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sexta-feira, 27 de junho de 2025

O RAULZITO FARIA 80 ANOS NESTE SÁBADO. EIS UM ARTIGO QUE RELEMBRA O SEU MAIS BELO SONHO: A SOCIEDADE ALTERNATIVA.

No início dos anos 80, quando trabalhava em revistas de música, tive uma breve amizade com o Raul Seixas.

O que nos aproximou foi termos ambos 1968 como referencial maior de nossas existências. 

Canções tipo "Metamorfose Ambulante", “Tente Outra Vez”, "Cachorro Urubu" e "Sociedade Alternativa" lavavam minha alma, num momento em que a velha esquerda rabugenta se reerguia, passando como um rolo compressor sobre os loucos sonhos dourados da  geração das flores.

De papos sóbrios e etílicos que tive então com o Raulzito, posso dizer que o lance da sociedade alternativa era, basicamente, o de agruparmos as pessoas com boa cabeça em comunidades que estivessem, ao mesmo tempo, dentro do sistema (fisicamente) e fora dele (espiritualmente).

Essas comunidades existiram no Brasil, de 1968 até meados da década seguinte. Nelas praticávamos um estilo solidário de vida, buscando reconciliar trabalho e prazer. Procurávamos ter e compartilhar o necessário, evitando a ganância e o luxo.

Acreditávamos que um homem novo só afloraria com uma prática de vida nova; quem quisesse mudar o mundo dentro das estruturas podres, acabaria sendo, isto sim, mudado pelo mundo.
Woodstock 69, o festival da paz e amor  

Vimos esta previsão melancolicamente confirmada adiante. Companheiros que um dia travaram dignamente o bom combate foram se tornando indiferentes aos dramas do povo brasileiro; existiram até uns tantos que se bandearam para a direita e outros que, para nossa imensa vergonha, se desnortearam com a embriaguez do poder a ponto de delinquirem. 

De nossa parte, em vez de conquistarmos o governo para acumularmos poder e tentarmos implantar uma sociedade mais justa de cima para baixo, nós queríamos deslocar o eixo para o sentido horizontal. 

Ou seja, acreditávamos em ir praticando uma vida não-competitiva em comunidades que se entrelaçariam e cresceriam aos poucos, até engolirem a sociedade antiga. Hoje a coisa não seria tão simples assim, mas, como ponto de partida, por que não?

As teses e posturas da chamada Nova Esquerda dos anos 60 continuam sendo uma das melhores tentativas que podemos fazer para sairmos deste inferno pamonha que o capitalismo globalizado engendrou. Daí o empenho dos conservadores de direita e de esquerda (eles existem, sim!) em relegá-las ao esquecimento. 1968 ainda é tabu..
O NÉO-ANARQUISMO 
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Maio de 1968: barricada numa rua de Paris.
Se, como todo mundo diz, a sociedade alternativa proposta pelo Raulzito tinha muito a ver com os livros do bruxo Aleister Crowley (que ele e o Paulo Coelho andaram traduzindo do original), também se inspirava nas barricadas parisienses, nas comunidades hippies e na contracultura, o que poucos apontam.

Ele e eu conversamos muito sobre isso; éramos ambos saudosos dos tempos em que tentávamos nos tornar homens novos, na convivência solidária com os irmãos de fé em nossos territórios livres.

A referência ao maio/1968 francês é óbvia, p. ex., na segunda estrofe de "Cachorro Urubu": "E todo jornal que eu leio/ me diz que a gente já era,/ que já não é mais primavera./ Oh, baby, a gente ainda nem começou."

Os conservadores sempre tentaram reduzir a obra do Raulzito a uma provocação artística, sem maiores consequências políticas e sociais. Mas, ele não era meramente um gênio de comportamento bizarro, como tentam retratá-lo, folclorizando-o para torná-lo inofensivo.

Era, isto sim, um homem sintonizado com o néo-anarquismo que esteve em evidência na Europa e EUA na virada dos anos 60 para os 70. E só não dizia isso de forma mais explícita em suas canções porque o Brasil era um estado policial, submetido a uma censura rígida, embora burra.

Este não era, claro, o único aspecto de sua multifacetada personalidade – talvez nem o principal. Mas é o que mais tem sido omitido pelos que querem fazer dele apenas um monumento do passado, não um guia para a ação no hoje e agora.
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LIKE A ROLLING STONE 
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Woody Guthrie (esq.) inspirou fortemente Bob Dylan
Eu morei numa comunidade alternativa, em 1971/72. 

