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sexta-feira, 26 de junho de 2026

REVOLUCIONÁRIOS NÃO DESISTEM DO BOM COMBATE MESMO QUANDO A CORRELAÇÃO DE FORÇAS É-LHES DESFAVORÁVEL.

No Náufrago da Utopia 2, eu tentei escrever algo que representasse uma contribuição aos companheiros que virão depois. 

Um rascunho do novo livro já era a série Legado de um Revolucionário, criada logo após eu ter escapado por um triz de ir papear com o Marx, Proudhon, Trotsky e Che Guevara, não sei se tocando harpa ou visitando aquele abismo mapeado pelo Dante.

Mas, se a proposta do livro era a de ser um legado, exatamente qual seria tal legado? Tive de dar tratos à bola para chegar a uma conclusão: percebi que minha trajetória se diferenciava pela série de lutas que travei contra adversários muito mais poderosos, mesmo assim obtendo êxitos ou ajudando os companheiros a obtê-los, 

Na primeira categoria está a luta por minha anistia, apesar de ter sido retaliado durante todo o caminho. Um advogado famoso estranhou que cada vitória minha no Superior Tribunal de Justiça fosse seguida de mais uma medida protelatória. Normalmente, decisões unânimes não são contestadas, porque o resultado, como é óbvio, continuará sendo o mesmo e os questionadores passarão vergonha.  

Já o meu caso foi uma verdadeira corrida de obstáculos e a vitória definitiva só chegou quando o Supremo Tribunal Federal reconheceu a repercussão geral e fixou um parâmetro a ser seguido pelas cortes de todo o país. 

Na segunda categoria, foi a luta pela liberdade do escritor Cesare Battisti, da qual participei de 2008 até 2011, como uma espécie de porta-voz informal do comitê de solidariedade. Era eu que lançava um artigo novo e diferente dos anteriores praticamente todo dia, afora outras incumbências. 

O Carlos Lungarzo, o Eduardo Suplicy, a Fred Vargas e eu fomos buscar essa vitória na bacia das almas, quando tudo parecia perdido.  

Outros episódios na mesma linha estão lembrados no Náufrago da Utopia 2. E é por eles todos que eu quero ser lembrado: como quem ousou lutar batalhas dificílimas e geralmente vencê-las, provando que nós, revolucionários, não podemos nos conformar jamais com as injustiças e, se travarmos as lutas até o fim, temos sempre a possibilidade de dar a volta por cima. Este espírito faz muita falta na esquerda atual. 

Um exemplo marcante foi quando os bolsonaristas expulsaram os petistas da avenida Paulista no tempo do Fora, Dilma! Aí, já no governo do Bolsonaro, secundaristas e a Gaviões da Fiel não tiveram medo de Bicho Papão e botaram os fascistas pra correr. Foram esconder-se atrás dos seus amiguinhos, os policiais. (por Celso Lungaretti)

sexta-feira, 15 de maio de 2026

HERÉTICO, O SILAS MALAFAIA SAPATEIA EM CIMA DO SEGUNDO MANDAMENTO ('Não invocarás seu santo nome em vão')

rui martins
FOI DEUS QUEM CRIOU A ESCALA 6x1
O dito pastor Silas Malafaia, sem zelar por suas ovelhas, defende os interesses dos lobos: é pela manutenção da escala de trabalho 6x1. 

Diante dos fiéis, numa pregação em sua igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo, aproveitou para criticar o Bolsa Família e ironizar: do jeito que estão indo as coisas, logo haverá gente querendo um dia de trabalho e seis de folga.

Evidentemente, existe muito cinismo quando um milionário rejeita a escala 5x2, um dia a mais de folga para os trabalhadores de menores salários, porém o pastor Malafaia diz basear-se na  Bíblia. 

Segundo ele, foi o próprio Deus quem criou a escala 6x1, pois teria trabalhado seis dias para criar a Terra, o homem e a mulher, mas no sétimo dia, de acordo com o Genesis, Deus descansou.

E, mais tarde, ao entregar os dez mandamentos para Moisés, Deus colocou a obrigação do descanso no sétimo dia, como terceiro mandamento, depois dos seis dias de trabalho, para a família humana.

