens materiais e foram solidarizar-se com os pobres, oferecendo-lhes apoio e esperanças. Despertaram a fúria dos poderosos de seu tempo e foram por eles destruídos, terminando sua jornada com muito sofrimento.

Vale também lembrar que os relatos que chegaram até nós sobre o homem de \Nazaré não têm áreas nebulosas como aqueles episódios em que Guevara parece haver incorrido em violência excessiva.
Filme de Walter Salles (2004) sobre o Che de antes da revolução  
Mas, se Cristo disse que não vinha trazer a paz, mas a espada, foi Guevara quem a empunhou. E a guerra nunca inspirou os melhores sentimentos ao ser humano. Pelo contrário, desperta seus piores instintos.

Então, a luta justificada e necessária contra o tirano Fulgêncio Batista pode ter feito aflorar o Robespierre latente naquele homem antes tão afável, como foi retratado no filme Diários de Motocicleta.

Contradições são, enfim, inerentes a todo ser humano. Não existe o herói perfeito e impoluto, salvo em nossa imaginação. 
Canção do Gil e Capinam; participou do Festival da Record de 1967.
ERA BRIZOLA UM GUSANO? – Um relato interessante foi o que me fez o companheiro Moisés (José Raimundo da Costa), antigo militante do Movimento Nacionalista Revolucionário, responsável pela abandonada guerrilha de Caparaó. 

Disse que a dita cuja era parte do projeto de criação de um eixo guerrilheiro unindo Brasil e Bolívia, mas Leonel Brizola, a quem cabia desencadear a luta em nosso país, teria produzido apenas um arremedo de guerrilha, para justificar a dinheirama que recebera do governo cubano.

Não tenho como confirmar, mas as datas coincidem. E algum motivo deve haver para os cubanos naquele tempo se referirem a Brizola como um gusano (verme).
Canção do Milton e Fernando Brant; estava no Festival da Record de 1968   
Totalmente identificado com Fidel até a tomada de poder e durante os primórdios do governo castrista, Guevara acabou percebendo que o socialismo de seus sonhos não seria possível numa ilha pobre, asfixiada pelo embargo comercial estadunidense e obrigada a sujeitar-se às imposições da URSS em troca de ajuda econômica e proteção militar.

Seguindo o exemplo de Garibaldi e Bolívar, ele foi lutar noutros países. Abriu mão do poder e de honrarias para efetuar tentativas desesperadas de romper o isolamento da revolução cubana. E, após sua morte, acabou se tornando o símbolo maior do internacionalismo revolucionário.
EXECUTADO UM DIA APÓS SUA CAPTURA – Seu exemplo e seu martírio inspiraram os jovens que, em 1968, protagonizaram a última maré revolucionária. Tanto os marxistas que foram à luta armada, quanto os neo-anarquistas que barricaram Paris e cercaram o Pentágono, tinham Che como símbolo..
Canção de Cesar Roldão Vieira que participou do III FIC, em 1968 
Tornou-se o maior mito libertário do nosso tempo, alimentando as esperanças de que ainda aconteça aquela revolução com a qual os melhores seres humanos sempre sonharam e Marx tão bem delineou, o reino da liberdade, para além da necessidade.

Pode-se supor que, como Trotsky, ele tenha concluído que a revolução invariavelmente se deforma quando fica restrita a um só país – ainda mais uma nação pobre, atrasada e asfixiada pelo embargo comercial, como Cuba. 

E fez o que poucos fariam: assumiu a missão de encontrar uma saída para o impasse, nas condições mais desfavoráveis.
Canção do Vandré que só foi liberada após a abertura do ditador Geisel 
Morreu em outubro de 1967, executado um dia após sua captura pelo exército boliviano, que nada mais era do que um testa de ferro dos exterminadores dos EUA. Participaram da operação os rangers e os green berets do exército estadunidense, além de agentes da CIA. 

No mundo todo, os jovens que também lutavam contra o Império se identificaram com seus sonhos e seu exemplo. 

Não foram uma foto e um pôster que o transformaram em mito, mas sim esse exemplo de dedicação a uma causa justa até o sacrifício extremo.
Primeiro filme (2009) do Steven Soderberg (2009) sobre a trajetória do Che .
E, como os corações mais sensíveis e as mentes mais lúcidas não conseguiram vencer o sistema regido pela desigualdade e ganância, Che inspira até hoje os que não aceitam o capitalismo globalizado como o fim da História.

