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sexta-feira, 29 de julho de 2022

SUA ÚLTIMA CRÔNICA DEU A MEDIDA EXATA DA PUREZA DE SUA ALMA

Saiba mais sobre ele aqui 
Domingo se completarão quatro anos desde a morte de um dos melhores amigos que já tive e do melhor cronista que já li: Apollo Natali

No finzinho da vida, ele teclou no celular da acompanhante, em pleno leito hospitalar, uma derradeira crônica.

Sem forças para completá-la, pediu que eu a finalizasse introduzindo uma pequena apresentação dos médicos por ele citados/homenageados. 

Foi uma das incumbências mais difíceis que cumpri na vida. 

Sua última crônica deu a dimensão exata da pureza de sua alma. (CL)
.
apollo natali
QUANDO NOSSOS CASTELOS DESABAM
O jornalismo é a paixão da minha vida. Minha praia, minha escola, minha luz.

Imprensa: deusa tutelar da espécie humana.

Jornalista: guardião da espécie humana.
"Essa é toda a minha vida. Meu castelo. Bonito ele, não?"
Tenho 60 anos de exercício do jornalismo na imprensa escrita. 

No papel jornal, revistas e jornais, 40 anos. 

Outros 20 na imprensa escrita na blogosfera. Mais de meio século de manancial de aprendizado sobre jornalismo e a vida.

Minha casa em São Paulo construí com as próprias mãos. Comecei aos 16 anos. 

Ao longo dos anos, telhas pesadas, vigas pesadas, tijolos pesados. Mãos pequenas. Briga boa e longa.

Essa é toda a minha vida. Meu castelo. Bonito ele, não?

Lindos sejam todos os castelos, todas as vidas.

Aos 82 anos, percebi agora há pouco,  minha vida passou. A caravana, lá vai ela, na curva da montanha. 
Pioneiros na descoberta dos antibióticos: Louis Pasteur...

Sempre tive saúde perfeita. Nunca bebi, jamais fumei, em tempo algum me droguei.

Sem fazer barulho, ele me procurou.

Quimioterapias, susto, medo, choro, emoções desencontradas.

Como é triste morrer, dizem-me os pesadelos. 

Meu castelo é só escombros.

Na cama do hospital, uma picada ou outra de injeção, figuras silenciosas, médicos, enfermeiros, enfermeiras, cuidam dos que sofrem. Primeira pergunta: sente dor?

Agora eu deliro.

Envia-nos o Criador, de tempos em tempos, almas especiais. Obtém meios em defesa da vida. Tarefa impossível nomear todos desde que mundo é mundo. 
...e Alexander Fleming.

Pioneiros na descoberta dos salvadores antibióticos: Joseph Lister, em 1860. Pasteur, Joubert, Fleming em 1928,  Em 1869, Czech¸ Honi, Bukowsky, Paul Ehrkucem. Em 1935, Kolebookl. Em 1936, Keny.


A penicilina, o primeiro antibiótico da história, descoberta em placas contaminadas com bolor, é do médico escocês Alexander Fleming. Sua teoria foi festejada com êxito por Fleury e Chain, em 1940.  

Varíola:  Edward Jenner descobriu a vacina antivariólica em 1796. A primeira de que se tem registro. Jenner desenvolveu a vacina a partir de outra doença, a cowpox, tipo de varíola que acometia das vacas. Percebeu que as pessoas que ordenhavam as vacas adquiriam imunidade à varíola humana.

A palavra vacina,  em latim significa de vaca. Por analogia passou a designar todo o inóculo com capacidade de produzir anticorpos. No século 18 a varíola era uma das doenças epidêmicas com  maior índice de mortalidade.

Raiva, do cientista francês Louis Pasteur.

Alguns brasileiros: Oswaldo Cruz, febre amarela. Miriam Tendler, de Manguinhos, desenvolveu a vacina contra a esquistossomose, causadora de morte de 300 milhões de cabeças de gado e outro tanto de seres humanos.

Manoel Dias de Abreu: raio-x. Leva seu nome, abreugrafia. 
Sabin vacinando no Brasil

Emílio Gonçalves Ribas. Combatente de endemias, criador de instituições meritórias, como o Instituto Butantã. 

