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terça-feira, 8 de abril de 2025

O CIRCO DOS HORRORES NUNCA MAIS LEVANTARÁ SUA LONA TENDO O BOZO COMO BUFÃO PRINCIPAL

"Então Pedro se lembrou da palavra que o Senhor lhe tinha dito: 'Antes que o galo cante hoje, você me negará três vezes'. Saindo dali, chorou amargamente" (Lucas 22:54-71).

Mas, segundo a Bíblia, Cristo levou na esportiva a pusilanimidade de Pedro e continuou confiando nele para ser a pedra sobre a qual edificaria sua igreja.

Na vida real, contudo, as coisas são bem diferentes... ainda mais quando se trata dos humores dos ultradireitistas, que, como primatas que são, cultuam desmesuradamente a força bruta.

Portanto, quando Jair Bolsonaro montou todo o esquema de golpes de Estado mas, na hora H, refugou, eu passei imediatamente a considerá-lo carta fora do baralho para os voos mais altos da horda a que pertence.

Refiro-me, é claro, aos Dias da Pátria de 2021 (quando caiu no ridículo total de ter de suplicar ao Michel Temer que limpasse a sua sujeira) e 2022 (o do bicentenário da Independência, quando nem mesmo a solenidade da data lhe incutiu coragem), depois ao 8/1 (quando foi esconder-se na Disneylândia e ficou assistindo pela TV a cabo, junto com o Pateta, enquanto seus zumbis eram presos).
Após amarelar em 2021, o Bozo sentou no colo do Temer

Assim, imediatamente após a terceira amarelada, já escrevi que mito com faniquito é rima que não funciona. 

Assim como o Jânio Quadros após a renúncia e o Fernando Collor após o impeachment (a Dilma nem sequer tentou!), o máximo a que poderia aspirar seria uma cadeira de prefeito ou uma vaga no Legislativo.

Daí o fracasso vexatório da maluquice do último domingo (6), quando o que resta do seu gado foi pastar na avenida Paulista tentando forçar uma anistia que, dentre outras inconstitucionalidades, teria como objetivo máximo livrá-lo da merecida temporada no xilindró. 

Alguém esqueceu de avisá-lo que só se anistiam condenados, o que ele ainda não é. Quiseram botar o carro na frente dos bois e só conseguiram irritar expoentes menos asnáticos da extrema-direita, que se queixaram da truculência com que os desmiolados estão tentando fazê-los embarcar nessa canoa furada.

O circo dos horrores nunca mais levantará sua lona tendo o Bozo como atração principal. Tudo leva a crer que o próximo grão bufão será o Tarcísio. (por Celso Lungaretti)

quarta-feira, 5 de março de 2025

O PSOL NASCEU PARA SER ALTERNATIVA AO PT E A ELE VOLTOU COM O RABO ENTRE AS PERNAS. AGORA, QUER OBEDIÊNCIA CEGA

A
Folha de S. Paulo informa que o Psol está rachado quanto a se deve ou não apoiar de forma incondicional o governo Lula. 

Oito deputados defendem a submissão apriorística em toda e qualquer circunstância, enquanto cinco não esqueceram que seu partido nasceu em 2004 exatamente como uma alternativa à direitização e autoritarismo dentro do PT. 

Se era para balirem  sempre amém ao Lula --cuja taxa de erros e lambanças, vale dizer, tem aumentado assustadoramente desde então--, por que os primeiros psolistas se deram ao trabalho de criar uma nova identidade partidária? 

E o pior é que, além de não entregar o sol prometido, o Psol voltou incompreensivelmente ao ponto de partida.
Criança, não verás mais imagem nenhuma como esta: dirigentes 
do Psol alegremente papeando à frente de um pôster do Chê.

Até porque o PT é uma legenda que envelheceu muito mal e nada de novo e relevante tem sido capaz de apresentar desde o impeachment da Dilma Rousseff, que o deixou perdido no espaço. 
 

É óbvio que os cinco coerentes, dentre os quais se destaca a brava guerreira Luíza Erundina, mantêm-se fieis às melhores tradições da esquerda, que não existe para obedecer caninamente a ninguém. 

Sem pensamento crítico nem direito de colocar em discussão quaisquer posicionamentos dos quais se discorde, ainda que estando em minoria, o que restam? Apenas partidos castrados, domesticados, que da esquerda autêntica não têm mais nada.


Monolitismo é característica do inimigo. Para os que travamos o bom combate, não passa de veneno. Mortal. (por Celso Lungaretti)

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

O PESADELO SE REPETIRÁ? SARNEY NÃO NOS BASTOU? AGORA TEREMOS DE SUPORTAR O SR. OPUS DEI?

Quando tivemos de engolir, como primeiro presidente da República civil após 21 anos de ditadores impostos pela caserna, um serviçal ridículo do regime militar, já deveríamos ter aprendido a não aceitarmos a formação de chapas encabeçadas por políticos de centro-esquerda que nós ingenuamente apoiávamos, tendo como vices criaturas escrachadamente de direita.

Mas, condescendendo com Tancredo Neves nos condenamos a uma redemocratização pela metade com José Sarney.

Votamos em Dilma  e acabamos assistindo, impotentes, Michel Temer a preparar o terreno para o advento da barbárie bolsonarista.

