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quinta-feira, 7 de maio de 2026

MAIO É UM BOM MÊS PARA LEMBRARMOS O LIBERTÁRIO 1968 FRANCÊS

Não existe unanimidade quanto ao dia em que começou a chamada Primavera de Parismas um certo consenso quanto às manifestações unicamente estudantis terem se iniciado em 2 de maio de 1968; se avolumado com a entrada de outros segmentos na semana seguinte; e erguido barricadas no dia 10.

São acontecimentos de 58 anos atrás, mas nossa história começa ainda mais longe, em 1871, ano da Comuna de Paris.

O avanço crescente das lutas do proletariado parecia indicar que a profecia de Karl Marx se concretizaria, com uma onda revolucionária varrendo o mundo de forma quase espontânea, como resultado do esgotamento do capitalismo e da necessidade de sua substituição por uma forma mais avançada de organização da sociedade.

ancién régime, no entanto, contou com o braço forte da Alemanha para retomar o controle da situação e massacrar os communards, com as baixas refletindo bem a desigualdade que marcou o enfrentamento entre as tropas da reação (100 mil soldados) e os defensores da primeira república proletária da História (menos de 15 mil milicianos): foram mil os mortos do lado vencedor e 80 mil dentre os perdedores. Ai dos vencidos!
A liberdade guiando o povo (versão 68)
Marx concluiu que os inexperientes revolucionários haviam sido tímidos demais, deixando, p. ex., de 
quebrar a máquina burocrática e militar do Estado enquanto podiam. 

E ficou evidenciado que os governos de países capitalistas acudiam prontamente seus congêneres ameaçados por revoluções, enquanto a solidariedade do proletariado internacional demorava a se organizar.

Lênin foi além, priorizando a estruturação de um partido revolucionário duro, que funcionasse com uma disciplina quase militar, apto a assumir a liderança dos trabalhadores nos momentos agudos para direcionar corretamente sua ação. 

Sua concepção vanguardista levava em conta, também, o surgimento de opositores relevantes no campo da esquerda: os adepto do reformismo, para o qual tendia naturalmente a chamada aristocracia proletária (os operários com cargos superiores e salários mais elevados).  

Constatando que a perspectiva de melhorarem progressivamente de vida sob o capitalismo, sem revolução nenhuma, seduzia muitos trabalhadores, Lênin chegou à conclusão de que o proletariado não se compenetraria espontaneamente de que seu papel histórico era o de dar um fim à exploração capitalista.

Necessitava de uma vanguarda que, participando com ele das lutas por ganhos materiais, lhe fosse incutindo a compreensão de que as eventuais vitórias eram ilusórias e logo se dissipariam, daí a necessidade de uma profunda e definitiva transformação da sociedade para que as conquistas se eternizassem.

Lênin estava certo em termos de eficácia: só um partido como o Bolchevique conseguiria tomar o poder em novembro de 1917, apesar de contar com efetivos bem menores do que os de seus competidores do campo da esquerda. 

Em momentos críticos, poucos são os militantes que sabem o que querem, estão dispostos a irem até o fim e obedecem sem pestanejar a comandantes capazes. 
Esses poucos, contudo, pesam bem mais do que muita gente confusa, sem grande determinação nem líderes à altura dos acontecimentos.

Mas, a profecia de Trotsky sobre a maldição do vanguardismo, lançada no tempo em que ele ainda se opunha aos bolcheviques, também se revelou correta: Primeiramente, o partido substitui o proletariado. Depois, o Comitê Central substitui o partido. Finalmente, um tirano substitui o Comitê Central.

O certo é que a União Soviética foi se tornando um mero capitalismo de Estado totalitário: 
— seja porque a vanguarda bolchevique incubava mesmo uma nomenklatura ou seja, uma burocracia partidária quase equivalente a uma nova classe privilegiada;
— seja porque a Rússia não estava mesmo pronta para o socialismo e os vitoriosos de 1917 foram obrigados a cumprir, em seguida, muitas tarefas características de uma revolução burguesa, com a duplicidade de objetivos necessariamente causando desvirtuamentos;
— seja porque o proletariado russo, embora aguerrido e heroico, era numericamente muito reduzido, tendo boa parte dos seus melhores filhos tombado na defesa da revolução;
 Invasão da Tchecoslováquia desiludiu socialistas do mundo inteiro
— seja porque a consolidação do novo regime se deu em condições dramáticas, num terrível isolamento, com a URSS  tendo de, em 1918/1921, resistir sozinha à invasão de tropas de umas 20 nações capitalistas e aos contingentes dos reacionários internos, para depois desenvolver esforços hercúleos no sentido de saltar rapidamente de um país com desenvolvimento tardio para uma nação moderna).

