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sábado, 21 de março de 2026

APÓS PEDIR O IMPEACHMENT DO BOZO EM 2021, SAFATLE RECORREU A UM PROGRAMA DE AJUDA A ACADÊMICOS EM PERIGO

Vladimir Safatle foi alvo  dos bolsonaristas
"...Entrei num partido pela primeira e única vez na vida por acreditar que havia chegado o momento de tentar fazer a passagem das dinâmicas de pressão popular à intervenção institucional. 

Eu deveria ter sido o candidato a governador de São Paulo pelo Psol na eleição de 2014, mas na última semana antes da nominação, um conflito estourou no interior do partido e acabei por abandonar o projeto. 

Só fui me candidatar em 2022 a deputado federal, num momento em que acreditava que tudo deveria ser feito para impedir um segundo mandato de Jair Bolsonaro. Acabei me tornando suplente de deputado.

Desde que o Jair Bolsonaro assumiu o poder, juntei-me a quem lutou sem trégua contra seu governo e seu projeto. Montamos grupos de ação a partir da pandemia, organizando manifestações e outras formas de ações públicas. 

Juntos com ex-ministros e intelectuais de todos os espectros políticos, criamos a Comissão Arns de defesa de direitos humanos. 

Levamos Jair Bolsonaro aos tribunais internacionais por genocídio indígena. Com deputados do Psol e contra a cúpula do próprio partido, protocolamos um dos primeiros pedidos de impeachment. 
Foi uma roubada que passou em minha vida

Como um dos resultados, em 2021 acabei por precisar ser acolhido pelo governo francês em um programa de auxílio a acadêmicos em perigo. (trecho da introdução que Vladimir Safatle escreveu para a reedição de seu livro A esquerda que não teme dizer seu nome
.
Observação: semelhança da passagem do Vladimir Safatle pelo Psol com a minha é tanta que decidi lembrar uma roubada na qual entrei em 2012.

Eu estava em evidência nas redes sociais por haver lançado um livro marcante e pela minha atuação na luta para evitar que o escritor Cesare Battisti fosse entregue à Itália berlusconiana, então um candidato a prefeito me convidou para ingressar no partido e candidatar-me a vereador.

Pensando em como seria bom ter 18 assessores custeados pela Câmara Municipal investigando escândalos de todo tipo para depois eu denunciá-los em plenário e na imprensa, aceitei.  

Mas, com uma ressalva: como eu não fazia trabalho de massa, só poderia ter êxito se o partido alavancasse a minha candidatura, tal qual agia o PCB no passado (os dirigentes escolhiam quem eles consideravam mais útil naquele momento e criavam condições para que fosse ele o eleito).

Desde o primeiro momento o que eu tinha ou julgava ter apalavrado com o candidato não foi cumprido. Houve uma baita demora para liberarem os fundos de campanha e uma demora maior ainda em me enviarem as listagens de eleitores residentes na capital, para enviar-lhes material de campanha.
Burguesa, com certeza, ela
é. Democracia, nem tanto...

Como  as pesquisas  revelassem que o Psol conseguiria eleger um único vereador (o mais votado da legenda), o candidato  da base municipal travava uma briga de foice no escuro com o indicado pelos dirigentes nacionais. 

Cada lado tratava de impulsionar o seu  representante e de dificultar a vida dos concorrentes mais promissores.

Logo que foram anunciado os resultados do pleito, anunciei meu desligamento do partido. Enojado. 
.
(por Celso Lungaretti)

sábado, 26 de julho de 2025

DEPOIS DO PORNOGRÁFICO BERLUSCONI, TRUMP É OUTRO CHEFÃO ULTRADIREITISTA QUE ESCANDALIZA ATÉ SEUS SEGUIDORES.

rui martins
TRUMP, EPSTEIN E O CONTROLE DA IMPRENSA NOS EUA
Até onde irá o presidente Trump, decidido a perseguir a imprensa independente, deixando a impressão de preparar o terreno para governar sem contestação, obter um terceiro mandato e se tornar o primeiro ditador dos EUA?

Esta indagação resulta, entre outras, da atual reação de Trump a uma publicação no Wall Street Journal, acompanhada de um seu desenho lascivo e obsceno do púbis de uma mulher, enviado há alguns anos a Jeffrey Epstein. 

Por ocasião dos 50 anos do ricaço boa pinta, muitos de seus amigos lhe remeteram, em 2003, uma carta ou uma lembrança para ser integrada num álbum comemorativo; entre elas havia a carta com desenho erótico de Trump.

Agora foi relançado o caso Epstein, ou seja, o episódio do gestor de fortunas que se tornou milionário, acusado de pedofilia e de utilizar jovens menores numa rede de prostituição de luxo, tendo mesmo comprado para isso uma ilha, onde promovia festas com presença de milionários e políticos. 

Denunciado por proxenetismo e pedofilia, Epstein teria se suicidado na prisão aos 66 anos, embora exista o rumor de ter sido assassinado para não comprometer gente importante. 

Trump havia prometido, na campanha eleitoral, revelar os nomes de todos os clientes de Epstein. Mas o que acaba de fazer é algo bem diferente: Trump entrou com uma queixa judicial por difamação contra a publicação do desenho a ele atribuído pelo WSJ, alegando não saber desenhar e pedindo uma enorme fortuna como indenização moral.
Estrela pornô com a qual Trump teria despachado 

Contudo, a imprensa lembra ter havido muitos desenhos de Trump vendidos, no começo deste século, chegando mesmo a alcançar alto preço em leilões  pelo Sotheby, quando seu nome se tornou conhecido como político. 

Trump mente com frequência, mas para não ser desmentido precisa controlar a grande imprensa ou coagir e ameaçar quem puder contar a verdade.

Outra possibilidade é a de provocar novos escândalos para desviar a atenção dos seus seguidores do caso Epstein. O WSJ relembra os malabarismos de Trump para desviar a atenção de seus seguidores, citando episódios como o da ex-administradora da agência Usaid, o da equipe de futebol Washington Commanders e o de uma antiga conspiração contra ele pela administração do governo Obama.

