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domingo, 15 de junho de 2025

PASSEI A MINHA VIDA ADULTA INTEIRA VENDO ISRAEL FAZER OS ÁRABES DE SACO DE PANCADAS; MUITO SOFRE QUEM PADECE

As charges são do Jota Camelo
Eu começava a prestar atenção nos grandes acontecimentos mundiais quando ocorreu a chamada
guerra dos seis dias, em junho de 1967: Síria, Egito, Jordânia e Iraque, apoiados pelo Kwait, Arábia Saudita, Argélia e Sudão, foram derrotados de forma acachapante por Israel, apesar de sua evidente superioridade em efetivos e recursos.

Passei o resto da vida vendo os árabes serem triturados impiedosamente pelo estado sionista, sempre com o apoio declarado ou velado dos EUA e a despeito das condenações inócuas da ONU, olimpicamente ignoradas pelos genocidas da estrela de Davi.

O enredo se repete mais uma vez; já faz parte da ordem natural das coisas. Só quando algo nele mudar justificará uma análise mais aprofundada. Mais do mesmo vale apenas o tamanho deste post.

Não gosto de assinar protestos ou dar declarações indignadas quando sei de antemão que de absolutamente nada adiantarão. 

Posso passar anos travando uma luta extremamente desigual para nosso lado, como foi aquela contra a extradição de Cesare Battisti no período 2008/2011, desde que vislumbre uma mínima chance de vitória. 

Mas não perco meu tempo quando nem isto existe, pois detesto sentir-me impotente para mudar o curso de acontecimentos deploráveis. Sou guerreiro, não carpideira.

Nesses casos em que nada há que compense fazer, nada faço. Sigo o exemplo do Paulo Francis dos bons tempos, que encerrava o assunto dizendo muito sofre quem padece e passava a ocupar-se das campanhas que não tinham desfecho predeterminado. 

Mas, a semelhança acaba aí. Ele, depois da sua última grande fase (a de quando era o guru do Pasquim), acabou desistindo de todas as cruzadas idealistas, e isto eu não fiz nem farei. 

Tenho 74 anos e continuo pronto para ir em qualquer lugar, correndo o risco que houver, mesmo me arrastando com minha muleta, se depender de mim uma vitória no bom combate. 

Aí a minha inspiração vem de outro exemplo, o de Gilberto Gil na canção Viramundo: "Prefiro ter toda a vida/ a vida como inimiga/ a ter na morte da vida/ minha sorte decidida". (por Celso Lungaretti)

sábado, 22 de junho de 2024

AINDA SOBRE AS CRIANÇAS, A PUTARIA, O FUNDAMENTALISMO RELIGIOSO E AS DEMAGOGIAS ELEITOREIRAS

Paulo Francis, que foi um guru do pensamento crítico nas fileiras da esquerda até a fase do
Pasquim mas depois se desencantou e descaracterizou de forma melancólica, dizia que o espaço das cartas de leitores na grande imprensa era qualificado pelos jornalistas profissionais de muro das lamentações, pois nenhum deles o levava a sério.

Eu, pelo menos, sempre respeitei os comentaristas, até porque devo já ter transformado em artigos pelo menos uma centena das respostas que dei a eles. 

Meus melhores textos e melhores falas costumam ser os que me vêm à mente no meio de uma argumentação, às vezes até contrariando a linha de pensamento que eu vinha seguindo. E nunca fui preguiçoso a ponto de desperdiçar o rumo que o artigo tomou sozinho só para não mexer um pouco no que já estava escrito.

Então, graças aos pertinentes comentários do SF ao meu artigo  sobre o antepenúltimo sincericídio desastroso do Lula, posso agora acrescentar um complemento àquele post que, espero, vá enriquecer a discussão que levantei. Tomara que os leitores concordem. (por Celso Lungaretti)
.
JÁ NÃO DÁ MAIS PARA BOTARMOS CRIANÇAS SOB UMA REDOMA
Essa imagem do menor de idade como anjinho assexuado foi feita em cacos há 119 anos, quando Freud publicou seu Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Temos é de preservar as etapas de amadurecimento sexual pelas quais passam as crianças, impedindo que adultos maliciosos as acelerem para locupletarem-se, traumatizando os pimpolhos.
  
