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sábado, 7 de dezembro de 2024

NO QUE ANDRÉ MALRAUX, GUILHERME BOULOS E LEONEL BRIZOLA CONCORDAM

Os intelectuais e políticos passam a vida fazendo longos discursos e redigindo textos intermináveis, mas o grande público acaba guardando apenas uma ou duas frases simbólicas, negadas por eles ou das quais não se lembram. 

Frases geralmente fora de contexto, mas imortalizadas por terem sido consideradas como previsões, vaticínios ou profecias. E para quem sabe antecipar o futuro existe um enorme público de curiosos.

É o caso do francês André Malraux, escritor, combatente contra o nazismo alemão durante a ocupação da França e político francês, conhecido pelo seu livro A Condição Humana; por ter lançado as bases da política cultural francesa, logo depois da 2a. Guerra Mundial; e como ministro da Cultura.

Muitos atuais universitários não tiveram tempo para ler A Condição Humana, A Esperança ou Os Conquistadores, mas conhecem ou já ouviram falar da frase "O século XXI será religioso ou não será". Existe um grande debate sobre esta afirmação, que o próprio Malraux nega ter feito, embora muitos seus contemporâneos, garantam tê-la ouvido. Alguns imaginam ter sido uma versão paralela como "O grande problema do século 21 será religioso".

Em todo caso, embora a religião em si não seja o centro dos problemas mundiais atuais, ela está presente nas guerras no Oriente Médio e, nas Américas, ela tem  força para decidir o resultado das eleições.

Me lembrei dessa frase apócrifa ou não de Mauraux ao ouvir uma entrevista de Guilherme Boulos à
Folha de São Paulo, logo depois de sua derrota para a prefeitura de São Paulo. 

Nela, ele dizia textualmente:
"O risco é o Brasil se tornar um Irã no sentido cultural e social, com o domínio do fundamentalismo monolítico, e virar politicamente um México pelos crimes, cartéis da política e assassinatos de gente da política".
É interessante notar ter havido só essa frase sobre o fundamentalismo monolítico cultural e social iraniano, numa entrevista de quase uma hora. Boulos procurava explicar o porquê da derrota frente a uma ultradireita em expansão:
"A extrema-direita está construindo uma hegemonia de pensamento nos setores populares, conquistando setores que já foram da esquerda. Deixando uma sociedade de conquista de direitos por uma sociedade de cada um por si”.
Ou seja, Boulos apontou o fundamentalismo monolítico cultural e social, entrando nos setores populares da esquerda, sem nomeá-lo abertamente. Esse crescimento da extrema direita faz o povo ignorar minha casa minha vida, mais empregos, crescimento econômico do país com redução das diferenças sociais, etc.

Preferiu fazer referência ao Irã por estar num terreno minado, motivo pelo qual uma referência clara e direta poderia ser negativa e contraproducente. E acentuou ser necessário reagir nas redes sociais e nas ruas, para evitar o avanço da extrema-direita.

Mas afinal o que é esse fundamentalismo monolítico cultural e social, cujo nome não foi pronunciado? Os evangélicos, aos quais Lula acaba de fazer um aceno com a criação do Dia Nacional da Música Gospel (9 de julho). 

Os partidos de esquerda ainda não conseguiram encontrar o equivalente para contrabalançar a influência e penetração das igrejas e congregações evangélicas nas camadas pobres da população substituindo o discurso das conquistas sociais pelas promessas bíblicas de melhor vida depois da morte.
E aí surge outro visionário como Malraux, que teria previsto o retorno em força do islamismo e sua influência sobre a própria esquerda. Trata-se do ex-governador do Rio de Janeiro e ex-candidato à Presidência, Leonel Brizola.

Brizola também teve sua frase, hoje atual e profética na época: “Se os evangélicos entrarem na política, o Brasil irá para o fundo do poço, o país retrocederá vergonhosamente”. 

Como no caso de Malraux, existem dúvidas quanto à origem da frase, mas Brizola, embora não praticante, era de origem metodista.

Vale lembrarmos uma reportagem do Jornal do Brasil em 1990, quando Brizola rompeu com Garotinho (evangélico presbiteriano governador do RJ) e criticou a participação de pastores evangélicos no seu governo e na equipe da vice-governadora Benedita da Silva, evangélica da Assembleia de Deus.

O crescimento em número e em influência dos evangélicos conteve o deputado federal do Psol Guilherme Boulos na sua análise de sua derrota à Prefeitura e da perda de força da esquerda. Por enquanto, ao que se saiba, nem o PT e nem a esquerda em geral encontraram um antídoto para deter o crescimento da extrema-direita apoiada nos evangélicos. (por Rui Martins)

sábado, 22 de junho de 2024

AINDA SOBRE AS CRIANÇAS, A PUTARIA, O FUNDAMENTALISMO RELIGIOSO E AS DEMAGOGIAS ELEITOREIRAS

Paulo Francis, que foi um guru do pensamento crítico nas fileiras da esquerda até a fase do
Pasquim mas depois se desencantou e descaracterizou de forma melancólica, dizia que o espaço das cartas de leitores na grande imprensa era qualificado pelos jornalistas profissionais de muro das lamentações, pois nenhum deles o levava a sério.