Foi uma experiência riquíssima, num momento em que eu precisava extravasar as emoções represadas no cárcere e me reconstruir, já que o sonho de uma sociedade de liberdade e justiça social ficara adiado por décadas e eu, esperançoso como qualquer adolescente, não me preparara psicologicamente para suportar a sociedade unidimensional que a contra-revolução erigiu.

Atrapalhava muito, naquela terrível Era Médici, a tensão entre a liberdade que conseguíamos vivenciar em recinto fechado e o terror e o medo que grassavam lá fora.

Vivíamos acuados, os cidadãos comuns nos olhavam com receio ou rancor por causa de nossas cabeleiras e roupas extravagantes. Enquanto isso, a economia deslanchava e alguns sentiam-se tentados a ir buscar também o seu quinhão do  milagre brasileiro.

Hoje, quem tem olhos para ver já pode aquilatar o que é a sociedade de consumo e a posição de país periférico na economia globalizada: parafraseando Conrad, "o horror, o horror!".

Acostumado aos tempos em que se labutava para viver, eu não consigo aceitar que atualmente as pessoas vivam para trabalhar, mobilizadas por objetivos profissionais umas 14 horas por dia (expediente, horas extras que dificilmente são pagas, cursos e mais cursos de atualização profissional, etc.).
A lendária comunidade pioneira
E tudo isso para quê? Para poderem comprar um monte de objetos supérfluos e quase nunca encontrarem relacionamentos gratificantes no dia-a-dia, pois já não sabem mais interagir –querem apenas usar umas às outras.

Então, fico pensando que, em lugar de levarmos vida de cão dentro do sistema, poderíamos, como então, estarmos todos nos agrupando em casarões da cidade e sítios no campo, criando pequenos negócios para subsistência, plantando, levando uma vida simples mas solidária. Reaprendendo a ter no outro um irmão e não um competidor.

Com as facilidades de comunicação atuais (que fizeram muita falta em 1968 e anos seguintes), essas comunidades urbanas e rurais se entrelaçariam, ajudando umas às outras, trocando o que produzissem, prescindindo dos bancos, escapando dos impostos e das formas de controle do Estado. Em suma, praticando criativamente, adaptados aos dias de hoje, os ensinamentos de Thoreau em A Desobediência Civil.

Seria um ponto de partida. E, conforme os territórios livres fossem crescendo, poderiam até virar algo mais sério – uma alternativa para toda a sociedade...

COMO FAZER 
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Nas comunidades de 1968/72, o que se fazia era reviver a velha democracia grega: reuniões para se decidir os assuntos mais importantes, para nos conhecermos melhor, para sonharmos e brincarmos.

Podia começar num debate acirrado e terminar com todo mundo nu dançando ao som de "Let the sun shine in" (com inocência, pois não éramos dados ao sexo grupal).

Enfim, tentávamos existir plenamente como grupo, esforçando-nos para superar o egoísmo e a possessividade.
Na Bahia, Arembepe era o paraíso agora... 

Havia problemas, claro. Emprestávamos ao outro o que ele estava precisando mais, numa boa; só que, às vezes, descobríamos na enésima hora que alguém tinha levado sem pedir aquilo que a gente ia usar. Dava discussão e os limites tinham de ser depois definidos na reunião coletiva da nossa 
comuna.


Também não era fácil administrarmos o jogo das paixões. Minha amizade com um ótimo companheiro andou estremecida por uns tempos quando a namorada rompeu com ele e iniciou uma relação comigo. Por mais que quiséssemos nos colocar acima de sentimentos menores como o ciúme, eles existiam e nos machucavam.

O importante, entretanto, era essa vontade que todos tínhamos de superar as limitações de nossa educação pequeno-burguesa e viver de forma generosa e solidária.

Quando alguém tinha um problema, era de todos. Quando alguém estava triste, logo um companheiro ia perguntar o motivo. Tudo que podíamos fazer pelo outro, fazíamos.

Onde erramos? Duas vaciladas fatais implodiram a comuna. 
...dos bichos grilos daqui e de hermanos

Uma foi deixarmos a droga correr solta – LSD e maconha, principalmente, pois o propósito era abrirmos as  portas da percepção, no dizer de Huxley. Isto, entretanto, trouxe à tona facetas da personalidade reprimida que o grupo não conseguia administrar. Acabaram ocorrendo conflitos, rompimentos.