Chegou, inclusive, a criar um vídeo fake com a prisão de Obama e anunciar a publicação de centenas de documentos sobre o assassinato do pastor Martin Luther King em 1968.

Trump é especialista em criar novos problemas para desviar a atenção das questões que possam embaraçá-lo. Mas o revival do caso Epstein está provocando descontentamentos na própria base republicana e entre seus seguidores. Uma espécie de feitiço contra o feiticeiro, pois Trump amiúde utilizara o caso Epstein contra os democratas.

Como se não bastasse, anulou as credenciais que dava aos jornalistas do WSJ acesso ao Air Force One nas viagens presidenciais. 

Esta não foi a primeira reação contra a imprensa: em fevereiro, Trump havia proibido à agência Associated Press de entrar no Salão Oval da Casa Branca, onde se realizam as entrevistas presidenciais. Motivo: tal agência se negou a trocar o nome do Golfo do México para Golfo da América como o presidente tentava impor.
Agora se entende por que Trump defende tanto o Bozo, 
recém condenado por fala imprópria sobre meninas

Trump mudou também o sistema de acesso privilegiado ao presidente, elaborado há muitos anos em conjunto com a Associação dos jornalistas na Casa Branca

Eram os próprios jornalistas que formavam um pool para viagens ou encontros especiais com o governante, criando uma espécie de rodízio entre os jornalistas das principais agências e jornais. 

Depois do atrito com a agência AP, os integrantes de tal pool passaram a ser escolhidos pela administração Trump, com a inclusão de vários ultradireitistas.

Tudo leva a crer que exista um plano de Trump para modular a imprensa estadunidense, reforçando o risco de um controle gradativo da liberdade de informação.

A ironia é ser esse governo, empenhado em minar a liberdade de imprensa nos EUA, que tenta intervir e utilizar mesmo de chantagem para impedir o julgamento do ex-presidente Bolsonaro e alguns generais que tentaram implantar uma ditadura no Brasil. (por Rui Martins)

domingo, 15 de junho de 2025

O PUNITIVISMO SÓ PROVÊ INTIMIDAÇÃO OU VINGANÇA. É HORA DE DARMOS UM BASTA À DESUMANIDADE CAPITALISTA!

Celebridades que questionaram a sentença monstruosa da juíza Bárbara de Lima Iseppi contra o comediante Léo Lins estão voltando atrás à medida que os rancorosos punitivistas divulgam exemplos chocantes do tipo de humor que ele fazia, chantageando esses me(r)dalhões eternamente reféns das tendências majoritárias nos seus respectivos nichos. 

Entre interesses e convicções, escolhem sem pestanejar os primeiros, por mais humilhante que seja a retratação. Preferem ser vistos como cidadãos que opinam levianamente, sem informarem-se direito sobre o assunto, do que como vozes discrepantes das Maria-vai-com-as-outras que seguem invariavelmente o rebanho, mesmo no erro e na abjeção.

Depois que Hitler e Mussolini tiveram o fim que sempre mereceram, alemães e italianos que antes esmagadoramente os idolatravam, correram a proclamar inocência. 

Mas os chifres e os rabos pontiagudos não sumiram graças a tamanha hipocrisia, tanto que a Itália continuou se rendendo ao fascismo. A virtude não está mais no meio...  

Assim, após chafurdar na lama com o pornocrata Silvio Berlusconi, a velha bota tem hoje como primeira-ministra a Giorgia Meloni,  cujo lema é Deus, Pátria e Família

Opositora do aborto voluntário, da eutanásia, da união civil entre pessoas do mesmo sexo, da paternidade LGBT, etc., ela se diz apenas conservadora cristã. Sei.

Então, eu faço questão de reafirmar que, seja lá o que o Léo Lins tiver um dia afirmado, mantenho minha posição de sempre: penas de prisão só se justificam como resposta a ações e não, jamais, a opiniões, por mais repulsivas que sejam.

Se roubou, estuprou, feriu, matou, vandalizou, etc., que mofe na prisão. 

Se apenas escandalizou a sociedade ou debochou de minorias, que seja condenado a prestar serviços comunitários, assistir a palestras, receber tratamentos, etc. 

Tal era o entendimento da esquerda à qual aderi na virada de 1967 para 1968: uma sociedade que erige a ganância em prioridade suprema predispõe os indivíduos a todo tipo de comportamentos distorcidos, daí devermos antes reeducar as vítimas do capitalismo do que fazer desabar sobre elas todo o peso da lei.
A esquerda daquele tempo tinha coragem de assumir que o crime maior de todos é a própria existência do capitalismo e, enquanto não o superarmos, o punitivismo será quase sempre intimidação e/ou vingança, não justiça.

Mas as pessoas simples estão ainda imbuídas do simplismo do olho por olho, dente por dente, ilusório lenitivo para suas dores. 

E a esquerda atual abre mão do dever de educá-las, preferindo a opção confortável de somar-se cinicamente a elas, jogando Marx no lixo.

Eu fico com Marx. (por Celso Lungaretti)
"Não guardo mágoa, não blasfemo, não pondero/ 
Não tolero lero-lero, devo nada pra ninguém"

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

TERÁ DADO MATCH NO ENCONTRO DO 'CARAJO' COM O 'INCOMÍVEL'?

O
s políticos profissionais de direita, centro e esquerda, em perfeita comunhão de interesses quando se trata de locupletarem-se com os apanágios do poder, já borraram as diferenças entre cobertura política e reportagem policial.

E, a partir de Silvio Berlusconi, os cidadãos de bem foram tendo cada vez mais dificuldade para saberem se estão lendo o 1º caderno de um veículo da grande imprensa ou as páginas de baixarias de alguma revistinha pornográfica boçal e ignara.

A nova modalidade de esculhambação chega ao auge com o palhaço genocida do Brasil e o liberticida arcaicocapitalista da Argentina. 

