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terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

CINCO SÉCULOS DE SERVIDÃO NO BRASIL

 

Corria o ano de 1500 e no leste do continente sul-americano, numa praia do Oceano Atlântico, na altura de onde hoje fica a Bahia, havia um sol radioso naquela manhã. Os meninos corriam livremente pela praia brincando de pega-pega ou de arremesso de lança, enquanto suas mães catavam pequenos moluscos que brotavam da terra após a maré baixa. A Aldeia era o local onde todos os autóctones moravam, comiam e bebiam livremente, e sem dinheiro; tudo era partilhado.  

De repente, uma inusitada visão apareceu no horizonte da linha do mar e, após alguns minutos de observação, aquelas mulheres, esbeltas e nuas, com adereços de flores nos cabelos lisos e pretos como a asa da graúna, que José de Alencar tão poeticamente descreveu, e alguns cipós finos amarrados aos braços e cinturas, corpo pintado em listras de urucum, perceberam que a cada instante a imagem ficava maior e mais próxima da praia. 

As crianças pararam de correr e espantadas fixavam o olhar naquele objeto que cada vez mais crescia de tamanho; Irapuan, uma menina de 16 anos, resolveu correr para a oca mais próxima e chamou os homens para que observassem o que estava a acontecer.   

Em alguns minutos, um grupo de cerca de 100 pessoas já se aglomerava para ver aquele objeto enorme, vindo do mar, e que jamais havia sido visto.  Algum tempo depois, o objeto flutuante, a que chamaram de canoa grande, parou a uma distância de cerca de muitos passos, e dele desceram algumas canoas menores.  

Nelas estavam homens que chegaram à praia com vestimentas estranhas, barbudos e fracos - alguns eram vítimas do escorbuto, por estarem há meses no mar sem comer alimentos ricos em vitamina C, somente encontradas em alimentos cítricos -, portando uns objetos desconhecidos nas mãos - viriam a saber posteriormente, e dolorosamente, que aqueles objetos cuspiam fogo e matavam à distância. 

As crianças, sempre destemidas, correram para perto dos visitantes a observar espantados aqueles seres e suas roupas que de certa forma pareciam com gente, apesar das diferenças evidentes.


  
Como não houvesse possibilidade de comunicação pela fala, os gestos supriram a necessidade de comunicação. A bondade natural dos homens de pele morena e olhos puxados, fortes e esbeltos, com ligeira semelhança com os asiáticos, fez que oferecessem, num gesto de amistosidade, frutas, o que agradou os visitantes temerosos de uma má acolhida.  

Ao verem um dos homens a se olhar num espelho, ficaram encantados com aquele objeto que reproduzia a imagem deles mesmos como somente viam nas águas dos lagos mais limpos após as chuvas.  

Cedo um deles deu demonstração de força a dar um tiro numa ave que pousara e que esta caiu morta ao chão. Espantados, deram ao atirador o nome de Caramuru, que em língua patxohã dos pataxós baianos - significava Deus do Trovão.  

Pronto!, estava estabelecida uma relação amistosa dos autóctones para com os europeus, sem que os primeiros soubessem o que estava por vir.  

Como sabemos, justamente aí começou um processo de dominação que iria esbarrar quando os autóctones percebessem na prática a maldade que estava subjacente àquele encontro inusitado.    

A primeira imposição aos homens do continente, a quem chamaram de índios, foi lhes demonstrar a sua crença religiosa com a celebração de uma missa cristã, na qual os visitantes se ajoelharam diante da imagem de um homem crucificado, a quem explicaram que eram a encarnação de Deus na terra e que morrera para salvar a todos.  

Ensinaram que os índios deveriam também se ajoelhar diante daquele rito sagrado, se quisessem obter a salvação numa vida eterna, e que compensaria todas as agruras da vida terrena.  

Era uma forma sublinear de demonstrar que o sofrimento terreno podia ser compensado, e tudo como uma preparação para a tentativa de subjugação daqueles seres que os europeus recém-chegados consideravam apenas como semi-humanos, e que deveriam se purificar com a nova civilização que aportava por aquelas terras.   

Mais interessados em pedras preciosas para levar para a Europa do que numa colonização de longo prazo, primeiro se interessaram por umas pedras amareladas que nunca enferrujavam, a que chamavam de ouro, e que tinha pouca utilidade em relação aos espelhos que lhes eram ofertados em troca.   

Cedo descobriram que os autóctones dividiam entre si tudo que lhes era necessário como alimento, desde frutas, caças e peixes, que eram abundantes, até uma massa branca e fibrosa que extraiam de uns tubérculos denominados de mandioca que cozinhavam na água fervente ao fogo obtido pelo atrito da madeira mais apropriada para a sua obtenção, e ficava deliciosa.  

Os visitantes europeus, principalmente os degredados que vieram na esquadra como punição e mão-de-obra útil, em face do risco que tal viagem representava, nunca se sentiram tão livres e fartos, além, obviamente do sexo livre que podiam ter com mulheres tão lindas e esbeltas com suas vergonhas de fora, como contou Pero Vaz de Caminha em sua carta-relatório ao El Rei Dom Manuel

Os europeus se sentiam, então, como novos donos daquelas terras a serem colonizadas, ainda que fossem recém-chegados; sabiam do poderio bélico que poderiam usar nelas como forma de dominação escravista dos índios no processo de exploração colonizadora que viria a seguir.   

O sentimento não era de convivência harmoniosa e contributiva; mas de dominação escravista própria às sociedades europeias monárquicas, eclesiásticas e feudais, na qual a terra, nas mãos do reino e da aristocracia nobiliárquica, era a grande riqueza, ainda que aos poucos tudo estivesse em processo de transformação capitalista mercantil, cuja expansão marítima de comércio com as Índias orientais já era sintoma da intenção de acumulação da riqueza abstrata a partir da comercialização de mercadorias.  

Mas o processo de dominação dos chamados índios terminou por se frustrar diante da unidade e resistência que estes autóctones impuseram aos exploradores europeus ao perceberem que eles apenas queriam roubar suas terras, seus minerais, e colocá-los a produzir como escravos mercadorias por eles apropriadas e enviadas para a Europa em seus navios, sem que se partilhasse equitativamente aquilo que fora produzido.  

A resistência não se deu apenas pelas armas, vez que as máquinas de fogo da morte eram bem mais eficazes nesse mister do que os arcos e flechas; muito mais os indígenas decidiram entre si de que não mais iriam trabalhar, e que se necessário fosse, morreriam antes de produzir qualquer coisa que beneficiasse os escravizadores. 

Como os índios não aceitaram o trabalho escravo, os escravizadores resolveram reprimi-los colocando-os numa reserva territorial menos produtiva que as terras destinadas aos dominadores; assim a vida social se tornou cindida e cada um para o seu lado. 

