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sexta-feira, 24 de outubro de 2025

MEIO SÉCULO SE PASSOU E NENHUM DOS ASSASSINOS DO VLADO FOI PUNIDO

Amanhã (25) se completa meio século desde a missa de 7
º dia em homenagem ao jornalista Vladimir Herzog, o Vlado, assassinado pela ditadura brasileira no DOI-Codi, seu principal centro de torturas em São Paulo.  

O ato foi uma corajosa resposta à tentativa dos torturadores de maquilarem o homicídio como suicídio, já que as religiões não honram suicidas. 

Na Catedral da Sé, palco daquela missa, será relembrado amanhã, a partir das 19 horas, esse episódio em que, pela primeira vez desde a assinatura do AI-5, as forças da repressão foram colocadas na defensiva, tendo sido, portanto, um divisor de águas entre o terrorismo de estado pleno e a lenta agonia do regime militar. 

Assassinado no dia 25 de outubro de 1975, Vladimir Herzog teve o mesmo destino de dezenas de outros combatentes e idealistas que foram vitimados por  acidentes de trabalho nos porões da ditadura. 

Isto para não falar dos executados a sangue-frio depois de presos e dos que tombaram  sob os tiros da repressão, às vezes sem esboçarem a mínima reação, como Carlos Marighella.

Foto tirada após pendurarem o corpo
de Herzog: a farsa foi desmascarada
POR QUE A MORTE DO VLADO
 REPERCUTIU TANTO?

A de outros jornalistas, como Mário Alves e Joaquim Câmara Ferreira, não despertou tamanha comoção na época. 

E ambos morreram de forma igualmente chocante: Câmara Ferreira se atracando com os torturadores para forçar um ataque cardíaco, enquanto Mário Alves sofreu um verdadeiro massacre, chegando  a ser empalado com um cassetete dentado.

Há vários motivos para o caso do Vlado ter sido mais emblemático.

Primeiramente, chocou e até hoje choca sabermos que ele se dirigiu pelas próprias pernas ao encontro da morte, acreditando que sofreria apenas o interrogatório para o qual estava convocado. Por que ele não desconfiou de que poderia ter o mesmo destino que tantos tiveram antes dele? 

Por um motivo simples: em 1975 a tortura já arrefecera, pois a esquerda armada havia sido totalmente dizimada.

O auge da tortura se deu no período 1969/73. Os militares reagiram ao enfrentamento aberto da esquerda estruturando, em São Paulo, a Operação Bandeirantes (Oban), incumbida apenas de combater a vanguarda armada, enquanto as organizações desarmadas, como o velho PCB, continuaram sendo atribuição do Dops, que ainda se mantinha dentro de certos limites.

A Oban nasceu clandestina em junho de 1969 – montada por oficiais das três Armas e policiais civis, com financiamento de empresários fascistas. No início de 1970 foi legalizada, além de congêneres serem criadas nos demais Estados brasileiros, ficando todas as unidades com a denominação de DOI-Codi. 

Funcionavam em quartéis da Polícia do Exército, com exceção da pioneira paulista, que continuou operando nos fundos de uma delegacia de polícia na rua Tutoia. 

O DOI-Codi/ SP funcionava nos fundos de uma delegacia
 TORTURADORES, SINÔNIMO DE  
RAPINANTES

Desde o primeiro momento, teve mais poder do que a estrutura legal dos Dops, chegando a arrancar presos políticos de suas mãos quando bem entendia. 

E, como a rede dos DOI-Codi's se ocuparia da subversão como um todo, foram retiradas dos Dops quaisquer incumbências de investigação e captura; passaram a atuar apenas na formatação das denúncias a serem encaminhadas às auditorias militares.

Para seus quadros, os DOI-Codi's ofereciam remunerações elevadas e, no caso dos militares, a perspectiva de ascensão meteórica na carreira.

A esquerda armada expropriava bancos, executava operações altamente rentáveis como o roubo do cofre do ex-governador Adhemar de Barros. Então, os militantes às vezes portavam somas vultosas consigo ao serem presos. 

Na VPR e VAR-Palmares, p. ex., cada combatente dispunha de um substancial fundo de reserva, que deveria ser mantido intocado até uma circunstância extrema, como a de ele ficar descontatado e ter de fugir do País.

Dinheiro, armas, veículos e até objetos de uso pessoal dos militantes dessas organizações eram, por sua vez, expropriados pelos captores, que os dividiam a seu bel-prazer, nunca o restituindo aos proprietários expropriados.

Henning Boillesen foi justiçado por guerrilheiros
EMPRESÁRIOS  FINANCIAVAM
A REPRESSÃO 

Além disto, os empresários financiadores da repressão contribuíam para as caixinhas de prêmios pela captura ou morte de militantes clandestinos. Havia até quem, em troca, assistisse torturas de prisioneiras nuas. 

Cada revolucionário importante tinha o valor previamente fixado, daí o empenho obsessivo dos rapinantes em chegarem até eles. O bolo era dividido segundo a importância de cada qual no esquema repressivo, sobrando algum até para os carcereiros...

Com a derrota da luta armada, o ditador Ernesto Geisel pretendia ir desmontando aos poucos esse Estado dentro do Estado. Militar de mentalidade prussiana, não admitia a existência de um poder paralelo envergonhando a farda. 