As famílias respeitáveis deveriam proibir suas proles de escutarem quaisquer falas desses incontinentes verbais, pois nunca se sabe quando despejarão os palavrões mais cabeludos nos ouvidos dos inocentes. 

Deveria haver alguma focinheira que calasse ambos, mas o problema é complicado: 
— tudo que dizem deveria ser interditado para menores de 18 anos por atentado ao pudor: 
— mas há, também, o aspecto de se constituírem em autênticas ofensas à inteligência de qualquer ser humano maior de 18 anos.

Ou seja, o melhor mesmo seria proibi-los de emitirem quaisquer palavras, zurros ou urros. 

Mas, claro, isto atentaria contra os direitos desumanos deles, o que despertaria a sempre estridente grita dos politicamente corretos. (por Celso Lungaretti)

terça-feira, 21 de novembro de 2023

A WEB SE TORNOU UM ESPAÇO CONCEDIDO PELO SISTEMA PARA CRERMOS QUE AINDA INFLUENCIAMOS AS GRANDES DECISÕES/1

CASO BATTISTI: EM 2011 A MOEDA CAIU EM
PÉ, MAS HOJE ELA DESLIZARIA PARA O RALO. 
A épica vitória que, em 2011, um punhado de antifascistas alcançamos contra  o rolo compressor italiano e a lavagem cerebral da grande imprensa brasileira no
Caso Battisti me fez acreditar que conseguiríamos tornar as redes sociais e a blogosfera antídotos contra a manipulação das consciências por parte da indústria cultural. Quanta ingenuidade!

Hoje percebo que foi apenas uma moeda que caiu em pé. E que, de tão circunstancial, tal êxito foi revertido em 2018 sob Michel Temer, mediante o estupro de várias leis brasileiras. 

Para quem ainda não percebeu ou tomou conhecimento, embora eu haja batido nesta tecla num artigo recente, advém daí a minha firme rejeição à perseguição ilegal movida pelos patrulheiros da internet:
— contra o técnico Cuca por conta de um caso  ocorrido nada menos do que 35 anos atrás e que estava definitivamente prescrito aqui e na Europa, não tendo nenhum(a) feminista fanático(a) o direito de recolocá-lo em discussão na web, inclusive publicando peças que estavam sob segredo de justiça, no sentido de negar a um idoso o legítimo direito de exercer o seu ofício; e
— contra Robinho, com o UOL publicando uma longa série de peças processuais igualmente sob segredo de justiça alhures, numa clamorosa pressão para o STF aceitar o cumprimento aqui da sentença de lá.  

[Fez-me lembrar as versos de um tema musical da peça 
Arena conta Tiradentes"Eu sou brasileiro, mas não tenho o meu lugar,/ pois lá sou estrangeiro, estrangeiro no meu lar./ A quem não é de lá, essa terra tudo dá./ Essa terra não é minha, é de quem não vive lá".]

Sendo vedado ao Supremo questionar a sentença italiana em si, a disponibilização dos chamados grampos do Robinho
para a mídia brasileira e consequente estardalhaço contra o acusado criou uma absurda desigualdade para seus defensores. 

Como contestarem a distorção causada na opinião pública brasileira (e que, embora não se admita, influencia também os ministros do STF) se o erro foi cometido pela corte estrangeira que vazou ilegalmente tais gravações? 

Como questionar agora tal comportamento escandalosamente abusivo, verdadeira interferência italiana nas decisões brasileiras, se ao STF não cabe colocar em questão a sentença daquele país? 

E afinal, por que a aberrante perseguição ao Cuca e a quebra do segredo de justiça no caso do Robinho me incomodaram tanto? PORQUE REPRODUZEM AS MANOBRAS ILÍCITAS EUROPEIAS CONTRA AS QUAIS NOS BATEMOS EM ABSOLUTA DESIGUALDADE DE FORÇAS NO CASO BATTISTI

Então também o jogo sujo foi praticado às escâncaras, tanto que a sentença italiana também já estava prescrita quando a pátria de Berlusconi movia céus e terras para forçar sua repatriação.
Cezar Peluso, relator do pedido de extradição do Cesare no STF, fez
contas mágicas para defender o indefensável. E foram igualmente fantasiosos os cálculos da justiça italiana para recusar uma revisão de sua sentença iníqua depois que o troféu tão ardentemente buscado pelos neofascistas de lá finalmente lhes caiu nas mãos.

São gritantes as evidências de que a condenação de Battisti na Itália se baseou exclusivamente em delações premiadas por meio das quais os aspirantes a recuperarem a liberdade com acordos podres descarregaram suas culpas sobre ele, confiantes em que Battisti nada sofreria por contar com a garantia de François Mitterrand de que poderia continuar vivendo e trabalhando em paz na França até o fim dos seus dias.

Após a morte de Mitterrand, sua solene promessa não foi honrada por Jacques Chirac e Battisti se tornou alvo de uma perseguição sem fim, por amor ou por dinheiro, da parte de Berlusconi e seus cúmplices.

É óbvio que muito me decepcionei quando o Cesare, em 2019, admitiu ter sido realmente responsável por dois dos assassinatos que lhe imputavam.  Sabendo que o inimigo mentia o tempo todo, não deveria jamais ter-lhe fornecido tal trunfo propagandístico em troca de promessas (que acabaram sendo descumpridas) de receber tratamento civilizado nos cárceres italianos. 

Também me magoava demais sua insinceridade conosco, os apoiadores brasileiros, que mesmo se soubéssemos de toda a verdade continuaríamos rechaçando as ilegalidades praticadas contra ele por Estados poderosos. 

Afinal, os autores dos grandes atentados terroristas cometidos pelos neofascistas, nos quais haviam sido exterminado civis como moscas, tinham recebido tratamentos jurídico e carcerário brandos, enquanto os de autoria de grupúsculos de esquerda contra alvos isolados mas não desconectados daquela luta, foram objetos de rigor extremo. 