 A alternativa adotada de segregá-los em áreas distantes deu resultado, e como o país tinha pouca densidade demográfica, os índios ocuparam terras que agora eram do governo instituído pelos escravizadores, com concessão de uso, vez que não quiseram participar das atividades econômicas então vigentes.  

Com a vigência do trabalho feudal na Europa, de onde os escravizadores eram originários, eles resolveram trazer da África seres humanos acorrentados em navios e que eram mais obedientes à escravização. 

Foi assim que começou o processo de colonização no qual os civilizados se tornam proprietários de terras e escravos, com tudo devidamente registrado em cartório, até que um dia se considerou que era melhor libertar os escravos e escravizá-los pelo salário, sem as obrigações de moradia e alimentação.  

As novas práticas, além de proporcionar a redução dos custos de produção em relação ao uso dos escravos diretos, permitia que aqueles escravos alforriados pudessem comprar nos armazéns da casa grande dos senhorios fazendeiros os mantimentos que necessitassem, pelos preços que os empregadores quisessem, e ainda teriam que pagar o aluguel pelas moradias.  

Foi assim que o senhor escravista se transformou em civilizado capitalista, antiescravista e abolicionista, de modo a que os antigos ocupantes da terra, os índios, ficassem distantes da civilização, e os trabalhadores passassem a ser detentores do direito de serem escravizados indiretamente pelo salário cujo valor produzido era-lhes subtraído pela extração de mais-valia que promove a acumulação da riqueza por aqueles que muito “generosamente” lhes dão os empregos sem os quais, entendem presunçosamente, os escravizados morreriam de fome.  

Criou-se à altura, a lei da vadiagem, ou seja, quem estivesse apto ao trabalho abstrato produtor de valor e não se dispusesse a trabalhar seria preso. Faziam batidas nos morros para ver se algum negro tinha calos nas pontas dos dedos, e não nas mãos, como prova de tocar violão e samba; símbolos da vadiagem.  

Não é por menos que a Lei da vadiagem - Decreto Lei nº 3.688, de 1941 -, ainda vigora no Brasil, apesar do desemprego estrutural causado pelo uso das máquinas que prescinde do trabalho abstrato em maior escala promover a contradição entre a forma capitalista atual e seu conteúdo escravista. 

Não é por menos que aquele senhor da Havan, o empresário Luciano Hang, todo paramentado de verde e amarelo, bolsonarista raiz que ora foi condenado por constranger funcionários ao voto na eleição de 2022, em ação proposta pelo Ministério Público do Trabalho, posa em depoimento no Congresso Nacional de benfeitor por promover, segundo ele, 100.000 empregos nas suas empresas comerciais.  

O fato de chegar de jatinho particular em Brasília e se hospedar em hotel cinco estrelas, enquanto seus empregados enfrentam ônibus e trens lotados para ir e vir, com salário médio mensal de uma diária do mesmo hotel no qual seu patrão está hospedado, é considerada por ele apenas como a contrapartida justa por seu “gesto generoso de empregador empresarial magnânimo”.  

O seu ancestral europeu é aquele mesmo que por aqui aportou naquela manhã ensolarada de 22 de abril de 1.500, ensinando aos autóctones a se ajoelharem pretendendo que eles nunca mais pudessem se levantar.  (por Dalton Rosado) 

domingo, 24 de dezembro de 2023

QUAL É O NOSSO NATAL, O DO TEMPLO E SEUS VENDILHÕES? OU O DOS EXPLORADOS, HUMILHADOS E OFENDIDOS?

Jesus nasceu numa estrebaria e era filho de carpinteiro
E
squeçam o Papai Noel que a Coca-Cola vestiu com sua cor e se tornou um mero símbolo do consumismo. 

O que o mundo realmente celebra (ou deveria celebrar) no Natal é a saga de um filho de carpinteiro que trouxe esperança a pescadores e outras pessoas simples de um país subjugado ao maior império da época.

Os primeiros cristãos eram triplamente injustiçados:
— economicamente, porque pobres;
— socialmente, porque insignificantes; e
 politicamente, porque tiranizados.

Jesus Cristo nasceu três décadas depois da maior revolta de escravos enfrentada pelo Império Romano em toda a sua existência.

As mais de 6 mil cruzes fincadas ao longo da Via Apia foram o desfecho da epopeia de Spartacus, que, à sua maneira rústica, acenou com a única possibilidade então existente de revitalização do império: o fim da escravidão. 

Roma ganharia novo impulso caso passasse a alicerçar-se sobre o trabalho de homens livres, não sobre a conquista e o chicote. Vencido Spartacus, não havia mais quem encarnasse (ou pudesse encarnar) a promessa de igualdade na Terra.
Sem saber, com a maior crucificação da história o Império Romano condenou-se à queda.
Jesus Cristo a transferiu, portanto, para o plano místico: todos os seres humanos seriam iguais aos olhos de Deus, devendo receber a compensação por seus infortúnios num reino d'além túmulo.

O cristianismo das catacumbas foi, portanto, a resistência dos espíritos a uma realidade dilacerante, avivando o ideal da fraternidade entre os homens.

Hoje há enormes diferenças e uma grande semelhança com os tempos bíblicos: o império novamente conseguiu neutralizar as forças que poderiam conduzir a humanidade a um estágio superior de civilização.

A revolução é mais necessária do que nunca, mas inexiste uma classe capaz de assumi-la e concretizá-la, como o fez a burguesia, ao estabelecer o capitalismo; e como se supunha que o proletariado industrial fizesse, edificando o socialismo.

AS AMEAÇAS DE CATÁSTROFES E O FASCÍNIO PELO ABISMO 
O pior da espécie humana vem à tona nas crises agudas
O fantasma a ora nos assombrar é o mesmo do fim do Império Romano: ou seja, o de que tal impasse nos faça retroceder a um estágio há muito superado em nosso processo evolutivo.

O capitalismo hoje produz legiões de excluídos à imagem e semelhança dos bárbaros que deram fim a Roma; não só os que vivem na periferia do progresso, mas também os miseráveis existentes nos próprios países abastados, vítimas do desemprego crônico.

E as agressões ao meio ambiente, decorrentes da ganância exacerbada, estão atraindo sobre nós a fúria dos elementos, com consequências avassaladoras. Décadas de catástrofes serão o preço de nossa incúria.

No entanto, como disse o grande jornalista Alberto Dines, “criaturas e nações cometem muitos desatinos, mas na beira do abismo recuam e escolhem viver”.

Se a combinação do progresso material com a influência mesmerizante da indústria cultural tornou o capitalismo avançado praticamente imune ao pensamento crítico e à gestação/concretização de projetos alternativos de organização da vida econômica, política e social, tudo muda durante as grandes crises, quando abrem-se brechas para evoluções históricas diferentes.

