Mostrando postagens com marcador Fernando Gabeira. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Fernando Gabeira. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 22 de julho de 2022

GABEIRA USA EUFEMISMO PARA QUALIFICAR O BOZO DE RETARDADO MENTAL...

...pois diz que ele é "um líder com algumas deficiências cognitivas" (tradução: "alguém sujeito a ter maior dificuldade do que uma pessoa com capacidade mediana, ao executar um ou mais tipos de tarefas mentais")
.
fernando gabeira
DISCURSO DE PERDEDOR
COM AMEAÇA DE GOLPE
No momento em que os partidos preparam convenções, o que se espera dos candidatos são discursos sobre seu projeto de governo e o otimismo sobre a possibilidade de vitória.

Bolsonaro está na contramão. Ele reuniu embaixadores no Palácio da Alvorada para fazer um discurso de perdedor, levantando uma série de dúvidas sobre o sistema eleitoral, já amplamente respondidas.

Na verdade, Bolsonaro violentou os fatos muitas vezes:
— usou indevidamente um inquérito da Polícia Federal para concluir o que não está nele (a possibilidade de alterar nomes e votos);
— mencionou o questionamento do PSDB ao resultado das eleições, sem admitir que o partido ficou satisfeito com a resposta;
— afirmou que o sistema não seria auditável, quando este é um dos seus atributos, ao lado da segurança e da transparência.

Bolsonaro reuniu os embaixadores para caluniar o sistema eleitoral e alguns ministros do Supremo Tribunal Federal. É algo que deveria ser punido pelas leis brasileiras, porque isso foi, inclusive, realizado num prédio público e tinha objetivos eleitorais.

É uma contradição dizer que Bolsonaro fez um discurso de perdedor e tinha objetivos eleitorais. Ocorre que a contradição está no seu próprio comportamento.

Um dos objetivos de Bolsonaro é preparar o campo para resistir ao resultado das eleições e tentar um golpe de Estado, no estilo de Trump e sua invasão do Capitólio. Mas, há dois problemas no caminho. 

O primeiro deles é que pode perder feio nas eleições e a própria dúvida sobre as urnas eletrônicas não terá crédito. 

O segundo deles é anunciar com muita antecedência o golpe de Estado, dando tempo à sociedade para se preparar e neutralizá-lo.

Por outro lado, Bolsonaro fala tanto em golpe que parece ter anestesiado a sociedade. Tornou-se natural uma manifestação como esta diante dos embaixadores. Os próprios políticos, todos eleitos por meio das urnas eletrônicas, estão parcialmente silenciosos.

Isso fala muito sobre sua inteligência. Parecem não ter compreendido ainda que, se Bolsonaro tenta invalidar as eleições, eles também, os eleitos, serão levados na tempestade de dúvidas.

Todos os que foram eleitos por meio de urnas eletrônicas deveriam se manifestar quando Bolsonaro afirma as barbaridades que pronunciou diante dos embaixadores. Afinal, até sua legitimidade no momento está sendo questionada.

Infelizmente, Bolsonaro está arrastando no seu projeto insano o próprio ministro da Defesa e, possivelmente, uma fração das Forças Armadas.
À esq., a imagem que o Bozo tinha de si próprio;
à dir., e imagem que os embaixadores tinham dele.
Os militares viram muitas eleições no Brasil, desde o processo de democratização. Num momento da trajetória, as eleições tornaram-se eletrônicas e desde então foram assim. Nunca foram contestadas pelos militares, exceto agora, por alguns deles. Como dizia o criminoso de Foz do Iguaçu,
aqui é Bolsonaro, logo, a faculdade de pensar sofre um grande abalo.

O fato de Bolsonaro se comportar como um perdedor e caminhar para a derrota não significa um futuro confortável. 

Em primeiro lugar, será necessário um grande esforço para neutralizar o golpe, punir responsáveis. Só aí, então, será possível tratar com mais calma aqueles temas que dominam uma eleição democrática: que políticas aplicar para a retomada da economia, a superação da fome, a preservação do meio ambiente, o salto de qualidade na educação, a recuperação da credibilidade internacional.

O fato de Bolsonaro ter anunciado seu golpe e encarnado o perdedor facilita, mas não resolve o problema da resistência. A começar pelas instituições, o País inteiro precisa reagir, preparando-se para garantir o resultado eleitoral.

Bolsonaro diante dos embaixadores realizava uma tarefa impossível: tentar convencer governos de que o sistema eleitoral é inutilizável. Os países já têm informação adequada sobre isso.

Uma outra batalha diz respeito à opinião pública internacional. Certamente, Bolsonaro já a perdeu. Mas, ainda assim, é necessário que todos os brasileiros no exterior se manifestem, escrevam para jornais, mobilizem amigos e conhecidos, preparem a resistência, porque ela será fundamental para combater a tendência à timidez dos governos em momentos como este.

Bolsonaro, ao falar com os embaixadores, ligou na verdade o sinal amarelo. Será, de certa forma, uma grande incompetência se a sociedade brasileira não se preparar adequadamente para um golpe anunciado por um líder com algumas deficiências cognitivas e uma extrema-direita a quem o poder serviu apenas para mostrar sua incapacidade radical de governar o País.

