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terça-feira, 22 de julho de 2025

HÁ 20 ANOS TRAVEI A BATALHA DECISIVA CONTRA A ARMADILHA DA HISTÓRIA QUE QUASE ME DESTRUIU

"O ministro de estado da Justiça, no uso de suas atribuições legais (...) e considerando o resultado do julgamento proferido pelo plenário da Comissão de Anistia na sessão realizada no dia 27 de julho de 2005, (...) resolve declarar Celso Lungaretti anistiado político (...), concedendo-lhe reparação econômica de caráter indenizatório, em prestação mensal, permanente e continuada, referente ao cargo de editor..."

No próximo domingo, portanto, se completarão 20 anos desde a sessão da Comissão de Anistia que foi o ponto de partida da maior volta por cima que dei na vida.

Em 1970 eu caíra numa armadilha de História e acabei sendo injustamente acusado de delatar a área principal de treinamento guerrilheiro da Vanguarda Popular Revolucionária, cuja localização eu nem sequer conhecia.

Por já estar preso no DOI-Codi/RJ, facilmente deduzi quem apontara aos militares onde ela ficava, mas não tinha provas e, ao perceber que estavam me fazendo de bode expiatório nessa questão, avaliei que seria ruim demais para a Organização e para todos os companheiros se eu tornasse pública minha conclusão. 
Dois militantes da VPR acusando um ao outro seria mais um forte abalo na nossa imagem. Preferi negar sempre a autoria, mas silenciar sobre a quem caberia verdadeiramente a responsabilidade. 

Tinha esperança de que ainda conseguiria lançar luzes sobre aquele episódio e, malgrado muitos companheiros não me concederem o benefício da dúvida, ainda tive oportunidade de prestar solidariedade revolucionária a outros injustiçados, nos casos dos quatro de Salvador e da expulsão de Paulo de Tarso Venceslau do PT

A virada do milênio, no entanto, teve um efeito surpreendente sobre mim: de um dia para outro senti que me privara de algo muito precioso ao não ser, até então, pai biológico. Criara uma filha adotiva até os 14 anos e fora uma má experiência, mas o meu melhor amigo me garantia que com uma criança do meu sangue o desfecho seria diferente.

Acreditei e finalmente resolvi colocar em risco a situação estabilizada que já conquistara aos 50 anos pelo sonho de ser responsável por outra vida. Antes mesmo de o Martinho da Vila compor a belíssima "Tom maior", eu já me imaginava transmitindo meu legado a um ser querido, ensinando-o a viver onde ninguém é de ninguém e a amar a liberdade como sempre amei.

Mas dar fim à velha vida foi oneroso e uma crise no mercado jornalístico era mau sinal para quem tinha salário elevado (o meu era). Enquanto isto, o projeto da nova vida estava dando certo, já tinha uma namorada grávida. 

Então um amigo advogado me trouxe a notícia sobre o início de atuação da Comissão de Anistia e eu tive o bom senso de inscrever-me no programa, embora me incomodasse ser recompensado por algo que fizera por idealismo e não por interesse. 

Mas, percebi que perdera o direito de ter esse tipo de escrúpulo quando resolvi priorizar a paternidade. O compromisso com a moça e a vida crescendo dentro dela passava na frente de tudo.

O que eu temera, contudo, aconteceu. Fiquei desempregado em dezembro de 2003 e passei enormes dificuldades financeiras em 2004 e 2005. A reparação econômica pelos danos físicos, psicológicos, morais e profissionais que um governo ilegítimo me causara acabou se tornando minha última esperança de voltar à tona. 

E tive de lutar por essa chance, pois os critérios do programa estavam sendo descumpridos e a prioridade para os desempregados na marcação de julgamentos, que me favorecia, vinha sendo ignorada pelo colegiado. Precisei exigir meu direito.

Finalmente, no dia 27 de junho de 2005 ocorreu o julgamento que decidiria se eu receberia uma indenização em parcela única de R$ 50 mil ou uma pensão vitalícia no valor médio dos salários que recebia no último emprego. 

Devendo três aluguéis, ainda tendo um teto graças à solidariedade da administradora, a indenização só serviria para prolongar a minha agonia, não para sair dela.

Sem formação jurídica, confiando no que aprendera no exercício do jornalismo, defendi sozinho o meu caso, o que quase nenhum anistiando fazia. O representante das Forças Armadas na comissão tudo fez para que eu recebesse apenas a indenização, mas acabei sustentando bem o meu pleito.

Deram-me a pensão vitalícia sem nenhum voto contrário: mesmo o que estava contra mim optou por abster-se. E o decano da comissão, no seu voto, disse que até então o meu caso era o de mais flagrante injustiça  dentre todos que haviam sido julgados. 
Exausto, ansioso por ar fresco, saí da sala de audiência e desabei no primeiro banco que vi. Então vieram uns seis funcionários subalternos da comissão me cumprimentar. Tão focado eu estava na batalha legal que nem percebera a torcida do pessoal dos serviços de apoio por mim. Uma senhora até chorou. 

E eu também choraria, se pudesse; fazia décadas que as lágrimas haviam secado. De tanto esforçarmo-nos para não dar tal satisfação ao inimigo, era frequente os torturados ficarmos com esse bloqueio permanente. 

Com o 
depoimento do historiador Jacob Gorender em meu favor, seguido da decisão da Comissão de Anistia, a esquerda passou a reconhecer a minha condição de injustiçado, o que inclusive permitiu que eu fosse o porta-voz informal do Comitê de Solidariedade ao Cesare Battisti no período 2008/2011 e que assumisse no Orkut, durante a década retrasada, o papel de um dos principais defensores da luta armada brasileira e dos militantes que a travaram. 

