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sexta-feira, 3 de abril de 2015

É PELOS IMPRESCINDÍVEIS QUE NOS CABE CHORAR!!!

Devemos sempre lamentar a morte prematura de uma pessoa de bem, e Thomaz Rodrigues Alckmin não constitui exceção.

Mas, as homenagens póstumas sinceras, no seu caso, são apenas as de parentes, amigos e colegas.

Não as de políticos! Estes têm a ver apenas com o pai enlutado, não com o piloto de 31 anos a quem sequer conheciam.

Fazer tal figuração é a postura normal dos políticos farisaicos desta sociedade canalha.

Já políticos de esquerda deveriam abster-se dos convencionalismos hipócritas.

Fico pasmo ao ver, reverenciando o Thomaz, esquerdistas que se mantiveram distantes das exéquias de um imprescindível como o Plínio de Arruda Sampaio.

Como se pode ser, ou ter sido, revolucionário(a) sem conservar o mais remoto resquício dos sentimentos e ideais que nos movem, inclusive o de tentarmos ser o embrião do homem novo?!

Eu tinha está mágoa guardada há meses. Hoje não aguentei e a deixei aflorar.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

RUMO À VITÓRIA, DILMA DESCARTA POSTURAS DA ESQUERDA

O debate da Globo começou como a quintessência do tédio: o primeiro bloco (e o terceiro também), por causa dos temas obrigatórios sorteados, só serviu para sabermos quem consegue levar a cola dos marqueteiros na cabeça e quem precisa do papel.

Plínio de Arruda Sampaio consultou abertamente os apontamentos e até embananou-se com eles. Marina Silva olhava-os de soslaio.

Dilma Rousseff e José Serra não passaram recibo, mas o que falavam era tão  pacote pronto  que dava no mesmo.

As lastimáveis regrinhas engessadoras mataram os três primeiros blocos. Só no quarto é que vimos algo remotamente assemelhado a um verdadeiro debate político.

Dos candidatos do sistema, Marina foi a mais vibrante e carismática. Deve ter conquistado votos, por entoar ladainha não muito diferente da dos outros dois, mas fazê-lo com  muito mais paixão. O messianismo é próprio dos religiosos.

Serra, com seu insuportável estilo de mestre-escola, foi até o fim errando: quer projetar a imagem de bom administrador, mas o povo está satisfeito com a administração lulista e não vê motivos para mudar.

Também até o fim foi Dilma a reboque das realizações do Governo Lula -- o que, no caso dela, é, pelo menos, estratégia vencedora.

Nem de longe convence o eleitorado de que possa vir a ser formuladora de políticas. Projeta-se como mera continuadora de políticas bem avaliadas.

Só um fato novo e de enorme impacto poderia lhe roubar a Presidência.

Que virá no 1º ou no 2º turno, mas virá: nada indica que vá surgir algum cataclisma ou que o PIG consiga produzir um. Ela pode ir encomendando a faixa presidencial.

No entanto, o Plínio -- que cresceu muito ao longo do debate -- conseguiu marcar bem a distância entre Dilma e as posturas da esquerda.

Temendo fornecer munição às campanhas alarmistas/difamatórias da direita, ela deu resposta tecnocrática a uma pergunta política: negou-se a endossar propostas práticas que equivaliam a uma reafirmação dos valores com que iniciou sua jornada.

A Dilma de 2010, decididamente, não é a de 1968 -- para o melhor (em termos de política oficial) e para o pior (em termos de política revolucionária).

Passará o mandato inteiro contemplando os interesses dos banqueiros e dos grandes capitalistas, para que não conspirem contra ela? Adotando políticas cautelosas, para que os inimigos não tenham o que lhe recriminar? Recuando diante das pressões conservadoras e/ou reacionárias, como fez Lula no caso da punição dos torturadores, do aborto, da taxação das grandes fortunas e do controle social da mídia?

Correndo sozinho na faixa anticapitalista, já que a Globo achou pretexto para deixar fora Ivan Pinheiro, Rui Pimenta e Zé Maria, o  velho guerreiro  Plínio conseguiu ser emocionante em vários momentos, defendendo prioridades diferentes para a sociedade e não mudanças cosméticas na sociedade injusta, desumana e autodestrutiva que o capitalismo nos impõe.

