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quarta-feira, 12 de novembro de 2025

"NÁUFRAGO DA UTOPIA"/ 20 ANOS: A VISÃO CRÍTICA, MAS DIGNA E SOLIDÁRIA, DE UM SOBREVIVENTE DA LUTA ARMADA.

F
az 20 anos que lancei o livro
Náufrago da Utopiana livraria Saraiva do Shopping Morumbi, com a participação do ex-preso político Ivan Seixas, do presidente do Sindicato dos Jornalistas Audálio Dantas e do jornalista Paulo Nogueira no debate que antecedeu a sessão de autógrafos.

Foi o coroamento da reabilitação da minha imagem como revolucionário. 

Tal revisão do passado acabou sendo uma consequência da luta pública que travei para que a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça colocasse em pauta o meu caso  (eu estava desempregado e em situação crítica, o que era a condição primeira da priorização de um julgamento, mas tal critério não estava sendo respeitado pelo colegiado). Minha batalha do tostão contra o milhão começou a repercutir na internet.

Ademais, o jornalista e escritor Marcelo Paiva inseriu uma referência desrespeitosa e gratuita sobre mim numa reportagem que fez para a Folha de S. Paulo. Ao polemizar com ele nas páginas do jornalão dos Frias pude mostrar o quanto havia de errado nas fantasias que circulavam na esquerda, começando pelo fato de que eram duas e não uma as áreas de treinamento guerrilheiro da VPR.

Foi minha primeira chance de expor o meu lado naquele episódio. Ao revelar que eu só conhecera a área 1 (desativada) e não estivera na área 2 (desbaratada pela repressão), coloquei um ponto de interrogação na mente de muitos companheiros que haviam acreditado piamente na versão mais falada.
Eu no centro, como um dos imortais da Oban
(nosso apelido para cartazes de procurados)
  

Logo em seguida eu tomei conhecimento de um relatório do II Exército que continha a data exata em que a repressão obteve, a partir de uma prisão efetuada  naquele dia, a localização exata da área 2 da Vanguarda Popular Revolucionária e iniciou os preparativos para o desencadeamento da Operação Registro: 18 de abril de 1970. 

Como eu havia sido preso dois dias antes, foi uma comprovação de que a lenda sobre ter sido eu o delator era uma falsidade e uma ignomínia (companheiros que não aguentaram a tortura descarregaram suas vaciladas sobre mim, transformando-me num indefeso bode expiatório, já que, preso, não tinha como contestar as inverdades). 

Pouco depois, Jacob Gorender, o maior historiador da luta armada brasileira, escreveu uma carta para a Folha de S. Paulo afiançando que eu era mesmo inocente daquela acusação infame. 

Foi o fim de um pesadelo de 35 anos e a reconquista da minha credibilidade para travar as lutas que surgissem no meu caminho. Era um tempo de batalhas ideológicas muito inflamadas na internet, tendo eu e o Ivan Seixas sido os maiores defensores no Orkut da memória da luta armada e dos combatentes que a haviam travado. 

Quando o guru dos bolsonaristas, Olavo de Carvalho, me atacou,  aceitei o desafio e botei-o para correr numa polêmica de três artigos cada.

Já o comentarista de tevê Boris Casoy me acionou na Justiça Criminal por haver-me referido a ele como antigo membro do nefando Comando de Caça aos ComunistasPenei para arrumar advogado que me defendesse gratuitamente, pois atravessava uma grave crise financeira, mas o Sindicato dos Jornalistas de SP acabou me socorrendo.
E um artigo sobre o CCC, publicado em 1968 pela Realidade, decidiu a questão: numa publicação de circulação nacional, Casoy era citado com membro da Juventude do CCC, portanto eu não cometia crime nenhum ao acreditar no que li na revista. 

O juiz de primeira instância concluiu que eu estava protegido pela liberdade de imprensa e não houve recurso contra sua decisão.

Enfim, o lançamento do Náufrago da Utopia ocorreu num momento em que eu completava uma guinada na minha vida passando a perseguir sem entraves os objetivos que durante 35 anos não pude buscar, por causa da estigmatização que sofria.  

Mesmo assim, tive dois bons momentos, levando à vitória a greve de fome dos quatro de Salvador e sendo talvez o único esquerdista a solidarizar-se na grande imprensa com o Paulo de Tarso Venceslau, expulso injustamente pelo PT

Depois que os caminhos se abriram, ainda travei lutas menores, além de uma que pareceu a concretização de uma visão de quando, lá pelos meus 13 ou 14 anos, encontrei numa biblioteca circulante aquela que seria minha primeira leitura de um livro sobre política adulta: A tragédia de Sacco e Vanzetti, do Howard Fast. Fiquei, evidentemente, indignado com a injustiça cometida contra aqueles dois anarquistas italianos nos EUA.

Em 2008 o Comitê de Solidariedade a Cesare Battisti pediu-me ajuda e eu aceitei sem pestanejar.

Nunca me oferecia para atuar em episódios que estavam obtendo destaque na mídia (não queria ser chamado de caçador de holofotes), mas, quando estava em condições de prestar um grande auxílio a companheiros que recorriam a mim,  sempre atendia a suas solicitações. 

Via isto como era uma obrigação para um veterano que participara de uma luta com enorme letalidade do nosso lado. O mínimo que eu podia fazer para honrar o sacrifício dos companheiros era nunca recusar ajuda para um companheiro dela necessitado. 