Estamos em plena contagem regressiva, encaminhando-nos cada vez mais para cenários horrorosos:
"emergências decorrentes das alterações climáticas"
— 
as contradições insolúveis do capitalismo tendem a desembocar numa depressão tão medonha como a da década de 1930;
— a estagnação econômica e a insatisfação generalizada que dela decorre, propiciando o empoderamento de aventureiros demagógicos, boçais e ignaros,  já revivem horrores do passado, como as guerras de conquista e o nazi-fascismo sob outros rótulos;
— vemo-nos gravemente ameaçados pela sucessão de emergências e mazelas decorrentes das alterações climáticas.

O sofrimento e a devastação serão infinitamente maiores se os homens enfrentarem desunidos tais desafios. Caso as nações e os indivíduos prósperos venham a priorizar a si próprios, voltando as costas aos excluídos, estes morrerão como moscas.

O desprendimento, em lugar da ganância; a cooperação, substituindo a competição; e a solidariedade, ao invés do egoísmo, terão de dar a tônica do comportamento humano nas próximas décadas, se as criaturas e nações escolherem viver.

E há sempre a esperança de que os mutirões criados ao sabor dos acontecimentos acabem apontando um novo caminho para os cidadãos, com a constatação de que, caso se mobilizem e organizem tendo o bem comum como prioridade suprema, eles aproveitarão muito melhor as suas próprias potencialidades e os recursos finitos do planeta.
"a solidariedade, ao invés do egoísmo"

Então, para além deste Natal mercantilizado, que se tornou a própria celebração do templo e de seus vendilhões, vislumbra-se a possibilidade de outro. 

O verdadeiro: o Natal cristão, dos explorados, dos humilhados e ofendidos.

Se frutificarem os esforços dos homens de boa vontade. (por Celso Lungaretti) 

segunda-feira, 3 de julho de 2023

A BURGUESIA BRASILEIRA E SEU COMPLEXO DE VIRA-LATAS

 

O magistral artigo de Celso da última quinta-feira sobre a primeira conquista brasileira da Copa do Mundo de Futebol me trouxe algumas reflexões sobre a condição psicossocial brasileira pois a dita conquista teria sido o primeiro grande evento de superação do chamado Complexo de Vira-latas que dominaria o povo brasileiro.

Sempre tive certa desconfiança sobre tal termo, pois minha impressão é de ele representar algo muito mais inoculado pela burguesia brasileira, ou seja, pela nossa elite, do que um processo orgânico do povo em geral. Não pretendo com isso atribuir ao povo a existência de um orgulho nacional, em oposição a um congênito sentimento de inferioridade presente entre as classes altas, mas é importante ressaltar que o imaginário de cada povo é de responsabilidade da burguesia nacional dominante e um país igual o Brasil sempre possuiu baixo índice de consciência nacionalista devido à formação subordinada e raquítica do próprio capitalismo por essas bandas. 

É interessante observar que quem criou a expressão Complexo de Vira-Latas foi um escritor reacionário, embora talentoso, umbilicalmente ligado à elite carioca, Nelson Rodrigues. Esse era famoso por sua antipatia para com o povo brasileiro, no que apenas expressava o desgosto geral de sua classe. A derrota do selecionado nacional contra o Uruguay em 1950, no Maracanã, teria catalisado na mente do cronista a ideia para essa expressão. 

Sinal de quão pouco nossa burguesia sempre almejou, pois precisava da vitória em um campeonato de futebol para impulsionar uma imagem de grandeza nacional frente a outros países, algo impossível de alcançar por meios econômicos e sociais. À época, os EUA comandavam o capitalismo, a URSS colocava o primeiro homem no espaço, a França havia dado os Direitos Humanos e até a Argentina era bem quista por seus filósofos e poetas, mas o Brasil seria campeão mundial de futebol. 

A derrota para o Uruguay em 1950
levou Rodrigues a criar o termo Complexo de
Vira-Latas
 
Mas como teria surgido esse sentimento de inferioridade da nossa elite? No período colonial não parece que ele existia, pois os colonizadores daqui se viam em nível de superioridade frente a seus irmãos europeus. Enquanto esses apodreciam em um continente onde apenas a alta aristocracia vivia bem, os colonizadores enriqueciam nas terras do Brasil. Um senhor de engenho, um bandeirante ou mesmo depois o mineiro não se achavam inferiores, muito pelo contrário. Quem se via assim eram os missionários que para cá vinham conviver com a ignorância e a escassez de luxo. 

Os primeiros vestígios do sentimento de inferioridade nacional começam a aparecer após a Independência e, sobretudo, nas décadas finais do reinado de Dom Pedro II. O próprio Imperador dava mostras desse sentimento em suas andanças pelo exterior, quando preferia acima de tudo se passar como simples indivíduo a soberano de um dos maiores países do mundo. 

Os filhos da elite nacional, em sua maioria do Rio de Janeiro, iam para a Europa estudar e voltavam sem um pingo de desejo de continuar por aqui. Muitos começavam a fazer um trânsito constante entre a capital brasileira e as principais cidades europeias, sempre indo perder dinheiro e voltando para recuperar os valores e logo voltarem lá para perder de novo. Isso era tão comum que uma Ópera do período criou o personagem o brasileiro, sujeito ignóbil e que perdia seu dinheiro nos salões de Paris ou Milão, voltando à sua terra natal para enriquecer e retornar para mais uma rodada de perdas.  

Na Europa e nos EUA, Dom Pedro II fazia
questão de esquecer que era soberano
de um país escravocrata.

Mas o que condicionava o sentimento de inferioridade da nossa burguesia não era ser troçada nos palcos europeus, mas a própria estrutura econômica e social do país, pois batia no coração do burguês brasileiro um aspecto dual de liberalismo e escravismo. Por um lado, ela pretendia ser moderna, antenada nas luzes parisienses, com instituições supostamente em nível com o melhor das monarquias constitucionais europeias. De outro, explorava o trabalho escravo e vivia essencialmente da renda da terra, mas com um nível produtivo muito inferior ao do passado, a ponto do século XIX por aqui ter sido um período praticamente de estagnação econômica.  

A dualidade entre a aspiração liberal e o escravismo concreto, com toda sua chaga de atraso e subdesenvolvimento, embutia na elite brasileira o sentimento de inferioridade diante de seus pares europeus. A situação, contudo, permanece após o fim da escravidão e o começo da República, pois o Brasil continuava sendo um país profundamente agrário e incapaz de ocupar qualquer posição de destaque em nível mundial. 

Pior, pois os EUA já se mostravam à época como uma potência emergente, mesmo tendo um passado colonial semelhante ao brasileiro. Esse fato é constatado nas palavras de Monteiro Lobato que, após uma viagem à terra do tio Sam, voltou afirmando o inexorável subdesenvolvimento brasileiro e que aqui mais se parecia com a África. Embora alguns apressados vejam nessa frase uma conotação racista, na verdade o escritor queria se referir à condição de subdesenvolvimento econômico daquele continente, à época dominado pelas potências imperialistas da Europa. 