Éramos eu e o companheiro Ivan Seixas contra toda a rede das viúvas da ditadura e olavetes. E na batalha dos argumentos sempre prevalecíamos. (por Celso Lungaretti) 

domingo, 15 de junho de 2025

PASSEI A MINHA VIDA ADULTA INTEIRA VENDO ISRAEL FAZER OS ÁRABES DE SACO DE PANCADAS; MUITO SOFRE QUEM PADECE

As charges são do Jota Camelo
Eu começava a prestar atenção nos grandes acontecimentos mundiais quando ocorreu a chamada
guerra dos seis dias, em junho de 1967: Síria, Egito, Jordânia e Iraque, apoiados pelo Kwait, Arábia Saudita, Argélia e Sudão, foram derrotados de forma acachapante por Israel, apesar de sua evidente superioridade em efetivos e recursos.

Passei o resto da vida vendo os árabes serem triturados impiedosamente pelo estado sionista, sempre com o apoio declarado ou velado dos EUA e a despeito das condenações inócuas da ONU, olimpicamente ignoradas pelos genocidas da estrela de Davi.

O enredo se repete mais uma vez; já faz parte da ordem natural das coisas. Só quando algo nele mudar justificará uma análise mais aprofundada. Mais do mesmo vale apenas o tamanho deste post.

Não gosto de assinar protestos ou dar declarações indignadas quando sei de antemão que de absolutamente nada adiantarão. 

Posso passar anos travando uma luta extremamente desigual para nosso lado, como foi aquela contra a extradição de Cesare Battisti no período 2008/2011, desde que vislumbre uma mínima chance de vitória. 

Mas não perco meu tempo quando nem isto existe, pois detesto sentir-me impotente para mudar o curso de acontecimentos deploráveis. Sou guerreiro, não carpideira.

Nesses casos em que nada há que compense fazer, nada faço. Sigo o exemplo do Paulo Francis dos bons tempos, que encerrava o assunto dizendo muito sofre quem padece e passava a ocupar-se das campanhas que não tinham desfecho predeterminado. 

Mas, a semelhança acaba aí. Ele, depois da sua última grande fase (a de quando era o guru do Pasquim), acabou desistindo de todas as cruzadas idealistas, e isto eu não fiz nem farei. 

Tenho 74 anos e continuo pronto para ir em qualquer lugar, correndo o risco que houver, mesmo me arrastando com minha muleta, se depender de mim uma vitória no bom combate. 

Aí a minha inspiração vem de outro exemplo, o de Gilberto Gil na canção Viramundo: "Prefiro ter toda a vida/ a vida como inimiga/ a ter na morte da vida/ minha sorte decidida". (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

COM TRUMP, EUA VOLTAM AO PASSADO EM QUE DEIXAVAM ASSASSINOS SOLTOS PARA EXECUTAREM ANARQUISTAS NO SEU LUGAR

Um contraste marcante: Sacco mal falava, enquanto Vanzetti era eloquente em sua indignação. 
Foi um verdadeiro achado, o filme certo no momento exato: acabo de encontrar novamente disponibilizado no Youtube, agora com legendas em espanhol, a obra-prima de Giuliano Montaldo, seguramente uma das melhores reconstituições cinematográficas de um assassinato de inocentes pela via judicial em todos os tempos: Sacco e Vanzetti

Qualquer semelhança com o tratamento hediondo que acaba de ser imposto a imigrantes brasileiros não é mera coincidência, mas sim a confirmação de que o país que mais produz filmecos de tribunal é também o que piores injustiças comete, por conta do fanatismo puritano que o impregna desde suas origens. 

Os estadunidenses jamais deixaram de queimar bruxas, apenas foram substituindo-as por outras vítimas, como os negros chacinados pela Ku Klux Klan!

O de Sacco e Vanzetti foi, talvez, o pior dos homicídios legalizados cometidos pela Justiça estadunidense em todos os tempos: um sapateiro e um peixeiro italianos foram condenados à pena capital, sem provas, por um latrocínio ocorrido em abril de 1920.
A evidente tendenciosidade do tribunal de Massachussetts causou enorme indignação –manifestações de protesto reuniram multidões por todo o mundo, um sem-número de celebridades e grandes juristas deram declarações candentes e até o Papa tentou evitar que eles fossem executados. Tudo inútil.

O fato de serem ambos anarquistas havia sido o fator preponderante para sua condenação –os EUA viviam um período de histeria anticomunista após a revolução soviética de 1917– e a inevitável politização do caso acabou determinando a não aceitação, por parte do tribunal, de provas e de uma confissão que os inocentavam.

Ou seja, quando surgiram gritantes evidências de que os crimes haviam sido cometidos por bandidos comuns, as autoridades já tinham ido muito longe e preferiram perseverar no erro do que o admitir honestamente. Elas, sim, mereciam a cadeira elétrica!

Em agosto de 1927, após mais de sete anos de tensão e sofrimento, foram eletrocutados. Meio século depois, o governador do Massachussets reconheceu-lhes oficialmente a inocência.
Os personagens históricos cujo martírio comoveu o mundo

Esta saga foi levada às telas em 1971 pelo diretor e roteirista Giuliano Montaldo, um especialista em cinebiografias e dramas que têm acontecimentos históricos como pano de fundo (
Giordano BrunoDeus está conoscoL'Agnese va a morireL'addio a Enrico Berlinguer, a mini-série Marco Polo, etc.).

Ele foi feliz em apresentar uma síntese bem essencializada do caso, sem prejuízo da sua enorme carga emocional. E teve a felicidade de contar com uma dupla de atores magníficos, extremamente identificados com seus papéis (Gian-Maria Volonté e Riccardo Cucciola); e com mais uma trilha musical memorável do gênio Ennio Morricone, incluindo a felicíssima escolha de Joan Baez para interpretar as três partes da Balada de Sacco e Vanzetti e o tema final, Here's to You

Uma curiosidade: A tragédia de Sacco e Vanzetti, de Howard Fast, foi o primeiro livro de cunho político que li na vida, lá pelos meus 12 ou 13 anos, quando escolhia os que retiraria na biblioteca circulante da Mooca apenas pela capa e pela sinopse na orelha do exemplar. Ignorava totalmente o caso.

