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domingo, 11 de agosto de 2024

A ESQUERDA QUE NÃO SE DEIXOU COOPTAR PELO CAPITALISMO: UM LEGADO (parte 1)

Ao acordar em maio de 1987 na enfermaria do Hospital das Clínicas (SP) com quatro fraturas na perna direita, sem sequer lembrar-me de como chegara àquela situação (havia sido atropelado por uma moto com passageiro), tive plena consciência de que estar vivo era um acaso e de que se podia morrer de um momento para outro, às vezes sem sequer perceber. 

Desde então preocupei-me bem mais com o legado que deixaria para os pósteros, pois não tinha certeza de quanto tempo me restava para produzi-lo, nem de se teria condições para registrar uma mensagem derradeira.

Talvez haja sido mais eficiente em forjar meu legado do que em escrever uma espécie de autobiografia precoce, lembrando o livro de Yevgeny Yevtushenko que tanto me impressionou quando eu ainda era um aprendiz de revolucionário. Pois é disto que se tratava: dar ainda vivo uma interpretação final da minha trajetória no bom combate.

O certo é que agora, no finzinho de junho, hospitalizado por causa de uma doença infecciosa muito resistente, tive um piripaque que, durante uma hora, me deixou com a impressão de que chegara ao fim da linha. 

O ataque passou e agora, novamente dono do meu ser e do meu destino, resolvi não postergar mais a tarefa de redigir um balanço da minha jornada, na esperança de que sirva da inspiração para os que virão depois, já que é remota a perspectiva de ver ainda em vida germinarem as sementes revolucionárias que plantei. 
Colegas no primário, depois fomos
companheiros de militância
 

Bem mais provável é a prevalência, em futuro imediato, dos mostrengos engendrados pelos palhaços do apocalipse, semeadores de urtigas.  

Ela começa exatamente nas férias escolares entre 1967 e 1968, quando, depois de umas poucas semanas de imersão, junto com outros recrutas, nas obras dos papas do marxismo (bem no estilo da mostrada em A Chinesa, do Godard), decidi dedicar a minha vida à revolução.

Mal acabara de completar 18 anos, portanto poderia apenas estar lançando palavras ao vento. Mas, no meu íntimo, já encarava-a como uma decisão para toda a vida. E foi: lá se vai mais de meio século e continuo tão fiel quanto possível àquela longínqua opção revolucionária. 

Rico em aprendizado, o ano de 1968  daquele grupo de oito secundaristas da zona leste paulistana não diferiu do de tantos outros companheiros que iam às ruas confrontar a ditadura militar. Aceitamos todas as missões e nos desincumbimos delas com o arrojo próprio da idade. 

A coisa começou a mudar de figura com o AI-5, que marcou a transição da ditadura militar para o terrorismo de estado pleno, tornando a militância revolucionária quase kamikaze. Não ignorávamos os riscos que correríamos com a radicalização repressiva e, mesmo assim, os oito líderes  da Frente Estudantil Secundarista na zona leste paulistana optamos por seguir adiante. 

Aí sim se estabeleceu uma diferenciação, pois muito maior foi o número dos passeateiros que se omitiram quando a radicalização ditatorial deu um salto qualitativo com a assinatura do AI-5, preferindo não encarar o combate nas trevas. 

Nosso grupo de jovens (o mais novo com 18 anos e o mais velho com 21) preferiu os perigos bem maiores que passaram a existir para quem estava na linha de frente do que a autopreservação pusilânime. As mortes de dois dos nossos, Eremias Delizoicov e Gerson Theodoro de Oliveira, foram um dos preços que pagamos por nosso destemor. A captura e as torturas  que quatro de nós sofremos, outro.

Mal acabávamos de ser admitidos na Vanguarda Popular Revolucionária, em abril de 1969, fui surpreendido com a inusitada designação para criar um setor de Inteligência em São Paulo, alçado de imediato ao segundo escalão da VPR. Acima, só estava o Comando Nacional.

O Gerson morreu baleado na rua
Visto por alguns veteranos como um estranho no ninho, pois não possuía os méritos que eles haviam acumulado em duras batalhas nas fases anteriores (muitos deles vinham na luta desde a vitoriosa resistência à tentativa golpista de 1961), era, quanto muito, tratado com uma camaradagem condescendente.

Ninguém esperava grande coisa de mim, mas, como a investidura não me subira à cabeça e eu mostrava muito empenho em acertar, estava sendo razoavelmente bem aceito. 

Era, ao que eu saiba, o mais jovem comandante de uma organização revolucionária brasileira nos anos de chumbo, mas isto não me iludia: percebia claramente que a minha participação vistosa no congresso de abril/1969 da VPR não justificava tal condição. 

Ademais, tinha sido designado para um trabalho pioneiro (não havia comandante de Inteligência nas demais organizações) e sem peso real na correlação interna de forças da VPR, já que eu não comandava militantes, apenas coordenava simpatizantes e aliados.

Os acasos, no entanto, me projetaram muito acima do que eu pudesse imaginar ou, mesmo, quisesse. Começando por ter alugado um apartamento em parceria com outro comandante estadual, José Raimundo da Costa, pelos prosaicos motivos de que a grana estava curta para ambos e meu nome real poderia ser usado no contrato de locação, pois ainda não caíra.

A convivência com o Moisés, remanescente das mobilizações da marujada contra a direita golpista no pré-1964. me permitiu tomar rapidamente conhecimento da história da VPR e de suas lutas internas. 

Ele tinha na ponta da língua cada detalhe e eu sede de conhecer o passado da organização. Também me interessavam muito os acontecimentos do período em que a esquerda deixara a épica vitória de 1961 se transformar na derrota sem luta de 1964. 