É muito raro um governante começar mal nas pesquisas. Significa que ele já foi julgado pelo seu trabalho. Por mais pedaladas que dê – e a chamada PEC das eleições foi uma das maiores da história –, será difícil de sepultar esse julgamento formado ao longo de quase quatro anos, com uma epidemia no meio, crise econômica, fome, desemprego e misoginia num país em que a maioria do eleitorado é feminina.

Só resta uma tentativa de golpe para conquistar pela força o que foi perdido em empatia e credibilidade. Missão quase impossível, nos tempos modernos. (por Fernando Gabeira)

sábado, 25 de junho de 2022

BATTISTI NA FOLHA DE S. PAULO (o acerto de contas com homens de poder) – 2

 (continuação deste post)
EVO MORALES: UM TRAIDOR E COVARDE QUE SE VENDEU SEM ESCRÚPULO
 – Um mérito de Ferraz foi o de ter obtido de Battisti suas afirmações mais contundentes até agora sobre os homens de poder sul-americanos envolvidos no seu drama, talvez porque ele saiba que, doravante, nada de bom poderá esperar deles. 

Começando, claro, pelo Judas boliviano, Evo Morales, por ele merecidamente qualificado de "traidor e covarde". Eis como Ferraz reproduz a versão do Cesare:
"...Battisti disse que integrantes do PT e de organizações sociais (...) fizeram contato com o presidente boliviano em 2017, quando o governo de Michel Temer dava sinais de que iria reverter o refúgio no Brasil, e que Evo Morales teria garantido proteção. 
...afirmou ter sido recepcionado no país por um representante do Movimento ao Socialismo, partido de Evo Morales.  
... disse ter percebido que alguma coisa não ia bem quando houve um desencontro entre as autoridades locais: o pedido de refúgio tinha sido apresentado por ele algumas semanas depois de entrar na Bolívia, mas a resposta que recebeu foi de que o requerimento deveria ter sido feito logo no ingresso. 
O processo, como temia, não andou. Detido, ele foi entregue a policiais italianos e formalmente expulso do país. 
...O italiano credita a Evo Morales a sua ida para a Bolívia e também o responsabiliza pelo que chamou de 'sequestro', referindo-se à sua prisão.  

Apertar a mão de presidente que favorece o extermínio
 de indígenas dá uma boa noção do caráter de Morales


Como foi expulso da Bolívia, e não extraditado do Brasil, o processo de extradição julgado pelo STF em 2010 –determinando que, se voltasse para a Itália, ficasse no máximo 30 anos preso– perdeu o efeito.  
...'Ele poderia ao menos me fazer ser preso, eu iria responder na Justiça e a extradição seria negada por prescrição e delito político. Evo se vendeu sem escrúpulo. Um gesto desprezível de um homem indigno que revelou toda sua obscenidade meses depois, ao abandonar o próprio povo aos golpistas para fugir'".
LULA: CINISMO POLÍTICO, MENTIRAS DESPUDORADAS E ACENOS À DIREITA  –  Ferraz deixa a impressão de que a indignação do Cesare com o Lula se deveu à sofreguidão com que o ex-presidente o renegou e abandonou às feras depois de sua confissão à Justiça italiana. Esclarecerei adiante que o jornalista chegou a uma conclusão errada por desconhecer detalhes importantes.

Cesare assim desabafou, segundo reproduziu (e analisou) Ferraz:
"'Todos sabemos que Lula é capaz de tudo para colocar de novo a faixa de presidente. O animal político que nunca se contradiz. Aconteceu também comigo de admirar seu cinismo político (no sentido vulgar do termo) e o extraordinário jogo de cintura', disse.

...'Naquele abril de 2021, o ex-presidente voltava definitivamente à cena (...) após o STF anular sua condenação e torná-lo novamente elegível.'
Lula deveria fazer autocrítica dos
seus erros antes de julgar os outros
 
...disse que 'acreditava que Battisti era inocente e não era', referindo-se à admissão de culpa do italiano (em 2019) em quatro homicídios. 'Desde o momento que ele confessou, é óbvio que devo admitir que errei', afirmou Lula.
Battisti atribui a atitude de Lula, assim como o abandono de antigos aliados à esquerda após assumir os crimes, ao clima de 'campanha política' e à necessidade de fazer acenos à direita...  
'Aconselharam Lula a fazer isso se quisesse recuperar parte dos setores que votaram em Bolsonaro, ele não hesitou. Mesmo que para isso tivesse que mentir despudoradamente, dizendo que ele e Tarso Genro [ex-ministro da Justiça do governo Lula] não sabiam de nada', disse. 
'Fui recebido não porque fosse declarado inocente, mas exatamente para deixar ser exibido como troféu de guerrilheiro às forças de esquerda do Brasil. Para eles, não interessava um inocente perseguido, mas o combatente da liberdade. Lula e seu partido me apoiaram por isso. De toda forma, não se dá refúgio apenas aos inocentes.
...'Se Lula e o PT não tivessem comido tudo, se não tivessem feito acordo com todo o lixo do centrão, o povo brasileiro não teria desistido para correr atrás de Bolsonaro'".
Algo que poderia ter colocado Ferraz no caminho certo seria saber –como Battisti sabia e preferiu omitir, e como nós do Comitê de Solidariedade sabíamos e foi um dado importantíssimo para nortear a nossa atuação–  que o Lula JAMAIS quis tomar a decisão que tomou.