Daí a inutilidade dos frequentes ataques à memória do homem Ernesto Guevara -- como os lançados pela mídia reacionária.

Jamais atingirão, contudo, o mito Che Pueblo, personificação dos ideais igualitários que os melhores seres humanos vêm acalentando através dos tempos. (por Celso Lungaretti) 
Observação; fico devendo uma canção raríssima que Sergio Ricardo cantava 
em 1968 com o título de Che Guevara não morreu, foi proibida e voltou
 a partir da abertura política, rebatizada  de Aleluia (CL)
Sequência (2009) do filme do Steven Soderberg sobre a trajetória do Che

quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

HÁ 2 FILMES BASEADOS EM HISTÓRIAS REAIS QUE TÊM PONTOS EM COMUM COM "AINDA ESTOU AQUI". VEJA-OS E COMPARE.

J
á que as novas gerações começam a interessar-se pelo festival de horrores das ditaduras sul-americanas nos anos de chumbo, é um bom momento para indicar-lhes dois filmes que, em muitos aspectos, vão além de Ainda estou aqui na exposição dos crimes hediondos cometidos pela extrema-direita de então (que continua inspirando a de hoje!).

Desaparecido: um grande mistério (1982), p. ex., mostra centenas de cadáveres espalhados em grandes ambientes, saldo da bestial repressão desencadeada pelos golpistas de Augusto Pinochet assim que derrubaram o presidente chileno Salvador Allende, em 1973. 

Além disto, escancara o envolvimento da CIA naquela quartelada, algo que ocorreu também no Brasil mas não consta de Ainda estou aqui, sabe-se lá o porquê. A cúpula estadunidense estava ciente de todas as execuções e sumiços de restos mortais perpetrados pelos militares brasileiros, o que vem sendo comprovado desde que começaram a ser abertos, do lado de lá, os arquivos secretos daquele período (e ainda faltam muitos...)

Os fascistas chilenos foram responsáveis por mais de 3 mil mortes e desaparecimentos políticos, pela tortura de milhares de prisioneiros e pelo exílio de pelo menos 200 mil pessoas.

O filmaço do diretor grego Costa Gravas mostra um cientista cristão estadunidense (Jack Lemmon) desembarcando no Chile em busca do filho jornalista que sumira durante os primeiros dias do golpe. Ele chega convicto de que as pesadas denúncias contra o regime seriam exageros da propaganda esquerdista. 

Contará, na sua empreitada, com a ajuda da nora (Sissy Spacek), a quem até então desprezava por ser uma moça de costumes modernos. E terá portas abertas para suas investigações pessoais porque uma notícia desfavorável que circulasse no poderoso movimento religioso ao qual pertence poderia causar enorme dano aos carrascos chilenos e a seus cúmplices estadunidenses, daí preferirem apaziguá-lo.

Aos poucos vai dolorosamente se inteirando de que a verdade era muito pior do que imaginava. A ponto de, tão logo volta para os EUA, processar seu governo por cumplicidade na morte do filho. Disponível no streaming da Globo Play.
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"SÓ QUERIA EMBALAR MEU FILHO
 QUE MORA NA ESCURIDÃO DO MAR"
.
Já o episódio evocado por
Zuzu Angel (filme de 2006, dirigido por Sérgio Rezende) ocorreu nos anos Médici, o pior momento da ditadura brasileira. 

Em 1971, o filho da conhecida estilista Zuzu Angel, o militante do MR-8 Stuart Angel,  já muito debilitado por torturas, foi amarrado à traseira de um jipe da Aeronáutica e arrastado com a boca colada ao cano de descarga do veículo. Em seguida, atiraram o corpo no mar.

Zuzu denunciou incansavelmente o assassinato e a ocultação do cadáver de Stuart. Chegou a invadir uma auditoria militar e lá gritar corajosamente a sua revolta de mãe. Foi vítima fatal de um acidente automobilístico pra lá de suspeito, em 1976.

Chico Buarque, amigo a quem ela escrevera carta levantando a possibilidade de ser igualmente assassinada pelos militares, homenageou-a com a canção “Angélica”, lançada em 1981, quando o Brasil começava a desmontar a engrenagem repressiva de exceção.

Tanto quanto Desaparecido..., também Zuzu Angel bate mais pesado do que Ainda estou aqui nos vilãos que produziram essas páginas infames da nossa história. 