A bem vinda anestesia: em 1844 dos dentistas estadunidenses Horace Weel e William Thomas Green Morton. Horace ficou conhecido por utilizar o gás nitroso, gás hilariante, como anestesia. Thomas protagonizou a primeira demonstração pública do uso do éter numa cirurgia.

O gás hilariante foi descoberto em 1776 pelo cientista  e ministro presbiteriano inglês Joseph Priestley.

O médico escocês James Simpson de Edimburgo foi o primeiro a usar o clorofórmio em 1847. Sua teoria foi largamente aceita pela medicina em 1853.

E mil medicamentos para combater  mil outros males da saúde menos agressivos.

Uns e outros são do contra. Fernando Collor de Mello, ex-presidente, convidou a deixar o país, por suas críticas à vacinação, o benfeitor da humanidade criador da vacina contra a poliomielite, Albert Sabin.

Muito agradecido por delirarem comigo. (Apollo Natali) 

quinta-feira, 29 de julho de 2021

TRÊS ANOS SEM O APOLLO NATALI: AO MENOS ELE NÃO VIVEU PARA VER QUÃO ABOMINÁVEL O BRASIL SE TORNARIA...

Como diria o Caetano Veloso, o Apollo Natali nasceu em 1936, bem na barriga da miséria (o bairro da mãe do seu pai, a vovó do Bixiga), conforme contou numa crônica:

"Convivi com a italianada de um punhado de cortiços na fronteira entre o Brás e a Mooca, em São Paulo, nas ruas Coronel Cintra, rua da Mooca, Caetano Pinto, Carneiro Leão.  
Eu mesmo vivi 33 anos, desde bebê, num cortiço na Mooca, na rua Coronel Cintra, 129, habitado por 20 famílias de ruidosos italianos e suas briguentas crianças. Minha meninice lá foi marcada pela música Marechiare, pelo rádio de Tzi Terê e vozerio de Gino Bechi".
Depois, mudou-se para o bairro da avó materna, a vovó do mato, onde passava temporadas na meninice e onde passaria o resto dos seus anos:
"Vila Ré é o nome do bairro de subúrbio onde moro, na zona Leste paulistana... 
Quando eu era menino, tinha trem de verdade, puxado pela Maria Fumaça. Ia gente no telhado e em cima da lenha da locomotiva. Tempos livres aqueles. Viajava-se de janelas abertas nos vagões de madeira e muitos iam no trem sem pagar. O preço da passagem não aumentava nunca...  
Era tudo mato. Uma casinha aqui outra ali,  alguns índios, tanto tempo faz. Árvores para seis homens abraçar, tanto cheiro  de capim. Às cinco horas da tarde todo mundo se recolhia. Dava medo o escurecer sem ninguém".
Maria FumaçaCom certeza!
A família, imensa. "O vovô e a vovó do Bixiga tiveram 24 filhos. O vovô e a vovó do mato tiveram 17."

Naquele tempo os pais botavam os meninos para trabalhar desde muito cedo. E o Apollo, nas suas andanças pela cidade (se bem me lembro, fazia entregas de pequenos volumes), certa vez conheceu a velha redação de O Estado de S. Paulo na rua Major Quedinho. 

Ficou fascinado, até porque havia vendido jornais pelas ruas durante muito tempo (também fora engraxate). Com talento precoce para a escrita, decidiu que era aquilo que queria ser na vida.

Foi se aproximando, oferecendo serviço, mostrando textos. Deram-lhe algumas reportagens fáceis para o testarem. E foi ficando, quebrando galhos, preenchendo lacunas.

Acabou incorporado à equipe da edição de Esportes do Jornal da Tarde, que saía às segundas-feiras e era uma grande atração do então florescente vespertino. Mas sem registro, embora recebesse uma remuneração mensal. Coisas do capitalismo.

Pobretão, humilde, afável, dedicado, era o colega que todos tinham vontade de ajudar. E a oportunidade de efetivá-lo que surgiu era daquelas que ninguém recusaria: cobrir o circo da Fórmula 1, indo de país em país para descrever os preparativos de cada etapa, as provas em si, as coletivas no encerramento. 

Seria um presente dos céus para qualquer um, menos para o Apollo. A ideia de ficar longe dos pais e da família enquanto perambulava pelo mundo como um cigano o horrorizou. Deixou a chance passar.

