segunda-feira, 31 de maio de 2010

MEDICINA: HÁ QUASE TANTOS HIPÓCRITAS QUANTO SEGUIDORES DE HIPÓCRATES

Pesquisa do Conselho Regional de Medicina que a imprensa está noticiando hoje (31) flagra mais uma repulsiva mazela do capitalismo:
  • 48% dos medicos paulistas que são assediados por propagandistas de laboratórios aceitam o suborno disfarçado, indicando a seus clientes os medicamentos que os fabricantes querem impingir;
  • na área de equipamentos médico-hospitalares (incluindo órteses e próteses), a subserviência ainda é maior, 71%.
Quando trabalhava em assessorias de imprensa, eu tinha conhecimento detalhado dessa prática vil. As multinacionais farmacêuticas nem sequer se vexavam de divulgar nos seus jornais internos as bocas livres que ofereciam aos médicos, tipo fim de semana a bordo de navio de luxo, com direito a mil regalias.

Os laboratórios clientes das agências nas quais atuei não chegavam ao cúmulo de oferecer dinheiro vivo, só agrados. Mas, que agrados! Dava nó nas minhas entranhas ver as fotos dos doutores barrigudos e suas matronas, embonecados e exultantes nos jantares de gala a bordo, pois sabia que a contrapartida era manipular a clientela em benefício dos anfitrães.

Assim como me repugnava a série enorme de lançamentos que eu precisava comunicar ao mercado, de medicamentos caríssimos que não curavam doença nenhuma, apenas minoravam o sofrimento de pacientes terminais. A retórica era oferecer mais qualidade de vida ao moribundo... depenando-o, e às suas famílias.

Se os recursos dilapidados na pesquisa e desenvolvimento dessas inutilidades fossem investidos na busca da cura de moléstias que podem ser curadas, quantas vidas não seriam salvas e quantas pessoas não passariam a viver melhor!

Mas, claro, o objetivo dos laboratórios é L-U-C-R-O (como dizia o economista Eugênio Gudin) e não servirem à comunidade.

SAUDEMOS O HONORÁVEL JOSÉ SERRA, MARQUÊS DE COCHABAMBA!

Em 1930, a imprensa criou grande expectativa em relação à terrível batalha que se travaria na cidade de Itararé, divisa entre São Paulo e Paraná, ponto provável do encontro dos rebeldes getulistas com as tropas leais a Washington Luís.

Mas, tudo foi resolvido por negociação. Uma junta governativa assumiu o poder, sem que fosse disparado um único tiro.

A reação do genial humorista Aparício Torelly foi proclamar-se Barão de Itararé, com a seguinte justificativa:
"Fizeram acordos. O Bergamini pulou em cima da prefeitura do Rio, outro companheiro que nem revolucionário era ficou com os Correios e Telégrafos, outros patriotas menores foram exercer o seu patriotismo a tantos por mês em cargos de mando e desmando… e eu fiquei chupando o dedo. Foi então que resolvi conceder a mim mesmo uma carta de nobreza. Se eu fosse esperar que alguém me reconhecesse o mérito, não arranjava nada. Então passei a Barão de Itararé, em homenagem à batalha que não houve".
O presidenciável demotucano José Serra deveria mirar-se nesse exemplo: para mascarar o fracasso de sua estapafúrdia cruzada contra a Bolívia, da qual nada resultará além de papo furado, por que não intitular-se, p. ex., Marquês de Cochabamba, em homenagem a mais essa batalha que não houve?

PINGUE-PONGUE


REPÓRTER - E como está sua saúde?

QUINO (cartunista argentino, criador da "Mafalda", 77 anos) - Anda mais ou menos.

R - O que está de mais e o que está de menos?
Q - Bem, demais estão os anos... De menos, a juventude.

domingo, 30 de maio de 2010

MACACO, OLHA O SEU RABO: PARA ISRAEL, HIPÓCRITAS SÃO OS OUTROS

O acordo de revisão do Tratado de Não Proliferação Nuclear, firmado na cúpula recém-finda em Nova York, conclamou Israel a sair da clandestinidade, franqueando suas instalações nucleares a inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica.

Nem mesmo confrontado com as recentes revelações de que não só possui artefatos nucleares como se propôs a fornecê-los ao regime segregacionista da África do Sul em 1975, Israel insiste em não admitir o óbvio.

Nem negar; a cara de pau não chega a tanto. Apenas desconversa.

Assim, dando uma desentendido, queixa-se de que idêntica exigência não foi feita à Índia, ao Paquistão e à Coréia do Norte, criticando a "hipocrisia" do texto final da cúpula.

Segundo Israel, a revisão do TNP "ignora a realidade do Oriente Médio e as ameaças à região e ao mundo".

Pode até ser.

Mas, às pessoas isentas não escapa o fato de que uma das piores "ameaças à região e ao mundo" é Israel, com sua tradição de reagir desmesuradamente a qualquer agressão que sofre, conforme ficou demonstrado no genocídio praticado contra os palestinos da Faixa de Gaza na virada de 2008 para 2009.

UMA PONTE ENTRE OS REBELDES DOS ANOS 50 E OS CONTESTADORES DOS '60


Acima, o Billy de "Sem Destino"; à esq., o jovem Clanton de "Sem Lei e Sem Alma": à dir., o Tom Ripley de "O Amigo Americano".
Dennis Hopper poderia ter sido um artista maior, se levasse mais a sério sua carreira e o próprio cinema.

Mas, preferiu aceitar praticamente todos os projetos que lhe ofereceram, os poucos ótimos, a infinidade de medianos e até alguns péssimos.


Isto confundirá ainda mais os críticos, já habitualmente confusos. Não esperem deles necrológios perspicazes...


Depois de trabalhar num e noutro seriado de TV, Hopper estreou no cinema como coadjuvante no clássico Juventude Transviada (dirigido por Nicholas Ray, 1955), filme cujo título original acabou sendo mundialmente adotado para designar aqueles jovens que não suportavam o american way of life mas ainda eram incapazes de oferecer-lhe alternativa: os rebeldes sem causa, com suas jaquetas de couro, correntes e motocicletas.


Novamente trabalhou ao lado de James Dean em Assim Caminha a Humanidade (d. George Stevens), filmado em 1955 e lançado em 1956.


James Dean e Marlon Brando (O Selvagem) foram os símbolos máximos dessa primeira geração de revoltados do pós-guerra.


O fato é que, depois das privações, do sofrimento e do morticínio, não sobreveio a paz sonhada. Pelo contrário, começou a guerra fria, a bomba atômica passou a inspirar pesadelos e paranóias, os Estados Unidos mostraram sua pior face na caça às bruxas desencadeada por McCarthy e Nixon.


O imenso desencanto foi o pano-de-fundo sobre o qual se projetaram o nascente rock'n roll e as escuderias de motoqueiros.


James Dean, entretanto, saiu da vida cedo demais, vitimado por um acidente automobilístico aos 24 anos. E, mais do que entrar na História, virou lenda: aquele que não se deixou domesticar, morrendo rebelde.


"Prefiro morrer antes de envelhecer", proclamou Pete Townshend. Mas quem fez isto foi James Dean, em setembro de 1955.


Como se tivesse herdado o pathos de James Dean, Dennis Hopper lançou uma ponte entre os revoltados de duas décadas, ao realizar o filme-manifesto Sem Destino (1969).


Além de dirigir, ele foi co-autor do roteiro, ao lado de Peter Fonda. E os dois ficaram também com os papéis principais, como hippies que querem seguir os passos de Wyatt Earp e Billy the Kid, saindo com suas imponentes
Harley-Davidson (as motos como referência que remete à geração anterior...) para descobrir os verdadeiros EUA.

