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quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

O ESTADÃO QUER QUE A EUROPA COLOQUE COLEIRA NO PESCOÇO DO TRUMP RAIVOSO

"
Pela primeira vez desde a criação da Otan após a 2.ª Guerra, aliados se veem compelidos a discutir dissuasão simbólica contra os próprios Estados Unidos. A confiança – ativo invisível, mas essencial – se deteriora a olhos vistos. E quando a confiança é desintegrada, os custos se multiplicam em cadeia: na coesão política, na previsibilidade estratégica, na credibilidade financeira...

...Ao tratar aliados como obstáculos e regras como inconvenientes, Trump acredita colocar a América em primeiro lugar. Na prática, acelera a transição para um mundo menos previsível e muito mais perigoso. Por esse motivo, a Europa precisa reagir a Trump, estabelecendo um limite para a sua irresponsabilidade..." (trechos do editorial de hoje d'O Estado de S. Paulo, intitulado A Europa precisa enfrentar Trump)
Tradicionalmente conservador, além de baba-ovos do Tio Sam, O Estado de S. Paulo teve, contudo, grandes momentos no século passado, ao reagir corajosamente à ditadura de Getúlio Vargas, quando ficou sob intervenção federal entre 1940 e 1945; e depois à dos generais, ao preencher os espaços vazios das notícias censuradas com versos de Camões. 

Foi igualmente inesquecível a atitude do diretor de redação do Jornal da Tarde (também pertencente ao Grupo Estado), Murilo Felisberto, ao proibir o ingresso dos agentes do DOI-Codi que pretendiam efetuar uma prisão. 

Ele mandou os seguranças da empresa irem à portaria para evitar qualquer tentativa de invasão. 
Sua frase célebre foi "lá fora ele pode ser comunista, mas aqui dentro ele é meu jornalista".

E, após o assassinato do Vladimir Herzog, a empresa passou a enviar um diretor junto com qualquer dos seus profissionais que fosse chamado para depor no DOI-Codi. 

O editorial de hoje não é, portanto, nenhuma surpresa. Mas, ao exigir da Europa que coloque uma coleira no pescoço doTrump raivoso que preside os Estados Unidos, ele certamente frustrou um considerável contingente de anunciantes e leitores.

A reação borocoxô do Lula diante do sequestro de seu aliado surpreendeu por sua pusilanimidade; e a do Estadão por demonstrar mais espírito de luta do que o PT.

Em tempo: sempre considerei os governos de Chávez e Maduro como meras nomenklaturas, mas fiquei envergonhado da atitude vil e servil do governo brasileiro. Portamo-nos como quintal dos EUA. (por Celso Lungaretti)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

NÃO TOLERO LERO-LERO

Li que a Organização dos Estados Americanos convocou uma reunião extraordinária para os representes dos vários países fazerem discursos estridentes mas nada decidirem de concreto contra os EUA em função do sequestro de Maduro.

O blablablá do embaixador Benoni Belli, representante permanente do Brasil junto à organização, teve como principal trecho o seguinte:
“Os bombardeios no território da Venezuela e o sequestro do seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável. Esses atos representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e ameaçam a comunidade internacional com um precedente extremamente perigoso”. 
A pior roubada do mundo é ser aliado do Lula
O que o Brasil fará contra tal
precedente extremamente perigoso? Nada. 

Ficará torcendo para a blitzkrieg do Adolf Trump não avançar Amazônia adentro. 

Fez-me lembrar que fazia um tempão que eu não disponibilizava aqui a ótima canção Lero-Lero, composta pelo Edu Lobo e Cacaso. 

É um bom momento para eu preencher essa lacuna. (por Celso Lungaretti) 

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

SÓ INGÊNUOS DUVIDAVAM DE QUE O LULA PERMANECERIA EM CIMA DO MURO

O Lula queria liderar a América do Sul, mas
a agressão à Venezuela o colocou no seu lugar
C
onfirmando minha previsão de que o Lula permaneceria em cima do muro diante do sequestro de Maduro, fontes palacianas informam que sua postura deverá ser a de apenas pregar genericamente a importância da soberania do Brasil e da América do Sul, deixando o ex-aliado entregue às urtigas. 

Já foi nesta linha o pronunciamento do Itamaraty no Conselho de Segurança da ONU: ao invés de um rugido, um miado. 

Depois da porta arrombada, declara que os EUA não têm autonomia para invadir um país e depor seu presidente sem anuência internacional. 