Isso incluía até mesmo seus visitantes, seus animais e seus servidores, noutras palavras, seus escravos.

A ideia de um Deus cansado e, ao mesmo tempo generoso, era simplesmente simbólica, mesmo porque os sete dias de trabalho e descanso divinos não se repetiam. 

Mas essa primeira lei trabalhista, atribuída ao sobrenatural e inscrita nos livros religiosos desde os primeiros agrupamentos humanos, foi oportuna por impedir a exaustão das pessoas numa época em que nenhum trabalho era mecânico.

Entretanto, a crença de uma origem divina da primeira lei limitando o tempo semanal de trabalho não significa que não possa ser melhorada. Este é o erro dos fundamentalistas bíblicos, no caso Silas Malafaia e os pastores evangélicos que seguem a linha dele.

A escala bíblica do 6x1 tinha uma falha básica: não estabelecia quantas horas diárias se deveria trabalhar nos dias favoráveis. Na França, p. ex., já em 1848 os trabalhadores conseguiram limitar para 12 horas a duração do trabalho diário. 

Na maioria dos países ocidentais, trabalhava-se de 14 a 16 horas por dia. Marx defendia a jornada de 10 horas, mas a Revolução Russa de 1917 foi além, criou a jornada de 8 horas, imitada por outros países, como a França, em 1919.

Apesar de resistências de certos políticos e empregadores, existem setores no Brasil que já adotaram, faz tempo, escalas semanais de horas de trabalho favoráveis aos empregados. É o caso dos empregos com a chamada semana inglesa e o dos bancários com cinco dias de seis horas diárias num total de trinta horas semanais.

Entretanto, existem certas atividades de trabalhadores avulsos, como as empregadas domésticas, que dificilmente se adaptarão à escala 5x2, mesmo que por pressão de seus patrões. 

Tal universo bem se enquadra numa crítica amiúde feita: a de que tal anacronismo se deve às raízes coloniais de certos patrões, herdadas do período da escravidão. 

Pipocam também nas redes sociais reportagens em direção inversa, mostrando a adesão voluntária de algumas empresas varejistas à escala 5x2 para seus empregados.

Finalmente, os trabalhadores de plataformas digitais conhecidos como uberizados ou empreendedores autônomos com flexibilidade horária, por enquanto escapam à escala 5x2 e das proteções trabalhistas (já está sendo discutida a regulamentação de seus ofícios)). 

Fora da proteção da Consolidação das Leis do Trabalho, estão sem férias remuneradas e sem 13º salário, trabalhando jornadas que ultrapassam as oito horas normais e sem descanso semanal. (por Rui Martins)

quinta-feira, 7 de maio de 2026

MAIO É UM BOM MÊS PARA LEMBRARMOS O LIBERTÁRIO 1968 FRANCÊS

Não existe unanimidade quanto ao dia em que começou a chamada Primavera de Paris, mas um certo consenso quanto às manifestações unicamente estudantis terem se iniciado em 2 de maio de 1968; se avolumado com a entrada de outros segmentos na semana seguinte; e erguido barricadas no dia 10.

São acontecimentos de 58 anos atrás, mas nossa história começa ainda mais longe, em 1871, ano da Comuna de Paris.

O avanço crescente das lutas do proletariado parecia indicar que a profecia de Karl Marx se concretizaria, com uma onda revolucionária varrendo o mundo de forma quase espontânea, como resultado do esgotamento do capitalismo e da necessidade de sua substituição por uma forma mais avançada de organização da sociedade.

O ancién régime, no entanto, contou com o braço forte da Alemanha para retomar o controle da situação e massacrar os communards, com as baixas refletindo bem a desigualdade que marcou o enfrentamento entre as tropas da reação (100 mil soldados) e os defensores da primeira república proletária da História (menos de 15 mil milicianos): foram mil os mortos do lado vencedor e 80 mil dentre os perdedores. Ai dos vencidos!
A liberdade guiando o povo (versão 68)
Marx concluiu que os inexperientes revolucionários haviam sido tímidos demais, deixando, p. ex., de 
quebrar a máquina burocrática e militar do Estado enquanto podiam. 