Depois que tudo terminou, as escandalosas injustiças que marcaram os anos de chumbo italianos, o verdadeiro festival de dois pesos e duas medidas que assolou o país,  tudo isso só poderia ter sido sanado por uma ampla anistia. Por que não ocorreu? O fantasma de Mussolini explica.

Do ponto de vista estritamente legal, tudo aquilo era arquivo morto e a falaciosa condenação por quatro homicídios (dois dos quais ocorridos simultaneamente em locais demasiado distantes entre si para um mesmo indivíduo poder estar presente em ambos) valia tanto quanto papel higiênico usado. 

Era tendenciosa ao extremo a legalidade adotada aquele período infame, no qual, como bem ressaltou o ex-ministro Tarso Genro, as instituições democráticas italianas funcionavam a contento, mas a Justiça e a Polícia se constituíam em flagrante exceção, pouquíssimo diferindo de suas congêneres das ditaduras do 3º mundo.

A vitória que então fomos buscar na bacia das almas, acabou sendo revertida adiante por mais e piores manobras sujas e ilegais, inclusive uma tentativa de sequestro quando o Cesare era residente legal no Brasil. 

Hoje já não existe mais ânimo na esquerda brasileira para travar batalhas tão desiguais como a que encaramos em 2008/2011; ademais, a possibilidade de equilibrar na internet o jogo (de cartas marcadas) praticado pela grande imprensa já foi devidamente neutralizada pelo sistema. 

Então, só me resta endossar e aplaudir o vigoroso artigo de Eugênio Bucci, O entretenimeno engole a política, que será publicado amanhã neste blog como a segunda parte da presente duologia. Tem tudo a ver.

Mas, sendo absolutamente sincero, embora considere que ficou ainda mais difícil (praticamente impossível!) a moeda cair de novo em pé como em 2011, mesmo assim, caso me pedissem uma colaboração solidária num caso com as mesmas características, eu não hesitaria um segundo em (e encontraria forças para) assumi-lo também.

Pois a missão de um revolucionário só termina no túmulo. E a dos que lutamos contra a ditadura militar nem de longe terminou, tanto que houve a recaída bolsonarista na década passada. A luta continua. (por Celso Lungaretti)

quinta-feira, 15 de junho de 2023

O ROBINHO NÃO VALE NADA, MAS A ITÁLIA JOGA SUJO PARA IMPOR-NOS SUA VONTADE.

Os leitores leigos certamente ficarão estarrecidos ao tomarem conhecimento, numa longa série do UOL, dos áudios (e, como alternativa, das transcrições) de conversas trocadas pelo jogador Robinho com seus
parças envolvidos em janeiro de 2013 no episódio do estupro coletivo de uma moça albanesa durante balada numa casa noturna de Milão, Itália.

Tão chocante quanto as baixarias desses lamentáveis personagens preocupados em escapar da consequência de seus atos, é o fato de que caíram do céu para o UOL mais de 10 horas de gravações (os chamados grampos) da polícia italiana e que deveriam estar sob sigilo da Justiça daquele país – e isto no exato momento em que a nossa Justiça tardava em colocar na pauta o pedido de que a sentença italiana seja cumprida aqui mesmo. Coincidência? Nenhuma!

O efeito foi imediato, conforme noticiou o próprio UOL: o Supremo Tribunal Federal agora se apressa em marcar tal julgamento. Tiro e queda.

O que jamais poderia passar despercebido a jornalistas, ainda que meros comentaristas esportivos ou mulheres que exercem a profissão como torcedoras do Feminismo Futebol Clube, é tratar-se de uma óbvia e descarada iniciativa italiana para pressionar o STF e o Governo Lula. 

Trata-se do mesmíssimo jogo sujo e ilegal que aquele país praticou às escâncaras, sob aplauso da grande imprensa brasileira, durante o julgamento do Caso Battisti em 2008-2011, quando o recém falecido premiê Silvio Berlusconi (que o diabo o tenha!) queria porque queria forçar os brasileiros a lhe entregarem na marra o escritor italiano por conta de uma condenação italiana JÁ PRESCRITA.
Daquela vez um deputado ultradireitista italiano teve a arrogância de declarar, quando o ministro Tarso Genro decidiu libertar Battisti em janeiro de 2019, o seguinte:
"Não me parece que o Brasil seja conhecido por seus juristas, mas sim por suas dançarinas [insinuando tratarem-se de prostitutas]. Portanto, antes de pretender nos dar lições de Direito, o ministro da Justiça brasileiro faria bem se pensasse nisso não uma, mas mil vezes".
A decisão de Genro acabou sendo anulada pelo Supremo, que por margem mínima (5x4), após várias sessões, aprovou o pedido de extradição, mas, pelo mesmíssimo placar, resistiu à intensa pressão no sentido de que tal decisão fosse aplicada automaticamente. 

Graças ao zelo do ministro Ayres Britto, que fez questão de preservar o entendimento do próprio STF em casos anteriores, a última palavra coube ao presidente Lula que, no apagar das luzes do seu segundo mandato, se negou a prostrar-se à ofensiva berlusconiana. 

Os ministros tendenciosamente engajados na batalha pela extradição, em especial Gilmar Mendes e Cezar Peluso (que se alternaram o tempo todo como presidentes do Supremo e relatores desse processo em especial), chegaram à beira de um ataque de nervos em seus esforços para que fosse anulada a decisão que o próprio STF delegara a Lula. Mas afinal, em junho de 2011, após novo julgamento, a corte resolveu por 6x3 fazer cumprir o que era de direito e Battisti foi libertado.

O pior, para as neofascistas italianos, foi que as discussões sobre o destino de Battisti colocaram mundialmente em evidência o ambiente de caça às bruxas que prevalecia naquele país após o assassinato de Aldo Moro

Foi uma fase em que as investigações policiais excediam em muito os limites legais e na qual a Justiça admitiu aberrações como permitir que réus permanecessem em prisão preventiva POR ATÉ DEZ ANOS E MEIO (!!!) mesmo não tendo sofrido nenhuma condenação.