Ora, os rapinantes haviam se acostumado com um padrão de vida muito superior ao que lhe possibilitava seus soldos e já não conseguiam mais viver sem a rapina – tanto que a notória equipe de torturadores da PE da Vila Militar do RJ envolveu-se com contrabandistas em 1974 e acabou sendo presa, interrogada... e torturada, provando um pouco do próprio veneno.

Para atrapalharem a distensão lenta, gradual e progressiva de Geisel, que incluía a desmontagem do aparelho repressivo de exceção, passaram a efetuar provocações que, esperavam eles, fariam a esquerda reagir, permitindo-lhes alegar que continuavam sendo úteis e necessários. 

Valia tudo para despertarem o fantasma do comunismo, que lhes era tão vantajo$o  inclusive a Operação Gutemberg, lançada contra jornalistas. 

O Grupo Opinião, vítima dos atentados 
BOMBAS CONTRA
TEATROS NÃO EVITARAM 
A REDEMOCRATIZAÇÃO
  
Assim, uma base do PCB que fora formada na ECA/USP e se expandira com o ingresso de seus membros na carreira de jornalistas – continuando, entretanto, bem longe de representarem uma ameaça real ao regime – acabou sendo escolhida como um dos principais alvos dessa suspeitíssima escalada de prisões de peixes pequenos, desencadeada em outubro de 1975. 

E o pobre Herzog talvez tivesse papel de destaque nas tramoias dos provocadores por ser um professor muito querido, com o qual os universitários presumivelmente se solidarizariam, uma vez preso.

Como a ECA era tida pela repressão como um celeiro de subversivos e nela certamente existiam agentes infiltrados, é difícil acreditar que essa base não constasse dos relatórios policiais havia muito tempo. O fato é que, até o final de 1975, não existiu interesse em estourá-la.

Aí, de repente, não mais que de repente, a repressão se deu conta de que a ditadura começaria a ser derrubada pela insidiosa infiltração subversiva no Departamento de Jornalismo da TV Cultura, com seu mísero 1% de audiência em São Paulo...

Vlado, coitado, não levou em conta o arranca-rabos nos bastidores do regime e seguiu confiante para o matadouro. Até pela estima que lhe devotava o governador Paulo Egydio Martins, estava certo de que em seu caso não abririam a caixa de ferramentas. 

Ledo engano: aplicaram-lhe uma combinação de choques elétricos e amoníaco para provocar asfixia. E o mataram.

Maldade: duas crianças ficaram órfãs 
OS TORTURADORES, "MALDITOS NA MEMÓRIA DOS HOMENS E
NO JULGAMENTO DE DEUS"

Os torturadores despertaram a indignação mundial – para o que também concorreu a ascendência judaica da vítima, repetindo em escala ampliada o que já sucedera no final de 1969, quando da morte sob torturas de Chael Charles Schreier, militante da VAR-Palmares. 

Judeus são muito sensíveis à morte dos seus em circunstâncias semelhantes às do Holocausto.

Geisel e seu fiel escudeiro Hugo de Abreu aproveitaram a chance para minarem o DOI-Codi de uma forma que não despertasse resistências na caserna. Assim, Geisel deu ao II Exército o ultimato de que não poderia deixar uma morte como aquela se repetir.

Previsivelmente, antes que se completassem três meses, os torturadores erraram a mão de novo, despachando para o túmulo o metalúrgico Manuel Fiel Filho, do PCB. Com isto, forneceram a Geisel motivo suficiente para exonerar o comandante do II Exército Ednardo D'Ávila Melo e desmontar o DOI-Codi, robustecendo seu projeto de abertura política.

Por último, devem ser lembrados: 
– o cansaço dos cidadãos que viviam sob terror policial desde 1969 e já não aguentavam mais o clima de autoritarismo e intolerância, mesmo porque, visivelmente, não havia mais uma ameaça verdadeira ao regime; 
– a resistência dos jornalistas, que afinal se avolumou; e
– a coragem dos líderes religiosos de três confissões, D. Paulo Evaristo Arns à frente, que correram todos os riscos para, com a realização de uma missa ecumênica pela alma de Herzog na catedral da Sé, impedirem que mais esse assassinato fosse acobertado pela ditadura.

Foi de D. Paulo a frase celebre: "Não matarás! Quem mata se entrega a si próprio nas mãos do Senhor da História e não será apenas maldito na memória dos homens, mas também no julgamento de Deus".

Nem assim as tentativas de inviabilizar a redemocratização do Brasil cessaram de todo. Em 1976 houve atentados a bomba contra o Grupo Opinião, a ABI, a OAB e a residência de Roberto Marinho, além do sequestro e espancamento do bispo de Nova Iguaçu e da chacina dos militantes na gráfica do PCdoB.

Em 1979/81, a ação dos grupos paramilitares de direita se intensificou, com novos ataques a entidades e cidadãos ilustres (como o jurista Dalmo de Abreu Dalari) e até os bizarros incêndios de bancas de jornais nas quais eram vendidas publicações alternativas.

Proximidade de uma casa de força mandou pelos ares os
ultradireitistas que queriam provocar enorme matança


...E A BOMBA EXPLODIU NO COLO
DO TERRORISTA! 

