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domingo, 15 de junho de 2025

O PUNITIVISMO SÓ PROVÊ INTIMIDAÇÃO OU VINGANÇA. É HORA DE DARMOS UM BASTA À DESUMANIDADE CAPITALISTA!

Celebridades que questionaram a sentença monstruosa da juíza Bárbara de Lima Iseppi contra o comediante Léo Lins estão voltando atrás à medida que os rancorosos punitivistas divulgam exemplos chocantes do tipo de humor que ele fazia, chantageando esses me(r)dalhões eternamente reféns das tendências majoritárias nos seus respectivos nichos. 

Entre interesses e convicções, escolhem sem pestanejar os primeiros, por mais humilhante que seja a retratação. Preferem ser vistos como cidadãos que opinam levianamente, sem informarem-se direito sobre o assunto, do que como vozes discrepantes das Maria-vai-com-as-outras que seguem invariavelmente o rebanho, mesmo no erro e na abjeção.

Depois que Hitler e Mussolini tiveram o fim que sempre mereceram, alemães e italianos que antes esmagadoramente os idolatravam, correram a proclamar inocência. 

Mas os chifres e os rabos pontiagudos não sumiram graças a tamanha hipocrisia, tanto que a Itália continuou se rendendo ao fascismo. A virtude não está mais no meio...  

Assim, após chafurdar na lama com o pornocrata Silvio Berlusconi, a velha bota tem hoje como primeira-ministra a Giorgia Meloni,  cujo lema é Deus, Pátria e Família. 

Opositora do aborto voluntário, da eutanásia, da união civil entre pessoas do mesmo sexo, da paternidade LGBT, etc., ela se diz apenas conservadora cristã. Sei.

Então, eu faço questão de reafirmar que, seja lá o que o Léo Lins tiver um dia afirmado, mantenho minha posição de sempre: penas de prisão só se justificam como resposta a ações e não, jamais, a opiniões, por mais repulsivas que sejam.

Se roubou, estuprou, feriu, matou, vandalizou, etc., que mofe na prisão. 

Se apenas escandalizou a sociedade ou debochou de minorias, que seja condenado a prestar serviços comunitários, assistir a palestras, receber tratamentos, etc. 

Tal era o entendimento da esquerda à qual aderi na virada de 1967 para 1968: uma sociedade que erige a ganância em prioridade suprema predispõe os indivíduos a todo tipo de comportamentos distorcidos, daí devermos antes reeducar as vítimas do capitalismo do que fazer desabar sobre elas todo o peso da lei.
A esquerda daquele tempo tinha coragem de assumir que o crime maior de todos é a própria existência do capitalismo e, enquanto não o superarmos, o punitivismo será quase sempre intimidação e/ou vingança, não justiça.

Mas as pessoas simples estão ainda imbuídas do simplismo do olho por olho, dente por dente, ilusório lenitivo para suas dores. 

E a esquerda atual abre mão do dever de educá-las, preferindo a opção confortável de somar-se cinicamente a elas, jogando Marx no lixo.

Eu fico com Marx. (por Celso Lungaretti)
"Não guardo mágoa, não blasfemo, não pondero/ 
Não tolero lero-lero, devo nada pra ninguém"

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

ESQUERDA BRASILEIRA FOI COLOCADA NUMA SITUAÇÃO DE CHANTAGEM CONTÍNUA

vladimir safatle
UMA REVOLUÇÃO DE SINAIS INVERTIDOS (*)
Retomar a capacidade de pautar a agenda de debate é a única forma de vencer efetivamente [o Bolsonaro]. 

Isso passa por insistir que a noção de liberdade propalada pelo bolsonarismo, baseada no empreendedorismo e na livre iniciativa, é uma fraude, simplesmente uma farsa. 

Empreendedorismo não é uma forma de liberdade, mas de servidão. É a violência da redução de todas as relações sociais a relações de concorrência, de competição e a compreensão de toda experiência como capital no qual se investe. É a implosão de toda obrigação de solidariedade. Nenhuma emancipação social passará pelo empreendedorismo. 

Mas lutar contra tal servidão significa, concretamente, lutar por uma sociedade que não faz dos trabalhadores os empreendedores de seu próprio sofrimento. Significa ter propostas concretas sobre o mundo do trabalho, significa lembrar de que forma a saúde mental é destruída pela sujeição aos imperativos de flexibilização e iniciativa. 

Hoje, o Brasil é o país com o maior número de casos de transtornos de ansiedade no mundo e tem um dos maiores índices de diagnósticos de depressão (13,5% da população). Essas são questões políticas centrais porque mostram o preço pago para viver nessa sociedade. Como dizia a pichação de um muro em Santiago do Chile: "Não era depressão, era capitalismo". 

Já o segundo ponto merece lembrar: não há política organizada pela esquerda sem colocar a divisão povo/elite onde ela é mais inclusiva e politicamente forte, a saber, na denúncia da espoliação de classe a que estamos todos submetidos. 