Mesmo o início da industrialização, puxada pelos militares e por setores políticos de inspiração positivista, não mudou o sentimento de nossa burguesia. Isso porque o processo industrial não foi comandado por ela, mas aconteceu apesar dela, com o Estado e o capital estrangeiro na liderança. Por isso, inclusive, ao contrário de outros processos industriais em que as burguesias nacionais impuseram ao conjunto da população um ideário positivo, por aqui a burguesia continuou se portando negativamente frente ao país, cabendo antes ao Estado buscar conduzir as massas. 

Para Lobato, o Brasil, comparado aos EUA, 
era uma "África". 

Daí a inelutável contradição do Estado entrando em todos os poros da economia e a burguesia clamando contra o intervencionismo estatal, pois ela não se via no progresso prometido pela propaganda do Brasil, país do futuro, aspirando antes a explorar agora as vantagens econômicas abertas no ciclo pós-Guerra. Dito de outra forma, a burguesia brasileira nunca encampou um ideal de elevar o Brasil a potência capitalista, ficando tranquilamente em sua condição subordinada e se contentando a fazer a ponte aérea com a Europa e os EUA para gastar sua fortuna. 

Inferior e subordinada, vivendo em um país de parco desenvolvimento social e econômico, mas aspirando a ser vista de igual para igual pelas potências mundiais, a elite brasileira introjetou em si o complexo de vira-latas e tratou de irradiar isso para o conjunto do povo. Daí um cronista reacionário igual Nelson Rodrigues conseguir convencer de que a derrota na final de um campeonato era expressão de quanto o brasileiro se sentia desimportante. (por David Emanuel Coelho)  


segunda-feira, 19 de junho de 2023

MEU BRASIL BRASILEIRO: O MITO DA DEMOCRACIA RACIAL

 


Ouvi da minha amiga jornalista e escritora mineira, Malluh Praxedes, de Belo Horizonte, que veio lançar em Fortaleza o seu 20º livro, intitulado 40 anos de entrevista musical, área na qual desenvolveu muitas relações musicais, o elogio à cordialidade racial brasileira.  

Malluh conheceu alguém que lhe fez um relato comovente sobre seu pai, que lhe contou a história de um judeu russo, que fugiu do seu país durante a primeira guerra mundial para as Américas.   

Após um périplo pelas Américas, veio para o Brasil e terminou vindo morar no Ceará. Disse-me ela que seus conterrâneos judeus perseguidos haviam orientado o seu conterrâneo para vir para o Brasil, país que acolhia a todos sem discriminação.   

Foi a partir do relato emocionado sobre tal história que minha amiga afirmou que o Brasil era o melhor país do mundo, pois recebia a todos sem olhar a raça, a etnia, o credo ou outras similaridades próprias a cada povo e região.  

O Brasil, apesar de ter tido uma colonização escravista e extrativista de suas riquezas, voltada para dar sustentação ao Reino de Portugal, do qual éramos colônia. caracterizou-se pela decantada cordialidade para com os muitos imigrantes que por aqui apareceram fugindo das guerras ou em busca do sonho de riqueza ao construir a América. 

Os índios que aqui já estavam há milênios não serviram muito para o processo de escravismo da colonização portuguesa porque estavam acostumados à vida farta num país de dimensões gigantescas, e não se deixavam escravizar tão facilmente. Por isso, eram chamados de preguiçosos, como ainda hoje ocorre.  

Os brasilíndios viviam bem, a ponto do escrivão Pero Vaz de Caminha, da esquadra de Pedro Álvares Cabral, relatar ao Rei de Portugal, Dom Manuel I, "sobre as belezas dos índios e índias com suas vergonhas de fora".  

Cumpre-nos, en passant, lembrar que por aqui não se conhecia a riqueza abstrata, representada pelo valor, dinheiro e mercadorias, mas todos viviam muito bem. Cedo os “descobridores” passaram a trocar espelhos por ouro e ensinaram os autóctones a adorar um deus que lhes era estranho e em genuflexão.   

Foi assim, necessitando de mão escrava obediente e submissa, que começou a comercialização de escravos negros trazidos da África a ferro e fogo em navios negreiros, cujo fato foi objeto da repulsa poética do baiano Castro Alves e da luta do Dragão do Mar, um negro cearense que afirmou: “no Ceará não se recebem mais escravos”, daí a alcunha de terra da luz, razão pela qual quase nada de escravismo da etnia africana aportou pelo Ceará.

Realmente, além da predominância inicial de portugueses, que firmaram o idioma de Luís de Camões (1524/1580) como predominante, após a expulsão de holandeses e franceses, para cá vieram italianos e espanhóis - muitos deles anarquistas; alemães e polacos; judeus de todos os países europeus; japoneses e ucranianos; escandinavos e africanos; franceses, holandeses, ingleses, árabes - libaneses em maior número -, chineses, coreanos, etc., que aqui formaram a maravilhosa miscigenação racial brasileira.    

Diante da conclusão da minha amiga sobre a existência de uma cordialidade racial brasileira, concordei com a firmação, mas ponderando alguns aspectos críticos que devem ser indicados, a bem da verdade

Disse-lhe que tínhamos uma dívida social continental para com nossos irmãos africanos, que após um período de 300 anos, desde a infame institucionalização por escritura e registro de que eles seriam propriedade, quando foram tratados como se fossem bens semoventes, ainda padecem sob a chaga da exclusão social.   

A etnia africana no Brasil, predominantemente, mora em favelas e bairros desassistidos e lotam as cadeias numa percentagem maior do que os seus conterrâneos, como demonstração inconteste do racismo que infelizmente está culturalmente entranhado na vida social brasileira dominada por uma elite econômica e política.  

O Brasil pode se sentir merecidamente elogiado por sua postura de acolhimento étnico que resultou numa maravilhosa miscigenação racial.   

Entretanto, por aqui predomina uma divisão de estamentos sociais que assombra os turistas europeus e norte-americanos, pela diferenciação de padrão econômico e de consumo havido entre a chamada classe média, ricos e os trabalhadores de baixa renda.   

Num país onde um juiz ganha num mês o que um operário ganha em três anos; no qual um parlamentar ganha no mesmo período o que o operário ganha em 10 anos; onde existe um nível de desemprego da mão de obra economicamente ativa em torno de 10%, que significa um total em torno de 10 milhões de brasileiros desesperados; onde o salário-mínimo se situa em torno de US$ 260,00 mensais, logo se entende o porquê da sua concentração de renda absurda.   

Graças ao desemprego estrutural que permanece renitente e com ameaças de crescimento, além do subemprego, é que vivemos sob intenso clima de violência urbana sem que o Estado possa debelar tamanha chaga social face aos elevados custos de tal situação no que se refere à prevenção e punição dos criminosos, grande parte deles também vítimas do caos social resultante do capitalismo no seu estágio de saturação irremediável.   