Até que, em 30 de abril de 1981, o feitiço virou contra o feiticeiro: a bomba explodiu no colo do terrorista que pretendia provocar pânico cujas consequência   seriam terríveis, durante em show musical no Riocentro. A maré mudou e a redemocratização foi consolidada.

Em março de 2013 a família, por decisão judicial, recebeu um novo atestado de óbito de Herzog, no qual seu falecimento deixou de ser atribuído a suicídio, mas sim a "lesões e maus tratos sofridos durante o interrogatório em dependência do 2.º Exército".

Em março de 2018, a Corte Interamericana de Direitos Humanos responsabilizou o Estado brasileiro por não haver denunciado e punido os responsáveis pela tortura e o assassinato de Herzog, por ela qualificado de "um crime de lesa-humanidade".

Os agentes e autoridades envolvidos no assassinato de Herzog até chegaram a ser identificados, mas a Lei de Anistia de 1979, que garantiu impunidade eterna às bestas-feras da repressão ditatorial, os protege até hoje. (por Celso Lungaretti) 

quarta-feira, 16 de abril de 2025

16 DE ABRIL DE 1970, QUANDO O SONHO SE TORNOU PESADELO E O PESO DA DITADURA MILITAR DESABOU INTEIRO SOBRE MIM

Júlio chega à praça Saens Peña às 6h38 do dia 16 de abril de 1970.

É uma fase de arbítrio e intolerância. Os partidos e organizações que ousaram pegar em armas para resistir à ditadura militar pagam um preço bem alto: as notícias de prisão e morte de militantes são praticamente diárias. Há indícios de melhora da situação econômica do País.

Ele veio de ônibus, calculando que daria tempo. Deu. O ponto com o Ivo e os dois simpatizantes está marcado para as 6h45.

Outro motivo para ter optado pelo ônibus é a certeza de que o coletivo estaria quase vazio nesse horário. Ótimo para quem precisa tomar cuidado com o revólver que traz na cintura, encoberto pela camisa folgada, que usa fora da calça.

Nesta manhã de quinta-feira Júlio não tem outros compromissos. Baterá um rápido papo com os simpatizantes que Ivo vai lhe passar e pronto! Estará livre para voltar ao quarto que aluga na casa de uma simpática velhinha do Rio Comprido (ótima cobertura, nada de fichas para preencher, nada que possa atrair atenções indesejáveis).

Para manter a fachada de vendedor, às vezes ele é obrigado a ficar matando tempo pela cidade mesmo quando não tem nenhuma tarefa da Organização para cumprir. Nesta semana, entretanto, ele disse à Dª Chica que ganhou alguns dias de folga.

Como os dois comandantes de unidades de combate foram convocados pelo Lamarca para uma reunião de emergência na área guerrilheira, não há muito para um comandante de Inteligência fazer.

Assim, Júlio tratou de arrumar uma desculpa para manter horários mais flexíveis. E, como vantagem adicional, pôde sair à paisana, sem o terno desconfortável para o clima carioca nem a pasta 007 em que costuma levar o seu .38 e uma caixa de balas.

Esteve com 
Ivo na véspera, num restaurante da avenida Nossa Senhora de Copacabana. Encaminharam algumas tarefas, discutiram novidades, fizeram avaliações políticas. Sempre bem informado, Ivo ajuda Júlio a montar suas análises da situação.

O jovem comandante dá alguns detalhes de bastidores que lhe foram transmitidos por outros aliados, Ivo diz o que sabe a respeito, trocam ideias, tecem conjeturas.

A conversa rendeu tanto que acabaram separando-se às 22h40, meio tarde para quem precisa manter-se a salvo das batidas policiais. Foi quando Ivo disse ter dois simpatizantes para passar:

— Eles trabalham numa estatal e têm informações interessantes para o teu setor. Mas só podem te encontrar bem cedinho, o expediente deles começa às 8.

Júlio, que detesta cair da cama, foi obrigado a aceitar o horário desagradável. Consolou-se com a ideia de que depois poderia voltar para seu quarto e dormir mais um pouco.

Chega sem cautela nenhuma, pois confia no jeitão tranqüilo e na experiência de Ivo, um renomado ginecologista beirando os 40 anos, que chegara até a ser candidato à Prefeitura por um pequeno partido. Simpático e bem relacionado, ele é uma verdadeira mina de aliados e simpatizantes para a Vanguarda Popular Revolucionária.

Nas terríveis condições da clandestinidade, os militantes tentam agarrar-se a pequenas ilusões, que os ajudam a manter a ilusão maior de que exista alguma segurança para eles. Se encararem a verdade — de que, a cada instante, estão sujeitos a serem presos, torturados e mortos —, acabarão enlouquecendo.
Apelidamos ironicamente esses 
cartazes de "os imortais da Oban"
Assim, 
Júlio tem muito medo de cair num ponto com calouros na luta armada, mas confia quase cegamente nos veteranos — dentre os quais ele próprio se inclui, afinal já leva essa vida há um ano e a maioria não aguenta mais do que alguns meses.

Além disso, esteve com Ivo oito horas atrás. O que poderia acontecer ao bom doutor em tão curto espaço de tempo?

Se pressentisse algum perigo, Júlio teria ido de terno, com o braço para dentro e a arma já engatilhada na mão direita, oculta pelo paletó. É o que faz em pontos arriscados.