Faz lembrar quando Inglaterra e França permitiram que Hitler invadisse a Áustria e partes da Checoslováquia, só declarando guerra à Alemanha quando esta anexou a Polônia. 

Daquela vez foi com um vergonhoso atraso de um ano e meio de atraso que ambas reagiram à altura. Desta vez, quanto tempo demorará? 

Se depender do Lula, uma eternidade. (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

CLÁSSICO DO CINEMA ANTI-IMPERIALISTA, 'GRINGO' É A ATRAÇÃO DA 'FILMES PARA VER NO BLOG' DE HOJE. TEM TUDO A VER!

Gian-Maria Volonté e Lou Castel: amizade inesperada. 
Q
uando acompanhamos indignados a nova agressão do Trump ao continente americano, talvez nos sirva de um pequeno consolo assistir a este excelente faroeste anti-imperialista do cinema italiano.  

O que gostaríamos de ver é uma união de países contra a pirataria internacional e a entrega de um ultimato ao sequestrador fanfarrão, mas não podemos esperar algo assim dos presidentes bananas de nuestra América, começando pelo Lula.

Isto porque ele se mostra mais apreensivo com as sequelas eleitorais do episódio do que com o risco que a própria Amazônia passou a correr de ser ocupada e saqueada. Então, fiquemos com a arte, pois a vida anda uma desilusão só...  
Klaus Kinski: messiânico e carismático.
Gringo é o filme de 1967 que apontou um novo rumo para a carreira do diretor e roteirista Damiano Damiani (1922-2013), cujas incursões pelos épicos, dramas e comédias haviam tido resultados inexpressivos.

Ao contar uma história com fundo político e todos os ingredientes do cinema de ação procurados pelos fãs dos westerns, conseguiu agradar não só à clientela habitual dos bangue-bangues (desacostumada a a roteiros com essa qualidade superior e a tal excelência de interpretações, trilha sonora e direção), como também atrair um público mais politizado.

Gringo (também conhecido como Uma bala para o general) mostra  o mercenário estadunidense El Niño (Lou Castel) tentando chegar ao acampamento de um dos líderes da Revolução Mexicana, dom Elias (Jaime Fernández) para o assassinar a soldo do reacionário governo asteca. 

Consegue infiltrar-se num grupo guerrilheiro que ataca trens e guarnições militares para obter armas destinadas a Elias, mas sua tarefa se complica quando nasce uma inesperada amizade entre ele e o comandante da tropa, El Chuncho (Gian-Maria Volonté).

Num filme superlativo, com vários momentos inesquecíveis, destaque também para a primeira  interpretação impactante do Klaus Kinski, como El Santo. (por Celso Lungaretti)

domingo, 4 de janeiro de 2026

BARBA NEGRA NÃO É MAIS O MAIOR PIRATA DE TODOS OS TEMPOS. TRUMP, O CORSÁRIO DO PETRÓLEO, TOMOU SEU LUGAR

"Eu sou o pirata da perna de pau,
do olho de vidro, da cara de mau

...Minha galera
Só tem garotas na guarnição,
Por isso se outro pirata
Tenta a abordagem, eu pego o facão
E grito do alto da popa:
Opa! Homem não"

(marcha composta pelo Braguinha que 
fez muito sucesso no carnaval de 1946) 

sábado, 3 de janeiro de 2026

MEU TOTAL REPUDIO À AGRESSÃO DOS EUA CONTRA A VENEZUELA. MAS, DUVIDO QUE NOSSOS PRESIDENTES BANANAS REAJAM

Mesmo sem jamais haver tido simpatia pelo chavismo, considero anacrônica, covarde e inaceitável a agressão estadunidense à Venezuela. Então, como sempre, minha solidariedade vai toda para a parte mais fraca.

Infelizmente, tenho a certeza de que os presidentes bananas sul-americanos (com exceção do canalha Javier Milei, lambe-botas do Trump) farão discursos indignados e, por meio de seus representantes, chororô no muro de lamentações que é a ONU. Contudo, não se unirão para a tomada de uma atitude mais contundente contra o vilão imperialista à moda antiga.

Quanto ao Lula, cuja trajetória acompanho desde as grandes greves do ABC, não me surpreenderei se no futuro viermos a saber que uma reação frouxa no episódio venezuelano tiver sido a contrapartida dele previamente exigida para o esvaziamento da chantagem tarifária contra o Brasil. Se non è vero, è ben trovato...