Já não dá mais para colocarmos crianças sob uma redoma, tentando vedar-lhe o contato com os conteúdos adultos. Não se deve nem se consegue censurar toda uma sociedade na era da internet.

Ainda no tempo das fitas VHS, uma amiga minha, voltando para casa numa tarde mais cedo do que o habitual, surpreendeu seus filhos e outros colegas de escola, todos numa faixa de 12 anos, assistindo a um filme de sadomasoquismo explícito que haviam retirado da videolocadora com a carteirinha paterna.

Quanto aos fundamentalistas religiosos, sua idealização da inocência infantil não passa de uma ilusão compensatória por eles saberem-se apodrecidos até a medula. 

Isso, aliás, me faz lembrar uma frase antológica do filme Exótica (1994), do Aton Egoyan, quando o comentarista de uma boate sofisticada pergunta à plateia, durante o número de uma stripper produzida como estudante: "Por que uma colegial nos parece tão fascinante, será porque ela tem a vida inteira pela frente enquanto nós já desperdiçamos as nossas?"

Levar essa gente a sério, nem que seja por demagogia eleitoreira como no caso do Lula, é absolutamente indesculpável para as pessoas civilizadas.

Retrocesso civilizatório só convém aos bárbaros. A frase do Lula me fez lembrar o Bolsonaro recomendando a cloroquina no auge da covid-19. (CL)

terça-feira, 7 de maio de 2024

SOBRE O DILÚVIO GAÚCHO, A IMINÊNCIA DO FIM, A WEB DA SERPENTE E O INFERNO BOCÓ

Tragédia maior do que as mortes, os refugiados, os dramas e os danos causados pelas enchentes no Rio Grande do Sul é a certeza de que, assim como praticamente nada se fez para atenuar o previsível impacto de tudo isso, nada se fará depois que o dilúvio gaúcho cessar e outro horror qualquer, em qualquer outro lugar do planeta, se tornar o assunto do momento.

Que o aquecimento global e as alterações climáticas produzirão cada vez mais e piores catástrofes passou a ser, já no século passado, um óbvio ululante. E não dá para continuarmos nos iludindo quanto ao fato de que o fim da espécie humana nos espera adiante, bem mais cedo do que supúnhamos. A única dúvida é quando, como e se há escapatória possível.

Bem vistas as coisas, a única esperança que resta é a de que uma ocorrência mais apocalíptica ainda enfim convença todos nós a enfrentarmos unidos nosso pior desafio desde que saímos das cavernas. 

Isto esteve próximo de acontecer em 2011, quando um megaterremoto seguido de um tsunami quase causou ao Japão uma devastação ainda maior que a das bombas atômicas em 1945.

A pergunta que não quer calar é se tal ocorrência apocalíptica sucederá antes ou depois de as consequências cumulativas do aquecimento global se tornarem impossíveis de reversão.

Pois o pior pesadelo será sermos dizimados pelas catástrofes pipocando no mundo inteiro sem sequer vislumbrarmos uma chance de sobrevivência, como os condenados à morte que só esperam a data da execução. 

Vou encerrar com uma autocrítica. Eterno otimista, cheguei a acreditar que a quase impossível (dada a desigualdade de forças) vitória conquistada pelo nosso lado em 2011 no Caso Battisti, contra os poderes avassaladores da imprensa burguesa e as pressões escandalosas de um país do 1º mundo, prenunciavam um cenário no qual a internet nos permitiria confrontarmos com êxito a lavagem cerebral da indústria cultural.

Hoje vejo que aquela foi apenas uma moeda que caiu em pé, com a web em seguida se revelando um ovo da serpente: amplificadora não do pensamento crítico, mas sim da ignorância, do egoísmo e dos preconceitos da maioria da população nesta sociedade reduzida a terra arrasada pela ganância capitalista. 
A igualação não se deu por cima, como sonhei e tantos outros idealistas sonharam, mas bem por baixo, descendo até ao nível do esgoto bolsonarista. 

E, como o simplismo panfletário das fake news é bem mais compreensível para os simplórios do que uma visão crítica dos fenômenos sociais, nunca tantos fizeram seus zurros ecoarem tanto e causando tantas distorções na vida social quanto nestes melancólicos tempos presentes. (numa linha próxima à minha, recomendo a leitura deste ótimo artigo do economista e filósofo Joel Pinheiro da Fonseca).