A outra foi recebermos de braços abertos todos os pirados que surgiam, vendo um amigo em cada pessoa que parecesse estar fora do sistema. Como sempre, apareceram os aproveitadores, os parasitas, os pequenos marginais. E a polícia veio atrás.

Mas, as experiências que vivenciamos foram tão intensas que aquele ano valeu por uns cinco. Foi com imenso pesar que vimos aqueles laços se romperem, sendo obrigados a voltar, cada um por si, à luta inglória pela sobrevivência. Era uma tortura sermos obrigados a correr de novo atrás do ouro de tolo, quando não tínhamos mais  aquela velha opinião formada sobre tudo...

Com algumas correções de rumo e numa conjuntura menos repressiva, as comunidades ainda poderão ser viabilizadas. Há que se tentar outra vez. Mesmo porque, como disse o Raul, "basta ser sincero e desejar profundo/ você será capaz de sacudir o mundo".
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O NOVO DESAFIO
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A tentativa de irmos engendrando uma alternativa ao sistema dentro do próprio sistema tem muito mais a ver agora do que no tempo do Raul, pois os homens precisarão unir-se para enfrentar a crise das alterações climáticas.
Acidente nuclear japonês: um terrível alerta. 

Na segunda metade deste século, o planeta será fustigado por terremotos, maremotos, furacões, tufões, tsunamis, inundações, fome e seca. As perdas poderão ser diminuídas se os homens se ajudarem mutuamente, sem o egoísmo e a competitividade capitalistas; caso contrário, até mesmo o fim da espécie humana não estará descartado.

O futuro da humanidade não pode ficar à mercê da ganância, sob pena de interesses mesquinhos acabarem destruindo o planeta.

Os homens têm de encontrar formas de organizar-se para a produção em termos solidários, visando o bem comum e não o lucro. Cooperarem em vez de competirem.

Mas, isso não pode ser imposto por uma burocracia. Chega de ditadura do proletariado, estatização compulsória da economia e outras experiências que malograram!

É uma mudança de cultura que teremos de efetuar voluntariamente, se quisermos legar aos nossos descendentes algo além de uma Terra arrasada.

Precisaremos construir algo novo a partir da cooperação voluntária dos cidadãos. Mostrarmos que o bem comum deve prevalecer sobre os interesses individuais. Convencermos os recalcitrantes ou mantê-los fora da nova sociedade que estivermos criando. E isso fazendo o possível e o impossível para evitarmos que ela também descambe para a coerção e a repressão.
"...e o mundo será um só!"

E não serão os podres poderes atuais que vão encabeçar essa luta. A união de que necessitamos deve ser forjada a partir de agora, como uma rede a ser montada pelas pessoas de boa cabeça, independentemente de governos e partidos políticos.

Se o enfrentamento da maior ameaça com que os homens já se depararam não propiciar o surgimento de uma sociedade melhor, nada mais o fará. (por Celso Lungaretti)

domingo, 1 de junho de 2025

O CÉU COMO BANDEIRA E A HISTÓRIA NA MÃO (A GENTE AINDA NEM COMEÇOU!)

No início do ano letivo de 1968, sem que ninguém esperasse, a repressão da ditadura militar atacou com bestialidade extrema um restaurante para estudantes carentes no Rio de Janeiro, acabando por matar a tiros um secundarista de apenas 16 anos, Edson Souto.

O movimento estudantil brasileiro, que tinha sido praticamente extinto pela repressão em 1964, já tentara renascer nas chamadas setembradas de 1966, mas a violência dos usurpadores do poder novamente havia prevalecido. Em março de 1968, no entanto, os estudantes voltaram às ruas... para ficarem! Com a certeza na frente, tentando tomar História na mão [1], marcaram forte presença ao longo do ano.

Aprofundando um pouco a análise, podemos dizer que o final da década de 1960 marca a transição da sociedade rígida e patriarcal, característica da fase da industrialização, para o amoralismo da sociedade de consumo, em que tudo e todos devem estar disponíveis para o mercado.
Então, de certa forma, a contestação à autoridade de autoridades, reitores, sacerdotes, doutores disso e daquilo, dos luminares da sociedade em geral, convinha ao próprio capitalismo, que estava passando da etapa das grandes individualidades para a da liderança participativa. O foco passaria a ser o consumidor, o cidadão comum, em lugar do grande homem, a personificação da elite.