Só que, ao enfurnarem-se pelos estados mais atrasados, acabam se chocando com a boçalidade, o preconceito e a truculência: são gratuitamente assassinados pelos jecas.


Juntamente com o registro cinematográfico do festival de Woodstock, foi Sem Destino que apresentou ao mundo a cultura paz & amor dos hippies, bem como as novas formas de contestação que surgiam com força total e acabaram por tirar os EUA do Vietnã.


Catapultado instantaneamente para a fama, Hopper ficou tão identificado com o personagem Billy que praticamente o repetiu como o assaltante que tenta regenerar-se em Kid Blue Não Nasceu para a Forca (d. James Frawley, 1973) e como o fotógrafo pirado de Apocalypse Now (d. Francis Ford Coppola, 1979).


Para não falar do pai da lenda viva em O Selvagem da Motocicleta (d. Francis Ford Coppola, 1983), um Billy que envelheceu e foi buscar consolo na garrafa, mas manteve uma percepção aguda das coisas.


E do fruto tardio da safra de filmes contestadores que Hopper dirigiu, além de colaborar no roteiro: Out of the Blue (1980).


Mais emblemática, entretanto, foi sua participação em O Amigo Americano (1977), a obra-prima de Wim Wenders. O Tom Ripley que Hopper compôs é exatamente o pós-hippie, o cowboy angustiado da cidade desumanizada, à procura de motivos para continuar vivendo, nem que seja uma complicada forma de vingar uma pequena ofensa.


É este o seu papel magnífico, inesquecível, e não o de Frank Booth em Veludo Azul (1986), contaminado pela artificialidade intrínseca de David Lynch.


O pior é que, daí em diante, os estúdios arquivaram a imagem de hippie, substituindo-a pela de vilão: ele passou a ser cada vez mais requisitado, para fazer cara de mau em filmes piores ainda do que Blue Velvet...


Foi quando ele parece ter-se curvado à evidência dos fatos, passando a fornecer a intepretação convencional que mantinha a engrenagem funcionando e o dinheiro entrando.


Deve ter chegado à mesma conclusão como diretor, depois de realizar a obra-prima não reconhecida As Cores da Violência (1988), que detectou no nascedouro, com olhar crítico, a subcultura das drogas pesadas, do rap e dos grafites.


Entre filmes de cinema e tralha para TV, há mais de 200 títulos listados em seus 56 anos de trajetória (incluindo aqueles em que ele só contribuiu com a voz).


È pena que a morte física tenha chegado duas décadas depois da morte artística. [Se for a última imagem que ficar, coitado!]


E que, no meio de tanto calhau, as pessoas tenham dificuldade para encontrar as pedras preciosas. Que, indiscutivelmente, existem.


Daí este meu pequeno esforço para destacar aquilo pelo que Dennis Hopper deve ser respeitado e lembrado.


"O Amigo Americano": Hopper contracena com o grande
diretor Nicholas Ray, que interpreta o pintor Derwatt

sábado, 29 de maio de 2010

GANDHI ACUSOU JUDEUS DE "BRUTALIDADE SEM LIMITES"

Já que meu blogue foi tirado do ar por hacker(s) pouco depois de eu ter postado um texto denunciando Israel, é de Israel que continuarei tratando por mais um dia -- e quantos forem necessários para dissuadir os que tentam silenciar argumentos com sabotagem vil e covarde.

Então, reproduzirei um digno manifesto do Mahatma Gandhi sobre a questão palestina -- com a exclusão de um longo trecho sobre a Alemanha nazista, por estar obviamente datado
.

Mas, se alguém quiser ler o texto na íntegra, poderá fazê-lo aqui.

OS JUDEUS NA
PALESTINA EM 1938

"Recebi muitas cartas solicitando a minha opinião sobre a questão judaico-palestina e sobre a perseguição aos judeus na Alemanha. Não é sem hesitação que ouso expor o meu ponto-de-vista.

"Na Alemanha as minhas simpatias estão todas com os judeus. Eu os conheci intimamente na África do Sul. Alguns deles se tornaram grandes amigos. Através destes amigos aprendi muito sobre as perseguições que sofreram. Eles têm sido os "intocáveis" do cristianismo; há um paralelo entre eles, e os "intocáveis" dos hindus. Sanções religiosas foram invocadas nos dois casos para justificar o tratamento dispensado a eles. Afora as amizades, há a mais universal razão para a minha simpatia pelos judeus. No entanto, a minha simpatia não me cega para a necessidade de Justiça.

"O pedido por um lar nacional para os judeus não me convence.

"Por que eles não fazem, como qualquer outro dos povos do planeta, que vivem no país onde nasceram e fizeram dele o seu lar?

"A Palestina pertence aos palestinos, da mesma forma que a Inglaterra pertence aos ingleses, ou a França aos franceses.

"É errado e desumano impor os judeus aos árabes. O que está acontecendo na Palestina não é justificável por nenhuma moralidade ou código de ética. Os mandatos não têm valor. Certamente, seria um crime contra a humanidade reduzir o orgulho árabe para que a Palestina fosse entregue aos judeus parcialmente ou totalmente como o lar nacional judaico.

"O caminho mais nobre seria insistir num tratamento justo para os judeus em qualquer parte do mundo em que eles nascessem ou vivessem. Os judeus nascidos na França são franceses, da mesma forma que os cristãos nascidos na França são franceses.

"Se os judeus não têm um lar senão a Palestina, eles apreciariam a idéia de serem forçados a deixar as outras partes do mundo onde estão assentados? Ou eles querem um lar duplo onde possam ficar à vontade?

"(...) E agora uma palavra aos judeus na Palestina:

"Não tenho dúvidas de que os judeus estão indo pelo caminho errado. A Palestina, na concepção bíblica, não é um tratado geográfico. Ela está em seus corações. Mas se eles devem olhar a Palestina pela geografia como sua pátria mãe, está errado aceitá-la sob a sombra do belicismo britânico. Um ato religioso não pode acontecer com a ajuda da baioneta ou da bomba. Eles poderiam estabelecer-se na Palestina somente pela boa vontade dos palestinos. Eles deveriam procurar convencer o coração palestino. O mesmo Deus que rege o coração árabe, rege o coração judeu. Só assim eles teriam a opinião mundial favorável às suas aspirações religiosas. Há centenas de caminhos para uma solução com os árabes, se descartarem a ajuda da baioneta britânica.

"Como está acontecendo, os judeus são responsáveis e cúmplices com outros países, em arruinar um povo que não fez nada de errado com eles.

"Eu não estou defendendo as reações dos palestinos. Eu desejaria que tivessem escolhido o caminho da não-violência a resistir ao que eles, corretamente, consideraram como invasão de seu país por estrangeiros. Porém, de acordo com os cânones aceitos de certo e errado, nada pode ser dito contra a resistência árabe face aos esmagadores acontecimentos.

"Deixemos os judeus, que clamam serem os escolhidos por Deus, provar o seu título escolhendo o caminho da não-violência para reclamar a sua posição na Terra. Todos os países são o lar deles, incluindo a Palestina, não por agressão mas por culto ao amor.

"Um amigo judeu me mandou um livro chamado A contribuição judaica para a civilização, de Cecil Roth. O livro nos dá uma idéia do que os judeus fizeram para enriquecer a literatura, a arte, a música, o drama, a ciência, a medicina, a agricultura etc., no mundo. Determinada a vontade, os judeus podem se recusar a serem tratados como os párias do Ocidente, de serem desprezados ou tratados com condescendência.

