"...Entrei num partido pela primeira e única vez na vida por acreditar que havia chegado o momento de tentar fazer a passagem das dinâmicas de pressão popular à intervenção institucional.
Eu deveria ter sido o candidato a governador de São Paulo pelo Psol na eleição de 2014, mas na última semana antes da nominação, um conflito estourou no interior do partido e acabei por abandonar o projeto.
Só fui me candidatar em 2022 a deputado federal, num momento em que acreditava que tudo deveria ser feito para impedir um segundo mandato de Jair Bolsonaro. Acabei me tornando suplente de deputado.
Desde que o Jair Bolsonaro assumiu o poder, juntei-me a quem lutou sem trégua contra seu governo e seu projeto. Montamos grupos de ação a partir da pandemia, organizando manifestações e outras formas de ações públicas.
Juntos com ex-ministros e intelectuais de todos os espectros políticos, criamos a Comissão Arns de defesa de direitos humanos.
Levamos Jair Bolsonaro aos tribunais internacionais por genocídio indígena. Com deputados do Psol e contra a cúpula do próprio partido, protocolamos um dos primeiros pedidos de impeachment.
Foi uma roubada que passou em minha vida
Como um dos resultados, em 2021 acabei por precisar ser acolhido pelo governo francês em um programa de auxílio a acadêmicos em perigo.(trecho da introdução que Vladimir Safatle escreveu para a reedição de seu livroA esquerda que não teme dizer seu nome)
.
Observação: A semelhança da passagem do Vladimir Safatle pelo Psol com a minha é tanta que decidi lembrar uma roubada na qual entrei em 2012.
Eu estava em evidência nas redes sociais por haver lançado um livro marcante e pela minha atuação na luta para evitar que o escritor Cesare Battisti fosse entregue à Itália berlusconiana, então um candidato a prefeito me convidou para ingressar no partido e candidatar-me a vereador.
Pensando em como seria bom ter 18 assessores custeados pela Câmara Municipal investigando escândalos de todo tipo para depois eu denunciá-los em plenário e na imprensa, aceitei.
Mas, com uma ressalva: como eu não fazia trabalho de massa, só poderia ter êxito se o partido alavancasse a minha candidatura, tal qual agia o PCB no passado (os dirigentes escolhiam quem eles consideravam mais útil naquele momento e criavam condições para que fosse ele o eleito).
Desde o primeiro momento o que eu tinha ou julgava ter apalavrado com o candidato não foi cumprido. Houve uma baita demora para liberarem os fundos de campanha e uma demora maior ainda em me enviarem as listagens de eleitores residentes na capital, para enviar-lhes material de campanha.
Burguesa, com certeza, ela é. Democracia, nem tanto...
Como as pesquisas revelassem que o Psol conseguiria eleger um único vereador (o mais votado da legenda), o candidato da base municipal travava uma briga de foice no escuro com o indicado pelos dirigentes nacionais.
Cada lado tratava de impulsionar o seurepresentante e de dificultar a vida dos concorrentes mais promissores.
Logo que foram anunciado os resultados do pleito, anunciei meu desligamento do partido. Enojado.
Já cansei de denunciar que a imprensa burguesa alavanca artificialmente a eleição presidencial de cartas marcadas de 2026, cujos candidatos favoritos estão entre os mais medíocres que vi desde que comecei a me interessar pela política:
--Lula, dócil refém do Congresso reacionário, com 37% das intenções de voto, segundo o DataFolha;
--Flávio Bolsonaro, herdeiro do pior presidente de todos os tempos, com 34%; e
--alguns insignificantes empenhados apenas em se divulgarem (nenhum alcança o patamar de 5%, então o máximo que pode almejar é o ganho de musculatura para as eleições vindouras ou a obtenção de uma vaguinha no ministério ou ainda no secretariado de governadores e prefeitos)
O pior é que nossa esquerda entra direta no jogo do inimigo, aceitando ser pautada pelos principais veículos da indústria cultural, até porque aposta todas as suas fichas no anticomunista Lula e este só conseguirá reeleger-se numa disputa polarizada entre ele e o filho número um do ex-presidente número menos um.
Nesta sexta-feira 13, o UOL publica um exercício de futurologia fajuta (montado a partir de citações do José Roberto de Toledo e da Thais Bilenky), segundo o qual Lula se prepara para a eleição mais disputada da nossa História, por causa dos efeitos da agressão estadunidense ao Irã sobre a economia brasileira.
Isto com um semestre de antecedência! Nem sequer temos a certeza de que, aos 81 anos de idade, Lula não sofrerá problemas de saúde que impeçam sua participação no pleito.
E há sempre a possibilidade de que algum candidato dispare na dianteira e fique bem à frente dos adversários, definindo a eleição já no primeiro turno ou tornando favas contadas sua vitória no segundo turno.