Precisamos colocar questões do tipo: o que temos a dizer para quem é homem, branco, pobre, motorista de uber, trabalhando 12 horas por dia em condições dignas do século 19? 

Diante de nossos discursos reinantes, é absolutamente racional que ele queira alguma garantia de que não será esquecido devido à prevalência de seus dois primeiros predicados. 

Nos dias que correm, vemos operadores do sistema financeiro (que até aqui apoiaram Lula) afirmar que ele deveria abandonar de vez qualquer veleidade de rever reformas trabalhistas e clarificar seu programa econômico. 

Esse é aquele tipo de escolha forçada, na qual você perde em qualquer situação. Se Lula faz o que lhe pedem, ele simplesmente fica sem discurso para se contrapor a Bolsonaro e não tem garantia alguma de que a elite liberal não vá lhe exigir cada vez mais para continuar a dar seu apoio. 

Ao final, as promessas de Bolsonaro, que defendeu os interesses da elite brasileira como um cão de guarda, podem e acabarão por falar mais alto. Ou seja, teremos o pior dos mundos, que consiste em perder em silêncio. 

Mas, se Lula não faz o que lhe pedem, os liberais terão uma justificativa para o abandonar, embora ficássemos com mais condições para fazer o que realmente importa: ter uma alternativa concreta sobre o futuro para dizer ao povo e ganhar as eleições mobilizando outro mundo possível. 

Exemplo: por que não usarmos essas últimas semanas para pautar a eleição com propostas como redução da jornada de trabalho para 35 horas, aumento real do salário mínimo e imposto sobre grandes fortunas para a ampliação do SUS? 
Sabemos da dificuldade de pautar o debate por essa via. Pois a esquerda brasileira foi colocada numa situação de chantagem contínua. 

Para barrar o bolsonarismo, ela deveria ser a operadora de um grande pacto democrático com todas as forças contrárias ao governo. 

Isso significa permitir que tal grande coalização ocorra, retirando da agenda política do país todos os pontos que dividem a população, a começar pelo viés estatizante e pela mobilização da luta de classe. 

Há de se agir como se houvesse chegada a hora de uma grande aliança nacional entre capital e trabalho e clamar, como vimos no editorial terrível de um grande jornal brasileiro, que deveríamos reconhecer que a agenda liberal dos últimos anos trouxe avanços duradouros. Como se acordar num país com filas para comprar osso em supermercados fosse agora sinal de avanço duradouro...

No entanto, esse modelo de grande pacto democrático já foi tentado em outros países, com resultados catastróficos. Ele foi o eixo da política italiana e tudo o que se conseguiu foi pavimentar a ascensão de um efetivo governo fascista com Giorgia Meloni. 

Ele foi também aplicado na Hungria, sem nenhum efetivo sucesso eleitoral, à parte a conquista da prefeitura de Budapeste. Como se não bastasse, o 1º turno das eleições brasileiras serviu para mostrar que tal modelo também não funcionou em nossas terras. 

Talvez o fracasso mais emblemático da estratégia geral adotada pela oposição tenha ocorrido no Rio de Janeiro, sob o comando de Marcelo Freixo. 

Articulando uma larga aliança que trouxe à vida figuras como César Maia, abrindo mão de várias pautas que caracterizaram sua história e flertando abertamente com estética e comunicação evangélica em nome de um grande pacto
contra a barbárie, ele acabou eliminado no 1º turno. 

Esse modelo nacional de aliança, da mesma forma, não realizou aquilo que prometeu. A esquerda pouco cresceu no Sudeste, se comparado às eleições anteriores de Lula, e pouco entre os eleitores que normalmente votam e votaram no campo de centro-direita. 

O eixo de salvação nacional e de sustentação da candidatura Lula continuou sendo o Nordeste. O que mostra quão correto estava um dos maiores intelectuais que o país conheceu, o paraibano Celso Furtado. 

Ele nos mostrou que uma política efetiva de desenvolvimento regional seria imediatamente sentida pela população, produzindo forte mobilidade social e trazendo vínculos políticos duradouros para os que nela apostaram. 

Nessa dificuldade da oposição, não devemos nos deixar pautar pelo desespero. É difícil imaginar que há algum ganho efetivo em imitar o tipo de comunicação do bolsonarismo, como se isso não tivesse o efeito contrário, isto é, mostrar o quão certo estava Bolsonaro em se comunicar daquela forma, apelando para preconceitos atávicos. 

Essa estratégia apenas normaliza Bolsonaro. Exemplar aqui são os vídeos procurando associar Bolsonaro à maçonaria. Não é copiando a gramática do oponente que se ganha uma eleição, mas cortando o jogo e impondo outra gramática. Não se ganha uma eleição falando como o oponente, não se ganha uma eleição assumindo os fundamentos econômicos do oponente. 