Paulo Francis, que morreu em 1994, cunhou a expressão inferno bocó (ou pamonha) para denominar o estado de embrutecimento a que foi reduzida a vida cultural na sociedade de consumo, à medida que a prioridade suprema passou a ser a de bajular o consumidor e espelhar suas limitações. 

Não tinha ideia de quão imenso ainda viria a ser o retrocesso civilizatório. (por Celso Lungaretti)

terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

OS FANTASMAS DO SÉCULO 20 AINDA ARRASTAM CORRENTES, MAS JÁ SE TORNARAM INOFENSIVOS.

Quem comprará jornais e revistas obsoletos, acompanhará o mofino noticiário político pela internet, assistirá aos telejornais tediosos e escutará o mais do mesmo das rádios se lhe cair a ficha de que quase tudo que está em evidência não alterará em nada o rumo real dos acontecimentos?

Paulo Francis estava certo, a indústria cultural fez de nós patetas vivendo num inferno pamonha

Assim, as análises que tenho lido sobre a Micareta da Paúra do Xilindró se limitam a discutir:
— quantas reses atenderam ao berrante do Bolsonaro (quando a olho nu deu para concluirmos que foi uma manifestação igual a tantas outras ocorridas na avenida Paulista desde o #ForaDilma, nem insignificante, nem retumbante);
— se a influência do genocida maluco aumentou ou diminuiu (isto sob os critérios viciados da política institucional, ou seja, considerando ganho a volta de alguns governadores patéticos ao palanque ultradireitista);
— a possibilidade de o chororô repulsivo do fanfarrão acovardado lhe assegurar a impunidade que não merece nem obterá, etc.

Resumindo: mera espuma, sem nada de verdadeiramente relevante. Muita galinha e pouco ovo. Conversa pra boi dormir. 

Então, vamos ao que efetivamente importa.
A extrema-direita mostrou no último domingo (25) que já perdeu o discurso, as garras e o líder.

Depois do vexame que o Bolsonaro protagonizou ao pedir arrego publicamente, levantando a bandeira da paz porque já não tem como sustentar mais nenhuma guerra, nem mesmo como manter-se fora das grades, a tendência é que a direita civilizada recupere as rédeas.

Lula.3 está aí para comprovar que os donos do PIB podem manter sua dominação sem sobressaltos, por meio do avassalador poderio econômico de que dispõem e da lavagem cerebral efetuada dia e noite por sua indústria cultural. Por que eles haveriam de novamente bancar loucuras estridentes que só assustam o mercado e afugentam investidores? 

Então, a tendência é de a direita quadrúpede doravante ir saindo de cena e a bípede preencher  seus espaços, com o centrão continuando a governar e os presidentes da República sendo cada vez mais reduzidos a rainhas da Inglaterra.

É este o inimigo que devemos nos preparar para combater. Os fantasmas do século passado ainda arrastam correntes, mas já se tornaram inofensivos. 

E, como havia um vendilhão do templo no palanque dos golpistas derrotados e foi ele quem proferiu o mais raivoso discurso de ódio, vou encerrar com Gênesis 19:26-29
"Mas a mulher de Ló olhou para trás e foi transformada numa estátua de sal". (por Celso Lungaretti) 

sábado, 11 de junho de 2022

DILMA CONTINUA AQUELA MESMA QUE SANCIONOU A LEI ANTITERRORISMO

"
revolução é uma grande devoradora de energias
 individuais e coletivas. Os nervos não aguentam,
as consciências vergam-se, os caracteres
consomem-se" (Leon Trotsky)
Incomodada porque outro passageiro a clicou num voo internacional e depois postou a foto com um comentário zombeteiro em redes sociais, a ex-presidente Dilma Rousseff recorreu à justiça burguesa e o engraçadinho vai pagar R$ 25 mil por danos morais. 

De quebra, tal condenação deverá servir como munição jurídica para policiais e outras autoridades cujos excessos são registrados por cidadãos com seus celulares e expostos na internet. Mas, como de hábito, não ocorreu à Dilma tal obviedade, focada sempre em si mesma e em qualquer ninharia que melindre o seu ego descomunal. 

Ela não percebeu até agora que toda a sua desgraça decorreu de ter-se convertido irrestritamente aos valores republicanos, por ela louvados de boca cheia o tempo todo, quando de sua desastrosa passagem pelo Palácio do Planalto.