E ficou evidenciado que os governos de países capitalistas acudiam prontamente seus congêneres ameaçados por revoluções, enquanto a solidariedade do proletariado internacional demorava a se organizar.

Lênin foi além, priorizando a estruturação de um partido revolucionário duro, que funcionasse com uma disciplina quase militar, apto a assumir a liderança dos trabalhadores nos momentos agudos para direcionar corretamente sua ação. 

Sua concepção vanguardista levava em conta, também, o surgimento de opositores relevantes no campo da esquerda: os adepto do reformismo, para o qual tendia naturalmente a chamada aristocracia proletária (os operários com cargos superiores e salários mais elevados).  

Constatando que a perspectiva de melhorarem progressivamente de vida sob o capitalismo, sem revolução nenhuma, seduzia muitos trabalhadores, Lênin chegou à conclusão de que o proletariado não se compenetraria espontaneamente de que seu papel histórico era o de dar um fim à exploração capitalista.

Necessitava de uma vanguarda que, participando com ele das lutas por ganhos materiais, lhe fosse incutindo a compreensão de que as eventuais vitórias eram ilusórias e logo se dissipariam, daí a necessidade de uma profunda e definitiva transformação da sociedade para que as conquistas se eternizassem.

Lênin estava certo em termos de eficácia: só um partido como o Bolchevique conseguiria tomar o poder em novembro de 1917, apesar de contar com efetivos bem menores do que os de seus competidores do campo da esquerda. 

Em momentos críticos, poucos são os militantes que sabem o que querem, estão dispostos a irem até o fim e obedecem sem pestanejar a comandantes capazes. 
Esses poucos, contudo, pesam bem mais do que muita gente confusa, sem grande determinação nem líderes à altura dos acontecimentos.

Mas, a profecia de Trotsky sobre a maldição do vanguardismo, lançada no tempo em que ele ainda se opunha aos bolcheviques, também se revelou correta: Primeiramente, o partido substitui o proletariado. Depois, o Comitê Central substitui o partido. Finalmente, um tirano substitui o Comitê Central.

O certo é que a União Soviética foi se tornando um mero capitalismo de Estado totalitário: 
— seja porque a vanguarda bolchevique incubava mesmo uma nomenklatura ou seja, uma burocracia partidária quase equivalente a uma nova classe privilegiada;
— seja porque a Rússia não estava mesmo pronta para o socialismo e os vitoriosos de 1917 foram obrigados a cumprir, em seguida, muitas tarefas características de uma revolução burguesa, com a duplicidade de objetivos necessariamente causando desvirtuamentos;
— seja porque o proletariado russo, embora aguerrido e heroico, era numericamente muito reduzido, tendo boa parte dos seus melhores filhos tombado na defesa da revolução;
 Invasão da Tchecoslováquia desiludiu socialistas do mundo inteiro
— seja porque a consolidação do novo regime se deu em condições dramáticas, num terrível isolamento, com a URSS  tendo de, em 1918/1921, resistir sozinha à invasão de tropas de umas 20 nações capitalistas e aos contingentes dos reacionários internos, para depois desenvolver esforços hercúleos no sentido de saltar rapidamente de um país com desenvolvimento tardio para uma nação moderna).

De certa forma, a União Soviética, sob a tosca tirania de Stalin, serviu como espantalho para a propaganda capitalista dissuadir os operários das nações economicamente mais avançadas de seguirem na mesma direção. 

Contrariando a constatação de Marx, segundo quem eram os países mais pujantes que determinavam o destino da humanidade, com as demais sendo arrastados por sua dinâmica, as revoluções seguintes se deram em países pobres, desorganizados por guerras ou ainda emancipando-se da dominação colonial.

E o capitalismo foi aprendendo a lidar de forma cada vez mais eficiente com as várias tentativas vanguardistas que foram surgindo: seja vencer militarmente as guerrilhas urbanas e rurais, seja asfixiar economicamente ou derrubar governantes adversos por meio das Forças Armadas, do Judiciário ou do Legislativo de seus países.

