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domingo, 27 de abril de 2025

O GROTESCO EM BOLSONARO NÃO É UM ACIDENTE, É DOUTRINA. DAÍ ELE EXIBIR TANTO SUA PUTREFAÇÃO FÍSICA E MORAL.

O grotesco é o afeto que organiza o gozo fascista. 
E não qualquer gozo. Um gozo invertido, um prazer na destruição simbólica do outro. 

A cada imagem que escancara corpos abjetos, seja o da travesti espancada, do indígena invisibilizado, do pobre ridicularizado, a base se nutre. Ri, compartilha, venera. 

A gargalhada aqui é arma. Ela transforma a dor do outro em motivo de pertencimento. 

Como na cena em que Bolsonaro imita uma pessoa morrendo com falta de ar durante a pandemia, zombando do desespero de milhares que agonizavam sem oxigênio nos hospitais. 

Ou quando ri abertamente da morte de Rubens Paiva, desaparecido na ditadura.  

Ou ainda quando despreza e desumaniza a memória de Bruno Pereira e Dom Phillips, assassinados na Amazônia, insinuando que "isso acontece com quem vai por ali".

Em cada um desses episódios, a dor do outro é convertida em espetáculo. A agonia vira punchline. O luto se torna palanque. 

E é nesse teatro do escárnio que a base se reconhece, se reafirma, se alinha. Porque o grotesco aqui não é acidente. É doutrina. (trecho do artigo O mártir apodrece, o algoritmo alimenta: a guerra afetiva do grotesco de Bolsonaro, de Reynaldo José Aragon Gonçalves, cuja íntegra pode ser acessada no Brasil247) 
.
Observação -- esta constatação da afinidade do fascismo com as baixarias mais repulsivas e degradantes já não aparece na imprensa e nas redes sociais com a frequência de outrora, daí eu ter decidido publicar o trecho que considerei mais significativo no texto do Reynaldo Gonçalves, ao mesmo tempo que recomendo a todos que leiam o artigo na íntegra.

Vale acrescentar que o filme mais maldito do Pier Paolo Pasolini, Saló ou os 120 dias de Sodoma (1976), bate exatamente nesta tecla. Só que hoje é muito difícil de encontrar, inclusive no streaming. E exige de quem o assiste um estômago pra lá de forte. (CL)

terça-feira, 28 de janeiro de 2025

AINDA ESTOU AQUI É UM RETRATO DESPOLITIZADO E REVISIONISTA DA DITADURA MILITAR

Em Ainda Estou Aqui, lançado em 2024 e que traz Fernanda Torres e Selton Melo nos papéis principais de Eunice Paiva e Rubens Paiva, a ditadura militar brasileira é praticamente um pano de fundo para o desenvolvimento do drama familiar em torno do desaparecimento do pai, Rubens. O motivo para tal desaparecimento poderia ter sido variado, sendo causa para as angústias e dilemas familiares dos Paiva, mas ocorreu de ser pelo sequestro perpetrado pelos aparatos repressores do estado. 

Importante colocar que o filme não é sobre Rubens Paiva, mas sobre Eunice Paiva e todo ele se passa por sua perspectiva. Somos apresentados a uma típica família de classe média do Rio de Janeiro dos anos 1970, quase de margarina, frequentadora das praias de Copacabana, que adora recepcionar os amigos, com planos para construir uma nova casa e cuja filha se prepara para estudar em Londres. A ditadura aí é um detalhe, surgindo furtivamente nos caminhões com soldados ou na blitz responsável por atrasar o retorno da filha para casa. De resto, tudo vai bem.

Em Ainda Estou Aqui a ditadura aparece para 
atrasar o retorno das pessoas para casa.

Em certo sentido, há um realismo aqui, pois uma parte considerável da classe média brasileira daqueles períodos de falso milagre econômico deveriam mesmo viver a dolce vita, só tropeçando na ditadura ocasionalmente. Mesmo os trabalhadores, esmagados pelo arrocho, estavam siderados pela economia aquecida e a popularização da TV, item antes de luxo. Os revolucionários, isolados, amargavam a derrota das guerrilhas e iam caindo uns atrás dos outros. 

Contudo, a família retratada não é qualquer uma, mas a família de um ex-deputado do PTB, ex-exilado, retornado ao país com a promessa de não se envolver mais em política. Não eram raros os retornos de exilados após fazerem acordos com os militares. Um exemplo notório é de Álvaro Vieira Pinto, antigo diretor do ISEB - Instituto Superior de Estudos Brasileiros -, considerado inimigo mortal pelos golpistas de 1964 e que, após ficar no exílio na Iugoslávia e no Chile, retorna ao Brasil em 1968 para nunca mais sequer publicar um artigo de jornal com seu nome. Outros voltam e, além de abdicarem de suas atividades políticas ou intelectuais, também se curvam diante dos ditadores, caso de Geraldo Vandré, cuja submissão aos militares após seu retorno é conhecida. 