"Eles podiam chamar a atenção e o respeito do mundo por serem a criação escolhida de Deus, em vez de se afundarem naquela brutalidade sem limites [grifo meu]. Eles podiam somar às suas várias contribuições, a contribuição da ação da não-violência". (Mahatma Gandhi)

sexta-feira, 28 de maio de 2010

BLOGUE SABOTADO. DE NOVO!

Sai hoje de casa por volta das 15h. Ao retornar, às 22h, constatei que o número de visitantes deste blogue era quase o mesmo do momento da saída.
Tentei acessá-lo e apareceu a informação de que não existia.

Fui por outros caminhos e logo o restabeleci.

Então, fica este registro: antes isso acontecia nos momentos culminantes da luta do Cesare, agora os hackers atacam também quando exponho os podres de Israel.

Perda de tempo. Tanto quanto as ameaças que às vezes recebo.

Não desisto facilmente, nem me deixo intimidar.

Como disse o Vandré, em música:
"Eu canto o canto
Eu brigo a briga
Porque sou forte
e tenho razão"

FUNDO DO POÇO: ISRAEL FOI PARCEIRO ATÉ DO APARTHEID

Em meio a temas palpitantes como o do acordo Brasil/Turquia/Irã que os EUA estimularam e agora torpedeiam, está passando quase despercebida a relevante informação de que Israel não só possui bombas atômicas aos montes, sem qualquer controle por parte de organismos internacionais, como andou tentando vender algumas ao regime segregacionista da África do Sul, em 1975.

E, no fundo, os dois assuntos se completam: que direito tem os EUA de exigirem que o Irã se submeta a uma daquelas revistas policiais em que até os orifícios do corpo são verificados, enquanto um país useiro e vezeiro em barbarizar vizinhos não só dispõe de armamentos que ameaçam a humanidade, como aceita negociá-los com qualquer um?

Ao contrário dos jovens que identificam os judeus com as características odiosas que seu estado incorporou, eu conheço bem os belos sonhos de outrora, dos kibutzim ao Bund.

O primeiro era uma experiência na linha do chamado socialismo utópico: o cultivo da terra em bases igualitárias, sem patrão, sem privilégios, sem desigualdade.

Tive jovens amigos de ascendência judaica que falavam maravilhas dos kibutzim, mas, pacifistas, relutavam em ir para um país onde poderiam ser convocados a qualquer instante para batalhas.

O socialismo revolucionário, por sua vez, era representado pelo Bund, a União Geral dos Trabalhadores Judeus na Lituânia, Polônia e Rússia, que estava entre as forças fundadoras do Partido Social-Democrata, tendo participado ativamente das revoluções russas de 1905 e 1917.

O MÉDICO SE TORNOU MONSTRO

Na segunda metade do século passado, entretanto, Israel viveu sua transição de Dr. Jeckill para Mr. Hide. Virou ponta-de-lança do imperialismo no Oriente Médio, responsável por genocídios e atrocidades que lhe valeram dezenas de condenações inócuas da ONU.

Até chegar ao que é hoje: um estado militarizado, mero
bunker, a desempenhar o melancólico papel de vanguarda do retrocesso e do obscurantismo.

Ter, ademais, oferecido-se para dotar o apartheid de artefatos atômicos supera a pior imagem que já tínhamos de Israel.

É a pá de cal, a comprovação gritante de que o humanismo não tem mais espaço nenhum no estado judeu. O povo que nos deu Marx, Freud e Einstein hoje produz mas é novos Átilas, Gengis Khans e Pinochets.

Quanto à notícia publicada há poucos dias pelo
Guardian londrino e que tantos preferem ignorar, é a seguinte: documentos secretos da África do Sul obtidos pelo acadêmico estadunidense Sasha Palakow-Suransky, além de exporem essa parceria política nauseabunda, constituem prova documental insofismável do programa nuclear israelense, que se sabia existir mas o estado judeu insistia em negar.

O
Guardian divulgou inclusive um memorando do então chefe das Forças Armadas da África do Sul, general R. Armstrong, escrito no dia de um encontro entre os respectivos ministros da Defesa, Shimon Peres e Pieter Botha. Nele, o militar diz, de forma cifrada mas nem tanto, que, “considerando os méritos do sistema de armas oferecido [por Israel], algumas interpretações podem ser feitas, como a de que os mísseis serão armados com ogivas nucleares produzidas na África do Sul [grifo meu] ou em outro lugar”.

O NOME DOS MÍSSEIS É "JERICÓ"

Em entrevista publicada nesta 6ª feira (28) pela Folha de São Paulo, o acadêmico Palakow-Suransky rebate a alegação de Shimon Peres, de que sua assinatura não consta das minutas das reuniões:

"...mas ela aparece no documento que garante sigilo para a negociação sobre a venda de mísseis Jericó. Os documentos mostram acima de qualquer dúvida que o tema foi discutido em uma série de encontros em 1975. As frases usadas para descrever as ogivas são vagas, o que é comum nesse tipo de negociação. A confirmação de que o governo sul-africano viu a discussão como uma oferta nuclear explícita está num memorando do chefe do Estado-Maior, R. F. Armstrong, que detalha as vantagens do sistema de mísseis Jericó para a África do Sul, mas só se os mísseis tivessem ogivas nucleares. É a primeira vez que aparece um documento com a discussão sobre mísseis nucleares em termos concretos. O acordo nunca foi fechado, mas a discussão ocorreu, e o alto escalão sul-africano entendeu a proposta israelense como oferta nuclear".
O schoolar acrescentou que há outras evidências de colaboração de Israel com o apartheid:

"As principais são a continuação do projeto dos mísseis Jericó na África do Sul nos anos 80, quando especialistas israelenses ajudaram a construir projéteis de segunda geração para carregar ogivas nucleares; e a venda de 'yellow cake' [concentrado de urânio] da África do Sul para Israel em 1961".
E avalia que suas revelações não são a principal evidência disponível de que Israel possui arsenal atômico:

"As fotos de Mordechai Vanunu [técnico nuclear israelense condenado por traição] em 1986 são muito mais definitivas. O significado dos documentos não é provar que Israel tem armas nucleares, o que o mundo todo sabe há décadas. A notícia aqui é que a possível transferência de tecnologia nuclear foi debatida no alto escalão".
E, acrescento eu, a notícia é que Israel se dispôs a transferir tecnologia nuclear para um dos regimes mais execráveis e execrado do planeta. Dize-me com quem andas...

Também me chocou constatar que a aprazível "cidade das palmeiras" do Velho Testamento, onde os judeus recompuseram suas forças depois da escravidão, agora serve para nomear as armas do Juízo Final.

É um simbolismo bem apropriado para sua travessia negativa, que parece não ter fim, no sentido da desumanidade.




quinta-feira, 27 de maio de 2010

STF CRIA "CULTURA DA IMPUNIDADE", ACUSA BICUDO

D. Paulo Evaristo Arns, Hélio
Bicudo e o jornalista Audálio
Dantas, em 2004, na PUC/SP.

Tudo que você queria saber sobre a decisão do Supremo Tribunal Federal a respeito da anistia dos torturadores e não tinha quem esclarecesse, está na entrevista Bicudo: “Luta contra tortura prossegue na OEA”, um magnífico trabalho jornalístico da companheira Ana Helena Tavares.

Escrevi recentemente sobre Bicudo, então não vou chover no molhado: basta dizer que foi um dos personagens mais importantes da resistência à ditadura de 1964/85 pelos caminhos legais que ainda restavam.

Irmanados pelos ideais e pela fé, ele e D. Paulo Evaristo Arns aproveitaram a relativa proteção que o prestígio mundial lhes proporcionava, para travarem uma luta épica contra a repressão ditatorial, golpeando duramente o terrorismo de estado, principalmente com dois feitos emblemáticos: os processos contra o Esquadrão da Morte e a missa de sétimo dia de Vladimir Herzog.