Mas, a revolta jovem de 1968 na França foi o primeiro indício de que a História não tem fim e, quando algumas portas se fecham, outras se abrem. O capitalismo não tem tudo dominado, nem jamais terá; pelo contrário, marcha em passos rápidos para a extinção, que só vai significar o fim da História profetizada por Francis Fukuyama se a própria espécie humana extinguir-se junto com ele.

A sociedade que desenvolveu ao máximo os meios de comunicação é também a sociedade em que uma simples centelha evolui rapidamente para incêndio, surpreendendo governos e suas polícias.

Já em 1968, uma onda de paralisações em escolas de Paris evoluiu rapidamente para uma formidável greve geral, fazendo o presidente De Gaulle balançar no cargo, que só conservou graças à boia que o Partido Comunista Francês lhe atirou, mais interessado em manter sua liderança nas entidades sindicais do que em fazer a revolução. 

Merecidamente, ao agir como fura-greves da nova Comuna de Paris (são muito significativas as semelhanças da pauta dos communards de 1871 com a dos congêneres de 1968, ambas inspiradíssimas!), o PCF se condenou à insignificância. Os franceses não são tão condescendentes com relação às atuações desastrosas de seus partidos quanto os esquerdistas brasileiros...

E, nas manifestações contra o capitalismo e suas mazelas que vêm marcando o século atual, incluindo as jornadas de junho de 2013 no Brasil, a pulverização da vanguarda é uma característica comum. 

Não há força majoritária da esquerda as convocando e conduzindo, mas uma imensidão de células independentes imantadas pelas redes sociais.Fazem lembrar as ondas revolucionárias que, segundo Marx, varreriam o mundo. 

Dá para imaginarmos que, com a agonia capitalista chegando ao ponto decisivo, uma crise do tipo da imobiliária de 2007/2008 possa não só evoluir para um clash como em 1929, mas também gerar uma reação da sociedade equivalente à Primavera de Paris.

Concordo com o Zuenir Ventura: 1968 não terminou. Os fios da História poderão até ser reatados mais de meio século depois, por que não? (por Celso Lungaretti)  

terça-feira, 21 de abril de 2026

O REVOLUCIONÁRIO TIRADENTES MERECIA UM POVO MUITO MELHOR DO QUE A PARVA GENTE BRASILEIRA

"Tiradentes foi um revolucionário no seu momento como o seria em outros momentos, inclusive no nosso. Pretendia, ainda que romanticamente, a derrubada de um regime de opressão e desejava substitui-lo por outro, mais capaz de promover a felicidade do seu povo. 

...No entanto, este comportamento essencial ao herói é esbatido e, em seu lugar, prioritariamente, surge o sofrimento na forca, a aceitação da culpa, a singeleza com que beijava o crucifixo na caminhada pelas ruas com baraço e pregação.... 

O mito está mistificado.

Brecht cantou: Feliz é o povo que não tem  heróis. Concordo. Porém nós não somos um povo feliz. Por isso precisamos de heróis. Precisamos de Tiradentes" (Augusto Boal, Quixotes e Heróis). 

Liberdade, ainda que tardia... Mas a
tardança precisava ser de 3 décadas?!
"
Os heróis são a personificação das virtudes de um povo que alcançou ou está buscando sua afirmação. Encarnam a vontade nacional.

Já os brasileiros, parafraseando o que Marx disse certa vez sobre os camponeses, constituem tanto um povo quanto as batatas reunidas num saco constituem um saco de batatas...

O traço mais característico da nossa formação é a subserviência face aos poderosos de plantão. 


Os episódios de resistência à tirania foram isolados e trágicos, já que nunca obtiveram adesões numericamente expressivas. 

Demoramos mais de três séculos para nos livrar do jugo de uma nação minúscula, como um Gulliver imobilizado por um único liliputiano.

E o fizemos da forma mais vexatória, recorrendo ao príncipe estrangeiro para que tirasse as castanhas do fogo em nosso lugar; e à nação economicamente mais poderosa da época, para nos proteger de reações dos antigos colonizadores.