Cada com seus acordos para voltar à pátria-mãe. Porém, Rubens Paiva parece não ter cumprido sua parte do trato e volta a se imiscuir na política, para surpresa de sua esposa. O filme não mostra quais seriam as atividades políticas de Rubens Paiva, fica o dúbio nos telefonemas para ele, nas entregas noturnas e nas reuniões reservadas em seu escritório. Lembremos que o filme transcorre na perspectiva de Eunice, então, na realidade, tal modo dúbio nos é apresentado por ela mesma. Mas aí reside um ponto crucial na trama do longa, pois essa dubiedade fica lançada na tela para justificar que a prisão de Rubens teria sido injusta, pois o ex-deputado não estaria envolvido em política. Algo semelhante também é sempre reafirmado no caso de Herzog, ele não estaria envolvido em política. 

O drama familiar é retratado de forma contida.

Ora, qual o fundo disso? Uma sutil reafirmação que a mobilização política contra o regime militar era de fato um crime, agravado em caso de envolvimento com a luta armada. Algumas cenas de Ainda Estou Aqui, inclusive, reafirmam esse pecado da luta armada. No fim, é a visão mdbista de oposição consentida ao regime sendo reafirmada: a oposição só pode ser institucional, compactuando com as diretrizes políticas, econômicas e sociais da ditadura, particularmente sua guerra contra os subversivos. 

A crença no sistema jurídico da ditadura, inclusive, é reafirmada quando Eunice - seria candidamente? - sugere ir à polícia denunciar o desaparecimento de seu marido e quando o caminho do habeas corpus é insistentemente apresentado com uma fé quase religiosa. Mais uma vez, o espectador fica com a impressão que não se está em uma ditadura, mas em um regime político como qualquer outro em que uma simples carteirinha da OAB tem imensos poderes sob a milicada. Até a imprensa parece ser livre, pois Eunice fala abertamente ao jornalista sob seu caso e chega mesmo a criticar a censura. Em uma cena de puro delírio histórico, Cid Moreira, âncora do Jornal Nacional da Globo, é ouvido narrar que presos políticos foram libertos em troca do embaixador suíço sequestrado pela guerrilha. É difícil acreditar que o doutor Roberto Marinho deixasse que seu principal telejornal lesse um texto falando em presos políticos ao invés de subversivos ou terroristas. Tal cena, sutil, é exemplificadora do revisionismo histórico do filme, tentando livrar a imagem da Globo que, conforme é de conhecimento geral, funcionava como canal oficioso da ditadura. 

Roberto Marinho deixava que seu telejornal
falasse em presos políticos?

Outra cena emblemática é um soldado dizendo a Eunice não concordar com o tratamento por ela recebido na prisão. Ou seria não concordar com as próprias torturas e com a ditadura em geral? O filme deixa, mais uma vez, a dubiedade. Fato é que o famoso tira bom entra em cena aqui para, em mais um revisionismo, defender que nem todas as forças armadas compactuavam com aqueles crimes. Ora, os militares contrários ou tinham sido expulsos em 1964 ou haviam ido para a luta armada. Embora possa ser verídica a presença dos compassivos militares ao lado das câmaras de tortura - igual aos compassivos nazistas dos campos de extermínio - sua presença em tela não visa outra coisa senão limpar a imagem dos militares. 

Mesmo os militares maus, no retrato dicotômico apresentado em tela, são mostrados como praticamente lordes. Um é doutor em paranormalidade, outro adora brincar com crianças, um terceiro pede desculpas por colocar o capuz em Eunice. Claro, tudo pode estar relacionado à condição de classe da protagonista, mas, lembremos, Rubens foi barbaramente torturado e morto muito provavelmente pelos mesmos agentes tão gentilmente retratos para o espectador. Vejamos o clássico Lúcio Flávio, Passageiro da Agonia, filmado durante a ditadura, para ter um retrato mais efetivo de quem eram os agentes da repressão. 

O peso político do desaparecimento de Rubens
Paiva é diluído.
Conforme dito, porém, Ainda Estou Aqui é um drama familiar e a ditadura existe apenas como pano de fundo. Igual a ele existem milhares de filmes abordando a temática do luto pela ausência de um ente querido, com todos os cacoetes relacionados: a privação das crianças da verdade dos acontecimentos, como se elas fossem idiotas, as angústias, os apertos financeiros e finalmente a mudança de rumo, abandonando a casa onde antes estavam. Tudo, no entanto, no filme de Walter Salles, é retratado de forma absolutamente desapaixonada e não vemos drama ou verdadeiro conflito. O sofrimento familiar parece ter sido sublimado, mas o diretor não consegue transmitir, por incapacidade ou escolha, as tensões desse processo de sublimação. A vida prossegue como se o sumiço de Rubens fosse apenas um detalhe. A cena do sorriso chega a ser paradoxal, pois é difícil compreender Eunice insistir em sorrir sabendo que seu marido está morto. Ato de resistência ou negação da realidade? Mais uma vez, fica ambíguo. 