Até algumas semanas atrás, teria também uma cápsula de cianureto entre os dentes, pronta para ser rompida por uma mordida mais forte. Foi uma contribuição de simpatizantes da área de medicina, mas o primeiro quadro que preferiu a morte à tortura... sofreu apenas um ataque de diarreia que o debilitou ainda mais diante dos algozes. É que os aprendizes de feiticeiro ignoravam algum detalhe da fabricação do comprimido letal.

A notícia do fracasso chegou à Organização e os militantes mais queimado— aqueles com reais motivos para evitarem cair vivos — tiveram de voltar a conviver com seus temores, sem a opção de uma saída fácil e quase indolor.

O ponto é numa padaria da praça. Júlio olha para os lados antes de entrar, mas só por hábito. E começa a pedir um café no balcão, quando é violentamente agarrado por vários homens. Um o segura por trás, impedindo que mexa os braços. É arrastado para fora, desarmado, encapuzado e jogado no chão de um veículo. Percebe que seu pior pesadelo virou realidade.

Com as mãos algemadas para trás, o capuz apertado, a cara contra o chão, sente falta de ar. Alguém lhe segura a cabeça, forçando-a para baixo, de forma que fique bem oculto dos civis. Durante o trajeto, vai repassando na memória o que lera no panfleto Se Fores Preso, Companheiro, do experiente Carlos Marighella.

Lembra-se de que aconselhava o revolucionário a se comportar como um militar nas mãos do inimigo: dar só o nome (nem mesmo a patente poderia abrir). Mas, isso foi escrito em tempos distantes. Será possível manter agora essa atitude de desafio?
Morte por infarto do jovem Chael Charles
Schreier despertou indignação mundial

Um companheiro mandou do presídio uma descrição da sala de tortura, que disse ser envidraçada. Sugeriu que o preso se atirasse contra o vidro — o que ele próprio não fizera. 
Júlio pensa que é uma boa opção.

Isto, claro, se lhe derem chance. E se não lhe faltar coragem. A hora da verdade chegou e ele não tem certeza de como se comportará. 

Quanto durou o trajeto? Quinze minutos? Vinte? Percebe que chegou num quartel, o motorista explica-se ao sentinela. Acesso permitido. O veículo pára e Júlio é retirado aos trambolhões. Tiram as algemas, mas mantêm o capuz. Sente que está numa espécie de recepção.

- Nome!

Resolve ficar calado. Que vantagem há em revelar um nome que está nos cartazes de Terroristas Assassinos Procurados? Imediatamente começaria a ser tratado como um peixe grande.

-Nome!

- Como você se chama, filho-da-puta?

- É, assim não vai. Leva ele logo pro pau.

Conduzem-no aos empurrões. Cai, levanta-se, tenta manter a dignidade. Finalmente tiram o capuz. Está numa sala repleta de homens fortes e mal-encarados. Procura os vidros contra os quais se atirar, mas não existe nenhum. As paredes são todas acolchoadas.

Mandam-no tirar a roupa. Fica imóvel, mas também não resiste quando lhe arrancam todas as peças. Sente-se inferiorizado e frágil diante dos brutamontes. Deixa que lhe envolvam os braços com tecido, amarrem com uma corda, coloquem um cabo de vassoura entre eles e as pernas e o icem. Fica pendurado sobre dois cavaletes, como um frango no grill das padarias.

Atam eletrodos nos dedos. Começam a girar a manivela de um telefone de campanha, lentamente. Ele concentra todas as suas forças em não gritar. Não lhes dar esse prazer. Não mostrar fraqueza. Resistir.
Eremias, meu amigo desde o primário,
morto por dezenas de tiros aos 18 anos
De repente, o torturador acelera, gira bem depressa a maquininha. A sensação é terrível. Não consegue respirar. Sufoca. Quando o choque cessa, 
Júlio tenta absorver todo o ar que existe na sala. Mas, giram de novo. Param. Giram. Param.

Percebe que esses gritos animalescos estão saindo de sua garganta.

Socam-lhe o corpo, a cabeça. Mas são os choques que o abalam de verdade. A impressão de que morrerá sufocado, de que seu coração vai estourar.

Deixam que tome fôlego, perguntam-lhe o nome. Percebe que não aguentará, vai ter de mudar de atitude. Precisa de tempo para pensar. Diz o nome.

- Tá mentindo, piroca! Fala a verdade! Como se chama? (outra descarga)

- (ofegando) Sou eu mesmo! O dos cartazes!

Vão digerir a informação. Tiram-no do pau-de-arara, mandam ficar em pé, com o rosto contra a parede. Deixam que amarre de qualquer jeito a calça e a camisa rasgada em torno do corpo.

Antes de dar-lhes as costas, vê os torturadores sorrindo, com ar de deboche. Odeia-se por não ter resistido mais.

Percebe que isso é só o começo, o pior está para vir.

Um grandalhão dá um tapa na sua nuca, depois tenta assustá-lo com o símbolo do Esquadrão da Morte. Com uma mão agarra-o pelos cabelos da nuca; com a outra, coloca bem diante dos seus olhos a caveira do ridículo anel que usa.

— Bem-vindo ao inferno!
plateia estoura em gargalhadas.

À dor e vergonha vem se somar o desânimo. “Até quando terei de suportar essa ralé?” — pensa Júlio. Sua impressão é de que realmente desceu ao inferno.