Gostava mesmo é do batente de redação. Lembrava com orgulho de seu espírito de iniciativa quando as tropas do general golpista Olympio Mourão Filho começaram a se movimentar em direção ao Rio de Janeiro no funesto 31 de março de 1964. 
A sede antiga do Estadão

Foi o primeiro a ler o despacho do correspondente do Estadão em Juiz de Fora e, de imediato, se deu conta da importância da notícia: foi entregá-lo diretamente nas mãos do dr. Júlio [Mesquita, o patrão], avaliando que a urgência o autorizava a não respeitar os degraus hierárquicos.

Fundada a Agência Estado em 1970, finalmente se tornou jornalista com carteira assinada, fazendo exatamente o que queria e amava.

Mas, com o tempo iria caindo na real. Nem a pena movia montanhas amiúde, nem apenas o bom desempenho conduzia alguém sem protetores influentes ao topo da profissão.

Uns 17 anos depois, caiu-lhe outra ficha: a de que seu trabalho na sub-chefia (abaixo apenas do chefe da redação, Sircarlos Parra Cruz) lhe rendia apenas uma merreca a mais do que ganhavam os redatores comuns e o obrigava a esticar o expediente por várias horas que não lhe eram pagas.

Pediu aumento e, quando mesquinhamente o negaram, optou por abrir mão da sub-chefia e receber um pouco menos para ter muito mais tempo livre. Mas, não era a solução que almejara. Suas mágoas ainda eram grandes quando o conheci, em 1988.

Foi um caso de amor à primeira vista... pelos textos que escrevi no processo de seleção. Incumbido da escolha do melhor candidato, o Apollo decidiu por mim. E, quando houve resistências em função do meu passado guerrilheiro, ele (sem me conhecer) afiançou que isto não seria problema. Só vim a saber muito depois.

Tornamo-nos amigos, algo previsível em função das muitas afinidades que tínhamos, como jornalistas e como pessoas. Inclusive a de ele ser kardecista e eu haver passado uns seis anos da minha meninice frequentando um centro espírita com minha mãe. Então, mesmo tendo deixado as religiões de lado, eu entendia os papos dele sobre o espiritismo e podia trocar ideias com conhecimento de causa.
"de bem com a vida, espalhando boas vibrações"
Quando estava prestes a estrear A última tentação de Cristo, que causara muitas polêmicas pelo mundo, eu recebi convite duplo para a pré-estreia, pois continuava escrevendo sobre cinema para algumas revistas. 

Levei o Apollo e percebi que lhe deu enorme satisfação conhecer aquele círculo sofisticado e poder depois conversar com os colegas da redação sobre um filme que ainda não estava em cartaz e nenhum deles assistira. 

Era singela sua reação, um homem vivido, 15 anos mais velho do que eu, que se fascinava com aquilo que para mim virara rotina há muito tempo. Tal encantamento de menino, fui percebendo, era uma característica sua, daí estar quase sempre de bem com a vida, espalhando boas vibrações ao seu redor.

Já marchando para a aposentadoria, lá pelos seus 55 anos, tomou a temerária decisão de demitir-se para dar assistência ao pai que estava no final da vida. Disse-me que o velho era pesado e suas duas irmãs não aguentariam carregá-lo para o banheiro, além de ser uma situação constrangedora para as duas partes.

[Apesar de nunca lhes ter sobrado dinheiro, poderiam contratar um enfermeiro, claro. O que o Apollo queria, sobretudo, era dar amor e consolo ao pai nos meses finais. Talvez tenha evitado reconhecer isto por recear que soasse piegas.] 
Temer era secretário da Segurança no início dos '90

O FGTS foi suficiente para bancar o quase um ano que ele passou cumprindo, em tempo integral, o dever de bom filho.

Óbito consumado, já não havia emprego à sua espera na Agência Estado, nem em redação nenhuma. 

O máximo que conseguiu foram uns frilas encomendados pela assessoria de imprensa de um amigo e um tempinho trabalhando no serviço de imprensa da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, cujo titular era... o Michel Temer!

Não tinha prazer em falar desta última fase. Só me lembro de me haver contado com mais detalhes um único episódio. Certa vez, durante uma coletiva, um repórter aparentemente bêbado começou a interpelar o Temer de forma muito ofensiva. Quando a paciência do amigo da onça chegava ao fim e ele parecia prestes a recorrer aos seguranças, o Apollo interveio.