E agora, por havermos apostado  num Lula em franca decadência, nos vemos ameaçados com a eventualidade de suportarmos 2 intermináveis anos com Geraldo Opus Dei Alckmin no poder.

Bem diziam os antigos: quem é burro, pede a Deus que o mate e ao diabo que o carregue

Então, que nenhum dos nossos se queixe se os excluídos forem muitas vezes mais barbarizados, como o foram em 2012 na desocupação do Pinheirinho  (CL)

domingo, 27 de outubro de 2024

NEM TUDO ESTÁ PERDIDO, BOULOS!

Típica foto da fase papagaio de pirata do Boulos
G
uilherme Boulos é um raro espécime da política convencional que escreve muito bem, tanto em termos de estilo quanto de consistência do conteúdo. Daí eu ter lido quase todos os textos por ele publicados no período 2014/2017, como colunista semanal da Folha de S. Paulo
.

Também, pudera! É bacharel em filosofia e mestre em psiquiatria, ambos pela USP, o que certamente o ajuda a pensar a sociedade. 

Mas, como tenho visto em muitos scholars, as boas análises teóricas não lhe serviram muito para agir sobre a sociedade.

Assim, as esperanças que cheguei a depositar nele logo se tornaram decepções. Ao invés de insistir na mobilização dos excluídos fora do jogo viciado e vicioso da democracia burguesa, foi deixando em segundo plano as ocupações dos sem-teto e apostando cada vez mais suas fichas em candidaturas para o Executivo que, mesmo se houvessem triunfado, não o teriam levado a lugar nenhum.

Assim, não se elegeu presidente da República em 2018, nem prefeito de São Paulo em 2020 e (não terei melindres, pois a derrota é inevitável e detesto manter aparências) agora em 2024. 

E se vencesse, de que adiantaria? Governar o país submetido à camisa de força imposta pelo poder econômico ou governar a cidade sob a mesmíssima limitação, na prática, significa apenas gerenciar as propriedades da classe dominante por deferência da mesma que, se lhe der na telha, aplicará um pé na bunda do serviçal saído das urnas para botar qualquer outro em seu lugar.
A fase de eleger postes já havia terminado 

Foi o que fez com Goulart e Dilma, despojando-os de suas faixas presidenciais para entregá-las àqueles que tinham os votos da caserna ou àquele que era vice também em matéria de escrúpulos. 

E o pior de tudo é que, seduzido por uma miragem de poder, Boulos desempenhou o melancólico papel de bajular o reformista/populista Lula de forma desmedida (houve tempo em que aparecia como papagaio de pirata em boa parte das fotos do dito cujo), sonhando com ser por ele apadrinhado. Nem sequer percebeu que a fase de Lula eleger ou reeleger postes terminara em 2014. 

E não foi só o próprio prestígio que Boulos comprometeu. Graças a ele, o Psol cumpriu a ridícula trajetória de ter nascido como alternativa ao domesticado PT e acabar tornando à casa paterna como bom filho

Só mudou o status. Antes seus dirigentes pertenciam à agremiação que era vermelha e foi virando lilás, agora são apenas um puxadinho da mesma.

Mas, Boulos, nem tudo está perdido: tamanha é a dificuldade que a esquerda brasileira está tendo para forjar os líderes dos quais desesperadamente carece que, se você botar a mão na consciência e repensar suas opções, poderá ainda desempenhar um papel histórico digno. 

Seu verdadeiro trunfo agora é a idade. Aos 42 anos, sobra-lhe tempo para reassumir a missão de transformar em profundidade nossa sociedade, ao invés de continuar apenas ajudando a maquilar a dominação burguesa, para que pareça menos execrável e possa continuar desgraçando indefinidamente nosso sofrido povo. 

A escolha é sua. (por Celso Lungaretti

terça-feira, 1 de outubro de 2024

MARÇAL DISPUTA A ELEIÇÃO MUNICIPAL DE 2024 DE OLHO NA PRESIDENCIAL DE 2026

"Vim aqui só pra dizer
Ninguém há de me calar
Se alguém tem de morrer
Que seja pra melhorar

Tanta vida pra viver
Tanta vida a se acabar
Com tanto pra se fazer
Com tanto pra se salvar
Você que não me entendeu
Não perde por esperar"
(Geraldo Vandré)

Antes tarde do que nunca, vou deixar o comedimento de lado e revelar algo que é realmente original e diferenciado na minha atuação de 55 anos como articulista.

Tudo começa em 1967, quando, com 16 anos de idade, ingressei no movimento secundarista, fazendo trabalho de conscientização política na minha escola (o Colégio Estadual MMDC, no bairro paulistano da Mooca).

Em 1968 meu foco passou a ser toda a Zona Leste de São Paulo, por meio da Frente Estudantil Secundarista, que gravitava em torno da Dissidência Universitária encabeçada pelo Zé Dirceu. 

E, às vésperas do AI-5, eu e os sete outros dirigentes da FES/Zona Leste iniciamos contatos com organizações da esquerda armada,  pois percebíamos que a ditadura militar logo se radicalizaria a ponto de tornar suicida o trabalho de massas convencional.  