Essa eleição é certamente o momento mais dramático da história brasileira. Ela mostra que não existe mais aquele país onde ainda era possível costurar grandes pactos. Aquele país acabou. Não há mais base social para sustentá-lo. 

Entramos em definitivo na era dos extremos. Por isso, há que se lembrar que uma extrema-direita reeleita significa seu projeto de sociedade plebiscitado e normalizado. 

A oposição brasileira mostra atualmente força e consciência do tamanho dos riscos que nos espreitam. 

Vemos articulações espontâneas vindas de todas as partes do país. Isso nos mostra que o Brasil não aceitará o curso dessa revolução conservadora que nos ameaça há tantos anos. 

Contra ela, enunciemos claramente as formas de outra sociedade. (por Vladimir Safatle)
.
(*) Por tratar-se de um artigo demasiado longo segundo o padrão habitual deste blog, optei por publicar apenas a parte final, mas os leitores poderão acessar sua íntegra no site da Comissão Arns, para o qual ele foi escrito. 

Quanto à sua relativa desatualização, considerei-o ainda relevante porque, embora suas sugestões não tenham sido aproveitadas pelo PT e aliados no 2º turno, podem servir adiante para a mudança de posturas. Sonhar é preciso. (CL)

terça-feira, 18 de outubro de 2022

O "SALVE-SE QUEM PUDER" HÁ DE VIRAR "SALVEMO-NOS A NÓS TODOS" – 2

(continuação deste post)
Damares, a que viu Cristo na goiabeira...
O 
fenômeno brasileiro da eleição de personagens caricatos como Damares Alves (Senado) e Eduardo Pazuello (deputado federal mais votado), dentre outros, explicita o caráter perverso de setores elitistas da nossa população, seja porque detêm capital, seja por estarem culturalmente dominados pelo fetichismo da mercadoria .

Cresce mundialmente o equivocado sentimento ultraconservador nazifascista diante do fracasso da social-democracia em querer humanizar o capitalismo. Não se entende que o que está em jogo não é uma questão de forma, mas de conteúdo.

Não há forma política, bem ou mal intencionada, que sobreviva satisfatoriamente à mediação social capitalista, alicerçada e efetivada pelas categorias valor, dinheiro, mercadorias, mercado, trabalho abstrato, Estado, política eleitoral e partidos políticos, etc.

A questão imperiosa neste momento de exaustão de tal modelo é a de conteúdo: impõe-se a adoção de outro modo de produção social, compatível com o atual estágio do saber tecnológico.

Ora, como disse corretamente Marx, é o modo de produção que define o caráter das sociedades.

Uma sociedade cujo modo de produção se assenta num critério subtrativo dessa mesma produção, transformada pelos administradores do capital  na abstração valor sob a forma-mercadoria, em obediência à própria lógica autotélica e ditatorial de crescimento constante do dito cujo até o limite de sua saturação (como agora ocorre), não pode ser outra coisa senão a fantasmagórica, bárbara e cruel realidade do salve-se quem puder ora em curso.
O "uns mandam e outros obedecem" Pazuello

Tais políticos toscos e estapafúrdios, com seus preconceitos retrógrados próprios à superficialidade dos aventureiros de ocasião, tendem a uma volta ao passado mais recente (que era ruim, mas menos catastrófico do que o presente), 

Surfando no medo que a população tem do desconhecido, conseguem convencer expressivos contingentes a aceitarem as suas cantilenas racistas, homofóbicas, odiosas, xenófobas, misóginas, etc. Dão, assim, sobrevida avelharias que deveriam estar definitivamente superados, mas não estão.

Esta é a explicação para a volta ao velho, como se a invenção da roda fosse um desserviço à humanidade.

Não pensem os nossos leitores que estamos todos imunes a tais equívocos. Não foi a Alemanha culta que embarcou na canoa genocida da 1ª e 2ª guerras mundiais, curvando-se às iniciativas dos seus governos (o do imperador Guilherme 2º e o do ditador Adolf Hitler)?

Não foram os alemães que engoliram a pílula da supremacia branca ariana, aceitando insensivelmente a perseguição racista de judeus que, mesmo sendo membros de famílias instaladas havia muito tempo no país, passaram a ser presos, torturados e exterminados? 

[Não esquecendo outras perseguições igualmente odiosas, como as movidas contra homossexuais, ciganos, alguns povos eslavos, partidários da esquerda, sindicalistas, Testemunhas de Jeová, etc.]

A barbárie capitalista está instalada mundialmente e a expressão mais visível de sua presença é a injustificada agressão à Ucrânia por parte do ditador capitalista russo sob o pretexto ridículo de proteger a própria Ucrânia contra o nazismo, com o qual ele se identifica na prática.
Em tempos melhores, a eleição de esquisitices era só
uma galhofa (leia mais sobre o Cacareco
aqui)

É supostamente para proteger ucranianos que Putin os dizima com mísseis lançados de grandes distâncias, atingindo tanto combatentes que defendem o próprio país quanto crianças e civis inocentes! 

