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segunda-feira, 5 de junho de 2023

A REPÚBLICA LULALIRA NO CORAÇÃO DO CAPITALISMO APODRECIDO

 Ufa, passou! A reforma ministerial do Lula foi aprovada ao preço de R$1,9 bilhões em emendas parlamentares e assim, haja licitação viciada para as obras que virão de tais emendas. É para comemorar ou par(a)lamentar? 

A democracia burguesa é isso e não podia ser diferente, posto que é uma forma política opressora que dá sustentação a uma relação social igualmente opressora. É a corrupção intrínseca de um sistema cuja base primária é a corrupção (o roubo do tempo de trabalho/valor pelo capital). 

Lula acha isso coisa normal e argumenta “isso é a democracia, e temos que conversar com quem não gosta da gente.”  Conversar ou pagar? Denunciar ou conciliar? Conservar o status quo ou se rebelar? Reformar algo para que tudo continue na mesma, ou revolucionar?   

Como diz Celso Lungaretti, será que vamos ter que esperar a revolução para depois do fim do mundo? 

Lula, como socialdemocrata burguês que é, adora jogar esse jogo; Bolsonaro também jogou esse mesmo jogo, só que com o nome de orçamento secreto

Mas há um perdedor nesse jogo: o trabalhador abstrato que é explorado na extração de mais-valia e na cobrança de impostos que serve para remunerar regiamente a todos os poderes da Res Publicae (parlamento, judiciário e executivo) e a eterna corrupção com o dinheiro dito público que tudo financia em matéria de sustentação da política.  

Não há boa política, mas simplesmente, modo opressor institucional, com cosméticas variações doutrinárias, algumas claramente anticivilizatórias, outras mascarando a opressão nela contida.   

Passo a citar uma conversa ilustrativa da inconsciência social sobre a própria opressão.  

Ao ouvir uma explanação minha mais elaborada sobre o que representa a República para um interlocutor lulista mais erudito, daqueles que defendem a esquerda empresarial estatizante; que considera que as estatais são suas; que o patrão estado devolve a apropriação indébita de extração de mais-valia e os pesados impostos que são cobrados; e que usa o argumento do fantasma da volta da direita fascista para a aceitação dos políticos reformistas, ouvi de uma lulista mais simples, empregada doméstica negra, que perguntou-me: 

“por que você fala mal do Lula, que criou o bolsa família; o programa minha casa minha vida; que defende os direitos dos trabalhadores e a luta dos sindicatos; defende os negros e mulheres, como eu, etc.?” 

Respondi procurando ser conciso num tema complexo:  

“contesto o Lula porque sou contra a existência da exploração ao trabalhador, que somente pode ser erradicada com a superação do próprio trabalhador e do trabalho! Diferentemente de Lula, defendo outro modo de produção e outra organização social, sem trabalhadores!” 

Ao que a minha interlocutora ainda mais confusa, me retorquiu:  

“como assim, sem trabalhadores! Você quer que o alimento venha até a sua boca sem fazer esforço? Que a gente fique em casa dormindo sem fazer nada? Cê tá ficando doido?” 

Pacientemente, tentei lhe explicar que trabalho não é sinônimo de atividade humana em interação com a natureza para prover o nosso sustento e a nossa vida, mas uma categoria capitalista, e percebi que ela não sabia o que era nem interação, e nem categoria capitalista, e me apressei em explicar de modo mais didático:  

“Maria, interação com a natureza é o esforço que todos nós fazemos para produzir algo, seja um objeto ou seja um serviço, como o que você faz em troca do seu salário.” 

A indagação continuou:  

“mas Dalton, como podemos viver sem o salário, se é com ele que eu compro os alimentos que levo para o meu filho em minha casa na favela e pago o aluguel do meu barraco?” 

 Expliquei:  

“Maria, você ganha pouco, e mal dá para alimentar a sua família e pagar o aluguel; mora numa favela onde as ruas de acesso são esburacadas; onde o carro de lixo não entra e se amontoam os dejetos num local próximo; quando você adoece não tem plano de saúde e fica na fila do SUS; a escola dos seus filhos servem mais como forma de alimento do corpo do que como ensinamento cultural; e outras mazelas que você conhece muito bem. Eu proponho que a gente acabe com isso!!!” 

Ela disse: “Mas Lula não tem nada com isso! Ele luta contra isso”

Continuei meu esforço primário de conscientização: 

“Maria, você já ouviu falar que as aparências enganam? Lula é um operário, que defende os direitos operários, mas ele não quer que o operário se liberte da escravização que é ser operário. Quer apenas que as coisas melhorem, e as coisas não vão melhorar enquanto nós não abarmos com a exploração do próprio operário, que só pode acontecer quando não mais existirem operários assalariados e acabarmos com o dinheiro, que é o instrumento da exploração." 