Eu, pelo menos, sempre respeitei os comentaristas, até porque devo já ter transformado em artigos pelo menos uma centena das respostas que dei a eles. 

Meus melhores textos e melhores falas costumam ser os que me vêm à mente no meio de uma argumentação, às vezes até contrariando a linha de pensamento que eu vinha seguindo. E nunca fui preguiçoso a ponto de desperdiçar o rumo que o artigo tomou sozinho só para não mexer um pouco no que já estava escrito.

Então, graças aos pertinentes comentários do SF ao meu artigo  sobre o antepenúltimo sincericídio desastroso do Lula, posso agora acrescentar um complemento àquele post que, espero, vá enriquecer a discussão que levantei. Tomara que os leitores concordem. (por Celso Lungaretti)
.
JÁ NÃO DÁ MAIS PARA BOTARMOS CRIANÇAS SOB UMA REDOMA
Essa imagem do menor de idade como anjinho assexuado foi feita em cacos há 119 anos, quando Freud publicou seu Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Temos é de preservar as etapas de amadurecimento sexual pelas quais passam as crianças, impedindo que adultos maliciosos as acelerem para locupletarem-se, traumatizando os pimpolhos.
  
Já não dá mais para colocarmos crianças sob uma redoma, tentando vedar-lhe o contato com os conteúdos adultos. Não se deve nem se consegue censurar toda uma sociedade na era da internet.

Ainda no tempo das fitas VHS, uma amiga minha, voltando para casa numa tarde mais cedo do que o habitual, surpreendeu seus filhos e outros colegas de escola, todos numa faixa de 12 anos, assistindo a um filme de sadomasoquismo explícito que haviam retirado da videolocadora com a carteirinha paterna.

Quanto aos fundamentalistas religiosos, sua idealização da inocência infantil não passa de uma ilusão compensatória por eles saberem-se apodrecidos até a medula. 

Isso, aliás, me faz lembrar uma frase antológica do filme Exótica (1994), do Aton Egoyan, quando o comentarista de uma boate sofisticada pergunta à plateia, durante o número de uma stripper produzida como estudante: "Por que uma colegial nos parece tão fascinante, será porque ela tem a vida inteira pela frente enquanto nós já desperdiçamos as nossas?"

Levar essa gente a sério, nem que seja por demagogia eleitoreira como no caso do Lula, é absolutamente indesculpável para as pessoas civilizadas.

Retrocesso civilizatório só convém aos bárbaros. A frase do Lula me fez lembrar o Bolsonaro recomendando a cloroquina no auge da covid-19. (CL)

domingo, 16 de junho de 2024

AS BANCADAS DA BALA, DA BÍBLIA E DO BOI SÃO APENAS SINTOMAS. ARTHUR LIRA, IDEM. A DOENÇA É O CAPITALISMO TERMINAL

Não se iludam: a PL do aborto não passa de uma provocação ao Judiciário e de uma demonstração de força dos conservadores, reacionários e mercadores do templo, os quais querem deixar bem claro ao povo que podem fazer gato e sapato do fraquíssimo Governo Lula.

Mas, se não dermos um imediato basta! a tal retrocesso civilizatório, boiadas ainda piores passarão pelo infame Legislativo que saiu das urnas eletrônicas de 2022 (de cuja lisura a corja boçal e ignara fingia desconfiar tanto...).

Então, devemos, sim, lutar com todas as nossas forças contra a regressão fundamentalista, antes que sejam reintroduzidas também a venda de indulgências, a (nada) Santa Inquisição e o direito da pernada, entre outras odiosas práticas medievais.

Mas, sempre lembrando que cada uma dessas abominações deve ser combatida com duplo objetivo: não só em si, mas também como uma oportunidade de acumulação de forças para a luta principal, aquela que cortará todas as cabeças da hidra ao mesmo tempo, livrando-nos definitivamente dessas recaídas na insanidade coletiva. 

Refiro-me, claro, à mais do que nunca imperativa superação do capitalismo, antes que ele nos arraste consigo em seu processo de autodestruição. (por Celso Lungaretti) 
Até tu, CNBB, apoiando a nefanda equiparação de aborto a
homicídio, o que equivale a considerá-lo crime pior do que
estupro?! Daí estarmos te prestando esta homenagem! 

terça-feira, 30 de abril de 2024

CINEMA, MULHERES E OPRESSÃO NO IRÃ

Ao tomar conhecimento da escolha de um novo filme do cineasta iraniano Mohammad Rasoulof para a mostra competitiva do 77º Festival de Cinema de Cannes (A semente da figa sagrada, 2024), eu me lembrei imediatamente do Festival de Berlim de 2020, do lugar onde estava sentado com minha esposa, do cinema repleto e da projeção de Não há mal algum, desse mesmo diretor. 

E me recordei também da mochila que alguém colocou ao meu lado no corredor –eu estava na ponta de uma fileira de lugares–, me deixando tenso, com receio de a mochila explodir. O filme ganhou o Urso de Ouro!