Respirava-se antiautoritarismo. As artes passavam por um momento de ousadias e experimentalismo no mundo inteiro, a imprensa se modernizava a olhos vistos, a liberalização de costumes e a liberação sexual entravam com força total. O movimento estudantil, estimulado pelos ventos de mudança, foi fundo na tarefa de derrubar as prateleiras, as estátuas, as estantes, as vidraças, louças, livros, sim! [2].
E, no hiato entre a etapa capitalista que terminava e a que ia começar, muitos jovens sonharam com algo maior: uma sociedade sem classes, em que não existisse a exploração do homem pelo homem e na qual a economia se voltasse para a satisfação das necessidades humanas em vez de ser regida pela ganância. Um ideal simbolizado por Che Guevara, o último revolucionário internacionalista de dimensões míticas, com seu corpo cheio de estrelas e tendo el cielo como bandera [3].

Mas, a repressão brutal desencadeada pela ditadura, principalmente após a assinatura do AI-5, inviabilizou a mudança maior que muitos pretendiam. Então, sobre a terra arrasada, o que floresceu foi mesmo a sociedade de consumo.
A classe média, eufórica com o milagre brasileiro, tratou é de enriquecer. E a esquerda estava tão debilitada pela perda de seus melhores quadros que pouco pôde fazer contra a conjugação de  boom  econômico e terrorismo de estado.

O movimento estudantil de 1968 foi, portanto, resultado de circunstâncias especiais e únicas. Daí não poder ser comparado com o de hoje (como muitos fazem, para depreciá-lo), quando os jovens, ademais, têm de esforçar-se no limite de suas forças para começarem bem uma carreira, o que acaba fazendo-os desinteressarem-se por quase todo o resto.
UMA COMPETIÇÃO EXTREMADA DE TODOS CONTRA TODOS
-- A dificuldade insana que encontram para afirmar-se profissionalmente deveria levá-los a refletir sobre as distorções da sociedade atual. 

A competição obsessiva que aborta talentos e condena tanta gente a não desenvolver seu potencial é um dos horrores do capitalismo globalizado. Então, é tempo de muitos estudantes mais começarem a se indagar sobre a validade de continuarem nesse funil perverso, passando por cima dos despojos dos que tombarem no caminho. 

E isto com enorme possibilidade de, adiante, baterem com o nariz na porta, à medida em que a crise do capitalismo for aprofundando-se e o descompasso entre a oferta de empregos para profissionais com formação superior e o contingente de candidatos dela dotados a buscarem empregos se tornar  cada vez maior, condenando a grande maioria à frustração e ao exercício de funções sem nada a ver com aquelas para as quais se capacitaram.
Desde a onda de ocupações iniciada em 2007 pela tomada da reitoria da USP, o movimento estudantil brasileiro vem tentando renascer. Mas, quase duas décadas depois, ainda está longe de atingir a amplitude e a consistência do de 1968, talvez por não haver tido como fermento a truculência e o obscurantismo de uma ditadura, contra a qual, necessariamente, os melhores seres humanos tomavam partido. 

Zuenir Ventura, contudo, está certo: 1968 foi um ano que não terminou. A revolução ainda voltará a identificar-se com as flores e as primaveras, depois deste longo inverno da desesperança que nos está sendo imposto.

Ainda veremos outras primaveras como as de Paris e de Praga, pois há uma lição que a História várias vezes nos ensinou: a humanidade não aguenta viver indefinidamente sem solidariedade e compaixão.
O mundo se tornou um lugar muito ruim para se habitar sob o neoliberalismo, ainda mais na versão selvagem que Donald Trump insiste em tentar nos enfiar goela abaixo. Algo tem de mudar – e esta mudança precisa começar o quanto antes, para deter a marcha da insensatez enquanto ainda existe algo para salvarmos.

E, depois dos terríveis fracassos a que a esquerda domesticada, populista e reformista nos tem conduzido ao longo deste século, a esperança de volta por cima só pode provir das novas gerações, da juventude que ainda é capaz de sonhar com uma sociedade igualitária e justa, e de lutar com todas as suas forças para concretizar este sonho. 

Temos de aprender a lição que a História, ultimamente, não cansa de nos ensinar: os que se contentam com um mínimo, acabam ficando sem nada. É hora de voltarmos a mirar o prêmio máximo, aquele pelo qual vale realmente a pena lutarmos: o fim do capitalismo. E é a juventude que pode e deve encabeçar esta luta.
Lembrando a grande música do Sérgio Ricardo: se você não vem, eu mesmo vou brigar [4].