Fiel aos ideais de uma vida inteira, esperançoso no futuro embora octogenário, falando aos jovens porque são eles que podem mudar o mundo, Plínio conferiu dignidade a uma campanha que se prenunciava tão árida e desalentadora como uma terra arrasada. 

Sai como grande -- quiçá único -- vitorioso, pouco importando se terá 2% ou 1% dos votos.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

ELE DESATINOU

Enquanto tanto companheiro se comporta na eleição como claque deste ou daquele candidato/partido, relevando todos os defeitos de seus favoritos e satanizando os adversários (mesmo os da esquerda), eu tento manter o chamado  distanciamento crítico: considero meus antípodas os representantes da direita, dos quais um fosso intransponível me separa; mas trato com respeito todo os expoentes do campo progressista, o que não me impede de criticá-los de forma construtiva quando se mostram incoerentes com os ideais que deveriam professar.

Até agora, vinha saudando as performances do  bravo guerreiro  Plínio de Arruda Sampaio como a única merecedora do nosso aplauso nos debates televisivos, por um motivo simples e óbvio: dos quatro, só ele marcava posição  contra o capitalismo.

Os outros três nada mais faziam/fazem do que propor diferentes formas de convivência com a exploração do homem pelo homem, quanto muito atenuando suas injustiças mais gritantes.

Agora, por questão de coerência, registro que Plínio, em péssima hora, exumou no debate da Record uma bandeira que o PSOL jamais deveria ter assumido: a do rançoso moralismo pequeno-burguês, udenista, que separa o  efeito (corrupção política) de sua  causa (o sistema fundado na prioridade absoluta da ganância e da busca do privilégio sobre a cooperação solidária entre os homens e a promoção do bem comum).

Então, vale relembrar aqui o que eu escrevi (Combate à corrupção é bandeira da direita) da última vez em que o PSOL andou atacado da mesma doença. Tudo continua não só atual como, sem falsa modéstia, irrefutável:
"...a desproporção entre o dano causado ao cidadão comum pelos ladrões de galinha da política e as atividades corriqueiras dos capitalistas é incomensurável.
"O capitalismo nos acarreta:
  • emergências ecológicas como as alterações climáticas que ameaçam a própria sobrevivência da nossa espécie;
  • recessões desnecessárias (...);
  • a condenação de parcela considerável da humanidade a vegetar em condições subumanas;
  • o desperdício criminoso do potencial ora existente para assegurar-se a cada habitante deste sofrido planeta o mínimo condizente com uma sobrevivência digna; 
  • a mobilização permanente dos homens para atividades improdutivas e desnecessárias ao invés da redução da jornada de trabalho para que todos possam desenvolver-se plenamente como seres humanos; 
  • etc. (muitos, muitos etcetera!).
"E, se quisermos ficar no confronto simplista de números, ainda assim o peso da corrupção política no orçamento de cada família continuará sendo uma fração ínfima do custo do capitalismo.

"Eis um exemplo bem didático: levantamento da Associação Nacional dos Executivos de finanças, Administração e Contabilidade, numa pesquisa de junho a agosto 2002, constatou que os gastos mensais com despesas financeiras atingiam 35,43% da renda familiar para as situadas entre 1 e 5 salários mínimos, que compram mais a prazo do que os ricos; 33,62% para famílias entre 5 e 10 salários mínimos; e 32,95% para famílias com renda familiar entre 10 e 20 salários mínimos. A média geral para todas as faixas de renda é 29,83%.

"Ou seja, apenas o ágio que nos é extorquido pelos agiotas do sistema financeiro já consome ao redor de um terço da nossa renda familiar.