Rasoulof não pôde estar presente à projeção de sua obra e nem mesmo ir a Berlim para receber o prêmio máximo do festival. Como recompensa por tal conquista, Mohammad foi preso alguns dias depois e a imprensa internacional alertou para o risco de Rasoulof ser contaminado com o vírus da covid na prisão.

Naquele festival havia um filme brasileiro (Era Todos os Mortos, de Caetano Gotardo e Marco Dutra), um dos últimos a participar de competições cinematográficas internacionais, em consequência da censura ou cortes de verba para a Ancine e para produtores. 
 
Nos corredores, me encontrava com a produtora Sara Silveira, inquieta com o futuro do cinema brasileiro sob o Bozo, decidido a acabar com as subvenções para a cultura e forçar a privatização desse setor, colocado sob o controle de evangélicos dispostos a censurar toda manifestação cultural fora das quatro linhas da Bíblia. 

O cinema brasileiro há de recuperar-se dos anos obscurantistas. E o Irã, deixará Mohammad Rasoulof ir a Cannes mostrar a semente sagrada?
Protestos contra a morte na prisão de Mahsa Amini,
detida em 2022 por cobrir a cabeça de forma incorreta
 
Nos meus primeiros anos de exílio em Paris, quando frequentava a rue Saint Guillaume, onde fica a Sciences Po, ia sempre encontrar amigos na livraria Maspero, almoçar num dos restaurantes universitários e discutir política nos cafés do Quartier Latin, 

Todos nós éramos contra o xá Rheza Pahlevi. Longe estávamos de imaginar que a entrega do Irã ao aiatolá Khomeini iria levar à teocracia islâmica, onde se perseguem cineastas e se matam mulheres por não se vestirem e nem cobrirem a cabeça como manda o profeta.

Vi uma reportagem da BBC sobre como era a vida das mulheres antes da revolução islâmica; o uso do véu (ou chador) sido abolido no Irã em 1936. Alguém poderá arguir: e daí?  Afinal, a revolta contra o xá era contra uma ditadura e contra o imperialismo estadunidense.

É verdade, mas naquela época ninguém pensou nas consequências diretas para as mulheres da chegada do aiatolá ao poder. E nem se imaginava ser uma revolução masculina. Essas consequências foram trágicas e não eram apenas questões de roupas, vestidos compridos cobrindo braços e pernas, e o chador cobrindo os cabelos e a cabeça. 

Significou o retorno a uma situação de submissão e dependência total da mulher aos homens e ao sistema religioso. A restrição às mulheres do acesso ao mundo cultural e profissional. Uma submissão de longe mais grave que a exigida pelos neopentecostalistas estadunidenses e brasileiros.  
Charge do heroico Charlie Hebdo contra o obscurantismo

Um site francês,
 Le Grand Continent, publicou, logo após o assassinato da jovem iraniana Mahsa Jina Amini por ter o véu mal colocado na cabeça, um depoimento-reportagem da escritora Sorour Kasmai sobre o tema Ser Mulher no Irã, o prefácio do seu livro Mulher, Sonho, Liberdade, reunindo 12 histórias inéditas de mulheres no Irã. 

Sem esquecermos de Narges Mohammadi, prêmio Nobel da Paz, apodrecendo na prisão iraniana de Evin, por seus combates contra a opressão das mulheres e pela promoção dos direitos humanos para todos.

Cineastas, mulheres... Outro dia me surpreendi ao ver num debate dos canais do Youtube três universitárias brasileiras falando do Irã, mas se esquecendo de que era uma teocracia onde as mulheres perderam todos seus direitos. Tive vontade de deixar uma mensagem, comecei a escrever, mas apaguei... (por Rui Martins)

domingo, 3 de dezembro de 2023

O HAMAS É COMPATÍVEL COM A ESQUERDA REVOLUCIONÁRIA?


 Num longo artigo, mostramos como a esquerda brasileira reage diante da estrutura político-religiosa de Israel chamada sionismo e como vê o futuro para os palestinos. Ainda no texto seguinte, sobre judeus de esquerda, vimos a rejeição ao conceito de Estado étnico, no qual se entra só por herança sanguínea. Essa posição é tão marcante que esse grupo propõe mesmo a recriação de Israel como um Estado nacional sem exigência étnica. Com que forma? De Estado único no qual convivam judeus e palestinos ou na existência de dois Estados vizinhos, um palestino e outro judeu?

Essa seria a garantia de paz duradoura entre esses dois povos? Alguém me alerta: nessas duas hipóteses Israel sairá perdendo, mesmo sem guerras, porque os palestinos têm uma bomba natural mais potente – a bomba demográfica! 

Mas isso é uma visão muito pessimista e negativa, alguém argumentará. Vivendo juntos ou próximos com os mesmos direitos, eles começarão a se misturar como aconteceu no Brasil entre os brancos escravocratas e os descendentes dos antigos escravos negros, depois da abolição da escravatura e de todos os brasileiros serem iguais, sendo punida toda forma de racismo.