Certa vez o cineasta e político italiano Franco Zeffirelli, nos idos dos anos sessenta, disse que o Brasil era o último país feliz do mundo. Mas, infelizmente, perdemos a nossa decantada cordialidade, tornamo-nos socialmente violentos e entristecidos... (por Dalton Rosado) 

quinta-feira, 13 de abril de 2023

GOVERNO LULA A SERVIÇO DO VEIO DA HAVAN

 


Tão logo Lula assumiu, Luciano Hang, conhecido pelo apelido de Veio da Havan, inaugurou nova fase de sua vida política. Aposentou a roupa de papagaio, verde e amarela, e fez contundente discurso aceitando o resultado das urnas e desejando boa sorte para o novo governo. 

Muito diferente de seus discursos anteriores, quando chegou a ameaçar o fechamento de suas lojas caso o atual presidente saísse vencedor nas eleições. Inesquecível também foi seu importante papel de disseminador de fake news e teorias conspiratórias a respeito da urna eletrônica, tendo entrado, inclusive na rota de investigações. No auge da Pandemia, conforme revelado pela CPI, chegou a rifar a própria mãe em experimentos heterodoxos, tudo para suportar as teses médicas de Jair Bolsonaro. 

Porém, Hang não cumpriu sua palavra de fechar suas lojas. Sequer a cumpriu quando milhares de pequenos comerciantes do interior brasileiro - das regiões do agro, sobretudo - fechavam suas portas e iam para as rodovias protestar contra a derrota de Bolsonaro. O Veio não fechou suas portas por um minuto sequer, afinal quem perde dinheiro só pode ser mané

A explicação de suas ações veio agora, com a decisão do governo Lula, na pessoa de seu patético ministro da Fazenda, Haddad, em acabar com as isenções para compras internacionais abaixo de US$50,00. Ocorre que tal isenção tem sido usada pelas plataformas asiáticas de venda - Shein, Aliexpress, Shopee, etc. - para o comércio de produtos de seus vendedores, os quais enviam produtos da China para os consumidores brasileiros como se fossem pessoas físicas, se eximindo de pagar tributos de importação. 

De apoiador número 1 do Bozismo, Hang
virou torcedor de Lula. O $$ explica. 
Esse tipo de ação tem ferido profundamente os negócios dos grandes varejistas nacionais, incluindo aí o senhor Luciano Hang, motivo porque eles se uniram já há alguns anos para pressionar o governo em prol de extinguir tal isenção de compras e, deste modo, frear o crescimento das plataformas asiáticas. Primeiro, foram atrás de Paulo Guedes, que aceitou de imediato a ideia. No entanto, seu chefe, o ex-presidente fujão, mais perspicaz, sacou logo a impopularidade de tal medida e barrou a ideia. 

Assim, a bomba viria a explodir no colo de Lula, cuja prepotência só não é maior que sua certeza da burrice do povo. Buscando ficar bem junto a um setor hostil a seu partido e a ele mesmo, seu governo aceitou o lobby dos varejistas e irá extinguir a isenção, aumentando em pelo menos 60% do valor dos produtos comprados nas plataformas.

Na prática, essa medida é o fim de uma medida de isenção fiscal, nesse caso voltada às classes médias e populares. É interessante, portanto, que a primeira medida de isenção a ser sustada não seja uma dirigida ao grande capital, mas aos trabalhadores comuns, incidindo diretamente em sua capacidade de consumo e encarecendo seu custo de vida, em momento já de escalada inflacionária. 

Um governo que prometeu taxar os ricos e fazer uma reforma tributária justa e progressiva, sintomaticamente inicia seu mandato ampliando o arrocho tributário sobre as classes trabalhadoras, tudo para agradar um dos setores mais reacionários e ignóbeis do capitalismo brasileiro. 

Agora estou mais tranquilo: se Haddad explicou
é porque é um erro mesmo. 
É também esclarecedor do que é o Estado no capitalismo, pois os mesmos empresários que supostamente reclamavam do peso da máquina estatal na sociedade foram até o governo exigir mais tributação para torpedear seus competidores. Não é novidade, pois ao longo da história capitalista, taxas e medidas alfandegárias foram usadas a torto e direito pelas burguesias ao redor do planeta para impedir ou dificultar a entrada de competidores estrangeiros ou melhorar as vantagens competitivas de seus próprios produtos em mercados externos. Estado mínimo apenas para lucros máximos.

De qualquer forma, o veio da Havan agradece esse grande presente concedido por Lula. (por David Emanuel Coelho


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

DERROTA DO FLAMENGO NO MARROCOS É SÓ MAIS UM CAPÍTULO NA DECADÊNCIA DO FUTEBOL BRASILEIRO


 M
ais uma derrota do futebol brasileiro. Pouco antes de completarem-se dois meses da desclassificação do selecionado da CBF na Copa do Catar, foi a vez do Flamengo ser atropelado pelo poderoso Al-Hilal, da Arábia Saudita, na semifinal do Mundial de clubes da FIFA. 

O time carioca não está sozinho no vexame. Antes dele, Internacional (2010), Atlético-MG (2013) e Palmeiras (2020) também tinham sido eliminados na fase semifinal do torneio, sempre para times irrisórios de países de pouca expressão futebolística. Outros sulamericanos também caíram do mesmo modo: Atlético Nacional (2016) e River Plate (2018), somando, portanto, seis quedas na fase preliminar da competição. O último sulamericano a vencer o Mundial foi o Corianthians em 2012.

Tais derrocadas apontam para um fato claríssimo, se antes o futebol brasileiro, e sulamericano, já estava anos luz de distância do europeu, agora também  perde espaço mesmo para partes do planeta onde o esporte é quase semiprofissional.  E isto tem relação direta com a condição brasileira no capitalismo do século XXI. 

A decadência econômica nacional, com o Brasil reduzido à condição de fornecedor de comodities, levou à fragilidade financeira dos clubes e ao empobrecimento dos campeonatos nacionais. Incapazes de reter por muito tempo seus jogadores, as equipes nacionais foram obrigadas a se transformarem em fornecedoras de pé-de-obra para salvarem-se das constantes ameaças de falências. 

A isso, se juntou a transformação do futebol de pratica popular em entretenimento, tornando-se o esporte mais um ramo da Indústria Cultural com a consequente inversão de somas vultuosas de dinheiro. Hoje, um jogador custar o mesmo que uma grande empresa é algo corriqueiro, mas seria impensável décadas atrás. Com essa metamorfose em espetáculo midiático, os clubes brasileiros ficaram em situação ainda mais complicada, pois é praticamente impossível a eles concorrer com os valores astronômicos pagos a jogadores a título de salário, direitos de imagem e outros penduricalhos na Europa e em outros lugares.  

Futebol hoje é parte da Indústria Cultural. 
Cada jogador vale mais por sua imagem
do que pelo que faz em campo. 