Durante a sua trajetória sindical Lula sempre foi, no máximo, um reformista que acreditava em obter pequenas melhoras para sua categoria dentro do capitalismo e nem de longe pretendia conduzir o proletariado ao poder por meio de uma revolução.
Causou pasmo e indignação a escolha do
carrasco do Pinheirinho para vice do Lula

Só mudou quando Leonel Brizola, voltando do exílio como herói, partiu para a formação do seu partido.

Percebendo que, se não criassem uma agremiação concorrente, o gaúcho acabaria estendendo sua influência também para o movimento sindical, os sindicalistas do ABC foram obrigados a negociar com a esquerda católica e quadros remanescentes da luta armada uma composição de forças para viabilizar o PT nacionalmente. Sem isto, ficariam restritos quase que somente a São Paulo.

Objetivo atingido, a ala majoritária do PT passou a livrar-se dos indesejados companheiros de viagem, processo que acentuou-se quando a rejeição da emenda das diretas-já decepcionou profundamente os que tentavam acelerar o ritmo da redemocratização. Com José Sarney, filhote da ditadura, ascendendo ao poder, a burguesia conseguiu ditar tal rimo, evitando, p. ex., que a remoção dos entulhos autoritários tivesse a abrangência  necessária.  

Lula foi um dos dirigentes petistas que, aproveitando o refluxo revolucionário, pressionaram fortemente o partido para deflagrar aquela vergonhosa caça às bruxas por meio da qual o PT expeliu uma infinidade de tendências de esquerda. As que sobreviveram à década de 1980 foram espirrando nas seguintes.

Enquanto isto, as portas do partido eram escancaradas para os meros carreiristas, que só o inflaram e tornaram flácido, mas tinham a vantagem de contribuir alegremente para a desideologização do PT.

Mesmo assim, a resistência à direitização continuou pipocando dentro do partido, além de avolumar-se em momentos impactantes como  a campanha presidencial de 1989 (a do Lula-lá) e o ForaCollor.
Foi das mais traumáticas a expulsão do PT, em
1992, da combativa Convergência Socialista
 
Em 2002, Lula decerto deveria estar acreditando que conseguira finalmente domesticar o PT, dada a facilidade com que fora engolida sua Carta ao Povo Brasileiro, por meio da qual prestou vassalagem à classe dominante, comprometendo-se a presidir o Brasil com obediência estrita aos ditames do poder econômico.  

Caso Battisti, contudo, o fez perceber que nem tudo estava dominado, pois dirigentes importantes como o Gilberto Carvalho e o Zé Dirceu se opuseram firmemente à capitulação diante das arrogantes exigências italianas. 

Tendo pela frente a perspectiva de passar quatro anos fora do poder, Lula não poderia, além de tudo, queimar seu filme com expoentes da velha guarda do partido. Então, saiu pela tangente: mandou recado ao presidente do STF, Gilmar Mendes, de que consentiria na extradição do Cesare caso o Supremo desse sozinho xeque-mate na questão; mas que, se a decisão final coubesse a ele, Lula, não extraditaria.

O resto é História: os esforços desesperados do Comitê de Solidariedade para que, na votação mais importante de todas,  o placar contrário por 5x4 se tornasse 5x4 em nosso favor; e a determinação do ministro Ayres Britto de não acompanhar mais o bloco até então dominante, pois fazia questão de manter-se coerente com sua convicção de que a última palavra em extradições cabe ao presidente da República, até porque a manifestara em várias outras ocasiões.

O julgamento ocorreu em novembro/2018, o acórdão só foi publicado em abril/2019, mas Lula preferiu esperar as eleições de outubro terminarem para dar sua decisão, temendo que Dilma sofresse prejuízos nas urnas.

Passou novembro, passou dezembro quase inteiro e, só no último dia de seu mandato, a decisão do Lula foi publicada no Diário Oficial da União
Libertado em 2011. Mas, os inquisidores não desistiram

Circulou nos bastidores a versão de que Lula estava a sair de fininho, deixando o abacaxi para a Dilma descascar (ela já antecipara que entregaria Battisti ao Berlusconi), mas um dirigente importante deu o alarme e um texto qualquer teria sido retirado do DOU para que o espaço fosse preenchido pelo que ficara faltando. 

Não tenho como provar, mas tal atitude do Lula seria na mesma linha de todas as outras.

BOLSONARO CANALHA, GABEIRA OBCECADO PELO PODER E BARROSO NOTA 10 – Sobre o ex-deputado Fernando Gabeira, Battisti lembra que foi seu primeiro contato quando desembarcou no Brasil em 2004, fugido da França. 