E com o velho testamento bíblico na mão, outro poderá argumentar: só poderá dar certo porque judeus e palestinos descendem de Ismael e Isaac, que eram meio-irmãos, pois o pai era o mesmo – o já idoso Abraão. Essa é uma história bem antiga, de uns 4 mil anos, quando ainda não se falava em casamentos entre jovens príncipes e princesas, mas numa sociedade em que havia escravas e seus proprietários eram pai e mãe centenários.

Sendo verídica essa história, poderíamos ser otimistas e imaginar o reencontro familiar entre os netos e filhos desse patriarca. Porém, briga de família a três pode complicar na hora de repartir a herança e a mesma fonte bíblica fala em guerras sem fim dos judeus com cananeus e filisteus, todos parentes, circuncisos e descendentes do mesmo bisavô e tetravô! E com o passar do tempo, turcos, libaneses, egípcios e iranianos poderiam ser considerados primos.

Tudo se complicou quando todos, exceto os judeus, no Oriente Médio passaram a seguir Maomé, surgindo o islamismo. Mesmo assim, restaram duas vertentes islâmicas: a dos sunitas e dos xiitas, nem sempre amigas. O Irã é xiita e a Arábia Saudita, sunita.

Depois da queda do Xá Reza Pahlevi, o Irã xiita se tornou uma rigorosa teocracia islâmica, seguidora da shariah, o conjunto de leis que codifica todas as exigências religiosas públicas e privadas dos muçulmanos, adotada com graduações diferentes pelos países muçulmanos. Nem todas as regras da shariah são compatíveis com os direitos humanos, como liberdade de expressão, liberdade de crença, liberdade sexual, de gênero e liberdade das mulheres. No Irã, a teocracia é repressiva principalmente contra as mulheres, havendo assassinatos cometidos pela polícia por simples questão de vestimenta. O cinema vive também sob censura.

Os sunitas são considerados mais tolerantes, porém inspiraram alguns movimentos considerados extremistas como Al-Qaeda, Estado Islâmico, Boko Haram e Hamas.


A esquerda deixou de ser laica?

Será que meus amigos de esquerda estão certos? Nestas semanas de guerra de Israel contra o Hamas, todos os textos aos quais tive acesso, cujos autores são de lideranças reconhecidas de esquerda, me deixam a impressão de estar havendo uma confusão involuntária - ou será voluntária, estratégica, temporária? - entre o povo palestino e o movimento Hamas, a ponto de se declararem enfaticamente defensores do Hamas contra Israel. 

Será que a partir de agora todo esquerdista tem de ser obrigatoriamente a favor do Hamas, mesmo se a esquerda e, não é de hoje, vem criticando o sionismo e a política israelense com relação aos palestinos? Depois de termos dado bastante espaço à questão do sionismo israelense, parece ser a vez de se discutir o caráter religioso fundamentalista islâmico do Hamas. O conceito laico da esquerda deixou de ser básico e se tornou superado?

O tema é bastante complexo porque além do caráter laico dos grupos palestinos que deram origem à OLP, Organização pela Libertação da Palestina, inclui também a questão da utilização de atos terroristas na conquista do reconhecimento das reivindicações palestinas.

O primeiro desses atos, que provocou divisões dentro da esquerda internacional, foi o atentado nos Jogos Olímpicos de Munique em 1972. O último atentado, o do 7 de novembro, com a invasão de Israel e o assassinato de centenas de civis desarmados, voltou a provocar divisões, chegando a romper a união das esquerdas francesas.

É bom lembrar que, em 1948 tanto a URSS, quanto os socialistas e os comunistas franceses, apoiaram a criação de Israel. O apoio socialista estava ligado ao partido trabalhista no poder em Israel e os kibutz israelenses eram considerados um tipo de experimentação socialista.  O apoio da URSS durou pouco e o apoio aos árabes foi seguido pelos comunistas europeus.

Nos anos 70, por influência dos católicos de esquerda e dos franceses anticolonialistas, surgiu o apoio à causa palestina, seguido pelos maoístas.

Com o fim da guerra do Vietnã, os comunistas e a esquerda francesa focaram seu apoio em Yasser Arafat. Mitterrand e os socialistas continuavam defendendo a existência de Israel e Arafat acabou reconhecendo a existência de Israel e aceitou a coexistência de dois Estados. Mas o governo de direita em Israel e a Intifada fortaleceram a esquerda pró-palestina que denunciou Israel como Estado opressor e de apartheid, denunciando também o sionismo.

A situação tomou novas feições no fim dos anos 1980, quando os maiores apoiadores dos palestinos contra Israel eram o Hezbollah e o Hamas, dois movimentos islâmicos fundamentalistas. O fim do laicismo ou secularismo na luta pelos palestinos provocou divergências entre os socialistas e comunistas franceses, mas vinha sendo tolerado diante do eleitorado árabe muçulmano gerado pela imigração. Entretanto, a brutalidade do atentado do Hamas do 7 de outubro dividiu a esquerda francesa e voltou à atualidade a questão do movimento palestino estar nas mãos do islamismo fundamentalista, cujas dimensões vão além da causa palestina e representam, em muitos aspectos, um retrocesso no movimento da descolonização palestina.