Lembrando o Edu Lobo dos melhores momentos: vou ver o tempo mudado e um novo lugar pra cantar [5].

Lembrando o Raulzito, profeta da sociedade alternativa que nos serve de inspiração para transformarmos a sociedade como um todo: oh baby, a gente ainda nem começou [6].
[1] Geraldo Vandré, Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores
[2] Caetano Veloso, É Proibido Proibir
[3] Gil, Capinam e Torquato Neto, Soy Loco Por Ti, América
[4] Sérgio Ricardo, Esse mundo é meu
[5] Edu Lobo, Ponteio
[6] Raul Seixas, Cachorro Urubu

sábado, 30 de novembro de 2024

SE LULA FACILITAR A ANISTIA DO BOZO, SAIRÁ DO PALÁCIO DO PLANALTO PARA ENTRAR NA LIXEIRA DA HISTÓRIA

Começarei com uma autocrítica: lamento muito ter deixado meus leitores acreditarem que o grande ídolo do Bozo fosse o Falso Brilhante (aquele comandante de centro de torturas que, num momento de aflição, chegou a declarar que era o Exército brasileiro quem merecia ocupar o banco dos réus caso houvesse um julgamento de Nuremberg à brasileira, não ele, coitadinho, que só cumprira ordens superiores...).

Ainda que, nesse seu raro instante de sinceridade, o torturador-símbolo do Brasil realmente tenha mesmo soado como um inspirador do palhaço amarelão, no resto do tempo não chegou a descer tão baixo. Então, tudo me faz crer que as loas a Ustra fossem apenas uma provocação à esquerda por parte do Bolsonaro; e que a grande influência da sua trajetória haja sido bem outra, aquela turminha de Chicago do tempo da lei seca.

Mas, incompetente inclusive como gângster, parece que o bufão psicopata não aprendeu nem mesmo que chantagistas precisam ter um refém em seu poder para imporem sua vontade aos chantageados. Até os velhos parceiros das milícias do Rio de Janeiro poderiam ter-lhe explicado isto.

O Al e o Sortudo, seja lá o círculo infernal que habitem atualmente, devem estar gargalhando da tentativa do capo da Famiglia Bozone, de forçar o mais mole de todos os moluscos a conceder-lhe uma anistia na marra, caso contrário virará o Brasil de pernas pro ar.

Alucinando na sua realidade paralela, o brochador serial não tem a mais remota noção de que já voltou a ser nada e hoje não conseguiria virar nem Niterói de pernas pro ar. 

Aliás, referindo-me a outra bizarrice recente do homem que virou muco  (a de trombetear aos quatro ventos que poderá enfurnar-se numa embaixada), isto deveria servir como alerta para os que têm o dever de impedi-lo de fugir da punição por seus crimes.  

Se ele tiver um pouco de sorte, talvez os poderosos atuais lhe permitam mofar durante os próximos anos numa embaixada qualquer e não na masmorra brasileira em que já deveria estar trancafiado faz muito tempo.

Quanto ao político gelatinoso que a direita aparentemente permitirá que continue fingindo-se de presidente até o primeiro dia de 2027, vale uma advertência: ele tinha o direito e (a falta de) caráter necessários para perdoar o adversário que em 1989 revelou ao Brasil inteiro  que ele traíra sua esposa, produzira uma filha bastarda, escondia a dita cuja da opinião pública havia um tempão e pressionara fortemente (mas em vão) a amante a abortá-la em benefício de suas ambições políticas.

Mas, para se deixar clicar abraçado ao Collor, depois que este o submetera a tamanha humilhação, Lula só precisava ter um estômago capaz de digerir quaisquer sapos que ele engolisse.

Já anistiar o responsável indiscutível pelo extermínio de uns 400 mil brasileiros que deveriam ter sobrevivido à pandemia de covid seria a indignidade suprema. Estaria saindo do Palácio do Planalto para entrar na lixeira da História.  (por Celso Lungaretti) 

domingo, 30 de junho de 2024

EU AINDA NÃO MORRI (mensagem à ombudsman da "Folha de S. Paulo")

Prezada colega Alexandra Moraes,

quando do lançamento do UOL na década de 1990, as parceiras Grupo Folha e Editora Abril concederam aos primeiros assinantes do pacote o acesso virtual vitalício ao jornal Folha de S. Paulo e à revista Veja. Fui um deles.

A Abril recuou da sua promessa ainda no século passado: passou a liberar o acesso à edição anterior apenas no dia em que a nova edição entrava em bancas. Até que, em algum momento, até tal subterfúgio desapareceu de vez.