Vale também lembrar que é em agosto, após as férias escolares e com o início do horário eleitoral gratuito, que o povaréu começa a escolher em quem votará.
Afora a incerteza sobre se a próxima eleição superará as realmente disputadíssimas, como:
--a de 1989, na qual Fernando Collor venceu o segundo turno com 53,03% dos votos, contra os 46,97% do Lula;
--a de 2014, na qual Dilma Rousseff, a gerentona trapalhona, conquistou 51,64% dos votos, enquanto o tucano de voo rasteiro Aécio Neves ficou em 48,36; e
--a de 2022, cujo resultado final foram os 50,90% do Lula superando os 49,10% do Jair Bolsonaro.
Não há coincidência nenhuma no fato de que, com o ambiente político radicalizado, os dois primeiros fizeram governos desastrosos e Lula se socorre no personalismo para desviar a atenção de que está sem rumo no espaço, fazendo uma gestão econômica que tende a gerar, no próximo quadriênio, outra recessão aguda.
No último governo petista, além de a Dilma acabar sendo impichada, sua reeleição pavimentou o terreno para Jair Bolsonaro conquistar a faixa presidencial em 2018. Será que, caso o Lula se reeleja, o raio vai cair de novo no mesmo lugar?
E que isto importa neste instante para o sofrido povo brasileiro? A nossa esquerda deveria estar representando os superexplorados pelo capitalismo, ao invés de desperdiçar esforços com escaramuças eleitoreiras que a lugar nenhum nos levarão (por Celso Lungaretti)
Certa vez o Lula disse que o Leonel Brizola pisaria no pescoço da própria mãe para conquistar a presidência do Brasil. Esqueceu de informar qual político profissional não o faria.
Sempre constatei que os ditos sujos (ôps, quero dizer cujos), salvo raríssimas exceções, são os incorrigíveis praticantes de umapoliticalha sórdida.
E que a democracia burguesa não passa de um jogo de cartas marcadas, que no curto, médio ou longo prazo, acaba sempre favorecendo o capital.
É exatamente isto que depreendemos de uma notícia publicada há alguns dias pelo Estadão.
De tão acostumado à impunidade do seu clã, o senador Flávio Bolsonaro se descuidou e cometeusincericídio: anotações sobre a situação nos Estados, por ele esquecidas após uma reunião na sede do Partido Liberal, foram encaminhadas por algum muy amigoao jornalão.
Tomara que esta foto do Pollon vire presságio
Grafadas com sua própria mão, elas revelam que o deputado federal sul-mato-grossense Marcos Pollon está pedindo R$ 15 milhões como compensação para não ser candidato ao pleito desde ano.
A desculpa do Flávio Bolsonaro foi uma das mais esfarrapadas de que já tomei conhecimento: ele teria feito a anotação para não esquecer de avisar o deputado que essafalsa(!) acusação sobre ele estava circulando por aí.
Quem acreditar nessa patranha compra até terreno na lua.
E, já que estamos falando de um rebento da Famiglia Bolsonarone, ele nem deveria poder participar da eleição presidencial depois de trombetear que, uma vez eleito, livrará a cara do homicida culposo chamado Jair e do traidor da pátria chamado Eduardo. Confessou a intenção de delinquir... (por Celso Lungaretti)
Excluídos os ditadores que usaram a faixa presidencial mas foram empossados pelas tropas e não pelos eleitores, o Brasil jamais teve presidente da República pior nem mais nocivo para os governados do que Jair Bolsonaro.
Insisto em considerá-lo uma miniatura do Adolf Hitler, só se diferenciando do führer nazista pela escala do morticínio que causou: algo entre 350 mil e 400 mil brasileiros foram vítimas fatais da pandemia de covid graças à sua sabotagem alucinada da vacinação, pois sob um presidente mentalmente equilibrado se salvariam, segundo concluíram instituições do mundo civilizado cuja credibilidade é incontestável.
O que equivale a dizer que Bolsonaro é o maior exterminador de brasileiros de todos os tempos.
Mesmo assim, o levantamento doDataFolhadivulgado neste sábado (2) aponta que só 48% dos brasileiros são capazes de ter a única posição aceitável face a tal abominação, ou seja, querem vê-lo preso; e 46% não passam de gado tangido pelos berrantes da desumanidade e da barbárie, a ponto de preferirem vê-lo solto para continuar defendendo os privilegiados e desgraçando os coitadezas.
E isto no momento em que ele e seu clã chegam ao fundo do poço em termos morais, mancomunados que estão com um governo estrangeiro que tenta passar como um trator sobre a soberania brasileira, recorrendo à mais vil chantagem para impor-nos seus caprichos.