O avanço do islamismo fundamentalista entre os países árabes, que chega a ter influência mesmo na atual Turquia, e mesmo em países africanos saídos da colonização, preocupa por representar uma marcha à ré na questão dos direitos humanos e na própria concepção de uma sociedade socialista. Diante da teocracia islâmica no Irã, com aplicação da lei da shariah, com punições físicas e pena de morte, ocorre um nítido recuo na liberalização feminina, uma rejeição total da questão dos gêneros com a não aceitação da homossexualidade, entre outras tantas exigências religiosas.

Enfim, uma bem argumentada demonstração da incompatibilidade do movimento Hamas com os objetivos revolucionários marxistas é feita pelo órgão da União comunista trotskista, Luta Operária, mostrando não existir para a esquerda só a opção primária “quem é contra Israel tem de ser a favor do Hamas”.

O trecho conclusivo de um longo artigo parece bem demonstrativo da pressa com que a esquerda brasileira aderiu aos islamitas: 

“O Hamas procura de fato um compromisso com o imperialismo e o reconhecimento deste, mesmo que fale em destruir a “entidade sionista” de Israel. Ele defende os interesses da burguesia palestina e as suas políticas estão em desacordo com os interesses dos palestinos oprimidos, cuja revolta ele teme. Pelo contrário, é com estes que os revolucionários devem estar unidos na luta contra o imperialismo. Apoiar o Hamas por do oportunismo, assimilando-o à “resistência legítima” de todo um povo, fazendo do reconhecimento do sentimento palestino de opressão nacional o apoio à política nacionalista de uma organização religiosa reacionária como o Hamas, equivale a abdicar de toda a política de classe”.

(por Rui Martins) 

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

DA DITADURA AO TRÁFICO DE DROGAS: O PAPEL DO FUNDAMENTALISMO RELIGIOSO


 A imprensa brasileira sentiu os avanços, o namoro seguido de casamento entre a extrema-direita, uma parcela dos militares e setores fascistas adormecidos com o evangelismo populista a partir do Golpe de 1964? Não! O fenômeno era muito interno e se desenvolveu primeiro dentro dos seminários, reforçando-se pouco a pouco entre os chamados fiéis, provavelmente para não provocar reações e nem alertar setores importantes dos meios de informações criadores de opinião.

Naquela época, há 70 anos, o evangelismo levado dos EUA para o Brasil não tinha nenhuma expressão, era mesmo insignificante com seus 5% da população, a maior parte nas camadas populares dos pentecostais, congregações cristãs e Assembleias de Deus. Ainda existia a expressão protestante ligada ao movimento da Reforma, às igrejas luteranas, calvinistas, presbiterianas, que chegavam ao Brasil com seguidores tendo feições de classe média que enviavam seus filhos às universidades.

As primeiras igrejas pentecostais foram criadas
por missionários estadunidenses há mais de cem anos.

Se alguém perguntar aos colegas da mídia de hoje se ouviram falar no reverendo Boanerges Ribeiro, de Santos, certamente responderão pela negativa e poderão citar o pastor Milton Ribeiro, também ligado a Santos, ex-ministro da Educação, obrigado a se demitir por corrupção no ministério. Nada a ver!, pois Boanerges Ribeiro foi escritor, teólogo, presidente do Supremo Concílio e  um dos últimos intelectuais importantes do protestantismo brasileiro, na mesma linha do gramático Eduardo Carlos Pereira.

Mas enquanto no norte do Brasil a denominação evangélica dos pentecostais se expandia, só com o Golpe de 1964 os presbiterianos deixaram a neutralidade em matéria de política para se aliarem aos militares e passarem a reforçar a campanha contra o comunismo, inclusive com perseguições, repetindo o que já ocorrera nos EUA na chamada guerra fria.

É dessa época a Batalha da Maria Antônia, o  choque dos estudantes antiditatura da rua Maria Antonia, sediados na FFLCH, com os da Universidade Mackenzie, pró-ditadura. Entretanto, embora Boanerges fosse presidente do Mackenzie - a reitora era Esther de Figueiredo Ferraz -, isso nada tinha de religioso, era apenas político, entre estudantes de esquerda e de direita, entre constetadores do regime e apoiadores do golpe militar. Porém, nos meios evangélicos, como contou o reverendo Caio Fábio d Araújo Filho, numa entrevista à Veja, em agosto de 2022, havia nos presbiterianos uma "boagernização", que consistia na perseguição aos seminaristas e pastores de esquerda e inclusive  com sua entrega aos militares.

A batalha campal da Maria Antônia
terminou com o antigo prédio da FFLCH
destruído com o uso de coquetéis molotov. 

Esse quadro foi tomando forma e crescendo nos meios evangélicos, não só presbiterianos, e se revelou com força e muita influência nos anos que precederam à eleição de Bolsonaro, a ponto de terem sido os evangélicos seus principais eleitores e de atualmente terem posição marcante no Congresso, inclusive com uma bancada fundamentalista, a chamada banca da bíblia. 

