| Três meses depois, diante da Faculdade de Filosofia, seria travada a batalha da rua Maria Antônia |
O primeiro ainda no tempo do movimento secundarista, quando fomos na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, na rua Maria Antônia, para acompanhar uma assembleia para se discuti como o movimento estudantil daria seu poio à greve de Osasco (a primeira com a tomada de fábricas, seguida pela ocupação da cidade por numeroso contingente de policiais militares).
Os quatro chegamos adiantados e estávamos esperando o começo da assembleia que, como era frequente naquela época, não se iniciaria na hora marcada. Foi quando vimos o cantor e compositor Geraldo Vandré no saguão de entrada, sendo hostilizado pelos universitários.
Era meu ídolo desde que ouvira pela primeira vez sua Canção Nordestina. Depois de descrever a situação de penúria de seu povo (é paraibano) ele lançou um grito que começava baixo mas ia crescendo até me fazer estremecer: E essa dor no coração/ aaaaaAAAAAAIIIIII, quando é que vai se acabar?/ Quando é que vai se acabar?
Então o Vandré, para surpresa geral, ajudou o Sodré a escafeder-se, indo se abrigar na catedral da Sé. A foto dessa ajuda foi publicada na capa da Folha da Tarde e, por não saberem que o Sodré era velho amigo do artista, os universitários passaram a xingá-lo de traíra.
Bem mais tarde, um amigo confiável me contou que, quando trabalhava na Imprensa do governo paulista, constatara que o Sodré abrigava o Vandré em pleno Palácio dos Bandeirantes. Era raro um político profissional correr o risco de esconder alguém caçado pela repressão.
O bate-papo com ele durou algo entre duas e três horas. Canções foram cantadas e o Vandré nos mostrou a que ele estava então criando, os versos escritos num papel grande de embrulhar pão, com várias palavras riscadas e substituídas por outras. Era a Caminhando.
Ou seja, por um destino insólito ficamos conhecendo previamente a canção que seria símbolo da luta contra a ditadura militar e faria os milicos destruírem a vida do Vandré.
Quando a Caminhando (ou Pra não dizer que não falei das flores) se tornou quase um hino revolucionário, ninguém ou quase ninguém ficou sabendo que a música havia sido composta pelo Vandré reafirmar suas convicções, tipo eu continuo o mesmo e ainda acredito nas mesmas coisas.
-- que, embora passasse por louco, o Vandré falava coisa com coisa. Disse, p. ex., que a Caminhando poderia voltar a ser sucesso na voz da Simone, mas ele não deveria voltar junto. Ou seja, insinuava que poderia ser retaliado pela repressão ou alvo dos atentados terroristas de extrema-direita que estavam ocorrendo;
-- que só voltaria a cantar no território nacional quando aqui vigesse a plenitude democrática (e cumpriu, indo apresentar-se no Paraguai, nas proximidades da fronteira com o Brasil);
Eu gostaria de haver lançado um texto atestando que o Vandré não estava biruta, mas a ocasião não se apresentou. Só o fiz após a devolução do poder à cidadania.
Mas, quando o Vitor Nuzzi lançou uma biografia do Vandré, reacendendo a discussão sobre o equil´brio mental do artista, eu publiquei uns 10 artigos negando tal hipótese.
Um dos meus principais argumentos foi o de que, ao desembarcar no Galeão em 1973, policiais praticamente o sequestraram e o internaram numa clínica carioca na qual ele permaneceu 58 dias sem poder falar com parentes, advogado ou demais pacientes. O que terá acontecido nesses 58 dias de incomunicabilidade?
* * *
Com o Raul Seixas mantive um relacionamento fugaz, mas pitoresco. Eu tinha passado batido pelo lançamento, em julho de 1973, do seu primeiro e melhor disco, Krig-ha Bandolo! Em dezembro desse mesmo ano, Jards Macalé reuniu muitos dos melhores músicos da época num show comemorativo dos 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. A gravadora RCA tentou lançá-lo em 1974, com o título de O banquete dos mendigos, mas foi proibido pela censura e recolhido nas lojas.
Com a abertura ampla, geral e irrestrita do ditador Geisel, ele foi lançado em 1979 e eu finalmente o fiquei conhecendo. E, ao escutar Raul Seixas interpretando Cachorro urubu, foi como se um raio me atingisse. Os versos alusivos ao maio de 1968, a primavera de Paris, eram um arraso: Todo jornal que eu leio/ me diz que a gente já era/ que não é mais primavera/ oh, baby, a gente ainda nem começou.
Depois fiz questão de ir numa coletiva de imprensa do disco Abre-te, Sésamo, e o Raul estava hilário. Então, ao escrever sobre o novo LP, gastei só umas 8 linhas com a parte comercial e umas 50 reproduzindo o que havia rolado no almoço com o Raul, a Kika (última namorada da vida dele) e o divulgador da CBS.
Os artistas quase nunca mandavam um obrigado! pelo que jornalistas tinham escrito sobre eles. O Raul foi uma exceção, ligando para me convidar a uma boca livre da CBS. Tornamos a nos ver mais duas ou três vezes, mas, como não se podia estar com o Raul sem tomar pelo menos metade do que ele bebesse, esqueci quase tudo que conversamos.
O que eu percebi dele é que, como eu, tinha 1968 como um grande referencial de sua vida. A coisa era exatamente como ele contou em Ouro de tolo: dera um duro danado para chegar onde estava e aí viu que não era exatamente isto que queria na vida (Eu é que não me sento/ no trono de um apartamento/ com a boca escancarada, cheia de dentes/ esperando a morte chegar).
Na minha opinião, o Raul sonhara com sua consagração musical ocorrendo numa época igual a 1968, mas o que obtivera foi a necessidade de ajustar-se a uma sociedade careta e detestável.
Quando estávamos nos embriagando, ele não fazia nenhuma das palhaçadas que ajudavam a vender discos. Era bem diferente de sua imagem pública.
Recordo também quando disse que ele e o Paulo Coelho, antes do sucesso, traduziam para próprio uso os livros de bruxos famosos, como o Aleister Crowley. Ambos aproveitaram de forma diferente tais ensinamentos: o Raul com a sociedade alternativa e o Paulo com suas lorotas sobre ser um mago.
* * *
Finalmente, fiz uma entrevista adequada com D. Paulo Evaristo Arns, a quem respeitava pelo seu destemor ao enfrentar a ditadura militar e a hierarquia católica conservadora. Mas em algum momento a parte formal deu lugar a um papo franco sobre nossas histórias de vida. Isto foi antes de minha reabilitação.
Na hora de ir embora, mesmo com dificuldade para andar e corcunda por causa de um atentado terrorista que sofrera em qualquer país latino-americano (não disse qual), ele se levantou para acompanhar-me até o portão.
Tentei dissuadi-lo, porque era uma caminhada longa do gabinete dele até a saída do mosteiro de São Francisco. Não adiantou.
Depois, digerindo na memória tudo que ocorrera, lembrei-me do seu olhar determinado, que brilhava ao falar sobre seus grandes momentos, como a missa de sétimo dia que ele rezou em memória de Vladimir Herzog, dividindo o púlpito com sacerdotes de duas outras confissões, sem deixar-se intimidar em nenhum momento. Tinha alma de guerreiro. (por Celso Lungaretti)
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