Então, somos obrigados a constatar que 46% dos brasileiros não sabem sequer que traidores da pátriasão o contrário de patriotas.
Curvando-me à evidência dos fatos, admiti que o capitalismo, ora em estado terminal, levará de roldão a democracia burguesa:
"...a minoria de privilegiados já não conta apenas com a força bruta para sufocar os anseios da maioria de explorados. Eventualmente ainda recorre a golpes de estado (...), mas consegue também conquistar maioria no Executivo e no Legislativo pelo voto popular, mesmo quando prega ostensivamente mentiras cabeludas e desumanidade extremada.
Uma coisa é certa: a democracia já não nos serve mais como trincheira, pois é cada vez maior a facilidade com que o inimigo ocupa tal bastião".
E a pergunta que lancei em seguida continua em pé, sendo o que realmente resta discutirmos neste momento:como revertermos a nova barbárie ultradireitista?
Se não encontrarmos a resposta correta, estaremos nos condenando a mais mil anos de retrocesso civilizatório, como o ocorrido após a queda do Império Romano.
Isto, claro, se a nossa espécie não for extinta pelas alterações climáticas e caos econômico que nos golpearão com força total a partir da segunda metade deste século. (por Celso Lungaretti)
Pesquisa do Instituto Quaest, de intenção de voto para o segundo turno da eleição presidencial do ano que vem, nos ajuda a refletir, embora haja partido de uma premissa duvidosa, a de que Lula será um dos finalistas.
Seu governo errático, emparedado pelo Congresso, cometendo erros crassos e mostrando não ter sequer ideia de como reverter a acachapante rejeição do eleitorado, pode, sim, soçobrar de vez antes do primeiro turno.
Mas as pesquisas do Quaest o apontam como empatado com o Bozo (41% x 41%) num cenário e vencedor nos sete outros:
-- por 44% x 34% contra Eduardo Bolsonaro;
-- por 43% x 39% contra Michelle Bolsonaro;
-- por 43% x 33% contra Ronaldo Caiado;
-- por 42% x 33% contra Romeu Zema:
-- por 41% x 40% contra Tarcísio de Freitas;
-- por 40% x 38% contra Ratinho Jr.; e
-- por 40% x 36% contra Eduardo Leite.
Se o quadro não permite que Lula durma tranquilo (pois dá para perceber que não irá além do que tem agora e os adversários, sim, decerto o farão), o palhaço sinistro deve estar tendo piores pesadelos. Além dos aproximados 99% de chance de estar inelegível em 2026 (e uns 75% de estar vendo o sol nascer quadrado), é, dos sete adversários do Lula, aquele com maior índice de rejeição. Só continua insistindo por teimosia.
Tarcísio, contando com os privilégios de governador do mais rico e poderoso estado da Federação, tem tudo para disparar na ponta quando a corrida for pra valer. Não excluo sequer a possibilidade de ele liquidar a fatura já no primeiro turno.
O bananinha Bolsonaro deveria começar desde já a buscar um entendimento com a Michelle, pois ela está bem na frente dele e tem potencial para aumentar a vantagem. Dos dois, quem tem chance de usar a faixa presidencial é ela.
Com Romeu Zema, Ratinho Jr. e Eduardo Leite, o filho 03 da Famiglia Bolsonaro integra o quarteto dos azarões do páreo, os quais, na verdade, estão apenas se credenciando para ministros do futuro governo.
Michelle, que tende a receber muitos votos femininos e evangélicos, poderá até se dar bem, caso não seja destruída nos debates eleitorais. É bom o Tarcísio não a subestimar, pois ela já surpreendeu os círculos políticos frustrando os planos do Jair, que favorecia explicitamente o Eduardo como seu provável substituto no pleito.
Ronaldo Caiado, o comandante da UDR na verdadeira guerra contra o MST que teve lugar no Pontal do Paranapanema (SP) em fins do século passado, não ganhará absolutamente nada no voto, mas se a extrema-direita flertar novamente com um golpe, é o único da turma, Jair Bolsonaro incluso, que se enquadra no perfil machão tão ao gosto dos fascistas.
Como desconhece a história deste país, o gado do 08.01 apostou num galinha morta ao invés de tentar a sorte com um galo de briga que, no mínimo, não teria fugido vergonhosamente da rinha. Azar dos bovinos, sorte nossa.
De resto, ao observar esse catado de feios, sujos e malvados, sem qualquer representante da esquerda combativa, fico torcendo para que algum valente do nosso lado ouse entrar na campanha como anticandidato, até para, por contraste, evidenciar ainda mais a putrefação dos insaciáveis políticos profissionais.