De certa forma, a União Soviética, sob a tosca tirania de Stalin, serviu como espantalho para a propaganda capitalista dissuadir os operários das nações economicamente mais avançadas de seguirem na mesma direção. 

Contrariando a constatação de Marx, segundo quem eram os países mais pujantes que determinavam o destino da humanidade, com as demais sendo arrastados por sua dinâmica, as revoluções seguintes se deram em países pobres, desorganizados por guerras ou ainda emancipando-se da dominação colonial.

E o capitalismo foi aprendendo a lidar de forma cada vez mais eficiente com as várias tentativas vanguardistas que foram surgindo: seja vencer militarmente as guerrilhas urbanas e rurais, seja asfixiar economicamente ou derrubar governantes adversos por meio das Forças Armadas, do Judiciário ou do Legislativo de seus países.

Mas, a revolta jovem de 1968 na França foi o primeiro indício de que a História não tem fim e, quando algumas portas se fecham, outras se abrem. O capitalismo não tem tudo dominado, nem jamais terá; pelo contrário, marcha em passos rápidos para a extinção, que só vai significar o fim da História profetizada por Francis Fukuyama se a própria espécie humana extinguir-se junto com ele.

A sociedade que desenvolveu ao máximo os meios de comunicação é também a sociedade em que uma simples centelha evolui rapidamente para incêndio, surpreendendo governos e suas polícias.

Já em 1968, uma onda de paralisações em escolas de Paris evoluiu rapidamente para uma formidável greve geral, fazendo o presidente De Gaulle balançar no cargo, que só conservou graças à boia que o Partido Comunista Francês lhe atirou, mais interessado em manter sua liderança nas entidades sindicais do que em fazer a revolução. 

Merecidamente, ao agir como fura-greves da nova Comuna de Paris (são muito significativas as semelhanças da pauta dos communards de 1871 com a dos congêneres de 1968, ambas inspiradíssimas!), o PCF se condenou à insignificância. Os franceses não são tão condescendentes com relação às atuações desastrosas de seus partidos quanto os esquerdistas brasileiros...

E, nas manifestações contra o capitalismo e suas mazelas que vêm marcando o século atual, incluindo as jornadas de junho de 2013 no Brasil, a pulverização da vanguarda é uma característica comum. 

Não há força majoritária da esquerda as convocando e conduzindo, mas uma imensidão de células independentes imantadas pelas redes sociais.Fazem lembrar as ondas revolucionárias que, segundo Marx, varreriam o mundo. 

Dá para imaginarmos que, com a agonia capitalista chegando ao ponto decisivo, uma crise do tipo da imobiliária de 2007/2008 possa não só evoluir para um clash como em 1929, mas também gerar uma reação da sociedade equivalente à Primavera de Paris.

Concordo com o Zuenir Ventura: 1968 não terminou. Os fios da História poderão até ser reatados mais de meio século depois, por que não? (por Celso Lungaretti)  

domingo, 1 de junho de 2025

O CÉU COMO BANDEIRA E A HISTÓRIA NA MÃO (A GENTE AINDA NEM COMEÇOU!)

No início do ano letivo de 1968, sem que ninguém esperasse, a repressão da ditadura militar atacou com bestialidade extrema um restaurante para estudantes carentes no Rio de Janeiro, acabando por matar a tiros um secundarista de apenas 16 anos, Edson Souto.

O movimento estudantil brasileiro, que tinha sido praticamente extinto pela repressão em 1964, já tentara renascer nas chamadas setembradas de 1966, mas a violência dos usurpadores do poder novamente havia prevalecido. Em março de 1968, no entanto, os estudantes voltaram às ruas... para ficarem! Com a certeza na frente, tentando tomar História na mão [1], marcaram forte presença ao longo do ano.

Aprofundando um pouco a análise, podemos dizer que o final da década de 1960 marca a transição da sociedade rígida e patriarcal, característica da fase da industrialização, para o amoralismo da sociedade de consumo, em que tudo e todos devem estar disponíveis para o mercado.
Então, de certa forma, a contestação à autoridade de autoridades, reitores, sacerdotes, doutores disso e daquilo, dos luminares da sociedade em geral, convinha ao próprio capitalismo, que estava passando da etapa das grandes individualidades para a da liderança participativa. O foco passaria a ser o consumidor, o cidadão comum, em lugar do grande homem, a personificação da elite.