Eis trechos do depoimento que deu por escrito ao Ferraz:
"Eu lamentava por ele não ter me aconselhado bem. Enquanto eu queria me entregar às autoridades para pedir refúgio, ele dizia que não era o caso e assim eu fiquei semiclandestino de 2004 a 2007 [Depois Battisti concluiu que teria sido melhor entregar-se antes que o prendessem].  
Acredito que no passado Gabeira foi um bom político e um amigo, mas ele também foi devorado pelo jogo do poder. 
Quando o Gabeira foi candidato no Rio por uma coalizão de direita, aconselharam ele a me renegar (a mesma história de Lula)".
"aconselharam ele a me renegar"
Finalmente, diz Ferraz que o Cesare continua interessado nos acontecimentos brasileiros: 
"...expressou temor com a possibilidade de atos de violência nas eleições por parte de milícias bolsonaristas, em especial ao ler sobre a proliferação de armas no Brasil e sobre o crescente apoio dos militares aos projetos antidemocráticos de Bolsonaro. 
'Me dói ler e ouvir o que acontece nesse grande país. Por raiva, alguém pode dizer: ‘vocês votaram no fascista, agora aguentem’. Mas sabemos que isso é uma idiotice. No desespero, o povo torna-se manipulável e cego. Temo que para colocar fora do jogo esse canalha ocorrerá uma desgraça'".
Finalmente, os mais rasgados elogios de Battisti foram para seu ex-advogado Luís Roberto Barroso:
"Ele tem uma dignidade e ética raras. Nunca deu um passo para trás, nem mesmo sob ameaça do Senado no momento de sua nomeação para o STF. É democrático e um progressista por convicção. Ele ficou profundamente decepcionado com as falsas promessas do PT e de Lula, promessas que viraram jogos de poder".
Não tive convivência suficiente com o Barroso para formar uma opinião sobre ele como pessoa. Representou muito bem seu papel como advogado, mas, assistindo àquelas sessões de cabo a rabo e tomando conhecimento de um pouco do que rolava nos bastidores, minha conclusão foi a de que nenhum dos participantes daquele espetáculo convencia outro com sua oratória na sessão. 

Aquilo não passa de um espaço cênico e o que realmente importa era tratado alhures. 

Muito mais peso têm as articulações de bastidores, o que eles combinam entre si antes de entrarem no palco.
 (por Celso Lungaretti

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

O BOZO QUASE ACERTOU AO DIZER QUE SUA VIDA VIROU UMA DESGRAÇA: BASTARAM MIL DIAS PARA ELE CAIR EM DESGRAÇA POLÍTICA.

fernando gabeira
MIL DIAS RUMO
AO ISOLAMENTO
No momento em que o governo comemora mil dias e nós lamentamos a morte de 600 mil pessoas na pandemia, creio que a expressão isolamento define a trajetória de Bolsonaro.

Pode parecer inadequado falar de solidão nestes mil dias, sobretudo quando se mobiliza tanta gente como ele. Mas, se consideramos o percurso de um presidente que se elegeu com 57 milhões de votos e hoje é rejeitado pela maioria, vemos como ele perdeu terreno; e, o que é pior, supondo que estava avançando.

Quando Bolsonaro se elegeu, havia uma visão crítica internacional baseada nas suas declarações sobre violência e suas posições machista e homofóbica. O tempo encarregou-se de transformar essa desconfiança numa certeza mundial. Em primeiro lugar, devido às posições negacionistas na pandemia; e, logo em seguida, também com grande peso, a uma política devastadora no meio ambiente.

A última performance internacional de Bolsonaro serviu para transformá-lo numa espécie de líder exótico, destes que figuram apenas nas piadas de apresentadores de tevê. Ele quebrou o código de honra da ONU que previa um encontro de líderes vacinados.

Quando Bolsonaro disse que sua vida era uma desgraça, que não podia sair nas ruas para tomar um caldo de cana, já expressava de certa forma o desconforto que marca seu percurso na Presidência.

Muitos analistas afirmam que Bolsonaro fala apenas para seu público e que não se importa com a maioria. 
Na verdade, seu público hoje é formado pela extrema-direita e grupos de seguidores fiéis que não têm condições de avaliar criticamente sua performance. 

Neste sentido, pode-se dizer que Bolsonaro se isolou de seus eleitores, uma vez que foi vitorioso numa eleição majoritária.

Mas existe um tipo de isolamento não estudado em detalhes, exceto por pesquisadores mais voltados para a questão militar, como o antropólogo Celso Castro, autor do livro O Espírito Militar. Trata-se de uma pesquisa entre cadetes na Academia das Agulhas Negras e revela que existe entre os militares uma tendência a dividir o País entre fardados e paisanos. Os militares mais disciplinados, idealistas, tendem a ver os paisanos como individualistas e pouco confiáveis. 

Bolsonaro parece ter herdado esse espírito ao determinar que os militares ocupassem o governo e escolher um grupo de oficiais de alta patente para seus assessores mais próximos.

Grande parte de sua agenda é voltada para solenidades militares, mas o principal exemplo que revela essa tendência discriminatória é seu argumento para aceitar as urnas eletrônicas.

Como se sabe, Bolsonaro afirmou várias vezes que as eleições no Brasil são fraudadas, embora tenha sido vitorioso em inúmeras proporcionais e na majoritária, para presidente, em 2018.