Temos de aproveitar todas as brechas para questionar os limites da democracia burguesa, um jogo de cartas marcadas contra os idealistas e a favor de quem já possui muita grana e/ou poder. (por Celso Lungaretti)
Nunca é demais estabelecermos as diferenças cosméticas de dois modelos políticos (ditaduras e democracias burguesas) que, para muitos, parecem ser os únicos possíveis. Trata-se, contudo, de um engodo colossal que vem sendo introjetado no inconsciente coletivo através dos tempos.
Não são nem únicos, nem antagônicos entre si, pois têm uma mesma identidade básica que se constitui como negatividade social intrínseca: a relação social sob a forma-valor. Contudo, a identidade de conteúdo de relação social de base permanece imperceptível como se fosse invisível à visão coletiva.
Foi o que ocorreu, p. ex., nas últimas eleições altamente polarizadas. Quem rejeitasse qualquer das opções colocadas eleitoralmente era tido pela totalidade dos adversários como contribuinte do sucesso do rival. Uma camisa de força ideológica-eleitoral.
Pela diferença apenas de forma, esquece-se da identidade de conteúdo fundamental presente nas duas opções ofertados ao eleitor: o mesmo modo de produção e apropriação da riqueza socialmente produzida. É a questão de forma prevalecendo sobre o conteúdo.
Como nos interrogatórios policiais, os ditadores barbarizam e os presidentes simulam compaixão.São complementares.
As ditaduras e as democracias burguesas são espécies de formas políticas da relação social do gênero capitalismo (este último sendo o conteúdo). As diferenças existem apenas no que tange à forma de acesso ao poder e de administração do Estado sempre submisso ao capital:
— as ditaduras são fechadas num círculo de poder tutelado pela força das armas, que escolhe quem se perpetua ou é sucedido como governante ditatorial;
— as democracias são reguladas pelos filtros políticos das instituições com governantes ciclicamente eleitos pelo voto popular, o qual, no entanto, é objeto de manipulação econômica e ideológica, mediante, sobretudo, a lavagem cerebral da mídia burguesa e outros instrumentos da moderna robótica da informação;
— na ditadura, o governante manda e seus capachos obedecem, mas todos se subjugam às ordens do capital;
— na democracia burguesa, um manda no executivo que divide seu poder com o legislativo e o judiciário, mas todos se subjugam ao poder econômico.
Ambas as formas políticas têm, portanto, um ponto em comum: prostram-se aos pressupostos do capitalismo, que manda nas duas e lhes dá ordens ditatoriais.
Enfim, a forma política é dependente da forma econômica, a qual, por sua vez, é ditada pelo totalitarismo de uma lógica escravista e segregacionista por excelência.
Podem-se estabelecer diferenciações meramente administrativas entre as duas formas no trato com a população, de vez que:
— nas ditaduras burguesas a corrupção, o autoritarismo, a prepotência, o corporativismo opressor, o clientelismo, o medo submisso, as perseguições, e a injustiça são mais presentes por conta do mutismo imposto aos subjugados e graças à impunidade de que os poderosos desfrutam;
— nas democracias burguesas imperam todos os males acima referidos, só que suavizados pela possibilidade de exposição mais aberta de todas estas mazelas e por um certo temor da insatisfação popular, sempre mitigado por promessas de melhoras sociais que nunca chegam.
Os democratas burgueses sentem-se sensíveis aos apelos populares e se frustram com sua impotência para solucionarem os problemas sociais, por conta da incompatibilidade dos seus desejos com a lógica vazia de sentido humano do mecanismo de priorização do valor ao qual são submetidos.
Os ditatoriais, adeptos da disciplina e obediência hierárquica governamental como requisitos para o progresso, agudizam o sofrimento social calando na porrada os que contestarem as suas orientações, que, sob as rédeas do capital, terminam sempre por evidenciarem-se injustas e desumanas.
É que, na base destes conceitos políticos. vige um processo de exclusão social ditado pela forma-valor, expressa no dinheiro e nas mercadorias. Trata-se do mecanismo pela qual se acumula a riqueza empresarial capitalista, de modo autofágico e excludente dos que produzem tal riqueza.
O desgaste destes dois modelos perante a população é inevitável, justamente porque eles dão sustentação política a uma base de relação social estabelecida sob uma equação matemática irresolúvel (o valor é uma mensuração numérica abstrata que expressa um quantitativo de tempo de trabalho abstrato com valor médio ditado pela economia de produção de mercadorias que se digladiam entre si de modo autodestrutivo) e em marcha acelerada para a inviabilização definitiva.
Neste sentido, a discussão sobre superioridade de um ou outro modelo passa longe da questão principal: como superarmos o modo de relação social capitalista e estabelecermos outro que aproveite devidamente o saber tecnológico adquirido pela humanidade, colocando-o a serviço de emancipação social dos seres humanos.
Chega de vermos trabalhadores e patrões se engalfinhando numa luta inglória pelo dinheiro, quando já estão presentes as condições para se proporcionar a todos os seres humanos uma existência gratificante!!