Respirava-se antiautoritarismo. As artes passavam por um momento de ousadias e experimentalismo no mundo inteiro, a imprensa se modernizava a olhos vistos, a liberalização de costumes e a liberação sexual entravam com força total. O movimento estudantil, estimulado pelos ventos de mudança, foi fundo na tarefa de derrubar as prateleiras, as estátuas, as estantes, as vidraças, louças, livros, sim! [2].
E, no hiato entre a etapa capitalista que terminava e a que ia começar, muitos jovens sonharam com algo maior: uma sociedade sem classes, em que não existisse a exploração do homem pelo homem e na qual a economia se voltasse para a satisfação das necessidades humanas em vez de ser regida pela ganância. Um ideal simbolizado por Che Guevara, o último revolucionário internacionalista de dimensões míticas, com seu corpo cheio de estrelas e tendo el cielo como bandera [3].

Mas, a repressão brutal desencadeada pela ditadura, principalmente após a assinatura do AI-5, inviabilizou a mudança maior que muitos pretendiam. Então, sobre a terra arrasada, o que floresceu foi mesmo a sociedade de consumo.
A classe média, eufórica com o milagre brasileiro, tratou é de enriquecer. E a esquerda estava tão debilitada pela perda de seus melhores quadros que pouco pôde fazer contra a conjugação de  boom  econômico e terrorismo de estado.

O movimento estudantil de 1968 foi, portanto, resultado de circunstâncias especiais e únicas. Daí não poder ser comparado com o de hoje (como muitos fazem, para depreciá-lo), quando os jovens, ademais, têm de esforçar-se no limite de suas forças para começarem bem uma carreira, o que acaba fazendo-os desinteressarem-se por quase todo o resto.
UMA COMPETIÇÃO EXTREMADA DE TODOS CONTRA TODOS
-- A dificuldade insana que encontram para afirmar-se profissionalmente deveria levá-los a refletir sobre as distorções da sociedade atual. 

A competição obsessiva que aborta talentos e condena tanta gente a não desenvolver seu potencial é um dos horrores do capitalismo globalizado. Então, é tempo de muitos estudantes mais começarem a se indagar sobre a validade de continuarem nesse funil perverso, passando por cima dos despojos dos que tombarem no caminho. 

E isto com enorme possibilidade de, adiante, baterem com o nariz na porta, à medida em que a crise do capitalismo for aprofundando-se e o descompasso entre a oferta de empregos para profissionais com formação superior e o contingente de candidatos dela dotados a buscarem empregos se tornar  cada vez maior, condenando a grande maioria à frustração e ao exercício de funções sem nada a ver com aquelas para as quais se capacitaram.
Desde a onda de ocupações iniciada em 2007 pela tomada da reitoria da USP, o movimento estudantil brasileiro vem tentando renascer. Mas, quase duas décadas depois, ainda está longe de atingir a amplitude e a consistência do de 1968, talvez por não haver tido como fermento a truculência e o obscurantismo de uma ditadura, contra a qual, necessariamente, os melhores seres humanos tomavam partido. 

Zuenir Ventura, contudo, está certo: 1968 foi um ano que não terminou. A revolução ainda voltará a identificar-se com as flores e as primaveras, depois deste longo inverno da desesperança que nos está sendo imposto.

Ainda veremos outras primaveras como as de Paris e de Praga, pois há uma lição que a História várias vezes nos ensinou: a humanidade não aguenta viver indefinidamente sem solidariedade e compaixão.
O mundo se tornou um lugar muito ruim para se habitar sob o neoliberalismo, ainda mais na versão selvagem que Donald Trump insiste em tentar nos enfiar goela abaixo. Algo tem de mudar – e esta mudança precisa começar o quanto antes, para deter a marcha da insensatez enquanto ainda existe algo para salvarmos.

E, depois dos terríveis fracassos a que a esquerda domesticada, populista e reformista nos tem conduzido ao longo deste século, a esperança de volta por cima só pode provir das novas gerações, da juventude que ainda é capaz de sonhar com uma sociedade igualitária e justa, e de lutar com todas as suas forças para concretizar este sonho. 