É inabalável a fé na legalidade,
seja a da ditadura...
O drama familiar se fecha na democracia, urdida pelos generais e sem punição aos fardados, quando somos apresentados a dois momentos. Um é quando Eunice recebe a certidão de óbito de Rubens Paiva em 1996 e o outro quando é citada na TV a comissão da verdade do governo Dilma. Eunice agora é uma militante pelos direitos indígenas, advogada, e busca fazer cumprir a Constituição de 1988. Diante do reconhecimento pelo estado e das revelações da comissão da verdade, o drama familiar é encerrado e a família é mostrada reunida com as novas gerações prontas para seguir em frente. A mensagem de Walter Salles e dos produtores globais é que foi feita justiça, Rubens foi reconhecido em sua inocência e a angústia da família enfim pode se encerrar porque a ausência não é mais ausência, mas presença na forma da memória cristalizada pela certidão de óbito e pela elucidação do crime pela comissão da verdade. 

Mais que isso, na Nova República vivemos no melhor dos mundos, em que a verdade do período de chumbo é restituída, bastando se lutar para cumprir a constituição, conforme se diz em uma cena. A mensagem exibida na tela, após o fim do filme, contudo, relativiza o clima otimista do final ao indicar que os militares foram denunciados, mas não condenados. Por que não encenar isso e apenas exibir enquanto mensagem? Talvez porque esse fato desminta a própria mensagem final, ao ressaltar as contradições profundas da redemocratização. 

Ao final, Walter Salles e a Globo entregam um filme despolitizado, um drama familiar comum em que a ditadura militar brasileira é apenas um eco distante. O peso político do desaparecimento de Rubens Paiva é diluído como se fosse um equívoco jurídico. A fé na institucionalidade é reforçada, seja em 1971, seja em 1996, seja em 2014, com uma confiança acrítica nas leis e na constituição, seja ela a imposta pelos generais-ditadores, seja ela a costurada com a burguesia reacionária. 

...seja a da Nova República.
Sem tirar, nem por, é a visão da ala liberal da burguesia brasileira sobre a ditadura e sobre o Brasil de hoje, pois condena na ditadura os abusos, sobretudo contra os inocentes, enquanto faz apologia do Estado Democrático de Direito, ignorando que aqui e agora também existem desaparecidos, torturados e mortos pelas forças policiais e militares. Sua produção e lançamento no contexto atual não é acaso e visa disseminar a mensagem que tudo estaria bem, bastando evitar o retorno dos abusos do passado. A fé judicial do filme casa bem com a fé judicial do pós 8 de janeiro em que Alexandre de Moraes e sua caneta redentora se tornaram pilares da salvação nacional contra o barbarismo bolsonarista. 

O filme tem tudo para sair premiado do Oscar de 2025 pois é exatamente o tipo de produção tão amada pela indústria cultural de Hollywood e pelo imperialismo estadunidense. Aliás, outro grande ausente nas duas horas do filme é justamente os EUA, aparecendo apenas sutilmente nos dólares contados por Eunice já em cena passada durante o período democrático. Em 1996 o Brasil avançava com as medidas neoliberais de FHC e o capital financeiro internacional ia sendo santificado por aqui. Cena aleatória ou mais uma mensagem?

Walter Salles e a Globo nos entregam um melodrama familiar revisionista que, embora tenha seus méritos técnicos, não esconde sua vocação liberal. A respeito do tenebroso período da ditadura militar sempre haverão outros filmes melhores. (por David Coelho)

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

...VEIO A MOÇA E CONTINUOU!

L
á pelos meus 16 anos, quando começava a me interessar pelo movimento estudantil, minha imaginação já voava longe. 

Desencanei muito cedo do futuro insosso que meus pais e parentes projetavam para mim, pois fui me dando conta de que não queria formar-me engenheiro, ter casa própria na cidade e outra na praia, casar com uma esposa prendada, trocar de carro todo ano, etc. 

O porvir sonhado pelos meus colegas de escola e pela turminha da rua Curupace mais me parecia um tédio infinito.

cheguei até a elucubrar sobre como queria morrer, inspirado em leituras sobre a guerra civil espanhola, quando militantes de vários países se alistavam nas brigadas internacionais de apoio aos socialistas e anarquistas espanhóis, na heroica resistência que mantinham contra os fascistas de Franco. 

Ingenuamente, acreditei que sempre haveria uma guerra tão justa assim à espera de mim, quando  me sentisse velho demais para travar o bom combate.

Aliás, nunca imaginei que chegaria a septuagenário. Jamais me agradou a ideia de decair, de ficar sentado no trono de um apartamento, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar, como o Raul Seixas tão bem definiria em Ouro de Tolo.

Aí, quando eu já estava com 51 anos, nasceu a Luana. E, de imediato, mandou para o espaço os planos que eu tinha de, no momento certo, escolher a minha morte. 
Também depondo na auditoria da Marinha, um dia depois daquela foto famosa da Dilma
Planos que, aliás, não eram mais tão fáceis de concretizar, porque as guerras deixaram de ser justas (viraram carnificinas hediondas!); e também porque sempre me repugnou a outra possível saída, o suicídio, tão dissonante das grandes esperanças que movem os revolucionários. 

