segunda-feira, 1 de junho de 2026

editorial

 Gostaria de deixar como legado, para os que virão depois, o fim da exploração do homem pelo homem. 

Agora; entretanto, me caiu a ficha de que raríssimos revolucionários conseguem realizar algo tão grandioso como o que sonhavam. Nem mesmo algo duradouro. Desde a Comuna de Paris nossas vitórias são temporárias e nossas derrotas, devastadoras. 

Mesmo assim,  não me arrependo do rumo que segui e das opções que fiz. Sou incapaz de imaginar-me como um homem egoísta, movido por ambições menores, indiferente às vítimas do terrorismo de estado que assolou o Brasil. 

Quando, nas minhas palestras, alguém me perguntava se tinha valido a pena sacrificar tanto para obter tão pouco, eu respondia que já era deplorável um país de 90 milhões de habitantes haver apenas uns 3 mil  dispostos a correr os riscos de lutar pela liberdade, ainda que seja em enorme desigualdade de forças; menos dp que isto seria vergonhoso.

Assim como a Resistência Francesa não conseguiu vencer os nazistas (as tropas aliadas é que o fizeram) mas salvou a honra da França, nós não acabamos com a ditadura nem fizemos a revolução, mas salvamos a honra do Brasil. Depois de tanta derrota sem luta, finalmente uns poucos enfrentamos a repressão na praia dela, o campo de batalha, e até obtivemos êxito em alguns momentos. 

A partir daí, os rompimentos de paradigmas foram se sucedendo:
**  oito jovens, com idades entre 17 e 21 anos, terem partido para a luta armada, exatamente quando os quadros  mais velhos e mais experientes dela se distanciavam, por ter-se tornado quase kamikaze a partir da decretação do ato institucional número 5;
** minha surpreendente designação, aos 18 anos, para a posição de comandante estadual daVPR e meu papel do racha da VPR, iniciado por mim e pelo José Raimundo da Costa (Moisés);
** eu ter resistido a uma proposta de reingresso num partido de esquerda, em meados da década de 1970, desde que desse uma entrevista a jornalistas do Brasil e correspondentes do exterior, relatando as torturas a mim infringidas mas omitindo que a VPR consentira na minha estigmatização, mesmo sabendo que eu sequer conhecia a localização da área 2 de treinamento, estourada pela repressão (ao contrário de muitos outros militantes que aceitaram fazer mea culpa insinceras para serem readmitidos como coitadinhos, esperei  34 anos mas resgatei a verdade e o respeito dos companheiros).

Cedo percebi que, depois de destruída a VPR, não havia mais dirigentes que fizessem questão de que eu fosse mantido como bode expiatório de fatos ocorridos em 1970. O problema era eu não aceitar a infalibilidade dos comandantes. Minha reabilitação implicaria o reconhecimento de uma injustiça dos mandachuvas, ainda que de outra organização, e era isto que os incomodava.

Mas ceder a eles seria a negação de tudo que aprendera na prisão quando, finda a fase das torturas, refletia longamente sobre o que acontecera conosco. Era difícil eu aceitar que, embora estivéssemos basicamente certos, houvéssemos sofrido tamanho massacre.

Para encurtar a história, conclui então que, até o esmagamento da Comuna de Paris em 1871, o socialismo e o anarquismo haviam sido o que Marx sonhara: uma onda revolucionária varrendo o mundo. 

Depois de derrota tão amarga, ingredientes autoritários foram sendo aos poucos acrescentados, até a época atual, quando a esquerda humanista quase desapareceu e as
nomenklaturas brotaram como cogumelos, incapazes de forjar regimes duradouros e sucumbindo, mais dia, menos dia, às armas, ao consumismo e à lavagem cerebral do capitalismo. 

Como começarmos a desconstruir tal colosso? Minha única certeza é de que não será a partir das eleições de cartas marcadas da democracia liberal. São um engodo. Reproduzem infinitamente o capitalismo, mesmo no seu estado terminal de hoje em dia.

Tantos espertinhos á se proclamaram corregidores de Marx, mas a contradição básica do capitalismo permanece a mesma: ao descolar a produção do consumo, permite que uma parte dos indivíduos viva de forma nababesca e outra parte seja reduzida à pobreza. Então, entre a extrema pobreza e a pobreza em países de renda média, cerca de 44% da população mundial é pobre. Os ricos são aproximadamente 10%.

Há como tornar 44% igual a 10%? É óbvio que não! E, para piorar, é o percentual dos ricos que cresce, não o dos pobres. Então, os exploradores têm um poder de fogo cada vez maior para a preservação de sua condição privilegiada, e não se vexam de utilizá-lo.

Aproximamo-nos de outra grande depressão, que tende a ser mais grave ainda do que a iniciada em 1929 A forma de evitá-la seria colocar o atendimento às necessidades  humanas como prioridade máxima da economia, ao invés do lucro.