Temos de aprender a lição que a História, ultimamente, não cansa de nos ensinar: os que se contentam com um mínimo, acabam ficando sem nada. É hora de voltarmos a mirar o prêmio máximo, aquele pelo qual vale realmente a pena lutarmos: o fim do capitalismo. E é a juventude que pode e deve encabeçar esta luta.
Lembrando a grande música do Sérgio Ricardo: se você não vem, eu mesmo vou brigar [4].

Lembrando o Edu Lobo dos melhores momentos: vou ver o tempo mudado e um novo lugar pra cantar [5].

Lembrando o Raulzito, profeta da sociedade alternativa que nos serve de inspiração para transformarmos a sociedade como um todo: oh baby, a gente ainda nem começou [6].
[1] Geraldo Vandré, Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores
[2] Caetano Veloso, É Proibido Proibir
[3] Gil, Capinam e Torquato Neto, Soy Loco Por Ti, América
[4] Sérgio Ricardo, Esse mundo é meu
[5] Edu Lobo, Ponteio
[6] Raul Seixas, Cachorro Urubu

domingo, 2 de dezembro de 2018

DOS SANS CULLOTES AOS COLETES AMARELOS

As barricadas parisienses de maio de 1968...
Por um capricho da História, as efemérides dos dois marcos revolucionários mais significativos do século 20 se sucederam entre novembro/2017 e maio/2018, como que nos convidando a refletir sobre ambos.

A revolução russa de 1917 foi a mais clássica das revoluções inspiradas pelo marxismo – e também o divisor de águas entre os ideais românticos do século 19 e uma tentativa de atualização que produziria um épico... desvirtuamento!

Até a Comuna de Paris (1871), o avanço crescente das lutas do proletariado parecia indicar que a profecia de Karl Marx se concretizaria, com uma onda revolucionária varrendo o mundo de forma quase espontânea, como resultado do esgotamento do capitalismo e da necessidade de sua substituição por uma forma mais avançada de organização da sociedade.

ancien régime, no entanto, contou com o braço forte da Alemanha para retomar o controle da situação e massacrar os communards, com as baixas refletindo bem a desigualdade que marcou o enfrentamento entre as tropas da reação (100 mil soldados) e os defensores da primeira república proletária da História (menos de 15 mil milicianos): foram mil os mortos do lado vencedor e 80 mil dentre os perdedores. Ai dos vencidos!
...e as da Comuna de Paris, em 1871.

Marx concluiu que os inexperientes revolucionários haviam sido tímidos demais, deixando, p. ex., de quebrar a máquina burocrática e militar do Estado enquanto podiam. 

E ficou evidenciado que os governos de países capitalistas acudiam prontamente seus congêneres ameaçados por revoluções, enquanto a solidariedade do proletariado internacional demorava a se organizar.

Lênin foi além, priorizando a estruturação de um partido revolucionário duro, que funcionasse com uma disciplina quase militar, apto a assumir a liderança dos trabalhadores nos momentos agudos para direcionar corretamente sua ação. 

Sua concepção vanguardista levava em conta, também, o surgimento de opositores relevantes no campo da esquerda: os adepto do reformismo, para o qual tendia naturalmente a chamada aristocracia proletária (os operários com cargos superiores e salários mais elevados).  

Constatando que a perspectiva de melhorarem progressivamente de vida sob o capitalismo, sem revolução nenhuma, seduzia muitos trabalhadores, Lênin chegou à conclusão de que o proletariado não se compenetraria espontaneamente de que seu papel histórico era o de dar um fim à exploração capitalista: necessitava de uma vanguarda que, participando com ele das lutas por ganhos materiais, lhe fosse incutindo a compreensão de que as eventuais vitórias eram ilusórias e logo se dissipariam, daí a necessidade de uma profunda e definitiva transformação da sociedade para que as conquistas se eternizassem.
Lênin e Trotsky: enormes acertos e alguns erros.
Lênin estava certo em termos de eficácia: só um partido como o Bolchevique conseguiria tomar o poder em novembro de 1917, apesar de contar com efetivos bem menores do que os de seus competidores do campo da esquerda. Em momentos críticos, poucos militantes que sabem o que querem, estão dispostos a irem até o fim e obedecem sem pestanejar a comandantes capazes pesam muito mais do que muita gente confusa, sem grande determinação nem líderes à altura dos acontecimentos.

Mas, a profecia de Trotsky sobre a maldição do vanguardismo, lançada no tempo em que ele ainda se opunha aos bolcheviques, também se revelou correta: "Primeiramente, o partido substitui o proletariado. Depois, o Comitê Central substitui o partido. Finalmente, um tirano substitui o Comitê Central".