É a inversão equivocada de conceitos que faz com que uma Damares da fé mercantilzada, o supremacista bilionário Donald Trump, a fascista assumida Giorgia Meloni e a ultraconservadora francesa Marine Le Pen sejam eleitos (ou quase isto). 

Trata-se de um detestável fenômeno mundial, chocante por tais péssimos cidadãos estarem recebendo votos de pessoas zelosas dos seus comportamentos profissionais e familiares, bem como de religiosos (tanto os recatados quanto os fundamentalistas) que fazem vistas grossas à violência armada ou matam em nome de Jesus Cristo.

Boçalnaro, o ignaro, está mais próximo do seu antigo colega de farda Hugo Chávez do que pensam muitos dos seus incautos eleitores (existem, contudo, os que têm consciência disto, tanto nas casernas belicistas quanto nos ambientes supremacistas e financeiros).

Mas o salve-se quem puder ainda há de se transformar em salvemo-nos a nós todos, coletivamente.

Tudo só depende de nós, pois. como disse John Lennon, "se você quiser, a guerra acaba amanhã". (por Dalton Rosado)

terça-feira, 4 de outubro de 2022

NUNCA NO BRASIL ESTIVEMOS TÃO PERTO DE UM LEVANTE SOCIAL

dalton rosado
A ENCRUZILHADA HISTÓRICA
V
ivemos, mundialmente, um momento de inflexão social que nos remete a uma reflexão histórica, e o Brasil reflete o cenário global.

Há uma insatisfação generalizada com os rumos que a sociedade do capital está tomando em face do limite interno e externo da expansão capitalista. O pior é que muitos buscam na causa do mal a solução para o dito cujo.

Falta pão no seu sentido mais lato; ademais, tateamos como cegos encerrados num quarto escuro em que estão guardados os segredos do labirinto chamado itinerário da humanidade.

O medo do desconhecido (representado pela necessidade flagrante de um novo contrato social, sem que se saiba como fazê-lo) cria uma situação de insegurança geradora de guinadas drásticas à direita historicamente opressora ou para uma pseudo-esquerda cujos exemplos atuais e históricos são negativos.

O pensamento keynesiano social-democrata defensor de um Estado que sempre se mostrou opressor, ou mesmo o pensamento marxista-leninista defensor do capitalismo de estado como etapa emancipatória da humanidade, mostrou-se inepto e inapto para tal transição e denegriu a crença nos postulados humanistas do pensamento de oposição, que se criou no século 19, ao capitalismo emergente e seu iluminismo opaco.

Este cabo de guerra entre os pensamentos humanista e conservador retrógrado ganhou agora tensionamento.
Hitler e Mussolini foram modelos para Plínio Salgado...

Desde as consequências da segunda revolução industrial capitalista,
causa mater da depressão econômica que culminou em duas guerras mundiais, a ultradireita ganhou espaço, como o atestam a ascensão do nazifascismo italiano e alemão, representado pelas figuras de Benito Mussolini e Adolf Hitler, que serviram de modelos mundo afora, inclusive no Brasil dos integralistas de Plínio Salgado, agora redivivo.

Com a terceira revolução industrial da microeletrônica, a mediação social capitalista se tornou de tal forma contraditória entre forma e conteúdo, que ou vamos para a frente ou retrocedemos à barbárie.

O medo do desconhecido que a grande maioria da população não entende como será, e o controle sobre o pensar coletivo libertador sendo manipulado e castrado, é a explicação mais próxima para o fenômeno de guinada à direita, observado hoje mais intensamente.

Numa memória amnésica histórica de tudo que aconteceu durante os últimos 100 anos, esquecem-se facilmente os horrores do genocídio de 3% da população mundial em duas guerras mundiais, bem como a intensificação da crueldade de seres humanos contra seus semelhantes.

Agora, e sem o menor pejo, os fanáticos ultraconservadores supremacistas vociferam sua ira ignorante e primitiva contra quem se lhes opõem, como se fossem cruzados religiosos perdoados pelos deuses e com licença para matar.
...revivido (ou repetido como farsa?) por Bolsonaro. 
A defesa da aceitação da morte por covid em nome da salvação da economia, reiterada publicamente pelo candidato derrotado no 1
º turno das eleições brasileiras em seu comentário pós-eleitoral, é um exemplo desse comportamento que sequer entende e esconde a crueldade nele contida.

Mas, nem tudo está perdido.

Se por um lado cresce o desmascaramento da face elitista brasileira que vem desde os tempos de quando éramos somente uma colónia agrícola, postura ideológica persistente ainda hoje (nunca fizemos uma reforma agrária, digna do nome, e que é bandeira capitalista desde a colonização dos Estados Unidos), por outro lado cresce o sentimento (ainda latente) da necessidade de uma ruptura sócio-econômica-institucional.