Foram verdadeiros divisores de água, a partir dos quais o poder aberrante dos porões entrou em colapso.

Eis os principais trechos da entrevista:
"O texto da Lei de Anistia, não permite que os torturadores fiquem impunes, muito pelo contrário. Não acho que haja necessidade de modificar o texto. Basta aplicá-lo como ele é, segundo uma interpretação jurídica e não ideológica.

"[sobre a alegação do relator Eros Grau, de que os crimes cometidos pelos torturadores seriam conexos e, portanto, abrangidos pela anistia de 1979] É lamentável que um juiz da Suprema Corte não saiba o que são realmente delitos conexos. (...) Os 'crimes conexos' são aqueles cujas finalidades são as mesmas do ato principal praticado. P. ex., um ladrão entra na sua casa, rouba, e, para evitar que existam provas, incendeia a casa. São dois crimes conexos: o roubo e o incêndio da casa. Há uma identidade de fins: a finalidade era roubar e não ser punido.

"Mas se o ladrão entra na casa, rouba, é preso e depois morto pela polícia, não há nenhuma ligação entre um fato e outro, do ponto de vista das suas finalidades. (...). É como nesse caso da Anistia. Os opositores do regime cometeram crimes que a lei diz que, depois de algum tempo, não podem ser punidos. Mas se trata de crimes praticados contra o Estado repressor. Ideologicamente, eles não têm nada a ver com os crimes praticados pelos agentes do Estado.

"A finalidade dos crimes praticados pelas pessoas que eram contrárias ao regime era política. Os crimes praticados pelos agentes do Estado não têm finalidade política. São crimes contra a humanidade e, por esse motivo, imprescritíveis. Quando a Lei de Anistia fala em 'crimes conexos', você não pode interpretar a conexidade senão de um lado e de outro. Quer dizer, você pode ter pessoas que cometeram crimes contra o Estado conexos entre si, mas você não pode ligar estes crimes aos cometidos pelos agentes do Estado para beneficiar a si próprios. Ou seja, os agentes do Estado agem por outra finalidade. No caso, para manter a ditadura.

"[sobre a alegação de que a anistia de 1979 reconciliou o País] É um absurdo falar em 'conciliação' quando os militares detinham o poder Executivo e o comando do Legislativo. (...) Num contexto como esse, você não pode encontrar consenso da sociedade civil com relação à lei que foi promulgada.

"[sobre se a revisão da Lei de Anistia seria inconstitucional, por prejudicar um direito adquirido] Existem tratados internacionais, dos quais o Brasil é signatário, que dizem que os crimes contra a humanidade são imprescritíveis. Veja bem: não são crimes que se esgotam naquele momento. O homicídio se esgota, mas outros crimes não, como, p. ex., o sequestro. Você tem pessoas que despareceram e até hoje não se sabe seu paradeiro. Podem ter sido mortas, mas você precisa provar que elas foram mortas para desaparecer o crime de sequestro. É um crime continuado: persiste no tempo. Foi praticado ontem, continua existindo hoje e continuará amanhã. Não existe prescritibilidade desses crimes.

"[leis brasileiras x cortes internacionais] Em 1998, o Brasil reconheceu a jurisdição da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Ela não tem o poder de revogar a decisão do STF. Mas, desde o momento em que o Brasil reconheceu a jurisdição, tem que se submeter à Corte. Porque reconheceu de boa fé, não foi obrigado a isso. Esse reconhecimento vale para todos os crimes que forem a julgamento pela Corte Interamericana e forem imputados ao Brasil. Acho que a Corte Interamericana, de acordo com a sua jurisprudência e conforme já julgou com relação a outros Estados, mostrará que não existe auto-anistia.

"Porque o que se busca hoje no Brasil é o reconhecimento da auto-anistia. Um governo que cometeu crimes pode anistiar a si próprio? Isso não existe! Anistia existe para proteger pessoas que num dado momento, por motivos políticos, cometeram crimes. Para pacificar a sociedade, você considera este crimes inexistentes.

"Mas não os crimes praticados pelo Estado. Isso já se constituiu numa jurisprudência pacífica da Corte Interamericana de Defesa dos Direitos Humanos. Não tenho dúvida nenhuma de que a corte vai condenar o Estado brasileiro. Não pela manutenção de uma lei — mas pela interpretação errada dada a ela pela justiça brasileira, que vem acudindo os torturadores e aqueles que, a serviço do Estado, eliminaram pessoas durante o período da ditadura militar.

"A corte [Interamericana de Justiça] não aplica sanções. Caso o Brasil não cumpra uma decisão, ela relata esse fato à Assembléia Geral dos Estados Americanos. Esta, sim, pode punir os países-membros com sanções. Ou pode não punir, porque a OEA é um órgão eminentemente político. De qualquer maneira, acho que a situação do Brasil no que diz respeito aos direitos humanos na área internacional vai ficar muito ruim. Como é que fica o STF? É está agindo contra os direitos humanos e isso poderá ter consequências futuras.

"Uma sociedade que se diz contra a tortura, mas não pune quem a pratica, está se expondo a riscos. Se, num momento político qualquer, houver restrições à democracia (...) haverá mais possibilidades de a tortura contra adversários políticos também voltar, porque criou-se a cultura de impunidade".



Um raro vídeo sobre o Esquadrão da Morte disponibilizado
no YouTube. Veja também a parte 2, parte 3 e parte 4.

PARA ANISTIA INTERNACIONAL, REAÇÕES AO PNDH-3 SÃO "SÉRIA AMEAÇA" AOS DH

Mesmo a "limitada proposta" de apenas investigar os abusos cometidos pela ditadura de 1964/85, sem a instauração de processos contra quem violou direitos humanos no passado, "foi duramente criticada pelos militares brasileiros, com o ministro da Defesa tentando enfraquecê-la ainda mais".
Esta é a avaliação que, no capítulo referente ao Brasil do seu relatório anual sobre a situação dos DH no mundo inteiro, a Anistia Internacional faz da grita histérica dos setores conservadores e reacionários contra a terceira versão do Programa Nacional de Direitos Humanos.

O documento foi divulgado nesta 4ª feira (26) pela mais respeitada e influente ONG do planeta dedicada à defesa dos DH.

Destaca que o PNDH-3 "recebeu uma boa acolhida da sociedade civil", mas foi "foi duramente criticado pelos militares, pela Igreja Católica e pelos grupos de defesa dos interesses dos proprietários rurais".

Segundo a AI, tais contestações constituíram "uma séria ameaça para a proteção dos direitos humanos no país".

Por ser recente, a decisão do STF, de considerar plenamente válida uma Lei de Anistia gerada em ditadura, só entrará no relatório do ano que vem.

Mas, logo após a contestadíssima decisão do Supremo, o pesquisador Tim Cahill, responsável pelos estudos da AI sobre o Brasil, já declarou que ela contrariara "qualquer entendimento de leis internacionais ou mesmo nacionais sobre situações em que agentes do Estado podem ser anistiados quando cometem crimes de lesa-humanidade, tortura, extermínio e execuções sumárias contra seus próprios cidadãos".

E concluiu com uma afirmação contundente, mas verdadeira:
"É uma mensagem forte do Brasil, de que, quando o Estado tortura e mata seus próprios cidadãos, ninguém é responsável".
TRUCULÊNCIA, EXECUÇÕES E TORTURAS - O relatório anual da AI também fez pesadas críticas ao comportamento das forças policiais e de segurança no combate à criminalidade, ressaltando que, "por todo o país, houve relatos persistentes de uso excessivo da força, de execuções extrajudiciais e de torturas cometidas por policiais".