"E a estratosférica desproporção entre o custo de fabricação de cada produto e seu preço final? Vejam uma interessante avaliação do economista Ladislau Dowbor sobre o preço de produtos como os Redoxons e Cebions:

"'Por caixa, em média, esses produtos têm R$ 0,03 de ácido ascórbico. Você paga R$ 7,00 a caixa, ou seja, o custo do produto é multiplicado por cerca de 200 (multiplicado, não estou falando em 200%). E, com isso, você está tirando do mercado a vitamina C, um produto sumamente importante para a saúde de dois terços da população brasileira. No entanto, o consumidor está financiando o papelzinho dourado, a embalagem, a propaganda. (ensaio Economia da Comunicação, 2002)'
"Então, interessa aos defensores do capitalismo fazer a patuléia acreditar que a razão maior de seus apuros econômicos são os impostos, que estes acabam sendo em grande parte desviados pelos políticos e que isto, só isto, impediria nosso país de deslanchar.

"Ademais, as intermináveis denúncias de corrupção acabam minando as esperanças do cidadão comum na transformação da realidade por meio da ação política. Se tudo não passa de um lodaçal, as pessoas de bem devem mesmo é cuidar de sua vida...

"De quebra, fornecem pretextos para quarteladas, sempre que os meios de  controle democráticos das massas  não estão funcionando a contento.

"Então, Paulo Francis dizia e eu assino embaixo: denúncias de corrupção política são bandeira da direita, que acaba sendo sempre sua beneficiária final, a despeito dos ganhos momentâneos que proporcionem à esquerda.

"Esta deveria, isto sim, demonstrar que o capitalismo em si causa prejuízos imensamente maiores para o cidadão comum do que os desvios de recursos dos cofres públicos; e que a moralização da política não se dará com medidas policiais, mas sim com uma transformação maior da sociedade.

"Não o faz. Desatinadamente, algumas de suas tendências reforçaram as denúncias que culminaram no suicídio de Getúlio Vargas em 1954 e as que deram pretexto à dita  redentora  de 1964 (que, claro, nada mudou exceto a relação dos beneficiários do butim).

"...Então, digo e repito: em vez de pegar carona nos temas que a imprensa burguesa prefere magnificar, cabe à esquerda definir sua própria pauta e explicá-la aos cidadãos.
"A corrupção política não é nossa prioridade, mas sim o combate ao capitalismo, verdadeira raiz dos principais males que infelicitam os brasileiros.

"Precisamos ter a coragem de assumir a posição correta diante do povo, ao invés de tentar combater o inimigo num jogo de cartas marcadas, travado no terreno que só a ele convém".

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

ALEXANDRE DUMAS EXPLICA

O debate entre presidenciáveis promovido neste domingo pela Rede TV (ninguém te vê) e Folha de S. Paulo (só reaça te lê) foi bem definido por alguém como um festival de banalidades e pegadinhas, que pouco serviu para esclarecer seja lá o que for.

Os que disputam a eleição pra valer parecem os Três Mosqueteiros: não preenchem o espaço de protagonistas, por absoluta falta de carisma. Nasceram para coadjuvantes.

O único que tem luz própria, não dependendo da decoreba dos marqueteiros, é o que está lá só para marcar posição, sem chance nenhuma de vitória.

Assim como D'Artagnan nem mosqueteiro era, quando fazia proezas bem maiores que as de Athos, Porthos e Aramis.

Aliás, foi por Plínio de Arruda Sampaio ter conseguido ser muito mais interessante no twitter que Dilma, Serra e Marina no UOL que a Folha se rendeu à evidência dos fatos: é melhor tê-lo dentro, participando, do que fora, avacalhando.

E, se queres um monumento ao Brasil que a ditadura militar pariu, é só reparar que o único dos candidatos com estatura presidencial é um octogenário.

Duas décadas de devastação político-intelectual e extermínio dos opositores deram nisto: o cenário continua dominado pelos que se salvaram do incêndio, pois os formados depois são do tipo Fernando Collor e Índio da Costa.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

RECADO AOS PANFLETÁRIOS AFOBADINHOS

Até a semana passada, a grande imprensa fazia suas vítimas... digo, seu público acreditar que a eleição presidencial estava sendo disputada apenas por Dilma Rousseff, José Serra e Marina Silva.

Veio o debate da Band e se constatou que um único candidato expressava em alto e bom som o que realmente sentia... e era logo o estranho no ninho, Plínio de Arruda Sampaio!

Os três favoritos repetiam, como papagaios, o que marqueteiros tinham martelado em suas cabeças.