A Folha, aos trancos e barrancos, foi honrando seu compromisso, mas, desde a década passada, vem dificultando cada vez mais o acesso. 

Tornou-se frequente a utilização de uma nova modalidade de assinatura ("só para assinantes") para introduzir uma barreira criada posteriormente ao contrato original, o que, todos sabemos, é uma prática ilegal.

Mesmo assim, estressando-me e perdendo meu tempo com atendentes para exigir aquilo a que tinha direito, eu acabava contornando o obstáculo, obtendo acesso às matérias vedadas aos assinantes classe B e nelas ingressando com meus comentários.

A novidade na década atual é que até tal porta foi fechada. E eu, aos 73 anos, sendo jornalista e não advogado, estou solicitando sua intervenção:
— como assinante cujo contrato vigente está sendo desrespeitado, e
— como idoso que ainda tenho necessidade da informação adquirida vitaliciamente, mesmo que o seja agora apenas como cidadão e eu não exerça mais qualquer atividade remunerada relativa à minha profissão.

Espero que a colega aja com justiça. Afinal, não é minha culpa estar vivo até hoje, haver conservado a lucidez e não ter perdido a memória...

Atenciosamente,
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CELSO LUNGARETTI
Em 30/06/2024
"...e todo jornal que eu leio me diz que a gente já era, que não é
mais primavera, oh baby, oh baby, a gente ainda nem começou..."

quinta-feira, 20 de junho de 2024

O LULA DIZ PARA SE DANAREM OS ARTISTAS QUE ENSINAM PUTARIA ÀS CRIANÇAS. ESTARÁ FLERTANDO COM UMA VOLTA DA CENSURA?

"Cruz, credo! O tal Michelangelo tem de se 
danar! Criança não pode ver essa putaria!"
De hora em hora, o Lula piora. Ou perdeu a memória, ou crê que nós todos a perdemos, pois acaba de fazer uma profissão de fé naquele moralismo rançoso que virou peça de museu a partir da década de 1960:
"Eu sou da turma em que artista, cinema e novela não é (sic) para ensinar putaria. É para ensinar cultura, contar historia, contar narrativas, e não para dizer que nós queremos ensinar às crianças coisas erradas. Nós só queremos fazer aquilo que se chama arte. Quem não quiser entender o que é arte, dane-se. Queremos muita arte, muita cultura".
Depois de ele haver admitido que no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo usava o seu cargo para cantar as viúvas que vinham atrás dos seus benefícios e de ter sido fulminado em plena campanha eleitoral de 1989 pela revelação de que escondia a existência de uma filha fora do casamento e pressionara em vão a amante para abortá-la em benefício de sua carreira política, que moral ele tem para dar palpites sobre o que deva ou não ser ensinado ás crianças? 

Além de levantar um assunto totalmente desaconselhável para quem possui telhado de vidro, o Lula parece inclusive estar pregando a volta à abominável censura artística do período militar. Sua incontinência verbal não tem mais limites.  

Faz um bom tempo que ele deixou de sentir necessidade de esconder que foi, desde o início de sua trajetória sindical, um conservador em pele de esquerdista, com uma visão política absorvida do coronelismo nordestino e lapidada pelo sindicalismo de resultados estadunidense. 

Mas, a desfaçatez com que ele descarta os valores que um dia fingiu professar desembestou de forma chocante no terceiro mandato. 
Sua verdadeira compulsão de chocar e espezinhar aqueles dos quais serviu-se para a conquista da faixa presidencial se tem voltado, nos últimos tempos, para a pauta de costumes. A nova aposta reeleitoral é a de ele se tornar um sapo engolido pelo poder econômico como a alternativa menos extremada ao bolsonarismo. 

Sonha com o tetra sem haver honrado os compromissos assumidos para, na bacia das almas, conquistar o tri . Embriagado com sua condição de principal serviçal dos que realmente mandam no Brasil, parece nem dar-se conta de que de que seu prazo de validade está chegando ao fim e a sua maria-fumaça pode muito bem descarrilar no meio do caminho. 

Seria uma justiça poética o Lula ser usado e jogado fora assim como, desde a década de 1970, vem usando e jogando fora as bandeiras da esquerda combativa. 