Até quando continuaremos a olhar para o pêndulo do relógio que oscila de um lado para o outro sem sair do lugar???(por Dalton Rosado)
O que caracteriza o poder nas sociedades humanas são seus modo de produção e de distribuição de tal produção. Nas sociedades cuja relação social se caracteriza pela mediação sob a forma-valor, o capital é o verdadeiro poder; o poder político apenas serve ao capital.
A democracia burguesa nada mais é do que a forma política de garantir sustentação ao capital, mesmo que o governante político queira dar ao Estado uma feição humanista; a ditadura burguesa, totalitária na sua essência mais recôndita, serve ao capital obedecendo às ordens da sua lógica mais insensível (e, por isto, bem mais cruel e desumana).
A esquerda anticapitalista, investida no poder burguês, representa uma contradição no objeto, de vez que deverá cumprir os preceitos de uma ordem jurídica constitucional elaborada para determinar os mecanismos capitalistas de mediação social e, mais do que isto, agir de modo a resolver os problemas econômicos do capital.
Ou seja, a esquerda se obriga a ajudar a conservar o que diz e deveria combater .
Os bem-intencionados governantes políticos de esquerda dirão que é melhor para o povo ter um governo social-democrata burguês do que uma ditadura.
Eu diria que isto é uma verdade apenas em sentido estrito, mas não o é num sentido amplo.
Os sociais-democratas burgueses, como Lula, agem para tentar humanizar o capitalismo sob a perspectiva do seu desenvolvimento, parecendo até uma versão esquerdista do crescimento do bolo para depois dividi-lo. (desculpa esfarrapada com que o Delfim Netto tentava justificar o arrocho salarial sob a ditadura militar).
Não deveriam, portanto, usar as insígnias anticapitalistas, pois isto corresponde a uma heresia.
A verdade é que Lula, desde o começo, mostrou-se um social-democrata e foi guinando cada vez mais à direita, seja:
— quando expulsou os marxistas do PT (sempre falou mal dos comunistas) ou lhes exigiu rendição explícita ao lulismo; — quando defendeu o sindicalismo de resultados,não questionando a propriedade dos meios de produção, focado que estava apenas na pretensa melhora salarial do trabalhadores; — quando criou um partido de trabalhadores a partir da institucionalidade democrático-burguesa e de uma relação capital/trabalho consensual na qual, no melhor estilo capitalista, estabelece-se uma relação de disputa de interesses classistas num mesmo campo, de vez que são, ao mesmo tempo, antagônicos e convergentes na busca pelo valor (dinheiro e mercadorias), tendo, portanto, o mesmo objeto; — quando acredita na solidez dos cânones burguesas de divisão e respeito aos poderes institucionais republicanos (doutrinariamente burgueses desde o iluminismo e revolução francesa), o que o tornou confiável perante tais poderes, quais sejam o mercado, governantes dos países que detêm a hegemonia burguesa mundial, forças militares mais evoluídas no conhecimento da geopolítica mundial e da importância do Brasil nesse contexto, etc.;
— quando defende o interesse empresarial multinacional, afirmando que "se fosse presidente, a Ford não teria deixado o Brasil" e aceitando o lucro do capital financeiro dos bancos como forma de melhorar a receita tributária do imposto sobre a renda nos moldes capitalistas; — quando concilia com os partidos políticos de direita e de centro para garantir a governabilidade burguesa e todo o poder político que assim aufere e proporciona aos que lhe são fieis (afinal o Estado burguês é rico em sinecuras e salários advindos de suas tetas, extraídas dos impostos cobrados ao povo já exaurido pela extração de mais-valia), etc.
Sim, Lula e qualquer pessoa são livres para pensar e criar convicções sobre o que pensam ser melhor para o povo, seja ele de sua própria nação (os patriotários costumam ver apenas como merecedores de direitos os seus nacionais, numa expressão de xenofobia clara) ou do mundo.
Mas há um direito natural e um senso de justiça moral e ética que se sobrepõe ao pensamento individual e doutrinário; o capitalismo afronta o direito natural.
O capitalismo se constitui como uma lógica desumana, segregacionista, escravista, socialmente destrutiva e que agora, tendo atingido o seu limite interno de expansão ditado por suas contradições internas e predação ecológica causadora do aquecimento global, inviabiliza-se.
É por isso que a social-democracia, em sentido amplo, termina por assemelhar-se politicamente aos insensíveis governantes de direita no resultado final, quando se vê obrigada a garantir a funcionalidade estatal deficitária e negar os benefícios sociais e salariais da maioria do povo. O estado, sob qualquer forma política, é opressor.
O capital é autodestrutivo e, no seu suspiro de moribundo, tenta arrastar para o abismo tanto a nós como a todos, sejam mal ou bem-intencionados.