Com uma organização diferente da sociedade, hoje é possível proporcionar a cada ser humano o necessário para uma existência digna. Os avanços científicos e tecnológicos o possibilitam. 

Mas, como chegarmos a isto se, por exemplo, há canalhas no Brasil que movem céus e terras para evitar a introdução da escala 5x2, já insuficiente e abandonada por vários países?!

A crise do subprime, em 2008, já deveria ter servido para alertar os donos de gado e gente que há um tsunami econômico em gestação. Mas, nada consistente está sendo feito para evitá-lo. 

Pelo contrário, o presidente estadunidense Donald Trump torna o mundo cada vez mais desigual e desumano, revivendo as práticas mais sórdidas do capitalismo selvagem, afora esforçar-se em estimular a arrogante imposição da vontade dos países mais forte sobre as nações mais fracos. 

Mas, desde a crise dos mísseis cubanos em 1962, parece afastada a hipótese de extermínio da espécie humana devido a uma guerra nuclear, como se houvesse um acordo de cavalheiros no sentido de os países mais poderosos não guerrearem entre si com força total. Quanto muito mandam tropas para ajudarem os mais fracos que entram em confronto com os mais fortes.

Mesmo Trump, a despeito de toda palhaçada, recua quando a situação começa a tornar-se perigosa demais. Não passa de um fanfarrão copiando os blefes de Adolf Hitler na década de 1930.

Uma hipótese mais viável é a de que, como tem acontecido quando há oferta excessiva e insuficiente procura, pipoquem guerras destinadas não a suprimir a espécie humana como um todo, mas sim o excesso de pessoas em situação de miserabilidade impedindo o bom funcionamento da economia capitalista.

Quem abandona a África à fome e às pestes é capaz de tudo. 

Outros fantasmas nos assombram. Um deles é o de novas pestes como a Covid 19. Os doutos nos dizem que elas serão bem mais frequentes de agora em diante, exatamente por causa da miserabilidade em que vegetam várias nações e seus povos. São verdadeiras incubadoras de epidemias.  

Teremos de volta os horrores da Idade Média, quando em algumas cidades a ´população inteira era dizimada? A enorme dificuldade que o mundo teve para controlar a recente pandemia poderá ser reeditada em maior escala? Os países ricos se interessarão pelas miseráveis ou as deixarão sucumbir à mingua?

O aquecimento global é um pesadelo em si e também devido à lerdeza com que são tomadas medidas que já no século passado sabíamos ser obrigatórias. A substituição da energia fóssil por energia limpa perde quase todas paradas  para o lucro e a ganância, mesmo podendo exterminar a espécie humana. Até quando?

E a energia nuclear está sendo encarada, na prática, como alternativa à energia suja. Fukushima nada nos ensinou? A possibilidade de ocorrerem terremotos e maremotos  é ampliada em muito pelas alterações climáticas. E se alguma usina nuclear deixar radiatividade escapar ou for invadida pelas águas? O preço que a humanidade poderá parar pelos aquecedores no inverno é aterrador.

Isto sem falar no progressivo esgotamento dos recursos indispensáveis para nossa sobrevivência, desde alimentos até a agua (que cada vez terá de ser buscada mais longe).

Tudo isso pode acontecer simultaneamente, com os males se alimentando um ao outro.  E tenho sérias dúvidas sobre se os ricaços não acabarão viabilizando as viagens para Marte, deixando-nos entregues à morte. Pois, para eles. o principal é o lucro e nós somos secundários.

E surge a pergunta crucial: o que fazermos? Nada, se a humanidade for extinta. Das tripas, coração, se houver sobreviventes.

Mas, não será a democracia burguesa, submissa ao poder econômico e produtora de neofascistas, que nos tirará do caos. Está tão impotente para dar qualquer resposta aos maiores problemas quanto o capitalismo para evitar a grande depressão que se avizinha.   Morrerão abraçados.

Meu principal legado é ter alertado meus leitores para os cenários que enfrentaremos, provavelmente, já na segunda metade deste século. Torcendo para que eles ajam, espalhando tais avaliações e se preparando para o pior.

Infelizmente, não vejo possibilidade de união de toda a espécie humano para o enfrentamento das  catástrofes. Mas, os que eventualmente sobrarem precisarão de líderes aptos para os conduzirem na longa marcha para a a reconstrução e recriação do que for perdido.   

Lembro-me de que os bolcheviques eram irrisórios no início de 1917 e se tornaram preponderantes no final do ano, porque sabiam o que tinha de ser feito naquela situação crítica, com o país devastado pela derrota na primeira guerra mundial e pela herança maldita do czarismo.

De não formos nós, de esquerda, os forjadores dessa nova vanguarda, ninguém mais o será.

São Paulo, junho de 2026, 

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