Ele só aceitaria eleições limpas com a presença do voto impresso e auditável – como se as urnas eletrônicas não fossem auditáveis. 

Derrotado no Congresso, Bolsonaro ainda resistiu na sua campanha contra as urnas eletrônicas. Só depois de algum tempo admitiu as eleições tal como serão realizadas, mas argumentou assim: agora confio porque as Forças Armadas vão fiscalizar.

As Forças Armadas sempre conheceram o processo eleitoral, a porta nunca esteve fechada para sua fiscalização. Bolsonaro usou sua presença como uma desculpa para racionalizar o recuo.

Mas é um tipo de desculpa que merece análise, pois ela pressupõe que, para Bolsonaro, a única instituição confiável são as Forças Armadas.

Nesse simples movimento, o processo de isolamento, que já é ululante em termos internacionais, aparece com toda a clareza na dimensão nacional: ao longo de todo este período, Bolsonaro preocupou-se apenas com a aproximação com os militares e com aqueles setores da sociedade que os acham os únicos capazes de dirigir o Brasil, de preferência com um viés ditatorial.

Candidato, Bolsonaro desfrutou de uma configuração favorável, inclusive com atentado a faca, que permitiu envolver a maioria da população.

Como candidato, Bolsonaro aproxima-se rapidamente daqueles grupos que fazem manifestação em porta de quartel, usam camisa amarela e acreditam que fazem história antes da macarronada de domingo.

Com urnas eletrônicas ou voto impresso, não importa que tipo de mecanismo, o certo é que uma posição como esta de Bolsonaro e seus fiéis nunca será majoritária no Brasil.

As condições de 2018 não estão mais presentes. Desde quando assumiu o governo, Bolsonaro caminha decisivamente, inclusive estimulado pelos filhos, rumo à sua posição mais autêntica, mais inequivocamente minoritária: é um líder da extrema-direita e possivelmente seguirá assim, até que a própria corrente que representa chegar à conclusão de que pode dispor de alguém melhor que ele.

Nunca é possível fazer uma previsão política com exatidão. Mas os dias que restam de governo devem confirmar esta marcha de Bolsonaro para sua verdadeira estatura política.

Ao afirmar que sua vida era uma desgraça, estava próximo de uma descrição real, pois cair em desgraça, em termos políticos, é um sinônimo de isolamento. (por Fernando Gabeira)

sábado, 15 de maio de 2021

HÁ MÉTODO NA LOUCURA DO BOLSONARO: O DE UM METÓDICO E IMPIEDOSO GENOCIDA

fernando gabeira
ANATOMIA DE UM EXTERMÍNIO
P
ode ser que a CPI da pandemia descubra fatos novos, que revolucionem nossa visão do problema. 

Caso isto não aconteça, e é provável que não aconteça, já é possível, pelo menos, escrever o argumento desse filme, abstraindo os lances e peripécias de um roteiro.

Na base de tudo está a negação da pandemia por Bolsonaro. Esse conceito de negação foi lançado por Freud em 1923. E numa carta de 1937, escrita para um colega, ele cita o rei Boabdil, que ao receber a notícia de que a capital de seu reino, Alhambra, estava sitiada, mandou queimar a carta e decapitar o mensageiro.

Bolsonaro não poderia aceitar a pandemia com os problemas econômicos que trazia e, sobretudo, a ameaça à sua reeleição. De certa forma, ele queimou a carta enviada pelos cientistas e decapitou os ministros que insistiam no tema.

Sua tese era de que a economia precisava seguir seu curso. Para fundamentá-la era preciso buscar algo aparentemente científico. A tese da imunização de rebanho foi a tábua de salvação. Todos se contaminariam de um modo ou de outro, pensava Bolsonaro, então que se contaminassem logo para voltarmos à normalidade.

Ele abstraiu o número de mortes implícito nessa escolha. Na verdade, era preciso trazer também a esperança de cura, uma espécie de bala de prata contra a covid-19: a hidroxicloroquina.

O remédio era uma resposta simples para um problema complexo. Todos se contaminam, todos se salvam pela hidroxicloroquina

Essa negação, que teve o momento máximo quando classificou a covid como apenas uma gripezinha, precisava ir adiante na negação. Se a covid-19 não tinha importância, por que gastar fortunas com vacinas? 

Numa de suas declarações mais claras sobre o tema, Bolsonaro disse preferir gastar dinheiro com remédio a comprar vacinas.

Mais tarde voltou ao tema, criticando a vacina chinesa de Doria, a Coronavac, e terminando por lançar suspeitas também sobre as vacinas que usam a técnica de mensageiro RNA, no caso da Pfizer: se quiser virar jacaré, ou ver mulher de barba ou homem falando fino, tome a vacina.

Ao longo desse tempo, o número de mortos aumentava e Bolsonaro mantinha sua frieza: não sou coveiro. Era algo previsível em sua tática.

Daí o desencontro entre seu comportamento e o que esperava a imprensa. Por que evitar aglomerações, se todos vão mesmo se contaminar? Por que usar essas opressivas máscaras? Se vamos chegar a uma situação de normalidade, é melhor todos se contaminarem rapidamente.

Olhando em torno, no universo particular de seu Palácio do Planalto, a teoria da contaminação de rebanho ia muito bem: 460 funcionários se contaminaram até abril.