Se continuasse revolucionária, teria se prevenido contra a possibilidade de perder o mandato por causa das tais pedaladas fiscais, que eram, sim, motivo constitucional para impeachment, só que nunca haviam sido utilizadas para tanto. 

Mas, desacostumada a ver-se como perseguida e injustiçada tal qual os revolucionários costumamos ser, nem lhe passou pela cabeça que poderia ser defenestrada em razão de sua pequena maquilagem das contas públicas (um artifício para esconder dos eleitores o estado calamitoso no qual as ditas cujas se encontravam, prenúncio de uma grave recessão).

E agora, republicanamente, buscou uma compensação tão exagerada por algo que qualquer revolucionário encararia como uma besteirinha, já que somos alvejados o tempo todo com chumbo bem mais grosso. 
Dilma apoiando a Copa das Maracutaias, na
contramão dos manifestantes do #NãoVaiTerCopa
Além disto, temos bem claro em nossas mentes que, como críticos inconciliáveis das instituições burguesas, só devemos acioná-las (implicitamente legitimando-as) em circunstâncias extremas e não por dá lá aquela palha.

Tendo o sujeito retirado a nota de onde a havia postado, por que não exigiu dele apenas um pedido de desculpas nos mesmos espaços em que a publicação  estivera no ar?

Mas, o que se poderia esperar de quem foi capaz até de ignorar a bestialidade policial nos protestos de junho de 2013, lamentando unica e exclusivamente os ferimentos de um comandante daquela repressão desembestada (a despeito de dezenas de jornalistas e manifestantes terem sido barbarizados e haverem sofrido lesões permanentes), bem como de sancionar uma fascistoide Lei Antiterrorismo?

Assim como Lula, a Dilma já esteve do nosso lado da trincheira, mas isto, parafraseando o Paulo Francis, foi noutros tempos e aquela pessoa não existe mais. A revolução é uma grande devoradora de caracteres. (por Celso Lungaretti) 

terça-feira, 1 de março de 2022

ELE FOI UM IMPRESCINDÍVEL NA RESISTÊNCIA DA IMPRENSA À DITADURA

jornal carioca Correio da Manhã foi o primeiro veículo da grande imprensa a posicionar-se firmemente contra a quartelada de 1964.

Reunia uma plêiade de grandes jornalistas de esquerda, como Antonio Callado, Carlos Heitor Cony, Hermano Alves. Jânio de Freitas, Márcio Moreira Alves, Paulo Francis e Sérgio Augusto. 

Muitas das contundentes crônicas políticas que Cony escreveu logo após o golpe foram lançadas em livro (O ato e o fato) ainda naquele ano.

E, assim como Paulo Francis viria a ser o guru d'O Pasquim, quem cumpria tal papel no Correio da Manhã era Otto Maria Carpeaux (1900-1978).

Daí o interesse com que devorei o tributo a ele prestado por André Rosa na Folha de S. Paulo desta 3ª feira (1º de março), com o título de Carpeaux, 80. 

André Rosa, para quem não se lembra, foi responsável por um grande momentos deste blog, ao liberar para publicarmos aqui a primeira tradução brasileira, de sua autoria, do monumental poema de Ievguêni Ievtuchenko sobre o massacre de Bábi Yar, um dos crimes mais hediondos da era stalinista (vide aqui). 

Como seu texto sobre o Carpeaux excede em muito a extensão habitual dos artigos deste blog e tem um enfoque mais apropriado para cadernos culturais, selecionei os trechos que considerei de maior interesse para o público do
Náufrago.  

Os interessados em lê-lo na íntegra, contudo, o encontrarão disponibilizado aqui. (CL)
Q
uando chegou ao Brasil, em setembro de 1939, após uma longa fuga da fúria nazista, Carpeaux ainda não sabia português. 

O seu único contato com a literatura brasileira até então havia se dado no momento da vinda, no navio, por meio de uma tradução francesa da crônica O Velho Senado, de Machado de Assis, emprestada da biblioteca de bordo. 

A recepção fraternal ao amigo que deixava para trás uma Europa em ruínas foi, sem dúvida, um fator determinante para o florescimento de uma obra vigorosa e criativa e seguramente evitou um destino trágico como o de seu compatriota Stefan Zweig.