Foram três anos (2008/2011) de uma luta extremamente desigual, contra a imprensa burguesa e o imenso poder de fogo de um país do primeiro mundo, que, ademais, jogava pra lá de sujo. Eu escrevia artigos quase diários, refutando as falácias da grande imprensa e pleiteando espaço para apresentar o contraditório, quase sempre negado. 

Ademais, atravessei o país fazendo palestras e participando de debates sobre o Caso Battisti. Meus textos eram publicados por vários sites e portais, então não seria pretensioso dizer que, na web, tive um papel destacado para a mudança de posição dos companheiros.

Talvez minha melhor contribuição haja sido ter-me tornado um repositório das informações de cocheira: por ser também jornalista e haver travado minhas polêmicas protegendo ciosamente tudo que tivesse obtido em off, colegas da grande imprensa começaram a me passar as informações sobre os círculos do poder que não podiam publicar em seus próprios veículos.

Inclusive uma valiosíssima: a de que o Lula, em fins do segundo mandato, não mexeria uma palha caso o STF, sozinho, extraditasse Battisti. Mas, se o abacaxi caísse na mesa dele, vetaria a extradição.

Graças a isso lutamos até o último argumento para que a decisão do caso não se desse no Supremo, no qual perdíamos todas as votações por 5x4, mas pelas mãos do Lula. O resto é História.

Gostaria de ter feito mais, contudo não consegui  o respaldo da esquerda organizada, que evitaria muitos vexames se aceitasse as estratégias que eu lhe propunha. Um consolo foi ter, no blog Náufrago da Utopia, combatido Jair Bolsonaro durante todo o ano eleitoral de 2018 e ao longo do seu famigerado mandaato.

Quando muitos se retraiam, temendo uma Operação Jacarta (massacre de opositores na Indonésia), não alteramos em uma vírgula sequer a linha editorial do nosso blog.

Concluindo: não daria para falar sobre o livro Náufrago da Utopia sem lembrar o contexto no qual foi escrito e os desdobramentos que gerou. Em termos literários, ele foi criado sob pressão máxima, pois devia vários aluguéis e estava ameaçado de despejo. 

O adiantamento que a Geração Editorial me prometeu contra a entrega do texto integral fez com que o terminasse em apenas 5 sofridas semanas. Para escrevê-lo fui obrigado a procurar informações sobre o destino de vários companheiros, o que há muito evitava fazer porque, quando ficava sabendo que haviam tido uma morte terrível nas garras da repressão, isto me deprimia demais. 

Então, parte do seu encanto advém de ser um livro escrito sob uma tremenda carga emocional, algo como a Autobiografia Precoce do Eugene Evtuchenko.

Uma decisão importante que tomei foi a de escrever com a isenção de um historiador, jamais escondendo ou maquilando episódios em que os personagens a mim simpáticos não se comportaram à altura do que deles eu esperava. 

Sempre detestei o culto à personalidade. A grandeza dos personagens históricos que a tinham em nada diminuía com o divulgação de seus maus momentos, pois estavam, como todos nós, longe de serem infalíveis.  Isto os fazia mais humanos. E a verdade é revolucionária.
A defesa dos direitos humanos é uma
prioridade do blog Náufrago da Utopia
.

Por que dividi o livro em três partes, as duas primeiras narradas na terceira pessoa e só a terceira parte na primeira pessoa? Foi uma forma de escapar ao constrangimento de relatar as torturas que sofri como quem as sofreu. Adotando a terceira pessoa, as torturas se referiam ao personagem Júlio, não a mim. 

Senti-me melhor assim, embora saiba que ser torturado por um estado policial não é vergonhoso, muito pelo contrário. Mas nem sempre as racionalizações  prevalecem sobre as emoções.

O Náufrago da Utopia foi um livro por muito tempo sonhado, daí a rapidez com que foi criado. Então, o uso da terceira pessoa nas partes iniciais também servia para descaracterizá-lo, no início, como autobiografia. 

O foco que eu escolhera fora mostrar oito jovens estudantes iniciando-se nos caminhos da revolução, mas da forma como tais personagens viam os grandes acontecimentos em cada momento. Ou seja, não como passado recordado mas sim como presente acontecendo. A primeira parte, com todo seu esforço de contextualização, é um painel sobre o movimento estudantil, a ditadura, a luta armada.

Depois, palestrando em escolas secundárias, tive a satisfação de ouvir alunos comentando que não sabiam nada sobre a ditadura, mas, depois do lerem meu livro, começaram a interessar-se pelo assunto. Fiquei emocionado. 

Quando já havia terminado as duas primeiras partes, me veio a ideia de adotar a primeira pessoa na parte final. Por quê? Para que ela fosse fiel ao meu ser  daquele momento. 

Eu não era mais o idealista ingênuo que havia sido quase destruído pela repressão nem o jornalista que adotava o pseudônimo de André Mauro para evitar problemas com a censura. Assumindo meu nome e minha história, estava recuperando a credibilidade. Tinha decidido ser, até o fim dos meus dias, um combatente da palavra, que em determinadas circunstâncias é mais eficiente do que as armas.

Aos jovens que me procuravam para saber qual minha opinião sobre uma nova luta armada, sempre mostrei cruamente como a dita cuja pode ser trágica quando a correlação de forças nos desfavorece tal qual agora. 