O sequestro do Maduro, um indiscutível ato de pirataria internacional, só admite uma resposta: ultimato conjunto aos EUA exigindo sua libertação e, se não for atendido, declaração de guerra. 

Mas, os leitores decerto nem sequer cogitam que  tal linha de ação venha a prevalecer. Mais de um século depois, engoliremos abúlicos tal retrocesso à política do grande porrete de Theodore Roosevelt. Acostumamo-nos à indignidade. 

Que falta faz uma esquerda de verdade por aqui! (por Celso Lungaretti)

Lembrança de uma América do Sul que resistia aos déspotas

quinta-feira, 1 de agosto de 2024

JÁ TEMOS O NOVO GUAIDÓ


 Os EUA reconheceram nesta noite, dia 01/08, Edmundo González o novo presidente da Venezuela. Foi um jeito do governo estadunidense ressuscitar Guaidó de forma retrabalhada, agora enquanto zumbi, pois não foi suficiente ter tido uma vez um presidente fictício, é necessário repetir a dose. 

É a democracia em que a Casa Branca decide quem será o presidente dos demais países. (por David Coelho)

terça-feira, 30 de maio de 2023

MADURO É A ESQUERDA IMATURA

 

Com o perdão do trocadilho óbvio do enunciado, a esquerda estatizante que tem se alicerçado nas relações capitalistas de mercado tem sido mau exemplo no curso da história bicentenária de luta contra o escravismo indireto do capitalismo republicano.  

A Venezuela juntamente com a Nicarágua não têm servido de bons exemplos de luta pela emancipação dos povos mundo afora, notadamente na América do Sul e Central.  

Repetem o figurino vivido pela Rússia e China, com a diferença que não possuírem a dimensão territorial e populacional das duas primeiras experiências de relações sociais pretensamente anticapitalistas de estado, e capacidade de sobreviverem intramuros.  

Ao conservar a forma política de governos fortes com fortes apoios milicianos-militares populistas, mantendo intactas as categorias capitalistas de modo de produção e circulação de mercadorias, terminarão até com maior brevidade, da mesma forma que as experiencias na Eurásia e Ásia daqueles países continentais que partiram de uma economia intramuros para o livre mercado sem nenhum pejo.  

Como se justificar a existência de grupamentos indígenas venezuelanos perambulando pelas ruas de várias cidades brasileiras a pedir esmolas como fugitivos de seu país de origem?! Nunca vi ninguém fugir de um lugar no qual reina a liberdade e a proteção social coletivas.  

A Venezuela pratica uma plutocracia capitalista de estado sustentada pela produção de petróleo de uma rica empresa estatal cujos dirigentes militares se privilegiam com tal gerenciamento e dão sustentação a um governo eleito sob a influência de minoritários grupos sociais privilegiados.  

Já passou da hora de os revolucionários anticapitalistas se rebelarem contra o uso das insígnias emancipacionistas históricas da estrela vermelha de cinco pontas e da foice o do martelo como luta dos trabalhadores da cidade e do campo como se tais governos representassem o ideal originário de combate à exploração da categoria capitalista trabalho abstrato representada pela mesma foice e martelo.  

Sempre houve uma certa confusão da simbologia da estrela vermelha de cinco pontas, justamente porque em vários momentos da história da luta contra a monarquia constitucional feudal, e contra o fascismo imperialista, juntaram-se republicanos, comunistas e até anarquistas numa frente ampla vermelha como se seus integrantes rezassem pela mesma cartilha.  

Na recente eleição presidencial brasileira vimos o que representa a polaridade entre o bem e o mal, de modo maniqueísta, como fato político que proporcionou o ajuntamento de A a Z da política em dois únicos lados e barcos pretensamente antagônicos.   

De Collor de Melo, Roberto Jefferson, banqueiros, empresários da Fiesp, Generais saudosos do regime de arbítrio, de um lado, a recém-convertidos ao projeto eleitoral lulista como Geraldo Alckmin, Aloísio Nunes, economistas neoliberais como Arminio Fraga, Pérsio Arida, Mônica de Bolle, políticos como Simone Tebet, empresários como Tasso Jereissati, entre tantos outros.  

A polarização política é em si conservadora do decadente status quo vigente porque anula o pensar; faz com que o medo de péssimo justifique a aceitação do ruim.  

Os republicanos burgueses, também chamados de conservadores - ou liberais, como nos Estados Unidos - sempre se opuseram aos comunistas marxista-leninistas, que por sua vez perseguiram os anarquistas.  

Entretanto, todos usaram as insígnias representativas de seus corolários ideológicos com simbologias similares que confundem conceitualmente quem as procura entender.  