Nunca estivemos tão perto como agora de um novo levante social na linha do de 2013, a ser perpetrado pelos segmentos de trabalhadores de baixos salários ou nenhuma remuneração (a grande maioria) e de setores intermediários empobrecidos, mesmo de forma inconsciente e sem o apoio da esquerda institucional e sindical, contra governos insensíveis e uma elite retrógrada que manipula as eleições majoritárias e parlamentares a partir dos grotões do Brasil profundo.

Os anos vindouros, 2023 e 2024, principalmente, serão de graves dificuldades no campo econômico-social brasileiro, porque estamos na periferia do capitalismo e os países que detêm a hegemonia econômica mundial vão cuidar primeiro de suas próprias falências, deixando de lado as preocupações com os vizinhos empobrecidos e acostumados a sofrer e serem saqueados pela lógica da produção de mercadorias e do mercado.
2023 e 2024 serão anos nuito difíceis para o Brasil, podendo ocorrer protestos como os de 2013
Lula, se eleito (o que parece ser mais provável), governará com os mecanismos capitalistas e com um parlamento mais conservador do que aquele do período 2003/2010, e sob uma conjuntura de crise do capitalismo mundial.

Não é demais prognosticar-se que, se ele não der um novo direcionamento à sustentação do seu governo com apoio popular e bandeiras de repúdio ao interesse do capital nacional e internacional (o que é improvável que ele tenha peito para fazer), o próximo presidente será o picolé de xuxu ou um militar menos primário e com mais estrelas no ombro do que o presidente atual.

Bolsonaro, se eleito (o que parece um pouco menos provável), será alvo de um desgaste violento,pelos mesmos motivos acima citados, o que certamente o fará propor novamente o autogolpe como forma de segurar a barra, além das costumeiras sandices antipovo.

Qualquer previsão fora disso é quimera otimista desconectada com a realidade plausível para o nosso futuro eleitoral próximo.
"Não vai ser a ultradireita que estabilizará o capitalismo"

O motor da roda das mutações sociais mundo afora está acelerado, e não vai ser a ultradireita (com seu interesse em manter o
status quo social pela força e com retrocessos civilizatórios nos costumes, na economia, e na política) que dará estabilidade ao capitalismo.

Também a esquerda (com sua visão estatizante de capitalismo de estado, seja na vertente keynesiana social-democrata, democrático-burguesa ou sob regimes ditatoriais militaristas, como ocorre com a Venezuela) que promoverá a redenção social emancipatória.

Faz-se necessário o resgate de princípios humanistas que redirecione a luta social dos oprimidos para a apropriação das riquezas materiais e seus processamentos tecnológicos tão desenvolvidos; e que estimule um modo de organização social de base cujos cânones jurídicos e constitucionais sejam consentâneos com os verdadeiros ideais de justiça social.

Liberdade combina com repulsa à opressão. Consciência direciona a vida social para a autogestão. Senso de justiça repudia a injustiça social, racial, de gênero, misógina e nacionalista patriótica e xenófoba.

Estamos numa encruzilhada histórica em face da saturação de um modelo social capitalista agonizante. Sua permanência entre os seres humanos deverá ser a mais breve de todo o itinerário trôpego da humanidade em busca da plenitude de sua racionalidade e convivência harmônica social e com a natureza em seus vários aspectos.

Cabe a nós tomarmos o nosso destino pelas mãos e sermos superiores aos sentimentos mesquinhos que nos aprisionam à barbárie hoje tão presente.(Dalton Rosado)
Graça Santos interpretando composição do Dalton

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

O QUE ESTÁ RECOMEÇANDO NA ITÁLIA PODE ESTAR TERMINANDO NO BRASIL

Começo a escrever diante do teletexto suíço. A notícia principal vem da Itália: Giorgia Meloni, 45 anos, conseguiu maioria na Câmara de Deputados e no Senado para governar o país. 

Pela primeira vez, desde o fim da 2ª Guerra Mundial, o fascismo retorna ao poder; e, também pela primeira vez, é uma mulher quem governará a Itália. Trata-se de uma fascista, admiradora de Benito Mussolini desde sua juventude.

A vitória de Giorgia Meloni, no domingo(25), uma semana antes das eleições brasileiras, seria um mau agouro? Sem entrar nesse jogo de crendices, embora nosso fascista verde-amarelo tenha origem italiana, a vitória da extrema-direita na Itália não vai influenciar em nada nossas eleições, nas quais as sondagens dão grande vantagem para o ex-presidente Lula, capaz mesmo de ganhar no 1º turno.

Mas, vale dizer, é a ideologia neofascista a responsável pelo governo do presidente Jair Bolsonaro e por sua campanha eleitoral, marcada por ameaças e propagação de fake news em profusão, numa tentativa de se manter no poder. A própria ONU fez um apelo no sentido de que as eleições ocorram num clima de paz, diante da existência de sinais de possíveis violências.