Mais: os "autos de resistência" fajutos com que a Polícia encobre seus excessos, lembra o documento, contrariam tanto o PNDH-3 quanto as recomendações do relator especial da ONU sobre execuções sumárias, arbitrárias ou extrajudiciais.

Por conta da aceitação automática da versão policial, diz a AI, "centenas de homicídios não foram devidamente investigados e houve poucas ações judiciais, se é que houve alguma".

O quadro é assustador no Rui de Janeiro:

"Um estudo do Instituto de Segurança Pública, ligado à Secretaria de Segurança Pública (...), constatou que, entre janeiro de 1998 e setembro de 2009, 10.216 pessoas foram mortas no estado em incidentes registrados como 'atos de resistência'.

E a situação também se agrava em São Paulo, onde "as mortes cometidas por policiais militares tiveram um aumento de 41%".


quarta-feira, 26 de maio de 2010

CRÔNICA DE UM EPISÓDIO CANALHA

"É um grito que se espalha
Também pudera
Não tarda nem falha
Apenas te espera
Num campo de batalha
É um grito que se espalha
É uma dor
Canalha"
(Walter Franco)

Junho de 2008.

O senador Marcelo Crivella, sobrinho de Edir Macedo e bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, apostou numa reciclagem dos barracos das favelas como trampolim para a Prefeitura do Rio de Janeiro – à qual pretendia chegar com o apoio do vice-presidente José Alencar (são ambos do PRB) e a benção do Governo Federal.

O Cimento Social foi um projeto maldito desde o início.

Primeiramente por ser superfaturado, conforme então denunciou o veterano analista político Zuenir Ventura: "o custo para reformar uma casa [R$ 22 mil] é mais da metade do preço de construí-la por inteiro [R$ 32 mil]”.

Depois, porque os fornecedores escolhidos foram, obviamente, empresários ligados à IURD. Aqueles que pagam vultosos dízimos.

E, ainda, por ser um pacote escandalosamente eleitoreiro: a equipe de Crivella fez o projeto e elaborou o cadastro dos beneficiados, de forma a colher todos os dividendos políticos. Quanto à conta de R$ 16 milhões, ficou para a viúva pagar, claro.

Por último, poupou-se o custo de seguranças para a execução do projeto no Morro da Providência, delegando a função ao Exército, que sabia ser uma roubada, mas acabou engolindo o sapo.

José Sarney naquele tempo falava grosso, pois ainda não devia a sobrevivência política a Lula. Então, disse que o Exército não honrara suas tradições ao aceitar tal empreitada, contrariamente ao que fazia quando se recusava a caçar escravos fugidos por considerar que era tarefa de capitães-do-mato e não de militares.

Quando a substância fedeu, José Alencar tirou o corpo fora, negando ter sido ele quem aconselhara Lula a dar esse péssimo passo:
"Nosso partido, o PRB, não tem esse poder de convencimento, de uma força militar fazer algo que não queira. Isso tudo passou pelo presidente Lula".
A comédia de erros terminou em tragédia. Agindo com a truculência que lhes-é habitual quando atuam junto a comunidades carentes, os militares mataram ou provocaram a morte de três jovens que voltavam de uma balada.

Uma patrulha suspeitou deles e os submeteu a uma revista cujo resultado foi nulo: não portavam armas nem drogas.

Houve bate-boca. O tenente que comandava a patrulha os deteve por desacato. Seu superior (capitão) ordenou que fossem soltos. O tenente, inconformado, desatendeu a ordem. Acabaram barbaramente torturados e executados a sangue-frio (um deles recebeu 26 tiros).

A versão oficial é a de que o tenente os entregou a traficantes rivais de outro morro. A versão alternativa, sustentada por Jânio de Freitas e por mim, foi a de que algum deles sucumbiu às torturas no quartel (como acontecia freqüentemente na ditadura de 1964/85) e os militares decidiram assassinar os outros dois, montando uma farsa para atenuar suas responsabilidades.

Ambas deixavam a imagem do Exército em frangalhos. Além dos detalhes escabrosos, havia os fatos de que um tenente ignorou olimpicamente a decisão de um capitão; um capitão não teve a mínima curiosidade em verificar se sua ordem havia sido cumprida; e o comandante Militar do Leste, diante de um acontecimento de tal gravidade, preferiu continuar em férias na Europa do que vir descascar o abacaxi.

O assassinato, as circunstâncias chocantes que o cercaram e o alegado conluio entre militares e traficantes foram prato cheio para a imprensa. O castelo de areia desabou.

A Justiça Eleitoral embargou as obras do Cimento Social após a mídia noticiar que Crivella estava destacando esse projeto em folhetos e outras peças de campanha.

O ministro da Defesa ordenou a retirada das tropas.

E, o melhor de tudo: o episódio desmoralizou tanto Crivella que ele perdeu a vaga, dada como certa, no 2º turno. O azarão Fernando Gabeira arrancou na reta final.

Mais que cimento, foi uma pá de cal nas chances eleitorais do citado elemento (o jargão policial cai como uma luva neste contexto...).

Quanto aos militares, 11 foram acusados na 7ª Vara Criminal da Justiça Federal no RJ, que acaba de absolver e libertar os nove subalternos; estes safaram-se em definitivo.

O tenente Vinícius Ghidetti de Moraes Andrade e o sargento Leandro Bueno ainda irão a júri, provavelmente no mês que vem. Não vai dar em nada, claro.


A Justiça Militar também julgou o tenente, condenando-o a um ano de prisão por recusa de obediência.

Ou seja, ter desacatado a ordem do capitão, que mandara libertar os coitados, é o único crime que ele cometeu, na ótica do Exército.

Seria cômico se não fosse trágico.

terça-feira, 25 de maio de 2010

DIREITA CONTINUA CALUNIANDO DILMA NA WEB

Recebi e-mail com a seguinte mensagem:

"Por favor, repassem para o maior número de brasileiros, para que ninguém ignore essa biografia e acabe votando em uma terrorista de alta periculosidade para presidente do Brasil.

"Estas fotos anexas são para reavivar a memória da terrorista Dilma, ministra do governo Lula e candidata a presidente da República do Brasil em 2010.

"Ela teve amnésia e não se lembra dos assaltos a banco, dos sequestros, assassinatos, delação de colegas e tudo o mais que fez. Só lembra que foi torturada, sabe com detalhes quem foram os que a prenderam e a 'maltrataram', mas não sabe por quê .

"Foi por isso, dona Dilma, a senhora e seus comparsas queriam implantar o regime de Cuba no Brasil e estes que estão aí, mortos pelo seu bando, foram alguns dos obstáculos que impediram que alcançasse o seu objetivo de implantar uma DITADURA COMUNISTA NO BRASIL

"Claro, vocês não foram tratados como trataram seus adversários aqui e nos regimes que lhes financiavam: Cuba, Rússia e China, entre outros, por isso estão aí vivinhos, sendo indenizados por essas mortes e, pior, governando este país!"
Anexadas, vieram cinco fotos de pessoas mortas, com o seguinte título geral: "Assassinados pela VPR e VAR-Palmares grupos guerrilheiros a que pertencia a Dilma, ou Vanda, ou Patrícia, ou Luíza, como eram seus codinomes".