Acima reproduzi a introdução do meu livro Náufrago da Utopia (Geração Editorial, 2005).

Quando meu pior pesadelo se materializou há exatos 55 anos, eu só poderia supor que estivesse diante de três opções:
- sobreviver incólume;
- sobreviver lesionado;
- morrer.

Havia uma quarta, que nunca me ocorreria: sobreviver duplamente lesionado, fisica e moralmente,
por haver caído numa armadilha da História, em que me debateria pelos quase 35 anos seguintes.

Mas, somos mesmo joguetes dos deuses.

Quando já me conformava com a ideia de que a verdade a meu respeito só viria à tona -- se viesse --, após a morte, uma sequência de acontecimentos favoráveis alterou todo o cenário, no final de 2004.

Como se os fados quisessem me compensar pela maré de azar que me tornou bode expiatório de falhas alheias e por pouco não me destruíra em 1970.

Então, meia existência depois, os efeitos daquele terrível 16 de abril (e dos meses seguintes) foram superados. Passei a viver uma nova vida -- aquela que deveria ter vivido. (por Celso Lungaretti)

sexta-feira, 23 de junho de 2023

HÁ 86 ANOS NASCIA VLADIMIR HERZOG. SEU SACRIFÍCIO NOS INSPIRA ATÉ HOJE!

 
Herzog e o filho Ivo: perda irreparável! 
N
este domingo transcorreria o 86º aniversário do jornalista Vladimir Herzog, assassinado  sob torturas em 1975 no DOI-Codi de São Paulo.

O acontecimento despertou grande indignação no Brasil e no exterior, acabando por se tornar o ponto de inflexão a partir do qual a ditadura militar começou a desmontar os órgãos repressivos que criara na fase mais aguda do terrorismo de Estado.

A efeméride vem a calhar, pois nos estimula a refletirmos sobre os horrores dos quais escapamos com a recente e acachapante derrota dos nostálgicos do arbítrio e das atrocidades dos anos de chumbo. 

Eles passaram o último quadriênio inteiro conspirando para fazer o Brasil voltar às trevas, sob o comando de um psicopata que há décadas se proclama seguidor de Brilhante Ustra, aquele torturador emblemático que até 1974 comandou o mesmo centro de torturas no qual  Herzog viria a falecer.

Morto no dia 25 de outubro de 1975, ele teve destino idêntico ao de dezenas de outros combatentes e idealistas que foram vitimados por acidentes de trabalho nos porões da ditadura. Isto para não falar dos executados a sangue-frio depois de presos e dos que tombaram  sob os tiros da repressão, às vezes tocaiados como Carlos Marighella, que não teve tempo para esboçar a mínima reação.

Por que a morte do Vlado  repercutiu tanto?  

A de outros jornalistas, como Mário Alves e Joaquim Câmara Ferreira, não despertou tamanha comoção na época. E ambos morreram de forma igualmente chocante: Câmara Ferreira se atracando com os torturadores para forçar um ataque cardíaco, enquanto Mário Alves sofreu um verdadeiro massacre, chegando  a ser empalado com um cassetete dentado.

Há vários motivos para o caso do Vlado ter sido mais emblemático.

Primeiramente, chocou e até hoje choca sabermos que ele se dirigiu pelas próprias pernas ao encontro da morte, acreditando que sofreria apenas o interrogatório para o qual estava convocado.

Por que ele não desconfiou de que poderia receber o mesmo tratamento que tantos outros antes dele? 
Médici foi o campeão de torturas nos anos de chumbo

Por um motivo simples: em 1975 a tortura já arrefecera, pois a esquerda armada havia sido totalmente dizimada.

O auge da tortura se deu no período 1969/73. Os militares reagiram ao enfrentamento aberto da esquerda estruturando, em São Paulo, a famigerada Operação Bandeirantes, incumbida de combater apenas a vanguarda armada, enquanto as organizações desarmadas, como o velho PCB, continuaram sendo atribuição do Departamento Estadual de Ordem Política e Social, que ainda se mantinha dentro de certos limites.

A Oban nasceu clandestina em junho de 1969 – montada por oficiais das três Armas e policiais civis, com financiamento de empresários fascistas. No início de 1970 foi legalizada, além de congêneres serem criadas nos demais Estados brasileiros, ficando todas as unidades com a denominação de DOI-Codi. Funcionavam em quartéis da Polícia do Exército, com exceção da pioneira paulista, que continuou operando nos fundos de uma delegacia de polícia da rua Tutoia. 

Desde o primeiro momento, teve mais poder do que a estrutura legal das Delegacias de Ordem Política e Social espalhadas pelo país, chegando a arrancar presos políticos de suas mãos quando bem entendia. E, como a rede dos DOI-Codi's passou a ocupar-se da subversão como um todo, foram retiradas dos Dops quaisquer incumbências de investigação e captura; passaram a atuar apenas na formatação das denúncias a serem encaminhadas às auditorias militares. 

Para seus quadros, os DOI-Codi's ofereciam remunerações elevadas e, no caso dos militares, a perspectiva de ascensão meteórica na carreira.