O certo teria sido uma anistia geral depois que os anos de chumbo italianos chegaram ao fim, pois o período fora marcado por grandes atentados ultradireitistas (só no pior deles, o ataque à estação ferroviária de Bolonha, morreram 85 civis e outros 200 foram feridos) e algumas escaramuças com vítimas fatais da parte de grupúsculos esquerdistas em resposta ao terrorismo neofascista. 

A diferença foi a grande benevolência dos podres Poderes de lá com relação aos primeiros e o extremo rigor para com os segundos. Então, em qualquer país que não tivesse o triste passado italiano, de dobradinha com os nazistas alemães na 2ª Guerra Mundial e submissão canina à ditadura de Benito Mussolini a partir de 1922, tal vergonhosa página teria sido virada pela via da anistia. 

Como esta ficou faltando, um discípulo de Mussolini moveu céus e terras numa vendetta extemporânea contra quem se tornara um pacato e bem sucedido escritor. Até mesmo o sequestro de Battisti foi tentado, quando ele já tinha sido oficialmente reconhecido como residente legal no Brasil.

E o ressentimento pelo ultraje perdurou inclusive quando o Judas boliviano Evo Morales entregou à Itália a cabeça que os neofascistas tanto ansiavam pendurar na sala de troféus.

A última humilhação que fazem questão de impor-nos será a obrigação de encarcerar o Robinho no Brasil, endossando a sentença deles, ainda que a dita cuja conflite em pontos importantes com nossos cânones jurídicos.  Começando pelo fato de que, embora Robinho não valha um centavo como ser humano, seus direitos acabam de ser estuprados com a entrega desses áudios ao UOL Pena que este tipo de estupro não preocupe os santos inquisidores do teclado.

Talvez eu desta vez venha a ser o único jornalista a indignar-se quando nosso país é tratado a pontapés pelos estrangeiros, como se ainda fosse mera colônia europeia ou uma mísera
república das bananas. Mas discernimento político e caráter jamais me faltaram. 

A participação do jogador Robinho e do técnico Cuca em estupros coletivos também me enoja, mas o vazamento seletivo para a imprensa brasileira de peças processuais sob segredo de Justiça, no qual tanto a Itália quanto a Suíça incorreram, me parece um mal muito maior, por conferir poder extremado aos que já o detêm em demasia.

Porque serão sempre os poderosos que decidirão quais segredos devem ir para o ventilador e quais devem ser preservados. Alguém confia em que sejam isentos e imparciais os critérios adotados por um Bolsonaro ou um Putin? Por um André Mendonça ou um Zanin?

Resta sabermos como agirá o STF se ficar confirmado que, conforme consta da série do UOL, o grampo da polícia de Milão visava a outros personagens do mundo futebolístico, mas a aparição das vozes de Robinho e do seu parça Jairo Chagas, por causa do teor da conversa entre ambos, fez com que o caso do estupro entrasse casualmente na alça de mira dos arapongas? 

Um ministro do STJ acaba de libertar um chefão do PCC porque, a seu ver, os policiais que desconfiaram dele na rua e o revistaram, flagrando-o com dois quilos de cocaína, teriam cometido uma
abordagem ilícita

Afinal, as abordagens por mero palpite e a espionagem ilimitada dos cidadãos valem ou não valem no Brasil? Se não valerem, como aplicar aqui uma sentença estrangeira cuja origem terá sido espúria?   (por Celso Lungaretti, veterano da resistência à ditadura militar, que integrou o Comitê de Solidariedade a Cesare Battisti no período 2008/2011)

terça-feira, 27 de setembro de 2022

O CAPITALISMO APODRECIDO SEMPRE FOI A ORIGEM DO FASCISMO

O VAR do blog fez uma cuidadosa verificação
de traços coincidentes e múltiplas analogias...
P
ior do que acreditar na possibilidade de vencer o fascismo em eleições, é crer em sua dissolução pela força das armas sem alterar conjuntamente a estrutura social. 

Passados 77 anos após ter sido derrotado nos campos de batalha, o fascismo está mais vivo do que nunca. 

Não apenas tem conquistado inúmeros governos pelo mundo, o que é mascarado pela mídia ao tratá-lo com a designação incorreta de populismo, como agora volta a governar até mesmo seus berços históricos, vide a vitória dos seguidores de Mussolini na Itália. 

Não é mais possível fingir: a nova premiê italiana é militante histórica de um partido fundado pelos remanscentes do grupo do duce e que perserverou ao longo das décadas até conseguir eclodir novamente em plena luz do dia. Com o apoio de outros setores da extrema-direita e da burguesia italiana, este grupo agora retorna ao comando, cem anos após a marcha sobre Roma

A pergunta a ser feita é como foi possível o retorno do fascismo após tanto tempo? A resposta é simples e também complexa, pois o fascismo é fruto da crise aguda do capitalismo, tendo ascendido nas décadas de 1920-30, na esteira da 1ª Guerra Mundial e da crise de 1929.

Ao mesmo tempo, o fascismo é uma reação ao movimento revolucionário, à possível saída revolucionária da própria crise capitalista. A chave, portanto, está na crise capitalista, que aponta tanto para uma nova forma de sociedade – o comunismo – quanto para a continuidade da sociedade de classes, mas por via de ditaduras sanguinárias. 
...chegando à irrefutável conclusão
de que a Meloni é mesmo fascista.

Ou seja, a crise do capitalismo coloca na mesa tanto a potencialidade da revolução quanto a necessidade do fascismo, sendo exatamente por isto que não podemos derrotá-lo meramente pelo voto, ou mesmo pelas armas. No fim, é a estrutura social que condiciona seu aparecimento, portanto, caso esta não seja modificada, o fascismo sempre ressurgirá. 

Comunismo ou fascismo. Socialismo ou barbárie. A disjunção está presente na própria estrutura social capitalista e não pode ser apagada eliminando quem defende um lado ou outro, pois as ideias são à prova de balas: surgem do solo das disputas entre as classes e não de concepções pairando nos céus. 