Aconselhava-os a, antes de mais nada,  irem aonde o povo estava, arregaçando as mangas e efetuando a laboriosa tarefa de politização do povão. Os voos maiores dependeriam do seu desempenho nessa etapa de acumulação de forças, pois hoje a correlação está totalmente desfavorável a nós

Encerro este artigo atual com o parágrafo final do livro de 2005:
"As cruzadas para mudar o mundo são repletas de armadilhas e sofrimento. Espero que ninguém mais entre de novo numa luta sanguinária com a ingenuidade do meu grupo secundarista em 1968. Mesmo assim, o mundo precisa ser transformado".

Desde então, o que mudou foi a premência da transformação do mundo, pois estamos  sob forte ameaça de extinção da espécie humana pelas alterações climáticas. (por Celso Lungaretti)

sexta-feira, 12 de abril de 2019

A CAFAJESTADA DO GENTILI NÃO PASSOU DE MAIS DO MESMO; JÁ O AUTORITARISMO DA ROSÁRIO FOI UM PONTO FORA DA CURVA

Tínhamos motivos para dele esperar outra postura? Não.
Comentaristas me pediram que opinasse sobre a condenação do humorista Danilo Gentili a quase sete meses de prisão em regime semi-aberto por ter se referido de forma grosseira e cafajeste à deputada Maria do Rosário.

Num primeiro momento respondi distraidamente, sem atinar com o xis da questão: o fato de a Maria do Rosário ter recorrido à esfera criminal numa questão que ela, como defensora dos direitos humanos, tinha a obrigação de considerar como destituído de tamanha gravidade.

Pior: eu era o primeiro a quem tal ficha deveria cair, pois foi também um processo criminal que Boris Casoy abriu contra mim, em função do artigo por mim escrito quando um comentário dele, depreciativo aos garis, vazou para o público durante o intervalo de um telejornal.

Numa sentença exemplar (vide aqui), o juiz julgou a ação improcedente à luz do Código Penal, por ferir "o regular exercício de crítica e liberdade de expressão de pensamento".

Não faria sentido eu ser preso tão somente por haver escrito que Casoy pertencera em 1968 ao Comando de Caça aos Comunistas (o que, por sinal, era muito falado nas rodinhas informais),
Já ela, com a cabeça quente, resvalou para o autoritarismo...

Mas isto, provavelmente, só deixou de acontecer por eu haver anexado ao processo uma velha revista O Cruzeiro com uma extensa reportagem sobre o CCC, na qual Casoy era citado como pertencente àquela organização paramilitar de extrema-direita (ele hoje nega e acusa a revista de ter feito "mau jornalismo").

Assim como não faz sentido o Gentili ser preso por haver reagido como moleque malcriado a uma interpelação judicial da Maria do Rosário. Tratava-se, nitidamente, de um caso em que o caminho correto teria sido um pedido de indenização.

Para mim, enquanto a pessoa tem como se defender por si mesma, não deve recorrer à polícia e à Justiça. Até por eu não ver o Estado como um ente isento e imparcial, que nos acode quando precisamos, mas sim como um instrumento de afirmação e salvaguarda do poder da classe dominante.

Nunca busquei a via judicial para responder a insultos, difamações, calúnias, etc. Minha voz e meus escritos bastam.
...em atitude não condizente com sua importância para os DH 

Se fosse me guiar por simpatia pelos personagens, ficaria ao lado da Maria do Rosário nesse imbroglio. Mas, mantendo-me coerente com o que sempre defendi na vida, sou obrigado a afirmar que ela exagerou e o meritíssimo, idem. Além de terem ambos escolhido um péssimo momento para tanto.

Uma sentença autoritária dessas pode abrir caminho para muitas outras, ainda mais quando o ocupante do Palácio do Planalto é, no mínimo, um autoritário empedernido (com grande possibilidade de estar mesmo é tentando conduzir o Brasil para um regime totalitário).

domingo, 29 de julho de 2018

AMARGANDO O DESALENTO DE UMA DÉCADA PERDIDA, FERIDO PELAS PESSOAS OCAS QUE O CAPITALISMO ENGENDRA

"Às vezes eu me sinto tão sem inspiração/ Às vezes eu sinto vontade de desistir / Às vezes me sinto tão cansado/ Às vezes me sinto como se já houvesse tido o suficiente/ Às vezes você sente-se como se tivesse sido contratado/ Às vezes você sente-se como se tivesse sido comprado/ Às vezes você sente que seu quarto foi mudado/ Às vezes você sente como se tivesse sido apanhado..."

É como um dia sentiu-se Steve Winwood, o brilhante tecladista e letrista do conjunto inglês Traffic. E é como me sinto neste domingo em que mais uma vez saí ferido na convivência inescapável com as pessoas ocas que a sociedade de consumo engendra, incapazes de superar o narcisismo infantil, tentando encontrar no que o dinheiro compra a felicidade que só a complementação amorosa, despojada e desinteressada com outros seres humanos proporciona.   