A estrela vermelha de cinco pontas, numa leitura mais recente, passou a significar em cada uma destas pontas  

- (i) a defesa da juventude;  

- (ii) os militares para a defesa contrarrevolucionária;  

- (iii) o trabalhador do campo;  

- (iv) o trabalhador da cidade;  

- (v) a intelligentsia.  

O que se pode inferir de tudo isto é que as variações político-governamentais se assentam sobre uma mesma base: o modo de produção de mercadorias a partir do trabalho abstrato produtor de valor e todos os acessórios mercadológicos e institucionais no seu entorno, com os aperfeiçoamentos históricos a dar forma a uma imperfeição original.  

Por que todos endeusaram - até o titio Adolfo o fez - o trabalho abstrato produtor de valor e de mais-valia?!

Por que todos defendem a verticalidade do exercício do poder político?! 

Por que todos precisam de uma força militar e seus gastos bélicos exorbitantes e pagos por uma população cada vez mais exaurida economicamente, seja pela extração de mais-valia própria à produção de mercadorias a partir da mercadoria trabalho abstrato, e pela cobrança de impostos?! 

Por que prendem ou segregam socialmente quem elabora o pensamento crítico revolucionário fora da caixa, como se estes fossem uns chatos a clamar no deserto?! 

 Mas apesar de toda diferenciação cosmética dos projetos políticos, é por suas similaridades intrínsecas que eles se desgastam perante a população num processo pendular cíclico eleitoral ou ditatorial que agora está chegando ao ponto de inflexão irreversível: a contradição irremediável entre forma e conteúdo

As categorias capitalistas, antes de serem positivadas como o fazem todos os projetos políticos de governo, precisam ser negadas peremptoriamente, como modo de superarmos a fome, o retrocesso civilizatório, além dos impasses perigosos que nos rodeiam, tais como a guerra nuclear e o aquecimento global, 

O modo da produção capitalista estatal ou privado, ou ainda, híbrido nas duas formas, atingiu o seu limite existencial de capacidade de expansão pelos seus próprios fundamentos, impondo uma realidade de produção coletiva voltada para a satisfação das necessidades coletivas e de modo ecologicamente sustentável.  

Entretanto, tal modo de produção é incompatível com a existência de um estado cobrador de impostos aos cidadãos que sustenta tudo e a todos; dos poderes institucionais e forças militares à infraestrutura de produção capitalista - estradas, portos, energia, abastecimento de água, etc. -, razão pela qual nenhum dos atores políticos aceitam a transformação radical representada por um novo modo de produção social sem a intromissão indevida do valor, que não participa como nenhuma das substancias químicas existentes nos objetos  e serviços úteis e indispensáveis à existência humana.   

Como Lula e Maduro, que defendem as boas relações políticas entre governantes sul-americanos podem negar a política, se é nela e por ela que existem?!

Há quem considere a política como um gênero ontológico de relações sociais do qual as formas criadas são espécies a serem aperfeiçoadas. Que me perdoe o mestre Bertold Brecht, a quem muitas vezes recorro, mas o analfabeto político é aquele que acredita na política como se ela tivesse o condão de tudo resolver.  

Lula recentemente afirmou que só na política e pela política se pode resolver os problemas sociais, razão pela qual ele defende a negociação política exaustiva com seus atores para a solução de problemas que fogem do alcance dessa, como o é a equação irresolúvel das contradições capitalistas que ele quer preservar quando fala em retomada do desenvolvimento econômico.  

Caso se queira emprestar ao termo política o sentido de uma sinonímia com o ato de pensar e agir socialmente, como todos a tem definido, o que seria já um enquadramento restritivo do significado desta última emanação do intelecto humano, deveríamos admitir política apenas como a negação dela própria, e subvertemos o enquadramento na camisa de força por ela representado atualmente. 

Maduro e Lula jogam um jogo no qual os dois sairão derrotados ao final da partida, desgastados tal como jogadores de dois times que empataram e não poderiam empatar sob pena de serem eliminados.  

Precisamos mesmo de um pensar que quebre o ovo, como fez Colombo diante do impasse de colocá-lo em pé.  (por Dalton Rosado) 


sábado, 1 de agosto de 2020

O 30º ANIVERSÁRIO DO FORO DE SÃO PAULO ME FEZ RECORDAR O SLOGAN DE 1968: "NÃO CONFIE EM NINGUÉM COM MAIS DE 30 ANOS"

Começou com pompa e circunstância...
Em notícia que entrou no ar há algumas horas no site da Folha de S. Paulo, Fábio Zanini relata:
"Para celebrar os 30 anos do Foro de São Paulo, o PT e a nata das ditaduras latino-americanas participaram de um debate online na 3ª feira (28)...