Neste sentido, divulgou um comunicado assinado por diversos especialistas, dirigido às autoridades, candidatos e partidos políticos brasileiros, para assegurar eleições normais, sem violência. Tal preocupação advém da campanha de difamação e dos contínuos ataques contra as instituições democráticas, contra o Judiciário e contra o sistema eleitoral, incluindo as urnas eletrônicas. 
Embora sem dar nome aos bois, o comunicado reflete as constantes declarações do Bolsonaro, deixando pairar a ameaça de não aceitação do resultado das urnas. Destacamos um trecho significativo da preocupação internacional:
"Pedimos às autoridades que protejam e respeitem devidamente o trabalho das instituições eleitorais. Expressamos ainda nossas preocupações sobre o impacto que esses ataques podem ter nas próximas eleições presidenciais e enfatizamos a importância de proteger e garantir a independência judicial.

Estamos preocupados que este ambiente hostil represente uma ameaça à participação política e à democracia e instamos o Estado a proteger os candidatos de quaisquer ameaças, atos de intimidação ou ataques online e offline.

Todos os envolvidos no processo eleitoral devem se comprometer com uma conduta pacífica antes, durante e depois das eleições. Candidatos e partidos políticos devem abster-se de usar linguagem ofensiva que possa levar à violência e abusos dos direitos humanos".
Ainda nesta semana, circulam pela Internet convocações feitas por fontes não identificadas para, no caso de derrota de Bolsonaro, serem atacados os órgãos representativos da democracia, a Câmara federal, o Senado e o STF. Tais ameaças estão sendo levadas a sério.

O jornal suíço Le Temps publicou uma reportagem de sua correspondente no Brasil, Chantal Rayes, com o preocupante título O Brasil vota armado até os dentes, e com a seguinte chamada:
"Sob Jair Bolsonaro, o número de armas em mãos de civis conheceu um aumento exponencial. Uma política que deixa marcas profundas na sociedade brasileira e põe em perigo a democracia às vésperas da eleição presidencial de 2 de outubro".
Haverá realmente uma reação comandada pelo Bolsonaro caso perca as eleições, como preveem as sondagens? 

A maioria dos comentaristas políticos não leva a sério sua ameaça de não aceitar o resultado das urnas no caso de derrota. Citam, para acalmar o clima, as ameaças que ele fez nos 7 de setembros de 2021 e de 2022. 

Em 2021, Bolsonaro chegou a assinar uma carta, redigida pelo ex-presidente Michel Temer, pedindo desculpas ao ministro Alexandre de Moraes por ofensas e ameaças. No último Dia da Pátria, depois de sérias ameaças, igualmente nada ocorreu, para decepção dos bolsonaristas mais ousados.

A repetição da ladainha desde que as eleições sejam limpas seria algo para se levar a sério ou conversa mole de um falastrão, na verdade alguém sem coragem para concretizar suas ameaças? Não se pode esquecer que, derrotado, Bolsonaro continuará ainda presidente por, no mínimo, dois meses (ou três, se Lula ganhar no 1º turno).

Terá ele condições de utilizar a máquina presidencial para articular sua permanência no poder? Esta hipótese é remota, pois os deputados e senadores eleitos não aceitarão esse tipo de aventura depois dos esforços de suas campanhas eleitorais. 

Os grupos econômicos que apoiaram Bolsonaro há quatro anos já estão dando sinais de apoio a Lula, considerado o provável vencedor das eleições. Muitos eleitores anti-Bolsonaro, que não iriam votar em Lula, parecem estar se decidindo pelo chamado voto útil, para garantir a derrota de Bolsonaro logo neste domingo.
O sonho de Bolsonaro de criar uma dinastia permanente no poder com seus filhos terá sido em vão? Sem dúvida, vão lhe restar como apoiadores apenas os evangélicos enganados por seus pastores, mas que, provavelmente, não aceitarão entrar numa tentativa armada.

Ou será que a tentativa de golpe, no caso de derrota, será desfechada apenas pelos seguidores de Bolsonaro, repetindo o que ocorreu com Trump depois de sua derrota? Neste caso, poderá haver alguns dias ou semanas de agitações, mas a lei, a ordem e a democracia acabarão por se impor. 

Em todos os casos, parece difícil para a família Bolsonaro escapar dos processos até agora evitados por Augusto Aras, no caso da anunciada vitória de Lula, a menos que se feche mesmo o pacto que Temer estaria costurando nos bastidores. (por Rui Martins)

terça-feira, 27 de setembro de 2022

O CAPITALISMO APODRECIDO SEMPRE FOI A ORIGEM DO FASCISMO

O VAR do blog fez uma cuidadosa verificação
de traços coincidentes e múltiplas analogias...
P
ior do que acreditar na possibilidade de vencer o fascismo em eleições, é crer em sua dissolução pela força das armas sem alterar conjuntamente a estrutura social. 

Passados 77 anos após ter sido derrotado nos campos de batalha, o fascismo está mais vivo do que nunca. 