Impressionou-me tanto que até passei a procurar outras obras do Howard Fast. Aí, quando em 2008 o Comitê de Solidariedade a Cesare Battisti telefonou de Brasília pedindo a minha ajuda, aceitei de pronto. Para um revolucionário da minha geração, prestar solidariedade a companheiros perseguidos era um dever.

Nem lembrava mais do livro. Mas acabei me dando conta de que cair nas minhas mãos uma cruzada que lembrava tanto o episódio dos anarquistas italianos parecia obra do destino. 

Tive a chance de evitar que se repetisse a infame entrega de Olga Benário aos algozes italianos... e aproveitei-a bem, pois, ao lado de um punhado de veteranos devotados, consegui frustrar em 2011 toda a direita brasileira e os veículos da imprensa canalha que se rebaixaram ao papel de serviçais do neofascista Silvio Berlusconi.  

Isto não impediu que o STF voltasse atrás de sua decisão em 2018, acoelhado por causa da vitória eleitoral de Jair Bolsonaro, quando o ministro que concedera liminar contra os planos italo-brasileiros de sequestro do escritor sob nossas barbas cassou sua própria liminar, ele também parecendo temer que logo após a posse do Bozo haveria uma noite de São Bartolomeu por aqui. (por Celso Lungaretti)

quinta-feira, 30 de maio de 2024

REFLEXÕES NUM DIA VAZIO DE CORPUS TRISTI

Aos 73 anos, não mudo uma palavra no velho aforismo italiano La vecchiaia è na brutta bestia (a velhice é uma fera medonha). 

Isto mesmo reconhecendo que a minha poderia ser muito pior do que está sendo. Problema potencialmente mais grave, só tive um tumor, descoberto logo no início e que, no momento considerado ideal pela oncologista, foi zerado por sessões de radiologia.

Mas, incomodam-me muito as pequenas limitações que vão surgindo, como estar levando umas quatro horas para redigir e editar um artigo que finalizava em três, ou os joelhos que se ressentem das longas caminhadas que sempre gostei de dar e agora estão pedindo próteses. 

Conviveria melhor com minhas limitações se me conformasse com elas, mas tendo a excedê-las amiúde. Aos 17 anos decidi tornar-me um homem de ação e não de contemplação; tal opção moldou meu temperamento na vida adulta. 

Doença nenhuma me impedia de comparecer às manifestações #ForaBolsonaro, mesmo conscientes de que só conseguiria nelas permanecer por cerca de uma hora. E não ia por superestimar a minha importância, mas sim porque me sentiria acabado se nem mesmo desse as caras.

São tantos os médicos me alertando que por enquanto o senhor não tem nada, mas daqui a alguns anos terá de operar catarata, glaucoma... ou raio que os parta, que fico me sentindo como um condenado à espera de uma inevitável sentença vindoura.  

Sem nenhuma ilusão quanto ao fato de que minha existência não vai melhorar, mas sim piorar, com o passar dos anos, ainda assim tentarei prolongá-la o suficiente:
— para ajudar minhas duas filhas a estabilizarem-se na vida (suponho que uns dez anos mais bastarão); e,
— se calhar, ainda desempenhar o papel para o qual venho me preparando desde 1967, qual seja o de ajudar na ressurreição de uma esquerda realmente combativa, em substituição da que resolveu na década de 1980 tornar-se mera coadjuvante do capitalismo e não sua coveira.

Para tanto, vou até obrigar-me a levar a sério os cuidados preventivos dos quais fugi a vida inteira. Já estou morrendo de saudade da feijoada fumegante e gordurosa aos sábados e das horas que passava bebericando e jogando conversa fora com amigos, sem dar a mínima para a ressaca do dia seguinte.
E, como fiz na vida quase tudo que me propus a fazer (mesmo ciente de que as consequências poderiam ser muito duras, como algumas foram), aceito tranquilamente que as pessoas queridas tenham o mesmo ou até mais êxito do que eu na busca dos seus objetivos. Torço por elas e adoro acompanhar suas novas descobertas, realizações, processos de afirmação.

Só de ver minha filha mais velha apaixonada de verdade pela primeira vez, fico extasiado, lembrando de quando passei por idêntica situação e dediquei à minha musa uma poesia que um pau no computador depois destruiu, mas terminava assim: "Faço versos como preces,/ apostando no triunfo da beleza e do amor". 

Mesmo não sendo devoto de nenhuma religião, a prece até que foi atendida, minha primogênita está aí para provar.

Assim como me emociona observar o David Coelho trilhando o caminho que sempre soube que trilharia, desde que, em 2018, me entusiasmei com seus textos nas discussões virtuais e o convidei para colaborar com este blog.

Se a esquerda brasileira estiver destinada a renascer das cinzas, como fez depois da derrota sem luta de 1964, aposto todas as minhas fichas em que ele será uma das novas caras que emergirão no processo. 

Ao participar do comando da greve da Educação Federal, inclusive indo a Brasília para as tratativas, o David me fez lembrar tanto a batalha que lá travei por minha anistia, quanto as idas para acompanhar as várias sessões de julgamento do escritor Cesare Battisti no período 2008/2011.
 
Embora não me agradasse nem um pouco o jeitão da capital federal, que me parecia uma distopia futurista (Mundos fechados, de Robert Silverberg, 1936), acaba sendo gratificante lembrarmos de vitórias arrancadas com enorme sacrifício.

E me tocou também o David ter-me contado que está enfrentando uma sintomática aliança de pais conservadores/reacionários bolsonaristas com lulistas, contingentes amiúde flagrados em perfeita comunhão contra a esquerda combativa. O que faz todo sentido, pois, embora posem de inimigos ideológicos, têm nos interesses mesquinhos seu ponto de convergência, caçadores de rachadinhas e boquinhas que são.