O evento reuniu os ditadores da Nicarágua, Daniel Ortega, e da Venezuela, Nicolás Maduro, além do líder do regime ditatorial cubano, Miguel Díaz-Canel.

Foi mediado pela dirigente petista Mônica Valente, secretária-executiva do Foro, que reúne 123 partidos de esquerda de 27 países da América Latina e do Caribe.

Apesar da presença estrelada, o debate teve audiência pífia, com menos de 800 visualizações até a tarde desta 6ª feira (31) no canal do PT no YouTube, que o transmitiu conjuntamente com a Presidência de Cuba.
Desde o seu surgimento o Foro demonstrou que eram factíveis novos objetivos de luta, de construir uma sociedade mais justa e com igualdade de oportunidade para todos, disse Valente na abertura, após chamar Ortega, Maduro e Diáz-Canel de companheiros.
...e hoje definha melancolicamente...
Criado em 1990 por inspiração do então ditador cubano Fidel Castro e do petista Luiz Inácio Lula da Silva, o Foro de São Paulo viveu seu auge na primeira década deste século, quando diversos presidentes de esquerda chegaram ao poder. 

Nos últimos anos, perdeu influência com o refluxo da onda vermelha, mas continua sendo pintado como uma espécie de bicho-papão pela direita, sobretudo apoiadores do presidente Jair Bolsonaro. O Foro, segundo eles, seria uma perigosa ameaça comunista que justificaria a radicalização do discurso conservador".
NÃO TOLERO LERO-LERO – Vou abster-me de entrar na tediosa discussão sobre se os regimes venezuelano e cubano são ou não ditaduras pois, seja lá o que forem, seu peso na definição dos rumos da humanidade se tornou infinitesimal e, parafraseando o poeta Cacaso, chegando aos 70 anos não tolero lero-lero, preferindo aproveitar o tempo que me resta com questões realmente importantes.

Então, reproduzi a notícia do Zanini apenas porque evidencia:
— o fim de feira a que foi reduzida aquela esquerda que, na década de 1990, acreditava ter chegado ao paraíso mesmo sem haver acabado com o capitalismo;
— que, além de não ter dado contribuição significativa para a revolução latino-americana, o tal Foro alavancou poderosamente a rearticulação dos inimigos, que o utilizaram como espantalho para colocar os bestalhões bovinizados em pânico e para arrancar generosas contribuições dos ricaços reaças (está aí o Olavo de Carvalho que não me deixa mentir).

E, por falar no dito cujo, o Fôro de São Paulo foi o pivô da polêmica que travei com o guru charlatão no final de 2007 (vide aqui). 
...só servindo para picaretas do alarmismo faturarem sua grana
Creio já ter esgotado o assunto quase 13 anos atrás, nada havendo a acrescentar agora (minha única dúvida é se a melhor ilustração para o significado da atual efeméride é a palavra-de-ordem das barricadas parisienses e a canção dela derivada – Com mais de 30 – ou o filme Mamãe faz 100 anos, então usei ambos):
.
"Esta polêmica começou quando toquei num calo dolorido dos profissionais do anticomunismo. Em 1964 eles usaram a conspiração comunista internacional como bicho-papão para assustarem a classe média e conseguirem êxito em sua segunda tentativa de usurpação do poder, depois que a resistência legalista fez abortar o golpe de 1961.

Não há espantalho igualmente apropriado nos dias de hoje. Então, para suprir a lacuna, eles tiveram de satanizar uma inexpressiva reunião de partidos e organizações de esquerda da América Latina, o Foro de São Paulo, apresentando-a como uma sinistra articulação para, nas palavras de OC, reivindicar o poder ditatorial sobre todo o continente.

Ou seja, Chávez e Morales estariam em vias de hastear a bandeira bolivariana em Wall Street, privando OC da segunda pátria que é a primeira no seu coração...

Efeméride tão retrô merecia um cartaz destes 
Evidentemente, eu só poderia comparar um disparate desses a fantasias cinematográficas como Moscou Contra 007 e O Rato Que Ruge...

Onde está a comprovação documental de que Brasil e Argentina, as nações com peso decisivo na América do Sul, estejam sendo teleguiadas pelo Foro de São Paulo, em vez de perseguirem seus próprios objetivos geopolíticos? Em lugar nenhum, claro!