O resultado é o rebaixamento técnico do futebol praticado por aqui, pois apenas jogadores de terceiro ou quarto escalão permanecem no país, indo os de ponta para a Europa ou para paragens inferiores, mas com maior poder financeiro. As poucas equipes que conseguem manter um plantel melhor - caso de Atlético-MG, Palmeiras e Flamengo - o fazem ou com a ajuda de mecenas ou às custas de perigoso endividamento. 

O rebaixamento técnico implica na deterioração da própria formação dos treinadores, pois, na ausência de massa crítica competitiva, tendem a definhar na criatividade e no pensamento tático, repetindo, à exaustão, modelos preguiçosos e esquemões, além de copiarem porcamente as inovações feitas no centro europeu do futebol, assemelhando-se nisso aos bacharéis que iam para a Europa no século XIX e de lá voltavam repetindo frases feitas e filosofias cujo real sentido eles não dominavam. 

Por isso, mesmo quando os treinadores brasileiros possuem um grande time em suas mãos, o resultado é medíocre, como foi demonstrado na campanha do selecionado na última Copa. Certamente, Tite era o melhor técnico brasileiro à época, mas a nível mundial não estava nem na quinta prateleira. 

Para contornar a decadência técnica, muitos clubes seguiram o Flamengo e começaram a trazer treinadores estrangeiros, sobretudo portugueses. Mas, conforme a derrota no Mundial mostrou, nem todos os portugueses são iguais, sendo alguns tão ruins quanto os brasileiros. Isto para não considerarmos o fato de serem os treinadores da nossa ex-metrópole terceiro nível dentro do próprio continente europeu. 

A recente transformação dos clubes em SAF (Sociedade Anônima de Futebol) foi uma tentativa, ao menos no discurso, de alinhar o futebol daqui com as práticas mercadológicas europeias. Vendia-se a ideia de que Xeques, oligarcas e outros multimilionários estrangeiros desembarcariam em nossas praias e elevariam os campeonatos nacionais a Champion League tupiniquins.

 Com o baixíssimo poder de compra do trabalhador brasileiro, contudo, nenhum destes super capitalistas se interessou em investir seus dólares e euros, pois o retorno é irrisório. O Cruzeiro é o maior exemplo disso, pois após ter sido prometido a compra do clube por Magnatas Árabes do petróleo, a torcida teve de se contentar com o pé rapado Ronaldo, o qual, até hoje, mais de um ano após o negócio ser concretizado, praticamente nenhum centavo de seu próprio bolso investiu no clube. 

Jorge Jesus colocou os limitados treinadores brasileiros
no chinelo. Contudo, na Europa, ele não está nos primeiros
escalões e nunca treinaria os maiores clubes.

Fato é que o destino futebol brasileiro está ligado ao destino econômico e social do país. Estrangeiros podem elevar a medíocre situação técnica, mas muito pouco farão em um contexto onde o material humano é de baixa qualidade, ou onde os clubes vivem sempre à beira da bancarrota e, por fim, onde rapineiros se aproveitam de ideias impraticáveis no país para se apoderar dos bens das associações, agora empresas.   

Pelo caminhar da carruagem, o futebol brasileiro será reduzido por completo a força mundial mediana, lutando não mais contra os gigantes, mas contra os anões, com mais eliminações para equipes do baixo escalão a se repetirem. 

Tão pouco podem sonhar muito os hermanos, que também não se encontram tão bem, embora ainda desfrutem de clubes mais sólidos, um campeonato mais bem organizado, formação mais estruturada de técnicos e, sobretudo, de uma torcida mais aguerrida. Porém, tudo indica ter sido o título mundial mais uma moeda a cair em pé do que fruto de um sistema bem articulado, compartilhando a Argentina, no fim, o mesmo papel subordinado no capitalismo contemporâneo. 

Em toda América do Sul, o ocaso social, econômico e futebolístico segue a todo vapor. (por David Emanuel Coelho


terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

UM DOS CLÁSSICOS DO CINEMA INDIANO, O JOGADOR DE XADREZ É O RETRATO FIEL DE QUANDO A ELITE SE TORNA ALHEIA À PRÓPRIA REALIDADE

 


Satyajit Ray não é muito conhecido entre o público brasileiro, mas produziu algumas das maiores obras cinematográficas do século XX. Este cineasta indiano conseguiu captar não apenas a alma de seu país, mas também tocar temas universais. 

Este é o caso de O Jogador de Xadrez (Shatranj Ke Khilari), também traduzido por Os Jogadores do Fracasso, de 1977. A película aborda os acontecimentos anteriores à derrubada de Wajid Ali Shah, rei do território indiano de Nawab de Oudh, pelas forças inglesas ocupantes. 

A história possui três focos intrecruzados. Enquanto acompanhamos o cotidiano de dois membros da aristocracia local, Mirza Sajjad Ali e Mir Roshan Ali, vemos o desenrolar da trama britânica para depor o rei e tomar por completo o controle do governo local. Por sua vez, o rei, mais interessado em compor poesias e músicas, pouco tem a fazer diante da força avassaladora do Império

Satyajit Ray, um dos mais importantes
cineastas do século passado
Mirza e Mir seguem uma vida cômoda, graças ao fato de seus antepassados terem lutado em importantes guerras e conquistado, por graça real, terras e pensões. Contudo, ao contrário de seus ascendentes, os dois nobres não se interessam mais por lutas e combates reais, preferindo gastar toda sua energia em batalhas de Xadrez

Praticamente todo o tempo de seus dias é gasto em jogos intermináveis, a ponto de até mesmo negligenciarem o convívio com suas esposas. Sequer a notícia da possível ação inglesa para tomar o poder os afasta da concentração com as partidas. Quando finalmente é anunciado que as tropas invasoras ocuparão de fato o território, os nobres abandonam a cidade em busca de um lugar mais calmo para continuar as disputas, não por causa da invasão, mas para fugir do ambiente doméstico hostil. 

É nítido no filme a diferença entre a concretude política dos ingleses, posicionando-se no mundo real para derrubar o rei e controlar o governo, e a alienação dos nobres, perdidos em suas batalhas de tabuleiro e alheios à dinâmica histórica. No meio, o rei idealista sente vacilar os fundamentos de seu poder, e, diante do alheamento de sua aristocracia, não possui outra alternativa senão se render sem qualquer tipo de resistência. 

No avanço do capitalismo imperialista, momento registrado pelo filme, a elite indiana é indiferente quanto a quem vai governar. Tendo os ingleses já efetivamente dominado toda a economia do país, quem detém o poder político é algo de insignificante importância. Para esta aristocracia, é aceitável o novo papel subordinado dado para ela pela coroa britânica e seus encarregados. 

Por isso, O Jogador de Xadrez é um retrato fiel de quando uma elite se torna alheia ao destino de seu país e de seu povo e, vivendo da renda e da herança, preocupa-se mais com o imaginário que com o real. Algo não muito distante dos dias atuais. (por David Emanuel Coelho)




terça-feira, 17 de janeiro de 2023

QUAL DEMOCRACIA, CARA PÁLIDA?