Como contemporâneo e vítima dessa sanha repressiva, dou meu testemunho de que o David Coelho (vide aqui) tem toda razão ao avaliar o filme do Walter Salles como bonzinho demais com verdadeiras bestas-feras. (por Celso Lungaretti)
 

terça-feira, 28 de janeiro de 2025

AINDA ESTOU AQUI É UM RETRATO DESPOLITIZADO E REVISIONISTA DA DITADURA MILITAR

Em Ainda Estou Aqui, lançado em 2024 e que traz Fernanda Torres e Selton Melo nos papéis principais de Eunice Paiva e Rubens Paiva, a ditadura militar brasileira é praticamente um pano de fundo para o desenvolvimento do drama familiar em torno do desaparecimento do pai, Rubens. O motivo para tal desaparecimento poderia ter sido variado, sendo causa para as angústias e dilemas familiares dos Paiva, mas ocorreu de ser pelo sequestro perpetrado pelos aparatos repressores do estado. 

Importante colocar que o filme não é sobre Rubens Paiva, mas sobre Eunice Paiva e todo ele se passa por sua perspectiva. Somos apresentados a uma típica família de classe média do Rio de Janeiro dos anos 1970, quase de margarina, frequentadora das praias de Copacabana, que adora recepcionar os amigos, com planos para construir uma nova casa e cuja filha se prepara para estudar em Londres. A ditadura aí é um detalhe, surgindo furtivamente nos caminhões com soldados ou na blitz responsável por atrasar o retorno da filha para casa. De resto, tudo vai bem.

Em Ainda Estou Aqui a ditadura aparece para 
atrasar o retorno das pessoas para casa.

Em certo sentido, há um realismo aqui, pois uma parte considerável da classe média brasileira daqueles períodos de falso milagre econômico deveriam mesmo viver a dolce vita, só tropeçando na ditadura ocasionalmente. Mesmo os trabalhadores, esmagados pelo arrocho, estavam siderados pela economia aquecida e a popularização da TV, item antes de luxo. Os revolucionários, isolados, amargavam a derrota das guerrilhas e iam caindo uns atrás dos outros. 

Contudo, a família retratada não é qualquer uma, mas a família de um ex-deputado do PTB, ex-exilado, retornado ao país com a promessa de não se envolver mais em política. Não eram raros os retornos de exilados após fazerem acordos com os militares. Um exemplo notório é de Álvaro Vieira Pinto, antigo diretor do ISEB - Instituto Superior de Estudos Brasileiros -, considerado inimigo mortal pelos golpistas de 1964 e que, após ficar no exílio na Iugoslávia e no Chile, retorna ao Brasil em 1968 para nunca mais sequer publicar um artigo de jornal com seu nome. Outros voltam e, além de abdicarem de suas atividades políticas ou intelectuais, também se curvam diante dos ditadores, caso de Geraldo Vandré, cuja submissão aos militares após seu retorno é conhecida. 

Cada com seus acordos para voltar à pátria-mãe. Porém, Rubens Paiva parece não ter cumprido sua parte do trato e volta a se imiscuir na política, para surpresa de sua esposa. O filme não mostra quais seriam as atividades políticas de Rubens Paiva, fica o dúbio nos telefonemas para ele, nas entregas noturnas e nas reuniões reservadas em seu escritório. Lembremos que o filme transcorre na perspectiva de Eunice, então, na realidade, tal modo dúbio nos é apresentado por ela mesma. Mas aí reside um ponto crucial na trama do longa, pois essa dubiedade fica lançada na tela para justificar que a prisão de Rubens teria sido injusta, pois o ex-deputado não estaria envolvido em política. Algo semelhante também é sempre reafirmado no caso de Herzog, ele não estaria envolvido em política. 

O drama familiar é retratado de forma contida.

Ora, qual o fundo disso? Uma sutil reafirmação que a mobilização política contra o regime militar era de fato um crime, agravado em caso de envolvimento com a luta armada. Algumas cenas de Ainda Estou Aqui, inclusive, reafirmam esse pecado da luta armada. No fim, é a visão mdbista de oposição consentida ao regime sendo reafirmada: a oposição só pode ser institucional, compactuando com as diretrizes políticas, econômicas e sociais da ditadura, particularmente sua guerra contra os subversivos. 