O certo é que a Rússia foi se tornando um mero capitalismo de Estado totalitário: 

— seja porque a vanguarda bolchevique incubava mesmo uma nomenklatura ou seja, uma burocracia partidária quase equivalente a uma nova classe privilegiada;

— seja porque a Rússia não estava mesmo pronta para o socialismo e os vitoriosos de 1917 foram obrigados a cumprir, em seguida, muitas tarefas características de uma revolução burguesa, com a duplicidade de objetivos necessariamente causando desvirtuamentos;

— seja porque o proletariado russo, embora aguerrido e heroico, era numericamente muito reduzido, tendo boa parte dos seus melhores filhos tombado na defesa da revolução;
A liberdade guiando o povo (versão 1968)

— seja porque a consolidação do novo regime se deu em condições dramáticas, num terrível isolamento, com a Rússia tendo de, em 1918-1921, resistir sozinha à invasão de tropas de umas 20 nações capitalistas e aos contingentes dos reacionários internos, para depois desenvolver esforços hercúleos no sentido de saltar rapidamente de um país com desenvolvimento tardio para uma nação moderna).

De certa forma, a União Soviética, sob a tosca tirania de Stalin, serviu como espantalho para a propaganda capitalista dissuadir os operários das nações economicamente mais avançadas de seguirem na mesma direção. 

Contrariando a constatação de Marx, segundo quem eram os países mais pujantes que determinavam o destino da humanidade, com as demais sendo arrastados por sua dinâmica, as revoluções seguintes se deram em países pobres, desorganizados por guerras ou ainda emancipando-se da dominação colonial.

E o capitalismo foi aprendendo a lidar de forma cada vez mais eficiente com as várias tentativas vanguardistas que foram surgindo: seja vencer militarmente as guerrilhas urbanas e rurais, seja asfixiar economicamente ou derrubar governantes adversos por meio das Forças Armadas, Judiciário ou Legislativo de seus países.

Mas, a revolta jovem de 1968 na França foi o primeiro indício de que a História não tem fim e, quando algumas portas se fecham, outras se abrem. O capitalismo não tem tudo dominado, nem jamais terá; pelo contrário, marcha em passos rápidos para a extinção, que só vai significar o fim da História profetizada por Francis Fukuyama se a própria espécie humana extinguir-se junto com ele.

A sociedade que desenvolveu ao máximo os meios de comunicação é também a sociedade em que uma simples centelha evolui rapidamente para incêndio, surpreendendo governos e suas polícias.
Uma nova esquerda despontou em 2013. E foi tratada a pontapés pela velha...
Já em 1968, uma onda de paralisações em escolas de Paris evoluiu rapidamente para uma formidável greve geral, fazendo o presidente De Gaulle balançar no cargo, que só conservou graças à boia que o Partido Comunista Francês lhe atirou, mais interessado em manter sua liderança nas entidades sindicais do que em fazer a revolução. 

Merecidamente, ao agir como fura-greves da nova Comuna de Paris (são muito significativas as semelhanças da pauta dos communards de 1871 com a dos congêneres de 1968, ambas inspiradíssimas!), o PCF se condenou à insignificância. Os franceses não são tão condescendentes com relação às atuações desastrosas de seus partidos quanto os esquerdistas brasileiros...

E, nas manifestações contra o capitalismo e suas mazelas que vêm marcando a década atual, incluindo as jornadas de junho de 2013 no Brasil, a pulverização da vanguarda é uma característica comum. Não há força majoritária da esquerda as convocando e conduzindo, mas uma imensidão de células independentes imantadas pelas redes sociais.
Este título de livro se revelará profético?

Fazem lembrar as ondas revolucionárias que, segundo Marx, varreriam o mundo. Dá para imaginarmos que, com a agonia capitalista chegando ao ponto decisivo, uma crise do tipo da imobiliária de 2007/2008 possa não só evoluir para um clash como de 1929, mas também gerar uma reação da sociedade equivalente à Primavera de Paris.

Concordo com Zuenir Ventura: 1968 não terminou. Os fios da História poderão até ser reatados meio século depois, por que não? 