O sisudo Serra esforçava-se por sorrir, como lhe recomendaram. Ficou parecendo um bobo alegre... hipocondríaco.

A enérgica Dilma quis projetar a imagem de uma gerente confiável... e foi só o que conseguiu. De presidente, o que vai muito além das miudezas administrativas, nem a pau, Juvenal...

Marina foi o samba de uma nota só (ecológica) de sempre.

Plínio, que é, disparado, o melhor dos três em termos intelectuais, deitou e rolou.

Detonou-os com suas ironias ferinas, além de mostrar o que um candidato de esquerda tem a obrigação de ser: coerente com seus ideais de uma vida inteira.

Face à insofismável vitória do Plínio no debate, a mídia acordou para a realidade de que ele estava sendo extremamente injustiçado na cobertura eleitoral.

E começou, timidamente, a oferecer-lhe algum espaço.

Foi o bastante para alguns propagandistas de Dilma se apavorarem, atribuindo ao PIG a maquiavélica intenção de inflar nanicos para evitar uma decisão no 1º turno.

Em suma, querem forçar o voto útil já em outubro.

Em troca, o que nos dá Dilma?

Ela acaba de negar Marx três vezes, ao retirar do seu programa as propostas de controle social da mídia, de taxação das grandes fortunas e de redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais.

O que sobrou não passa de placebo, a que nenhum verdadeiro homem de esquerda pode aderir enquanto houver alternativa melhor.

Somos revolucionários: face a um leque de opções, escolhemos a que realmente nos expressa, priorizando o ideário positivo ao invés de apenas rejeitarmos o negativo.

Só quando essas opções se reduzem a duas, faz sentido optarmos pelo mal menor.

Então, estaremos traindo a nós mesmos se, no 1º turno, não votarmos em Plínio, ou Ivan Pinheiro (PCB), ou Rui Pimenta (PCO), ou Zé Maria (PSTU).

Assim como estaremos traindo a nós mesmos se, ocorrendo 2º turno e o candidato demo-tucano dele participando, não votarmos contra ele.

As sucessivas identificações de Serra com as teses das viúvas da ditadura fazem dele o presidenciável mais inaceitável para os eleitores progressistas, dentre os que têm chance de êxito.

Se, como tudo indica, ele disputar o 2º turno com a Dilma, teremos de apoiá-la, apesar das decepções que seus recuos nos têm causado e de outras que ainda estejam por vir.

Mas, aos panfletários afobadinhos, devo lembrar: devagar com o andor, pois o Plínio, o Ivan, o Rui e o Zé Maria merecem respeito.

sábado, 7 de agosto de 2010

LOUVANDO QUEM BEM MERECE: PLÍNIO

"Meu povo, preste atenção
Repare se estou errado
Louvando o que bem merece
Deixo o que é ruim de lado"
(Gilberto Gil)

Juro que eu não pretendia dedicar mais do que um post ao debate eleitoral da Band, pelos motivos expostos no texto anterior.

Mas, tão entusiasmado fiquei com esta notícia do UOL -- Estrela de debate, socialista Plínio é faz-tudo na própria campanha -- que não resisti a reproduzir seus principais trechos, como homenagem ao magnífico desempenho desse companheiro de ideais exemplar que é Plínio de Arruda Sampaio.

Eu sei, vocês sabem, todos sabemos que só serão elogios que Plínio vai colher nesta campanha. A vitória é impossível, assim como o era para Lula até ele acertar os ponteiros com aqueles que fazem e desfazem presidentes.

Mas, para os íntegros, é preferível ser vitorioso na derrota do que vencer descaracterizando a si próprio.

Vai daí que o gentil gigante Plínio é, desde já, o grande vencedor da eleição presidencial 2010.

Leiam e admirem:

"No dia seguinte ao debate na TV Bandeirantes, durante o qual ofuscou Dilma Rousseff (PT), José Serra (PSDB) e Marina Silva (PV), Plínio seguiu nesta sexta-feira (6) para o centro de São Paulo. O candidato octogenário passou cerca de uma hora distribuindo panfletos e conversando com potenciais eleitores. Em seguida, isolou-se para gravar programas de rádio e televisão.