Hoje seria complicado encontrar por quem valeria a pena eu morrer lutando (desfecho que eu considerava o mais apropriado para a minha trajetória).

Mas aí nasceu a Luana, minha primogênita. Nunca entenderei direito por que, na virada do milênio, me veio tamanha vontade de ser, finalmente, pai biológico. Imperativa a ponto de eu aceitar rapidamente a mudança de planos, assumindo a responsabilidade de tudo fazer para alongar a minha existência, pelo menos até que a minha garotinha encontrasse o seu caminho e o seu palco nesta vida.

A ironia em tudo isto é que a Lu, após ver o filme Ainda Estou Aqui, postou no Tik Tok um vídeo sobre a própria experiência de filha de militante e conseguiu chamar um bocado de atenção, tanto que a BBC News Brasil acaba de inclui-la numa reportagem (clique aqui p/ abrir) sobre quatro situações reais desse tipo.   
Batizamos tais cartazes de imortais
da Oban
. Eu sou o sétimo da lista.
 

Eis um desdobramento totalmente inesperado para mim. 

A vida é uma história contada por um idiota, repleta de som e fúria, significando nada, disse Shakespeare. 

Ainda assim, ela tem seus encantos. E ver como nossos filhos ressignificam (para usar um termo da moda) as memórias que lhes transmitimos é um dos mais gratificantes. 

Até ajuda a nos conformarmos com a nova condição de já não estarmos abrindo nossos caminhos e pedindo passagem, mas sim reduzidos a espectadores, enquanto os jovens tomam o nosso lugar. 

É como cantou o inesquecível Sérgio Ricardo: Disse o velho, eis aqui o fim de tudo, veio o moço e continuou(por Celso Lungaretti)

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

ERA APENAS OUTRA SÓRDIDA MENTIRA DAS 'VIÚVAS DA DITADURA'. AGORA PASSOU A SER UMA INSINUAÇÃO PRESIDENCIAL

elio gaspari
A REALIDADE PARALELA DE BOLSONARO
Se Jair Bolsonaro conversasse com os septuagenários veteranos da tigrada da ditadura, não teria chamado o general da reserva Luiz Rocha Paiva de melancia (verde por fora, vermelho por dentro). Ele foi um dos principais colaboradores na manutenção do site Terrorismo Nunca Mais

Talvez também não tivesse sugerido que Fernando Santa Cruz, desaparecido desde 1974, quando tinha 26 anos, foi executado por militantes de esquerda. Fernando era o pai do atual presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, que tinha menos de dois anos quando ele desapareceu.

O caso de Fernando Santa Cruz exemplifica, como poucos outros, o assassinato de uma pessoa que tinha vida legal, família constituída e domicílio conhecido. Ele morreu no último mês do governo Médici. A política de extermínio das organizações armadas brasileiras que agiam nas cidades já tinha esfriado, pois elas haviam sido esmigalhadas. 

Em novembro, um comando do DOI de São Paulo matou Sonia Maria Lopes de Morais, da Ação Libertadora Nacional, e Antônio Carlos Bicalho Lana, que se escondiam no litoral paulista.
Atestado de óbito recente: morte causada pelo Estado brasileiro

Em dezembro, o Centro de Informações do Exército sequestrou em Buenos Aires e matou no Rio o ex-major Joaquim Pires Cerveira e João Batista Rita, que haviam militado na Vanguarda Popular Revolucionária. Depois disso, nada. 

[Do Natal de 1973 ao final de 1974, mataram cerca de 40 militantes do PC do B nas matas do Araguaia, inclusive os que se renderam. Ou, numa realidade paralela, foram todos resgatados por um disco voador albanês.] 

Nesse período deu-se a decapitação da liderança do Partido Comunista, que não pegou em armas.

Fernando Santa Cruz havia sido preso no Recife em 1966, quando era menor de idade. Desde 1968 tinha vida legal. Trabalhou no Ministério do Interior e mudou-se para São Paulo, onde trabalhava no Departamento de Águas e Energia Elétrica. 

Durante o Carnaval de 1974, Fernando estava no Rio e marcou um encontro com o amigo Eduardo Collier, militante da Ação Popular Marxista-Leninista (APML). Temia ser preso e falou disso com a família. 
Fernando: morto sem sepultura
Um policial de apelido Marechal disse que ele estava preso num quartel da guarnição de São Paulo. Daí em diante, nada.

A mãe de Fernando, Elzita Santa Cruz, morta há pouco, foi uma leoa e bateu em todas as portas. Os senadores Franco Montoro e Amaral Peixoto perguntaram pelo paradeiro de Fernando da tribuna da Casa. 