"Deixe, que eu resolvo a situação", disse baixinho ao Temer. E, com seu jeitão bondoso, convenceu o esquentadinho a ir tomar café com ele lá fora. 

Era como sempre agia quando os ânimos esquentavam na redação: um apaziguador, que permanecia equidistante das partes e ia de uma à outra para aparar arestas e facilitar a reaproximação.
De jornalista a quebra-galho; mas nada o derrubava
Depois de dois ou três anos tentando ainda sustentar-se como jornalista, curvou-se à evidência dos fatos. Já ouvira as desculpas dos muitos conhecidos e quem não o conhecia tendia a negar-lhe emprego por considerá-lo velho demais ou pela sua aparência humilde e roupas baratas. 

[Jornalistas da velha guarda esmerávamo-nos em conseguir furos eóu redigir textos cada vez melhores, não dando muita bola para trajes nem para certificações formais, o que nos fazia malvistos pelos selecionadores profissionais.

Lembro-me de um que me perguntou que prato eu escolheria num cardápio em inglês e, claro, acabou aprovando um concorrente à mesma vaga. Tratava-se de um colega que eu conhecia de outros carnavais e, tão bem vestido quanto bem falante, travava quando incumbido de textos urgentes e importantes. Já o Apollo e eu os tirávamos de letra...]

A falta de reconhecimento dos seus méritos não derrubava o Apollo; tocou a vida, trabalhando até como pedreiro, mecânico e corretor de imóveis. Enquanto as irmãs (ambas professoras, uma delas diretora de escola) estavam na ativa, viviam um pouco melhor. Quando elas se aposentaram, os três tiveram de apertar mais um pouco o cinto. Mas, seguiram adiante.
A formatura, no início de 2008

De quebra, Apollo realizou o antigo sonho de obter um diploma de jornalismo — que não lhe fora necessário para o exercício da profissão, pois nela já atuava quando o curso se tornou obrigatório para os ingressantes na carreira.

Mesmo sem esperança nenhuma de voltar ao jornalismo diário, passou quatro anos nas Faculdades São Judas Tadeu e, septuagenário, se graduou brilhantemente.

Remoçou uns cinco anos nesta fase. Dava-lhe imenso prazer iniciar os meninos (seus colegas) nas práticas e segredos da profissão. E familiarizou-se com a internet, passando a usar e-mails para espalhar seus textos entre as dezenas de jornalistas que conhecia.

Foi colaborador de blogs da jornalista carioca Ana Helena Tavares, como o Quem tem medo da democracia?depois, dos meus.

E andou bancando impressões baratas do seus textos, que entregava de graça para moradores de rua venderem. Uma pequena contribuição, mas a única que estava em condições de dar, para a subsistência dos excluídos.

Estaria bem melhor financeiramente não fosse a insensibilidade de burocracias kafkianas como a do INSS, que negou-lhe aposentadoria integral porque... ela própria perdeu (e admitiu ter perdido) as provas que o Apollo anexou ao processo no qual a pleiteava, relativas a quase uma década que trabalhou sem registro nas empresas do Grupo Estado

[Mesmo se o extravio tiver mesmo sido acidental, a aceitação desta tese abriria um precedente juridicamente aberrante, pois os reclamados poderiam dar sumiço em tudo que lhes causasse problemas...]
Uma burocracia kafkiana lhe
negou aposentadoria integral
Indignava-se, mas não perdia o sono, quando recebia más notícias sobre seu pleito; no dia seguinte, irradiava a costumeira alegria de viver. 

Não podia comprar roupas? Aceitava de bom grado as que um sobrinho dispensava por estar crescendo rapidamente. 

Sua lata velha lhe acarretaria multas se com ela trafegasse pela cidade? Passou a usá-la só no próprio bairro, até que nem para isto servia mais. Não tinha grana para comprar outro carro? O cartão de idoso lhe bastava...

Só superestimou sua resistência a doenças, até porque parecia imune a elas. Então, jamais se preocupou em ter um convênio de saúde, nem deixou os amigos e conhecidos saberem que não possuía nenhum. 

Octogenário, sem fazer exames periódicos, foi surpreendido por um câncer de medula que se alastrou rapidamente e o matou em três meses. 