A crença no sistema jurídico da ditadura, inclusive, é reafirmada quando Eunice - seria candidamente? - sugere ir à polícia denunciar o desaparecimento de seu marido e quando o caminho do habeas corpus é insistentemente apresentado com uma fé quase religiosa. Mais uma vez, o espectador fica com a impressão que não se está em uma ditadura, mas em um regime político como qualquer outro em que uma simples carteirinha da OAB tem imensos poderes sob a milicada. Até a imprensa parece ser livre, pois Eunice fala abertamente ao jornalista sob seu caso e chega mesmo a criticar a censura. Em uma cena de puro delírio histórico, Cid Moreira, âncora do Jornal Nacional da Globo, é ouvido narrar que presos políticos foram libertos em troca do embaixador suíço sequestrado pela guerrilha. É difícil acreditar que o doutor Roberto Marinho deixasse que seu principal telejornal lesse um texto falando em presos políticos ao invés de subversivos ou terroristas. Tal cena, sutil, é exemplificadora do revisionismo histórico do filme, tentando livrar a imagem da Globo que, conforme é de conhecimento geral, funcionava como canal oficioso da ditadura. 

Roberto Marinho deixava que seu telejornal
falasse em presos políticos?

Outra cena emblemática é um soldado dizendo a Eunice não concordar com o tratamento por ela recebido na prisão. Ou seria não concordar com as próprias torturas e com a ditadura em geral? O filme deixa, mais uma vez, a dubiedade. Fato é que o famoso tira bom entra em cena aqui para, em mais um revisionismo, defender que nem todas as forças armadas compactuavam com aqueles crimes. Ora, os militares contrários ou tinham sido expulsos em 1964 ou haviam ido para a luta armada. Embora possa ser verídica a presença dos compassivos militares ao lado das câmaras de tortura - igual aos compassivos nazistas dos campos de extermínio - sua presença em tela não visa outra coisa senão limpar a imagem dos militares. 

Mesmo os militares maus, no retrato dicotômico apresentado em tela, são mostrados como praticamente lordes. Um é doutor em paranormalidade, outro adora brincar com crianças, um terceiro pede desculpas por colocar o capuz em Eunice. Claro, tudo pode estar relacionado à condição de classe da protagonista, mas, lembremos, Rubens foi barbaramente torturado e morto muito provavelmente pelos mesmos agentes tão gentilmente retratos para o espectador. Vejamos o clássico Lúcio Flávio, Passageiro da Agonia, filmado durante a ditadura, para ter um retrato mais efetivo de quem eram os agentes da repressão. 

O peso político do desaparecimento de Rubens
Paiva é diluído.
Conforme dito, porém, Ainda Estou Aqui é um drama familiar e a ditadura existe apenas como pano de fundo. Igual a ele existem milhares de filmes abordando a temática do luto pela ausência de um ente querido, com todos os cacoetes relacionados: a privação das crianças da verdade dos acontecimentos, como se elas fossem idiotas, as angústias, os apertos financeiros e finalmente a mudança de rumo, abandonando a casa onde antes estavam. Tudo, no entanto, no filme de Walter Salles, é retratado de forma absolutamente desapaixonada e não vemos drama ou verdadeiro conflito. O sofrimento familiar parece ter sido sublimado, mas o diretor não consegue transmitir, por incapacidade ou escolha, as tensões desse processo de sublimação. A vida prossegue como se o sumiço de Rubens fosse apenas um detalhe. A cena do sorriso chega a ser paradoxal, pois é difícil compreender Eunice insistir em sorrir sabendo que seu marido está morto. Ato de resistência ou negação da realidade? Mais uma vez, fica ambíguo. 

É inabalável a fé na legalidade,
seja a da ditadura...
O drama familiar se fecha na democracia, urdida pelos generais e sem punição aos fardados, quando somos apresentados a dois momentos. Um é quando Eunice recebe a certidão de óbito de Rubens Paiva em 1996 e o outro quando é citada na TV a comissão da verdade do governo Dilma. Eunice agora é uma militante pelos direitos indígenas, advogada, e busca fazer cumprir a Constituição de 1988. Diante do reconhecimento pelo estado e das revelações da comissão da verdade, o drama familiar é encerrado e a família é mostrada reunida com as novas gerações prontas para seguir em frente. A mensagem de Walter Salles e dos produtores globais é que foi feita justiça, Rubens foi reconhecido em sua inocência e a angústia da família enfim pode se encerrar porque a ausência não é mais ausência, mas presença na forma da memória cristalizada pela certidão de óbito e pela elucidação do crime pela comissão da verdade. 