As fotos são as seguintes:
  • do jornalista Regis de Carvalho e do almirante reformado Nelson Gomes Fernandes, atingidos pela explosão de uma bomba cujo alvo era o presidente Costa e Silva, em junho/1966, no aeroporto de Guararapes (PE). OS PRÓPRIOS SITES ULTRADIREITISTAS E MILITARES ATRIBUEM TAL ATENTADO À AÇÃO POPULAR (AP), ORGANIZAÇÃO QUE NUNCA TEVE DILMA ROUSSEFF COMO MILITANTE (ela só militou na Polop, no Colina e na VAR-Palmares).
  • do capitão Charles Rodney Chandler (1968), do soldado Mário Kozel Filho (1968) e do tenente Alberto Mendes Jr. (1970), MORTOS PELA VPR, OUTRA ORGANIZAÇÃO QUE NUNCA TEVE DILMA ROUSSEFF COMO MILITANTE, ao contrário do que o e-mail apócrifo sustenta.
Foi só entre junho/1969 e outubro/1969 que ela esteve em contato com quadros da VPR, pois esse agrupamento se fundiu ao Colina, formando a VAR-Palmares; mas, quatro meses depois já aconteceu uma cisão, com Dilma permanecendo na VAR e a ala oposta recriando a VPR.

É totalmente ridículo querer vinculá-la a episódios sucedidos em 1968, quando ela estava militando no Colina de Minas Gerais e não tinha nenhum contato com a VPR paulista; ou a uma ocorrência de abril/1970, depois de ela ter optado por não aderir ao grupo que refundou a VPR (afora o pequeno detalhe de que ela estava presa desde janeiro/1970...).

Ou seja, a propaganda extremista não tinha como imputar-lhe mortes com um mínimo de verossimilhança, até porque não foi disto que a ditadura a acusou ao julgá-la em suas auditorias militares, após inquéritos instruídos com o uso generalizado e indiscriminado da tortura; o jovem militante da VAR-Palmares Chael Charles Schreier, p. ex., foi fulminado por um ataque cardíaco durante as sevícias que sofria na PE da Vila Militar (RJ) em novembro de 1969, dois meses antes da prisão de Dilma.

Mesmo assim, seguindo fielmente os passos do ministro de propaganda nazista Joseph Goebbels (aquele que recomendava martelar uma mentira até que ela passasse por verdade), as correntes virtuais direitistas apelam despudoradamente para a distorção da História, ao jogarem nas costas de Dilma as vítimas de outros grupos revolucionários -- além de omitirem que o Brasil estava submetido ao terrorismo de estado por parte dos golpistas que usurparam o poder em 1964, o que descaracteriza como crimes os atos praticados no legítimo exercício do direito de resistência à tirania.

Em todas as lutas contra o despotismo através dos tempos, sempre houve ações com encaminhamentos e resultados discutíveis, o que não altera o caráter fundamental desses confrontos, nem iguala os resistentes a seus verdugos (a equiparação não se dá nem mesmo na quantidade de baixas, pois as bestas-feras do arbítrio invariavelmente matam mais -- em nossos anos de chumbo elas abateram 379 cidadãos, muitos dos quais executados covardemente depois de presos).

Por último, o tal e-mail trazia também anexada a ficha policial fajuta de Dilma Rousseff que pipoca desde 2008 na web e foi desmascarada de vez quando a Folha de S. Paulo caiu na besteira de a publicar, tendo depois de admitir de público que não passava de uma falsificação grosseira.


segunda-feira, 24 de maio de 2010

PARA LER E REFLETIR

Declarações à imprensa do sociólogo Jessé Souza, coordenador do Centro de Pesquisa sobre Desigualdade Social da Universidade Federal de Juiz de Fora e autor do livro A Ralé Brasileira (UFMG, 2010):
"...a pobreza absoluta diminuiu. Mas (...) o Brasil é uma das sociedades complexas mais desiguais do planeta. Entre 30% e 40% de sua população tem inserção precária no mercado e na esfera pública.

"Somos uma sociedade altamente conservadora, que aceita conviver com parcela significativa da população vivendo como 'subgente'.

"Essa classe social, que chamamos provocativamente de ralé, é a mão de obra barata para as classes média e alta que podem - contando com o exército de empregadas, motoboys, porteiros, carregadores, babás e prostitutas- se dedicar às ocupações rentáveis e com alto retorno em prestígio.

"É isso que chamo de 'desigualdade abissal' como nosso problema central.

"O programa Bolsa Família tem extraordinário impacto social, econômico e político, com investimento público relativamente muito baixo.

"Por outro lado, (...) não tem condições, sozinho, de reverter o quadro de desigualdade e 'incluir' e 'redimir' a 'ralé'.

"Esse é um desafio de toda a sociedade, e não apenas do Estado. É claro que houve avanços nas duas últimas décadas, mas mudança social é muito mais do que condições econômicas favoráveis.

"A redução das classes sociais ao seu substrato econômico implica perceber apenas os aspectos materiais, como dinheiro, e 'esquecer' a transmissão de valores imateriais, como as formas de agir no mundo.

"Como regra, as virtudes são todas do 'espírito', como a inteligência. Os vícios são ligados ao 'corpo'. As classes superiores 'incorporam' as virtudes espirituais, e as inferiores, as virtudes ambíguas do corpo.

"As virtudes do espírito recebem bons salários, prestígio e reconhecimento social. As classes do 'corpo" tendem a ser animalizadas, podendo ser usadas e até mortas por policiais sem que ninguém se comova com isso.

"...a competição social não começa na escola.

"...crianças de classes diversas já chegam à escola como vencedoras ou perdedoras, o que teremos é uma escola que só vai oficializar o engodo do mérito caído do céu de uns e legitimar, com a autoridade do Estado e a anuência da sociedade, o estigma de outros."

SEM RETROCESSO, MAS SEM FANTASIA

"Vem, meu menino vadio
Vem, sem mentir pra você
Vem, mas vem sem fantasia
Que da noite pro dia
Você não vai crescer"
(Chico Buarque)
Previsivelmente, houve leitor deste blogue se manifestando contra meu posicionamento acerca da ex-companheira de VAR-Palmares e atual presidenciável no artigo Dilma aos investidores estrangeiros: nada muda na economia.
E, para um que escreve, há sempre vários outros que pensaram o mesmo e não se deram ao trabalho de escrever. Então, vale a pena deixar um pouco mais clara a questão.

A fala de Dilma aos investidores estrangeiros, ao garantir que, se eleita, nossa política econômica continuará seguindo os ditames do capitalismo globalizado, deve até ser elogiada pela sinceridade. Ao menos não nos tenta vender gato por lebre.

Mas, se o que Dilma promete, verdadeiramente, é manter a ortodoxia neoliberal que convém aos grandes empresários, aos banqueiros e ao agronegócio, por que devemos apoiá-la contra Serra? Qual a diferença entre ambos, em termos macroeconômicos? Nenhuma.

No primeiro turno, evidentemente, quem é contra a hegemonia capitalista poderá votar em algum candidato mais adequado ao seu perfil, como Plínio de Arruda Sampaio.

Aí, se o 2º turno for mesmo entre Dilma e Serra, só restará a um anticapitalista basear sua opção nos fatores secundários, já que o principal terá saído da pauta: nenhum deles se propõe a substituir o capitalismo por uma organização política, econômica e social fundada na igualdade, no primado do bem comum e na cooperação entre os homens. A desigualdade, a ganância e a competição continuarão intocadas.

Mesmo assim, entre o reformismo de Dilma e o chicote do Serra, a escolha será óbvia.

Para quem conhece as condições subumanas em que vegetam, mais do que vivem, tantos brasileiros, o Bolsa-Família e outros paliativos vão ser sempre melhores do que nada.

O que não podemos é acalentar ilusões de que por aí chegaremos a uma sociedade solidária e livre. Já se passou um século desde que Edouard Bernstein pregou a transição
automática do capitalismo para o socialismo, com a progressiva ampliação das conquistas sociais.