Os saraus da esquerda sempre produziram um blablablá triunfalista que nada tem a ver com a correlação real de forças. Aí vem um OC da vida, pinça meia-dúzia de arroubos retóricos, junta com uma interpretação distorcida dos fatos e sai trombeteando que o continente americano inteiro está a caminho de se tornar uma constelação de ditaduras esquerdistas.

Se tivesse um mínimo de honestidade intelectual, ele esclareceria que existem apenas alguns candidatos a caudilhos com projetos populistas-autoritários de perpetuação no poder, sem ruptura real com o capitalismo. Nem de longe a perspectiva de novos regimes castristas; quanto muito, tentativas de bisar o PRI mexicano.

Mas, claro, nunca se pode esperar sinceridade dos manipuladores políticos. E menos ainda daqueles que servem de gurus para os medíocres e ressentidos, fornecendo-lhes explicações simplistas para seus fracassos cotidianos: 
A culpa é do Governo Lula! O Governo Lula é de esquerda!Então, a culpa é da esquerda!
Embora se pavoneie como autoridade em lógica, OC só parece ter verdadeira afinidade com os sofismas".  
(por Celso Lungaretti)

sábado, 20 de junho de 2020

VAI TER GOLPE? DE JEITO NENHUM! VAI TER PUTSCH? TALVEZ...

1923: Hitler liderando o fracassado putsch da cervejaria
demétrio magnoli
COOPTAÇÃO EM MASSA DE OFICIAIS DA RESERVA AMEAÇA FRAGMENTAR DIQUE INSTITUCIONAL
Vai ter golpe? – indagou-me um amigo dileto pouco tempo atrás. Retruquei com uma negativa convicta: os comandantes das Forças Armadas da geração atual aprenderam com a história e não repetirão, como farsa, a tragédia de 1964.

Vai ter putsch? – meu amigo pergunta agora. Respondi-lhe com mais um não, acompanhado por argumentos razoáveis. Contudo, pensando melhor, acho que perdi uma parte da paisagem.

Putsch é um intento golpista fadado, de antemão, ao fracasso. No célebre Putsch da Cervejaria de Munique (1923), Hitler e seus seguidores não obtiveram o esperado apoio de setores do Exército ou da polícia da Baviera.

Mas aquela escória nazista, forjada no caldeirão fervente da derrota alemã na guerra europeia, mostrou-se disposta a combater e morrer de verdade. 

Já a escória de fanáticos bolsonaristas é feita do material lânguido fabricado pelas redes sociais. Deles nada surgirá, exceto ameaças anônimas digitadas a distância ou fogos de artifício numa esplanada deserta.
1938: integralistas daqui também tentaram golpe
A fuga de Weintraub rumo a uma bem remunerada diretoria inútil do Banco Mundial comprova, para quem ainda nutria dúvidas, que esses cachorros barulhentos não mordem. 

A parte que perdi da paisagem é outra. Até que ponto o bolsonarismo conseguirá limar a disciplina militar?

O fenômeno mais saliente é a ação ininterrupta das redes bolsonaristas nos quartéis. A cooptação de militares e policiais para a militância antidemocrática ganhou alento com as publicações de manifestos golpistas de altos oficiais da reserva e a difusão de mensagens dúbias oriundas dos generais do Planalto.

Contudo, paralelamente, desenrola-se um novelo menos visível, mas talvez ainda mais relevante: a militarização extensiva dos altos e médios escalões da administração pública federal. O Ministério da Saúde, ocupado de alto a baixo por militares, ilustra uma tendência generalizada. 

Nesse passo, generais e coronéis passam a desempenhar funções de intermediários de contratos e compras governamentais. Abrem-se, assim, de par em par, as portas para a incorporação dos militares no ramificado negócio da corrupção estatal.

"Maduro entregou a militares setores mais lucrativos da economia"
Dinheiro, muitas vezes, pesa mais que ideologia. No Egito, Hosni Mubarak consolidou seu poder pelo loteamento do aparelho administrativo e das empresas estatais entre os comandantes militares. 

Quando o ditador tornou-se um fardo político pesado demais, o sistema ditatorial reciclou-se, substituindo-o por Abdel Fatah al-Sisi. 

Na Argélia, Abdelaziz Bouteflika operou de modo similar, entregando ao Exército as chaves da economia para estabilizar, por duas décadas, seu regime autoritário.