Mais que isso, na Nova República vivemos no melhor dos mundos, em que a verdade do período de chumbo é restituída, bastando se lutar para cumprir a constituição, conforme se diz em uma cena. A mensagem exibida na tela, após o fim do filme, contudo, relativiza o clima otimista do final ao indicar que os militares foram denunciados, mas não condenados. Por que não encenar isso e apenas exibir enquanto mensagem? Talvez porque esse fato desminta a própria mensagem final, ao ressaltar as contradições profundas da redemocratização. 

Ao final, Walter Salles e a Globo entregam um filme despolitizado, um drama familiar comum em que a ditadura militar brasileira é apenas um eco distante. O peso político do desaparecimento de Rubens Paiva é diluído como se fosse um equívoco jurídico. A fé na institucionalidade é reforçada, seja em 1971, seja em 1996, seja em 2014, com uma confiança acrítica nas leis e na constituição, seja ela a imposta pelos generais-ditadores, seja ela a costurada com a burguesia reacionária. 

...seja a da Nova República.
Sem tirar, nem por, é a visão da ala liberal da burguesia brasileira sobre a ditadura e sobre o Brasil de hoje, pois condena na ditadura os abusos, sobretudo contra os inocentes, enquanto faz apologia do Estado Democrático de Direito, ignorando que aqui e agora também existem desaparecidos, torturados e mortos pelas forças policiais e militares. Sua produção e lançamento no contexto atual não é acaso e visa disseminar a mensagem que tudo estaria bem, bastando evitar o retorno dos abusos do passado. A fé judicial do filme casa bem com a fé judicial do pós 8 de janeiro em que Alexandre de Moraes e sua caneta redentora se tornaram pilares da salvação nacional contra o barbarismo bolsonarista. 

O filme tem tudo para sair premiado do Oscar de 2025 pois é exatamente o tipo de produção tão amada pela indústria cultural de Hollywood e pelo imperialismo estadunidense. Aliás, outro grande ausente nas duas horas do filme é justamente os EUA, aparecendo apenas sutilmente nos dólares contados por Eunice já em cena passada durante o período democrático. Em 1996 o Brasil avançava com as medidas neoliberais de FHC e o capital financeiro internacional ia sendo santificado por aqui. Cena aleatória ou mais uma mensagem?

Walter Salles e a Globo nos entregam um melodrama familiar revisionista que, embora tenha seus méritos técnicos, não esconde sua vocação liberal. A respeito do tenebroso período da ditadura militar sempre haverão outros filmes melhores. (por David Coelho)

sábado, 25 de janeiro de 2025

LUNGARETTI E CASAGRANDE NUM DIÁLOGO DE SURDOS SOBRE "AINDA ESTAMOS AQUI"

Celso Lungaretti
 -- O Oscar é tão somente  uma premiação da INDÚSTRIA cinematográfica, serve  para turbinar o faturamento dos filmes nos quais o investimento foi grande e o retorno precisa ser igualmente elevado. Mas, o descompromisso do Oscar com a qualidade é tamanho que foi capaz de não premiar aquele que até hoje se mantém como o melhor filme de todos os tempos, CIDADÃO KANE. Confira a lista dos contemplados ano a ano e você constatará que pelo menos a metade foi de filmes tico-ticos, logo esquecidos. Quanto à ARTE cinematográfica, o principal festival do planeta é, disparado, o de Cannes, no qual nosso cinema sempre obteve o merecido destaque. De você eu esperava mais espírito crítico, não esse embasbacamento diante do MARKETING estadunidense, que nos impinge ouro de tolo inclusive na área artística.

Walter Casagrande Junior
 -- Pode ficar com dor de cotovelo Celso.  Não tem problema. Vc acha que q gente se preocupa com quem torce contra? Não mesmo. Abraço.
Celso Lungaretti
 -- Torcer CONTRA? Se sou parte dessa história e fui procurado por muitos veículos para falar sobre os tempos sombrios! Por que torceria contra? Mas, depois fui crítico de cinema e apoiei os cineastas que criavam um visual e uma abordagem diferenciadas do  Padrão Globo, com aqueles intragáveis cacoetes de telenovela que os filmes do cinemão (que era como apelidávamos as grandes produções hollywoodianas) mantinham. E o que vejo é o abandono das tentativas de fugir dessa camisa de força, a rendição a uma estética conservadora e rasteira. Chateia-me essa obsessão  de viralatas complexados, de ganharem o Oscar, que é só o prêmio com mais marketing em cima, quando já temos várias Palmas de Ouro. Assim nunca forjaremos novos cineastas de qualidade superior, como o Glauber Rocha e outros do cinema novo. Por último: é feio distorcer as opiniões de quem te critica. Por bandeiras que vc prega na coluna eu arrisquei minha vida, derramei meu sangue e chorei a morte de muitos companheiros queridos. Então, mais respeito!