Mas, a 10 dias de completar 10 anos de existência, este blog deveria manter a tradição de trazer pelo menos um post novo a cada novo dia. E, por acaso, dei de cara com o texto abaixo, do início da campanha eleitoral de 2010, que dá uma boa noção de que estamos numa década perdida: tirando detalhes factuais, serve perfeitamente para a campanha eleitoral atual e a mídia atual. Leiam e constatem.
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O INFERNO PAMONHA E O MAFUÁ DA MÍDIA
O capitalismo putrefato consegue ser o pior dos mundos possíveis: à imoral desigualdade, às muitas injustiças e ao criminoso desperdício do potencial hoje existente para assegurar-se uma existência digna a cada habitante do planeta acrescenta a crassa boçalidade induzida pela indústria cultural.

Daí o rótulo definitivo, antológico, que Paulo Francis lhe pespegou.

Pois é mesmo num inferno pamonha que nos debatemos, sem encontrarmos a saída.

E fica mais pamonha ainda nas campanhas eleitorais.

Assim, leio que a Folha de S. Paulo considera informação pertinente os comentários de costureiros (é o que são, embora a mídia os trate pernosticamente como estilistas) sobre como se vestem Dilma Rousseff, José Serra e Marina Silva.

Que importância tem isso para o desempenho do cargo a que aspiram? Nenhuma.

Mas, derrubam-se árvores para a impressão de tolices como a de que não há expressão nos trajes de Serra e Dilma.

Lula teria orientado Dilma a "adotar a sobriedade dos looks clássicos e das cores neutras". Melhor faria orientando-a a informar-se melhor sobre política internacional, antes de deitar falação sobre as armas nucleares que o Irã possuiria.

Serra ficaria melhor com "ombros estruturados" como os de Obama, diz um Walter Rodrigues qualquer. Eu acho que seus ombros continuarão encurvados enquanto carregarem o peso da aliança com os demoníacos herdeiros da Arena, o partido que dizia amém aos genocídios e atrocidades da ditadura militar.

Dilma também se viu obrigada a reformular suas declarações a respeito de credo. Antes da campanha se dizia em dúvida sobre a existência de Deus e negava ter uma religião específica, agora se apresenta como "antes de tudo, cristã" e "num segundo momento, católica".

Trata-se, claro, de uma questão de foro íntimo, que jamais deveria ser exposta à bisbilhotice alheia.
Só que, quando Boris Casoy colocou tal casca de banana no caminho de Fernando Henrique Cardoso, este deu uma resposta digna e perdeu a eleição para prefeito de São Paulo.

Resultado: desde então, nenhum candidato se atreveu mais a replicar que esta questão simplesmente não vem ao caso.

Há que se querer muito a Presidência da República para sujeitar-se ao assédio da mediocridade agressiva.

O mafuá da mídia está cada dia mais repulsivo.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

RUI MARTINS TIRA O GÊNIO DA GARRAFA - 1

A INJUSTIÇA DE DILMA NO CASO CELSO LUNGARETTI
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Por Rui Martins, de Genebra.
Existe hoje um caso Celso Lungaretti dentro da esquerda brasileira. Injustiçado pela ex-companheira de resistência na VPR Dilma Rousseff, marginalizado pelos blogueiros petistas, na verdade Celso simboliza a verdadeira esquerda não comprometida. E deve, por isso e pelo seu passado e presente de lutas, ter o nosso reconhecimento e apoio.
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Existe hoje um caso Celso Lungaretti dentro da esquerda brasileira. Os mais jovens não sabem quem é Lungaretti e vamos resumir: líder secundarista quando houve o golpe militar no Brasil, Celso Lungaretti entrou na Vanguarda Popular Revolucionária, VPR, com 18 anos; com 19 anos foi preso e passou por torturas, das quais tem sequelas até hoje. VPR é o mesmo movimento ao qual pertenceu a ex-presidente Dilma Rousseff, podemos dizer que ambos eram companheiros de luta na resistência.

Para não cometer erro, transcrevo a Wikipedia sobre Lungaretti:
"Preso em abril de 1970, foi acusado injustamente como delator da área de treinamento da VPR em Registro/SP porque sua organização preferiu preservar os dirigentes do Comando Nacional que a revelaram sob torturas, culpando ele e outro militante secundarista nos documentos e versões oficiais. Após grandes coações psicológicas e torturas físicas, foi obrigado a escrever manifestos e dar entrevistas renegando seu passado revolucionário e criticando a esquerda armada ainda em 1970.
Conseguiu restabelecer a verdade dos fatos no final de 2004, a partir de um relatório secreto militar que veio a público e da intervenção em seu favor do historiador (comunista e também resistente)  Jacob Gorender, que o inocentou dessa acusação em carta publicada na Folha de S. Paulo.
Em 2005, Celso lançou o livro Náufrago da Utopia: Vencer ou morrer na guerrilha aos 18 anos.
Desde então atua como blogueiro, defendendo os ideais revolucionários, os direitos humanos e o exercício do pensamento crítico, assumindo causas como a do escritor italiano Cesare Battisti (como porta-voz do Comitê de Solidariedade).
Recentemente (2011), Celso Lungaretti foi inocentado pela justiça em São Paulo em processo movido contra ele pelo jornalista Boris Casoy."
Restabelecida a democracia, já fora da prisão há algum tempo, Lungaretti lutava para sobreviver. Com a Lei da Anistia, e restabelecida a verdade a seu respeito, Celso Lungaretti obteve parte de uma indenização pelos males sofridos fisicamente e na sua carreira de jornalista. Mas ficou faltando uma parte e para recebê-la entrou com um processo, no qual conseguiu ganho de causa, como o próprio Lungaretti explica [neste texto, entre outros].