Graças ao Moisés, fiquei conhecendo a encarniçada disputa de poder interno, ao longo de 1968, entre as chamadas tendências militarista e massista, a primeira priorizando as ações armadas contra a ditadura e a segunda insistindo na manutenção de vínculos orgânicos com os movimentos de massa.

O acerto de contas acabou ocorrendo no início de 1969, paralelamente à pior crise de segurança até então enfrentada pela VPR, com quedas de alguns de seus quadros mais importantes. Houve, em seguida, aquele congresso em Mongaguá para colocar a casa em ordem e foi quando Carlos Lamarca se tornou o líder explícito da organização.

O Moisés seria executado na 
Casa da Morte de Petrópolis
Mas os comandantes estaduais de São Paulo passamos a ter vários motivos de insatisfação com o(s) comandante(s) nacional(is) aos quais estávamos submetidos. Até que o Moisés e eu chegamos à conclusão de que eles, na prática, agiam para sabotar a luta principal e inchar a organização nas cidades, ressuscitando a derrotada tendência massista

O Comando Nacional passou a ter quatro integrantes dedicados à preparação do lançamento da guerrilha rural e um à ligação com os comandos estaduais; a fusão com o Colina manteve o mesmo desenho, com quatro comandantes incumbidos da luta principal e dois de fazerem o meio de campo com as cidades.

Começamos a divagar sobre a possibilidade de, aproveitando a realização do congresso nacional convocado pela VAR-Palmares para legitimar a fusão VPR-Colina, colocarmos em xeque a própria fusão, pregando a retomada da identidade de VPR. Parecia-nos que fora o ingresso dos militantes de origem Colina que impulsionara o novo fortalecimento da ala massista

Mas, é quase certo que ambos desistiríamos de dar um passo tão maior que nossas pernas se uma munição inesperada não tivesse caído em nossas mãos. Ela já era conhecida na organização, mas não estava sendo levada a sério. 

Ao perceber que circulava internamente, mas sem ser levado a sério, um documento que propunha a melhor resposta aos impasses da esquerda armada naquele momento, eu não vacilei, endossando-o de imediato, incondicionalmente. 

A coisa então mudou de figura, pois se tratava do endosso estridente de um comandante estadual, mesmo que fosse provavelmente o de menor prestígio dentre todos. As chamadas Teses do Jamil já não podiam ser ignoradas e mantidas desdenhosamente à parte do debate das propostas estratégicas a serem abordadas no Congresso de Teresópolis, tanto que néo-massistas correram a lançar documentos refutando-as. 

Eu colocara em movimento a roda do destino de uma forma inimaginável, ainda mais por isto estar partindo de quem tinha tão pouca influência, prestígio e poder dentro da organização. E, claro, atraí para mim desgraças jamais sonhadas. (por Celso Lungaretti
"O que sou nunca escondi/ Vantagem nunca contei/ Muita luta já perdi/
Muita esperança gastei/ Até medo já senti/ E não foi pouquinho, 
não/ Mas fugir, nunca fugi/ Nunca abandonei meu chão"

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quinta-feira, 11 de maio de 2023

RECORRER AO LIXO ENSANGUENTADO DA DITADURA PARA RECONSTITUIR EPISÓDIOS DA LUTA ARMADA É FLERTAR COM OS ERROS

Ante a prisão iminente, Juarez cumpriu seu
pacto de morte com Maria do Carmo Brito
U
m companheiro de muitas batalhas de opinião travadas na internet  me informou que o jornal  Estado de Minas acaba de publicar esta reportagem, com base em conclusões tiradas por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais que examinaram uns 3 mil documentos da repressão da ditadura militar, acerca da morte do companheiro Juarez Guimarães de Brito, figura exponencial do Colina, VAR-Palmares e VPR, ocorrida em 18 de abril de 1970.

No entanto, eu objetarei que a papelada dos órgãos de inteligência e de informação que nos combateram tem enorme profusão de erros, exatamente porque baseada nos interrogatórios a que éramos submetidos sob torturas extremas e nos relatórios das equipes encarregadas de interpretá-los.

Os primeiros porque, sob espancamentos e descargas elétricas, inventávamos qualquer lorota para dar aos torturadores a impressão de que estávamos dizendo tudo que sabíamos. E tais revelações eram checadas depois com outros presos, quesabiam ser preferível confirmá-las do que arriscarem-se a uma acareação e, consequentemente, a novas torturas. O que tentávamos, com todas as nossas forças, era não abrir informações operacionais, que levassem a novas prisões ou queda de aparelhos;  

Vai daí, p. ex., que os relatórios dos órgãos de repressão me atribuíram o papel de um dos três juízes do julgamento de Antônio Nogueira da Silva Filho por parte de um tribunal revolucionário da VPR. Era um disparate e eu só vim a saber que tal julgamento ocorrera três décadas depois (vide aqui).

Também cansei de ler a versão militar de ações armadas das quais eu sabia quantos membros da Organização haviam participado – invariavelmente a lista continha vários nomes que não tinham nada a ver com o episódio. Às vezes o número fictício era o dobro do real, um verdadeiro samba do crioulo doido.
Juarez comandou a apreensão, sem um 
só tiro, do famoso cofre do Adhemar
Percebi, ainda, a existência de óbvios exageros para engrandecer a atuação dos militares participantes daquelas ações repressivas, o que amiúde lhes valia promoções, recompensas de empresários e as famigeradas medalhas do Pacificador  
     
  
Então, a minha avaliação de quem esteve muito próximo de tal episódio é a de que o papel do infiltrado do Cenimar, agente Manoel Antônio Mendes Rodrigues (Luciano), está sendo superdimensionado. A versão que eu tenho é a de que o Wellington Moreira Diniz havia sido preso como consequência de quedas num pequeno grupo de calouros na luta armada, ao qual estava prestando assistência.