Walter Casagrande Junior
 -- Bom Celso, por aqui todo mundo é gênio, cineasta, médico, crítico de cinema e tudo que quiser  Não sei nem se vc se chama Celso de verdade  Nem se se vc existe mesmo  Vc quer mais respeito? Então aprenda a respeitar as pessoas.

Celso Lungaretti
-- Casagrande, você várias vezes se lamentou publicamente do seu drama pessoal e teve, pelo menos, a minha compreensão, pois é mesmo extremamente doloroso ter um mundo de gente o criticando sem sequer saber direito o que você sofreu. Mas, não teve o mínimo cuidado de pesquisar sobre mim, embora eu seja um personagem muito conhecido das redes sociais de esquerda: o mais jovem comandante de uma organização guerrilheira, preso aos 19 anos e lesionado para sempre, tornado um bode expiatório da derrota da luta armada e sendo capaz de provar a falsidade de uma grave e injusta acusação 34 anos depois de tê-la sofrido. Sobrevivi à mesma estigmatização que levou um sofrido companheiro ao suicídio, dei a volta por cima e, desde 2005, com a credibilidade restabelecida, tenho sido blogueiro destacado na defesa dos direitos humanos e da memória dos companheiros tombados nos anos de chumbo. E não uso pseudônimo nas redes, sempre me assino Celso Lungaretti. 

OBSERVAÇÕES

Lancei o Náufrago da Utopia em 08/08/2008 como blog pessoal e, para manter um registro rigoroso das polêmicas que eu travava nas redes sociais, passei a nele postar todas elas.  

À medida que foram entrando colaboradores fixos (o falecido Apollo Natali, Dalton Rosado, David Coelho e Rui Martins), passei a considerá-lo um blog coletivo. Cheguei até a abrir mão durante cerca de um ano da função de editor, que o David assumiu solidariamente para que eu pudesse poupar-me de esforços excessivos.
Mas, à falta de um espaço mais apropriado, creio ser ainda a melhor opção para conservar o quase-debate desta semana com o Casagrande na área de comentários sobre esportes do UOL. 

E por que o qualifico de diálogo de surdos? Porque, de um lado, o Casagrande não entendeu o meu ponto de vista e respondeu a partir de uma suposição equivocada.

Do outro porque, embora girasse em torno do filme Ainda Estamos Aqui, do Walter Salles, da minha parte não foi uma discussão sobre o filme em si, já que não o assisti.

A audição imperfeita que tenho desde que meu tímpano do O.D. foi estourado por um torturador da PE da Vila Militar em junho de 1970 faz com que eu só assista as películas brasileiras quando consigo agregar uma legenda em espanhol.

Então, eu quis questionar tão somete o excessivo valor que os brasileiros concedem a um prêmio cujo júri é mais de gente que trabalha na área de cinema mas não necessariamente como diretores, roteiristas, críticos ou professores da sétima arte. 

Tal composição eclética facilita os acertos de bastidores para atribuição dos prêmios principais segundo critérios fundamentalmente comerciais, e não artísticos.  

Se o Casagrande tivesse a mesma convivência que eu tive com os cineastas independentes de São Paulo, principalmente o Carlos Reichenbach e o Jairo Ferreira, saberia porque me incomodam tanto os filmes que, mesmo quando trazem abordagens de esquerda, utilizam a estética caça-níqueis em que a TV Globo viciou os videotas brasileiros.

De resto, foi um excesso imperdoável da minha parte ter-me referido a um possível embasbacamento do Casagrande com o Oscar, quando a verdadeira pedra no meu sapato era o embasbacamento da maioria dos brasileiros com tudo que tem a etiqueta made in USA. (CL) 
                
               Ary Toledo cantando "Hey, mister" em 1969. Saudades do tempo em que
                    os artistas brasileiros mantinham espírito crítico com relação aos EUA!