Hoje entendo o porquê de Lula ter expulsado do seu partido a mim (fundador do PT no Ceará e um dos coordenadores da primeira vitória do PT numa capital, que originou a experiência da Administração Popular) e ao grupo que eu pertencia e pertenço (o Crítica Radical).
Contudo, mais do que isto me deixar ressentido, considero que tal episódio representa uma honrosa e natural consequência de divergências profundas de concepções revolucionárias.
São muitos os valorosos companheiros que, por estratégia política circunstanciais e nos estertores da ditadura militar no Brasil, ajudaram a fundar o PT e dele se distanciaram ou foram expulsos por absoluta incompatibilidade de pensamentos e posicionamentos sociais.
Governar sob o capital significa sofrer desgaste inevitável, principalmente num país da periferia do capitalismo como o nosso. Daí os percalços de governantes de diferentes orientações ideológicas:
— os militares saíram pela porta dos fundos em 1985;
— Boçalnaro, o ignaro, direitista selvagem, saiu vergonhosamente pelo aeroporto rumo à meca do capitalismo mundial, com medo de ser criminalizado e preso como genocida;
— Dilma Rousseff acabou impichada porque explodiu a insatisfação popular no seu segundo mandato, com inflação alta, PIB baixo e desemprego estrutural crescente, etc.
Para ficar apenas num exemplo das nossas dificuldades de país de economia fraca (ainda que sejamos importantes estrategicamente e do ponto de vista da riqueza material, com exportação de alimentos e minérios de baixo valor agregado), pagamos taxa de juros de 10% ao ano em USD, o que representou mais de R$ 800 bilhões no exercício de 2021.
Ou seja, a cada brasileiro (velhos, crianças, pessoas inválidas, desempregados, etc.) coube um ônus de R$ 4 mil no ano retrasado, enquanto há países ditos ricos que pagam por suas dívidas taxas decrescentes de juros.
A discrepância salarial no Brasil é abismal. Um Juiz de 1ª instância ganha num mês o que um operário ganha num ano e meio. Tal fenômeno decorre de existir no Brasil desemprego estrutural; uma cultura advinda da exploração colonialista e escravista; e da baixa competitividade dos nossos manufaturados na guerra concorrencial de mercado.
Resumindo: somos pobres em riqueza abstrata e é o povo quem paga por isto.
Lula, por mais bem-intencionado que seja, depende de uma imunização governamental somente possível de ser obtida com alta popularidade, e vai enfrentar as dificuldades próprias de uma depressão econômica nacional e mundial severa.
Os que o aplaudem hoje serão os mesmos que o apedrejarão amanhã, caso não entregue as melhoras prometidas.
Não torço pelo pior, mas a racionalidade da análise conjuntural me informa que por aí, além dos aviões de carreira, vêm chuvas e trovoadas.
Feliz ano novo, se possível. (por Dalton Rosado)
Composição do Dalton em memória da Gal. Canta o Gomes Brasil.
Durante a recente eleição presidencial, diversas contestações foram disparadas da direita e da esquerda contra a minha posição de negar o voto a qualquer dos dois candidatos que disputaram o 2º turno.
Os eleitores doBoçalnaro, o ignaronão cansavam de repetir o mantraLula é ladrão!.
Os do Lula diziam que eu estava levando água para o moinho dos adversários e que, mesmo sem querer, estava perpetuando e legitimando o fascismo.
Nos dois posicionamentos havia meias verdades. Mas, como toda meia verdade é uma mentira inteira, ambos implicitavam não uma alternativa, mas sim uma falsa dicotomia.
Os arremedos de argumentações que pontificaram em quase todo o processo eleitoral ignoram uma questão central que não quer calar: será que não temos outras opções além de ditadura burguesa x democracia idem?
Sabemos que as ditaduras totalitárias representam a supremacia da vontade de alguns pretensos iluminados que decidem o que é certo e o que é errado arbitrariamente, sempre em benefício de uma casta social que as bajula e apoia em troca dos benefícios a receber.
Sob tais regimes de força, costumam ocorrer injustiças sociais e pessoais sem que os prejudicados tenham a quem recorrer: a própria máquina judiciária se submete à força bruta e mesmo o direito burguês é vilipendiado em nome de interesses escusos.
Os patri(di)otas que hoje clamam por uma intervenção militar em nome de uma falsa democracia, dividem-se em dois grupos:
1. os que auferem vantagens e privilégios econômicos da ordem burguesa e querem mantê-los ditatorialmente sem questionamentos; e
2. os que são iludidos com cantilenas fracassadas mundo afora de que a ordem e a disciplina militares são contributos para o prosperidade social linear e que todos os problemas sociais decorrem da corrupção com o dinheiro público.