Não apenas tem conquistado inúmeros governos pelo mundo, o que é mascarado pela mídia ao tratá-lo com a designação incorreta de populismo, como agora volta a governar até mesmo seus berços históricos, vide a vitória dos seguidores de Mussolini na Itália. 

Não é mais possível fingir: a nova premiê italiana é militante histórica de um partido fundado pelos remanscentes do grupo do duce e que perserverou ao longo das décadas até conseguir eclodir novamente em plena luz do dia. Com o apoio de outros setores da extrema-direita e da burguesia italiana, este grupo agora retorna ao comando, cem anos após a marcha sobre Roma. 

A pergunta a ser feita é como foi possível o retorno do fascismo após tanto tempo? A resposta é simples e também complexa, pois o fascismo é fruto da crise aguda do capitalismo, tendo ascendido nas décadas de 1920-30, na esteira da 1ª Guerra Mundial e da crise de 1929.

Ao mesmo tempo, o fascismo é uma reação ao movimento revolucionário, à possível saída revolucionária da própria crise capitalista. A chave, portanto, está na crise capitalista, que aponta tanto para uma nova forma de sociedade – o comunismo – quanto para a continuidade da sociedade de classes, mas por via de ditaduras sanguinárias. 
...chegando à irrefutável conclusão
de que a Meloni é mesmo fascista.

Ou seja, a crise do capitalismo coloca na mesa tanto a potencialidade da revolução quanto a necessidade do fascismo, sendo exatamente por isto que não podemos derrotá-lo meramente pelo voto, ou mesmo pelas armas. No fim, é a estrutura social que condiciona seu aparecimento, portanto, caso esta não seja modificada, o fascismo sempre ressurgirá. 

Comunismo ou fascismo. Socialismo ou barbárie. A disjunção está presente na própria estrutura social capitalista e não pode ser apagada eliminando quem defende um lado ou outro, pois as ideias são à prova de balas: surgem do solo das disputas entre as classes e não de concepções pairando nos céus. 

O fascismo é a válvula de emergência do capitalismo, a ser acionada diante de uma situação crítica; e isto tem ocorrido cada vez mais nos 14 anos transcorridos desde a crise de 2008. Pela tendência atual, deverá piorar muito no futuro próximo. 

Neste sentido, as eclosões populares têm se tornado cada vez mais comuns e, mesmo sem um direcionamento revolucionário, podem colocar a perder o edifício capitalista. Daí a ressurgência do fascismo, inicialmente ainda fantasiado de democrata, mas cada vez mais assumindo sua real personalidade ditatorial. 

A boa noticia é que a revolução igualmente está na mesa, também pode eclodir, mas aí será preciso uma esquerda minimamente organizada e consciente de seus objetivos para intervir na realidade social. 

Sem isto, estaremos condenados a ver as ebulições sociais se transformarem em novas marchas sobre Roma. (por David Emanuel Coelho)

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

HERDEIROS DE MUSSOLINI FAZEM NOVA MARCHA SOBRE ROMA APÓS 100 ANOS

"formou-se a ditadura-padrão dos ultradireitistas emergentes da 1ª Guerra Mundial... 
Os herdeiros políticos de Benito Mussolini retomaram, neste domingo (25), o caminho ao poder iniciado há um século pelo ditador italiano, responsável pelo termo fascista ter-se tornado xingamento da Europa ao Brasil de Jair Bolsonaro, ainda que com significados ao gosto do cliente.

A vitória da coligação ultradireitista liderada por Giorgia Meloni, apontada na boca de urna, impressiona no contexto: a ascensão de grupos extremistas na política institucional de países como a França e a Alemanha foi algo naturalizada devido aos acenos feitos por eles ao centro, mas de fato nunca tiveram chance de tomar o poder central.

Na Itália, o premiê mais duradouro do pós-guerra, Silvio Berlusconi, habita a faixa de frequência da direita meio fascistóide, meio fanfarrona, por assim dizer, mas seus governos foram controversos por outros motivos. Ele pode ter degradado a política, mas não tornou o país uma ditadura.

Temos assim uma nova Marcha sobre Roma, para ficar no paralelo com o movimento final da implantação do fascismo sob o ex-esquerdista Mussolini (1883-1945). 
...tornada experimento social aberrante sob Adolf Hitler na Alemanha"
No fim de outubro de 1922, os paramilitares Camisas Negras, que formavam a vanguarda violenta do grupo nacionalista, prepararam um golpe.

Eles ocupariam pontos estratégicos da capital naquele dia 28. O governo apavorou-se e quis decretar estado de sítio, o que foi negado pelo rei Vittorio Emanuele 3º (1869-1947), num episódio opaco: ele podia buscar evitar o derramamento de sangue, mas queria ficar no trono como figurante, o que conseguiu.

Seja como for, o rei não só deixou a cidade aberta a Mussolini, como o convidou para formar um governo. O resto é história: formou-se a ditadura-padrão dos ultradireitistas emergentes da 1ª Guerra Mundial  (1914-18), tornada experimento social aberrante sob Adolf Hitler (1889-1945) na Alemanha.