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

...VEIO A MOÇA E CONTINUOU!

L
á pelos meus 16 anos, quando começava a me interessar pelo movimento estudantil, minha imaginação já voava longe. 

Desencanei muito cedo do futuro insosso que meus pais e parentes projetavam para mim, pois fui me dando conta de que não queria formar-me engenheiro, ter casa própria na cidade e outra na praia, casar com uma esposa prendada, trocar de carro todo ano, etc. 

O porvir sonhado pelos meus colegas de escola e pela turminha da rua Curupace mais me parecia um tédio infinito.

E cheguei até a elucubrar sobre como queria morrer, inspirado em leituras sobre a guerra civil espanhola, quando militantes de vários países se alistavam nas brigadas internacionais de apoio aos socialistas e anarquistas espanhóis, na heroica resistência que mantinham contra os fascistas de Franco. 

Ingenuamente, acreditei que sempre haveria uma guerra tão justa assim à espera de mim, quando  me sentisse velho demais para travar o bom combate.

Aliás, nunca imaginei que chegaria a septuagenário. Jamais me agradou a ideia de decair, de ficar sentado no trono de um apartamento, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar, como o Raul Seixas tão bem definiria em Ouro de Tolo.

Aí, quando eu já estava com 51 anos, nasceu a Luana. E, de imediato, mandou para o espaço os planos que eu tinha de, no momento certo, escolher a minha morte. 
Também depondo na auditoria da Marinha, um dia depois daquela foto famosa da Dilma
Planos que, aliás, não eram mais tão fáceis de concretizar, porque as guerras deixaram de ser justas (viraram carnificinas hediondas!); e também porque sempre me repugnou a outra possível saída, o suicídio, tão dissonante das grandes esperanças que movem os revolucionários. 

Hoje seria complicado encontrar por quem valeria a pena eu morrer lutando (desfecho que eu considerava o mais apropriado para a minha trajetória).

Mas aí nasceu a Luana, minha primogênita. Nunca entenderei direito por que, na virada do milênio, me veio tamanha vontade de ser, finalmente, pai biológico. Imperativa a ponto de eu aceitar rapidamente a mudança de planos, assumindo a responsabilidade de tudo fazer para alongar a minha existência, pelo menos até que a minha garotinha encontrasse o seu caminho e o seu palco nesta vida.

A ironia em tudo isto é que a Lu, após ver o filme Ainda Estou Aqui, postou no Tik Tok um vídeo sobre a própria experiência de filha de militante e conseguiu chamar um bocado de atenção, tanto que a BBC News Brasil acaba de inclui-la numa reportagem (clique aqui p/ abrir) sobre quatro situações reais desse tipo.   
Batizamos tais cartazes de imortais
da Oban
. Eu sou o sétimo da lista.
 

Eis um desdobramento totalmente inesperado para mim. 

A vida é uma história contada por um idiota, repleta de som e fúria, significando nada, disse Shakespeare. 

Ainda assim, ela tem seus encantos. E ver como nossos filhos ressignificam (para usar um termo da moda) as memórias que lhes transmitimos é um dos mais gratificantes. 

Até ajuda a nos conformarmos com a nova condição de já não estarmos abrindo nossos caminhos e pedindo passagem, mas sim reduzidos a espectadores, enquanto os jovens tomam o nosso lugar. 

É como cantou o inesquecível Sérgio Ricardo: Disse o velho, eis aqui o fim de tudo, veio o moço e continuou. (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

O HOSPITAL DA UTI MAIS MORTÍFERA VINHA SENDO ALVO DE DENÚNCIAS HAVIA ANOS

Superlotação, falta de médicos e precariedade do Tide Setúbal já eram denunciadas em 2018...
Está no noticiário desta 2ª feira (3):
"No hospital municipal Tide Setúbal, em São Miguel Paulista, zona leste da capital paulista, a mortalidade na UTI destinada a pacientes da Covid-19 chega a 90%, seguindo o cálculo da Agência Nacional de Saúde, que leva em conta número de óbitos dividido pelo número de mortes, altas e transferências somadas.
De acordo com dados epidemiológicos do hospital, desde 16 de março houve 237 mortes nas UTIs reservadas para infectados com a Covid-19 e apenas 23 altas...
...quando os pacientes se amontoavam nos corredores.
Como comparação, no Hospital Emílio Ribas, que também é público, mas conta com mais recursos e fica numa área rica da cidade, a taxa de mortalidade é de 27,4% em seus leitos de UTI reservados para Covid-19".
Pelo menos numa de suas políticas o palhaço sinistro obteve êxito: no extermínio dos pobres. Pois a Covid-19 é tudo, menos democrática. Quando o pesadelo houver terminado, constataremos que os privilegiados tinham 10, 15, 20 vezes mais chances de se salvarem do que os coitadezas.
.
LEMBRO-ME DE UMA SÃO MIGUEL CHEIA DE VIDA, NÃO DE MORTE – Conheci São Miguel Paulista aos 17 anos, em 1968. Eram de lá os irmãos Gílson e Gerson Theodoro de Oliveira e a Tereza Ângelo, namorada do Gerson. 