 

Mais uma semana de imagens mesmerizadas na tela da Globo das invasões bolsonaristas. 

Ângulos de ângulos, cenas inéditas, visões nunca antes vistas. Ironicamente, a mídia usa o moralismo conservador contra o conservadorismo bolsonarista. 

De modo sintomático,  há mais espaço para as cenas do vandalismo da extrema-direita do que para falar a respeito da gigantesca fraude contábil das Lojas Americanas. O essencial fica encoberto, mais uma vez, pois a tresloucada ação bolsonarista do dia oito de janeiro é apenas pirotecnia de um processo mais longo de reformulação do sistema político-social brasileiro aos moldes da base neoextrativista, enquanto a roubalheira da gigante do varejo é a expressão cabal da natureza do capitalismo. 

A mensagem midiática - ao mostrar e ao calar - visa recrudescer o respeito à ordem, no caso a burguesa. A depredação física é condenada de novo e de novo, mas a contábil é ocultada. Neste discurso de pregação do conformismo, a defesa da democracia é um elemento constante. 

Todos defendem a democracia. A mídia burguesa se diz sua grande promotora e o lulopetismo afirma que seu retorno ao poder foi para salva-la. Porém, mesmo a extrema-direita e o próprio Bolsonaro se dizem defensores e respeitadores da democracia. A rigor, a palavra democracia é oca de sentido caso não nos façamos a pergunta crucial: de qual democracia estamos falando, afinal?

Por exemplo, a democracia brasileira é democrática? Quantas decisões cruciais para a vida do cidadão brasileiro realmente foram tomadas levando em conta o que o povo brasileiro pensava? Qual o grau de ingerência popular dentro das casas legislativas país afora? Quanto o brasileiro sente-se contemplado pelo judiciário? E os partidos, qual o nível de democracia interna presente neles?

Basta responder a estas perguntas para saber o quanto a democracia deste país é não-democrática. Toda a vida política nacional fica reduzida a votar, a cada dois anos, em representantes que, posteriormente eleitos, se alienarão por completo da vida do povo comum. Não à toa, todas as instituições da República são rejeitadas pela população, competindo entre si para saber qual a mais detestada. 

A democracia brasileira sequer se aproxima por completo de ser uma democracia liberal, esta por si mesma extremamente restritiva, pois é o regime onde o fundamental, os meios de produção de riquezas, não está sob controle social. O liberalismo no fundo é uma ditadura flexível, onde há liberdade no plano político, mas não em seu coração, a propriedade privada

A ditadura do patrão é a verdade do sistema liberal. Pode-se trocar os representantes, mais ou menos debater os rumos do Estado, mas não se pode discutir e controlar as estruturas fundamentais para a existência da própria sociedade. O poder econômico não é democrático.

Por isso, ele pode roubar e ficar impune, pois não está sob o escrutínio social. Não existe nenhuma eleição na qual os acionistas majoritários das Lojas Americanas deverão prestar contas. Quem foi prejudicado por eles só conseguirá reaver seu prejuízo caso também possua bala na agulha, pois, do contrário, será imponte igual ao servo medieval após ter tido suas filhas sequestradas pelos pequenos tiranos da nobreza. 

É esta democracia, onde nada muda, que é defendia pela Globo, pelo STF, pelo Congresso e pelo lulopetismo. E também, ainda mais restritiva, pelo bolsonarismo. Democracia, na boca destes agrupamentos, é a ditadura da burguesia, a tirania do capital, em detrimento dos interesses da imensa maioria trabalhadora. 

Nossa democracia não pode ser esta, mas deve ser a democracia social, do cotidiano, onde o conjunto da população decida efetivamente sobre os rumos do país e do mundo desde o nível elementar da produção dos bens úteis à vida. Democracia sim, mas democracia que seja muito mais do que simplesmente apertar botões a cada dois anos. (Por David Emanuel Coelho) 

sábado, 24 de dezembro de 2022

JESUS NÃO ALAVANCAVA BEM AS VENDAS, ENTÃO O TROCARAM PELO PAPAI NOEL

apollo natali
O BELO NATAL
O
 que essa gente não faz para disparar as vendas... 

Numa inspirada jogatina de marketing, homens de negócios dotados de imensa aptidão lançaram fora  a comemoração do dia do nascimento do personagem mais celebrado do universo. O nome dele é Jesus.

Em seu lugar estamparam no calendário o nome de um novato conhecido como Papai Noel.

Nesta reviravolta, Jesus deve ter sido considerado fraco em alavancar compras e vendas, então o substituíram pelo Papai Noel, figura modelada por exímios empreendedores, nada contra eles, como um alegre velhinho de barbas brancas e, valha-nos Deus,  detentor de milagrosa façanha mercadológica: numa só noite, chova ou faça neve, compra e distribui presentes para milhões e milhões de crianças e adultos do mundo inteiro. 

Um só velhinho de voz rouca, entoando hô, hô, hô,  põe para funcionar todas as atividades econômicas ao mesmo tempo, de tecidos a bancos, de alimentos à indústria do petróleo, porque de petróleo são feitas as roupas,  os presentes de plásticos, calçados, cintos, veículos, tudo.  A dinheirama para o Papai Noel sai do bolso dos papais e das mamães.  

Monumental o faturamento. Nada contra. Gerar empregos é bom. Pois não é o emprego a salvação dos pais de família e seus rebentos?

De Jesus fala-se há mais de 2 mil anos. Mais, muito mais. Compêndios sagrados perdidos na lembrança,  templos misteriosos desaparecidos nas noites do passado, a própria  Bíblia, sopram, de longe em longe,  milenários murmúrios de sua vinda à terra. Mesmo no Corão ele e sua mãe são louvados. 

De Papai Noel fala-se há bem menos tempo. Era um frade turco 400 anos depois de Cristo. Fazia o bem. Canonizado como São Nicolau, 900 anos depois de Cristo.

Digam-me, eu não sei, dia, ano e mês exatos em que Papai Noel foi alçado a promotor de vendas de sucesso global pelo sistema capitalista. Cada país dá um nome a ele. Em nome da deusa economia,  todos se curvam diante desse inventado deus. Por enquanto é assim. Quem quer realidade melhor, que aguarde novas profecias.

Um empurrãozinho a mais na ciência da riqueza foi apostar numa fantasia colorida de  trenós e renas cruzando os céus. Jogada de mestre.

Faz  80 anos. De autoria dos publicitários estadunidenses. É o delírio das crianças e de muito adulto por aí. Faz o consumidor salivar e correr para as compras. E como Tio Sam, também não é nada, nada fraco em negócios,  deu até nome para cada uma das nove renas. Perfeito.