Com o golpe militar de 1964, Carpeaux resolveu deixar a literatura para se dedicar à luta política. Tornou-se um opositor veemente da ditadura. Passou a escrever textos políticos para jornais como o Folha da Semana, ligado ao Partido Comunista Brasileiro, e revistas como a Encontros com a Civilização Brasileira, de Ênio Silveira, à época a mais importante publicação da esquerda.

Os seus prefácios já não figuravam mais entre livros de literatura, mas sim em obras engajadas como Argélia, o Caminho da Independência (Civilização Brasileira, 1966) e O Poder Jovem (Civilização Brasileira, 1966), de Arthur José Poerner. 
O Correio dedicou 10 páginas à 6ª feira sangrenta 
de 68; depois se soube que a ditadura matara 28 pessoas!
No entanto, para não dizer que a literatura ficou totalmente de lado durante os anos de enfrentamento, Carpeaux recorreu a Os Sertões, de Euclides da Cunha, a fim de fazer uma defesa da guerrilha do Caparaó.

Intitulado A Lição de Canudos, sempre atual, o texto de 1966 parte da resistência dos sertanejos para exaltar a insurreição armada. 

O texto, que circulou clandestinamente e sem assinatura, só foi descoberto na década de 1990, entre as coisas de Carpeaux...

Vale notar que, antes do Brasil, o caminho de Carpeaux já havia sido longo. Na Áustria, gozou da confiança de chefes de Estado e dirigiu algumas das mais importantes publicações católicas da Europa. Conheceu pessoalmente Franz Kafka e foi aluno de Benedetto Croce. 

Só conseguiu chegar ao Brasil, acompanhado de sua esposa Hélene Silberherz, por conta de uma intervenção do papa Pio 12 junto a Getúlio Vargas.

Aos poucos, como previu Antônio Houaiss, a fisionomia moral e intelectual de Otto Maria Carpeaux será reconstituída mediante um exame atento de sua obra. É importante que as novas gerações de leitores e estudiosos estejam atentas ao seu legado, que, entre nós, teve início há 80 anos e ainda não se esgotou. 
(André Rosa é jornalista, tradutor e mestrando
em literatura comparada pelo PPGCL‐UFRJ/Capes)

sábado, 12 de fevereiro de 2022

PAULO FRANCIS: ATÉ SEU AUGE COMO GURU DO "PASQUIM", ELE FOI UM TITÃ.

"Mas vocês, quando chegar o tempo

em que o homem seja amigo do homem,
pensem em nós
com um pouco de compreensão"

(Brecht, Aos que virão depois de nós)
Passou praticamente despercebido, na semana passada, o 25º aniversário da morte de um dos jornalistas brasileiros mais influentes da segunda metade do século passado: o analista político e crítico de cultura Franz Paul Trannin da Matta Heilborn, mais conhecido como Paulo Francis, que morreu no dia 4 de fevereiro de 1997, de enfarte, aos 66 anos de idade.

Os mais jovens, que não conheceram o Francis d'O Pasquim e da vibrante participação inicial na Folha de S. Paulo (quando esta ainda tinha como diretor de redação o inesquecível Cláudio Abramo, defenestrado pelos militares em 1977), guardam dele a imagem  antipática, às vezes até reacionária, da segunda metade de sua carreira.

Eu não considero Francis um típico esquerdista que endireitou ao se tornar sexagenário, conforme a frase célebre do presidente Lula.

Prefiro vê-lo como quem caiu numa armadilha da História, pois suas convicções arraigadas e um cenário enganador o induziram a um terrível erro de avaliação. E não sobreviveu tempo suficiente para cair na real e, talvez, corrigir seu rumo.

Para um melhor entendimento do que estou falando, vou evocar sua trajetória toda.

Ele estudou em colégios de jesuítas e beneditinos, cursando depois, por uns tempos, a Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil. Trocou-a por uma pós-graduação em Literatura Dramática na Universidade de Columbia (Nova York), também não concluída.

Chegou a ser ator e diretor teatral, mas acabou no nicho tradicional dos que são melhores para escrever sobre suas paixões artísticas do que para personificá-las: a crítica, a partir de 1959, no Diário Carioca.

Paralelamente, colaborava com a revista Senhor (que mais tarde viria a editar) e escrevia sobre política no jornal Última Hora, de Samuel Wainer.