O Wellington, ex-aluno e braço direito do Juarez desde o Colina, teve diagnosticado um problema cardíaco e a VPR resolveu tirá-lo da militância mais ativa. Ele passou a levar uma existência tranquila, somente dando treinamento a novos recrutas da guerrilha, pertencentes a grupúsculos que a nós recorriam, como aquele em cujas quedas foi arrastado.

Na nova condição, ele só mantinha contato com a VPR aos sábados, para trocas de informações e recebimento da sua pensão.

Quando deixou de comparecer ao ponto e à alternativa (meia hora depois) de um desses sábados, 11 de abril de 1970, a Organização já ficou apreensiva, admitindo a possibilidade de que ele tivesse caído.

Foi o que algum dos comandantes com os quais eu mantinha contato frequente (o Ladislau Dowbor e a Maria do Carmo Brito, do Comando Nacional, mais o próprio Juarez e o José Ronaldo Tavares de Lira e Silva, comandantes das duas unidades de ações armadas no RJ) me comunicou.
O Wellington dez anos atrás, na sessão em que a Comissão
de Anistia lhe concedeu indenização por seus tormentos
 

O Comando Nacional marcara uma reunião na área de treinamento guerrilheiro para discutir atrasos no encaminhamento da
tarefa principal (o comandante Carlos Lamarca acreditava que, como já ocorrera antes do seu ingresso, alguns quadros da VPR estivessem se dedicando pouco à abertura da frente de luta no campo e bem mais ao crescimento da nossa estrutura nas cidades).

Insisti ao máximo com o Ladislau e a Maria do Carmo no sentido de que a O. não ficasse acéfala dos seus principais comandantes quando um companheiro importante como o Wellington poderia ter caído. Caso isto se consumasse, as providências para deter uma possível onda de quedas em cascata ficariam muito prejudicadas. 

Mas, aqueles dois comandantes nacionais não ousaram contrariar a voz forte do terceiro, então lá se foram todos para a lavagem de roupa suja no campo.

O tal infiltrado pode mesmo haver apontado à repressão o grupo ao qual o Wellington transmitia seus conhecimentos teóricos e práticos da guerrilha urbana. Mas, eu diria que seu papel foi unicamente este.

O certo é que, já preso e torturado desde o dia 9 (segundo a reportagem do Estado de Minas, de autoria de Bertha Makaroun, pois esta data nós não tínhamos), o Wellington não havia aberto para a repressão os ponto e alternativa do primeiro sábado (dia 11). 
Estivemos juntos na PE da Vila Militar em 1970: o Wellington sob 
risco de ataque cardíaco e eu com o tímpano estourado a supurar
  
Depois, ao longo da semana seguinte, após ser supliciado durante prováveis seis dias, ele indicou à repressão o fotógrafo ao qual, como motorista do Lamarca, o conduzira: tinha de atualizar as fotos da sua documentação falsa, já que fizera uma cirurgia plástica para se diferenciar da imagem que os jornais e tevês não paravam de martelar.

A prisão do fotógrafo deve ter ocorrido na quarta-feira, 15 de abril, pois é pouco provável que ele tivesse resistido muito antes de entregar o elo seguinte da corrente: um ginecologista que era há muito simpatizante da VPR e o principal fornecedor de prestadores de pequenas tarefas para a O. (desde pessoas que guardavam itens ou abrigavam companheiros em emergências até a aeromoça que, aproveitando a fachada que lhe dava sua profissão, foi contatar o comandante Shizuo Ozawa na Argélia depois de ele ter sido libertado em troca de um cônsul nipônico por nós sequestrado).

O ginecologista esteve comigo até lá pelas 22h30, 23h00, dessa mesma quarta-feira. Foi para casa e lá o prenderam. Na manhã seguinte, tinha outro ponto comigo, para me passar o contato de dois novos simpatizantes que poderiam prestar alguns serviços à O. Em lugar deles, quem estava lá era o DOI-Codi.

Fui, portanto, uma das primeiras vítimas das quedas em cascata que eu temera e havia tentado evitar. E, no sábado (18 de abril), o Wellington estava como isca na segunda e última alternativa do seu ponto semanal com a O. Ou seja, não se tratava de um novo ponto, mas apenas o procedimento costumeiro nesses casos.
O infiltrado Manuel Antônio Rodrigues  
pode estar tendo seu papel superdimensionado
 

Não dá para acreditar que o infiltrado tivesse conhecimento desse ponto. Por que haveria o Wellington de, antes de sua prisão, revelar a alguém de fora a sistemática de segurança da VPR?

Aliás,, quando estávamos ambos presos na PE da Vila Militar, ele não desmentiu que tivesse revelado o local e hora do ponto fatal. Talvez eu não lhe tenha perguntado (estávamos em celas diferentes, uma um pouco adiante da outra, e sabíamos que não era bom entrarmos em detalhes sobre assuntos melindrosos, pois poderíamos estar sendo ouvidos).

Mas, ao contrário da pretensão da reportagem jornalística de estar livrando o Wellington da pecha de traidor do Juarez, que eu saiba ninguém na VPR ou na esquerda raciocinava de maneira tão obtusa. Seria uma aberração atribuir-lhe alguma culpa por haver aberto o fotógrafo ou a existência do ponto do dia 18 depois de haver passado uns seis dias sofrendo torturas tão terríveis.  

O que a O. exigia dos militantes é que aguentassem a onda por 24 horas, prazo por nós considerado suficiente para desmarcarmos todos os pontos que ele tinha, evacuarmos todos os aparelhos que ele conhecia, avisarmos todos os aliados com os quais tivera algum contato, etc. Não era sequer suposto que alguém aguentasse seis dias infernais sem abrir absolutamente nada (ainda mais se tratando de um companheiro com o coração debilitado!).