Decidimos ingressar na Vanguarda Popular Revolucionária e fui escolhido pelos meus companheiros secundaristas para representar nosso grupo no congresso de abril/1969 da VPR, ainda como convidado, pois caberia ao comando que então fosse eleito aprovar a filiação de nós oito. Éramos doze os participantes, inclusive o ex-capitão do Exército Carlos Lamarca.
Lamarca, o capitão da guerrilha.

E, para minha surpresa, voltando para a capital já como militante da VPR, poucos dias depois me comunicaram que eu tinha sido escolhido pelo Comando Nacional para participar do Comando Estadual, como o responsável pelo setor de Inteligência que me caberia criar.

Nada no meu passado me qualificava para tanto. Só conhecia a atividade de Inteligência pelos filmes do 007 e livros do Graham Greene e John le Carré. Mas tratei de qualificar-me para a tarefa da melhor forma possível.

Acabei percebendo que tinha boa intuição quanto a cenários que prevaleceriam no futuro, tanto que, mal chegado na Organização, fui o primeiro a identificar nas chamadas Teses do Jamil as melhores respostas para os desafios da luta armada naquele instante. 

Endossei enfaticamente, num documento de circulação interna, aquela proposta pela qual os companheiros passavam batidos, dando o pontapé inicial para o racha da VAR-Palmares e  reconstituição da VPR. 

Desde então, já lá se vão 55 anos em que venho apontando para a esquerda quais os cenários futuros que predominarão, dando-lhe tempo para correções de rumo que ela, contudo, quase nunca faz, continuando a encaminhar-se para desastres anunciados.

Ciente de que não tenho força política para aproveitar devidamente essas visões antecipatórias, tento alertar os vários partidos e organizações de esquerda para o que tende a acontecer, dando-lhes tempo para extrair o melhor proveito das mudanças à vista. Quase sempre sou ignorado e o que havia de ruim para ocorrer, acaba ocorrendo; já as chances que tínhamos de adquirir vantagens no jogo político são desperdiçadas.

Dou um exemplo. Em meados de 2014 já percebi que a anacrônica  política econômica neodesenvolvimentista de Dilma Rousseff no seu primeiro mandato  presidencial incubara uma aguda recessão com a qual ela, reeleita, não saberia lidar. Embora eu tivesse sérias  
restrições ao Lula, várias vezes escrevi em apoio à ala do PT que tentava convencê-lo a ser ele o candidato, em lugar da trapalhona Dilma.
Esta gerentona trapalhona abriu a porta para o Bozo

Por vaidade, arrogância ou absoluta falta de autocrítica ela insistiu em ser candidata mas, mal acabava de ser reeleita, traindo promessa de campanha, ofereceu o Ministério da Fazenda a um neoliberal de segunda categoria, Joaquim Levy, na esperança de que ele corrigisse as lambanças cujas consequências ela deixara como herança maldita para si mesma.    

Imediatamente cantei a bola: como sucedera no governo de João Goulart, o estranho no ninho seria imobilizado e, em seguida, abatido pelo fogo amigo (CUT, MST, MTST, etc.). 

Com isto, a recessão não pararia de agravar-se, até tragar a presidente, como outrora tragara o Jango. Dito e feito.

Depois, no mesmo domingo (17 de abril de 2016) em que a Câmara Federal aprovou a abertura do processo de impedimento de Dilma Rousseff eu já escrevi que, ultrapassada a barreira mais difícil (dois terços dos deputados teriam de votar pró impeachment), todas as restantes seriam igualmente transpostas.

Alertei que o prolongamento da agonia da Dilma s
ó serviria para o inimigo acumular forças enquanto nós estaríamos enfraquecendo cada vez mais. Portanto, melhor seria a Dilma renunciar imediatamente e a esquerda aproveitar a elevada rejeição ao vice Michel Temer para lançar uma nova campanha tipo diretas-já, exigindo a convocação de uma nova eleição para a escolha de quem cumpriria o restante do mandato da impichada. 

Mas, claro, a Dilma preferiu seguir prejudicando a esquerda até o mais amargo fim, a colher derrota após derrota na longa marcha para o pé na bunda definitivo. E Michel Temer, assumindo o poder, implicitamente preparou o terreno para a vitória eleitoral de Jair Bolsonaro, o pior presidente brasileiro de todos os tempos. 
Marçal, o bad boy provocador.

Mas, por que estou lembrando tudo isto agora? Porque novamente a companheirada viaja na maionese, não entendendo o que está em jogo na sucessão municipal paulista. Supõe que vá exorcizar o demônio Pablo Marçal apenas impedindo-o de ocupar a cadeira de prefeito. Quanta ingenuidade!

Como eu venho advertindo desde o 08.01.2022, Jair Bolsonaro só continuaria sendo o principal líder da extrema-direita brasileira enquanto não surgisse um substituto que expressasse melhor a tosca visão de mundo desses brucutus desmiolados. 

Isto porque o Bozo já desiludira seus seguidores mais radicais ao:
-- convocá-los para um golpe de Estado e refugar ridiculamente em dois Dias da Pátria seguidos (os de 2021 e 2022);
-- ao reprogramá-lo para 08.01.2023, mas tomando o cuidado de colocar-se longe da encrenca enquanto sua boiada ia para o matadouro (prisões); e
-- ao deixar bem evidenciado que sua prioridade, desde então, está sendo a de recuperar a elegibilidade, a ponto de deixar o Lula em paz e apontar toda a sua artilharia na direção do Xandão.