Relatou, mais tarde, um episódio pitoresco do seu noviciado. Entregou uma crítica teatral toda pomposa, repleta de termos pernósticos, ao seu editor. 

Ao recebê-la de volta, havia um grosso traço vermelho circundando a expressão via de regra. E o comentário cáustico: Via de regra é a buceta...

[Para os jovens que desconhecem o linguajar de outrora, esclareço que regras era um eufemismo para menstruação.]

Francis disse que essa foi a primeira e única lição aproveitável de jornalismo que recebeu: escrever com simplicidade e clareza, em vez de pavonear-se com exibições desnecessárias de erudição.

Também comentou que tudo que há para se aprender de jornalismo, aprende-se em 15 dias numa redação. Daí sua avaliação de que o fundamental para o exercício dessa profissão é uma formação cultural sólida, humanística e universalizante.

Ou seja, jornalismo tem tudo a ver com história, sociologia, psicologia, antropologia, filosofia, política, economia, literatura. Isto, sim, é que deveria ser priorizado na formação de um jornalista, segundo Francis.

[E assim o lecionavam, p. ex., na Escola de Comunicações e Artes da USP quando a cursei, entre as décadas de 1970 e 1980. Os dois primeiros anos eram voltados para a formação geral e só os dois últimos para a formação específica – a proporção de 3 x 1 seria mais apropriada ainda. Depois, tragicamente, sobreveio a capitulação diante do capitalismo pós-industrial, que execra o pensamento crítico e reduz o ensino à mera capacitação profissional.]
NA TRINCHEIRA DAS PALAVRAS Embora não deixasse de registrar os erros e limitações das esquerdas brasileiras, por ele tidas como muito distantes da grandeza histórica e intelectual do seu ídolo de então (Trotsky, o homem que liderou a tomada de poder pelos bolcheviques em 1917 e criou o Exército Vermelho, assegurando a sobrevivência da revolução na guerra civil de 1918-1921), Francis considerava que a prioridade era combater as forças de direita.
Amigos como Carlos Heitor Cony atribuíram seu enfarte à
astronômica indenização que teria de pagar à Petrobrás
por esta declaração, que o petrolão provaria ser correta!
 

Foi o que fez no conturbado período da renúncia de Jânio Quadros, da tentativa de golpe para impedir a posse do vice-presidente eleito e do ziguezagueante governo de João Goulart.


Não desistiu depois do golpe militar. No
 Correio da Manhã, na Tribuna da Imprensa e na revista Realidade, continuou manifestando seu inconformismo com o país da ordem unida.

O lançamento do semanário O Pasquim, em junho de 1969, lhe deu projeção nacional. A Senhor e a Realidade já o haviam tornado conhecido noutros estados, mas num circulo restrito de intelectuais e pessoas sofisticadas. O Pasquim conquistou o público jovem, atingindo tiragens mirabolantes para um veículo alternativo.

E o Francis era o guru da turma em todos os assuntos referentes à política nacional e internacional, bem como à visão de esquerda da cultura. Com seus conhecimentos vastíssimos, dominava qualquer discussão.

Leitor assíduo de um sem-número de publicações estrangeiras, tinha sempre algo novo a dizer sobre a Guerra do Vietnã, um dos grandes temas da época.

Furando toda a grande imprensa, Francis, n'O Pasquim, foi o primeiro a informar os leitores brasileiros sobre o massacre de My Lai, que fez crescer em muito o repúdio mundial à intervenção estadunidense.

Disponibilizava as informações que a mídia, por ideologia, covardia ou incompetência, sonegava do seu público.
Alfinetada do Instituto Liberal: Francis teria começado
no trotskismo e acabado no capitalismo selvagem.
 

Era também um crítico implacável da postura israelense de impor sua vontade pela força no Oriente Médio, o que lhe acarretava acusações rasteiras de que isto se deveria à sua ascendência alemã.


E, sendo um dos opositores mais contundentes do reacionarismo dos EUA, também não poupava a URSS, que colocava praticamente no mesmo plano, como grande potência que priorizava sempre seus interesses (e não os da revolução). 

Isto só fazia aumentar o seu prestígio aos olhos de uma geração que se decepcionara terrivelmente com o esmagamento da Primavera de Praga.