O certo é que o Juarez e a Maria do Carmo sabiam de antemão que era enorme a possibilidade de o Wellington estar nas garras da repressão, mas mesmo assim foram conferir. Chegando lá, perceberam, como diz a reportagem, que ele estava mesmo preso e servindo de isca, mas ignoravam que ele não pudesse correr (o que chegou ao meu conhecimento é que ele estava em pé num ponto de ônibus, mas tinha as pernas presas por talas sob a calça, o que era, vale dizer, um procedimento usual do DOI-Codi).

Então, o Juarez comprou umas frutas num mercado próximo, colocou um revólver embaixo e as frutas em cima, e pagou a um menino para entregar o pacote
àquele parado moço ali. Wellington recebeu o pacote, viu a arma mas ela de nada lhe serviria com as pernas presas. E os agentes da repressão, percebendo o que estava acontecendo, cercaram o carro do casal.
Continuo transmitindo a historiadores e às novas gerações
minhas lembranças e reflexões sobre a luta contra o arbítrio

Sei que é muito difícil para um historiador chegar à verdade sobre os episódios da luta armada a partir dos documentos fantasiosos da repressão e de lembranças às vezes imprecisas de um ou outro sobrevivente dos
anos de chumbo. Afinal, já lá se vai mais de meio século.  

Mas, como ingressei muito jovem na VPR (mal acabara de completar 18 anos), a passagem do tempo ainda não abriu buracos na minha memória. Não só permaneço saudável e lúcido aos 72 anos, como  tenho cumprido o papel de posicionar melhor os historiadores que me procuram como fonte. (por Celso Lungaretti, jornalista, escritor e anistiado político, que foi comandante de Inteligência da VPR em SP e no RJ)
SAIA JUSTA – o velho amigo que me enviou, num comentário ao meu post O Bozo já não passa de uma prisão esperando acontecer,  o link desta reportagem do jornal Estado de Minas, esqueceu de avisar que ela foi publicada... em 2015! 

Então, distraidamente, supus que fosse recente, daí ter respondido a ela com o longo artigo acima. 

Agora, constatado o engano, resolvi mantê-lo no ar, afinal, envelhecido ou não, deu uma baita trabalheira. E talvez venha a interessar a algum leitor mais condescendente. 

De resto, lembrando as tevês de antigamente quando a transmissão caía, desculpe a nossa falha. (CL

domingo, 11 de setembro de 2022

COM SUAS TESES DE 1969, JAMIL RECRIOU A VPR. VEJA AS TESES DE 2022.

Foto do professor Ladislau Dowbor. Do guerrilheiro
Jamil não havia imagens na busca virtual, exceto...
Em meados de 1969, a VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) se fundiu ao Colina (Comando de Libertação Nacional), dando origem à VAR-P (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares).

No Comando Nacional então criado, eram quatro os integrantes envolvidos com a montagem da coluna móvel estratégica, o objetivo fundamental da organização.
  
Dois outros (o Max/Carlos Franklin da Paixão Araújo) e o Bento/Antônio Roberto Espinosa faziam a ponte entre o trabalho principal e os comandos estaduais, dos quais o principal era o de São Paulo.  

Várias divergências surgiram entre esses comandantes nacionais e nós outros, os três membros do Comando paulista (o quarto, Elias/João Domingues da Silva, acabara de ser assassinado pela Oban, que o torturou antes de restabelecido de um ferimento a bala, causando-lhe hemorragia).

Foi quando nos pareceu que o Bento e o Max estariam, na contramão das nossas definições estratégicas, favorecendo o inchaço da VAR-P nas cidades, em detrimento do crescimento no campo, cujo trabalho não deslanchava. 

Enquanto o Moraes/Samuel Iavelberg evitava ir tão longe, o Moisés/José Raimundo da Costa e eu (Douglas) interpretamos o que estava ocorrendo como uma nova investida da tendência que acreditava ser fundamental uma ligação orgânica com os movimentos de massas e fora derrotada na luta interna da VPR do final de 1968. 
...as dele com os demais companheiros libertados quando do sequestro do embaixador alemão.
Nossa visão era a de que tal tendência se fortalecera com a chegada dos militantes do Colina, daí termos decidido levar ao congresso nacional da VAR-P, marcado para outubro, uma proposta de volta ao status quo ante, desfazendo a fusão e reassumindo-nos como VPR. 

Foi quando li um documento de circulação interna intitulado Teses do Jamil, que percebi imediatamente tratar-se do embasamento teórico ideal para nossa propsta de recriação da VPR. Ele simplesmente cortava o nó górdio da discussão sobre se a revolução brasileira deveria ter uma etapa nacional-democrática (no sentido de erradicar os traços coloniais e as reminiscências feudais ainda existentes) ou seria, de imediato, socialista.

Não era uma questão meramente retórica, pois, no primeiro caso, deveríamos aliar-nos à burguesia nacional e ao campesinato; no segundo, o sujeito revolucionário seria o proletariado do campo e das cidades.

O Jamil contrapôs que, como a revolução inexoravelmente seria socialista, isso pouco nos deveria importar. Caberia a nós iniciá-la e, no próprio processo, as forças de esquerda de nós discordantes acabariam incorporando-se à luta como consequência da dinâmica dos acontecimentos.  
Ferimentos do Elias
reabriram; ele morreu

Parece simples, mas foi uma espécie de ovo de Colombo que o Jamil colocou em pé, baseado em seu conhecimento de proposições teóricas da esquerda européia, pois passara alguns anos estudando na Suíça (é francês de nascimento, embora criado no Brasi), antes de voltar para cá e ingressar na luta armada. Em especial, influenciara-o o livro do Andre Gunder Frank então muito influente, O desenvolvimento do subdesenvolvimento

Como eu vinha do movimento estudantil, soube aquilatar a importância das Teses do Jamil, que estavam passando despercebidas na organização. Lancei imediatamente um artigo de circulação interna apoiando-as entusiasticamente (*). E elas acabaram sendo mesmo a proposta teórica da VPR quando esta voltou a ter identidade própria a partir do racha dos 7 no congresso da VAR-P de outubro de 1969.