Isto após assistirmos impassíveis à execução e esquartejamento de nosso maior libertário" (CL)
"Esse traidor [Joaquim Silvério dos Reis] foi correndo falar com o governador. Fez
uma tal cena que o Visconde de Barbacena soltou os milicos na rua, 
mandou sentar pua, pegar e bater e matar e prender"

terça-feira, 14 de abril de 2026

SERÁ O FIM DO IMPÉRIO ESTADUNIDENSE?

 “Uma civilização inteira morrerá hoje à noite”.
(Donald Trump, flertando com a barbárie)
Estamos presenciando se não o fim, pelo menos o declínio (perigoso, mas benfazejo) de um império. 

O que se viu nos últimos dias, com o presidente Donald Trump a ameaçar abertamente e sem o menor escrúpulo a extinção de uma civilização milenar como a iraniana, num país extenso e populoso (90 milhões de habitantes), bem demonstra o grau de retrocesso civilizatório causado por uma forma de relação social que se exaure pelos seus próprios fundamentos. 

Os Estados Unidos, país abençoado por recursos naturais existentes em grande extensão territorial, desde a sua ocupação por imigrantes europeus (como, de resto, ocorreu em todos os outros países das Américas), deu um mau exemplo aos autóctones com a implantação de uma civilização de rapinagem trazida por governos que escravizavam os servos do feudalismo. Estes apenas se submeteram como colonos à velha ordem institucional escravista europeia. 

A grande maioria dos colonos, de servos europeus passaram a ser donos de terras, e cedo trouxeram africanos escravizados em substituição aos autóctones que haviam sido dizimados por não se submeterem ao jugo dos invasores e suas culturas escravistas. 

Tratados como semi-humanos, os autóctones acabaram sendo em grande parte dizimados e expulsos das terras nas quais habitavam há milênios e, incorporados à nova ordem, foram sempre tratados com resquícios de racismo desumano. 
A história da humanidade em sua segunda natureza racional se pontua pela irracionalidade, ainda que se queira admitir uma evolução intelectual e científica capaz de prodígios. E Donald Trump é o exemplo mais eloquente de que há algo profundamente primário (e errado) no sentido de obsolescência no nosso modo de ser institucional e econômico.  

Somos, simultanea e coletivamente, vítimas e coautores inconscientes de nossa própria tragédia; mas está mais do que na hora de mudarmos nossa realidade, até porque talvez nunca as condições contextuais tenham sido tão propícias para tanto. 

Vivemos o impasse de fim de linha de uma lógica de relação social contraditória, segregacionista, escravista, socialmente destrutiva e autodestrutiva da forma, posto que a sua própria dinâmica se encarregou de expor a sua irracionalidade.  

Mas, infelizmente, os governos e suas tiranias insistem em manter de pé uma forma de relação social exaurida que clama por superação. Como disse o poeta, caberá à gente exausta a tarefa da emancipação humana, e nós nos juntamentos a esse sobrecarregado contingente humano emancipatório. Aproveitemos as condições materiais e subjetivas que se apresentam para o fazermos! 

Os últimos dias e acontecimentos nos forneceram elementos de análise que devem ser considerados. 

A guerra de escolha promovida pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã, com alta disparidade de forças bélicas (que afinal demonstraram não serem tão díspares assim, posto que Davi sempre encontra meios de retrucar a violência de Golias), demonstrou a dependência econômica que pode ser exposta por fatores da assimetria de efeitos colaterais econômicos mal dimensionados pelos agressores. 

Os Estados Unidos, por terem o maior PIB entre os países mundo afora e emitirem o dólar como moeda internacional, representam o centro nervoso de uma crise de fundamentos econômicos que lhe causa desespero por evidente esgotamento do seu poder de tração. Tal se expressa não só na queda de poder aquisitivo de sua população, mas, principalmente, pelo medo da perda da hegemonia internacional que exerce. É o exemplo mais claro do feitiço virando contra o feiticeiro. 