O fascismo é a válvula de emergência do capitalismo, a ser acionada diante de uma situação crítica; e isto tem ocorrido cada vez mais nos 14 anos transcorridos desde a crise de 2008. Pela tendência atual, deverá piorar muito no futuro próximo. 

Neste sentido, as eclosões populares têm se tornado cada vez mais comuns e, mesmo sem um direcionamento revolucionário, podem colocar a perder o edifício capitalista. Daí a ressurgência do fascismo, inicialmente ainda fantasiado de democrata, mas cada vez mais assumindo sua real personalidade ditatorial. 

A boa noticia é que a revolução igualmente está na mesa, também pode eclodir, mas aí será preciso uma esquerda minimamente organizada e consciente de seus objetivos para intervir na realidade social. 

Sem isto, estaremos condenados a ver as ebulições sociais se transformarem em novas marchas sobre Roma(por David Emanuel Coelho)

domingo, 26 de junho de 2022

BATTISTI NA FOLHA DE S. PAULO (tudo não passou de vingança do Estado) – 3

O
que considerei realmente significativo na quilométrica reportagem sobre Cesare Battisti que a Folha de S. Paulo publicou na semana finda  e eu dissequei neste e neste posts, foi ele:
1. ter assumido a responsabilidade por duas das quatro vítimas fatais a ele atribuídas (um agente penitenciário detestado pelos militantes presos e um motorista da repressão aos, repito, centenas de grupúsculos de esquerda surgidos na Itália durante os anos de chumbo); 
2haver esclarecido que as mortes do açougueiro e do joalheiro foram atiradas nas suas costas pelos delatores premiados porque o supunham definitivamente a salvo na França e queriam ser libertados o quanto antes; e
3. estar, afinal, dando sua opinião sincera sobre os homens de poder envolvidos com sua via crucis na América do Sul. 

Respeito o trabalho do colega Lucas Ferraz e admiro sua perseverança ao ficar trocando mensagens com Battisti por mais de um ano para realizar sua reportagem.

Ademais, admito a possibilidade de que algumas ressalvas que fiz explicita ou implicitamente lhe tenham sido impostas pelo editor ou pelo diretor de redação, pois todos sabemos que a Folha de S. Paulo não é exatamente um jornal neutro em tais assuntos.

De resto, com o que mais fiquei sabendo, além do muito que já sabia sobre os assuntos tratados na reportagem, devo desculpas aos leitores por, quando eu defendia a libertação de Battisti, haver afirmado que ele não tinha a estrutura psicológica de quem pudesse haver matado algum inimigo.

Baseava-me nos militantes que eu conhecera e o haviam feito, geralmente idealistas e humanistas, mas que não vacilaram quando circunstâncias extremas o exigiram. O Cesare, desde a primeira vez que o tive frente a frente, ao entrevistá-lo dissimuladamente na Papuda apesar de o relator do processo não estar permitindo entrevistas, não me pareceu possuir tal têmpera.

Errei ao comparar meus antigos companheiros de luta armada, que sabiam estar enfrentando uma ditadura assassina e se dispunham a vencer ou morrer, com um europeu que atuou em circunstâncias mais amenas e, como várias vezes demonstrou, não cogitava sacrificar a vida pela causa. A diferença de perfis me deu a impressão de que, diante do perigo, ele refugaria como um Bolsonaro qualquer.

Mas, se há diferenças jurídicas entre pegar em armas para resistir a um terrorismo de Estado imposto a partir de uma usurpação golpista do poder (como foi o caso brasileiro) e uma democracia que agia como ditadura no tocante à repressão policial e à tendenciosidade jurídica por ela praticadas naqueles anos de chumbo (como foi o caso italiano), no campo de batalha a diferença era quase nenhuma.
Sábio foi François Mitterrand que, face aos inegáveis excessos cometidos pelos dois lados na Itália (sendo que quem primeiro neles incidira havia sido a extrema-direita e as matanças por ela produzidas foram as piores, já que nos seus grandes atentados as vítimas eram muito mais numerosas e quase todas civis), ofereceu em 1985 proteção aos perseguidos italianos dispostos a desistir definitivamente de suas lutas e passar a viver ao abrigo das leis francesas e as cumprindo.

Os fascistas não precisaram disto, pois eram tratados com uma repulsiva complacência pelo Estado italiano. Aos que os combatiam, no entanto, era aplicado todo o rigor da lei, além de tudo mais que pudessem fazer na surdina. 

Os náufragos daquela utopia mereciam viver em paz dali em diante, como Battisti teria vivido –depois de exercer algumas profissões honestas na França, constituir família e se projetar como escritor– se Berlusconi não o houvesse erigido em troféu preferencial para fins de autopromoção.  

Como surpreendentemente declarou a Lucas Ferraz o insuspeito Mattia Feltri, articulista do jornal La Stampa e filho de um dos jornalistas mais conservadores da Itália, o verdadeiro motivo da perseguição a Battisti foi "uma vingança do Estado". E explicou: 
"Contra a lei e contra a lógica, o Estado italiano não parece ter por Battisti uma urgência de justiça, mas sim uma urgência de vingança. Nada justifica a segurança máxima para um homem quase septuagenário condenado à prisão perpétua por homicídios cometidos há mais de quatro décadas, mas imagino que invocar um tratamento justo e digno para um homem detestado por todos seja um pouco irrealista"
F
ascinado desde os 16 anos de idade pelas poesias de Brecht, é na última estrofe de
Aos que virão depois de nós que fui buscar o recado que quero deixar aqui como palavra final:
"Nós sabemos: o ódio contra a baixeza também endurece os rostos! A cólera contra a injustiça faz a voz ficar rouca! Infelizmente, nós, que queríamos preparar o caminho para a amizade, não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos. Mas vocês, quando chegar o tempo em que o homem seja amigo do homem, pensem em nós com um pouco de compreensão"(CL) 
Teclem no título para acessar os textos desta série:
BATTISTI NA FOLHA DE S. PAULO (desta vez sem copo de pinga na mão) – 1
BATTISTI NA FOLHA DE S. PAULO (o acerto de contas com homens de poder) – 2
BATTISTI NA FOLHA DE S. PAULO (tudo não passou de vingança do Estado) – 3

sábado, 25 de junho de 2022

BATTISTI NA FOLHA DE S. PAULO (o acerto de contas com homens de poder) – 2

 (continuação deste post)
EVO MORALES: UM TRAIDOR E COVARDE QUE SE VENDEU SEM ESCRÚPULO
 – Um mérito de Ferraz foi o de ter obtido de Battisti suas afirmações mais contundentes até agora sobre os homens de poder sul-americanos envolvidos no seu drama, talvez porque ele saiba que, doravante, nada de bom poderá esperar deles. 