O que mais ouvi dos presentes ao velório e ao enterro foi que só então perceberam, em toda sua extensão, a falta que o Apollo faria em suas vidas. Talvez porque, eles como eu, tínhamos a impressão de que estaria sempre ao lado, alegrando-se conosco nos bons momentos e ajudando-nos a superar os maus. 

Quando o caixão baixou à terra, nenhum de nós tinha a ilusão de que encontraria adiante quem cumprisse o mesmo papel. Era insubstituível. 
Enquanto o Apollo era vivo, nunca me ocorreu ter de explicar a quem não o conhecia por que, afinal, se tratava de uma pessoa tão diferente, exemplar de uma espécie quase extinta nos tristes tempos presentes.

Fui, infelizmente, obrigado a fazê-lo nos dias seguintes àquele devastador 30 de julho. E o que me veio à mente foi a lembrança de uma cena emocionante de Irmão Sol, irmã Lua (d. Franco Zeffirelli, 1972), quando o papa Inocêncio III muda a atitude da Igreja com relação a São Francisco de Assis, acolhendo-o e afirmando: "Em nossa obsessão com o pecado original, às vezes nos esquecemos da inocência original".

Não que se trate de um grande filme, longe disto. Mas é um trecho que impacta. Ademais, o despojamento e a frugalidade franciscana eram características marcantes do Apollo, um kardecista que talvez nem se desse conta disto, pois jamais me disse uma palavra sequer sobre os santos católicos.
Insuspeitadas afinidades com São Francisco de Assis

Outra afinidade: sua visão religiosa era bela e pura, como se constata na crônica (vide aqui) em que comparou o nosso sistema solar a uma árvore de natal e se referiu ao Cristo como um pixotinho judeu aniversariante.

Foi um dos melhores cronistas que algum dia li. Não fazia má figura como repórter, noticiarista, redator, editorialista e editor, mas nas crônicas se superava. 

Percebia-se nele um homem que sempre convivera com as pessoas simples, conhecia profundamente a realidade das ruas, a tudo observando com olhar compassivo, solidário à dor dos humildes e sempre disposto a ajudá-los no limite de suas forças e recursos.

Por suas crônicas desfilam personagens inesquecíveis:
  • intelectual de rua Cláudio Bongiovani (vide aqui e na foto abaixo), químico formado, que perdeu a  família num acidente automobilístico e passou a vagar sem rumo, até se tornar o personagem exótico que hoje vende revistas de uma entidade de ação social e consegue ter pelo menos um teto modesto para chamar de seu;
Bongiovani, de químico a intelectual de rua
  • sua avó materna (vide aqui), que respondia com amor cristão às infidelidades do marido, a ponto de não hostilizar a amante que este ousou um dia trazer para pernoitar em casa ("A minha santa vovó do mato era de outro planeta, embora fosse mulher, mulher, mulher, mulher, meu Deus do céu!  O que outra mulher teria feito no lugar dela? O que todas as outras mulheres fariam no lugar dela?");
  • o bombardeiro Francisco Romero (vide aqui), que teria deixado de alterar o curso da nossa História ao desarmar a bomba por ele próprio plantada no vagão do trem em que viajaria um ditador, sem que ninguém ficasse sabendo do episódio afora os companheiros de quase-atentado;
  • Júlia Sapeca (vide aqui), nome que emprestou de uma música da época para renomear a menina inspiradora de sua primeira e frustrada paixão, pois, apesar das mágoas de outrora, continuou sendo cavalheiro pela vida adentro e seria "grosseiro" identificar claramente quem se tornara mãe e avó, com "cabelos branquinhos, branquinhos", que ele reviu um dia "subindo uma ladeira, bem devagar, se segurando nas paredes". 
La Cucaracha era mesmo hino... de Pancho Villa!
E tantos outros, reais, inventados e até meio a meio, como as crônicas do além em que nos colocou em contato com os espíritos de Tancredo Neves (vide aqui), Getúlio Vargas e Carlos Lacerda (ambos aqui).

Sua imaginação voava alto. É uma graça, p. ex., a crônica (vide
 aqui) na qual ele propôs uma revolução diferente para o Brasil, uma revolução de costumes políticos, cujo hino fosse... La Cucaracha! 