O fundamento da crise atual do modo de relação social que vem se aperfeiçoando e se ajustando ao longo dos séculos de modo desigual nos diversos cantos do Planeta, reside no fato de que a sua base de sustentação configurada na exploração do trabalho humano pela escravização direta e, posteriormente, pela escravização indireta do salário, perdeu função. 
A guerra concorrencial de mercado promoveu a mecanização da produção de mercadorias e agora no estágio de automação, com a substituição majoritária do trabalho abstrato (assalariado), único capaz de produzir valor econômico e extração de mais valia necessária para dar dinâmica à valorização do valor. É a morte da galinha dos ovos de ouro. 

A crise mundial do capitalismo em rota direta para o colapso se acelera com as guerras e guerrilhas (como no Iêmen), e isso ocorre por três motivos básicos: 
--a redução do fluxo de comércio mundial em face dos riscos de transporte de mercadorias dos navios mercantes (de valor muito maior do que as mercadorias que transportam), onerando custos de seguros dos fretes e de rotas alternativas mais distantes; 
--o petróleo continua sendo o insumo mais usado na produção e transporte de mercadorias e o seu aumento de preço implica o aumento de investimento em capital constante (máquinas, instalações e insumos) na relação com o capital variável (salários), com a consequência de reduzir a porcentagem de geração de mais valia e lucro sob o capital investido, já precarizada; 
--o aumento do já acentuado endividamento privado e público, por força dos investimentos em capital constante, sem que haja correspondente remuneração para pagamento dos juros dessas dívidas, aponta para o crash futuro de todo o sistema bancário que já vem demonstrando fissuras (como na crise do subprime). 

Esse é o leitmotiv da rendição do governo de Donald Trump diante do clamor mundial e perda de prestígio interno do seu governo, que recua sem ver saída para a nova realidade que se apresentou perante um governante bilionário e ególatra, cuja capacidade de percepção da nova realidade  é do tamanho do cérebro dos seus assessores energúmenos e imberbes a dizerem amém às suas sandices.  

O capitalismo é mesmo uma contradição em processo (Marx) e que agora se explicita como metástase num corpo cancerígeno.

Nunca estivemos tão próximos da virada emancipatória da humanidade. (por Dalton Rosado)

segunda-feira, 30 de março de 2026

O MEU CAMINHO PELO MUNDO EU MESMO TRAÇO, MARX E PROUDHON JÁ ME DERAM RÉGUA E COMPASSO...

Muitos companheiros me criticam por desafinar o coro dos contentes (vide aqui), não participando de correntes de solidariedade a nomenklaturas corruptas e tirânicas como a de Cuba. 

Faço-o, primeiramente, por eles acreditarem estar lutando quando apenas martelam os teclados. Na verdade, só fariam a diferença hoje em dia se fossem combatentes solidários, como aqueles bravos estrangeiros que se voluntariaram para ajudar as tropas republicanas na guerra civil espanhola.

Depois, por tais luminares dos teclados me lembrarem demasiadamente os sociais patriotas que se avacalharam na 1ª guerra mundial. Também eles eram numericamente muito superiores aos verdadeiros revolucionários e isto não impediu que acabassem na lata de lixo da História.
Marx, o teórico mais influente dos últimos séculos

Aliás, tal história merece ser contada ou lembrada.
 É o que faremos.

No princípio, Marx e Engels anunciavam uma maré revolucionária que uniria e imantaria os proletários de todos os países, varrendo o planeta. É o que lemos no mais inspirado panfleto político que a humanidade já produziu, o Manifesto do Partido Comunista de 1848.

Os trabalhadores do mundo inteiro estavam irmanados pela sina de terem uma substancial parcela da riqueza que geravam (a mais-valia) expropriada pelo patronato. Ademais, a exploração capitalista havia subjugado países e culturas, submetendo proletários de todos os quadrantes a uma mesma lógica de dominação. 

Os papas do marxismo profetizaram, então, que o socialismo seria igualmente implantado em escala global, começando pelas nações de economias mais avançadas e estendendo-se às demais.

O movimento revolucionário foi, pouco a pouco, conquistado pela premissa teórica do internacionalismo, ainda mais depois de a heroica Comuna de Paris ser esmagada em 1871 pela ação conjunta de tropas reacionárias francesas com o invasor alemão. 
Uma rara imagem nítida da 3ª Internacional

Se as nações capitalistas conjugavam suas forças para sufocar qualquer governo operário que fosse instalado, então os movimentos revolucionários precisariam também transpor fronteiras, para terem alguma chance de êxito – foi a conclusão que se impôs.