DO SERVIÇO SUJO SE INCUMBIAM RAPINANTES – A esquerda armada expropriava bancos, executava operações altamente rentáveis como o roubo do cofre do ex-governador Adhemar de Barros.  
Edição histórica: repúdio à morte de Schreier
Então, os militantes às vezes portavam somas vultosas consigo ao serem presos. Nas organizações em que militei, a VPR e VAR-Palmares, cada combatente dispunha de um substancial fundo de reserva, que deveria ser mantido intocado até uma circunstância extrema, como a de ele ficar descontatado e ter de fugir do País.

Dinheiro, armas, veículos e até objetos de uso pessoal dos militantes dessas organizações eram, por sua vez, expropriados pelos captores, que os dividiam a seu bel-prazer, nunca o restituindo aos proprietários expropriados. 

Além disto, os empresários financiadores da repressão contribuíam para as caixinhas de prêmios pela captura ou morte de militantes clandestinos. Cada revolucionário importante tinha o valor previamente fixado, daí o empenho obsessivo dos rapinantes em chegarem até eles. O bolo era dividido segundo a importância de cada qual no esquema repressivo, sobrando algum até para os carcereiros... 

Com a derrota da luta armada, o ditador Ernesto Geisel pretendia ir desmontando aos poucos esse Estado dentro do Estado. Militar de mentalidade prussiana, não admitia a existência de um poder paralelo envergonhando a farda.

Ora, os rapinantes haviam se acostumado com um padrão de vida muito superior ao que lhe possibilitava seus soldos e já não conseguiam mais viver sem a rapina – tanto que a notória equipe de torturadores da PE da Vila Militar do RJ envolveu-se com contrabandistas em 1974 e acabou sendo presa, interrogada... e torturada, provando um pouco do próprio veneno.

Então, para atrapalhar a distensão lenta, gradual e progressiva de Geisel, que incluía a desmontagem do aparelho repressivo de exceção, passaram a efetuar provocações que, esperavam eles, fariam a esquerda reagir, permitindo-lhes alegar que continuavam sendo úteis e necessários. Valia tudo para despertarem o fantasma do comunismo, que lhes era tão vantajo$o.

Assim, uma base do PCB que fora formada na ECA/USP e se expandira com o ingresso de seus membros na carreira de jornalistas – continuando, entretanto, bem longe de representarem uma ameaça real ao regime – acabou sendo escolhida como um dos principais alvos de uma suspeitíssima escalada de prisões de peixes pequenos, desencadeada em outubro de 1975. 
Religiosos de três confissões oficiaram a missa de 7º dia de Herzog, na Catedral da Sé.
Embora estivesse havia poucos meses lecionando na ECA, Herzog foi incluído no pacote dos provocadores, talvez porque era um professor muito querido na USP desde que nela se formara em Filosofia no ano de 1959. Supunham que, prendendo-o, os universitários protestariam. 

Então de repente, não mais que de repente, a repressão se deu conta de que a ditadura começaria a ser derrubada pela insidiosa infiltração subversiva no Departamento de Jornalismo da TV Cultura, que era dirigido por Herzog e tinha mísero 1% de audiência em São Paulo...

Vlado, coitado, não levou em conta o arranca-rabos nos bastidores do regime e seguiu confiante para o matadouro. Até pela estima que lhe devotava o governador paulista Paulo Egydio Martins, estava certo de que em seu caso não abririam a caixa de ferramentas. Quão pouco valia a vida de um homem!

COMO OCORRIAM OS ACIDENTES DE TRABALHO – Aqui falo por experiência própria: ao recebermos choques elétricos não conseguíamos respirar e nos sentíamos como se estivéssemos morrendo. Mas os torturadores, quando não queriam nos matar, cessavam a descarga antes de enfartarmos. 

No entanto, baseavam-se  numa média de tempo que o supliciado fosse capaz de suportar; quando ele possuía alguma comorbidade, eventualmente expirava antes.
Boillesen, notório empresário financiador da repressão 

Os torturadores, ao excederem a dose causando-lhe a morte, despertaram a indignação mundial – para o que também concorreu a ascendência judaica da vítima, repetindo em escala ampliada o que já sucedera no final de 1969, quando da morte sob torturas de Chael Charles Schreier, militante da VAR-Palmares. Judeus são muito sensíveis à morte dos seus em circunstâncias semelhantes às do Holocausto.

Geisel e seu fiel escudeiro Hugo de Abreu aproveitaram a chance para minarem o DOI-Codi para que sua extinção não despertasse resistências na caserna. Assim, Geisel deu ao II Exército o ultimato de que não poderia deixar uma morte inconveniente como aquela se repetir.

Previsivelmente, antes que se completassem três meses, os torturadores erraram a mão de novo, despachando para o túmulo o metalúrgico Manuel Fiel Filho, também do PCB. Com isto, forneceram a Geisel motivo suficiente para exonerar o comandante do II Exército Ednardo D'Ávila Melo e desmontar o DOI-Codi, robustecendo seu projeto de abertura política.

Por último, devem ser lembrados: 
  • o cansaço dos cidadãos que viviam sob terror policial desde 1969 e já não aguentavam mais o clima de autoritarismo e intolerância, mesmo porque, visivelmente, não havia mais uma ameaça verdadeira ao regime; 
  • a resistência dos jornalistas, que afinal se avolumou; e
  • a coragem dos líderes religiosos de três confissões, que correram todos os riscos ao realizarem na Catedral da Sé uma missa ecumênica pela alma de Herzog, implicitamente desmentindo a versão da ditadura segundo a qual  ele se suicidara.
Quantos teriam morrido se o golpe tão acalentado por Jair Bolsonaro não flopasse?
Nem assim as tentativas de inviabilizar a redemocratização do Brasil cessaram de todo. Em 1976 houve atentados a bomba contra o semanário Opinião, a ABI, a OAB e a residência de Roberto Marinho, além do sequestro e espancamento do bispo de Nova Iguaçu e da chacina dos militantes na gráfica do PCdoB.