Começando, claro, pelo Judas boliviano, Evo Morales, por ele merecidamente qualificado de "traidor e covarde". Eis como Ferraz reproduz a versão do Cesare:
"...Battisti disse que integrantes do PT e de organizações sociais (...) fizeram contato com o presidente boliviano em 2017, quando o governo de Michel Temer dava sinais de que iria reverter o refúgio no Brasil, e que Evo Morales teria garantido proteção. 
...afirmou ter sido recepcionado no país por um representante do Movimento ao Socialismo, partido de Evo Morales.  
... disse ter percebido que alguma coisa não ia bem quando houve um desencontro entre as autoridades locais: o pedido de refúgio tinha sido apresentado por ele algumas semanas depois de entrar na Bolívia, mas a resposta que recebeu foi de que o requerimento deveria ter sido feito logo no ingresso. 
O processo, como temia, não andou. Detido, ele foi entregue a policiais italianos e formalmente expulso do país. 
...O italiano credita a Evo Morales a sua ida para a Bolívia e também o responsabiliza pelo que chamou de 'sequestro', referindo-se à sua prisão.  

Apertar a mão de presidente que favorece o extermínio
 de indígenas dá uma boa noção do caráter de Morales


Como foi expulso da Bolívia, e não extraditado do Brasil, o processo de extradição julgado pelo STF em 2010 –determinando que, se voltasse para a Itália, ficasse no máximo 30 anos preso– perdeu o efeito.  
...'Ele poderia ao menos me fazer ser preso, eu iria responder na Justiça e a extradição seria negada por prescrição e delito político. Evo se vendeu sem escrúpulo. Um gesto desprezível de um homem indigno que revelou toda sua obscenidade meses depois, ao abandonar o próprio povo aos golpistas para fugir'".
LULA: CINISMO POLÍTICO, MENTIRAS DESPUDORADAS E ACENOS À DIREITA  –  Ferraz deixa a impressão de que a indignação do Cesare com o Lula se deveu à sofreguidão com que o ex-presidente o renegou e abandonou às feras depois de sua confissão à Justiça italiana. Esclarecerei adiante que o jornalista chegou a uma conclusão errada por desconhecer detalhes importantes.

Cesare assim desabafou, segundo reproduziu (e analisou) Ferraz:
"'Todos sabemos que Lula é capaz de tudo para colocar de novo a faixa de presidente. O animal político que nunca se contradiz. Aconteceu também comigo de admirar seu cinismo político (no sentido vulgar do termo) e o extraordinário jogo de cintura', disse.

...'Naquele abril de 2021, o ex-presidente voltava definitivamente à cena (...) após o STF anular sua condenação e torná-lo novamente elegível.'
Lula deveria fazer autocrítica dos
seus erros antes de julgar os outros
 
...disse que 'acreditava que Battisti era inocente e não era', referindo-se à admissão de culpa do italiano (em 2019) em quatro homicídios. 'Desde o momento que ele confessou, é óbvio que devo admitir que errei', afirmou Lula.
Battisti atribui a atitude de Lula, assim como o abandono de antigos aliados à esquerda após assumir os crimes, ao clima de 'campanha política' e à necessidade de fazer acenos à direita...  
'Aconselharam Lula a fazer isso se quisesse recuperar parte dos setores que votaram em Bolsonaro, ele não hesitou. Mesmo que para isso tivesse que mentir despudoradamente, dizendo que ele e Tarso Genro [ex-ministro da Justiça do governo Lula] não sabiam de nada', disse. 
'Fui recebido não porque fosse declarado inocente, mas exatamente para deixar ser exibido como troféu de guerrilheiro às forças de esquerda do Brasil. Para eles, não interessava um inocente perseguido, mas o combatente da liberdade. Lula e seu partido me apoiaram por isso. De toda forma, não se dá refúgio apenas aos inocentes.
...'Se Lula e o PT não tivessem comido tudo, se não tivessem feito acordo com todo o lixo do centrão, o povo brasileiro não teria desistido para correr atrás de Bolsonaro'".
Algo que poderia ter colocado Ferraz no caminho certo seria saber –como Battisti sabia e preferiu omitir, e como nós do Comitê de Solidariedade sabíamos e foi um dado importantíssimo para nortear a nossa atuação–  que o Lula JAMAIS quis tomar a decisão que tomou.

Durante a sua trajetória sindical Lula sempre foi, no máximo, um reformista que acreditava em obter pequenas melhoras para sua categoria dentro do capitalismo e nem de longe pretendia conduzir o proletariado ao poder por meio de uma revolução.
Causou pasmo e indignação a escolha do
carrasco do Pinheirinho para vice do Lula

Só mudou quando Leonel Brizola, voltando do exílio como herói, partiu para a formação do seu partido.

Percebendo que, se não criassem uma agremiação concorrente, o gaúcho acabaria estendendo sua influência também para o movimento sindical, os sindicalistas do ABC foram obrigados a negociar com a esquerda católica e quadros remanescentes da luta armada uma composição de forças para viabilizar o PT nacionalmente. Sem isto, ficariam restritos quase que somente a São Paulo.