O certo é que, se tal acontecer, há uma grande chance de a centelha revolucionária novamente provir da França, quem sabe tendo manifestantes com coletes amarelos a empunharem a tocha libertária dos sans cullotes (*) de outrora... (por Celso Lungaretti)
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* Sans-culottes (sem calção) era como os aristocratas denominavam, pejorativamente, os artesãos, trabalhadores e pequenos proprietários participantes da Grande Revolução Francesa. Os culotes eram uma espécie de calções justos que se apertavam na altura dos joelhos, vestimenta típica da nobreza. Já os sans-culottes, que vestiam uma calça comprida de algodão grosseiro, geralmente lideravam as manifestações nas ruas.

terça-feira, 26 de junho de 2018

RIO DE JANEIRO EM TRANSE: A 6ª FEIRA SANGRENTA E A PASSEATA DOS 100 MIL – 2

(continuação deste post)
"DE UM LADO, CASSETETES E CHUTES DE COTURNO. DO OUTRO, BOLINHAS DE GUDE DERRUBANDO CAVALOS" – O vendaval parisiense chegou ao Brasil principalmente por via de influência da contracultura, mas, segundo o historiador e ex-militante estudantil Daniel Aarão Reis, não teve impacto no que se viu nas ruas do Rio de Janeiro em junho. “O alvo principal do movimento estudantil em 1968 era a política educacional do governo e a reivindicação por mais verbas era algo bem distante do que acontecia em Paris”, diz Aarão Reis.
6ª feira sangrenta: manifestantes enfrentando a repressão com paus e pedras.


Contudo, como Ventura lembra em seu livro, se as mobilizações francesas não foram determinantes para o ano brasileiro, “Costa e Silva, patético, prometia: ‘Enquanto eu estiver aqui, não permitirei que o Rio se transforme em uma nova Paris”. A declaração do presidente militar é de 12 de junho e, passada apenas uma semana, no dia 19, 4ª feira, foi dado início aos acontecimentos que levaram até a 6ª feira sangrenta, 21.

Tudo começou com um grupo de estudantes que foi ao Ministério da Educação, então no Rio de Janeiro, para expor as pautas do movimento estudantil. A iniciativa terminou em repressão policial, que, pela primeira vez, foi respondida também com violência e não apenas com dispersão. 
Palmeira: "Batemos na polícia pela primeira vez"

“Quando a polícia veio, naquele passo terrível, largo, aqueles passos de ganso, resolvemos resistir. Batemos na polícia pela primeira vez”, lembra Vladimir Palmeira, então presidente da União Metropolitana dos Estudantes, no mesmo Memória do Movimento Estudantil

O que se seguiu foram horas de perseguição e enfrentamento. De um lado, cassetetes e chutes de coturno. Do outro, bolinhas de gude derrubando cavalos.

Já no dia 20, 5ª feira, cerca de 400 estudantes foram presos após uma assembleia geral no Teatro de Arena da Faculdade de Economia. No campo do Botafogo, eles foram enfileirados e humilhados. “A descrição de soldados urinando sobre corpos indefesos ou passeando o cassetete entre as pernas das moças, junto às imagens de jovens de mãos na cabeça, ajoelhados ou deitados de bruços com o rosto na grama, eram uma alegoria da profanação”, escreve Ventura. 

O que começou com a morte de Edson Luís, quando uma questão universitária relativa ao restaurante Calabouço cresceu para além das assembleias estudantis, ficou ainda mais intenso após os dias 19 e 20.
Aí, então, veio a 6ª feira sangrenta. “Nesse dia, o Rio não ficou nada a dever à Paris das barricadas – e não por mimetismo, como temiam as autoridades militares. A motivação estava aqui mesmo”, escreve Ventura. 

Tudo teve início com um pequeno protesto, às oito da manhã, na praça Tiradentes, centro da capital carioca, contra os eventos de 4ª e 5ª feira; e acabou se transformando numa batalha de cerca de 12 horas, em plena avenida Rio Branco.

Quando a repressão policial chegou, já depois do horário do almoço, a população tomou partido e começou a jogar objetos das janelas contra os policiais. Tudo começou com alguns gelos arremessados, até que passaram a cair máquinas de escrever, garrafas, cinzeiros, cadeiras e vasos de flores. 

“Participei como cidadão comum naquele dia, em que foi possível ver de tudo: de carros da polícia virados até garotos montando cavalos, com capacetes de policiais militares caídos, galopando pelas ruas centrais da cidade” relembra Aarão Reis. 