Então, era extremamente promissor o cenário para qualquer congênere confrontá-lo e arrebatar-lhe a liderança ultradireitista. Só precisava existir alguém apto para tanto. 

E o papel caiu como uma luva para o Marçal, que tem credibilidade radical ainda intacta e é bem melhor do que o Bozo em tudo, pelo menos segundo o figurino fascista. 

Assim, no final de agosto já afirmei que, vencendo ou não o pleito, e mesmo que não chegue sequer ao segundo turno, Marçal sairá da eleição municipal como o favorito a disputar a eleição presidencial na condição de novo mito dos ultradireitistas  tupiniquins. 
Bolsonaro curtindo uma ressaca
Está certa a Eliane Cantanhêde ao avaliar que Marçal já conseguiu plenamente  o que buscava:
"Do início ao fim, Marçal centralizou os debates, jogou as discussões para o campo das agressões e fake news, desorientou as campanhas dos adversários, deixou os institutos de pesquisa inseguros e virou o foco de toda a mídia, inclusive com a cadeirada que levou de Datena e do soco de seu assessor na cara do marqueteiro de Nunes".
E o desafio que Marçal nos lança vai muito além de obrigar-nos apenas a evitarmos que ele ocupe a cadeira de prefeito. 

A verdadeira missão da esquerda não é caçar votos, mas sim fazer-se presente nas ruas confrontando incansavelmente o projeto fascista de sociedade. 

Urge cumpri-la, pois, por enquanto, estamos permitindo que os inimigos nadem de braçadas. (por Celso Lungaretti)

quinta-feira, 20 de junho de 2024

O LULA DIZ PARA SE DANAREM OS ARTISTAS QUE ENSINAM PUTARIA ÀS CRIANÇAS. ESTARÁ FLERTANDO COM UMA VOLTA DA CENSURA?

"Cruz, credo! O tal Michelangelo tem de se 
danar! Criança não pode ver essa putaria!"
De hora em hora, o Lula piora. Ou perdeu a memória, ou crê que nós todos a perdemos, pois acaba de fazer uma profissão de fé naquele moralismo rançoso que virou peça de museu a partir da década de 1960:
"Eu sou da turma em que artista, cinema e novela não é (sic) para ensinar putaria. É para ensinar cultura, contar historia, contar narrativas, e não para dizer que nós queremos ensinar às crianças coisas erradas. Nós só queremos fazer aquilo que se chama arte. Quem não quiser entender o que é arte, dane-se. Queremos muita arte, muita cultura".
Depois de ele haver admitido que no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo usava o seu cargo para cantar as viúvas que vinham atrás dos seus benefícios e de ter sido fulminado em plena campanha eleitoral de 1989 pela revelação de que escondia a existência de uma filha fora do casamento e pressionara em vão a amante para abortá-la em benefício de sua carreira política, que moral ele tem para dar palpites sobre o que deva ou não ser ensinado ás crianças? 

Além de levantar um assunto totalmente desaconselhável para quem possui telhado de vidro, o Lula parece inclusive estar pregando a volta à abominável censura artística do período militar. Sua incontinência verbal não tem mais limites.  

Faz um bom tempo que ele deixou de sentir necessidade de esconder que foi, desde o início de sua trajetória sindical, um conservador em pele de esquerdista, com uma visão política absorvida do coronelismo nordestino e lapidada pelo sindicalismo de resultados estadunidense. 

Mas, a desfaçatez com que ele descarta os valores que um dia fingiu professar desembestou de forma chocante no terceiro mandato. 
Sua verdadeira compulsão de chocar e espezinhar aqueles dos quais serviu-se para a conquista da faixa presidencial se tem voltado, nos últimos tempos, para a pauta de costumes. A nova aposta reeleitoral é a de ele se tornar um sapo engolido pelo poder econômico como a alternativa menos extremada ao bolsonarismo. 

Sonha com o tetra sem haver honrado os compromissos assumidos para, na bacia das almas, conquistar o tri . Embriagado com sua condição de principal serviçal dos que realmente mandam no Brasil, parece nem dar-se conta de que de que seu prazo de validade está chegando ao fim e a sua maria-fumaça pode muito bem descarrilar no meio do caminho. 

Seria uma justiça poética o Lula ser usado e jogado fora assim como, desde a década de 1970, vem usando e jogando fora as bandeiras da esquerda combativa. 

Mas, um novo impeachment tenderia a produzir outro monstro, provavelmente o governador paulista Tarcísio de Freitas, já que falta ao palhaço assassino equilíbrio mental para não atrapalhar os negócios dos poderosos, como fez ao sabotar a vacinação contra a covid-19, o que apenas alongou em muito a paradeira geral causada pela pandemia. 

Os episódios do Jânio Quadros, Fernando Collor e Dilma Rousseff evidenciaram que quem é expelido da presidência da República não volta a ela no Brasil. E salta aos olhos que o Bozo não será exceção (alguém pode tentar contrapor o caso do Getúlio Vargas, mas ele não foi defenestrado como presidente eleito e sim como o ditador do período 1930-1945).