Jamil, que passou a ser comandante nacional, foi arrastado nas quedas em cascata da VPR em abril de 1970 e, dois meses depois, incluído na lista dos 40 presos políticos cuja libertação foi exigida em troca do embaixador alemão von Holleben (leia mais sobre o Jamil e tal período da trajetória da VPR aqui).

Desde então o guerrilheiro Jamil desapareceu de cena, enquanto seu alter ego, o economista Ladislau Dowbor, lecionava na Universidade de Coimbra, assessorando depois, como consultor, os governos da Guiné Bissau, Nicaragua, Costa Rica, África do Sul e Equador.

Regressou ao Brasil com a anistia de 1979, foi secretário de Negócios Extraordinários na gestão da prefeita Luíza Erundina em São Paulo, professor de pós-graduação na PUC e consultar de diversas agências da ONU.

Graças a um comentarista cá do blog, fiquei sabendo que Jamil/Ladislau Dowbor lançou novo livro neste ano, Resgatar a função social da economia – uma questão de dignidade humana (Editora Elefante, 178 pag.); o download gratuito pode ser feito clicando aqui.

Eis como ele sintetiza sua proposta:
"A atividade industrial permanece, sem dúvida, como permaneceu a atividade agrícola diante da Revolução Industrial; mas o eixo de dominação e controle já não está nas mãos dos capitães da indústria, e sim nas de gigantes financeiros como BlackRock, de plataformas de comunicação como Alphabet (Google), de ferramentas de manipulação como Meta (Facebook), de intermediários comerciais como Amazon.

O mecanismo de apropriação do excedente social mudou, e com isso mudou a própria natureza do sistema. Estamos no meio de uma transformação profunda da sociedade, nas suas dimensões econômica, social, política e cultural, gerando o que tem sido chamado de crise civilizatória. Transitamos para outro modo de produção, e o presente estudo sistematiza os novos mecanismos presentes nesse cenário. Na última parte, propomos caminhos".
Voltarei a escrever sobre ele assim que o tiver lido. Mas, antecipo que consegue mesmo atualizar a visão que temos da dominação capitalista, sem, contudo, oferecer resposta à grande dúvida destes tempos: o que fazer?. Ou seja, como organizarmos nossas fileiras para uma luta realmente efetiva contra o capitalismo atual. 

A impressão que dá, e que tenho sustentado nas últimas décadas, é a seguinte: a manipulação das consciências a partir dos mimos do consumismo e da lavagem cerebral efetuada pelos meios de comunicação de massa atingiu tal perfeição que as chances de ruptura se limitam, por enquanto, aos imprevisíveis protestos que têm eclodido quando a exploração se torna extremada e afrontosa demais, como sucedeu em 2013 no Brasil e pipocou ao longo de 2019 em vários países. 
Elisa Quadros, musa dos protestos de 2013 no RJ

Se nossa única esperança for mesmo o espontaneísmo, só nos restará tentar capacitar uma vanguarda para aproveitar melhor as chances que surgem, não as deixando entregues às lideranças de ocasião, como a pobre
Sininho (despreparada ou não, a omissão da esquerda face à desmedida perseguição judicial que ela sofreu foi vergonhosa!!!).  

O desafio é tentarmos ir além disto, de nada adiantando ficarmos patinando sem sair do lugar com o obreirismo e/ou a ilusão, já detonada faz mais de um século pela Rosa Luxemburgo, de que o reformismo possa um dia vir a humanizar e exploração do homem pelo homem...  (por Celso Lungaretti)
* Longe de mim a pretensão de que seria o único na organização capaz de decifrar o artigo do Jamil. 

Mas, os que o compreenderam devem ter sido exatamente os que dele discordavam: embora derrotados na luta interna, havia muitos companheiros que continuavam acreditando que, sem termos contato mais direto e frequente com as massas, nos tornaríamos militaristas insensíveis e sanguinários... 

O Jamil ia na direção contrária, propondo que cumpríssemos as tarefas arnadas da revolução por sermos a organização mais apta para tanto, e deixássemos a conscientização do povo (e os enormes riscos de segurança nela envolvidos) por conta de outras forças da esquerda. 

Então, meu verdadeiro papel foi o de ter tornado as proposições do Jamil compreensíveis para aqueles que naturalmente deveriam sentir-se por elas representados, mas não o estavam fazendo, talvez por não as terem entendido direito.
(CL)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

DEVEMOS RESPONDER AO SECTARISMO DAS NARRATIVAS POLARIZADAS COM A VERDADE SEM RETOQUES. ELA É REVOLUCIONÁRIA! – 1

DEPOIMENTO DE UM VETERANO DA VPR
(o outro lado deste episódio enfocado no site Iconografia da História) 
Faziam-nos acusações falsas aos montes
E
m abril de 1969, após uma temporada de luta interna e de várias quedas, a Vanguarda Popular Revolucionária realizou um congresso para botar ordem na casa. 

Teve lugar no município de Mongaguá, litoral sul paulista, e eu lá estive como convidado, representando um grupo de oito secundaristas cujo ingresso na organização estava em vias de ser concretizado (como os 11 delegados oficiais não fizeram restrições à minha participação nos debates e votações, eu me tornei, informalmente, o 12º delegado).