Nesta altura, é o momento de afirmar ter havido reportagens e mesmo livros denunciando a cumplicidade do governo bolsonarista com os evangélicos, porém não um acompanhamento constante dessa união espúria pela grande imprensa. Entretanto, não se pode ignorar ter sido a BBC Brasil a mídia com mais enfoques no papel dos evangélicos durante o governo Bolsonaro. 

Diante da importância desse grupo religioso em crescimento, continua dando destaque com o repórter João Fellet e agora com a jornalista Letícia Mori, como na recente reportagem sobre o ramo evangélico existente entre os traficantes, que dominam as favelas de Parada de Lucas e Vigário Geral. A estrela de Davi foi espalhada nas entradas das favelas, criando o chamado Complexo de Israel. É o narcopentecostalismo, como denominam alguns pesquisadores, surgindo com força. (por Rui Martins) 


sábado, 28 de outubro de 2023

POLÍCIA MORAL DO IRÃ MATA OUTRA JOVEM POR RECUSAR O VÉU ISLÂMICO: A CEGUEIRA RELIGIOSA É O PIOR DE TODOS FANATISMOS!

Esta adolescente de 16 anos foi impiedosamente assassinada pelo inadmissível, inaceitável, grotesco, repulsivo, abominável e aberrante governo que sustenta o fanatismo religioso no Irã.

Não há desculpa nem qualquer justificativa aceitável para se torturar mortalmente uma jovem só porque não quis enfear-se utilizando o hijab, aquele véu islâmico que esconde os cabelos e torna sua usuária um ser assexuado, sem espontaneidade, sem alegria, sem vida, sem nada: uma réplica de zumbi. 

Quanta paúra do diabo interior esses sacerdotes aiatolados nas trevas medievais têm da liberdade sexual!!! 

O crime pelo qual Armita Geravand recebeu a pena capital foi viajar de metrô sem o véu ridículo. Os primatas da polícia moral tanto a espancaram que já saiu em coma da estação. A morte cerebral chega após passar quatro semanas hospitalizada.

Vale lembrar que pelo mesmíssimo crime foi morta em setembro Mahsa Amini, de 22 anos, esta à maneira do DOI-Codi brasileiro: estava numa prisão quando sofreu os espancamentos. 

Uma grande luta de nossos tempos é entre a civilização e a barbárie.

Regimes hediondos como o do Irã ajudam a perpetuar a desumanidade igualmente extremada de Israel, porque ambos igualam-se no absoluto desprezo pelos que têm convicções diferentes, estando sempre prontos para exterminá-los sob quaisquer pretextos.

Então, não nos podemos alinhar com  um nem com o outro sem trairmos a essência do que somos: seres humanos empenhados em construir uma sociedade igualitária e livre. 

Cabe-nos, portanto, os devolvermos para o passado odioso ao qual pertencem, pois, quando finalmente livrarmos a humanidade da exploração do homem pelo homem, eles serão sempre um corpo estranho, destoante, em meio à civilização. (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

ENTRE O CALCULISMO DESUMANO DO HAMAS E A LOUCURA SINISTRA DE ISRAEL NÃO EXISTE ESCOLHA POSSÍVEL: SÃO AMBOS EXECRÁVEIS!

O Hamas parece ter percebido que. praticamente imbatível no plano militar, Israel é facilmente levado a vulnerabilizar-se, expondo seu absoluto desprezo por todos que não façam parte do que os judeus acreditam ser: o povo escolhido pelo único Deus.

Onde foram buscar tamanha sandice? Em Deuteronômio 7:7-9:
"...o Senhor amou vocês por causa do juramento que fez aos seus antepassados. 
Por isso ele os tirou com mão poderosa e os redimiu da terra da escravidão, do poder do faraó, rei do Egito. 
Saibam, portanto, que o Senhor, o seu Deus, é Deus; ele é o Deus fiel, que mantém a aliança e a bondade por mil gerações daqueles que o amam e obedecem aos seus mandamentos"
Foi, certamente, a chamada ilusão compensatória: eram fracos, sacos de pancada dos poderosos, por eles dominados  e amiúde escravizados, mas desprezavam seus opressores e não buscavam alianças com outros fracos. A lorota religiosa era seu ópio, que lhes dava força para seguirem adiante.

Não por acaso, se destacariam numa das mais ignóbeis formas de assegurar a sobrevivência material: a usura. Sem remorsos, porque não viam as vítimas de sua atividade predatória e desumana como iguais, mas sim como seres inferiores, já que não desfrutavam das graças do verdadeiro Deus.

Este é o principal motivo de suas desgraças através dos tempos. Sua soberba, sua insistência em jamais se misturarem à população dos países que os acolhiam, fazendo questão de deles se diferenciarem nos costumes e mesmo no  visual, conduzia inevitavelmente à sua estigmatização. 
E, por conta dessa existência conflituosa, foram capazes de produzir grandes pensadores, artistas e cientistas, pois as contradições impeliam à busca do conhecimento e à lapidação dos talentos.