A ferramenta funciona à direita e à esquerda. Maduro não caiu porque, seguindo a receita cubana, transferiu às Forças Armadas os setores mais lucrativos de uma economia em ruínas: comércio exterior e distribuição de alimentos. 

Na Bolívia, prova inversa, Evo Morales nunca incluiu o Exército no jogo do capitalismo de estado, o que acabou decidindo seu destino.

O Brasil não é o Egito, Argélia, Cuba ou Venezuela. Por aqui, não se verifica uma transferência das chaves da economia às Forças Armadas. A instituição militar segue separada do governo, circunscrita às suas missões profissionais definidas pela Constituição. 
Bolsonaro fica só no blefe porque militares descartam golpe

Mas a cooptação em massa de oficiais da reserva para a administração pública, elemento do projeto de politização dos homens em armas conduzida pelo bolsonarismo, ameaça fragmentar o dique institucional.

Lá atrás, os generais estrelados cederam à ilusão de que seria possível conciliar o apoio político dos militares ao governo Bolsonaro com a preservação da neutralidade institucional das Forças Armadas. 

Hoje, quando se fecha o cerco judicial à subversão bolsonarista, a tensão entre esses objetivos incompatíveis atinge temperatura insuportável. 

Não vai ter golpe. Reúnem-se, porém, as condições para um putsch. (por Demétrio Magnoli)

sexta-feira, 17 de abril de 2020

COOPERAÇÃO TRANSNACIONAL EM DEFESA DA VIDA: ESTA É A BANDEIRA A SER ERGUIDA POR QUEM TEM SENSIBILIDADE SOCIAL!

dalton rosado
A QUESTÃO DO EMPREGO
Há um consenso nacional e internacional: precisamos preservar e retomar os empregos. Isso dizem-nos de Mandetta a Boçalnaro, o ignaro
— do pato Donald destrumpelhado a Xiiiiiiiii... Jinping
— de Tô Putin ao turco energúmeno Erdogan; 
— do Maduro pra cair ao nazistoide filipino Duterte, o cruel
— de partidos políticos a sindicatos; 
— de Sila$ malafarta a Medir mai$cedo, e por aí vai...

Nunca a célebre afirmação de Nelson Rodrigues, toda unanimidade é burra, foi tão pertinente.

Mas, de que emprego estamos falando, se no Brasil já tínhamos, antes mesmo do coronavírus, cerca de 12 milhões de desempregados? Se na culta e tecnologicamente avançada Europa o desemprego atingia 10% da população ativa? Se a África, parte da Ásia e a América Central amargam o drama da migração forçada para lugares onde seus fugitivos da miséria são indesejados?

Agora sabemos que nos Estados Unidos, único país com taxa de empregabilidade plena antes da pandemia, cerca de 20 milhões de trabalhadores tiveram de recorrer ao seguro desemprego nas últimas semanas. Este é o cenário atual na meca do capitalismo.

O próprio Boçalnaro afirmou que o governo não pode ser fonte perene de financiamento da crise econômico-sanitária. Tão cruel está sendo o quadro atual para o mundo capitalista que ele disse uma verdade, a primeira que ouvi sair da sua boca, ao reconhecer que o capitalismo não aguenta a paralisia da economia por longo tempo.

Mas, se o emprego acabou, a vida deve continuar; e cada vez mais se evidencia que isto terá de ocorrer sob outros e novos critérios de produção social e distribuição. Daí o desespero dos autocratas de plantão, pois tal hipótese desconstrói toda a estrutura de poder vertical erigida ao longo dos séculos. 

É a própria vida a nos ensinar não só que podemos produzir sem dinheiro, como também que, dessa forma, ela se torna mais factível, viável e cômoda. Os exemplos está todos aí:
— são costureiras que fazem máscaras de pano e as distribuem entre a população;
— são leiteiros que, com as fábricas de laticínios paradas, distribuem leite para a população desempregada ou empobrecida;  
 são padarias alimentando moradores de rua; 
 é a justiça impondo uma moratória às ações de despejo contra quem atrasar os alugueis; 
 é a formação de redes para arrecadarem alimentos a serem distribuídos, etc.

Já existe até quem proponha que, ao invés de exportarmos carne e soja (itens muito valorizados agora que o mercado internacional em depressão), distribuamos ao nosso sofrido povo a carne e o leite do nosso rebanho bovino (que é o maior do mundo, pois temos mais bois do que gente), bem como a soja, que é uma base alimentar diversificada, capaz de alimentar grandes contingentes humanos. 