Assim como o discurso que ele se imaginou proferindo no STF (vide 
aqui), com direito a puxão nas orelhas dos meritíssimos:
"Ouçam o lamento de um povo, supremos ilibados juristas, o lamento de todo um povo, e derrubem já o foro privilegiado"
Era uma das guerras santas do Apollo, que queria ver a igualdade de todos perante a lei prevalecer sobre o corporativismo dos altos serviçais da classe dominante.

Outra, a defesa da necessidade do diploma para o exercício da profissão de jornalista, que lhe inspirou candentes catilinárias. E não só, pois numa delas (vide aqui) o Apollo revelou:
"Desde a traumatizante decisão do STF que derrubou a  obrigatoriedade, venho manifestando em prosa e verso meu tormento com aquela postura cavernosa do tribunal maior do país. 
Enviou cartas ao Congresso inteiro em defesa do jornalismo
Meus mais aflitivos lamentos em defesa da obrigatoriedade do diploma de jornalismo traduziram-se no envio de mais de 600 cartas, a cada um dos 80 senadores, 520 deputados federais e às Mesas Diretoras do Senado e da Câmara".
Ele acreditava que mandar uma carta pelo correio impactava mais do que o envio de e-mails. Chegou até a escrever uma crônica (vide aqui) em louvor às cartas manuscritas de outrora.

Botava tanta fé na força de suas palavras datilografadas na folha em branco, com assinatura no final, que nunca tive coragem de dizer-lhe que a quase totalidade dos parlamentares, juízes e membros do Executivo delega a subalternos a abertura da correspondência. 

Estes raramente colocam na mesa do chefe as mensagens esperançosas ou aflitas de cidadãos para eles desconhecidos. Dão mais importância a um vereador de Santa Cruz de Minas (o menor município do Brasil) do que ao autor de um texto magistral como os do Apollo...

Muitas cartas ele remeteu na década passada, esperando conseguir que fosse rapidamente reconhecida minha condição de perseguido político durante a ditadura militar; e na década atual, para que parassem de boicotar, com manobras protelatórias, o recebimento de uma indenização retroativa que o ministro da Justiça me concedera (deveria ter sido paga em 60 dias e, mais de uma década depois, ainda não o foi). 
"ele não se conformava ao ver a pior face das pessoas"

Era amarga a decepção dele quando, a mando de ministros e até da presidente da República, algum burocrata empedernido respondia com desconversa, saindo pela tangente e até fingindo não haver entendido direito o que estava bem claro na mensagem do Apollo. 

Eu, que dessa gente só esperava o pior, absorvia facilmente o golpe. Ele, que sempre esperava o melhor das pessoas, não se conformava ao ver-lhes a pior face: a verdadeira.

Também me comovia seu desencanto com os rumos do jornalismo, a ponto de haver dito certa vez que não lamentara tanto lhe terem impossibilitado a readmissão na Agência Estado após a morte do pai, pois não se identificava com a nova realidade das redações (em que os ganhos tecnológicos chegam junto com a perda do idealismo e o embotamento da solidariedade para com os indefesos). 

Eis um trecho da pungente crônica (vide aqui) na qual lamentou o fim de uma de suas mais caras ilusões:
"Eu acreditava ter a imprensa o poder de transformar a realidade. Tal era minha ingenuidade!
Oh, que saudade da minha infância querida e ingênua, do meu tempo das reportagens, editorias e fechamento de páginas na redação, em que me sentia um rei ao fazer o feijão com arroz que o patrão mandava. 
Seis décadas depois, a constatação amarga e definitiva de que a humanidade (leia-se políticos) não presta. Jamais fui apresentado a nenhum dos dois honestos. É a confirmação acadêmica de que o exercício do jornalismo não muda a realidade. Dá vontade de desistir. Eu juro!"
Muito eu ainda poderia escrever sobre o grande amigo e o jornalista por vocação e teimosia, que tantas barreiras transpôs para chegar aonde sonhara, sem, contudo, jamais obter reconhecimento à altura do seu enorme talento.

Mas, nas redações e na vida, tudo tem um fim. E eu temo que, se alongasse este tributo, haveria cada vez menos leitores a acompanhá-lo, salvo nossos contemporâneos, os idosos.