Cansado de ser preso pela ditadura, mudou em 1971 para Nova York, de onde mandava seus textos para o próprio Pasquim, a Tribuna da Imprensa, a revista Status e a Folha de S. Paulo (à qual chegou pelas mãos do diretor de redação Cláudio Abramo, também de formação trotskista).

Continuava, basicamente, um homem de esquerda, mas travava polêmicas azedas com quem ele considerava esquerdistas de salão, como a feminista Irede Cardoso. [Ela sofreu um dos maiores massacres intelectuais que já acompanhei.]
SOB OS HOLOFOTES GLOBAIS – Paulo Francis, como muitos outros intelectuais de sua geração, foi perdendo o pique à medida que a ditadura ia deixando de exibir suas garras. Seu talento sobreviveu à ditadura, mas definhou na praia da redemocratização.

A partir de seu posto de observação privilegiado, captou bem a tendência desestatizante do final do século passado.
A polêmica mais famosa de Francis: com Caetano Veloso.
E foi quando toda sua história de opositor ferrenho da estatização compulsória e autoritária que caracterizaram o stalinismo fê-lo cometer um desatino: ajudou entusiasticamente a impulsionar a desestatização de Thatcher e Reagan, com seus escritos em O Estado de S. Paulo e suas participações no jornalismo da Rede Globo, bem como no Manhattan Connection.

Se estava certo quanto à falta de pujança da economia soviética e o parasitismo das estatais brasileiras, não percebeu que o mundo engendrado pela globalização viria a ser uma versão mais desumanizada ainda do capitalismo selvagem.

O oásis que vislumbrou era ilusório. Todos aqueles avanços científicos e tecnológicos que estavam ocorrendo simultaneamente (informática, biotecnologia, engenharia genética, novos materiais e processos) pareciam mesmo augurar um futuro melhor para a humanidade... mas desembocaram, isto sim, numa forma mais avançada de dominação, como Marcuse previra. 

Ou seja, a ciência e a tecnologia acabaram ajudando a perpetuar a desigualdade social, as injustiças mais aberrantes e o embotamento do senso crítico.

Só que não era tão fácil adivinhar-se tal evolução naquele instante de enorme otimismo e euforia, assim como poucos em 1970 apostariam que o milagre brasileiro de Delfim e Médici fosse ter fôlego tão curto.

A intuição de Francis o traiu quando mais precisava dela, para evitar a nódoa final numa biografia impecável.
Ironia era com ele mesmo

Acabou como um daqueles medalhões midiáticos que antes ridicularizava, aclamado mais por ter se tornado celebridade do sistema do que pela real qualidade do seu trabalho – como suas incursões pela literatura, em que a racionalidade e a mordacidade excessivas deixam tudo com um jeitão artificial, de tramas concebidas mecanicamente para demonstrar teses, ridicularizando comportamentos e desafetos.


Morreu na hora certa, antes que o admirável mundo novo erguido sobre os escombros do muro de Berlim mostrasse suas feições monstruosas, sepultando, en passant, as análises e avaliações que Francis fazia em seus últimos escritos – os quais acabaram se revelando, mesmo, agônicos...

Ou, pelo contrário, talvez tenha perdido a chance de constatar que o fim do socialismo real não significava o fim da História, com o status quo se tornando tão insuportável que os homens estão sendo obrigados a buscar uma nova utopia.

Quem sabe até, em mais uma reviravolta surpreendente, não teria sido ele um dos arautos dessa nova utopia?

O certo é que, independentemente de, em seus estertores, haver-se extraviado num labirinto do destino, foi um intelectual articulado e consistente como dificilmente se vê nestes tristes trópicos, deixando o legado de uma atuação memorável nas décadas de 1960 e 1970.

Talvez o melhor epitáfio para Paulo Francis seja outra de suas frases célebres: Não há quem não cometa erros e grandes homens cometem grandes erros. (por  Celso Lungaretti)
Documentário de longa-metragem sobre Paulo Francis, realizado
por Nelson Hoineff em 2009, incluindo depoimentos dos
seus amigos, admiradores e detratores...

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

O COMBATE À CORRUPÇÃO NÃO PASSA DE UMA BANDEIRA DA DIREITA – 2

 (continuação deste post)
Obviamente, o grosso do dinheiro que subvenciona campanhas eleitorais somente pode provir de financiadores externos (os capitalistas interesseiros da macroeconomia) e empresários que prestam serviços os mais variados ao Estado (grandes obras, principalmente). 