"Um dos coordenadores da campanha de Plínio, o deputado Ivan Valente (PSOL-SP), disse ao UOL Eleições que o partido socialista depende quase exclusivamente da militância para fazer a campanha à Presidência. A legenda, que surgiu de um racha com o PT, abriu mão de financiamento privado para seus candidatos. Ele ocupou a mesma posição em 2006, quando Heloísa Helena concorreu ao Palácio do Planalto.

"'O candidato muitas vezes é obrigado a tratar da própria agenda, discutir os materiais, dirigir o carro até as assembléias, aos movimentos sociais e às agendas', disse Valente sobre Plínio. 'Desde motorista até formulador de programa, desde panfletador até verificador de agenda, o candidato socialista do PSOL tem de fazer tudo se quiser chegar lá'. Por conta disso, a campanha tem se concentrado em São Paulo, cidade onde o candidato vive.

"Para o debate de quinta-feira, Plínio foi o único dos concorrentes que precisou de carona do helicóptero da TV Bandeirantes para chegar aos estúdios da emissora. Marina Silva usou o de seu candidato a vice, o executivo Guilherme Leal, bilionário fundador da Natura. Dilma e Serra se beneficiaram de estruturas já prontas para esse tipo de deslocamento.

"Membros da campanha do PSOL dizem que a arrecadação do partido está na faixa de R$ 100 mil. De acordo com o jornal Folha de S. Paulo, Dilma informou ao TSE que já conseguiu R$ 11,6 milhões até o início de agosto. Marina, com a ajuda do vice, amealhou R$ 4,6 milhões, enquanto Serra ficou com R$ 3,7 milhões, sempre segundo o diário.

“'Nós somos o PT da origem, do movimento popular, da espontaneidade, dessa relação direta com o povo', disse o coordenador de campanha".

Em suma, o PT ao qual me filiei antes mesmo da obtenção do registro no TSE e que deixei tão logo perdeu essas características.

Daí ter-me sentido de alma lavada ao ler esta notícia. Um sentimento de que nem tudo está perdido...

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DO DEBATE

Coerente com minha convicção de que presidente da República, no capitalismo globalizado, só decide o acessório e não tem poder para mudar o fundamental -- a política econômica que sustenta e reproduz o capitalismo --, não perderei tempo esmiuçando o debate eleitoral da Band.

Basta dizer que os atores principais só nos deram mais da mesma poeira colorida dos marqueteiros e o único destaque foi o coadjuvante que defende ideais e é fiel a seus princípios em quaisquer circunstâncias, portanto jamais será eleito para o papel de gerente dos interesses dominantes no Brasil.

Mas, para quem tem ainda alguma ilusão sobre a importância de eleições depois que a perpetuação do capitalismo putrefato virou uma espécie de cláusula pétrea para os governos (e, portanto, a libertação dos homens passou a depender de suas iniciativas fora do sistema e contra o sistema), nada melhor do que o extraordinário artigo Presente fictício, futuro estático, de Claudio Weber Abramo, cada vez mais parecido com o pai.

Para os que sabem quem foi Claudio Abramo, este é o mais rasgado elogio que eu lhe poderia fazer.
Eis os principais trechos:

"Qual é o presente que os candidatos 'mainstream' à Presidência da República e aos governos estaduais têm em mente?

"Seja porque acreditem, seja porque tenham receio de exprimir claramente o que pensam, para esses candidatos o Brasil seria mesmo aquele país pujante e cheio de gente otimista dos reclames publicitários oficiais e das grandes empresas. (...) O que espanta é a inexistência de vozes discordantes.

"Enquanto os candidatos jogam o jogo do contente, o país real convive com um poder Legislativo irrelevante, com partidos com escassa ou nenhuma representatividade política, com um poder Judiciário incapaz de proporcionar justiça, com agências reguladoras capturadas pelos interesses que deveriam vigiar, com um funcionalismo público que, com raras e notáveis exceções, varia de incompetente a aproveitador, com um setor privado avesso ao risco e à inventividade, com uma academia improdutiva... a lista das disfuncionalidades brasileiras é inesgotável.