Quando se tornaram o povo escolhido  (não por Deus, mas sim pelas sete irmãs do petróleo!) para servirem como cães de guarda dos interesses capitalistas no Oriente Médio, seu lado pior foi aflorando cada vez mais: pela primeira vez sentiram-se suficientemente poderosos para imporem aos povos desprezados por Deus o mais impiedoso olho por olho, dente por dente. 

E quantas bestialidades vêm cometendo desde 1948, incapazes de refrearem seus delírios de onipotência! Tornaram-se simplesmente os campeões absolutos de transgressões aos direitos humanos e aos direitos dos povos, piratas da modernidade, vivendo de acordo com os próprios desígnios e desmoralizando completamente a ONU e os próprios fundamentos da vida civilizada.

O Hamas conseguiu identificar o calcanhar de Aquiles de Israel: fazer questão de sempre responder às agressões que sofre com uma contundência extremamente maior. Então, desencadeou uma ofensiva de ações abomináveis, apostando em que Israel a elas reagiria com monstruosidades como o cerco da Faixa de Gaza e a expulsão de mais de 1 milhão de palestinos da terra que habitam. 
Não há a mais remota dúvida sobre quem seja o vilão maior nesta questão: é e sempre será o Estado terrorista, que pratica os piores crimes contra a humanidade todas as vezes em que sente-se desafiado.

Israel, paradoxalmente, faz lembrar os nazistas, que, quando um dos seus era atacado nas nações por eles ocupadas, se vingava executando uma ou mais dezenas de civis escolhidos a esmo.

Assim como a Faixa de Gaza mais parece uma aberrante repetição do Gueto de Varsóvia: as devastadoras represálias israelenses  entregam o quanto Israel absorveu de seus inimigos de outrora!  

E o Hamas? Poderá até atingir seu objetivo, mas o fará chafurdando na mais repugnante crueldade fundamentalista. Nada, absolutamente nada, justifica o massacre indiscriminado de civis, incluindo crianças, idosos e todo tipo de indefesos!

E não é só a Israel que atinge com sua armadilha hedionda: também a esquerda se vê obrigada à difícil escolha entre o calculismo desumano dos fundamentalistas de Alá e a loucura sinistra dos carniceiros de Jeová.

Embora a grande imprensa brasileira seja tendenciosa ao extremo neste conflito, nós, da esquerda revolucionária, não podemos ceder à tentação de endossar a barbárie do Hamas, caso contrário perderemos o direito de nos apresentarmos como defensores da civilização, da igualdade entre todos os seres humanos e da liberdade plena. 

Isto tudo, aliás, eu já escrevia num artigo de 2009, A tragédia do Oriente Médio. Releiam e perceberão que cai como uma luva para o episódio atual.  

Se há alguém nesse imbróglio com quem podemos nos identificar, são apenas os civis de ambos os lados que estão sendo covardemente feitos de alvos da insanidade de combatentes indignos. Eles sofrem desmesuradamente em função de fantasmas do passado e da idiotia religiosa que continuam determinando as decisões dos dirigentes fundamentalistas e sionistas. 

Já os litigantes só merecem nossa mais profunda repulsa.  (por Celso Lungaretti) 
Filmaço de 1977 do Richard Attenborouhgh, o diretor de Gandhi.
É uma superprodução com elenco estelar, sobre os planos infalíveis
dos senhores da guerra e os morticínios inúteis que deles decorrem.  

sexta-feira, 22 de setembro de 2023

SERÁ QUE FINALMENTE O ATRASO RELIGIOSO SERÁ SUPERADO E O DIREITO DAS MULHERES AO ABORTO SERÁ GARANTIDO?


 Nesta sexta-feira, dia 22/09, começou finalmente no plenário do STF o julgamento a respeito da legalização da interrupção voluntária da gravidez. A ministra Rosa Weber, atual presidente do Tribunal e que se aposenta em breve, deu voto favorável ao direito da mulher interromper a gravidez até a décima segunda semana de gestação. Ato contínuo, Barroso, o próximo na linha sucessória, pediu para levar o debate para o plenário físico. 

A tendência do tribunal é seguir a lógica que lhe tem marcado nos últimos anos, neoliberal na economia e mais propenso a liberdades sociais e individuais em questões ditas éticas. Caso se derrube a absurda criminalização do aborto, o Brasil entrará em sincronia com os principais países do mundo, onde a interrupção já é legalizada há décadas, e, sobretudo, com muitos países vizinhos da América Latina, que vem avançando na despenalização há alguns anos. Será uma grande vitória para as mulheres brasileiras e para a sociedade em geral. 

A ação do STF visa corrigir flagrante abuso estatal ao invadir a privacidade feminina no que diz respeito à reprodução e à sexualidade. Criminalizar o aborto é transformar o útero da mulher em propriedade do Estado à serviço de uma ideologia religiosa anacrônica e disfuncional. Por puros argumentos religiosos e pseudo filosóficos, obriga-se alguém a levar a cabo uma gestação absolutamente indesejada, muitas vezes com consequências terríveis para a mulher que não raro se encontra em situação de vulnerabilidade econômica e de saúde. 