É outra situação do meu passado evocada, a de quando liderei com três colegas uma inusitada paralisação do então Colégio Estadual MMDC, em junho de 1968. Foi numa sexta-feira à noite e teve fortes emoções:
— todos os alunos no pátio, atendendo à nossa convocação;
— alguém (nunca soubemos quem) sabotando a luz e deixando a escola às escuras; 
— a chegada de policiais do Dops numa viatura do Juizado de Menores, como camuflagem;
— o professor de química Mário Hato discursando em nosso favor, trepado numa cadeira, quando um investigador chegou chutando a dita cuja para longe e atirando-o ao chão;   
— o professor dedo-duro  de português acompanhado por dois agentes, procurando-nos por todo o pátio, munidos de faroletes, sem perceberem que, ao avistarmos os fachos de luz, distanciávamo-nos calmamente por entre as rodinhas formadas;
— a abertura dos portões que eles haviam trancado e a saída em massa de nós todos, que demos de cara com um colega preso porque havia sido surpreendido esvaziando os pneus da viatura fake;
— a covardia de um agente que, apavorado com os gritos de Solta!Solta!, se pôs a dar tiros para o alto, provocando o estouro da boiada (um colega tropeçou no momento de um disparo e ficamos acreditando que tinha sido baleado); e
— a ida imediata de nós quatro, os líderes, à redação da Folha da Tarde, para relatarmos tudo que ocorrera, daí resultando uma pequena notícia publicada no dia seguinte com o ótimo título de Dops invade escola atirando
Na segunda-feira, os estudantes do noturno não ousavam entrar no MMDC por temerem prisões. Eu e o Eremias Delizoicov fomos negociar e eles só ingressaram no prédio depois de voltarmos para informá-los do compromisso assumido pela diretora no sentido de não haver prisões nem retaliações. 

Participamos em seguida de uma reunião extraordinária da Associação de Pais e Mestres. Como a companheira Maria das Graças estava acamada com hepatite, coube-nos defender a paralisação. 

Pais barrigudos e furibundos ensaiavam até agredir-nos, mas outros os seguravam. O Eremias os ironizava o tempo todo e eu fazia a defesa política, o que também os tirava do sério porque não conseguiam prevalecer contra um jovem de 17 anos na batalha dos argumentos.

Triste pensar que em outubro de 1969 o Eremias, um ano mais novo do que eu, morreria baleado 35 vezes por uma equipe da PE da Vila Militar (RJ). Estudáramos juntos, embora nem sempre na mesma classe, desde o primário. 

Preso, conheci os quatro que o haviam executado quando poderiam facilmente tê-lo subjugado vivo; além de tudo incompetentes, agiram com tamanha bestialidade por confundirem-no com um ex-sargento que também integrava a Vanguarda Popular Revolucionária e era bem mais velho. 

Tomara que a trajetória do David seja menos sofrida. Mas, quando tantos se omitem das lutas absolutamente necessárias, os que as assumem estão sempre sujeitos a carregaren uma carga mais pesada. É por isto que Brecht os chamava de imprescindíveis. (por Celso Lungaretti)

terça-feira, 7 de maio de 2024

SOBRE O DILÚVIO GAÚCHO, A IMINÊNCIA DO FIM, A WEB DA SERPENTE E O INFERNO BOCÓ

Tragédia maior do que as mortes, os refugiados, os dramas e os danos causados pelas enchentes no Rio Grande do Sul é a certeza de que, assim como praticamente nada se fez para atenuar o previsível impacto de tudo isso, nada se fará depois que o dilúvio gaúcho cessar e outro horror qualquer, em qualquer outro lugar do planeta, se tornar o assunto do momento.

Que o aquecimento global e as alterações climáticas produzirão cada vez mais e piores catástrofes passou a ser, já no século passado, um óbvio ululante. E não dá para continuarmos nos iludindo quanto ao fato de que o fim da espécie humana nos espera adiante, bem mais cedo do que supúnhamos. A única dúvida é quando, como e se há escapatória possível.

Bem vistas as coisas, a única esperança que resta é a de que uma ocorrência mais apocalíptica ainda enfim convença todos nós a enfrentarmos unidos nosso pior desafio desde que saímos das cavernas. 

Isto esteve próximo de acontecer em 2011, quando um megaterremoto seguido de um tsunami quase causou ao Japão uma devastação ainda maior que a das bombas atômicas em 1945.

A pergunta que não quer calar é se tal ocorrência apocalíptica sucederá antes ou depois de as consequências cumulativas do aquecimento global se tornarem impossíveis de reversão.

Pois o pior pesadelo será sermos dizimados pelas catástrofes pipocando no mundo inteiro sem sequer vislumbrarmos uma chance de sobrevivência, como os condenados à morte que só esperam a data da execução. 

Vou encerrar com uma autocrítica. Eterno otimista, cheguei a acreditar que a quase impossível (dada a desigualdade de forças) vitória conquistada pelo nosso lado em 2011 no Caso Battisti, contra os poderes avassaladores da imprensa burguesa e as pressões escandalosas de um país do 1º mundo, prenunciavam um cenário no qual a internet nos permitiria confrontarmos com êxito a lavagem cerebral da indústria cultural.

Hoje vejo que aquela foi apenas uma moeda que caiu em pé, com a web em seguida se revelando um ovo da serpente: amplificadora não do pensamento crítico, mas sim da ignorância, do egoísmo e dos preconceitos da maioria da população nesta sociedade reduzida a terra arrasada pela ganância capitalista. 
A igualação não se deu por cima, como sonhei e tantos outros idealistas sonharam, mas bem por baixo, descendo até ao nível do esgoto bolsonarista. 