Entretanto, no momento de execução da decisão a ele favorável, o governo petista, através da Casa Civil, encarregou a Advocacia Geral da União, AGU, de recorrer da sentença, para adiar, como vem sendo adiado já há dez anos, o pagamento de sua indenização, embora todos seus companheiros da resistência armada já tenham sido indenizados.

Sofrendo problemas econômicos com sua família, Lungaretti chegou a apelar à presidente Dilma Rousseff, tendo recebido a informação de que a presidente não poderia interferir, por se tratar de questão judiciária em andamento, quando na verdade bastaria ter sido retirado o recurso oposto pela Advocacia Geral da União.

Por que não funcionou a solidariedade entre companheiros com Lungaretti? Provavelmente em consequência das posições críticas de Lungaretti, um eterno revolucionário, às posições do governo Dilma Rousseff. Num espetáculo doloroso de intolerância e de dogmatismo inaceitável, os textos críticos, mas por isso mesmo importantes, de Celso Lungaretti passaram a ser rejeitados pelos blogueiros da esquerda padronizada, reproduzidos apenas pelo Direto da Redação, do qual sou editor.

Trata-se de um caso Celso Lungaretti porque ao se negar a se submeter à cartilha do governo petista (e muitos blogueiros eram mesmo pagos para isso), a chamada esquerda brasileira virou as costas ao antigo resistente, negando-se a pleitear junto ao governo um tratamento humano entre companheiros contra a discriminação mais parecida com vingança, pois Lungaretti não sabe se dobrar e entoar o hino dos louvores exigido.

É lamentável que na sua luta, o companheiro Celso Lungaretti, só encontre um apoio, o de Dalton Rosado, também injustiçado pelo PT, e o meu. Escrevo daqui de longe, na esperança de que outros companheiros se unam ao Celso Lungaretti na sua luta, cuja figura de combatente mesmo hoje doente, de indomável, só pode enriquecer, com seus apelos ao debate e com suas críticas, o pensamento de esquerda no Brasil.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

IMPRENSA x DITADURA: "FOLHA" ADMITIU PECADOS MAIS GRAVES AINDA

Já que O Globo reconhece ter apoiado o golpe de 1964, vale lembrar que o Grupo Folha também 
fez sua  mea culpa  em fevereiro de 2011, 
quando comemorava o 90º aniversário.

Usou, contudo, o artifício de esconder tal admissão no meio de um quilométrico texto louvaminhas. Eu 
e todo mundo teríamos passado batidos, se a ombudsman não houvesse levantado a 
lebre em sua coluna dominical.

Alertado, fui atrás e encontrei a matéria em questão. Eis os trechos principais do artigo que escrevi em 27/02/2011: 

Assim a FT noticiou a morte do 'Bacuri',
bestialmente torturado durante 108 dias.

Suzana Singer, a ombudsman da Folha de S. Paulo, repreende o jornal por ter transformado a comemoração dos seus 90 anos de existência numa festa imodesta

Eu usaria outro adjetivo para qualificar a imagem maquilada que Calibã produziu de si mesmo para fins de efeméride, mas ombudsman que não doura a pílula deixa de ter seu mandato renovado pelo herdeirinho que manda e desmanda...

Sobre o caderno comemorativo, Singer diz algo interessante:
"É verdade que o especial de 90 anos da Folha teve (...) a coragem de explicar o apoio do jornal ao golpe militar e o alinhamento da Folha da Tarde à repressão contra a luta armada. Trouxe também críticas duras feitas pelos ex-ombudsmans. Mas foram apenas notas dissonantes [grifo meu]".
Sim, no meio da overdose de auê, passou despercebido o texto 90 anos em 9 atos, de Oscar Pilagallo, cuja principal função foi a de servir como uma espécie de álibi para quando alguém acusasse o jornal de não ter autocrítica.

Enfim, vale a pena conhecermos o que a Folha finalmente admite sobre seu passado -- embora, claro, não tenha admitido  tudo, mas, tão somente, o que já havia sido inequivocamente estabelecido por seus críticos e não compensava continuar negando.

E, claro, devemos discutir -- e muito! -- a chocante revelação de que o Grupo Folha entregou um de seus jornais a porta-vozes de torturadores como alegada retaliação a um agrupamento de esquerda que teria se infiltrado na Redação.
Mancheteando a Marcha da
Família
às vésperas do golpe
 
"Folha apoiou o golpe militar de 1964, como praticamente toda a grande imprensa brasileira. Não participou da conspiração contra o presidente João Goulart, como fez o 'Estado', mas apoiou editorialmente a ditadura, limitando-se a veicular críticas raras e pontuais. 
...O jornal submeteu-se à censura, acatando as proibições, ao contrário do que fizeram o 'Estado', a revista 'Veja' e o carioca 'Jornal do Brasil', que não aceitaram a imposição e enfrentaram a censura prévia, denunciando com artifícios editoriais a ação dos censores.
...A partir de 1969, a 'Folha da Tarde' alinhou-se ao esquema de repressão à luta armada, publicando manchetes que exaltavam as operações militares.
A entrega da Redação da 'Folha da Tarde' a jornalistas entusiasmados com a linha dura militar (vários deles eram policiais) foi uma reação da empresa à atuação clandestina, na Redação, de militantes da ALN (Ação Libertadora Nacional), de Carlos Marighella...