Para ele, aquele momento, em que a população apoiou os estudantes espontaneamente, é uma marca da insatisfação que parte da classe média vinha mostrando com os rumos econômicos e autoritários da ditadura. “Eram setores que acreditavam que 1964 seria apenas uma operação cirúrgica destinada a varrer os comunistas e trabalhistas”, diz.
Junho de 1968, depois da 6ª feira sangrenta, ficaria definitivamente marcado como o mês das grandes mobilizações de rua. Cinco dias depois, em 26 de junho, aconteceu a famosa passeata dos 100 mil, que reuniu estudantes, artistas, intelectuais, religiosos e população em geral para protestar contra as violências da ditadura.

As fotografias desse dia, muitas feitas também por Evandro Teixeira, que registrou a 6ª feira sangrenta, são simbólicas. Numa imagem, aparecem Caetano Veloso, Gilberto Gil, Vinícius de Moraes, Paulo Autran, José Celso Martinez… 

Noutra um estudante, numa das foto mais conhecidas do período, picha: Abaixo a ditadura nos muros do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Dessa vez, a resposta do regime militar não viria nas ruas, mas em um processo de recrudescimento cada vez maior que acontecia nos corredores de Brasília. 

“Já no segundo semestre, sem forças, os movimentos começaram a declinar. O estouro do 30º Congresso da UNE, em outubro, só fez consolidar a curto prazo, este declínio”, diz Aarão Reis.

Junho de 1968 foi o ápice do movimento, a 6ª feira sangrenta o momento mais próximo de uma insurreição popular e a passeata dos 100 mil uma amostra irrefutável do descontentamento geral contra a ditadura. 

A partir de junho, contudo, as coisas esfriaram. O movimento estudantil debatia próximos passos internamente e a repressão avançava. Em outubro, como relembra Aarão, um congresso da UNE, em Ibiúna, interior de São Paulo, foi invadido pela repressão e os principais líderes estudantis presos. Alguns falam em até 900 presos. Todos seriam fichados no Dops, a polícia política do regime.

As mobilizações do Rio de Janeiro não foram um caso isolado naquele ano. P. ex., no próprio segundo semestre, em outubro também, houve a conhecida batalha da rua Maria Antonia, em São Paulo, quando estudantes da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP entraram em confronto com os do Mackenzie, apoiados pelo Comando de Caça aos Comunistas. 

Na verdadeira guerra campal que se abriu na rua, que abrigava as duas universidades, um estudante morreu.

Em Brasília e Belo Horizonte, as universidades federais também foram palco de movimentações estudantis e invasões militares, em diferentes meses do ano. 

E o movimento sindical, embora enfraquecido na época, também se mobilizou, tendo ocupado fábricas na cidade mineira Contagem, em abril, e na paulista Osasco, em julho.

“Tudo tinha uma marca forte de improvisação, era um processo muito embrionário de mobilizações. A rigor, todos estes movimentos, embora apresentando aspectos novos, devem ser vistos, quando a gente pensa neles em conjunto, como um último sopro dos processos sociais mais densos que se verificaram antes de 1964”, diz Aarão Reis. 

O AI-5 colocaria todos na ilegalidade, a UNE continuaria seu trabalho sempre na clandestinidade e a luta armada surgiria como opção contra um regime que, como visto em junho, sofria de impopularidade em diferentes setores da sociedade.

RIO DE JANEIRO EM TRANSE: A 6ª FEIRA SANGRENTA E A PASSEATA DOS 100 MIL – 1

Por Celso Lungaretti
Este blog jamais poderia deixar os 50 anos da passeata dos 100 mil passarem em branco. Num primeiro momento, pensei até em publicar o trecho do meu livro Náufrago da Utopia a ela dedicado. 

Mas, avaliando melhor tal possibilidade, conclui que seria pouco, um relato de quem acompanhou a passeata à distância, mais focado no que rolava no movimento estudantil de São Paulo, meu campo de atuação (daí, no livro, tê-la descrito com base em reportagens jornalísticas e livros). 

O que eu não soube por leituras, mas testemunhei e me impressionou, foi a meteórica notoriedade que o Vladimir Palmeira adquiriu entre nós; até então, era uma referência distante.

Também me ficou na lembrança o que o valoroso companheiro José Raimundo da Costa, o Moisésúltimo comandante da VPR (dissolvida após sua morte), me contou. 
O saudoso Moisés

Àquela altura, perseguido intensamente pela repressão (um desafeto dele se tornara figurão do Cenimar), trabalhava sob identidade falsa como gerente de uma empresa de transportes. E, percebendo que algo muito importante estava para acontecer, não teve dúvidas: foi para o aeroporto, com o terno que estava usando no serviço. 