E o que vemos é exatamente o contrário, como Rosa Luxemburgo previu: a desigualdade, o desperdício e o parasitismo estão piores do que nunca.

Com a agravante de que a atuação predatória do capitalismo sobre o meio ambiente cada vez mais ameaça extinguir a espécie humana.

Então, há, sim, motivo para nos empenharmos em evitar a vitória de José Serra, o ex-presidente da UNE que ousou colocar a tropa de choque da PM no campus da USP. Quem foi capaz disso, é capaz de qualquer coisa.

Mas, sem fantasia. Eleita Dilma, teremos de arregaçar as mangas e travar nossa luta onde ela deve ser travada, no seio da sociedade, pois não serão os governos que nos vão conduzir à terra prometida.

Se apostarmos todas as nossas fichas neles, continuaremos sempre longe do "tempo em que o homem seja amigo do homem", sonhado por Brecht e pelos melhores seres humanos.


domingo, 23 de maio de 2010

O JORNALISMO QUE ESTÁ À DIREITA DO PODER

Reportagens e editoriais desastrosos motivaram
reações como esta, fazendo a circulação da Folha
cair 5% em 2009, para 295 mil exemplares/dia.


A Folha de S. Paulo trocou seis por meia-dúzia, como era esperado. Mudou o formato da embalagem, a cor do rótulo e o tamanho do conta-gotas. Mas, o produto continua o mesmo: ora placebo, ora veneno.

Cadê um novo Paulo Francis, um novo Osvaldo Peralva, um novo Samuel Wainer, um novo Lourenço Diaféria, um novo Plínio Marcos? Continuam faltando os talentos superiores, talvez porque polêmicos demais para o domesticado produto da indústria cultural que a Folha é hoje.

Houve um tempo em que não ficava muito longe do Pasquim. Hoje está bem próxima da Veja.

Por que não chamar de volta o Alberto Dines, ainda melhor comentarista de imprensa x política do que todos que a Folha tem?

E qual a grande matéria de jornalismo investigativo da edição inaugural da nova reforma do jornal? A mais do mesmo sobre o crack?

No fundo, a única mudança que devolveria à Folha o esplendor de meados da década de 1970 seria a colocação de outro nome na capa, sob o logo do jornal.

Diretor de redação é posição importante demais para ser assumida por um filhinho de patrão. Acontece o que aconteceu:
  • primeiramente ele foi diminuindo os espaços das estrelas jornalísticas que a Folha tinha e detonando o núcleo de repórteres especiais;
  • depois introduziu um ridículo Manual de Redação, para impor rígido controle jornalístico-ideológico à equipe;
  • e, finalmente, vergou o jornal tão à direita que, desequilibrado, desabou, perdendo a credibilidade que nunca tivera antes de Claudio Abramo e foi dilapidando mês a mês sob a batuta de Boris Casoy (reacionário até a medula, mas profissional) e dele, Otavinho (também reaça e nem sequer profissional).


Mais sobre a Folha de S. Paulo e a "ditabranda" está
nestes dois vídeos de uma recente reportagem de TV


sábado, 22 de maio de 2010

DILMA AOS INVESTIDORES ESTRANGEIROS: NADA MUDA NA ECONOMIA

"A pré-candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, disse a investidores estrangeiros, em Nova York, que um possível governo seu representará a continuidade das políticas econômicas implantadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

"Entre as principais questões estava a manutenção da autonomia do Banco Central, o que Dilma procurou dar garantias de que vai manter.
"'Minha afirmação a eles [investidores] é que o Brasil vai continuar crescendo com inclusão social, mobilidade social ascendente e, ao mesmo tempo, manterá a estabilidade econômica perseguindo o controle da inflação', disse ela.

"(...) 'Você tem lá [no Brasil] dois candidatos muito fortes concorrendo à Presidência, porque José Serra também é muito experiente', completou [William Rhodes, conselheiro sênior do Citigroup].

"Tom Glocer, principal executivo da Thomson Reuters, disse que, 'do ponto de vista internacional, a maior parte dos seguidores do assunto acha que as políticas vão continuar sob qualquer um dos candidatos'".
Trocando em miúdos, seja com Dilma, seja com Serra, a política econômica que atende aos interesses do capitalismo globalizado será mantida, para tranquilidade dos investidores estrangeiros, dos banqueiros e do grande empresariado em geral.

Então, para quem é contrário à ortodoxia neoliberal na economia, só restará votar em algum dos candidatos da esquerda coerente, portanto minoritária e sem chances reais de vitória, no 1º turno.

E ficar com Dilma no 2º turno, apenas e tão somente por ser bem menos ruim do que Serra quanto às políticas sociais e de direitos humanos.

Mas, se for, como eu, alguém formado na escola marxista, o fará com aquele gosto amargo na boca: afinal, nossos velhos profetas sempre sustentaram que os governos se diferenciam mesmo é por suas políticas econômicas.

Melancolicamente, constatamos que nem Dilma, nem Marina e muito menos Serra se dispõem a confrontar o capitalismo putrefato, que hoje nada mais tem a oferecer à humanidade do que a competição insana e a exclusão, o desperdício e a destruição, as recessões inúteis e o aquecimento global.

E que, ainda desta vez, teremos de abrir mão do bem maior, oPTando pelo mal menor.


Recado musical para os companheiros que "caíram na real" e não
tentam mais sacudir o mundo:
basta ser sincero e desejar profundo!

BAÚ DO CELSÃO: REYNALDO LUNGARETTI (1919-2003)

Meu pai era Reynaldo. Quando brigava com ele, minha mãe fazia blague com seu nome: "rei, nada!".

Eu tinha alguma admiração por ele, bastante amor e uma pena imensa.

Sua vida foi praticamente destruída aos 11 anos de idade; passou as sete décadas seguintes lamentando o paraíso perdido, sem nunca ser verdadeiramente feliz.
Foi assim: meu avô Baptista, mestre de fiação e tecelagem que veio tentar a sorte no Brasil, trabalhou primeiramente em São Paulo, onde constituiu família. Depois, contrataram-no para comandar uma fábrica no Rio de Janeiro.

Foi o momento mágico da vida do Reynaldo. Gostava imensamente de Baptista, homem forte, altaneiro, mas carinhoso com os filhos, como costumavam ser os italianos. Numa foto amarelada, única que sobrou, ele aparece imponente, com a indumentária que usava em caçadas.

Além disto, havia todas aquelas brincadeiras da molecada de outrora e, principalmente, o campo de futebol ao lado de sua casa. Reynaldo chegava da escola, atirava seu material por cima do muro e caía na
pelada. Levava a vida que todo garoto gostaria de ter.

Mas, em 1930, um operário demitido por Baptista o tocaiou na feira de sábado, baleando-o pelas costas.

Minha avó teve de voltar para São Paulo, onde havia parentes para ajudá-la. Um deles conseguiu colocar meu pai como empregado no Cotonifício Crespi, fraudando sua idade para burlar a fiscalização.

Conheci essa indústria gigantesca, que ocupava um quarteirão inteiro, enorme, na Mooca. À saída, a multidão era tamanha que lembrava a de um estádio de futebol. A área de trabalho mal iluminada, com muita poeira de algodão flutuando. Local deprimente, sufocante.

O menino que vivia feliz e despreocupado, jogando bola dia e noite, herdou, de um momento para outro, responsabilidades de homem da casa. Era este o dever de um primogênito, disse-lhe minha avó, ao enterrá-lo numa fábrica medonha.