Em 1971, a ALN incendiou três veículos do jornal e ameaçou assassinar seus proprietários. Os atentados seriam uma reação ao apoio da 'Folha da Tarde' à repressão contra a luta armada.

Segundo relato depois divulgado por militantes presos na época, caminhonetes de entrega do jornal teriam sido usados por agentes da repressão, para acompanhar sob disfarce a movimentação de guerrilheiros. A direção da Folha sempre negou ter conhecimento do uso de seus carros para tais fins".
Vale destacarmos, ainda, o reconhecimento de que foi por sugestão da própria ditadura que a Folha de S. Paulo, em meados dos anos 70, passou a posicionar-se com mais independência em relação à ditadura! Seria cômico, se não fosse trágico...  
Diaféria escreveu: "O povo urina nos heróis de pedestal"
"No início de 1974, Octavio Frias de Oliveira, publisher da Folha, foi procurado por Golbery do Couto e Silva, futuro chefe da Casa Civil do governo de Ernesto Geisel, prestes a tomar posse.
...Golbery deixou claro que ao futuro governo não interessava ter um único jornal forte em São Paulo [ou seja, o novo governo favoreceria quem disputasse leitores com O Estado de S. Paulo]. 
...uma ampla reforma editorial foi concebida e executada (...) por [Cláudio] Abramo, que trabalhava na Folha desde 1965. As páginas 2 e 3 se tornaram espaços de opinião crítica. Passaram a fazer parte da equipe editorial colunistas renomados, como Paulo Francis e, mais tarde, Janio de Freitas. 
A trajetória teve um desvio em 1977, quando, por pressão da linha dura do governo, Abramo foi afastado de seu cargo... ".
Desvio? Foi, isto sim, um fim de linha. A  primavera da Folha  acabou no exato instante em que o jornal se vergou ao ultimato militar, quando do episódio  Lourenço Diaféria x estátua do Caxias (leia a crônica que tanto irritou os militares aqui), afastando Cláudio Abramo da direção de redação e o despachando para Londres, demitindo vários colaboradores e impondo evidentes restrições aos que ficaram.

Durante cerca de três anos, a Folha teve a cara do Abramo. A partir de 1977, passou a ter a carranca do Boris Casoy. E, depois, a do Otávio Frias Filho.

Para quem conhece os três personagens, não é preciso dizer mais nada.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

JORNALISTAS À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS

Leio no Portal Imprensa que o jornalista Paulo Henrique Amorim foi condenado a 20 meses de prisão por "injúria preconceituosa" de cunho racista contra o colega Heraldo Pereira (veja aqui), podendo, contudo, a pena ser substituída por alguma restrição de direito a ser definida; e que Boris Casoy e Jorge Kajuru trocaram pesadas acusações pelo Youtube (veja aqui), o primeiro tratando o segundo como um "pobre coitado" que teria telefonado ao bicheiro Jorginho Cachoeira para pedir-lhe dinheiro (veja aqui) e o Kajuru retrucando que Casoy seria "elitista", "racista", "fascista" e "pedófilo" (veja aqui).

Os leitores podem tirar suas conclusões clicando nos quatro links acima. Eu apenas destaco que a catilinária de Kajuru contra Casoy foi a mais ofensiva de que já tomei conhecimento numa refrega entre jornalistas, daí eu estranhar que "o Boris não irá se manifestar sobre esse assunto", segundo a assessoria de imprensa da Band.

Como alguma resposta ele terá de dar em função da gravidade das imputações, presumo que vá novamente acionar a Justiça.

Então, quero deixar registrado meu inconformismo com a estranha prática de jornalistas recorrerem aos tribunais, quando o instrumentos e armas do nosso ofício são o teclado e o microfone. Heraldo, Boris e todos os outros que assim têm procedido, deveriam confiar mais nos próprios tacos do que nas togas.

O Paulo Francis, p. ex., sempre encontrava o que responder, mesmo quando um Caetano Veloso da vida o qualificava de "bicha amarga", "boneca travada", etc. Na minha opinião, ao esnobar Caetano como mero "fabricante de ruídos populares", ele causou mais danos ao ego do adversário do que conseguiria infligir-lhe se também apelasse para baixarias.

sábado, 13 de agosto de 2011

AS FALHAS DA 'FOLHA': COLABORACIONISMO


O marechal Pétain, pelo menos, havia sido
herói antes de se tornar colaboracionista
Há alguns meses, Suzana Singer, a ombudsman da Folha de S. Paulo, levantou um assunto muito interessante, ao escrever sobre o caderno comemorativo da última efeméride do jornal da  ditabranda:
"É verdade que o especial de 90 anos da Folha teve (...) a coragem de explicar o apoio do jornal ao golpe militar e o alinhamento da Folha da Tarde à repressão contra a luta armada. Trouxe também críticas duras feitas pelos ex-ombudsmans. Mas foram apenas notas dissonantes [grifo meu]".
Sim, no meio da overdose de auê, passou despercebido o texto 90 anos em 9 atos, de Oscar Pilagallo, cuja principal função foi a de servir como uma espécie de álibi para quando alguém acusasse o jornal de não ter autocrítica.