Elzita escreveu ao comandante da guarnição do Rio e ao marechal Juarez Távora. O velho tenente de 1930 enviou a carta ao general Golbery, chefe do Gabinete Civil do presidente Ernesto Geisel, que assumira em março. Meses depois, ela interpelou o próprio Golbery. 

Na busca por Fernando, teve a ajuda do marechal Cordeiro de Farias, comandante da Artilharia da Força Expedicionária Brasileira na Itália. Nada. O ministro da Justiça, Armando Falcão, informava que estava foragido, vivendo na clandestinidade. Mentira.

Nenhuma família de militante executado fingiu que ele desapareceu.

Bolsonaro pode ter sua realidade paralela, mas o general Rocha Paiva nunca foi melancia, nem Fernando Santa Cruz foi executado pela APML. 

Por falar nisso, Rubens Paiva não foi resgatado por comparsas. Quem diz isso são oficiais que estavam no quartel da Polícia do Exército no Rio em 1971. (por Elio Gaspari)

domingo, 31 de março de 2019

A DITADURA COMEÇOU A RUIR COM O MARTÍRIO DE VLADIMIR HERZOG

encontro com a ditadura – 12
No dia 25 de outubro de 1975 morreu sob tortura Vladimir Herzog – como dezenas de outros idealistas que foram vitimados pelos  acidentes de trabalho  nos porões da ditadura. 

Isto para não falar dos executados a sangue-frio e dos que tombaram  sob os tiros da repressão, às vezes sem esboçarem a mínima reação, como Carlos Marighella.

Por que a morte do Vlado repercutiu tanto? 

A de outros jornalistas, como Mário Alves e Joaquim Câmara Ferreira, não despertou tamanha comoção na época. E ambos morreram de forma igualmente chocante: Câmara Ferreira se atracando com os torturadores para forçar um ataque cardíaco, enquanto Mário Alves sofreu um verdadeiro massacre, chegando  a ser empalado com um cassetete dentado.

Há vários motivos para o caso do Vlado ter sido mais emblemático.

Primeiramente, chocou e até hoje choca sabermos que ele se dirigiu pelas próprias pernas ao encontro da morte, acreditando que sofreria apenas o interrogatório para o qual estava convocado.

Por que ele não desconfiou de que poderia ter o mesmo destino que tantos tiveram antes dele? 

Por um motivo simples: em 1975 a tortura já arrefecera, pois a esquerda armada havia sido totalmente dizimada.

O auge da tortura se deu no período 1969/73, quando os militares reagiram ao enfrentamento aberto da esquerda estruturando a Operação Bandeirantes e os DOI-Codi's, que, inicialmente, se incumbiam apenas dos militantes da vanguarda armada. As organizações desarmadas, como o velho PCB, continuaram sendo por bom tempo atribuição dos Deops, que ainda se mantinham dentro de certos limites.

Cair  na Oban significava não ter garantia nenhuma de sobrevivência, estar totalmente à mercê dos verdugos, enquanto no Deops só se morria por excessos praticados eventual e involuntariamente durante a tortura. Uma pequena diferença, mas significativa para quem caminhava no fio da navalha.

A Oban nasceu clandestina – montada por oficiais das três Armas e policiais civis, com financiamento de empresários fascistas  e foi legalizada após alguns meses, passando a funcionar , sob a denominação de DOI-Codi, em quartéis da Polícia do Exército (com exceção de São Paulo, onde continuou operando nos fundos de uma delegacia da rua Tutóia). 

Mesmo assim, desde o primeiro momento, tinha mais poder do que a estrutura legal dos Deops, chegando a arrancar presos políticos de suas mãos quando bem entendia.

Para seus integrantes, oferecia ganhos fabulosos e, no caso dos militares, a perspectiva de ascensão meteórica na carreira.

A esquerda armada expropriava bancos, executava operações altamente rentáveis como o roubo do cofre do ex-governador Adhemar de Barros. Então, seus integrantes às vezes tinham somas vultosas consigo. 

Na VPR e VAR-Palmares, p. ex., cada combatente dispunha de um substancial fundo de reserva, que deveria ser mantido intocado até uma circunstância extrema, como a de ele ficar descontatado e ter de fugir do País.

Dinheiro, armas, veículos e até objetos de uso pessoal dos militantes dessas organizações eram, por sua vez, expropriados pelos captores, que os dividiam a seu bel-prazer, nunca o restituindo aos proprietários expropriados.

Além disto, os empresários financiadores da repressão contribuíam para as  caixinhas  de prêmios pela captura ou morte de militantes clandestinos. Cada revolucionário importante tinha o valor previamente fixado, daí o empenho obsessivo dos rapinantes em chegar até eles. O bolo era dividido segundo a importância de cada qual no esquema repressivo, sobrando algum até para os carcereiros...

VERGONHA DA FARDA  — Com a derrota da luta armada, o presidente Ernesto Geisel pretendia ir desmontando aos poucos esse estado dentro do estado. Militar de mentalidade prussiana, não admitia a existência de um poder paralelo "envergonhando a farda".