A Internacional Socialista, que havia sido fundada en 1864, soçobrou principalmente devido ao impacto da derrota da Comuna de Paris sobre o conjunto do movimento operário europeu, mas a semente plantada frutificou na poderosa 2ª Internacional, que aglutinou em 1889 os grandes partidos socialistas consolidados nesse ínterim.

A bonança, entretanto, não fez bem a esses partidos. Muitos dirigentes, deslumbrando-se com os aparelhos conquistados, passaram a querer mantê-los a qualquer preço, lutando por melhoras para a classe operária do seu próprio país, em detrimento da solidariedade internacional. 

Teorizaram que o socialismo poderia surgir a partir das reformas realizadas pacificamente e do crescimento numérico da classe média, sem necessidade de uma revolução. A deflagração da 1ª Guerra Mundial cindiu definitivamente o movimento revolucionário
Proudhon nos ensinou que 
a propriedade é um roubo

Os reformistas acabaram alinhados com os governos de seus respectivos países no esforço guerreiro, enquanto os marxistas conclamaram os proletários a não dispararem contra seus irmãos de outras nações. 

Lênin, Trotsky e Rosa Luxemburgo encabeçaram a reação contra os (por eles designados pejorativamente como) sociais patriotas e os trâmites para a fundação da 3ª Internacional, contraponto àquela que perdera sua razão de ser.

As nomenklaturas são igualmente perniciosas, pois, passado o momento heroico da revolução, se tornam regines desvirtuados pelo favorecimento escandaloso aos altos funcionários. A dominação de classe capitalista dá lugar à dominação de casta do chamado socialismo real. 

Fico com Lênin, Trotsky e Rosa Luxemburgo, até porque é neles que me inspiro desde 1967. 
(por Celso Lungaretti)

domingo, 29 de março de 2026

POR QUE OS SINOS DOBRAM PARA CUBA?

Cuba ora entra em decomposição – sentencia o jornalista Rodrigo da Silva, o criador do canal Sputniks do Youtube.

Infelizmente, desta vez não se trata da habitual propaganda anticomunista que infesta os jornalões. Eis alguns dados:
– Cuba enfrenta um terrível colapso no setor elétrico, com apagões durando até mais de 10 horas em Havana. Quando o sol vai embora, o país desliga junto. As usinas termelétricas, construídas entre 1960 e 1970, caducaram. A capacidade de geração do país cai cada vez mais;
– o salário médio mensal em Cuba equivale, no mercado negro, a US$ 16,30  por mês. O salário mínimo caiu para o equivalente a US$ 5,42 por mês;.
– a falta crônica de combustível já era um enorme problema, pois Cuba precisa de 100 mil barris de petróleo por dia para funcionar e só produz 50 mil. Com a ocupação militar da Venezuela por Trump, tal carência se tornou dramática, pois nenhuma gota mais de petróleo venezuelano foi exportada para Cuba;
– segundo o relatório En Cuba Hay Hambre, 96,91% dos cubanos relatam ter perdido acesso a alimentos devido à inflação e à queda no poder de compra. Um em cada quatro vai dormir sem jantar. 
– dos itens alimentícios que eram subsidiados pelo governo, carne, óleo e café deixaram de sê-lo e os restantes são entregues com semanas de atraso;
– o Estado hoje cobre algo entre 20% a 30% das necessidades calóricas de uma família, tendo de adquirir o restante a preços de mercado;
– o ministro da Saúde admitiu que só 30% dos medicamentos essenciais estão disponíveis. Na verdade, dos 651 medicamentos do quadro básico cubano, só 292 estão disponíveis na rede de farmácias;
Parece o Brasil, mas é Cuba...
– o número de médicos trabalhando efetivamente dentro de Cuba cai a cada ano. 
– a população vem desabando. Cuba tinha 11,18 milhões de habitantes em 2020. Oficialmente, em 2024, esse número passou para 9,75 milhões;;
– só entre 2021 e 2024, mais de 860 mil cubanos chegaram aos Estados Unidos.
– Cuba produz hoje menos açúcar do que em 1899. Chegou a ser o maior exportador mundial de açúcar, mas hoje importa açúcar do Brasil.