Enfim, vale a pena conhecermos o que a Folha finalmente admite sobre seu passado -- embora, óbvio ululante, não tenha admitido tudo, mas apenas o que já havia sido inequivocamente estabelecido por seus críticos e não compensava continuar negando.

E, claro, devemos discutir -- e muito! -- a chocante revelação de que o Grupo Folha entregou um de seus jornais a porta-vozes de torturadores como retaliação a um agrupamento de esquerda que se infiltrara na Redação.
"A Folha apoiou o golpe militar de 1964, como praticamente toda a grande imprensa brasileira. Não participou da conspiração contra o presidente João Goulart, como fez o 'Estado', mas apoiou editorialmente a ditadura, limitando-se a veicular críticas raras e pontuais.
Confrontado por manifestações de rua e pela deflagração de guerrilhas urbanas, o regime endureceu ainda mais em dezembro de 1968, com a decretação do AI-5. O jornal submeteu-se à censura, acatando as proibições, ao contrário do que fizeram o 'Estado', a revista 'Veja' e o carioca 'Jornal do Brasil', que não aceitaram a imposição e enfrentaram a censura prévia, denunciando com artifícios editoriais a ação dos censores.
Assim a FT noticiou a morte do 'Bacuri',
preso 108 dias antes e triturado nas torturas.
As tensões características dos chamados 'anos de chumbo' marcaram esta fase do Grupo Folha. A partir de 1969, a 'Folha da Tarde' alinhou-se ao esquema de repressão à luta armada, publicando manchetes que exaltavam as operações militares.
A entrega da Redação da 'Folha da Tarde' a jornalistas entusiasmados com a linha dura militar (vários deles eram policiais) foi uma reação da empresa à atuação clandestina, na Redação, de militantes da ALN (Ação Libertadora Nacional), de Carlos Marighella, um dos 'terroristas' mais procurados do país, morto em São Paulo no final de 1969.
Em 1971, a ALN incendiou três veículos do jornal e ameaçou assassinar seus proprietários. Os atentados seriam uma reação ao apoio da 'Folha da Tarde' à repressão contra a luta armada.
Segundo relato depois divulgado por militantes presos na época, caminhonetes de entrega do jornal teriam sido usados por agentes da repressão, para acompanhar sob disfarce a movimentação de guerrilheiros. A direção da Folha sempre negou ter conhecimento do uso de seus carros para tais fins.
No início de 1974, Octavio Frias de Oliveira, publisher da Folha, foi procurado por Golbery do Couto e Silva, futuro chefe da Casa Civil do governo de Ernesto Geisel, prestes a tomar posse.
Os dois militares seriam os principais artífices do projeto de distensão e abertura política, e Golbery encontrou-se com donos de jornais para expor o plano. Sabendo que enfrentaria a resistência da linha dura, queria a imprensa como aliada natural.
No caso da Folha, Golbery deixou claro que ao futuro governo não interessava ter um único jornal forte em São Paulo [ou seja, estimularia quem disputasse leitores com O Estado de S. Paulo]. A conversa coincidiu com discussões internas na empresa, com vistas a aproximar a Folha da sociedade civil. A empresa tinha saldado as dívidas iniciais e se expandido. O passo seguinte seria transformar o matutino num jornal influente.
Eis a Folha mancheteando a Marcha
da Família
e criando clima para o golpe.
Em meados de 1974, uma reunião em Nova York entre Frias, Cláudio Abramo e Otavio Frias Filho foi decisiva para a definição da nova estratégia. Sob a inspiração de Frias pai, uma ampla reforma editorial foi concebida e executada nos anos seguintes por Abramo, que trabalhava na Folha desde 1965. As páginas 2 e 3 se tornaram espaços de opinião crítica. Passaram a fazer parte da equipe editorial colunistas renomados, como Paulo Francis e, mais tarde, Janio de Freitas.

A trajetória teve um desvio em 1977, quando, por pressão da linha dura do governo, Abramo foi afastado de seu cargo. O revés, no entanto, seria passageiro. Boris Casoy, que o substituiu, manteve a orientação e garantiu que o jornal tivesse um espaço relevante no processo de redemocratização".
A última afirmação chega a ser hilária. Me engana que eu gosto...

primavera da Folha  acabou no exato instante em que o jornal se vergou ao ultimato militar, afastando Cláudio Abramo da direção de redação e o despachando para Londres, demitindo vários colaboradores e impondo evidentes restrições aos que ficaram.

Durante cerca de três anos, a Folha teve a cara do Abramo. A partir de 1977, passou a ter a cara do Casoy (e, depois, a do Otávio Frias Filho).

Para quem conhece estes três personagens, eu não preciso dizer mais nada.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

"FOLHA" ADMITE ENTREGA DA DIREÇÃO DA FT A ENTUSIASTAS DA REPRESSÃO

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Assim a FT noticiou a morte do 'Bacuri', 
preso 108 dias antes e triturado nas torturas.

Suzana Singer, a ombudsman da Folha de S. Paulo, repreende o jornal na coluna deste domingo, por ter transformado a comemoração dos seus 90 anos de existência numa festa imodesta

Eu usaria outro adjetivo para qualificar a imagem maquilada que Calibâ produziu de si mesmo para fins de efeméride, mas ombudsman que não doura a pílula deixa de ter seu mandato renovado pelo herdeirozinho que manda e desmanda...