Maria: “Agora é que você complicou a minha cabeça. Como é que vamos fazer alguma coisa sem o dinheiro? Eu só faço a faxina da casa onde trabalho com o detergente que é comprado com dinheiro; o Zé, aquele mulherengo, que era meu marido e paga a pensão do meus filho (com atraso), só ganha dinheiro da cerâmica quando tem trabalho e a empresa vende tijolos comprados com dinheiro. Como é que você quer acabar com o dinheiro? Só se faz alguma coisa com dinheiro!!” 

Expliquei: “Maria, não existe um só grama de dinheiro nos detergentes e nos tijolos. O dinheiro se mete na produção desses objetos, que se transformam em mercadorias, como um intruso para escravizar a maioria e reproduzir o próprio dinheiro. Quando nós compreendermos isso, vamos nos libertar da escravidão e vamos produzir tudo que você não tem. Principalmente, uma casa.”  

Nesse momento ela sorriu esperançosa e me disse em tom de brincadeira e de quem já queria encerrar aquela conversa complicada:  

“Pois, Dalton, dê um jeitinho disso chegar logo, que lá em casa quando chove eu passo a noite acordada com medo do alagamento da rua e de dentro de casa. Rsrsrsrsrsrsrs.” 

O texto ora reproduzido de uma conversa real e simplória até, mas necessária, com uma pessoa de pouca instrução e com uma trabalhadora sofrida, representa a dicotomia verdadeira, sem sofisma, entre a ilusão reformista vendida pelos partidos da esquerda institucional que chegam ao governo burguês até serem deles expelidos por desgaste inevitável, e a necessária superação do modo de relação social capitalista ora em franca decomposição.  

Seria o Lula o sujeito de tal superação, com o comportamento civilizado e democrático burguês que pratica como pretensa antítese do fascismo genocida insensível ao drama humano, que se aproveita ciclicamente e eleitoralmente (ou como autocratas) das deficiências próprias a tudo o que incorpora o sistema capitalista por eles defendidos, como se fosse a esquerda institucional gerenciando mal a administração da falência capitalista a grande culpada?!  

Considero que estamos atingindo um momento mundial do ocaso de uma relação social baseada num critério de mediação social de troca de mercadorias (valor e dinheiro) que se desenvolveu durante milênios de escravização, com os aperfeiçoamentos que a consciência moral humana pôde promover e desenvolver, mas que entrou em colapso, inclusive agora com danos ecológicos que podem se tornar irreversíveis à nossa existência. 

Tal colapso ocorre justamente por conta da evolução tecnológica e incompatibilidade entre a forma de produção social (mensuração do tempo de trabalho a partir da produção de mercadorias por outra mercadoria denominada dinheiro/valor) e o seu conteúdo conceitual (caráter lógico-matemático insensível e oportunista da reprodução do próprio dinheiro/valor tendo por base a necessidade de consumo humana,) e já não serve como modo de satisfação social e manutenção minimamente aceitável, e evidencia a opressão sócio-política do seu modelo.
   
Lula e Lira (o Lulirala) são faces de uma mesma moeda, e é por isso que sabem negociá-la.  

Nós, os emancipacionistas, rejeitamos tais moedas de trocas, e lutamos por outro tipo de relação social, sem o “me engana que eu gosto”.  (por Dalton Rosado)


quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

O COMBATE À CORRUPÇÃO NÃO PASSA DE UMA BANDEIRA DA DIREITA – 2

 (continuação deste post)
Obviamente, o grosso do dinheiro que subvenciona campanhas eleitorais somente pode provir de financiadores externos (os capitalistas interesseiros da macroeconomia) e empresários que prestam serviços os mais variados ao Estado (grandes obras, principalmente). 

É um convite à corrupção: políticos fazem leis corporativas (e são pagos por empresários e impostos cobrados ao povo por tal desserviço à população), licitações são viciadas e superfaturadas, etc.  

Diz-se comumente que, caso não houvesse corrupção com dinheiro público, todos os males sociais estariam superados. 

Esta é mais uma falácia do pensamento conservador que, diante da evidência de uma sociedade incapaz de promover a prosperidade social linear, tenta desviar para outro lado a discussão sobre a essência dos problemas sociais (e, agora, ecológicos). 
É por tudo isto que o discurso de combate à corrupção não passa de uma bandeira da direita, como já dizia o Paulo Francis mais de meio século atrás. 