Em 1979/81, a ação dos grupos paramilitares de direita se intensificou, com novos ataques a entidades e cidadãos ilustres (como o jurista Dalmo de Abreu Dalari) e até os bizarros incêndios de bancas de jornais nas quais eram vendidas publicações alternativas.

Até que, em 30 de abril de 1981, o feitiço virou contra o feiticeiro: a bomba explodiu no colo do terrorista fardado que pretendia provocar pânico de consequências imprevisíveis durante em show musical no Riocentro. A maré mudou e a redemocratização foi consolidada. (por Celso Lungaretti, veterano da resistência à ditadura, que quase enfartou e teve um tímpano estourado nos porões do regime militar) 

sexta-feira, 16 de abril de 2021

DOCUMENTÁRIO RESGATA O INFORTÚNIO DE PEÕES DO TABULEIRO DA PROPAGANDA ENGANOSA DA DITADURA MILITAR

Personagens dos dois primeiros arrependimentos: Marcos Vinícius
Fernandes dos Santos, Massafumi Yoshinaga e Rômulo Augusto Romero
Foi melancólico rever na noite de ontem (5ª feira, 15), meio século depois, alguns daqueles jovens esperançosos que estavam ao meu lado no movimento estudantil de 1968 e na luta armada subsequente à assinatura do AI-5, quando o Brasil foi submetido ao terrorismo de Estado sem quaisquer limites.  

Refiro-me, claro, à exibição on line, no Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdadedo filme Os arrependidos, que os diretores Armando Antenore e Ricardo Calil realizaram inspirados, principalmente, na dissertação de mestrado de Alessandra Gasparotto, que virou livro em 2011 com o título de O terror renegado.

Dei depoimentos para o trabalho de mestrado e também para o filme (como fiz quase sempre que alguém veio me pedir minha versão e avaliação dos acontecimentos dos anos de chumbo, com a única exceção de um ex-colega da ECA-USP que deu uma guinada ideológica de 180º e se tornou um dos ultradireitistas extremados da revista veja).

O Manuel Henrique Ferreira sendo visitado
na prisão pelo arcebispo D. Eugênio Sales
Um grande mérito do documentário foi mostrar:
— como os aproximadamente 40 ditos arrependidos foram meros peões da propaganda enganosa da ditadura de Emílio Médici, daí os patéticos comerciais de TV da dita cuja terem sido incluídos à farta para revelar o modus operandi dos Goebbels brasileiros em sua lavagem cerebral; e 
— como causaram imenso estrago na vida dos prisioneiros laçados para desempenharem, sob coação ou por calculismo (encurtar suas penas) tais papéis.

É dada grande ênfase ao primeiro episódio, quando cinco detentos do Presídio Tiradentes, já saídos da fase de tortura, negociaram com o Dops paulista a realização de entrevistas e distribuição de escritos contrários à luta armada. 

Para qualquer pessoa perspicaz, deve saltar aos olhos a superficialidade dos argumentos com que ainda hoje tentam justificar tal decisão.

O líder, que dera continuidade a uma tradição familiar de apoio aos ideais de esquerda, era o teórico da turma. Afora a óbvia motivação pessoal (e oportunista), acreditou que pudesse abrir caminho para uma pacificação dos espíritos e ser futuramente reconhecido como o visionário que interrompera as matanças.   

Um segundo reagiu de maneira machista à violenta rejeição com que os cinco foram recebidos pelos outros presos ao voltarem para o Tiradentes: dobrou a aposta, tornando-se integralista convicto, leitor e divulgador de Plínio Salgado.

Os outros três eram apenas liderados. Um deles, meu companheiro desde o movimento secundarista, me contou muito tempo depois que mais se deixou arrastar do que concordou com aquilo tudo. 

[Aliás, foi ele também quem teve o indesejável privilégio de estrear os equipamentos de tortura da Operação Bandeirantes como cobaia, quando tal filial do inferno ainda estava em fase de instalação...]
Nunca fui processado por violência alguma, mas
recursos públicos eram gastos para me caluniar
A repercussão foi pouca e talvez a coisa parasse por aí se Massafumi Yoshinaga não se encontrasse em situação precaríssima, após desligar-se da VPR porque, como me disse na ocasião, "não aguentava mais ficar ouvindo dia e noite papos sobre armas e estratégias militares".

Jovem com imensa necessidade estar junto ao povo, vibrando e confraternizando com aqueles por quem lutava, sentia-se como fera enjaulada tendo de submeter-se às limitações da clandestinidade. 

Ainda por cima, a repressão plantara muito alarmismo na imprensa a respeito do japonês da metralha que participava das ações da VPR; então, quando o nome do Massa caiu no seu conhecimento, acabou supondo que fosse ele o dito cujo (o verdadeiro era o Yoshitane Fujimori).