Enfim, melhor será se um dos incontáveis ministros do Lula convencê-lo a desistir desses sincericídios, caso contrário vai estar não só dando tiros no pé, como poderá despertar suspeitas de que algo da loucura do antecessor escapou no ano passado à desinfecção do 3º andar do Palácio do Planalto. (por Celso Lungaretti)
Qual será a opinião do palpiteiro com faixa presidencial sobre o erotismo
refinado do Raul Seixas? Ele também o coloca na vala comum da putaria? 

sexta-feira, 7 de junho de 2024

SEBASTIANISMO FOI UMA ROUBADA: NEM A VELHA GUARDA PETISTA ACREDITA EM LULA 4

D. Sebastião, monarca de Portugal, desapareceu em 1578 na Batalha de Alcácer-Quibir e, como tudo começou a dar errado no reino, os lusitanos acalentaram a esperança infundada de que ele reapareceria para restabelecer a governança. Ficaram a ver caravelas. 

Da mesma forma, Lula, reizinho do Brasil, desapareceu na batalha sucessória de 2010 e, como tudo começou a dar errado nesta Pindorama, os mesmerizados pelo populismo acalentaram a esperança infundada de que ele reapareceria para restabelecer a governança. 

Como este continua sendo o país do eterno retorno, Lula até conseguiu recuperar o cargo. Mas nem de longe está sendo capaz de restabelecer a governança, muito pelo contrário. 

Errou lá atrás ao escolher como sucessora uma gerentona trapalhona, que, para piorar, era devota de outro D. Sebastião, um bravo guerreiro no enfrentamento dos inimigos (tanto que até abortou uma conspiração contra a Coroa em 1961), mas cuja visão de mundo era pra lá de ultrapassada.

A gerentona, exumando a proposta de alavancar o desenvolvimento com investimentos estatais que esteve em alta na década de 1950,  acabou colocando o Brasil do século 21 no rumo de uma depressão econômica e sendo por ela tragada. Deu lugar a um regente inexpressivo e, depois, a uma versão piorada de D. Maria I, a rainha louca de Portugal. 

Aquela pelo menos teve uma fase boa antes de endoidar de vez, ao contrário do congênere brasileiro, que aos 33 anos já delirava, acalentando planos malucos como o de mandar pelos ares o reservatório de água da cidade.

Tantas fez tal ser boçal e ignaro, responsável indiscutível pelo maior extermínio de brasileiros em todos os tempos, que o Lula conseguiu um terceiro mandato presidencial surfando na rejeição a tal psicopata, mas sem conseguir recuperar as ferramentas essenciais ao exercício do poder, que ficaram nas mãos de dois altos cortesãos, o Lira Desafinada e o Urtigo Pacheco

Ele usa a faixa presidencial (a coroa está fora de moda), mas não passa de uma rainha da Inglaterra. E perdeu o respeito até dos cortesãos mais antigos, que já o veem como carta fora do baralho em 2026 e adiante. 

Será, aliás, lembrado pelo insólito detalhe de haver sido feito duplamente de rainha da Inglaterra, pois a isto foi reduzido também pela esposa, que se tornou uma espécie de tutora informal do pobre coitado.

Como acabará esta fábula cruel? Tudo leva a crer que com uma derrota acachapante do Lula e seu governo em outubro próximo e a perda do que lhe resta de poder no ano seguinte. Pois a majestade ele já perdeu há muito tempo...
.
AGORA FALANDO SÉRIO – Tão medíocres são os personagens da política institucional brasileira no século 21 que escrever sobre eles em tom de galhofa é uma escapatória para não cairmos na mais profunda depressão. Eu a adoto sem contra-indicações. 

Farei contudo, desta vez, um breve resumo em benefício daqueles que Nelson Rodrigues qualificava de idiotas da objetividade

A obsessão narcisista de Lula por um terceiro mandato está sendo trágica para o Brasil. Pois a pulverização dos fundamentos da vida civilizada sob Bolsonaro exigia uma resposta muito mais contundente: seu  impeachment. Ervas daninhas têm de ser totalmente extirpadas  

Lula, com a cumplicidade bovina da esquerda institucional, tudo fez para que o palhaço do apocalipse sobrevivesse ao diluvio de crimes de responsabilidade com que inundou o Brasil.

Sabia que de uma nova diretas-já emergiria alguma liderança combativa como ele nunca verdadeiramente havia sido e jamais será, já que toda a sua trajetória foi a de um reformista empenhado em maquilar a monstruosidade intrínseca do capitalismo, ao invés de pôr fim à exploração do homem pelo homem,

Então, fez corpo mole com relação ao impeachment do sacripanta de forma tão descarada quanto o dito cujo sabotou a vacinação contra a covid. E o resultado foi uma vitória na bacia das almas e que acabou sendo tão somente pessoal: elegeu-se mas deixou Câmara e Senado entregues ao inimigo.
Agora se encontra emparedado pelos conservadores e extremistas de direita, assistindo impotente à aprovação dos maiores absurdos da pauta de costumes que é o xodó dos ansiosos por uma nova Idade das Trevas.

E, se Lula era a pior aposta possível para o que resta de uma verdadeira esquerda nesta fase terminal do capitalismo (quando, ainda por cima, as consequências do aquecimento global desabam uma após outra sobre nós), o artigo desta quinta-feira (6) do William Waack (Velha guarda petista está pessimista quanto às chances de Lula nas eleições de 2026) coloca o dedo na ferida: seu governo sem direção nem noção consegue agora maximizar o prejuízo.