A história pode ser contada assim, até mesmo no embate entre Bolsonaro e governadores. Ele quer a volta de todos ao trabalho e está disposto a fazer tudo para conquistar essa liberdade.

São duas concepções em jogo. Uma quer que as pessoas se vacinem, não se aglomerem, usem máscaras e lavem as mãos. A de Bolsonaro é a volta ao trabalho, o fluxo pleno da economia.

Quando for concluído o relatório da CPI, é possível fazer como se fez nos Estados Unidos: convidar um grupo de sanitaristas para examinar uma por uma essas decisões, ou mesmo hesitações. Aqui, como lá, também seria possível os especialistas calcularem o número de mortes que poderiam ter sido evitadas com as escolhas corretas.

Portanto, um minucioso trabalho de coleta de dados da CPI e um relatório que articule esses dados ainda serão insuficientes. Será necessário quantificar as suas consequências.

Nesse momento, Bolsonaro pelo menos terá uma defesa. Não têm razão aqueles que o acusam por todas as mortes pela covid-19 no Brasil. Ele teria de responder apenas por uma parte delas.

Quando a CPI encerrar seu trabalho, o número total de mortos no Brasil, segundo uma previsão da Universidade de Washington, será de 600 mil pessoas. Quantas podem ser atribuídas a uma escolha política de rasgar a carta e decapitar o mensageiro?

Ainda faltam detalhes à história. Até que ponto a vacinação no Brasil seguirá em ritmo lento? Até que ponto os atrasos na remessa de IFAs não são uma represália chinesa às declarações de Bolsonaro?

A Coronavac está no braço de 80% dos vacinados no Brasil. Bem ou mal, dependemos dela para uma vacinação em massa, até o momento. 

Da Índia dificilmente virá alguma coisa, pois a crise lá é profunda e o próprio Instituto Serum está sob forte pressão. 

A Pfizer fechou um negócio de 1,5 bilhão de doses com a Europa. Vai estar sobrecarregada.

Nesse contexto, provocar um rompimento com a China é apenas o lance final da estratégia de imunização de rebanho, que, na verdade, poderia ser chamada de extermínio de rebanho.

Isto coloca a CPI diante de outra tarefa, mais imediata do que compilar os dados e determinar responsabilidades: é preciso um núcleo de emergência, a busca de algumas medidas que possam salvar vidas enquanto o trabalho transcorre. 

E isto se vai dar no campo das vacinas, vencida, como parece ter sido, a batalha da hidroxicloroquina. (por Fernando Gabeira)

quarta-feira, 27 de março de 2019

"UM ETERNO PERSEGUIDO, PARA QUEM O FUTURO JÁ NÃO EXISTE"

rui martins
BATTISTI, CULPADO POR CONFISSÃO
Não acredito na espontaneidade da confissão de Cesare Battisti, assumindo a autoria dos atentados e mortes pelos quais foi condenado à prisão perpétua.

Não é preciso muita busca para se saber ter havido muitas confissões extraídas por ameaças ou torturas, não só na Idade Média, como em processos políticos, no século passado.

As próprias antigas delações de companheiros da época, responsabilizando Battisti pelos assassinatos cometidos, foram obtidas sob ameaças ou promessas de isenção de pena, levando-os a lançarem a culpa sobre alguém ausente e vivendo em segurança.

No caso da Itália, atualmente com governo de extrema direita, existe um fator importante na prisão de Cesare Battisti: a necessidade de se mostrar ao povo ter sido apanhado o responsável pelos crimes cometidos há 40 anos, pouco importando ser ou não ser ele o autor.
Melancólico final de uma via crucis de quatro décadas

Se Battisti continuasse negando a autoria dos crimes, a vitória com sua prisão não teria o mesmo peso de um Battisti confessando-se culpado e mesmo pedindo perdão aos familiares das vítimas. Mas para se chegar a uma confissão plena, imagina-se ter sido aplicado inicialmente o método duro das ameaças, seguido do método persuasivo da negociação.

Para o governo italiano seria contraproducente colocar Battisti com os outros presos da penitenciária da Sardenha, onde acabaria sendo violentado e morto ou justiçado.

Porém, reduzir sua pena e garantir bom tratamento na prisão, em troca de uma confissão completa com pedido de perdão aos familiares pelos crimes cometidos, revalorizaria o êxito da operação de captura de Battisti com a cumplicidade do presidente boliviano Evo Morales.

Sem ter qualquer outro meio de troca nessa negociação, não funcionou em favor de Battisti nem a prescrição da pena por esses crimes que, na verdade, não teria cometido. Em contrapartida, se poderia dizer ter sido assassinada a Justiça brasileira, pois o caso Battisti já havia sido julgado, ele possuía papéis de um imigrante normal e é pai de filho brasileiro.