Ora, os rapinantes haviam se acostumado com um padrão de vida muito superior ao que lhe possibilitava seus soldos e já não conseguiam mais viver sem a rapina – tanto que a notória equipe de torturadores da PE da Vila Militar do RJ envolveu-se com contrabandistas em 1974 e acabou sendo presa, interrogada... e torturada, provando um pouco do próprio veneno.

Então, para atrapalhar a distensão lenta, gradual e progressiva de Geisel, que incluía a desmontagem do aparelho repressivo de exceção, passaram a efetuar provocações que, esperavam eles, fariam a esquerda reagir; poderiam, então, alegar que continuavam sendo úteis e necessários. Valia tudo para despertarem o fantasma do comunismo que lhes era tão vantajoso.

Assim, uma base do PCB que fora formada na ECA/USP e se expandira com o ingresso de seus membros na carreira de jornalistas – continuando, entretanto, bem longe de representar uma ameaça real ao regime – acabou sendo escolhida como um dos principais alvos de uma suspeitíssima escalada de prisões de peixes pequenos, desencadeada em outubro de 1975. 

E o pobre Herzog talvez tivesse papel de destaque nas tramoias dos provocadores, por ser um professor muito querido, com o qual os universitários presumivelmente se solidarizariam, uma vez preso.
A missa para Herzog que a ditadura não ousou impedir
Como a ECA era tida pela repressão como um celeiro de subversivos e nela certamente existiam agentes infiltrados, é difícil acreditar que essa base não constasse dos relatórios policiais havia muito tempo. O fato é que, até o final de 1975, não existiu interesse em estourá-la.

Aí, de repente, a repressão se deu conta de que a ditadura começaria a ser derrubada pela insidiosa infiltração subversiva na TV Cultura, com seus 1% de audiência em São Paulo...

Vlado, coitado, não levou em conta os bastidores do regime e seguiu confiante para o matadouro. Até pela estima que lhe devotava o governador Paulo Egydio Martins, estava certo de que em seu caso não abririam a caixa de ferramentas. Quão pouco valia a vida de um homem!

Os torturadores, ao excederem a dose, causando-lhe a morte, despertaram a indignação mundial – para o que também concorreu a ascendência judaica da vítima, repetindo em escala ampliada o que já sucedera no final de 1969, quando da morte sob torturas de Chael Charles Schreier, militante da VAR-Palmares. Judeus são muito sensíveis à morte dos seus em circunstâncias semelhantes às do Holocausto.

Geisel e seu fiel escudeiro Hugo de Abreu aproveitaram a chance para minar o DOI-Codi sem despertarem resistências na caserna. O presidente deu ao II Exército o ultimato de que não poderia deixar uma morte como aquela se repetir.

Antes que se completassem três meses, os torturadores erraram a mão de novo, despachando para o túmulo o metalúrgico Manuel Fiel Filho, também do PCB. Forneceram a Geisel motivo suficiente para exonerar o comandante do II Exército Ednardo D'Ávila Melo e desmontar o DOI-Codi, robustecendo seu projeto de abertura política.

Por último, devem ser lembrados: 
  • o cansaço dos cidadãos que viviam sob terror policial desde 1969 e já não aguentavam mais o clima de autoritarismo e intolerância, mesmo porque, visivelmente, não havia mais uma ameaça verdadeira ao regime; 
  • a resistência dos jornalistas, que afinal se avolumou; e
  • e a coragem dos líderes religiosos de três confissões, que correram todos os riscos para, com a realização de uma missa ecumênica pela alma de Herzog na catedral da Sé, impedirem que mais esse assassinato fosse acobertado pela ditadura.
FEITIÇO CONTRA O FEITICEIRO — Nem assim as tentativas de inviabilizar a redemocratização do Brasil cessaram de todo. Em 1976 houve atentados a bomba contra o semanário Opinião, a ABI, a OAB e a residência de Roberto Marinho, além do sequestro e espancamento do bispo de Nova Iguaçu e do massacre dos militantes na gráfica do PCdoB.

Em 1979/81, a ação dos grupos paramilitares de direita se intensificou, com novos ataques a entidades e cidadãos ilustres (como o jurista Dalmo de Abreu Dalari) e até os bizarros incêndios de bancas de jornais em que eram vendidas publicações alternativas.

Até que, em 30 de abril de 1981, o feitiço virou contra o feiticeiro: a bomba explodiu no colo do terrorista fardado que pretendia provocar pânico de conseqüências imprevisíveis durante um show musical no Riocentro. A maré mudou e a redemocratização foi consolidada.

Vlado merece todas as homenagens que continua até hoje recebendo e outras mais. 

O mesmo reconhecimento jamais deve ser negado aos que pegamos em armas contra a ditadura e, em situação de extrema inferioridade de forças, resistimos aos usurpadores que derrubaram um presidente legítimo, fecharam o Congresso, cassaram mandatos, rasgaram a Constituição, proscreveram partidos e organizações da sociedade civil, praticaram a censura, torturaram, estupraram, mutilaram, mataram e ocultaram cadáveres.