Havia voo disponível, chegou na Cidade Maravilhosa em tempo e deu tudo certo, menos um certo desconforto por alguns manifestantes olharem para ele de esguelha, suspeitando que fosse policial à paisana.

Enfim, dando uma peneirada em tudo que encontrei sobre a passeata na busca virtual, acabei chegando a um artigo impecável, o de André de Oliveira, repórter do jornal El País. A ele, pois! 

MAIO DE 1968 NÃO FOI UM MÊS
NO BRASIL, MAS UM ANO INTEIRO
Por André de Oliveira
Maio de 1968 foi diferente para os estudantes brasileiros. A começar pelo fato de não ter sido um mês, mas um ano intenso de muito mais perdas do que ganhos. 

Lá fora, a panela de pressão misturava movimentos de contracultura, palavras de ordem anti-sistema, reivindicações de cunho identitário e protestos contra a Guerra do Vietnã; aqui, o inimigo era mais palpável: a ditadura militar. 

“Por isso, a nossa geração de 68 foi a que mais caro pagou por sua rebeldia, através de prisões, tortura, exílio e até morte”, escreve Zuenir Ventura em seu clássico 1968 — o ano que não terminou. Se durante o ano houve dezenas de mobilizações estudantis, tudo acabou em 13 de dezembro, com o Ato Institucional nº 5, que inaugurou o período de maior repressão da ditadura.

Uma foto dessas mobilizações é conhecidíssima. Dois militares, cassetetes na mão, perseguem de perto um homem que, caindo, joelhos dobrados, óculos voando alguns centímetros à frente, um pé já tocando o chão e braços abertos em cruz, está prestes a se esborrachar. 

Um policial, o da esquerda, corre com os lábios presos, talvez, pronto para desferir uma cacetada. O outro, com uma das mãos espalmada, parece querer agarrar pela camisa o homem barbudo, que dificilmente conseguirá escapar das pancadas que certamente levará. 

Ao longe, no meio da rua, um careca vara pau observa a cena calmamente. Mais para trás, vê-se um aglomerado difuso de gente, que sugere corre-corre.

A imagem de Evandro Teixeira, no centro do Rio de Janeiro, é de 21 de junho, a data que ficou conhecida como a sexta-feira sangrenta, um dos pontos culminantes daquele 1968. Contudo, para se chegar a esse dia, quando os estudantes, com participação espontânea de um bom número de civis, travaram uma batalha de horas contra os militares no centro carioca – deixando um saldo, em uma das versões, de ao menos cinco pessoas mortas, entre estudantes e policia – é preciso falar de acontecimentos anteriores (e também posteriores) que sumarizam todo o ano de mobilizações estudantis.

Um ponto de partida possível é Edson Luís. Secundarista, Edson Luís foi morto em 28 de março, aos 18 anos, durante a invasão militar do restaurante estudantil Calabouço – que era alvo de reivindicações pois teve o preço das refeições aumentado. 

A morte do estudante, que sequer participava de algum movimento organizado e estava no local porque, filho de uma família pobre do Pará, vivia ali de favor para poder cursar o 2º grau na capital carioca, gerou grande indignação. 

No documentário Memória do Movimento Estudantil, o então presidente da União Nacional dos Estudantes, Jean Marc Van Der Weid, lembra que o assassinato de Edson Luís foi o gatilho para uma série de eventos que atraiu, inclusive, a simpatia de setores da classe média que, até então, mantinham-se alheios à repressão da ditadura. 
À pauta do movimento estudantil, que pedia mais verbas para a educação, além de travar uma luta pelos excedentes –quem havia passado no vestibular, mas não encontrava vaga na Universidade– somava-se à denúncia contra a violência militar sob as palavras: “E se fosse um filho seu?”.

Um dia depois da morte do secundarista, o cortejo de seu enterro reuniu 50 mil pessoas, que caminharam da Assembleia Legislativa, no centro do Rio de Janeiro, até o cemitério São João Batista, no bairro de Botafogo, zona sul. 

Houve, entre estudantes e figuras conhecidas, quem passasse a noite inteira velando o corpo do secundarista, como fez o intelectual Otto Maria Carpeaux, que na época não era nenhum menino, tinha 68 anos. 

A missa de sétimo dia de Edson Luís foi outro acontecimento. Centenas de pessoas foram à Igreja da Candelária prestar homenagens e se despedir, mas na saída acabaram reprimidas pelos militares. Depois disso, vieram os ventos franceses de Maio de 1968. (continua neste post)
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