Se a tentação da comparação é grande, por óbvio comporta exageros. Dona de uma trajetória de guinada ambígua ao centro semelhante à da francesa Marine Le Pen, Meloni insinuou na campanha entender as regras do jogo. 
Berlusconi, o bilionário das orgias:
"meio fascistóide, meio fanfarrão"
 
Condenou a invasão da Ucrânia, ao contrário do problemático parceiro Matteo Salvini, cujo partido Liga uniu-se ao Força Itália de Berlusconi e apoia o Irmãos da Itália da próxima primeira-ministra.

Para governar na caudalosa política italiana, que troca de premiê como troca de camisa há décadas, a provável primeira-ministra Meloni terá de ser mais Berlusconi, a quem serviu como ministra da Juventude em 2008, do que Salvini, que chegou a vice-premiê mas gosta mesmo é da companhia de Steve Bannon e Eduardo Bolsonaro.

Mas, a cada assoprada dada pela política de apenas 45 anos, há uma mordida dolorosa: a Itália é uma das principais portas de entrada de imigrantes em situação irregular na Europa, e a xenofobia de seu discurso promete um embate cruel nesse campo. 

Além disso, ela é uma parceira do húngaro Viktor Orbán, que conseguiu fazer o Parlamento Europeu decretar seu país como uma democracia não plena. Adota o lema fascista português Deus, Pátria e Família, o mesmo macaqueado por Bolsonaro.
Enquanto a verdadeira Meloni não se apresenta, é possível ter motivos para sustentar a versão pós-moderna da Marcha sobre Roma. Aos 19 anos, ela concedeu uma entrevista já como líder destacada do antigo Movimento Social Italiano, principal agremiação neofascista do pós-guerra.

Nela, disse que Mussolini foi um bom político, e tudo o que fez, fez pela Itália. Claro, isso desapareceu de suas falas subsequentes, mas o seu antecessor na liderança do Irmãos da Itália, Ignazio La Russa, foi claro: Nós somos todos herdeiros do Duce.

Nada disso sugere que ela tomará posse de camisa negra e fazendo a saudação romana, que aliás ela pediu que fosse evitada por seus seguidores. Como a própria Meloni afirmou, a direita italiana hoje é pós-fascista –resta saber do que ela está falando na prática.
Meloni adota o lema fascista Deus, Pátria e
Família
, "o mesmo macaqueado por Bolsonaro"

Algumas dicas podem ser encontradas na política externa de Bolsonaro em seus dois primeiros anos, quando o Itamaraty virou
playground de terraplanistas ideológicos. 

Assim como o ex-chanceler Ernesto Araújo, Meloni vê o Grande Satã não só no islamismo de imigrantes, mas numa certa esquerda globalista, financiada por nomes como o do judeu-húngaro George Soros, não por acaso pária para Orbán.

A ascensão da ultradireitista na Itália assusta por outros motivos, como lembrou o escritor italiano Roberto Saviano. O país sempre foi um tubo de ensaio de políticas degeneradas: deu Mussolini antes de Hitler, o terror esquerdista das Brigadas Vermelhas antes da onda que varreu a Europa nos anos 1970, Berlusconi e o Movimento 5 Estrelas antes de Donald Trump.

O motivo de fundo, é possível argumentar, é o fato de a Itália estar num ponto de fratura civilizacional, perto de um Oriente Médio e de uma África turbulentos, e ao mesmo tempo tendo uma economia enorme, gerando tensões sociais. E as respostas simplistas do fascismo sempre encontraram eco em tempos de crise como o atual, com o inverno de Putin assombrando líderes europeus.
Nesse sentido, a nova Marcha sobre Roma tem um marco temporal, mas vem acontecendo há décadas, porque o fascismo, com diversas gradações, nunca deixou de fazer parte da paisagem política italiana. 
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(por Igor Gielow)
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TOQUE DO EDITOR – Estou pesaroso com a guinada à extrema-direita da Itália dos meus ancestrais, mas nem um pouco surpreendido. Já amargara tal decepção durante a repulsiva perseguição neofascista a Cesare Battisti, troféu que o pornográfico premiê Berlusconi moveu céus e terras para exibir como triunfo pessoal (e eu me orgulho imensamente de haver então ajudado a frustar sua extemporânea vendetta!).
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Expressei meu desencanto neste artigo do início de 2011 que, relendo-o agora, considerei até comedido. Mantenho a afirmação de que "existem italianos comuns, a exemplo do que ocorria durante o fascismo, submetendo-se docilmente a lideranças demagógicas e rancorosas", só acrescentando que eles não são uma aberração circunstancial, mas sim uma verdadeira e permanente legião.

E retiro a ressalva de que os mitos de lá "falam por si, e não pelas grandes massas". Infelizmente, comprovou-se neste domingo que esta não era a verdade. (por Celso Lungaretti) 
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