Pois o Apollo teve uma grandeza característica de outros tempos, quando os homens cordiais eram admirados e o mundo inteiro admirava nosso país; hoje, no Brasil das balas perdidas e das pessoas perdendo a cabeça por superfluidades, os Narcisos engendrados pela sociedade de consumo cada vez mais preferem viver só o presente, sem compromisso com o futuro de sua gente e achando tedioso o passado.

Eu, Celso Lungaretti, desta vez coloco fora de lugar a minha assinatura, antecipando-a por um bom motivo: a palavra final só poderia pertencer ao Apollo! 


Fui buscá-la numa crõnica simplesmente maravilhosa (vide aqui), em que ele fala de "uma florzinha roxinha meio azulada grudada no chão do meu portão" e de "uma passarinha mãezinha que recolhe migalhas de pão no chão e deposita no bico do filhote". Eis os parágrafos finais:
"Florzinha, pardalzinho, ouçam, eu também entro e saio da minha casa todo santo dia, e vai chegar um momento em que vou entrar e não vou voltar mais. A mando de um poder maior, chega também para mim o tempo de ir embora. Saio carregado por quatro mãos agarradas àquelas alças douradas, sagradas, que sustentam corpos sem vida.
Mas não vai terminar nunca a festa de cores e de vida intensa na companhia desses meus amiguinhos.
Quando eles voltarem amanhã e tornarem a encher de alegria meu velho coração, vou correndo fazer um pedido aos dois. 
Pedir que supliquem ao poder maior para deixar-me encontrar com eles no outro lado da vida, em algum portão, alguma parede velha aconchegando uma flor roxinha-azulada-princesinha, alguma escada encurvada para mamãe passarinho subir..." 

terça-feira, 26 de maio de 2020

EDITORIAL DO BLOG: ASSIM COMO CALIBÃ, BOLSONARO NÃO SUPORTA VER SUA FACE HORROROSA NO ESPELHO DA IMPRENSA

Jornalistas da Folha de S. Paulo, do UOL, da Band e do Grupo Globo não mais cobrirão o simulacro de entrevista coletiva que o pior presidente da República do Brasil em todos os tempos armava sempre às manhãs, mais parecendo um mafuá de grotão do que o cumprimento da obrigação que todo governante tem de prestar conta à opinião pública dos atos por ele praticados no exercício do cargo.

Há muito, com toda razão, o veterano Ricardo Kotscho (uma das lendas vivas da nossa imprensa, quatro vezes ganhador do Prêmio Esso de Jornalismo) já vinha conclamando os jovens colegas a não participarem daquele espetáculo matinal grotesco, durante o qual eram expostos ao achincalhe dos mentecaptos que iam lamber os pés do seu mito

Infelizmente, tal decisão está sendo tomada com enorme atraso e por decisão de empresas jornalísticas, não dos profissionais do jornalismo.  

Enquanto isto, por todo o país pipocam os insultos e as agressões  às equipes de reportagem, ou seja, atingindo tanto os repórteres quanto os fotógrafos e motoristas (embora estes não determinem o enfoque que será dado à notícia).
Profissionais tentando trabalhar, apesar das condições indignas que lhes são impostas
Será necessário matarem outro Vladimir Herzog para os colegas das novas gerações se tocarem de que há situações em que precisam reagir, acima de tudo, como cidadãos? E que não faz parte dos seus deveres servirem de sacos de pancadas para hordas de celerados açuladas por um presidente totalmente desequilibrado?! 

A escalada de agressões a jornalistas só tem feito aumentar desde que o miliciano do baixo clero passou a enverg(onh)ar a faixa presidencial. E, enquanto ele estiver sabotando o funcionamento de todas as instituições da vida civilizada, como o faz com o combate à pandemia, não se pode esperar que jornalistas sejam poupados.
Fanáticos boçais e raivosos tudo fazendo para atrapalhar, instigados por um presidente ensandecido.
O fim das arbitrariedades consentidas e até estimuladas pelas autoridades só chegará com a remoção da excrescência que hoje comete um genocídio e arma seus zumbis para uma guerra civil estuprando as franquias democráticas e utilizando para seus próprios e ignóbeis fins  todo o peso do cargo que aberrantemente ocupa.