É um convite à corrupção: políticos fazem leis corporativas (e são pagos por empresários e impostos cobrados ao povo por tal desserviço à população), licitações são viciadas e superfaturadas, etc.  

Diz-se comumente que, caso não houvesse corrupção com dinheiro público, todos os males sociais estariam superados. 

Esta é mais uma falácia do pensamento conservador que, diante da evidência de uma sociedade incapaz de promover a prosperidade social linear, tenta desviar para outro lado a discussão sobre a essência dos problemas sociais (e, agora, ecológicos). 
É por tudo isto que o discurso de combate à corrupção não passa de uma bandeira da direita, como já dizia o Paulo Francis mais de meio século atrás. 

O mal da sociedade da mercadoria é a sua própria dinâmica segregacionista e contraditória. que caminha para o colapso num tempo histórico determinado (diferente do tempo da existência de um ser humano), que ora se inicia.

A contradição entre forma (tecnologia aplicada à produção social que desequilibra a relação de trabalho provocando o desemprego estrutural (hoje há mais desemprego do que criação de novos emprego) e conteúdo (necessidade crescente de aumento da massa global de valor, que ora decresce por incapacidade de expansão) constitui-se no ponto irreversível da saturação do modelo capitalista de mediação social, agora também debilitado pela crises sanitárias e ecológicas concomitantes.

As crises sociais de forma e conteúdo, ora em curso, demonstram fartamente a incapacidade do capitalismo de conviver com o isolamento sanitário necessário e com os danos ecológicos que acarretam as alterações climáticas por força do aquecimento global.

Isto ocorre porque o capital não existe para satisfazer necessidades humanas, mas apenas se utiliza delas para existir e produzir mercadorias e transformar toda a vida em mercadorias, num utilitarismo asqueroso que cada vez mais se evidencia.  

Neste sentido é que os governantes impõem a abertura genocida das atividades produtivas e comerciais e não podem cumprir os acordos internacionais de redução das emissões de CO² na atmosfera.

É mais uma contradição explícita que demonstra a necessidade urgente de mudarmos os parâmetros das discussões sociais, pois estas têm de transcender as discussões imediatistas sobre a próxima eleição (questão da corrupção aí inclusa preponderantemente) e sobre quem tem aptidões para melhor gerenciar uma crise que nem de longe se restringe à questão do gerenciamento.  

A discussão desfocada sobre o combate à corrupção nos leva a uma análise mais aprofundada dos dois modelos fundamentais da estrutura carcomida do Estado: 
— o modelo liberal clássico (modernamente defendido por Milton Friedman), que quer diminuir o tamanho do Estado e acredita que a mão invisível do mercado tudo equilibra, daí pregar a redução dos impostos e combate à corrupção como se fossem a solução infalível dos problemas;
o modelo keynesiano de Estado forte e protetor, estatizante e indutor do crescimento econômico (ou seja, defensor de mais capitalismo, a corrupção original e básica).

É evidente que os adeptos de tais modelos de discussões fogem como o Drácula da cruz quando, pensando fora da caixa, propomos um modelo de produção social sem a mensuração da forma-valor e seu famigerado critério reducionista da viabilidade econômica. 

Raciocinando-se sob a égide da forma-valor e seu reducionismo, muita coisa passa a se justificar como mal menor, ou seja, começa-se a admitir, p. ex.:
— a restrição de direitos previdenciários (iniquidade que
rachou o PT em 2003, com os inconformados indo formar o Psol); 
— o enquadramento da responsabilidade fiscal imposta aos países da periferia capitalista (os ricos podem emitir moeda sem lastro à vontade);
— a produção alimentícia em escala que mata a agricultura familiar;
— um salário-mínimo de fome e a redução de direitos trabalhistas como trunfos na guerra concorrencial de mercado;
— a aceitação da poluição de rios, mares, subsolo, atmosfera, como males necessários à sustentação da vida, mas que mata a própria vida; 
— a manipulação político-eleitoral pelo poder econômico como mal menor do que a ditadura, etc.

O presente ano eleitoral é um momento dos mais propícios para fugirmos da mesmice e irmos mais fundo nas discussões sobre por que não votar! (por Dalton Rosado)
Na voz do Gomes Brasil, mais uma composição do Dalton.
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