O mal da sociedade da mercadoria é a sua própria dinâmica segregacionista e contraditória. que caminha para o colapso num tempo histórico determinado (diferente do tempo da existência de um ser humano), que ora se inicia.

A contradição entre forma (tecnologia aplicada à produção social que desequilibra a relação de trabalho provocando o desemprego estrutural (hoje há mais desemprego do que criação de novos emprego) e conteúdo (necessidade crescente de aumento da massa global de valor, que ora decresce por incapacidade de expansão) constitui-se no ponto irreversível da saturação do modelo capitalista de mediação social, agora também debilitado pela crises sanitárias e ecológicas concomitantes.

As crises sociais de forma e conteúdo, ora em curso, demonstram fartamente a incapacidade do capitalismo de conviver com o isolamento sanitário necessário e com os danos ecológicos que acarretam as alterações climáticas por força do aquecimento global.

Isto ocorre porque o capital não existe para satisfazer necessidades humanas, mas apenas se utiliza delas para existir e produzir mercadorias e transformar toda a vida em mercadorias, num utilitarismo asqueroso que cada vez mais se evidencia.  

Neste sentido é que os governantes impõem a abertura genocida das atividades produtivas e comerciais e não podem cumprir os acordos internacionais de redução das emissões de CO² na atmosfera.

É mais uma contradição explícita que demonstra a necessidade urgente de mudarmos os parâmetros das discussões sociais, pois estas têm de transcender as discussões imediatistas sobre a próxima eleição (questão da corrupção aí inclusa preponderantemente) e sobre quem tem aptidões para melhor gerenciar uma crise que nem de longe se restringe à questão do gerenciamento.  

A discussão desfocada sobre o combate à corrupção nos leva a uma análise mais aprofundada dos dois modelos fundamentais da estrutura carcomida do Estado: 
— o modelo liberal clássico (modernamente defendido por Milton Friedman), que quer diminuir o tamanho do Estado e acredita que a mão invisível do mercado tudo equilibra, daí pregar a redução dos impostos e combate à corrupção como se fossem a solução infalível dos problemas;
o modelo keynesiano de Estado forte e protetor, estatizante e indutor do crescimento econômico (ou seja, defensor de mais capitalismo, a corrupção original e básica).

É evidente que os adeptos de tais modelos de discussões fogem como o Drácula da cruz quando, pensando fora da caixa, propomos um modelo de produção social sem a mensuração da forma-valor e seu famigerado critério reducionista da viabilidade econômica. 

Raciocinando-se sob a égide da forma-valor e seu reducionismo, muita coisa passa a se justificar como mal menor, ou seja, começa-se a admitir, p. ex.:
— a restrição de direitos previdenciários (iniquidade que
rachou o PT em 2003, com os inconformados indo formar o Psol); 
— o enquadramento da responsabilidade fiscal imposta aos países da periferia capitalista (os ricos podem emitir moeda sem lastro à vontade);
— a produção alimentícia em escala que mata a agricultura familiar;
— um salário-mínimo de fome e a redução de direitos trabalhistas como trunfos na guerra concorrencial de mercado;
— a aceitação da poluição de rios, mares, subsolo, atmosfera, como males necessários à sustentação da vida, mas que mata a própria vida; 
— a manipulação político-eleitoral pelo poder econômico como mal menor do que a ditadura, etc.

O presente ano eleitoral é um momento dos mais propícios para fugirmos da mesmice e irmos mais fundo nas discussões sobre por que não votar! (por Dalton Rosado)
Na voz do Gomes Brasil, mais uma composição do Dalton.

quarta-feira, 10 de março de 2021

CONCILIAÇÃO DAS ELITES EM MARCHA: SEM SURPRESA NENHUMA, LULA EVIDENCIA QUE VAI REPETIR SEU PAPEL HISTÓRICO DE 2002

Como em 2002, Lula promete que será um bom menino
C
omecei o dia lendo que os dirigentes petistas aconselharam Lula a evitar atos e palavras contundentes, passando a interpretar o papel de um estadista, de forma a aproveitar a mais gritante vulnerabilidade do Jair Bolsonaro. 

O mito que nunca foi nada além de um mico, em suas aparições públicas, aparenta quase sempre ser um doido recém-evadido do hospício (e o genocídio decorrente de seus surtos psicóticos anticientíficos durante a pandemia a cada dia convence mais brasileiros de que ele é, na verdade, um doido que, para infelicidade geral da nação, esqueceram de colocar no hospício). 