E que nunca mais a liberdade dos brasileiros tenha como preço o sacrifício de cidadãos tão valorosos como Herzog, Câmara, Carlos Marighella, Carlos Lamarca, Rubens Paiva, Juarez Guimarães de Brito, Zuzu Angel, Iara Iavelberg e outros que tanta falta fazem hoje ao povo brasileiro! (por Celso Lungaretti)

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

TODOS BRIGAM, NINGUÉM TEM RAZÃO E A VENEZUELA ESFARELA. BASTA!

dalton rosado
UMA ANÁLISE EMANCIPACIONISTA SOBRE A VENEZUELA
.
"De repente, entrou um passarinho e
deu três voltas sobre mim. E senti o
espírito de Chávez" (Nicolás Maduro
Quando estive participando do Fórum Social Mundial de Caracas (2006), ainda sob o comando de Hugo Chávez, pude sentir como funcionava uma ditadura dita de esquerda, constatando que não era muito diferente da brasileira de 1964/85.

A nossa bandeira anti-Estado e anti-mercadoria foi alvo de severo patrulhamento por parte das forças militares a soldo daquele governo que não aceitava o nosso fora tudo, fora todos!.  

Ambas as ditaduras tinham muitas semelhanças, se não vejamos: 
— viés estatizante dos meios de produção do valor, do capital; 
— força militar ostensiva; 
— imposição da lógica capitalista com controle de mercado (um atestado de desconhecimento da economia política); 
— perseguição dos opositores; 
— parlamento controlado e cassado (ou caçado, como Rubens Paiva);
— censura da imprensa; 
— justiça subjugada; e
— doutrinação patriótico-nacionalista (levada a cabo sob o manto da chamada revolução bolivariana), etc.
Juan Guaidó vai acumulando forças...

Além da subjugação política, o  princípio fundamental básico, comum a tais ditaduras de direita e de esquerda é o modo de relação social fundado nas categorias capitalistas; é o modo de produção social feito a partir dessas categorias. 

Neste sentido, a ditadura venezuelana não é diferente das democracias liberais que lhe impõem embargos econômicos, infelicitando ainda mais o seu povo. A diferença é meramente superficial, política, pois consiste apenas no modo de ascensão ao poder estatal. Ainda que divirjam na relação com o capital (estatista ou privatista), não o negam na sua essência constitutiva.   

Afinal, os objetivos políticos ditatoriais ou liberais a serviço do capital são priorizados independentemente da fome e da miséria que provoquem, além de se igualarem no resultado final: a segregação social, mesmo que não seja intencional.

Todas as ditaduras ou regimes liberais vivem sob a égide do segregacionismo patrocinado pela dinâmica comum às categorias capitalistas (trabalho abstrato; dinheiro como expressão numérica do valor; mercadoria; mercado; Estado e política) e são, por fim, idênticas na essência econômica, diferindo apenas na condução política.

Mas, como a política é serviçal da ordem econômica fetichista, reificada, ditatorial, todas essas formas políticas terminam por ser também ditatoriais, sejam elas camufladas pela democracia burguesa, na qual se escolhe algo que já foi previamente escolhido, sejam impostas pelo jugo das botas militares.  
...enquanto Maduro sua para conservar o apoio dos militares...
Há, ademais, um híbrido de democracia tutelada pela força militar, modelo hoje muito em voga... 

A situação da Venezuela é caótica do ponto de vista econômico, o que constitui combustível altamente inflamável para a turbulência política. 

O espiritualista Nicolás Maduro e seus adeptos não conhecem o pensamento libertário da crítica da economia política de Marx, embora se digam de esquerda. Estão presos a conceitos do grande venezuelano Simon Bolívar, cujas guerras de independência libertaram vários países sul-americanos do colonialismo espanhol no século 19. 

Tais conceitos, contudo, foram soterrados pela poeira do tempo. O que está em pauta hoje é um universalismo solidário, e não mais o patriotismo nacionalista xenófobo de outrora.

O capital foge como o diabo da cruz de conduções políticas estatizantes e as nações liberais, submissas à lógica do capital, logo se apressam em impor embargos econômicos aos países politicamente dissidentes, inviabilizando o que já é ruim pela própria natureza. 

A Venezuela está a um passo de uma guerra civil; de uma invasão militar como a da Baía dos Porcos (Cuba, 1961), executada por mercenários a soldo de exilados cubanos e dos EUA; de uma invasão direta a pretexto da alegada ilegitimidade do poder de Nicolás Maduro; ou da própria destituição de Maduro pelos militares venezuelanos, se estes decidirem que seus interesses serão melhor servidos pelo presidente interino do que pelo ditador de plantão.    
... o enfrentamento armado se aproxima...

O país está dividido; a equivalência de forças é o que ainda faz perdurar um governo ilhado internacionalmente e com acentuadas características militarista.  Há, ainda, um cheiro de guerra fria no ar, a partir do posicionamento assumido por aqueles desejam ser a antítese americana (sem sê-lo), principalmente a Rússia e a China. 