Mas, um novo impeachment tenderia a produzir outro monstro, provavelmente o governador paulista Tarcísio de Freitas, já que falta ao palhaço assassino equilíbrio mental para não atrapalhar os negócios dos poderosos, como fez ao sabotar a vacinação contra a covid-19, o que apenas alongou em muito a paradeira geral causada pela pandemia. 

Os episódios do Jânio Quadros, Fernando Collor e Dilma Rousseff evidenciaram que quem é expelido da presidência da República não volta a ela no Brasil. E salta aos olhos que o Bozo não será exceção (alguém pode tentar contrapor o caso do Getúlio Vargas, mas ele não foi defenestrado como presidente eleito e sim como o ditador do período 1930-1945).

Enfim, melhor será se um dos incontáveis ministros do Lula convencê-lo a desistir desses sincericídios, caso contrário vai estar não só dando tiros no pé, como poderá despertar suspeitas de que algo da loucura do antecessor escapou no ano passado à desinfecção do 3º andar do Palácio do Planalto. (por Celso Lungaretti)
Qual será a opinião do palpiteiro com faixa presidencial sobre o erotismo
refinado do Raul Seixas? Ele também o coloca na vala comum da putaria? 

terça-feira, 12 de março de 2024

ERAM ANARQUISTAS, GRAÇAS A DEUS. É A ELES QUE DEVEMOS A COLÔNIA CECÍLIA – 2

MEIO SÉCULO ANTES DO SAUDOSO RAUL SEIXAS NASCER, JÁ SE TENTARA CRIAR NO BRASIL UMA SOCIEDADE ALTERNATIVA 
O filme La Cecilia (d. Jean-Louis Comolli, 1975) resgata um episódio histórico pouco conhecido entre nós, embora aqui transcorrido: a implantação de uma colônia rural no Paraná, por parte de anarquistas italianos.

Foi a concretização de um sonho há muito acalentado por Giovanni Rossi, conforme ressaltou a historiadora Izabelle Felici

"A personagem do fundador da Cecília é indissociável da história da colônia. Toda a sua atividade política gira em torno de um projeto de vida comunitária. 

Desde a sua adesão à Internacional, em 1873, aos 18 anos de idade, Giovanni Rossi propôs um projeto de vida comunitária na Polinésia. 

Os numerosos artigos que ele apresentou na imprensa italiana, anarquista e socialista, os apelos que ele lançou às associações, federações, partidos, suscetíveis, a seus olhos, de ajudá-lo, tinham todos por objetivo expor seu projeto de comunidade ou, após 1890, apoiar a experiência em curso no Brasil. 

Com o mesmo objetivo de propaganda, Rossi funda, além disso, seu próprio jornal, Lo Sperimentale, em 1886. Ele desenvolve igualmente seu projeto de comunidade num romance utópico, Un Comune Socialista, no qual a personagem feminina tem por nome Cecília".

O experimento durou cerca de quatro anos, entre 1890 e 1893. Houve muito entusiasmo no início, mas depois foram aflorando os problemas que acabariam levando à extinção da colônia. Eis alguns:

— a contribuição desigual de citadinos e camponeses, pois a produtividade dos primeiros era inferior. Deveriam receber a mesma fração dos frutos do trabalho, conforme os ideais igualitários? Isto não significaria uma espécie de proletarização dos que produziam mais por estarem acostumados a lidar com a terra? De outra parte, se os lavradores fossem melhor aquinhoados do que os outros, não estaria sendo reproduzida a escala de valores da sociedade burguesa? Inexistia uma solução que contentasse a todos;

— a dificuldade de lidarem, no dia a dia, com o conceito do amor livre, uma novidade que incomodava principalmente as colonas de origem camponesa;

— 
a absoluta falta de seriedade do Estado brasileiro, que já era patético décadas antes de De Gaulle o haver constatado. O imperador Pedro II, atendendo a pedido do músico Carlos Gomes, doou as terras para a instalação da Cecília, mas, proclamada a República, o seu ato foi sumariamente revogado e os colonos tiveram de pagar pelas terras com parte de sua colheita e trabalhando sem remuneração em obras do governo;

— a hostilidade dos moradores da região (por sentirem-se prejudicados pela concorrência) e de uma vizinha comunidade polonesa, católica e conservadora;

— as fases de escassez e de fome, com a consequente ocorrência de doenças causadas pela desnutrição (problemas passageiros, que, contudo, reforçaram a tendência ao egoísmo por parte dos menos convictos dos ideais anarquistas, gerando desgastantes divisões); e

— a tentativa do governo de recrutar os colonos (italianos!!!) para combaterem a Revolução Federalista, o que, inclusive, contrariava seus ideais, pois simpatizavam com os revoltosos.