Não há como desmentir Waack: Lula 3 é uma permanente confusão política, que aborta as chances de a economia voltar minimamente a crescer e ainda detona o profissionalismo dos mandatos anteriores, pois a elite de quadros profissionais e experimentados na política agora tem de conviver com os arroubos amadoristas da Janja, que parece imaginar-se uma Evita Perón mas não passa de uma Isabelita...

Waack é caridoso: Frente a um adversário inelegível tropeçando em si mesmo, neste momento o caminho para 2026 deveria surgir bem delineado. Ao contrário, o cenário nunca esteve tão aberto.

Cenário aberto? Nem a pau, Juvenal! 

Eu diria que, hoje, a única luz no fim do túnel que brilha para Lula não passa de um trem vindo em sentido contrário. (por Celso Lungaretti)
                    "Disse o velho, 'eis aqui o fim de tudo'. / Veio o moço e 
                      continuou" (Sergio Ricardo, canção Deus de Barro)

sábado, 27 de abril de 2024

O BRASIL SE TORNOU UM EVANGELISTÃO?

H
á muita gente preocupada com a insistência das redes sociais de extrema-direita e evangélicas em continuarem reprisando velhas mentiras ou criando novas versões, sem perda de seguidores. 

Tal fidelidade, capaz de gerar meio-milhão de visitas e centenas de milhares de curtidas em algumas horas, foi reforçada com as recentes críticas do proprietário do X, Elon Musk ao ministro Alexandre de Moraes do STF e deu ensejo a mais uma micareta dominical bolsonarista em Copacabana, reunindo o Bozo, o pastor Silas Malafaia e outros espécimes da mesma laia. 

Embora na bufonada de fevereiro na avenida Paulista (SP) o clima tenha sido comedido, com o astro da trupe propondo anistia para todos, a recente intervenção estrangeira de Elon Musk relançou o clima de polarização e deverá trazer de volta os discursos de ódio contra o presidente Lula e o STF.  

Alguns canais de esquerda se perguntam por que o governo de Lula não é mais ativo nas redes sociais para mostrar as realizações positivas de seu governo, a fim de estancar esse constante desgaste provocado por fake news e discursos de ódio.

Ou é simplesmente impossível chegar até os adeptos ultradireitistas (ainda que em grande parte sejam negros, pardos, pobres e mulheres), insensíveis aos alertas de que seu líder é racista, indiferente às medidas contra a pobreza e mesmo contrário à liberdade para as mulheres?
Musk: rato que ruge em nome da liberdade de empulhação

Só alguns começam agora a perceber a existência de uma impermeabilidade impedindo os bolsonaristas de captarem as verdades relativas aos direitos sociais. 

Tal impermeabilidade é criada pela maneira como funcionam as seitas neopentecostais, as quais, como comunidades, apoiam e incentivam atividades capazes de criar proximidade entre as pessoas e são como células ativas, com reuniões todas semanas. 

As pregações, as escolas bíblicas para crianças e jovens são constantes, semanais ou bissemanais, não deixando espaços para outros tipos de preocupações depois do trabalho. Nisto lembram as antigas células do partido comunista com atividades para estudantes, donas de casa e operários. Hoje, não se faz mais isso, porém os evangélicos, além de religião, se tornaram partido político fundamentalista.

O líder petista José Dirceu, em recente entrevista, sustentou que Lula e o PT deveriam ir ao encontro dos evangélicos. Não deixou nada preciso, mas lembrou que a igreja católica entrou em decadência ao reprimir a teologia da libertação, que ia ao encontro do povo, deixando então o caminho aberto para os neopentecostais.

Muitos bolsonaristas esqueceram de que foi Lula quem favoreceu a criação da marcha para Cristo e facilitou os alvarás para as igrejas evangélicas funcionarem em garagens, enquanto a então presidente Dilma compareceu à inauguração do Templo de Salomão do Edir Macedo. 
Dilma botando azeitona na empada do Edir Macedo

A ideia de o Lula ir ao encontro dos evangélicos não é assim tão simples, pois não houve retorno favorável aos esforços petistas do passado. 

Muito ao contrário: empenhados em impedirem a eleição do Lula em 2022, os líderes evangélicos usavam as redes sociais para amedrontar seus fiéis com os espantalhos do advento do comunismo e do fechamento de igrejas caso o candidato petista fosse eleito. Ainda hoje a bancada evangélica amiúde boicota o governo do Lula.

Ressalve-se que, embora a maioria evangélica continue sendo bolsonarista, existe também uma minoria de esquerda, como o deputado federal Henrique Vieira e a ministra verde Marina Silva. Entretanto, os pastores e seguidores evangélicos são majoritariamente fundamentalistas, incluindo muitos golpistas; suas afinidades com a extrema-direita saltam aos olhos. 

Na verdade, quase se poderia falar num desvio evangélico ou numa refundação da teologia evangélica, por influência da igreja Assembleia de Deus e de teólogos fundamentalistas dos EUA cujos seguidores lá apoiam Donald Trump para a presidência. 