Até lá, colegas jornalistas da ativa, resistir é preciso!  (por Celso Lungaretti, em nome da esquipe do Náufrago da Utopia)  

sábado, 16 de novembro de 2019

A VERDADEIRA HISTÓRIA DO BEBÊ-DIABO

Vou relatar toda a história sobre o nascimento de um menino com chifres e rabo em São Bernardo do Campo, região do ABC Paulista, que viraria um marco no jornalismo brasileiro.

Em 1975 eu trabalhava pela manhã como repórter policial no jornal Correio Metropolitano, em Santo André, no ABC, e à tarde no jornal Notícias Populares, pertencente ao Grupo Folha, como repórter especial. 

José Lázaro Borges Campos, falecido, amigo inesquecível, era o editor de polícia do NP. Ibrahim Ramadan, nessa época, o diretor de redação.

Eu e o Lazão, assim ele era conhecido, morávamos em Santo André e todos os dias seguíamos juntos para o NP, no 5° andar da Folha de S. Paulo, na Alameda Barão de Limeira. No mês de maio daquele ano corria forte um boato dando conta do nascimento de um bebê que tinha chifres e rabo, num hospital de São Bernardo, que aterrorizava enfermeiras, médicos, falava grosso e até soltava fogo pela boca.
Com o passar dos dias, o boato se alastrou de tal forma que em todos os cantos das sete cidades do ABC só se falava nessa estranha criatura. (...) 

Com tantos comentários, Lázaro Campos me incumbiu de apurar os fatos e escrever uma nota sobre esse boato para o NP de domingo. 

Falei com a direção do Hospital São Bernardo, enfermeiras (os) e médicos. (...) Na verdade, garantiram-me os médicos, um bebê nascera com um prolongamento no cóccix e duas pequenas saliências na testa, problemas resolvidos com uma simples cirurgia na própria maternidade.

Escrevi esse relato, sem nenhum sensacionalismo, no dia 10 de maio de 1975, um sábado e deixei o texto, de 30 linhas, sobre a mesa do Lázaro. O jornal estava para ser fechado e eu desci para esperá-lo na padaria da esquina. Fomos embora juntos, sem comentar nada sobre jornal. No domingo pela manhã percebi que a banca de revistas perto de casa estava repleta de pessoas comprando o NP.
O Frias pai hoje é nome de ponte no Brooklin paulista...

Curioso, me aproximei e consegui o último exemplar que trazia a seguinte manchete: Bebê-diabo nasce em SBC. Fui à página 5 e gelei. Minha assinatura estava abaixo da manchete forçada. Fiquei apavorado, temendo processo e a demissão do jornal por justa causa.

...Entrei cabisbaixo no prédio da Folha. Na verdade, estava apavorado. Fiquei mais ainda quando recebi o aviso para me dirigir, imediatamente, com o Lázaro, à sala de Octávio Frias de Oliveira, dono do Grupo Folha.

Entramos assustados na sala de Frias, esperando um sermão, antes da demissão. Pelo contrário. O homem, que eu ainda não conhecia pessoalmente, estava sorrindo e nos estendeu a mão, cumprimentando pela manchete e informando que, pela primeira vez na história, o NP bateu todos os recordes de venda em bancas.

Custei a acreditar que tudo aquilo era verdade. Segurava a xícara com café, oferecida pelo Frias, com dificuldade, tremendo e ouvindo somente elogios. E a ordem era para darmos sequência no assunto.  
...mas, seus critérios eram estes
E assim foi feito. A notícia tornara-se uma bola de neve. A tiragem do periódico, que era de 80 mil exemplares, ultrapassara a marca dos 200 mil. O povo acreditou na história e o NP começou a inventar uma saga para o bebê-diabo. O caso permaneceu na primeira página do jornal por inacreditáveis 37 dias.

Nas manchetes que seguiram, o bebê-diabo infernizou pessoas, pulou em telhados, pediu sangue para beber, tocou campainhas, palitou os dentes com um facão e até parou um táxi à noite, deixando o motorista assustado ao falar que o destino da corrida seria o inferno.

Amado por uns, odiado por outros e temido por milhares, o bebê-diabo aterrorizou moradores de São Paulo e do Brasil, mesmo sem ter existido. (depoimento publicado em 2008 do repórter, escritor e radialista Edward de Souza, o pai do bebê-diabo)
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