Os primeiros são conscientes dos seus interesses, e geralmente não tomam chuva nem sol, apenas financiam e manipulam à distância o movimento fascista (alguns dão opiniões golpistas pelas redes sociais e vão para resorts caros desfrutar o dinheiro arrecadado dos crédulos seguidores.
Outros vão ao Catar alegadamente para levar pen drivese, já que estão lá, assistem aos jogos da Copa.
E há ainda os que mandam caminhões e pneus velhos para serem queimados nos bloqueios de estradas, com quaisquer birutas lhes prestando continência e cantando o Hino Nacional.
Já os iludidos pela retórica de picaretascomo Steve Bannon e Olavo de Carvalho não passam de inocentes úteis. Engrossam o cordão histórico dos que são gratos ao imperador por proporcionar-lhes pão e circo, ainda que escravizados. São mais vítimas do que algozes, ainda que aplaudam estes últimos.
As ditaduras burguesas são assim consideradas porque mantêm com mão de ferro as categorias capitalistas.
E fracassam porque uma das regras fundamentais do capitalismo é a produção de mercadorias para serem vendidas no mercado; quando há manipulação de resultados (custos de produção e privilégios monopolistas na guerra concorrencial de mercado), tudo termina mais rapidamente em desastre, com muitos mortos por não obedeceram aos que lhes é imposto.
As democracias burguesas são assim consideradas pela descentralização republicana de poderes do Estado e se subdividem emliberais clássicas, com oEstado mínimo; ekeynesianas, com Estado forte e intervencionista, mas servindo como estímulo à economia de mercado na vã pretensão de tornar o capitalismo bonzinho. Desconhecem (ou optam por conscientemente desconhecer) a natureza subtrativa e egocêntrica do próprio capital e seu caráter onívoro.
Em ambos os modelos o que prepondera é o poder econômico.
No primeiro caso o Estado fica centrado nas mãos de políticos totalitários mancomunados com empresários capitalistas estatais ou privados e força militar, mas todos submissos às ordens emanadas do próprio capital, o Deus que cultuam.
No segundo caso, o Estado cumpre função precípua de regulamentação política e de indução do capital em nome da tão repetida e almejada volta do desenvolvimento econômico, que nunca foi nem jamais será linear, e que agora, como nunca, está cada vez mais difícil de ser conseguida, mesmo para os países que se situam no topo do mundo econômico.
Traduzindo: as ditaduras burguesas e as democracias burguesas são espécies de um mesmo gênero: a relação social capitalista. O socialismo é apenas a versão keynesiana do capital, traduzido como Estado forte, leviatânico, que nunca pode ser confundido com o ideal comunista jamais experimentado.
As tentativas de socialismo como forma de transição para o comunismo floparam graças à preservação das categorias capitalistas que, após as revoluções marxista-leninistas, continuaram servindo de mediação para a relação social sob a forma-valor: foram cada vez mais desenvolvidas, ao invés de terem sido paulatinamente negadas.
Os contra-argumentos fraternalmente usados por companheiros meus por conta da minha negação do voto nas eleições de 2022 no Brasil, geralmente se circunscrevem, resumidamente, ao exemplo clássico segundo o qual para se atingir o topo da escadaria à pé é necessário subir degrau por degrau.
Como eu me nego a repetir o mito de Sísifo, prefiro trilhar outro caminho para atingir o topo da montanha. (por Dalton Rosado – continua neste post)
Outra composição do Dalton interpretada pela Graça Santos
A propaganda radiofônica de Goebbels e os discursos de Hitler mesmerizaram os alemães...
Quando nos debruçamos sobre os atos praticados na Alemanha contra judeus indevidamentecriminalizados como culpados pela miséria naquele país após a 1ª Guerra Mundial, vemos quão perigosa pode ser a verdade coletiva manipulada pela comunicação de massa.
O mundo vive um momento parecido com o da véspera das guerras mundiais, mas agora com maior gravidade ainda.
Àquela época apenas havia uma disputa de hegemonia entre os países mais desenvolvidos e influentes em razão da segunda revolução industrial. Existiam espaços de sobrevida, como de fato se evidenciou após a morte de 3% da população mundial na 2ª Guerra: ajudada pelo Plano Marshall, logo se daria a reconstrução industrial e urbana europeia, japonesa e de outros países, menos atingidos pera barbárie belicista.
Hoje o cenário é outro. Não se trata apenas de uma mera disputa hegemônica entre países (que também existe agora sob a forma de blocos de países), mas de uma luta pela sobrevivência diante de um capitalismo que se autodestrói pelos seus próprios fundamentos. Um câncer que está a metastizar-se sem que se possa atribuir a sua ocorrência a comunistas comedores de criancinhas.
...já o congênere brasileiro não chegou nem perto disto.