E, como o simplismo panfletário das fake news é bem mais compreensível para os simplórios do que uma visão crítica dos fenômenos sociais, nunca tantos fizeram seus zurros ecoarem tanto e causando tantas distorções na vida social quanto nestes melancólicos tempos presentes. (numa linha próxima à minha, recomendo a leitura deste ótimo artigo do economista e filósofo Joel Pinheiro da Fonseca).

Paulo Francis, que morreu em 1994, cunhou a expressão inferno bocó (ou pamonha) para denominar o estado de embrutecimento a que foi reduzida a vida cultural na sociedade de consumo, à medida que a prioridade suprema passou a ser a de bajular o consumidor e espelhar suas limitações. 

Não tinha ideia de quão imenso ainda viria a ser o retrocesso civilizatório. (por Celso Lungaretti)

terça-feira, 21 de novembro de 2023

A WEB SE TORNOU UM ESPAÇO CONCEDIDO PELO SISTEMA PARA CRERMOS QUE AINDA INFLUENCIAMOS AS GRANDES DECISÕES/1

CASO BATTISTI: EM 2011 A MOEDA CAIU EM
PÉ, MAS HOJE ELA DESLIZARIA PARA O RALO. 
A épica vitória que, em 2011, um punhado de antifascistas alcançamos contra  o rolo compressor italiano e a lavagem cerebral da grande imprensa brasileira no
Caso Battisti me fez acreditar que conseguiríamos tornar as redes sociais e a blogosfera antídotos contra a manipulação das consciências por parte da indústria cultural. Quanta ingenuidade!

Hoje percebo que foi apenas uma moeda que caiu em pé. E que, de tão circunstancial, tal êxito foi revertido em 2018 sob Michel Temer, mediante o estupro de várias leis brasileiras. 

Para quem ainda não percebeu ou tomou conhecimento, embora eu haja batido nesta tecla num artigo recente, advém daí a minha firme rejeição à perseguição ilegal movida pelos patrulheiros da internet:
— contra o técnico Cuca por conta de um caso  ocorrido nada menos do que 35 anos atrás e que estava definitivamente prescrito aqui e na Europa, não tendo nenhum(a) feminista fanático(a) o direito de recolocá-lo em discussão na web, inclusive publicando peças que estavam sob segredo de justiça, no sentido de negar a um idoso o legítimo direito de exercer o seu ofício; e
— contra Robinho, com o UOL publicando uma longa série de peças processuais igualmente sob segredo de justiça alhures, numa clamorosa pressão para o STF aceitar o cumprimento aqui da sentença de lá.  

[Fez-me lembrar as versos de um tema musical da peça 
Arena conta Tiradentes"Eu sou brasileiro, mas não tenho o meu lugar,/ pois lá sou estrangeiro, estrangeiro no meu lar./ A quem não é de lá, essa terra tudo dá./ Essa terra não é minha, é de quem não vive lá".]

Sendo vedado ao Supremo questionar a sentença italiana em si, a disponibilização dos chamados grampos do Robinho
para a mídia brasileira e consequente estardalhaço contra o acusado criou uma absurda desigualdade para seus defensores. 

Como contestarem a distorção causada na opinião pública brasileira (e que, embora não se admita, influencia também os ministros do STF) se o erro foi cometido pela corte estrangeira que vazou ilegalmente tais gravações? 

Como questionar agora tal comportamento escandalosamente abusivo, verdadeira interferência italiana nas decisões brasileiras, se ao STF não cabe colocar em questão a sentença daquele país? 

E afinal, por que a aberrante perseguição ao Cuca e a quebra do segredo de justiça no caso do Robinho me incomodaram tanto? PORQUE REPRODUZEM AS MANOBRAS ILÍCITAS EUROPEIAS CONTRA AS QUAIS NOS BATEMOS EM ABSOLUTA DESIGUALDADE DE FORÇAS NO CASO BATTISTI

Então também o jogo sujo foi praticado às escâncaras, tanto que a sentença italiana também já estava prescrita quando a pátria de Berlusconi movia céus e terras para forçar sua repatriação.
Cezar Peluso, relator do pedido de extradição do Cesare no STF, fez
contas mágicas para defender o indefensável. E foram igualmente fantasiosos os cálculos da justiça italiana para recusar uma revisão de sua sentença iníqua depois que o troféu tão ardentemente buscado pelos neofascistas de lá finalmente lhes caiu nas mãos.

São gritantes as evidências de que a condenação de Battisti na Itália se baseou exclusivamente em delações premiadas por meio das quais os aspirantes a recuperarem a liberdade com acordos podres descarregaram suas culpas sobre ele, confiantes em que Battisti nada sofreria por contar com a garantia de François Mitterrand de que poderia continuar vivendo e trabalhando em paz na França até o fim dos seus dias.

Após a morte de Mitterrand, sua solene promessa não foi honrada por Jacques Chirac e Battisti se tornou alvo de uma perseguição sem fim, por amor ou por dinheiro, da parte de Berlusconi e seus cúmplices.

É óbvio que muito me decepcionei quando o Cesare, em 2019, admitiu ter sido realmente responsável por dois dos assassinatos que lhe imputavam.  Sabendo que o inimigo mentia o tempo todo, não deveria jamais ter-lhe fornecido tal trunfo propagandístico em troca de promessas (que acabaram sendo descumpridas) de receber tratamento civilizado nos cárceres italianos. 

Também me magoava demais sua insinceridade conosco, os apoiadores brasileiros, que mesmo se soubéssemos de toda a verdade continuaríamos rechaçando as ilegalidades praticadas contra ele por Estados poderosos. 

Afinal, os autores dos grandes atentados terroristas cometidos pelos neofascistas, nos quais haviam sido exterminado civis como moscas, tinham recebido tratamentos jurídico e carcerário brandos, enquanto os de autoria de grupúsculos de esquerda contra alvos isolados mas não desconectados daquela luta, foram objetos de rigor extremo. 