"No entanto, nenhuma dessas e outras ineficiências, incompetências e picaretagens aparece nas plataformas dos candidatos com alguma chance de sucesso eleitoral. Para eles, o presente está ótimo e nada há a mudar em relação ao futuro.

"Na prática, portanto, e independentemente das siglas partidárias sob as quais se apresentam ou de seus eventuais apoiadores, os candidatos são todos reacionariamente situacionistas.

"O que, ao fim e ao cabo, é natural e esperado. Num país que vive de ilusões, eleições representam apenas mais uma vertente ficcional. De modo que tanto faz quem venha a ser eleito. Mudarão apenas os personagens, os grupos beneficiados por privilégios e os aventureiros entre os quais o Estado será repartido".

Enquanto Plínio de Arruda Sampaio esgrimia seu luminoso punhal de
coerência ímpar e finas ironias, as pessoas da sala de jantar
se ocupavam em repetir blablablá de marqueteiros...

segunda-feira, 24 de maio de 2010

SEM RETROCESSO, MAS SEM FANTASIA

"Vem, meu menino vadio
Vem, sem mentir pra você
Vem, mas vem sem fantasia
Que da noite pro dia
Você não vai crescer"
(Chico Buarque)
Previsivelmente, houve leitor deste blogue se manifestando contra meu posicionamento acerca da ex-companheira de VAR-Palmares e atual presidenciável no artigo Dilma aos investidores estrangeiros: nada muda na economia.
E, para um que escreve, há sempre vários outros que pensaram o mesmo e não se deram ao trabalho de escrever. Então, vale a pena deixar um pouco mais clara a questão.

A fala de Dilma aos investidores estrangeiros, ao garantir que, se eleita, nossa política econômica continuará seguindo os ditames do capitalismo globalizado, deve até ser elogiada pela sinceridade. Ao menos não nos tenta vender gato por lebre.

Mas, se o que Dilma promete, verdadeiramente, é manter a ortodoxia neoliberal que convém aos grandes empresários, aos banqueiros e ao agronegócio, por que devemos apoiá-la contra Serra? Qual a diferença entre ambos, em termos macroeconômicos? Nenhuma.

No primeiro turno, evidentemente, quem é contra a hegemonia capitalista poderá votar em algum candidato mais adequado ao seu perfil, como Plínio de Arruda Sampaio.

Aí, se o 2º turno for mesmo entre Dilma e Serra, só restará a um anticapitalista basear sua opção nos fatores secundários, já que o principal terá saído da pauta: nenhum deles se propõe a substituir o capitalismo por uma organização política, econômica e social fundada na igualdade, no primado do bem comum e na cooperação entre os homens. A desigualdade, a ganância e a competição continuarão intocadas.

Mesmo assim, entre o reformismo de Dilma e o chicote do Serra, a escolha será óbvia.

Para quem conhece as condições subumanas em que vegetam, mais do que vivem, tantos brasileiros, o Bolsa-Família e outros paliativos vão ser sempre melhores do que nada.

O que não podemos é acalentar ilusões de que por aí chegaremos a uma sociedade solidária e livre. Já se passou um século desde que Edouard Bernstein pregou a transição
automática do capitalismo para o socialismo, com a progressiva ampliação das conquistas sociais.

E o que vemos é exatamente o contrário, como Rosa Luxemburgo previu: a desigualdade, o desperdício e o parasitismo estão piores do que nunca.

Com a agravante de que a atuação predatória do capitalismo sobre o meio ambiente cada vez mais ameaça extinguir a espécie humana.

Então, há, sim, motivo para nos empenharmos em evitar a vitória de José Serra, o ex-presidente da UNE que ousou colocar a tropa de choque da PM no campus da USP. Quem foi capaz disso, é capaz de qualquer coisa.

Mas, sem fantasia. Eleita Dilma, teremos de arregaçar as mangas e travar nossa luta onde ela deve ser travada, no seio da sociedade, pois não serão os governos que nos vão conduzir à terra prometida.

Se apostarmos todas as nossas fichas neles, continuaremos sempre longe do "tempo em que o homem seja amigo do homem", sonhado por Brecht e pelos melhores seres humanos.


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