A concorrência de mercado, altar no qual se digladia o capital em busca de sua impossível reprodução na escala necessária, vai, cada vez mais, engendrando contradições autofágicas inconciliáveis.
Estas, além de autodestrutivas da forma de sua própria essência e natureza (dada a inviabilização do crescimento continuado do valor, cuja massa global, definhando, prenuncia seu próprio colapso, expresso na perda de representatividade de valor das moedas), causam a destruição de todo o tecido social, abrindo as portas para a barbárie.
As consequências sociais, materiais e ecológicas são tenebrosas.
As pessoas, em sua grande maioria, sentem as dificuldades econômicas numa sociedade na qual tudo se mede pela mercadoria dinheiro, que escasseia como substância advinda do processo de produção de mercadorias e tenta sobreviver artificialmente com a emissão de moedas sem valor.
Paradoxalmente, o dinheiro, deus da modernidade, é um ilustre desconhecido pelos que o adoram, seja na sua essência constitutiva ou como causa dos danos sociais imanentes a sua forma e lógica funcional, porque em geral a sua negatividade não é ensinada nas escolas. As pessoas sofrem pela falta daquilo que elegem como vital, sem conhecer a sua destrutibilidade social e autodestrutibilidade intrínseca.
Como não sabem por que e como devem superar este modo de relação social que ganhou corpo e forma política nos últimos séculos, a direção do descontentamento social é dirigida para a forma política, por vezes militarista-ditatorial, mais comumente com a alternância cansativa de projetos políticos tidos como conservadores ou progressistas, mas que funcionam sob uma mesma base lógica subtrativa e criminosa: o capitalismo.
Logo após assumir a presidência, Boçalnaro, o ignaro disse, enfático: "Eu tenho menos poder do que supunha". Descobriu que a força do seu mandato, repleto de militares, é menos forte do que supunha, e que o poder político é não só relativo na sua soberania de vontade, como também, e principalmente, submisso e subserviente ao capital a que serve.
É claro que o governante político governa dentro de prévio balizamento, apenas se equilibrando no poder político estatal conforme consegue ou não gerenciar a escassez nestes tempos de déficit econômico estatal.
Isto porque as regras de poder político são ditadas pela lógica funcional e impessoal do capital, que é, este sim, administrado pelos capitalistas, detentores que são do verdadeiro poder, o econômico, do qual se beneficiam socialmente (mas com data de vencimento), sob a lógica do dito cujo e a ela obedecendo como um escravo obedecia ao seu proprietário.
A frase dinheiro não aguenta abuso, tão repetida pelos empresários, denuncia tal submissão. O dinheiro dá ordens ao seu detentor empresarial.
Assim, o povo se digladia, fanatizado, entre projetos políticos que estão longe de ter capacidade de superação (e mesmo de querer promover a superação) de um modo de relação social que se tornou obsoleto, motivo pelo qual tem mais é de ser morto e sepultado.
Nada mais fanatizado do que uma parcela do eleitorado derrotado obstruir rodovias ou se postar à frente dos Comandos Militares do Exército, clamando por intervenção das Forças Armadas contra:
— ameaças comunistas inventadas no passado e nas quais ninguém continua crendo;
— corrupção (mas não a pior e mais descarada de todas, a atual do orçamento secreto);
— fraude eleitoral sem comprovação nenhuma; e
— hipotéticas restrições de liberdades sob o governo recém-eleito e ainda não empossado de Lula, cujo leque de alianças abarcou desde a direita moderada até a esquerda institucional, passando pelas várias nuances do centro, daí a inconsistência de tal previsão.
Na ausência de um norte correto, que aponte para a superação da causa mundial da queda social de poder aquisitivo e da falência do Estado no cumprimento das demandas sociais de suas incumbências constitucionais, bem como da indicação de alternativas à grave degradação social e ambiental dos dias presentes, cresce a perigosa barbárie do fanatismo e da intolerância.
Para a entropia em curso, contribui, ainda, a manipulação da fé por parte de charlatães que enriquecem às custas das contribuições dos fieis incautos, caldo de cultura de um fundamentalismo religioso totalmente retrógrado e temerário.
Não tenho dúvidas de que os militares não embarcarão nesta canoa furada de assumir um governo previamente falido, bem como não têm interesse em provocar uma tensão social capaz de conduzir o Brasil a uma guerra civil de consequências imprevisíveis.
O problema está momentaneamente adiado, até porque o desemprego estrutural e a queda renitente do PIB brasileiro não é uma marolinha: se continuarmos apelando para o uso administrativo de receitas velhas para a solução de problemas novos (ou antigos que agora se agudizam), esta corda esticada tende a arrebentar nos próximos anos. (por Dalton Rosado)
Letra e música do Dalton, interpretação da Graça Santos.