Trata-se da Teologia do Domínio, que, num rápido resumo, consiste numa recalibragem da mensagem cristã evangélica misturando-se com preceitos básicos do  Velho TestamentoO cristianismo deixa de ser só mensagem de paz e amor, como se pregava, para juntar conceitos guerreiros do Deus de Abrãao.
As arengas dos pastores do ódio
são corpos estranhos no século 21
 
Quem seguiu pela televisão a última micareta bolsonarista  na avenida Paulista talvez tenha percebido: não se falava nunca em Jesus Cristo, mas sempre em Deus, subentendido o Deus de Israel, donde uma identificação dos evangélicos com os israelenses (embora não sejam cristãos), a ponto de ostentarem e respeitarem a bandeira de Israel.

Nessa linha, os novos evangélicos são combatentes do Bem contra o Mal, ou seja, defendem valores vigentes no século passado, combatendo o aborto, o homossexualismo, o feminismo, etc. 

Nos EUA, onde a colonização foi guerreira e a posse e o uso de armas é comum na população, há o risco de guerra civil, caso Trump seja derrotado ou não possa disputar a eleição presidencial. 

Ao que parece (pelo menos os fatos o demonstram), a teologia belicosa do domínio, já transformada em partido político de extrema-direita e orientada no sentido de garantir a eleição de Bolsonaro, não funcionou com os evangélicos brasileiros, cujo pacifismo inato fez ruírem os planos dos líderes golpistas na intentona fracassada de 08/01/2023.

Resta uma dúvida: por que Deus escolheu como líderes Trump, nos EUA, e Bolsonaro, no Brasil? Para isto é dada a seguinte explicação: Deus unge ou escolhe pessoas que nem sempre são perfeitas. E logo é citado o caso do rei Davi, herói contra Golias, escolhido por Deus, mesmo tendo antes pecado no caso de Urias e Betsabá, crime e adultério. Os pastores então impingem aos crédulos que Deus escolheu Trump mesmo com todos os seus erros, e Bolsonaro apesar de todas as suas falhas e pecados.

Há alguma lógica ou racionalidade nisso? Não, nenhuma. Entretanto, os evangélicos poderão ultrapassar os 50% da população em 2050 e criar novas leis favorecendo seu credo conservador e fundamentalista. Não será uma exceção: o Irã é uma teocracia islâmica, o governo do Hamas em Gaza é outra e Israel cada vez mais involui para uma teocracia. (por Rui Martins)
I
mportante
 – escrever para o Observatório da Imprensa não é um emprego, não se ganha nada, mas era para mim uma oportunidade de utilizar o conhecimento de uma vida no jornalismo para analisar o que se lê ou vê no mundo da imprensa, até porque o OI é geralmente lido por estudantes de jornalismo. 

Por isso, para mim é uma tristeza ver que o OI muda de direção, exerce censura e desrespeita um profissional. É em nome desse respeito à profissão e à liberdade de expressão que peço aos leitores para divulgarem esta informação. Grande abraço. (RM)

domingo, 18 de fevereiro de 2024

DILMA DESPREZOU A CHANCE DE VIABILIZAR A REVISÃO DA ANISTIA DE 1979. TOFFOLI DECIDE ASSUMIR ESTA BANDEIRA.

A justiça é seletiva e letárgica no Brasil: os piores criminosos, quando servem aos
 poderosos,  quase sempre morrem antes de serem condenados e cumprirem pena.  
Passados 39 anos desde que o Brasil se redemocratizou, só agora poderá ser removido um dos piores entulhos autoritários do ciclo dos generais: o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, deseja promover, ainda em 2024, uma audiência pública para rediscutir a Lei da Anistia.

Trata-se, evidentemente, apenas de um ponto de partida. Só havendo vontade política por parte dos três Poderes a iniciativa prosperará.  

Pelo menos ela vem num momento propício: após a fracassada tentativa golpista de Jair Bolsonaro haver revelado que continua existindo uma banda podre nas Forças Armadas, os fardados não estão em condições de proteger seus aloprados. Precisam é convencer os brasileiros de que deixaram de ser uma ameaça à democracia. 

Vale lembrar que a quase totalidade dos vilãos maiores já saiu de cena. Morreram:
Se Toffoli obtiver o que Dilma nem tentou,
que tal trocarmos esta imagem pela dele?
— todos os ditadores que em 1964/85 colocaram a faixa presidencial sobre a farda:
— todos os signatários do Ato Institucional nº 5 menos um (Delfim Netto, hoje com 95 anos); e
— os capangas mais famosos do regime de exceção, como o delegado Sérgio Fleury, o comandante de centro de torturas Brilhante Ustra e o responsável pelo retumbante fiasco do cerco a Carlos Lamarca em Registro, Erasmo Dias, que era um tigrão para barbarizar universitários mas virava tchutchuca diante de combatentes treinados, mesmo dispondo de 1.733 soldados para impedir a fuga de cinco guerrilheiros.

Ainda assim, é preciso darmos o desfecho correto a uma das páginas mais vergonhosas da nossa História, inclusive para não legarmos um precedente ignóbil aos que virão depois. 

O próprio Jair Bolsonaro poderá espernear contra as penas a que será condenado por genocídio, golpismo e uma infinidade de outros crimes, alegando merecer a mesma anistia dos responsáveis pelas atrocidades dos anos de chumbo. Portanto, mesmo que ela venha a ser pra lá de tardia, é importante que a justiça não falhe em definitivo.   