Não que a decisão pela interrupção seja fácil. Nunca é! Mas não cabe ao governo definir de antemão o que a mulher x ou y terá de decidir, mas o processo deve ser um opção esclarecida e consciente da própria pessoa. 

O Congresso Nacional, dominado por homens e por fundamentalistas religiosos, nada fez em prol da despenalização do procedimento, mesmo diante da flagrante inconstitucionalidade da proibição, assim, há total justificativa que o processo seja pautado no STF e que se saía de lá com o fim de tal medida absurda. 

É preciso forte mobilização social, sobretudo das mulheres, para a vitória da descriminalização, principalmente porque, a depender do governo Lula, nada aconteceria, haja visto a vexatória posição do AGU - Advogado Geral da União- que defendeu ser o debate exclusivo do Congresso. Lula e o PT nunca decepcionam, estão sempre do lado errado da história. (por David Emanuel Coelho) 

quinta-feira, 21 de setembro de 2023

FUNDAMENTALISMO RELIGIOSO ATACA EDUCAÇÃO SEXUAL NA BÉLGICA

 


N
ão devo estar enganado: ouvir uma ministra da Educação dizer "não se quer incitar os jovens à pornografia, nem ensinar a se masturbar e nem se incitar a mudar de gênero" é algo inédito. E isso não num lugarejo brasileiro dominado pelos evangélicos, mas na capital belga, Bruxelas, numa entrevista coletiva para a imprensa. É algo quase inacreditável!

Porém, era necessária essa clareza diante da onda de desinformação e complotismo desfechada por católicos fundamentalistas e islamitas diante da decisão do governo de destinar duas horas anuais nas escolas, nas classes de adolescentes, para palestras de professores baseadas na Iniciativa Evras, Educação para a Vida Relacional, Afetiva e Sexual.

Em palavras mais objetivas, a iniciativa Evras, que já existia de maneira opcional desde 2012, foi oficializada nas escolas públicas e privadas, cujas aulas já começaram, num total de duas horas anuais, reservando-se a parte à orientação sexual aos alunos de 12 a 16 anos. Essa decisão, chamada impropriamente de curso sexual, já provocou incêndios em oito escolas, atacadas durante a noite por grupos de religiosos.

De acordo com os jornais belgas que entrevistaram professores e orientadores sociais, os pais de crianças em idade escolar vivem um clima de conspiracionismo criado pelas redes sociais, semelhante ao destinado nos EUA e Brasil a fins políticos, com a proliferação de fake news. Uma delas distorce informações da OMS, Organização Mundial da Saúde, para assimilar a Iniciativa Evras como incitação à pedofilia. Como ocorria no Brasil, circulam temas negacionistas e conspiracionistas ligados à crise do Covid, guerra na Ucrânia, manipulação da mídia. mudança climática e o wokismo - um neologismo francês derivado do inglês woke, acordado e desperto, apropriado pela extrema-direita como símbolo de degradação cultural e social.

A novidade nessa crise é a participação da comunidade islâmica, cujo conservadorismo vai além dos católicos integristas e tem dificuldade de se integrar numa sociedade laica.

Na França. existe mesmo uma certa resistência dos islâmicos na integração de suas filhas nas escolas públicas, onde ostentam sua diferença religiosa com as outras alunas pelas roupas. Por isso, na atual volta às escolas, o Ministério da Educação proibiu o uso da abaya, uma espécie de manto ou casaco largo e amplo, usado sobre a roupa ou uniforme das alunas, cobrindo todo o corpo até os pés.

A associação Direito dos Muçulmanos entrou com um recurso contra tal proibição em nome do risco de discriminação e limitação dos direitos, alegando também ser uma roupa tradicional. O Conselho de Estado francês rejeitou o recurso, considerando que essa roupa era uma afirmação religiosa dentro de escolas públicas, quando a lei laica proíbe sinais religiosos manifestados de maneira ostensiva. E rejeitou a desculpa de ser traje tradicional.

Na Bélgica, o Conselho belga de coordenação das instituições islâmicas manifestou-se contra a Iniciativa Evras "por intervir na liberdade religiosa e no direito dos pais guiarem a educação de seus filhos conforme suas crenças".

Por coincidência, os mesmos jornais que publicavam as reações religiosas, atentados e tentativas de atentados na Bélgica contra o ensino sexual nas escolas, lembravam o assassinato, há um ano, pela polícia iraniana, da jovem Nahsa Amini.

A jovem de 23 anos tinha sido presa por não portar corretamente nos cabelos o chale ou véu, hijab, exigido pelos imãs islamitas iranianos.

Resumindo, tanto a orientação sexual nas escolas belgas, como roupas religiosas como abaya ou hijab, proibidas nas escolas francesas, mas obrigatórias no Irã e na maioria das famílias islamitas, imitadas pelas pentecostalistas brasileiras de vestidos longos e chales cobrindo os cabelos, mostram a dificuldade das religiões aceitarem a mulher como ser humano livre igual ao homem. A crença da superioridade masculina defendida pelas religiões ainda é forte na Europa, reforçada pelas crenças vindas com a imigração de países onde a mulher continua sendo considerada um ser inferior. (por Rui Martins) 


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