Mas não estamos defendendo o isolacionismo intramuros na produção material de bens. Pelo contrário, entendemos que somente a cooperação transnacional (que é diferente da internacional) será capaz de suprir carências de consumo de país para país, já que:
 se temos soja em abundância, não possuímos o trigo que se transforma em pão, alimento básico da população mais pobre; 
 se temos carne e leite para dar, faltam-nos alguns remédios cujas patentes de seus princípios farmacológicos são guardadas a sete chaves pelos grandes laboratórios do exterior;  
 se não temos capital, dispomos de barro, madeira, ferro, cal, cimento e mão-de-obra abundante, com os quais poderíamos muito bem eliminar o nosso escandaloso déficit habitacional;
 se temos água e petróleo, carecemos da tecnologia alemã sofisticada, apta a produzir equipamentos tecnológicos que atingissem o nível de produtividade requerido por uma população de 210 milhões de habitantes (ou 7,5 bilhões, se mirarmos a população planetária); e
 como temos aqui ultrajantes níveis de analfabetismo básico e funcional, urge desenvolvermos o saber básico, sem o qual não se vai a lugar nenhum, bem como o cultural e tecnológico, pois este último é a alavanca capaz de catapultar a produção e fornecimento de bens de consumo e serviços que tornariam nossa vida socialmente mais confortável.

É por termos aqui o que somente existe lá (e vice-versa) que dependemos de todos, mundialmente falando. 

O nossos hino nacional não exclui a solidariedade para com todos os outros hinos e bandeiras com suas cores que fazem o arco-íris da igualdade. Não precisamos de um Brasil first, mas de um transnacionalismo humanista no qual caibamos todos, solidariamente.

Para com todos os outros mas, vale ressalvar, não para o sistema de crédito financeiro mundial, já que, com uma produção sem a interveniência do dinheiro, a agiotagem internacional deletéria perde sentido e deixará de existir.  
Excluímos, também, por consequência, o Estado verticalizado, cobrador de impostos e controlador da moeda, porque estas categorias capitalistas igualmente estão condenados ao desaparecimento . 

A visão de uma produção social alternativa, livre da tirania do dinheiro (que hoje trava a capacidade de produção e consumo necessária), implica, necessariamente, uma visão de cooperação transnacional em defesa da vida, sendo esta a bandeira a ser erguida por todos aqueles que têm sensibilidade social, independentemente de suas localizações geográficas e posicionamentos  ideológicos. 

Evidentemente, haverá consideráveis obstáculos a serem superados, pois os grandes meios de produção continuam nas mãos dos capitalistas, ainda que a engrenagem esteja sendo paralisada por dificuldades econômicas e, agora, também sanitárias. 

Para se fazer máscaras de pano é necessário que haja pano, e somente a produção industrial têxtil é capaz de produzir tecido na quantidade necessária para suprir o consumo, aí incluída a questão do vestuário. Mas podemos ocupar as fábricas falidas com desempregados que botem as máquinas para funcionar à medida que recebam a matéria-prima necessária (o algodão que venha dos campos, p. ex.). 

Para se fazer pão e macarrão é preciso do trigo trazido pelos agricultores, que, para uma produção fora da lógica do valor, terão de se apropriar da terra e dos equipamentos que multiplicam a capacidade produtiva humana.

A produção alternativa de bens de consumo e serviços fora da lógica do valor é medida revolucionária que encontra oposição ferrenha (e militarizada) da estrutura de poder do capital, de vez que isto significa a morte definitiva da (pseudo democrática) ditadura burguesa no plano político e econômico. 

Mas, para desespero do conservadorismo recalcitrante, a realidade se sobrepõe à teoria revolucionaria convergindo com esta num encontro que a História está a promover de modo irreversível. 

A tragédia da Covid-19, que já ceifou mais de 150 mil vidas no mundo inteiro (só nos EUA acabam de morrer, num único dia, mais de 4.500 pessoas, número de guerra), com as projeções sendo extremamente preocupantes, demonstra, à saciedade, que a humanidade não pode se limitar ao comando abstrato e acanhado de uma lógica de produção que é sempre genocida, e mais nefasta ainda quando todos os seres humanos precisam estar solidários uns com os outros no enfrentamento de uma ameaça de tal magnitude.

Como depois da tempestade chega a calmaria, ainda que sobrevenha a inundação, devemos ser suficientemente sábios para navegar em mar revolto, certos de que a vida é maior do que a morte. (por Dalton Rosado)
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