Em discurso e entrevista coletiva na manhã desta 4ª feira (10), Lula seguiu à risca a recomendação, chegando a arrastar-se aos pés do empresariado, como em 2002: 
"Se ele quer dinheiro, tem que gostar de mim. Se quer ver o povo consumir, tem que gostar de mim. (...) Eu não entendo esse medo, eu era chamado de conciliador quando presidia. Quantas reuniões fazia com os empresários? Dizia: 'O que vocês querem? Então, vamos construir juntos'."
 Má escolha de verbo, construir lembra Odebrecht

A performance teria sido perfeita caso ele houvesse resistido à tentação de proclamar em tom apoteótico que ficara provada sua inocência, quando, na verdade, a decisão do ministro Edson Fachin foi apenas de considerar que os processos contra ele deveriam ter tramitado em Brasília e não em Curitiba, daí tê-los anulado e devolvido à 1ª instância. 

Como o que impedia Lula de disputar eleições era a Lei da Ficha Limpa, tal obstáculo foi removido quando as condenações viraram pó e lhe restituíram condição de réu ainda não julgado. Demagogia à parte, foi só isto que aconteceu.
Vão trocar a foto e reimprimir?

Não recuo um milímetro do que sempre escrevi: se todos os presidentes, governadores e prefeitos do Brasil respondessem a processos rigorosos por corrupção, os inocentes seriam, quanto muito, um em cada cem.

Utilizou-se contra Lula um inusitado rigor e os grandes empresários com os quais seu governo se acumpliciou não precisaram de nenhum DOI-Codi para cantarem como passarinhos. Sem nenhum tapa ou choque elétrico, apenas para saírem logo da cana, confessaram até que assaltavam as lancheiras dos colegas no primário. E  devolveram os lanches...   

Caso Lula tivesse superado seu lado mitômano, jamais pretenderia ter sido vítima vítima "da maior mentira jurídica contada em 500 anos de história". Por que não falar, simplesmente, a verdade? 

Seria esta: "Meu governo apenas atuou segundo o figurino de todos os governos do Brasil, recorrendo à corrupção para conseguir aprovar seus projetos no Legislativo e para financiar suas campanhas políticas. Se não prenderam todos os outros governantes deste século e dos séculos passados, mas tão-somente a mim, violentaram escandalosamente a igualdade de todos perante a lei".

Temo que morrerei sem ver um político profissional fazendo tal confissão. Mas, fiel ao rumo que escolhi para minha vida em 1967, continuarei proclamando sempre a verdade, que é revolucionária, e não lorotas convenientes. Devo ter nascido no país errado para adotar tal postura, mas a manterei até o fim.

De resto, fica cada vez mais evidente que Lula será o grande trunfo do sistema para o lugar do Bolsonaro, cujo governo derrete a olhos vistos. A contagem regressiva chegará ao fim em semanas, o mais tardar em meses. É isso ou o caos.
Estão programando a reprise?

Mas, impeachments demoram demais e tanto a crise sanitária quanto a depressão econômica precisam de respostas urgentes, caso contrário o extermínio de coitadezas atingirá proporções inimagináveis.

Só vejo uma saída: os que botaram o Bolsonaro no Palácio do Planalto tirarem-no de lá interditando-o por insanidade mental ou forçando-o à renúncia. Nos bastidores da política brasileira, como os bem informados sabem muito bem, os realmente poderosos sempre arrumam um jeito de viabilizar esses passes de mágica.

Difícil mesmo seria arrumarem uma desculpa para a entrega imediata  do poder ao Lula. Mas, o objetivo principal –evitar que o Brasil exploda– poderia ser alcançado com Mourão cumprindo o restante do mandato, à frente de um governo de salvação nacional do qual o Lula fosse o principal destaque e cartão de visita.

As prioridades, obviamente, seriam:
— reverter  todas as lambanças cometidas por Bolsonaro na área de saúde, fazendo com que nela voltassem a vigorar unicamente os critérios científicos;
— realizar em regime de urgência total a vacinação em massa contra a covid;
— criar opções para a sobrevivência dos desempregados, dos excluídos, dos vulneráveis e dos mais pobres em geral, rudemente golpeados pela pandemia.

Ou muito me engano, ou será assim que a ópera bufa acabará, com a conciliação de sempre, as elites desarmando bombas-relógios prestes a explodir e nada realmente se resolvendo. 

Na arte de empurrar as crises com a barriga e ir adiando o inadiável mediante gambiarras institucionais, a classe dominante brasileira é uma virtuose. (por Celso Lungaretti) 
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