O Massa pediu desligamento e a VPR, numa decisão tão descabida quanto insensata, nem lhe ofereceu uma opção de fuga para o exterior, nem um refúgio seguro no interior do país, nem mesmo uma boa quantia em dinheiro para atravessar os primeiros tempos. Como resultado, não só a família temia abrigá-lo, como ele teve de dormir em barracas no Mercado Municipal, participar de colheitas no interior, etc., sujeito não só ao risco de ser preso a qualquer momento, como também a inúmeras privações.

Em desespero, conseguiu que a família do líder do primeiro arrependimento o colocasse a par do seu drama e pedisse conselho. A resposta que veio do Tiradentes foi a de que, se o Massa resolvesse entregar-se à repressão, teria a incolumidade garantida e logo sairia da prisão, além de prestar um serviço aos velhos amigos, pois isto agilizaria a libertação deles. 

O Massa aceitou o conselho, foi logo libertado, mas, ao invés de reencontrar o calor das massas, foi é gelado no seu circulo de relacionamentos, enlouqueceu, tentou duas vezes o suicídio e teve êxito na terceira. Este drama terrível é um dos momentos culminantes do documentário.    

Os dois primeiros episódios foram entregues numa bandeja à repressão, tendo o ditador Médici apreciado intensamente a apresentação do Massa na TV. A inusitada rendição ao inimigo causou um impacto imensamente superior ao do blablablá daqueles que já estavam presos.
Protagonizei, infelizmente, o terceiro episódio, que teve características diferenciadas, pois envolveu uma disputa de poder entre os quadros da repressão. 

Depois de mais de dois meses de prisão e incomunicabilidade, fui transferido do DOI-Codi/RJ para a PE da Vila Militar (RJ), para uma mera finalização de inquérito, teoricamente sem torturas. 

Mas os oficiais de lá tinham, algumas semanas antes, sido afastados do vantajoso esquema de capturas dos combatentes da luta armada, como punição pela péssima repercussão internacional da morte sob torturas do estudante de medicina Chael Charles Schreier, de 23 anos, militante da VAR-Palmares. As justificativas inverossímeis da repressão eram recebidas com risadas no exterior. 

Ora, dividindo entre eles tudo de algum valor que apreendiam conosco, bem como as recompensas recebidas de empresários direitistas por cada um dos nossos que capturavam ou assassinavam, haviam se acostumado a um padrão de vida muito superior ao que seus soldos lhes facultava. Então, tentavam desesperadamente ser readmitidos no filão mais lucrativo do esquema repressivo.

Assim, acreditaram que, mesmo tanto tempo depois, poderiam arrancar de mim alguma informação útil. Sob a batuta do então tenente Aílton Joaquim, atiraram-me numa solitária imunda e desfecharam uma temporada de torturas extemporânea e que deu péssimos resultados: nada obtiveram para provar que eram melhores do que os concorrentes do DOI-Codi, mas me estouraram um tímpano e levaram uma aliada da VPR, também presa na unidade, a cortar os pulsos.
Chael Schreier, assassinado 
em 1969 na PE da Vila Militar

Sabendo que seriam punidos por extrapolar as ordens do comandante do inquérito, e com o episódio do Massafumi repercutindo na imprensa, veio-lhes a ideia de aumentar a aposta para tentarem mesmo assim sair no lucro.

Forçaram-me a escrever uma carta aos jovens, colocando-me, para tanto, exatamente ao lado da sala na qual torturavam aquela aliada com choques elétricos que lhe arrancavam gritos lancinantes; esmurravam-me e gritavam comigo de passagem, em seu entra-e-sai da sala.

A carta virou um vídeo gravado em plena madrugada no estúdio da TV Globo no Jardim Botânico, sob ameaça de eu nem sequer voltar vivo para o quartel se desdissesse o que constava da maldita carta. 

É por isso que, desde a década passada, geralmente sou colocado por historiadores e jornalistas como a vítima do primeiro arrependimento forçado

A partir desses três episódios, os responsáveis pelas operações de Guerra Psicológica nas Forças Armadas foram orientados a valorizarem o trunfo surgido meio por acaso, assumindo o controle dessas operações e negociando com os presos considerados apropriados para o papel; quando malsucedidos, não hesitariam em recorrer a coações.

O documentário relembra, também, o igualmente trágico episódio do Manoel Henrique Ferreira, que, apavorado com as torturas, concordou em fazer o que lhe pediam em troca da garantia de não ser mais barbarizado. 

Na noite em que o vídeo com ele gravado ia ser levado ao ar, instalaram um televisor na sua cela, para que todos assistissem. O Mané se convenceu de que era uma tentativa de fazer com que ele fosse justiçado pelos próprios companheiros e escreveu a célebre carta-dossiê a D. Paulo Evaristo Arns, que correria o mundo. (por Celso Lungaretti    
.
P.S.:
 ia esquecendo, hoje se completaram 51 anos da minha prisão pelo DOI-Codi/RJ, em 16/04/1970, às 6h45, na praça Saens Peña (RJ). 

Nos primeiros tempos, lamentei que a VPR tivesse nos entregado cápsulas de cianureto inócuas e mandado nos livrarmos delas quando o primeiro preso a usar uma só teve diarreia (!); de qualquer forma, eu dava como favas contadas a minha execução adiante. 

Foi uma das poucas previsões que já errei redondamente. E acabei descobrindo que havia vida depois do inferno. (CL) 
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