Discutiram-se longamente tanto os excessos militaristas {ênfase excessiva nas ações armadas] quanto os desvios massistas [ênfase excessiva no trabalho de massas, que se havia tornado perigosíssimo e ineficaz a partir do AI-5], detectados nas duas correntes que haviam travado a luta interna. Tentava-se chegar a um ponto de equilíbrio.

O caso do atentado contra o quartel general do II Exército foi, na verdade, a resposta da VPR a uma bravata do comandante boquirroto daquela unidade militar. 

Ele deitara falação na imprensa de que os terroristas –um termo meramente propagandístico, já que exercíamos nosso direito de resistir a uma tirania e não objetivávamos, como os verdadeiros terroristas, paralisar o funcionamento do Estado com bombas e balas– não teriam coragem de ir enfrentá-lo de homem para homem.

A VPR lançara um carro-bomba ladeira abaixo, para que parasse ao se chocar com o muro do quartel e, em seguida, explodisse, sem causar outros danos que não o de fazer o comandante linguarudo engolir a bravata.

Havia vários ex-militares nos quadros da VPR, principalmente antigos sargentos. Eles se mostravam muito incomodados com o desfecho do plano que supunham perfeito. 
Mais mentira: em 68 Dilma não era da VPR e sim do Colina 

Foi executado exatamente como planejaram, só que ninguém imaginou que um sentinela fosse sair do seu posto (o que lhe era vedado pelas ordens que recebia) e aproximar-se daquela carro sem motorista para conferir o que era aquilo.

Mais ou menos na mesma época, o sentinela do Batalhão de Guardas, que ficava na Baixada do Glicério, viu passar um carro em alta velocidade em plena madrugada e agiu exatamente conforme as ordens que tinha: abriu fogo. Matou estupidamente um cidadão de outro Estado que desconhecia tratar-se de área de segurança militar. E foi elogiado pelo comandante por sua obediência cega.

O pobre do Mário Kozel Filho agiu de forma mais humana, provavelmente tentando prestar ajuda a um provável acidentado, mas na VPR ninguém pensara na hipótese de um sentinela decidir pela própria cabeça e não como autômato programado pelos superiores.

Os sargentos, que cumpriam na caserna o dever de adestrar esses novatos, acabavam se imbuindo de sentimentos paternais pelos soldados rasos. Continuavam inconsoláveis, oito meses depois, pois a discussão sobre a validade desse tipo de ação reavivou-lhes as más lembranças.

Assim como os outros companheiros oriundos das Forças Armadas, o comandante Carlos Lamarca se mostrava pesaroso, embora ainda não integrasse a VPR quando a ação ocorreu. 
Militantes da VPR emboscados e chacinados quando voltavam do exterior  
Ele até mais do que os outros, pois havia sido um oficial que desprezava seus iguais como
privilegiados, mas tinha grande identificação com os recrutas que estavam prestando serviço militar (eles são filhos do povo, dizia).

Foi unânime a conclusão de que uma trapalhada como a do atentado ao QG jamais deveria acontecer de novo. E houve muitas críticas à decisão de se responder a um desafio com outro, isto aqui não é filme de bangue-bangue...

Finalmente, resolveu-se:
— que demonstrações de força, dali em diante, deveriam ser evitadas e, mesmo que alguma parecesse válida, teria de ser antes autorizada pelo Comando Nacional; e
— que a Organização não justiçaria inimigo nenhum que não fosse identificado pelas massas como merecedor de tal destino (nada de matarmos outro major Chandler da vida, alguém de quem nunca se ouvira falar, e só depois explicar ao povo que ele seria agente da CIA –o que, aliás, nunca ficou comprovado, embora fosse suspeito seu comportamento de cursar a Escola de Sociologia e Política como um estudante qualquer e depois, na empolgação post-coitum, ele haver confidenciado à colega brasileira que era oficial do exército dos EUA).

Na verdade, durante os 12 meses seguintes, até a minha
queda, não houve mais nem demonstrações de força, nem justiçamentos. Aliás, ao que eu saiba, depois também não. 
.
(Celso Lungaretti, jornalista, escritor e ex-preso político, que ingressou na VPR em abril/1969 e subsistiu na luta por 
um ano exato, o que era, então, uma marca invejável)
(continua no post seguinte)

terça-feira, 29 de julho de 2014

VEJA QUANTOS FUROS HÁ NAS INVENCIONES DO REINALDO AZEVEDO CONTRA A DILMA

Não adianta se desculpar, a pisada na bola foi feia.
O Reinaldo Azevedo está na carreira errada. Deveria partir para a literatura, criando enredos de ficção ligeiramente inspirados em acontecimentos reais. Tem talento para isso, mas o desperdiça como propagandista da extrema-direta, tentando fazer suas invencionices serem levadas a sério e quase sempre resvalando para o mais absoluto ridículo.