O Gilson trabalhava no centro financeiro de Sampa e, numa passeata em que nossa Frente Estudantil Secundarista distribuía panfletos sobre como atuava na zona Leste, ele veio apresentar-se a nós, que inicialmente o vimos com desconfiança por causa do terno elegante (seria do Dops?). 
Era assim a São Miguel Paulista dos anos 60

Em pouco tempo, os três eram figuras de destaque no nosso agrupamento. E, nem um ano depois, eles estariam entre os oito que ingressamos na VPR.

Foi o que levou a nós, os da Mooca, até São Miguel, para reuniões com o trio na casa da família Oliveira e até para organizarmos a primeira paralisação de escolas da região. 

Gostava muito daquele bairro tão diferente dos habituais, praticamente um enclave nordestino em plena São Paulo. 

O povo zanzando pela praça aos sábados. O sotaque e as músicas diferentes. As barraquinhas em que um alfabetizado escrevia cartas que os analfabetos ditavam, para mandarem a suas famílias distantes (aqueles recados desajeitados me comoveram tanto quanto comoveriam os espectadores do filme Central do Brasil três décadas depois).

Toda vez que ia lá, tomava a melhor batida de côco que eu já provei, num boteco pobretão. O dono a mantinha numa garrafa com pedaços do fruto boiando. Servia para compensar toda aquela intragável pinga com groselha que estava na moda entre os secundaristas de esquerda e eu me obrigava a engolir para não destoar dos companheiros...

Havia vida em São Miguel Paulista, uma alegria tão espontânea, calorosa e singela que, para mim, foi como um símbolo daquilo por que lutava.
Canção genial do Tom Zé, imitando a falação de um caminhoneiro que, certa
vez, ele viu recebendo cartas dos nordestinos para levá-las aos parentes deles 
.
Se aquela gente sofrida conseguia ser efusiva e feliz apesar das tantas carências e ausências que suportava, merecia uma chance de viver livre das privações e das incertezas, sem ter de fugir da miséria para ter uma existência melhor ou de separar-se dos entes queridos para ir ganhar dinheiro em terras longínquas e enviar-lhes um tanto para sobreviverem.

Havia vida, repito, em São Miguel Paulista. A vida dos que viviam com quase nada e mesmo assim teimavam em viver, sempre esperando a bonança que nunca chegava. 

Meio século depois, nem mesmo a ilusão da espera restou para tantos deles. Pois lá é um bairro onde muito se morre, por causa da desumanidade extrema dos que tantos bens materiais possuem e, mesmo assim, não sabem viver nem têm empatia nenhuma com os outros seres humanos. 

Esses vão sempre preferir o cheiro de cavalos ou da boiada ao cheiro do povo. (por Celso Lungaretti)

Central do Brasil, dirigido por Walter Salles, com Fernanda Montenegro,
conquistou nada menos que 23 prêmios em festivais internacionais.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

O CINEASTA WALTER SALLES COMPARA A ELEIÇÃO DE BOLSONARO AO FILME "O OVO DA SERPENTE". ASSISTA-O NO BLOG E JULGUE

O paralelo com a fita de Ingmar Bergman (leia mais sobre ela aqui) se deve à crise econômica aguda que se abatera sobre a Alemanha a partir da hiperinflação de 1923, deixando o homem comum sem qualquer perspectiva de futuro. 

Nesse cenário de bebedeiras, desregramentos, prostração e caos, estavam sendo engendrados o totalitarismo e o antissemitismo nazistas.

Walter Salles, o premiado diretor de Central do Brasil, foi além: "A vitória de Bolsonaro é o maior retrocesso desde o final da ditadura militar".
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