Neste sentido, pouco importa se o Toffoli não tem exatamente o perfil ideal para encabeçar tal cruzada. Afinal, aquela cujo dever moral era (até mesmo por haver sofrido a tortura na própria carne) usar toda a sua autoridade presidencial para tentar remover o obstáculo que impedia a condenação dos torturadores, falhou miseravelmente.

Refiro-me, claro, a Dilma Rousseff, que assumiu a presidência da República em 2011, cinco semanas depois de a Corte Interamericana de Direitos Humanos haver decidido que a anistia brasileira de 1979 era inválida por haver sido promulgada em plena ditadura, com parlamentares oposicionistas sendo inclusive chantageados a votarem a favor (só assim presos políticos seriam libertados e exilados políticos poderiam voltar para cá sem serem detidos no desembarque).
Henfil e os mortos e desaparecidos políticos: a alusão
é à propaganda "tomou doril, a dor sumiu"

Como a sentença da corte internacional vinculada à OEA prevalecia sobre as decisões do Judiciário nacional, Dilma teve nas mãos a oportunidade de finalmente tirar o gênio da garrafa, sem maiores riscos: bastaria ter cumprido o que a corte determinou.

Mas, preferiu ignorar esta parte da sentença, embora insistentemente cobrada por muitos juristas e entidades defensoras dos direitos humanos; e, quanto à outra parte, permitiu que os militares tornassem uma chanchada a busca dos restos mortais dos guerrilheiros exterminados no Araguaia, que deveriam ser entregues às respectivas famílias.

Finalmente, para tirar o assunto incômodo do noticiário, instituiu a Comissão Nacional da Verdade, sem, contudo, respaldar a sua atuação: sempre que o colegiado se chocou com os negaceios dos perpetuadores da mentira, não recebeu o apoio necessário para cumprir efetivamente a sua missão. 

Logo os integrantes da comissão perceberam que sua função era meramente propagandística e que deles nada se esperava além de um relatório reunindo e sistematizando as informações já levantadas em investigações passadas, como as dos defensores dos direitos humanos e as da imprensa. Nada acabou vindo à tona que se comparasse, p. ex., à Casa da Morte de Petrópolis e às ossadas de Perus.

Vale destacar, contudo, que a da Dilma Rousseff foi apenas a última de uma sequência de omissões, que passa:
É crível isso como presidente do Brasil redemocratizado?
— pela inapetência da
Nova República no que tange à remoção do entulho autoritário, com os parlamentares pisando em ovos por temerem uma recaída totalitária e com um presidente (José Sarney) que passou quase toda a ditadura lambendo os coturnos dos fardados como integrante e até presidente do partido situacionista, só abandonando o navio em 1984, quando o regime militar já agonizava: 
— pela falta de afinidade ideológica do Fernando Collor com a tarefa e a falta de grandeza do Itamar Franco, mais preocupado com os anacrônicos fuscas e os paralelepípedos de cidades históricas ;
— por Fernando Henrique Cardoso não ter ousado concluir a lição de casa, embora haja percorrido uma parte do caminho ao instituir a Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos e a Comissão de Anistia;
— pela amarelada de Lula no início de 2010, quando o Alto Comando do Exército lançou um verdadeiro ultimato contra o esboço da terceira versão do Programa Nacional de Direitos Humanos e ele, como presidente da República e comandante-em-chefe das Forças Armadas, simplesmente contemporizou e prometeu alterações, quando deveria é  ter respondido ao desafio com a exoneração imediata dos insubmissos (a partir daí os militares não pararam mais de dar murros na mesa sempre que contrariados);
— por, em diversas escaramuças no período 2007/2010, Lula invariavelmente haver tomado o partido de seus ministros conservadores quando, opostos a eles, Tarso Genro (Justiça) e Paulo Vannuchi (Direitos Humanos) tentavam engajar o governo federal em iniciativas voltadas para a revisão da Lei da Anistia. (vide este artigo);
O STF num de seus piores momentos: em 2010, quando garantiu a impunidade dos torturadores.
— pela decisão do STF em abril/2010, confirmando que a Lei da Anistia continuava impedindo que os torturadores e respectivos mandantes fossem condenados pelos seus crimes, por mais hediondos que fossem (execuções, torturas, estupros, espancamentos, afogamentos, ocultação de cadáveres, maus tratos a crianças filhas de presos políticos para intimidá-los e outros horrores). 

Concluindo: a Argentina saiu de uma ditadura em dezembro de 1983 e em 1985 já estava processando o ditador e o comandante do principal centro de torturas, que não escaparam de ver o sol nascer quadrado. 

Por aqui, o próprio hino nacional nos garante que somos um povo heroico e que um filho deste solo não foge à luta, mas isto não se sustenta face aos 39 anos de ultrajante impunidade das bestas-feras da ditadura e da hipocrisia de mandatários que foram a própria corporificação da banalidade do mal a que se referiu Hannah Arendt.

Vislumbram-se oportunidades para ainda mudarmos isto, acertando as contas tanto com o terrorismo de estado mais remoto quanto com o golpismo e o genocídio recentes. Se as deixarmos passar, será melhor nos assumirmos de vez como os bananas das Américas.
(por Celso Lungaretti
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