Escrevendo sobre a sabatina presidencial, ele cravou no título que houve "três momentos patéticos" (vide íntegra aqui). Eis o segundo deles, com meus comentários de testemunha ocular da História em maiúsculas vermelhas:
"Dilma, sob o codinome Estella, foi a mentora de um roubo milionário. Em julho de 1969, três carros com 11 guerrilheiros da VAR-Palmares estacionam em frente à casa no bairro carioca de Santa Teresa, onde morava um irmão de Ana Capriglioni, notória amante do ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros. Lá, executando uma operação minuciosamente planejada por 'Estella', que não tomou parte na ação, a VAR-Palmares roubou um cofre de chumbo pesando 300kg, recheado com uma bolada de US$ 2,16 milhões.
DILMA NÃO FOI "MENTORA" NEM "MINUCIOSA PLANEJADORA", POIS TAL PAPEL COUBE AO JUAREZ GUIMARÃES DE BRITO, O MAIOR PLANEJADOR DE OPERAÇÕES DESTE TIPO DURANTE A LUTA ARMADA. ELE TINHA SIDO O CÉREBRO DO GRUPO TÁTICO DO COLINA E CONTINUOU SENDO-O DEPOIS QUE O COLINA SE FUNDIU À VPR, DANDO ORIGEM À VAR-PALMARES. 
Eis o real "mentor"
DILMA NÃO PARTICIPOU DA AÇÃO SIMPLESMENTE PORQUE SUAS FUNÇÕES NA ORGANIZAÇÃO ERAM POLÍTICAS, NADA TENDO A VER COM AS OPERAÇÕES ARMADAS (DAS QUAIS, POR QUESTÕES DE SEGURANÇA E ESPECIALIZAÇÃO, DESINCUMBIAM-SE OUTROS MILITANTES, SEMPRE OS MESMOS), AO CONTRÁRIO DO QUE CONSTA NA FICHA POLICIAL FAJUTA QUE A EXTREMA-DIREITA DISSEMINOU NA INTERNET PARA A CARACTERIZAR COMO "TERRORISTA/ASSALTANTE DE BANCOS". 
AS FANTASIAS MIRABOLANTES DO REINALDO AZEVEDO SÃO IDÊNTICAS ÀS DO TERNUMA: UTILITÁRIAS, E NÃO HISTÓRICAS.
"Pouco tempo depois, a VAR-Palmares se desintegra, por desentendimentos entre 'Estella' e Carlos Lamarca. A maior parte do grupo seguiu a agora presidente — na época, Cláudio, seu primeiro marido, partira para Cuba a bordo de um avião sequestrado, e Dilma já se enamorava de Carlos, o gaúcho da VAR-Palmares — com quem veio a se casar e com quem teve Paula, a única filha, hoje juíza do Trabalho em Porto Alegre — de quem se separou já depois da redemocratização.
A VAR-PALMARES RACHOU NO CONGRESSO DE TERESÓPOLIS (OUTUBRO DE 1969) COMO CONSEQUÊNCIA DO DESCONTENTAMENTO DOS CHAMADOS MILITARISTAS COM O QUE ACREDITAVAM SER UM DESVIO MASSISTA DOS MILITANTES ORIGINÁRIOS DO COLINA: NÃO ESTARIAM PRIORIZANDO DEVIDAMENTE A MONTAGEM DA COLUNA MÓVEL ESTRATÉGICA NEM AS AÇÕES DE PROPAGANDA ARMADA NAS CIDADES, POR ENTENDEREM SER NECESSÁRIA A MANUTENÇÃO DE ALGUNS ELOS COM OS MOVIMENTOS OPERÁRIO E ESTUDANTIL. 
OU SEJA, OS PRIMEIROS TINHAM EM MENTE UMA VANGUARDA QUE CUMPRIRIA ESTRITAMENTE AS AÇÕES ARMADAS DA RESISTÊNCIA, DEIXANDO AS OUTRAS TAREFAS PARA OUTROS GRUPOS, ENQUANTO OS SEGUNDOS QUERIAM UMA ORGANIZAÇÃO QUE MANTIVESSE ALGUM ENRAIZAMENTO NAS MASSAS.  
 Falsificações pululam 
A IDEIA DE DESFAZER A FUSÃO E RECRIAR A VPR PARTIU DE DOIS COMANDANTES ESTADUAIS DE SÃO PAULO, O JOSÉ RAIMUNDO DA COSTA E EU, TENDO COMO PLATAFORMA TEÓRICA UM DOCUMENTO-PROPOSTA DO LADISLAU DOWBOR INTITULADO "TESES DO JAMIL". 
NO CONGRESSO DE TERESÓPOLIS, OS VERDADEIROS PROTAGONISTAS DA RUPTURA FORAM O LAMARCA, PELO LADO DOS MILITARISTAS; E O CARLOS FRANKLIN PAIXÃO DE ARAÚJO E O ANTÔNIO ROBERTO ESPINOSA, PELOS MASSISTAS. OS TRÊS ERAM COMANDANTES NACIONAIS. O CASAL JUAREZ GUIMARÃES E MARIA DO CARMO BRITO, IGUALMENTE DE PRIMEIRO ESCALÃO, TENTAVA APAZIGUAR OS ÂNIMOS E MANTER A ORGANIZAÇÃO UNIDA. DILMA SECUNDAVA OS LÍDERES MASSISTAS E FOI NESTA CONDIÇÃO QUE CONTESTOU EM ALGUNS MOMENTOS O LAMARCA. 
NO FINAL, A VPR RECRIADA TEVE A ADESÃO DE ALGUNS QUADROS DE ORIGEM COLINA (COMO O CASAL BRITO) E NA VAR-PALMARES PERMANECERAM MILITANTES DE ORIGEM VPR (COMO O ESPINOSA). FOI ENTÃO QUE SE ABRIRAM VAGAS NO COMANDO NACIONAL DA VAR E A DILMA A ELE ASCENDEU.
"Parte do dinheiro — US$ 1 milhão — teria sido doada aos rebeldes argelinos. O resto teria sido usado para financiar a guerrilha. Seja como for, uma das guardiãs da grana era… Dilma! Virá daí a sua fixação por dinheiro em moeda sonante?."
PURO SAMBA DO CRIOULO DOIDO. TUDO LEVA A CRER QUE REINALDO AZEVEDO TENHA SE LEMBRADO VAGAMENTE DESTA ENTREVISTA DE MARIA DO CARMO BRITO, PUBLICADA EM O ESTADO DE S. PAULO.
TÃO OBCECADO ESTAVA EM ATACAR DILMA QUE TROCOU AS BOLAS, ATRIBUINDO-LHE O PAPEL QUE MARIA DO CARMO BRITO AFIRMA TER DESEMPENHADO (HÁ QUEM FAÇA RESTRIÇÕES À SUA VERSÃO), RELATIVO À PARTE DO DINHEIRO QUE FICOU COM A VPR, NÃO À PARTE DA VAR. O REINALDO AZEVEDO OUVIU O GALO CANTAR, MAS NÃO SABE ONDE...
FINALMENTE, O US$ 1 MILHÃO NÃO FOI DOADO AOS REBELDES ARGELINOS, MAS SIM COLOCADO SOB A GUARDA DELES, PARA DEVOLUÇÃO QUANDO FOSSE NECESSÁRIA.
Resumo da opereta: creio ter escancarado a tendenciosidade e absoluta falta de rigor histórico do Reinaldo Azevedo. Que continue acreditando nele quem quiser... ser manipulado!