A história se repete como farsa. Tudo é possível, inclusive a permanência duradoura desse estado de coisas, e nenhuma das hipóteses dadas tem viés emancipacionista.

A esquerda politicista estatizante insiste em defender Maduro, um presidente despótico, como se fosse anticapitalista. Finge ignorar que, apesar das diatribes lançadas contra o imperialismo estadunidense (que existe, sob a égide do capital), Maduro lhe vende seu petróleo, em troca dos dólares vitais para a manutenção da combalida economia venezuelana. 

A direita, por sua vez, denuncia os horrores sofridos pelo povo venezuelano, sem olhar para o próprio rabo. 

Todos estão presos ao fetichismo da mercadoria. O povo, atônito, pauperizado, sem compreender a raiz do problema, posiciona-se de um lado ou de outro. No final, todos brigam e ninguém tem razão.

Grassa a fome, dada a escassez de produtos alimentares para grande parte da população ou a falta de dinheiro para comprá-los no câmbio negro. A inflação venezuelana fez a sua moeda desaparecer, num testemunho loquaz do que representa a mediação social pelo dinheiro, expressão numérica, materializada do valor.  
...e o êxodo é alternativa à penúria e à guerra iminente
Direita e esquerda correspondem a dois segmentos políticos a se digladiarem numa falsa dicotomia, enquanto o povo permanece cego diante da porta do quarto escuro onde estão guardados os segredos da emancipação, sem saber onde está a chave para abri-lo. 

A esquerda positiva as categorias capitalistas e o arbítrio em nome da repulsa ao capital, sem perceber que dele faz parte; a direita, que se vê às voltas com a falência mundial dos seus postulados, nega o arbítrio embora o pratique, hipocritamente.

Que autoridade têm os Estados Unidos para derrubar pela força o ditador Maduro quando apoia ditadores como o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman, que mandou matar a sangue frio o jornalista dissidente Jamal Kahashoggi?

Que autoridade tem o presidente destrumpelhado para falar do sofrimento do povo venezuelano quando quer expulsar do seu país até mesmo os filhos de imigrantes que tenham nascido em solo estadunidense (sem falar nos campos de concentração que criou na fronteira como México)?

Que autoridade tem a União Europeia para se dizer solidária com o povo venezuelano que sofre as agruras de uma ditadura (embora apoie os embargos econômicos contra a Venezuela) quando trata os imigrantes de suas antigas colônias como se fossem rejeitos humanos? 
Chora pelos venezuelanos, mas faz os mexicanos chorarem

Que autoridade tem o sistema de crédito mundial para se imiscuir em questões políticas internas da Venezuela quando cobra juros extorsivos aos países pobres (mesmo que suas dívidas sejam menores, em termos absolutos e relativos, que as dos países ricos) mas cobra juros menores incidentes sobre a estratosférica dívida pública e privada desses mesmos ricos, adotando uma diferenciação ultrajante, causadora do aprofundamento da miséria social da periferia capitalista? 

Que autoridade tem um governo que estimula ações dos supremacistas brancos assassinos para servir de palmatória justicialista do mundo e dizer a quem deve reconhecer ou deixa de reconhecer o governante de um outro país, interferindo dessa forma nas turbulentas questões internas de outras nações?     

O que se discute aqui não é o mérito ou demérito de um governo que está maduro para cair por suas próprias inconsistências (sem esquecermos os embargos econômicos), mas a hipocrisia de um sistema que quer sempre ver à frente dos governos dos países pobres os dirigentes que lhe sejam submissos e priorizem os interesses do capital hegemônico mundial em fim de feira.

Aos emancipacionistas não cabe a defesa de Maduro e seu governo despótico, mas a denúncia de sua identidade de base econômica com aqueles que o querem derrubar; mas cabe a denúncia da hipocrisia dos que apontam o seu dedo sujo para a Venezuela.  

Ser emancipacionista é não temer a verdade, e buscá-la sempre, ainda que tal bandeira seja difícil de ser empunhada e custe sacrifícios.
Ser emancipacionista é denunciar o poder como tal e pugnar por um modo de produção social partilhado (sem quantificação em valor econômico numericamente dimensionado pelo dinheiro) e por uma forma de relação social a partir de uma organização social horizontalizada, meramente administrativa. 

Uma relação na qual possa fluir o verdadeiro interesse coletivo emudecedor das vontades minoritárias mesquinhas, e que contribua para uma educação social conceitual calcada nas virtudes humanas eternas.   

Basta de hipocrisia! 

Basta de falsa dicotomia entre projetos políticos que são similares na sua essência! 

Basta da burrice expressa num modo de produção que sempre foi ruim e que agora se mostra, ademais, anacrônico! 

Basta de manipulação das consciências populares! 

Basta de poder (vertical ou não)!

Basta! (por Dalton Rosado)
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