O presidente Temer (que pouco tempo depois também seria preso) e o STF ignoraram a prescrição dos crimes de que era acusado Battisti, reabriram um julgamento já concluído, num raro caso de retroatividade de pena, ignoraram a não periculosidade do italiano já vivendo normalmente integrado no Brasil, para satisfazer o desejo do governo de extrema direita italiano.
Por motivos humanitários, Carla Bruni-Sarkozy salvou Marina Petrella da extradição
O CASO MARINA PETRELLA – Nada a ver com um caso semelhante ocorrido na França, quando a Itália pediu a extradição de Marina Petrella, ex-militante das Brigadas Vermelhsa e condenada à prisão perpétua, na Itália, por participação no assassinato de um comissário de polícia.Refugiada na França, Marina se beneficiou de um asilo criado pelo presidente Mitterrand, concedido aos italianos que tivessem abandonado o terrorismo.

Com a mudança de governo na França, a Itália pediu a extradição de todos os italianos envolvidos, no passado, em atentados. Marina Petrella, com 54 anos, que vivia e trabalhava na França há dez anos e era mãe de duas filhas, foi presa ao exibir seu documento, num simples controle de trânsito.

Seu processo de extradição durou um ano e, quando sua entrega à Itália parecia próxima, Marina fez uma greve de fome, seguida de uma profunda depressão, pois não queria ser obrigada a abandonar suas filhas ainda meninas.

Nessa altura, a atriz italiana Valeria Bruni-Tedeschi e sua irmã, Carla Bruni-Sarkozy, esposa do presidente francês Nicola Sarkozy, interferiram em favor de Marina Petrella, já internada num hospital em estado comatoso, junto ao presidente Sarkozy, que anulou a extradição por razão humanitária.

Com Cesare Battisti, nem Temer, nem Fux, nem o socialista Morales tiveram essa grandeza.
Por motivos salafrários, Evo Morales permitiu que a Interpol caçasse Battisti em território boliviano
CULPADO OU NÃO CULPADO? – Três dias depois da prisão de Battisti no Rio de Janeiro, em março de 2007, lancei um dos primeiros apelos pela libertação do italiano, logo depois dos apelos feitos pelo deputado Fernando Gabeira e pelo senador Eduardo Suplicy.

Apelo publicado no Direto da Redação, naquela época sob a direção de Eliakim Araújo, já falecido. Era meu primeiro texto publicado em tal site.

Não dispondo de elementos para julgar se Cesare Battisti era culpado ou inocente dos crimes a ele atribuídos, meu apelo era em favor de um homem perseguido por cerca de 30 anos.

Meu apelo era em favor de um foragido, de um fugitivo. Seu longo tempo de fuga, seus sobressaltos constantes já equivaliam a uma dura punição, caso fosse culpado.

Ainda agora, lendo sua pretensa confissão de crimes cometidos há 40 anos, prefiro continuar vendo Cesare Battisti como um fugitivo, que acabou sendo apanhado e para quem o futuro já não existe.
Nos meus muitos textos publicados sobre Battisti, nunca procurei mostrá-lo como um herói ou um revolucionário, mas como um eterno perseguido, sem direito a uma vida normal. Também nunca me preocupei em saber se era ou é culpado dos assassinatos a ele atribuídos. (por Rui Martins)

domingo, 16 de dezembro de 2018

FURO DE RUI MARTINS: FELIZMENTE CESARE BATTISTI SAIU A TEMPO!

Imagino a frustração do ministro Fux, do presidente Temer e do próximo presidente Bolsonaro por terem perdido a chance de mostrar serviço aos colegas da Itália. Como vivemos agora numa teocracia evangélica, tiveram a mesma decepção dos opressores romanos ao chegarem à tumba de Cristo, onde um anjo sentado numa goiabeira lhes disse – “não está mais aqui, ressuscitou!”. 

Ao chegarem na casa do italiano Cesare Battisti, os policiais ouviram dos vizinhos – “não está mais aqui, se mandou!”.

Não havia outro jeito senão fugir para Cesare Battisti continuar tendo uma existência livre: 
— o STF, pelo ministro Fux, tinha decidido monocraticamente passar por cima da Constituição e extraditar um imigrante com os papéis em regra, pai de um filho brasileiro do qual seria separado como emigrante mexicano nos EUA, com um processo já prescrito;   
 — o presidente Temer em fim de mandato, detestado pelo povo, ignorou seu próprio ministro das Relações Exteriores, ex-guerrilheiro Aloysio Nunes, e decretou a extradição de Cesare Battisti, ignorando também seu filho brasileiro (nem com Bigs fizeram isso!); 
— e, enfim, o futuro presidente, de sobrenome italiano, queria oferecer ao governo populista de extrema-direita italiano a cabeça do esquerdista italiano Cesare Battisti.
Frustraram-se. Não houve um novo caso Olga Benário Prestes.

Todos os defensores de Cesare Battisti exultam por ele ter conseguido sair a tempo. 

Fui dos primeiros a pedir a não extradição de Battisti, como queria a França do presidente Sarkozi, apenas alguns dias depois de sua prisão no Rio de Janeiro, em março de 2007, onde tinha se refugiado clandestinamente. Publiquei um texto no Direto da Redação Gabeira e Suplicy tinham também reagido em favor de Battisti.

A revista Carta Capital, de Mino Carta, queria e sempre quis a cabeça de Battisti e isso atrasou o apoio da esquerda e dos petistas. [Gostaria de saber como reage hoje a nova editora Manuela Carta.]