terça-feira, 25 de maio de 2010

DIREITA CONTINUA CALUNIANDO DILMA NA WEB

Recebi e-mail com a seguinte mensagem:

"Por favor, repassem para o maior número de brasileiros, para que ninguém ignore essa biografia e acabe votando em uma terrorista de alta periculosidade para presidente do Brasil.

"Estas fotos anexas são para reavivar a memória da terrorista Dilma, ministra do governo Lula e candidata a presidente da República do Brasil em 2010.

"Ela teve amnésia e não se lembra dos assaltos a banco, dos sequestros, assassinatos, delação de colegas e tudo o mais que fez. Só lembra que foi torturada, sabe com detalhes quem foram os que a prenderam e a 'maltrataram', mas não sabe por quê .

"Foi por isso, dona Dilma, a senhora e seus comparsas queriam implantar o regime de Cuba no Brasil e estes que estão aí, mortos pelo seu bando, foram alguns dos obstáculos que impediram que alcançasse o seu objetivo de implantar uma DITADURA COMUNISTA NO BRASIL

"Claro, vocês não foram tratados como trataram seus adversários aqui e nos regimes que lhes financiavam: Cuba, Rússia e China, entre outros, por isso estão aí vivinhos, sendo indenizados por essas mortes e, pior, governando este país!"
Anexadas, vieram cinco fotos de pessoas mortas, com o seguinte título geral: "Assassinados pela VPR e VAR-Palmares grupos guerrilheiros a que pertencia a Dilma, ou Vanda, ou Patrícia, ou Luíza, como eram seus codinomes".

As fotos são as seguintes:
  • do jornalista Regis de Carvalho e do almirante reformado Nelson Gomes Fernandes, atingidos pela explosão de uma bomba cujo alvo era o presidente Costa e Silva, em junho/1966, no aeroporto de Guararapes (PE). OS PRÓPRIOS SITES ULTRADIREITISTAS E MILITARES ATRIBUEM TAL ATENTADO À AÇÃO POPULAR (AP), ORGANIZAÇÃO QUE NUNCA TEVE DILMA ROUSSEFF COMO MILITANTE (ela só militou na Polop, no Colina e na VAR-Palmares).
  • do capitão Charles Rodney Chandler (1968), do soldado Mário Kozel Filho (1968) e do tenente Alberto Mendes Jr. (1970), MORTOS PELA VPR, OUTRA ORGANIZAÇÃO QUE NUNCA TEVE DILMA ROUSSEFF COMO MILITANTE, ao contrário do que o e-mail apócrifo sustenta.
Foi só entre junho/1969 e outubro/1969 que ela esteve em contato com quadros da VPR, pois esse agrupamento se fundiu ao Colina, formando a VAR-Palmares; mas, quatro meses depois já aconteceu uma cisão, com Dilma permanecendo na VAR e a ala oposta recriando a VPR.

É totalmente ridículo querer vinculá-la a episódios sucedidos em 1968, quando ela estava militando no Colina de Minas Gerais e não tinha nenhum contato com a VPR paulista; ou a uma ocorrência de abril/1970, depois de ela ter optado por não aderir ao grupo que refundou a VPR (afora o pequeno detalhe de que ela estava presa desde janeiro/1970...).

Ou seja, a propaganda extremista não tinha como imputar-lhe mortes com um mínimo de verossimilhança, até porque não foi disto que a ditadura a acusou ao julgá-la em suas auditorias militares, após inquéritos instruídos com o uso generalizado e indiscriminado da tortura; o jovem militante da VAR-Palmares Chael Charles Schreier, p. ex., foi fulminado por um ataque cardíaco durante as sevícias que sofria na PE da Vila Militar (RJ) em novembro de 1969, dois meses antes da prisão de Dilma.

Mesmo assim, seguindo fielmente os passos do ministro de propaganda nazista Joseph Goebbels (aquele que recomendava martelar uma mentira até que ela passasse por verdade), as correntes virtuais direitistas apelam despudoradamente para a distorção da História, ao jogarem nas costas de Dilma as vítimas de outros grupos revolucionários -- além de omitirem que o Brasil estava submetido ao terrorismo de estado por parte dos golpistas que usurparam o poder em 1964, o que descaracteriza como crimes os atos praticados no legítimo exercício do direito de resistência à tirania.

Em todas as lutas contra o despotismo através dos tempos, sempre houve ações com encaminhamentos e resultados discutíveis, o que não altera o caráter fundamental desses confrontos, nem iguala os resistentes a seus verdugos (a equiparação não se dá nem mesmo na quantidade de baixas, pois as bestas-feras do arbítrio invariavelmente matam mais -- em nossos anos de chumbo elas abateram 379 cidadãos, muitos dos quais executados covardemente depois de presos).

Por último, o tal e-mail trazia também anexada a ficha policial fajuta de Dilma Rousseff que pipoca desde 2008 na web e foi desmascarada de vez quando a Folha de S. Paulo caiu na besteira de a publicar, tendo depois de admitir de público que não passava de uma falsificação grosseira.


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