A Cecília chegou a ter 250 moradores e não deixaram de ocorrer defecções em massa, contrabalançadas pela chegada de novas levas de voluntários, atraídos pela divulgação nos círculos libertários europeus.

Alguns desistentes migraram para Curitiba, onde fundaram a Sociedade Giuseppe Garibaldi.
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POR QUE A HISTÓRIA DA COLÔNIA CECÍLIA
NÃO FOI CONTADA NUM FILME BRASILEIRO?

O filme francês conta esta rica história de forma dramatizada e com óbvia simpatia pela causa

O diretor Comolli (1941-2022), também crítico de cinema e de jazz, fez mais de 40 filmes entre 1968 e 2019, geralmente com posicionamento anarquista e/ou anti-stalinista. Foi editor-chefe do Cahiers do Cinema de 1966 a 1971, a fase mais politizada desta influente publicação.

Vale destacar que o elenco, cuja única cara familiar ao público brasileiro é a do ótimo Vittorio Mezzogiorno (No coração da montanhaO processo do desejoTrês irmãos), deu perfeita conta do recado.

Particularmente, eu preferiria uma abordagem menos convencional – como, p. ex., a que o cineasta suíço Alain Tanner deu aos ideais de 1968 no seu extraordinário Jonas, que terá 25 anos no ano 2000

Mas, sendo tão raras as produções que enfocam episódios históricos ligados às bandeiras da esquerda, temos mais é de incentivar filmes como este, recomendando a todos que o prestigiem, discutam e divulguem...

Chega a ser chocante que, em meio a tanta tralha produzida no Brasil, ninguém haja realizado um filme sobre a Colônia Cecília, nem sobre a importantíssima greve geral de 1917. 
   
Antes mesmo das trevas que desabaram sobre nós em 2019, já existiam assuntos malditos para nosso cinema, como os relativos a episódios libertários (não confundir com o uso fake que está sendo dado a esta palavra pelos liberticidas ultradireitistas), às lutas por justiça social e às possibilidades eróticas inaceitáveis para as pessoas reprimidas. 

E, claro, nada mudou significativamente com a volta do Lula ao poder, já que sua simpatia pela esquerda combativa sempre foi e é cada vez mais... nenhuma! O máximo que ele almeja é um capitalismo que assopre com mais força para mitigar nossa dor, depois de nos morder impiedosamente. (por Celso Lungaretti)
O projeto era ótimo; Rossi deveria tê-lo tentando noutro país.
Observações: esta duologia junta duas pautas que vieram por si sós ao meu encontro. Interessei-me pela greve geral de 1917 porque ela nasceu no cotonifício Crespi, em cujas dependências meu pai trabalhou 46 anos consecutivos (primeiro na tecelagem e depois, que ela faliu, em empresas menores que alugaram sua dependências). 

Nem na memória dele, que lá começou a trabalhar em 1930, nem na do bairro da Mooca a greve ainda era tema de conversas, o que me fez querer saber o porquê.

Já a Colônia Cecília  tinha, obviamente muitos pontos de contato com a comunidade alternativa da qual participei após sair das prisões militares, e que foi fundamental para eu superar os traumas da tortura e a amargura de constatar que nada mais restava a fazer para tentarmos impedir o prolongamento indefinido das trevas ditatoriais. 

Acreditando que venceria ou morreria, não estava preparado para aguentar a paz dos cemitérios naquela terra arrasada, ao lado de um povo acovardado. 

Mas, as poucos percebi que sobrara um desafio importante: seríamos capazes de viver realmente como irmãos solidários, a partir de laços ideológicos e não de sangue? Nossa sociedade alternativa em miniatura sobreviveria à do Raulzito

Tudo estava contra nós e a nossa comuna também durou pouco, mas houve momentos nos quais deu para perceber que, sim, em circunstâncias mais propícias teríamos conseguido. 

Viver em fraternidade é muito melhor do que ser movido pela ganância, competindo ferozmente com iguais por uma salvação cada vez mais duvidosa.  

Senti que o homem novo com que tanto sonhávamos em 1968 habitava em nosso interior. E é esta a nossa esperança de salvação nos tempos terríveis que estão à nossa espreita adiante, quando a debacle definitiva do capitalismo somar-se à devastação das alterações climáticas. (CL) 
Raulzito numa performance ousada de "Metamorfose ambulante"
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