Objetivo atingido, a ala majoritária do PT passou a livrar-se dos indesejados companheiros de viagem, processo que acentuou-se quando a rejeição da emenda das diretas-já decepcionou profundamente os que tentavam acelerar o ritmo da redemocratização. Com José Sarney, filhote da ditadura, ascendendo ao poder, a burguesia conseguiu ditar tal rimo, evitando, p. ex., que a remoção dos entulhos autoritários tivesse a abrangência  necessária.  

Lula foi um dos dirigentes petistas que, aproveitando o refluxo revolucionário, pressionaram fortemente o partido para deflagrar aquela vergonhosa caça às bruxas por meio da qual o PT expeliu uma infinidade de tendências de esquerda. As que sobreviveram à década de 1980 foram espirrando nas seguintes.

Enquanto isto, as portas do partido eram escancaradas para os meros carreiristas, que só o inflaram e tornaram flácido, mas tinham a vantagem de contribuir alegremente para a desideologização do PT.

Mesmo assim, a resistência à direitização continuou pipocando dentro do partido, além de avolumar-se em momentos impactantes como  a campanha presidencial de 1989 (a do Lula-lá) e o ForaCollor.
Foi das mais traumáticas a expulsão do PT, em
1992, da combativa Convergência Socialista
 
Em 2002, Lula decerto deveria estar acreditando que conseguira finalmente domesticar o PT, dada a facilidade com que fora engolida sua Carta ao Povo Brasileiro, por meio da qual prestou vassalagem à classe dominante, comprometendo-se a presidir o Brasil com obediência estrita aos ditames do poder econômico.  

Caso Battisti, contudo, o fez perceber que nem tudo estava dominado, pois dirigentes importantes como o Gilberto Carvalho e o Zé Dirceu se opuseram firmemente à capitulação diante das arrogantes exigências italianas. 

Tendo pela frente a perspectiva de passar quatro anos fora do poder, Lula não poderia, além de tudo, queimar seu filme com expoentes da velha guarda do partido. Então, saiu pela tangente: mandou recado ao presidente do STF, Gilmar Mendes, de que consentiria na extradição do Cesare caso o Supremo desse sozinho xeque-mate na questão; mas que, se a decisão final coubesse a ele, Lula, não extraditaria.

O resto é História: os esforços desesperados do Comitê de Solidariedade para que, na votação mais importante de todas,  o placar contrário por 5x4 se tornasse 5x4 em nosso favor; e a determinação do ministro Ayres Britto de não acompanhar mais o bloco até então dominante, pois fazia questão de manter-se coerente com sua convicção de que a última palavra em extradições cabe ao presidente da República, até porque a manifestara em várias outras ocasiões.

O julgamento ocorreu em novembro/2018, o acórdão só foi publicado em abril/2019, mas Lula preferiu esperar as eleições de outubro terminarem para dar sua decisão, temendo que Dilma sofresse prejuízos nas urnas.

Passou novembro, passou dezembro quase inteiro e, só no último dia de seu mandato, a decisão do Lula foi publicada no Diário Oficial da União
Libertado em 2011. Mas, os inquisidores não desistiram

Circulou nos bastidores a versão de que Lula estava a sair de fininho, deixando o abacaxi para a Dilma descascar (ela já antecipara que entregaria Battisti ao Berlusconi), mas um dirigente importante deu o alarme e um texto qualquer teria sido retirado do DOU para que o espaço fosse preenchido pelo que ficara faltando. 

Não tenho como provar, mas tal atitude do Lula seria na mesma linha de todas as outras.

BOLSONARO CANALHA, GABEIRA OBCECADO PELO PODER E BARROSO NOTA 10 – Sobre o ex-deputado Fernando Gabeira, Battisti lembra que foi seu primeiro contato quando desembarcou no Brasil em 2004, fugido da França. 

Eis trechos do depoimento que deu por escrito ao Ferraz:
"Eu lamentava por ele não ter me aconselhado bem. Enquanto eu queria me entregar às autoridades para pedir refúgio, ele dizia que não era o caso e assim eu fiquei semiclandestino de 2004 a 2007 [Depois Battisti concluiu que teria sido melhor entregar-se antes que o prendessem].  
Acredito que no passado Gabeira foi um bom político e um amigo, mas ele também foi devorado pelo jogo do poder. 
Quando o Gabeira foi candidato no Rio por uma coalizão de direita, aconselharam ele a me renegar (a mesma história de Lula)".
"aconselharam ele a me renegar"
Finalmente, diz Ferraz que o Cesare continua interessado nos acontecimentos brasileiros: 
"...expressou temor com a possibilidade de atos de violência nas eleições por parte de milícias bolsonaristas, em especial ao ler sobre a proliferação de armas no Brasil e sobre o crescente apoio dos militares aos projetos antidemocráticos de Bolsonaro. 
'Me dói ler e ouvir o que acontece nesse grande país. Por raiva, alguém pode dizer: ‘vocês votaram no fascista, agora aguentem’. Mas sabemos que isso é uma idiotice. No desespero, o povo torna-se manipulável e cego. Temo que para colocar fora do jogo esse canalha ocorrerá uma desgraça'".
Finalmente, os mais rasgados elogios de Battisti foram para seu ex-advogado Luís Roberto Barroso:
"Ele tem uma dignidade e ética raras. Nunca deu um passo para trás, nem mesmo sob ameaça do Senado no momento de sua nomeação para o STF. É democrático e um progressista por convicção. Ele ficou profundamente decepcionado com as falsas promessas do PT e de Lula, promessas que viraram jogos de poder".
Não tive convivência suficiente com o Barroso para formar uma opinião sobre ele como pessoa. Representou muito bem seu papel como advogado, mas, assistindo àquelas sessões de cabo a rabo e tomando conhecimento de um pouco do que rolava nos bastidores, minha conclusão foi a de que nenhum dos participantes daquele espetáculo convencia outro com sua oratória na sessão. 

Aquilo não passa de um espaço cênico e o que realmente importa era tratado alhures. 

Muito mais peso têm as articulações de bastidores, o que eles combinam entre si antes de entrarem no palco.
 (por Celso Lungaretti

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