A quem não é ligado a religião organizada nenhuma, como muitos, e mantém um pezinho atrás da religiosidade, melhor dizer solenidades monásticas, é confortador considerar Jesus como o maior psicoterapeuta que já surgiu neste planeta. 

Detida análise  comprova: os dois, o texto de Jesus e o da psicologia, convergem no comportamento. Proceder bem é bom, agir mal é mau, rezam ambos.


Quanto aos maus, a  natureza deles se vinga,  dizia-me o padre Antonio, do Colégio Dom Bosco, na minha paulistana infância querida, na Mooca.  Bem feito.

A variante aqui, mesmo no entender dos terráqueos não religiosos, é o  universalmente  proclamado e desmedido amor pela humanidade ofertado pelo judeu de Nazaré, perfeito psicoterapeuta, tudo o que é perfeito é divino, e como em amor ele não é nada, nada fraco, desvenda todos os enigmas existenciais da espécie humana. 

Eia, vamos, tentemos emparelhar a semelhança entre sua linguagem religiosa e a da psicologia.

Detalhe religioso:
 
"mesmo aqueles todos não ligados a religião organizada nenhuma, são  testemunhas de que a religiosidade não sucumbiu ao socialismo, a  teoria da evolução não a asfixiou, a era digital não a silenciou". Palavras do psicanalista Augusto Cury.

"A determinante é que Jesus anunciou uma nova era, um novo relacionamento, um inédito e notável comportamento, com base numa afeição profunda, fortalecedora forma de ver e reagir à vida"Do mesmo Augusto Cury, em seu livro O homem mais inteligente do mundo. 

Quanto a mim, a vós também, correndo vou, braços amigos, desde que sem qualquer artifício dogmático.
A imagem definitiva do Papai Noel, criada por publicitários
Sim,  sim, o  mundo seria um paraíso se existisse uma gotinha de bem-querer  um pelo outro, como quer Jesus. Sem cerimônias, por favor.  

Tal modo de vida é a síntese da mensagem comportamental do homem mais inteligente do mundo: querer bem. O contrário de falar a língua dos anjos e nem sequer cumprimentar o porteiro do prédio. 

Trocado em miúdos, passou da hora de os integrantes da espécie humana frequentarem uma escolinha risonha e franca para aprender as primeiras letras do respeito ao próximo. Tão fácil. 

De resto, quão celestial é a festa de se comemorar a mensagem de bem-querer, no Natal de Jesus,  com permuta de carinho, abraços, docinhos e salgadinhos e tudo,  em meio  ao repicar dos sinos, do coral dos anjos, do tilintar das caixinhas de música. Que festa bonita!

De resto, quão terreno é o festim de se comemorar o Natal de Papai Noel, o simpático velhinho gorducho dinheirento garbosamente coberto de vermelho, tamanha ruidosa solenidade de distribuição de bens materiais e de geração de empregos. Que divertimento proveitoso! (Sempre em mente: não só de pão vive o homem, e todos sabemos quem disse isto!) 

Não existe nenhuma foto de Jesus. Nem pintura ou escultura dele. Artistas tiram do nada a inspiração para criar obras de arte representando com diferentes feições o chamado Messias. Multidões comemoram  o seu Natal  sem  saber como ele realmente era.

No entanto, existe um documento histórico precioso, até que bem conhecido, escrito por uma autoridade romana que conheceu Jesus pessoalmente e faz sua descrição física e moral. 

É uma carta,  escrita ao imperador Tibério Cesar pelo então governador da Galileia Publio Lentulus, encontrada  no arquivo de um mencionado Duque de Cesadini  em Roma e hoje entesourada no Vaticano. 

A narrativa  nos privilegia ficar frente a frente,  neste exato momento, com o homem mais inteligente e mais amoroso de todos os tempos, contemplar seus olhos claros iluminados  Jesus tinha olhos claros! —, admirar seu semblante majestático, seu porte modesto, conhecer a cor de terra reluzente dos seus cabelos, divididos ao meio, caídos até as espáduas. E confirmar seus milagres.

A carta encerra prodigiosa  mensagem  de Natal  para religiosos e não religiosos:

"Sabendo que desejas conhecer quanto vou narrar, existindo em nossos tempos um homem, o qual vive atualmente de grandes virtudes, chamado Jesus, que pelo povo é inculcado de profeta da verdade e pelos seus discípulos de filho de Deus.

Em verdade, ó César, a cada dia se ouvem coisas maravilhosas desse Jesus. Ressuscita os mortos, cura os enfermos. É um homem de justa estatura e é muito belo no seu aspecto, e há tanta majestade em seu rosto que aqueles que o veem são forçados a amá-lo ou a temê-lo. 
Tem os cabelos da cor da amêndoa bem madura, são distendidos até as orelhas; e das orelhas até as espáduas; são da cor da terra, porém reluzentes. 

Tem o meio da sua fronte uma linha separando os cabelos, na forma em uso pelos nazarenos. Seu rosto é cheio, de aspecto muito sereno; nenhuma ruga ou mancha se vê em sua face; o nariz e a boca são irrepreensíveis. 

A barba é espessa, semelhante aos cabelos, não muito longa; seu olhar é muito afetuoso e grave; tem os olhos expressivos e claros, resplandecendo no seu rosto como os raios do Sol, porém ninguém pode olhar fixo seu semblante, pois se resplende, subjuga; e quando ameniza, comove até às lágrimas. Faz-se amar e é alegre, porém com gravidade. Diz-se que nunca alguém o viu rir, mas, antes, chorar.

Tem os braços e as mãos muito belos. Na palestra contenta muito, mas quando dele se aproxima, verifica-se que é muito modesto na presença e na pessoa. É o mais belo homem que se possa imaginar, muito semelhante à sua mãe, a qual é de uma rara beleza, não se tendo jamais visto por estas partes uma mulher tão bela.

Porém, se a Majestade Tua, ó César, deseja vê-lo, como no aviso passado escreveste, dá-me ordens, que não faltarei de mandá-lo o mais depressa possível. 

Dizem que um tal homem nunca fora visto por estas partes. Em verdade, segundo dizem os hebreus, não se ouviram jamais tais conselhos de tão grande doutrina, como ensina este Jesus; muitos judeus o têm como divino e muitos me querelam, afirmando que é contra a lei da Tua Majestade. 

Diz-se que Jesus nunca fez mal a quem quer que seja, ao contrário, aqueles que o conhecem e com ele Têm praticado, afirmam ter dele recebido grandes benefícios e saúde, porém à Tua obediência estou prontíssimo; aquilo que Tua Majestade ordenar, será cumprido.

Vale, da Majestade Tua, fidelíssimo e obrigadíssimo, 

Publio Lentulus, presidente da Judeia".
(não poderia faltar crônica do saudoso
Apollo  Natali neste 5º Natal que
passamos sem sua presença benfazeja
ao nosso lado, corporificando o que de
melhor existe na tradição religiosa)
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