Depois que tudo terminou, as escandalosas injustiças que marcaram os anos de chumbo italianos, o verdadeiro festival de dois pesos e duas medidas que assolou o país,  tudo isso só poderia ter sido sanado por uma ampla anistia. Por que não ocorreu? O fantasma de Mussolini explica.

Do ponto de vista estritamente legal, tudo aquilo era arquivo morto e a falaciosa condenação por quatro homicídios (dois dos quais ocorridos simultaneamente em locais demasiado distantes entre si para um mesmo indivíduo poder estar presente em ambos) valia tanto quanto papel higiênico usado. 

Era tendenciosa ao extremo a legalidade adotada aquele período infame, no qual, como bem ressaltou o ex-ministro Tarso Genro, as instituições democráticas italianas funcionavam a contento, mas a Justiça e a Polícia se constituíam em flagrante exceção, pouquíssimo diferindo de suas congêneres das ditaduras do 3º mundo.

A vitória que então fomos buscar na bacia das almas, acabou sendo revertida adiante por mais e piores manobras sujas e ilegais, inclusive uma tentativa de sequestro quando o Cesare era residente legal no Brasil. 

Hoje já não existe mais ânimo na esquerda brasileira para travar batalhas tão desiguais como a que encaramos em 2008/2011; ademais, a possibilidade de equilibrar na internet o jogo (de cartas marcadas) praticado pela grande imprensa já foi devidamente neutralizada pelo sistema. 

Então, só me resta endossar e aplaudir o vigoroso artigo de Eugênio Bucci, O entretenimeno engole a política, que será publicado amanhã neste blog como a segunda parte da presente duologia. Tem tudo a ver.

Mas, sendo absolutamente sincero, embora considere que ficou ainda mais difícil (praticamente impossível!) a moeda cair de novo em pé como em 2011, mesmo assim, caso me pedissem uma colaboração solidária num caso com as mesmas características, eu não hesitaria um segundo em (e encontraria forças para) assumi-lo também.

Pois a missão de um revolucionário só termina no túmulo. E a dos que lutamos contra a ditadura militar nem de longe terminou, tanto que houve a recaída bolsonarista na década passada. A luta continua. (por Celso Lungaretti)

quinta-feira, 12 de outubro de 2023

PARA A GRANDE IMPRENSA, MOVIMENTOS TERRORISTAS SÃO DIABÓLICOS E NAÇÕES TERRORISTAS SÃO ANGELICAIS


Deu hoje (12/10) no New York Times
— os terroristas do Hamas, no sexto dia de conflito, já mataram pelo menos 1,2 mil israelenses;
— os anjinhos sionistas já mataram, com seus bombardeios a torto e a direito, 1,1 mil palestinos, atingindo inclusive escolas e hospitais.

Afora isto, os imaculados israelenses estão chantageando os diabólicos militantes do Hamas com o bloqueio de água, luz, combustíveis e alimentos na Faixa de Gaza.

Ou seja, porque 150 israelenses estão prisioneiros do Hamas, Israel tomou como reféns todos os 2 milhões de habitantes de Gaza. 

Na ponta do lápis, cada israelense vale 13.333 palestinos. Isto é crime contra a humanidade, mas no presente caso não passa de legítima defesa, pelo menos segundo a tônica do noticiário da grande imprensa.
É óbvio que a invasão da Faixa de Gaza por parte das tropas terrestres israelenses, que tende a ser lançada nas próximas horas, 
levará o número de vítimas palestinas aos píncaros.

Enfim, lamentei muito não poder mais exercer nos jornalões e revistonas a profissão de jornalista desde que, graças à minha atuação no
Comitê de Solidariedade a Cesare Battisti, entrei em 2011 numa lista negra igualzinha às do macartismo nos EUA. 

Todos os homens da grande imprensa não suportaram perder aquela batalha para um punhado de idealistas.

Hoje, no entanto, sinto imenso alívio por não estar mais sendo obrigado a servir a tão tendenciosos patrões, que desde sábado passado estão atirando as boas práticas jornalísticas definitivamente no lixo. (por Celso Lungaretti)

terça-feira, 8 de agosto de 2023

EM 8 DE AGOSTO DE 2008 NASCIA O BLOG NÁUFRAGO DA UTOPIA: CADA POST É UMA SEMENTE NO DESERTO DO MEU TEMPO.

Hoje (8) o blog Náufrago da Utopia  completa 15 anos. 

Com 7.750 posts publicados e quase 4,4 milhões de visualizações ao longo do tempo, foi criado com os objetivos de:
— priorizar, em pé de igualdade, as três principais bandeiras da esquerda (justiça social, liberdade e respeito pelos direitos humanos); e
— de ser uma tribuna sempre acessível para o exercício do pensamento crítico por parte dos cidadãos comprometidos com o avanço da civilização e a construção de uma sociedade igualitária e livre.

Trocando em miúdos, lancei o blog em 8 de agosto de 2008 porque nossa esquerda começava a inclinar-se cada vez mais para o autoritarismo, repetindo a trajetória das grandes revoluções que se desvirtuaram ao sacrificarem a liberdade e violentarem os direitos humanos em nome da justiça social. 

E que nem esta última foram capazes de entregar, pois acabaram cavando um fosso profundo entre o proletariado (que deixou na prática de ser o sujeito da revolução, tornando-se submisso objeto  da atuação de qualquer auto-proclamado guia genial dos povos) e a nomenklatura (que passou a exercer uma dominação de casta e a desfrutar de privilégios equivalentes aos das antigas classes proprietárias).
Dalton

Então, o blog do Náufrago se dispôs a resgatar a proposta original e jamais cumprida do marxismo, qual seja a de conduzir a sociedade a um estágio tão avançado de civilização que ela fosse capaz de governar-se por si mesma, sem a idiotia populista nem o sebastianismo  messiânico, muito menos classes, nações, fronteiras e exércitos. 