O apoio do PT  chegou com Tarso Genro e com o presidente Lula, mas foi preciso muita luta e nisso se destacaram Celso Lungaretti e Carlos Lungarzo, sem esquecer a escritora francesa Fred Vargas.

Não adianta grampearem meu telefone ou meu computador, eu bem que gostaria de ter ajudado Battisti nessa fuga, mas foram outros, imagino menos em foco. 

Desejo a Cesare Battisti, seu filho e sua esposa: Boas Festas e um país livre, sem trevas, em 2019. Bebamos à sua saúde! (por Rui Martins, de Berna, no Direto da Redação)
.
Observação do editor: trata-se de um um furo tão auspicioso que eu jamais poderia deixar de publicá-lo, ainda que com a ressalva de que eu mesmo não tenho como confirmar a sua veracidade.  

Mas, estou apostando na seriedade e no profissionalismo do Rui, jornalista há meio século, que sempre fez por merecer minha total confiança.

Tenho a certeza de que logo, logo receberemos informações mais completas sobre a salvação do Cesare. E desde já estou brindando à sua saúde, junto com o Rui(Celso Lungaretti)

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

RUI MARTINS: "RÉQUIEM PARA LULA"

Era de se esperar a condenação unânime de Lula. Só não viu chegar quem não quis, este o grande erro dos petistas – o de não querer ver e tentar promover a cegueira geral, insistindo nas frases que não dizem mais nada, numa cegueira obsessiva, como os roedores lêmingues que, muitas vezes desnorteados, avançam sem ver os perigos e caem de penhascos ou se afogam nos rios como se cometessem suicídio coletivo. 

Eu me lembro sempre do chanceler alemão Helmut Kohl, quando procuro um exemplo de queda parecida com a do Lula. Helmut era um super-poderoso político quando foi alvo da denúncia de fraude no financiamento de sua campanha eleitoral. 

A comparação não vai mais longe porque não havia corrupção e nem enriquecimento pessoal e, principalmente, porque Helmut encerrou voluntariamente sua carreira quando a Justiça alemã reconheceu ter havido fraude, sem tentar desmoralizar os juízes e sem querer abalar o funcionamento da democracia alemã.

Como se costuma dizer, pegou seu chapéu e foi embora, E, com isto, evitou ser massacrado. Errar todo mundo erra, mas em certos países o erro é corrigido e punido. E com isso se evita a propagação da infeção ou a metástase. Os democratas-cristãos alemães sofreram um choque mas logo substituíram Helmut por Angela Merkel e o trauma foi esquecido e o partido voltou ao poder. 

O PT não tem essa largueza de espírito. Apanhado com a boca na botija em 2005 com o mensalão, Lula jurou inocência e conseguiu ficar no poder; em lugar de levar a sério a advertência, prosseguiu no mesmo caminho, julgando-se intocável e invencível.
"Helmut Kohl pegou seu chapéu e foi embora"

Isso tem um nome, é uma palavra de origem grega – húbris – usada para designar aqueles que se embriagam com o poder, quando o poder lhes sobe à cabeça, donde decorre também a afirmativa de que o poder corrompe. 

Efetivamente, muitos detentores do poder sofrem de húbris e perdem a noção da realidade, situação agravada pelos que os envolvem e estimulam essa húbris. Lula sofre de húbris, outros tantos políticos já contraíram esta deformação psíquica e cometeram atos ilícitos (que julgavam permissíveis para eles por serem poderosos).

A história teria sido outra, se Lula tivesse optado pela aposentadoria e se o PT, em lugar de continuar culpando a Justiça, houvesse enfiado a carapuça, feito sua mea culpa, expulsado os envolvidos em tramoias e colocado no lugar gente decente, tipo Tarso Genro ou Valter Pomar. Em vez de ficar martirizando nossa democracia com a ladainha do foi golpe

A insistência petista lembra doentes que rejeitam as receitas e conselhos médicos, bem como enfisemados que não abrem mão de tragar seus cigarros. Não fosse essa cegueira fanática, visível nas redes sociais, hoje o PT já teria seu candidato provável à presidência, ao qual Lula, do seu sítio, poderia dar apoio. Mas não, os solertes conselheiros do PT levaram o partido para o suicídio, cometendo uma espécie de masoquismo público voluntário, num gesto nada marxista mas sim pietista. É a húbris que fez Lula pensar num levante popular contra sua condenação e provável prisão.
"Muitos detentores do poder sofrem de húbris"

O problema é que o PT se dizia de esquerda e o estrago feito vai atingir toda esquerda. Não sou só eu e o Celso Lungaretti que afirmamos isso, mas ainda hoje podemos citar reações de Cesar Benjamin e Fernando Gabeira, gente muito mais competente que nós em análise política e de esquerda.

O que chorar, ao ouvir a missa do réquiem de Lula? Principalmente a nossa tristeza por termos embarcado como tantos outros numa canoa furada, pois num piscar de olhos a herança de Lula-Dilma, que não tinha consistência, era um mero populismo de esquerda, já foi dilapidada e o Brasil retornou rapidamente às desigualdades de sempre.
Related Posts with Thumbnails