Adulto, Reynaldo recitava com tristeza a poesia de Casimiro de Abreu: "Ah, que saudades que tenho/ da aurora da minha vida,/ da minha infância querida/ que os anos não trazem mais..."

Teve lá seus prazeres e distrações, dançava bem, foi razoável jogador de sinuca, ia no futebol, paquerava na rua da Mooca (o chamado
footing, turminhas de homens e turminhas de mulheres passeando pela calçada, até que os mais ousados engatassem um papo, um flerte).

Mas, a síndrome de
arrimo da família o tornou cauteloso demais para ter êxito na carreira. Não trocava o certo pelo incerto, então continuou no Crespi até que fechasse, em 1964.

Depois, como móveis e utensílios da velha fábrica, permaneceu lá, a serviço de quem arrematou parte da massa falida para montar uma indústria menor. E de quem adquiriu o negócio do anterior.

Enquanto o negócio ainda ia bem, o Crespi submetia os empregados a um revezamento bizarro: numa semana seu turno era das 5h às 13h, na outra das 13h às 21h.

Quando tive de trabalhar alguns meses numa rádio, preparando o noticiário matutino, aquilatei melhor o sacrifício do meu pai, de marchar para o emprego, bêbado de sono, na escuridão da madrugada; afora a dificuldade para o corpo aceitar dormir ora de uma esticada só, ora em dois períodos.

Três patrões, mas sempre o mesmo endereço, durante 46 anos. Eu, que trabalhei nuns vinte lugares diferentes, não consigo nem imaginar o que seja repetir o mesmo trajeto e labutar num ambiente sombrio por mais da metade da vida.

Houve um tempo em que moramos longe do Crespi e ele ia trabalhar de bicicleta. Às vezes era perseguido por cachorros. Às vezes chovia.

Eu era criança e escutava seus relatos com curiosidade, mas não me ocorria lamentar sua sorte, nem se sentiria bem fazendo isso. Agora fico me perguntando se ele esperava de mim elogio ou compaixão. Nunca saberei.

Casou mal, com uma mulher que queria mais do que ele poderia oferecer. Sempre comparado desfavoravelmente ao pai dela, meu avô Arthur Vannucci, que ergueu uma fabriqueta de móveis graças ao seu indiscutível talento, mas também à sorte: clientes que admiravam-lhe o trabalho cotizaram-se para fornecer o capital inicial de seu próprio negócio.

Reynaldo trabalhava seis dias por semana e ainda fazia bicos para um parente, recolhendo apostas de corridas de cavalo aos sábados e domingos. Estoicamente, e arriscando-se até a ter problemas com a polícia, embora fosse uma contravenção menor. Ainda assim, era amiúde taxado de "acomodado".

Lá pelos 35 anos, desistiu dos velhos amigos e passou a se dividir apenas entre a casa e o trabalho.

Já não tinha esperança de alçar voos maiores. Percebia que o ramo têxtil nunca mais recuperaria o antigo esplendor. Pouco valeriam os cursos que concluíra brihantemente, para passar de operário a contra-mestre (depois mestre), face à decadência da atividade.

Ele, que via os apostadores de fim-de-semana como "otários", também fez as apostas erradas na corrida da vida.

Gostaria que eu, o filho único, chegasse aonde ele não pôde: engenheiro. Mas, a vida me conduziu noutra direção. E, já com 50 anos e a resignação habitual, enfrentava a Dutra com seu fusquinha para me visitar, preso, na PE da Vila Militar, voltando no mesmo dia.

Hoje se completam sete anos de sua morte. Os parentes me dizem que estou cada vez mais parecido com ele, exceto por ter conservado os cabelos que Reynaldo perdeu precocemente, devido à poeira das tecelagens.

O seu enterro foi a única ocasião em toda a vida em que eu deveria dizer algo, mas as palavras não me vieram. Percebia que nada que eu pudesse dizer lhe faria justiça.

Era um bom homem, que não concretizou seu potencial nem obteve o pouco com que sonhava. Merecia do destino muito mais do que recebeu.

Pensando nele, redobro meus esforços para que a vida não seja mais essa competição inútil e insana, em que quase todos perdem e só uns poucos se realizam verdadeiramente.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

VIDA ARTIFICIAL OU MORTE ARTIFICIAL?

Tão genial como cientista quanto
trapalhão na política, Einstein
foi o pai da bomba atômica.


Dos grandes jornais brasileiros, só dois manchetearam a nova façanha científica: Folha de S.Paulo ("Ciência cria primeira célula sintética") e O Globo ("Criada vida artificial").

Provocadora como sempre, a
Folha fez constar em sua capa uma afirmação para melindrar os leitores mais devotos:
"Os estudos, feitos por 15 anos, provam que a vida não precisa de força especial para existir".
O próprio líder da equipe de pesquisadores, Craig Venter, insinuou ter desalojado Deus:
"Essa é a primeira criatura do planeta, uma espécie que pode se replicar, cujo pai é um computador".
Talvez a melhor explicação do que realmente houve seja a do jornalista Marcelo Leite, da Folha:
"Embora Craig Venter tenha anunciado a primeira 'célula sintética', na realidade seu grupo não criou um organismo a partir do zero. Ele provou que é capaz de recriar e fazer funcionar um organismo ultrassimples apagando seu software biológico e enxertando outro muito parecido".
O certo é que o tal organismo ultrassimples, engendrado pela combinação do que já existia com o toque do dedo do homem (no teclado do computador), passa a replicar-se por si próprio.

É como um robô que conseguíssemos programar para multiplicar-se em outros robôs idênticos, indefinidamente.

E, claro, doravante o processo será estendido a organismos cada vez menos simples.

Venter imagina que já em 2011 tenhamos vacinas de gripe feitas de células sintéticas.

Prevê-se também a criação, entre outras aplicações, de bactérias programadas para resolver problemas ambientais e energéticos; p. ex., que produzam combustíveis ou que sequestrem gás carbônico do ar.

Mas, os cientistas costumam ser tão brilhantes em suas especialidades quanto ingênuos em relação a todo o resto. Einstein que o diga: convenceu Roosevelt a iniciar o projeto atômico, pensando que serviria apenas para conter Hitler.

Basta lermos o noticiário com atenção para cair a ficha. Abriram-se as mais vastas e inquietantes perspectivas para o desenvolvimento de armas biológicas, que tendem agora a tornar-se ainda mais devastadoras do que as nucleares.

De imediato, preocupa a possibilidade de que alguma dessas criações experimentais, inacabadas, escape do laboratório e passe a atuar livremente, quando então se conheceriam os efeitos nocivos não previstos.

Como até os trash movies podem antecipar a vida, seria algo próximo daquela aranha turbinada para crescer que foge do laboratório no filme Tarântula (1955, dirigido por Jack Arnold) e vai atingindo proporções descomunais -- com a diferença de que gigantesca seria a profusão de aranhas microscópicas em contínua replicação. Algo muito mais letal do que uma única criatura monstruosa.

A ficção foi atualizada pelo novelista Stephen King em A Dança da Morte (1978), sobre uma arma biológica que sai do controle e extermina quase toda a humanidade.

Falta, talvez, um livro e/ou filme sobre uma arma biológica que seja utilizada premeditadamente contra determinada população e acabe atingindo universo bem mais amplo.

Foi a hipótese fantasiosa que andou circulando sobre a aids: a de que teria sido criação de algum Dr. Silvana imperialista, para exterminar africanos.

De qualquer forma, temos mais é de pôr as barbas de molho: a energia nuclear também foi anunciada como solução energética, mas veio primeiro a utilização bélica e ela virou, isto sim, um enorme problema.

Tanto que a espécie humana esteve a um passo da extinção em 1962, quando da crise dos mísseis cubanos.


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