Isto equivaleria a darmos um fim à pré-história da humanidade, estabelecendo o sonhado reino da liberdade, para além da necessidade, no qual fossem proporcionadas a cada ser humano plenas condições para desenvolver suas melhores aptidões e potencialidades, dando, ao mesmo tempo, uma voluntária contribuição para o bem comum. 

Nunca tive a ilusão de que apenas um blog fosse capaz de corrigir o rumo que a esquerda brasileira vinha adotando há um século, com um breve intervalo em 1968 e anos seguintes, quando o sonho ameaçou tornar-se vida e foi esmagado pela pior repressão a que este país já foi submetido.

Eu pretendia apenas manter a lembrança daquilo que jamais deveria ser esquecido: 
— que o marxismo nasceu como promessa de liberdade, tão poderosa que, embora periodicamente extirpada pela manipulação das consciências e pela bestialidade da força, continua vindo à tona até hoje, vide as manifestações de 2013 no Brasil e de 2019 em vários outros países; e 
— preservar a memória dos companheiros que haviam ousado lutar e travaram o bom combate praticamente sem chance de vencerem, até para que seu sacrifício jamais parecesse ter sido em vão. 
Rui
Quanto ao pensamento crítico, constitui-se também num legado de 1968: defendíamos  o direito de todas as pessoas e forças políticas apresentarem livremente suas opiniões e vê-las discutidas, desde que não estivessem alinhadas com a desumanidade (ditaduras e/ou a exploração do homem pelo homem).

Serviria, portanto, como antídoto à voracidade de tendências ditas esquerdistas que, ávidas pelas migalhas de poder e por parasitárias boquinhas, combatiam os adversários de esquerda de forma mais encarniçada ainda do que aos inimigos de classe.  

De tudo que fizemos no blog ao longo destes 15 anos, destaco a luta pela liberdade de Cesare Battisti, talvez a batalha mais desigual que a nossa esquerda  já venceu, contra a tendenciosidade da grande imprensa brasileira e a enorme pressão exercida por um país do 1º mundo que, tangido por um devasso aspirante a duce, voltava a flertar com o fascismo. 

[Infelizmente, os seres humanos não são esculpidos em pedra. Então, após décadas de perseguição e sofrimento, o companheiro cedeu à chantagem dos inquisidores, negando a si próprio em troca da promessa –não cumprida– de receber tratamento carcerário digno.] 
David

E tenho especial orgulho da postura adotada pelo blog desde que o pesadelo bolsonarista se prenunciava no ano eleitoral de 2018 até sua derrota definitiva no 8 de janeiro.

Foram quase cinco anos sem nenhuma hesitação diante do bufão genocida, fazendo-lhe as críticas mais contundentes, pregando a todo momento o seu impeachment  e divulgando com grande antecedência a certeza de que cada uma das micaretas golpistas com as quais ele tentava virar a mesa e perpetuar-se no poder fracassaria miseravelmente, não só por causa de sua liderança insana e caótica, mas também da sua notória covardia pessoal. 

Por último, estendo um forte abraço:
— ao Dalton Rosado e ao Rui Martins, companheiros de jornada que produziram textos de imenso significado humano e político, suando a camisa sem interesse nenhum que não fosse o de espalharem suas ideias e criações, até porque, à maneira antiga, o blog sempre recusou vender espaço e jamais remunerou colaboradores (o segundo passo só seria possível se déssemos o primeiro); e
— ao David Emanuel Coelho, o benjamim  da turma, em quem depositamos nossa confiança para preservar e fazer crescerem as sementes que plantamos, quando não estivermos mais aqui para fazê-lo em pessoa.
Celso e Apollo
Foi emocionante vê-lo recentemente publicar uma
série de 11 lúcidos textos, esqueleto do livro sobre as jornadas de 2013 que adiante há de lançar. Nela se evidenciou o quanto ele tem para dar à esquerda brasileira, que carece desesperadamente de novos quadros, não só para a recomposição de suas fileiras, como também para resgatarem sua combatividade perdida.

Só lamento que o Apollo Natali, grande amigo e mestre cronista, não tenha esperado para comemorar conosco. Jamais o esqueceremos! (por Celso Lungaretti
"Hoje o verso é uma semente do meu peito num deserto. Verde
que te quiero verde, mas não há verde por perto" (Sérgio Ricardo)

quinta-feira, 15 de junho de 2023

O ROBINHO NÃO VALE NADA, MAS A ITÁLIA JOGA SUJO PARA IMPOR-NOS SUA VONTADE.

Os leitores leigos certamente ficarão estarrecidos ao tomarem conhecimento, numa longa série do UOL, dos áudios (e, como alternativa, das transcrições) de conversas trocadas pelo jogador Robinho com seus
parças envolvidos em janeiro de 2013 no episódio do estupro coletivo de uma moça albanesa durante balada numa casa noturna de Milão, Itália.

Tão chocante quanto as baixarias desses lamentáveis personagens preocupados em escapar da consequência de seus atos, é o fato de que caíram do céu para o UOL mais de 10 horas de gravações (os chamados grampos) da polícia italiana e que deveriam estar sob sigilo da Justiça daquele país – e isto no exato momento em que a nossa Justiça tardava em colocar na pauta o pedido de que a sentença italiana seja cumprida aqui mesmo. Coincidência? Nenhuma!

O efeito foi imediato, conforme noticiou o próprio UOL: o Supremo Tribunal Federal agora se apressa em marcar tal julgamento. Tiro e queda.

O que jamais poderia passar despercebido a jornalistas, ainda que meros comentaristas esportivos ou mulheres que exercem a profissão como torcedoras do Feminismo Futebol Clube, é tratar-se de uma óbvia e descarada iniciativa italiana para pressionar o STF e o Governo Lula. 