Como a coisa chegou até esse ponto? Para entender isto, temos de recordar o que foi o socialismo real  nela praticado, principalmente, a partir da vitória do tirano obtuso Joseph Stalin sobre o grande revolucionário que foi Leon Trotsky.

No início do século passado, os fantasmas da destruição da frouxa Comuna de Paris tiravam o sono de Lênin, daí ele considerar imperativa a construção de um partido duro, de revolucionários profissionais submetidos a direção e disciplina rígidas, enquanto Trotsky via nisto um ovo da serpente (primeiramente, o partido substituirá a classe operária, depois o Comitê Central substituirá o partido e, afinal, um tirano substituirá o Comitê Central). 

De certa forma, ambos estavam certos. Só um partido tipo jacobino, como o Bolchevique, conseguiria ter tomado o poder em 1917 e o sustentado nos anos seguintes contra a formidável coalizão de inimigos interno e externos. 

Mas, seu centralismo quase militar era mesmo terreno fértil para a tirania, como Stalin provaria.
Trotsky comandou a tomada de poder e depois, com seu exército
vermelho, evitou que a revolução sucumbisse nos campos de batalha
 

Na inflamada discussão interna sobre se os bolcheviques deveriam ou não tomar o poder num país que nem de longe estava pronto para o socialismo, prevaleceu a tese de que a revolução soviética seria o estopim de uma sucessão de outras, começando pela alemã, cujo apoio permitiria construir o novo regime na Rússia em condições menos draconianas.

Mas, abortada a sonhada sequência, a URSS contou apenas consigo mesma para superar seu acentuado atraso econômico, acabando por fazê-lo a ferro e fogo. Com isto, o chamado socialismo real soviético se tornou tão odioso e execrável que serviu como exemplo negativo para a máquina de propaganda burguesa dele afastar o proletariado das nações mais avançadas.

E, embora a construção do socialismo em nações isoladas esteja completando mais de um século de fracassos, até hoje a esquerda a continua tentando, em vão. Não seria o caso de voltar a apostar suas principais fichas na revolução mundial? Não é paradoxal a economia estar globalizada e os movimentos revolucionários terem praticamente abandonado o internacionalismo de outrora?

Por último, mais de uma década de antecedência já se previa o colapso do regime soviético. Mas, depois da primavera de 1968, o país regredira ao mais tacanho maniqueísmo, com o consequente embotamento do espírito crítico.
Até o Pasquim ele era homem
de esquerda, aí perdeu o rumo
O jornalista Paulo Francis foi um dos pouco a antever que o leviatã sucumbiria, principalmente por não conseguir incorporar os avanços tecnológicos da 3ª revolução industrial e começar a perder de goleada no front econômico, o que o forçou a optar entre a decadência irreversível ou a volta ao capitalismo. 

As várias experiências de socialismo num só país tiveram o mesmo destino que Cuba está colhendo agora, porque, como Marx já dizia, só com a integração econômica dos principais países se aproveitarão ao máximo os avanços científicos e tecnológicos alcançados sob o capitalismo, mas que, paradoxalmente, estão sendo desperdiçados e destruídos pelo próprio capitalismo.

É hora de recolocarmos como nossa principal tarefa a efetivação do internacionalismo revolucionário, pois desde 1989 vêm desmoronando todas as nomenklaturas .

Trata-se de regimes dito socialistas mas cujos expoentes compõem, como membros poderosos do Partido supostamente revolucionário, como administradores do Estado, como oficiais superiores das forças armadas, etc.,  uma nova elite privilegiada, que só se diferencia da anterior por não exercer uma dominação de classe, mas sim de casta.

Um jornalista perguntou a Trotsky, já no exílio, o que ele faria se ficasse confirmado que a luta de sua vida inteira acabara servindo apenas para empoderar uma nova elite. Ele não titubeou: Começarei a organizar a luta dos explorados contra ela. (por Celso Lungaretti) 

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