Sobre o caderno comemorativo, Singer diz algo interessante:
"É verdade que o especial de 90 anos da Folha teve (...) a coragem de explicar o apoio do jornal ao golpe militar e o alinhamento da Folha da Tarde à repressão contra a luta armada. Trouxe também críticas duras feitas pelos ex-ombudsmans. Mas foram apenas notas dissonantes [grifo meu]".
Sim, no meio da overdose de auê, passou despercebido o texto 90 anos em 9 atos, de Oscar Pilagallo, cuja principal função foi a de servir como uma espécie de álibi para quando alguém acusasse o jornal de não ter autocrítica.

Enfim, vale a pena conhecermos o que a Folha finalmente admite sobre seu passado -- embora, óbvio ululante, não tenha admitido tudo, mas apenas o que já havia sido inequivocamente estabelecido por seus críticos e não compensava continuar negando.

E, claro, devemos discutir -- e muito! -- a chocante revelação de que o Grupo Folha entregou um de seus jornais a porta-vozes de torturadores como retaliação a um agrupamento de esquerda que se infiltrara na Redação.
"O PAPEL NA DITADURA

A Folha apoiou o golpe militar de 1964, como praticamente toda a grande imprensa brasileira. Não participou da conspiração contra o presidente João Goulart, como fez o "Estado", mas apoiou editorialmente a ditadura, limitando-se a veicular críticas raras e pontuais.
Eis a "Folha" mancheteando a "Marcha
da Família" e criando clima para o golpe.
Confrontado por manifestações de rua e pela deflagração de guerrilhas urbanas, o regime endureceu ainda mais em dezembro de 1968, com a decretação do AI-5. O jornal submeteu-se à censura, acatando as proibições, ao contrário do que fizeram o "Estado", a revista "Veja" e o carioca "Jornal do Brasil", que não aceitaram a imposição e enfrentaram a censura prévia, denunciando com artifícios editoriais a ação dos censores.
As tensões características dos chamados "anos de chumbo" marcaram esta fase do Grupo Folha. A partir de 1969, a "Folha da Tarde" alinhou-se ao esquema de repressão à luta armada, publicando manchetes que exaltavam as operações militares.
A entrega da Redação da "Folha da Tarde" a jornalistas entusiasmados com a linha dura militar (vários deles eram policiais) foi uma reação da empresa à atuação clandestina, na Redação, de militantes da ALN (Ação Libertadora Nacional), de Carlos Marighella, um dos 'terroristas' mais procurados do país, morto em São Paulo no final de 1969.

Em 1971, a ALN incendiou três veículos do jornal e ameaçou assassinar seus proprietários. Os atentados seriam uma reação ao apoio da "Folha da Tarde" à repressão contra a luta armada.

Segundo relato depois divulgado por militantes presos na época, caminhonetes de entrega do jornal teriam sido usados por agentes da repressão, para acompanhar sob disfarce a movimentação de guerrilheiros. A direção da Folha sempre negou ter conhecimento do uso de seus carros para tais fins.

SURFANDO A ONDA DA ABERTURA

No início de 1974, Octavio Frias de Oliveira, publisher da Folha, foi procurado por Golbery do Couto e Silva, futuro chefe da Casa Civil do governo de Ernesto Geisel, prestes a tomar posse.

Os dois militares seriam os principais artífices do projeto de distensão e abertura política, e Golbery encontrou-se com donos de jornais para expor o plano. Sabendo que enfrentaria a resistência da linha dura, queria a imprensa como aliada natural.

No caso da Folha, Golbery deixou claro que ao futuro governo não interessava ter um único jornal forte em São Paulo [ou seja, estimularia quem disputasse leitores com O Estado de S. Paulo]. A conversa coincidiu com discussões internas na empresa, com vistas a aproximar a Folha da sociedade civil. A empresa tinha saldado as dívidas iniciais e se expandido. O passo seguinte seria transformar o matutino num jornal influente.

Em meados de 1974, uma reunião em Nova York entre Frias, Cláudio Abramo e Otavio Frias Filho foi decisiva para a definição da nova estratégia. Sob a inspiração de Frias pai, uma ampla reforma editorial foi concebida e executada nos anos seguintes por Abramo, que trabalhava na Folha desde 1965. As páginas 2 e 3 se tornaram espaços de opinião crítica. Passaram a fazer parte da equipe editorial colunistas renomados, como Paulo Francis e, mais tarde, Janio de Freitas.

A trajetória teve um desvio em 1977, quando, por pressão da linha dura do governo, Abramo foi afastado de seu cargo. O revés, no entanto, seria passageiro. Boris Casoy, que o substituiu, manteve a orientação e garantiu que o jornal tivesse um espaço relevante no processo de redemocratização".
A última afirmação chega a ser hilária. Me engana que eu gosto...

primavera da Folha  acabou no exato instante em que o jornal se vergou ao ultimato militar, afastando Cláudio Abramo da direção de redação e o despachando para Londres, demitindo vários colaboradores e impondo evidentes restrições aos que ficaram.

Durante cerca de três anos, a Folha teve a cara do Abramo. A partir de 1977, passou a ter a cara do Casoy (e, depois, a do Otávio Frias Filho).

Para quem conhece estes três personagens, eu não preciso dizer mais nada.
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