Trata-se do mesmíssimo jogo sujo e ilegal que aquele país praticou às escâncaras, sob aplauso da grande imprensa brasileira, durante o julgamento do Caso Battisti em 2008-2011, quando o recém falecido premiê Silvio Berlusconi (que o diabo o tenha!) queria porque queria forçar os brasileiros a lhe entregarem na marra o escritor italiano por conta de uma condenação italiana JÁ PRESCRITA.
Daquela vez um deputado ultradireitista italiano teve a arrogância de declarar, quando o ministro Tarso Genro decidiu libertar Battisti em janeiro de 2019, o seguinte:
"Não me parece que o Brasil seja conhecido por seus juristas, mas sim por suas dançarinas [insinuando tratarem-se de prostitutas]. Portanto, antes de pretender nos dar lições de Direito, o ministro da Justiça brasileiro faria bem se pensasse nisso não uma, mas mil vezes".
A decisão de Genro acabou sendo anulada pelo Supremo, que por margem mínima (5x4), após várias sessões, aprovou o pedido de extradição, mas, pelo mesmíssimo placar, resistiu à intensa pressão no sentido de que tal decisão fosse aplicada automaticamente. 

Graças ao zelo do ministro Ayres Britto, que fez questão de preservar o entendimento do próprio STF em casos anteriores, a última palavra coube ao presidente Lula que, no apagar das luzes do seu segundo mandato, se negou a prostrar-se à ofensiva berlusconiana. 

Os ministros tendenciosamente engajados na batalha pela extradição, em especial Gilmar Mendes e Cezar Peluso (que se alternaram o tempo todo como presidentes do Supremo e relatores desse processo em especial), chegaram à beira de um ataque de nervos em seus esforços para que fosse anulada a decisão que o próprio STF delegara a Lula. Mas afinal, em junho de 2011, após novo julgamento, a corte resolveu por 6x3 fazer cumprir o que era de direito e Battisti foi libertado.

O pior, para as neofascistas italianos, foi que as discussões sobre o destino de Battisti colocaram mundialmente em evidência o ambiente de caça às bruxas que prevalecia naquele país após o assassinato de Aldo Moro

Foi uma fase em que as investigações policiais excediam em muito os limites legais e na qual a Justiça admitiu aberrações como permitir que réus permanecessem em prisão preventiva POR ATÉ DEZ ANOS E MEIO (!!!) mesmo não tendo sofrido nenhuma condenação.

O certo teria sido uma anistia geral depois que os anos de chumbo italianos chegaram ao fim, pois o período fora marcado por grandes atentados ultradireitistas (só no pior deles, o ataque à estação ferroviária de Bolonha, morreram 85 civis e outros 200 foram feridos) e algumas escaramuças com vítimas fatais da parte de grupúsculos esquerdistas em resposta ao terrorismo neofascista. 

A diferença foi a grande benevolência dos podres Poderes de lá com relação aos primeiros e o extremo rigor para com os segundos. Então, em qualquer país que não tivesse o triste passado italiano, de dobradinha com os nazistas alemães na 2ª Guerra Mundial e submissão canina à ditadura de Benito Mussolini a partir de 1922, tal vergonhosa página teria sido virada pela via da anistia. 

Como esta ficou faltando, um discípulo de Mussolini moveu céus e terras numa vendetta extemporânea contra quem se tornara um pacato e bem sucedido escritor. Até mesmo o sequestro de Battisti foi tentado, quando ele já tinha sido oficialmente reconhecido como residente legal no Brasil.

E o ressentimento pelo ultraje perdurou inclusive quando o Judas boliviano Evo Morales entregou à Itália a cabeça que os neofascistas tanto ansiavam pendurar na sala de troféus.

A última humilhação que fazem questão de impor-nos será a obrigação de encarcerar o Robinho no Brasil, endossando a sentença deles, ainda que a dita cuja conflite em pontos importantes com nossos cânones jurídicos.  Começando pelo fato de que, embora Robinho não valha um centavo como ser humano, seus direitos acabam de ser estuprados com a entrega desses áudios ao UOL Pena que este tipo de estupro não preocupe os santos inquisidores do teclado.

Talvez eu desta vez venha a ser o único jornalista a indignar-se quando nosso país é tratado a pontapés pelos estrangeiros, como se ainda fosse mera colônia europeia ou uma mísera
república das bananas. Mas discernimento político e caráter jamais me faltaram. 

A participação do jogador Robinho e do técnico Cuca em estupros coletivos também me enoja, mas o vazamento seletivo para a imprensa brasileira de peças processuais sob segredo de Justiça, no qual tanto a Itália quanto a Suíça incorreram, me parece um mal muito maior, por conferir poder extremado aos que já o detêm em demasia.

Porque serão sempre os poderosos que decidirão quais segredos devem ir para o ventilador e quais devem ser preservados. Alguém confia em que sejam isentos e imparciais os critérios adotados por um Bolsonaro ou um Putin? Por um André Mendonça ou um Zanin?

Resta sabermos como agirá o STF se ficar confirmado que, conforme consta da série do UOL, o grampo da polícia de Milão visava a outros personagens do mundo futebolístico, mas a aparição das vozes de Robinho e do seu parça Jairo Chagas, por causa do teor da conversa entre ambos, fez com que o caso do estupro entrasse casualmente na alça de mira dos arapongas? 

Um ministro do STJ acaba de libertar um chefão do PCC porque, a seu ver, os policiais que desconfiaram dele na rua e o revistaram, flagrando-o com dois quilos de cocaína, teriam cometido uma
abordagem ilícita

Afinal, as abordagens por mero palpite e a espionagem ilimitada dos cidadãos valem ou não valem no Brasil? Se não valerem, como aplicar aqui uma sentença estrangeira cuja origem terá sido espúria?   (por Celso Lungaretti, veterano da resistência à ditadura militar, que integrou o Comitê de Solidariedade a Cesare Battisti no período 2008/2011)
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